O RIO TOCANTINS E A TRISTE SINA DOS GOLFINHOS DE ÁGUA DOCE, OU FALANDO DO DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE

Boto-do-Araguaia

Na postagem anterior, quando falamos das usinas hidrelétricas do rio Tocantins, mostramos o drama vivido pelos botos do Araguaia, uma espécie de golfinhos de água doce recém classificada pela ciência, mas que, desgraçadamente, já está na lista de espécies seriamente ameaçadas de extinção. Até 2014, os cientistas imaginavam que os botos do Araguaia eram da mesma espécie de botos da Bacia Amazônica. Estudos mais detalhados mostraram que esses animais tem importantes diferenças físicas e, portanto, passaram a ser agrupados em uma nova espécie – a Inia araguaiensis

Os botos do Araguaia não estão sozinhos na sua luta pela sobrevivência – existem diversas espécies de golfinhos de água doce ao redor do mundo que enfrentam problemas semelhantes. A poluição das águas, a destruição de áreas florestais e o assoreamento da calha dos rios, a fragmentação dos seus habitats – como a construção de barragens de usinas hidrelétricas, e a redução dos caudais dos rios estão no topo da lista de problemas comuns. 

Um dos casos mais trágicos é o do baiji (Lipotes vexillifer), também conhecido como golfinho-lacustre-chinês ou ainda como golfinho branco. Esse magnífico animal tinha como habitat principal o rio Yangtzé, o maior rio da Ásia e também o rio mais poluído da China. Estudos científicos indicam que o baiji vinha habitando a bacia hidrográfica do rio Yangtzé há, pelo menos, 20 milhões de anos, mas não resistiu a uns poucos milênios de convivência com os seres humanos – a última vez que um baiji foi visto nas águas poluídas do rio Yangtzé foi em 2006. Várias expedições científicas foram organizadas desde então e saíram em busca de exemplares vivos do golfinho, mas nenhum animal foi encontrado. A espécie vem sendo considerada funcionalmente extinta. 

Outra espécie de golfinhos de água doce seriamente ameaçada é o golfinho-do-irrawaddy (Orcaella brevirostris) do Mekong, outro grande rio da Ásia. Esses golfinhos, que compartilham ancestrais comuns com as orcas, têm como características principais a cabeça redonda e um bico muito curto, lembrando muito as belugas. Eles podem atingir um comprimento de até 2,75 m e um peso máximo de 200 kg. A sua cor fica entre o cinza e o azul escuro, tendo a parte inferior em tons pálidos. Populações isoladas de golfinhos-do-irrawaddy são encontradas em rios e estuários desde o delta do rio Ganges, na Baía de Bengala, até o Norte da Austrália, incluindo as costas do Estreito de Malaca, áreas costeiras das Ilhas Indonésias nos mares de Java, das Flores, de Banda, de Timor e de Arafura, além de áreas costeiras no Golfo da Tailândia e do Sul do Mar Meridional da China.  

A espécie, que já foi abundante no rio Mekong e uma grande atração para os turistas que visitam a região, está reduzida a poucas dezenas de indivíduos. Entre as causas desse desaparecimento está a construção de grandes barragens de usinas hidrelétricas, a caça predatória, a morte de animais que se afogam ao ficar presos nas redes de pesca, “atropelamentos” por embarcações, encalhes em bancos de areia e também devido a intensa poluição das águas em muitos trechos do rio Mekong, especialmente pelo carreamento de resíduos de pesticidas agrícolas usados nas plantações de arroz. 

Outra espécie que está correndo seríssimos riscos é o golfinho-do-rio-ganges (Platanista g. gangetica), cujo habitat se estende por toda a bacia hidrográfica dos rios Ganges e Bramaputra, entre outros rios menores da Índia Oriental, do Nepal, do Butão e de Bangladesh, onde se encontra o grande Delta do Rio Ganges. Na época das Monções, período de fortes chuvas em toda a Ásia, esses golfinhos se aproveitavam da alta dos níveis dos rios e subiam as correntes até chegar aos sopés das montanhas das Himalaias. O susu, nome popular que a espécie recebe da população, costuma emergir em intervalos de 30 a 45 segundos para respirar na superfície; algumas vezes ele pode ser observado nadando com o “bico” para fora, lembrando muito os crocodilos da espécie gavial, encontrados em toda a Índia. Estes golfinhos podem ser encontrados em águas rasas com até um metro, mas parecem preferir mesmo as regiões com águas mais profundas. 

A intensa poluição nas águas do rio Ganges está tornando a sobrevivência do susu um grande desafio. O despejo de esgotos e efluentes industriais nas águas do rio tem reduzido os estoques de peixes e de pequenos crustáceos, os principais alimentos do cardápio dos golfinhos. A construção de diversas barragens ao longo de toda a calha do rio Ganges é um outro problema – estes obstáculos criam barreiras para o livre fluxo dos animais em suas rotas de migração e isola populações, um mal que leva à redução da variedade genética dos animais e prenuncia a extinção da espécie. As imensas ilhas de lixo flutuante com todos os tipos de resíduos também criam graves problemas para a navegação por ecolocalização – a grande quantidade de obstáculos na água transforma as imagens geradas em verdadeiros labirintos nos cérebros dos animais, o que resulta em estresse intenso. Caso não venham a ser tomadas medidas de controle da poluição das águas e adotadas políticas sérias para a gestão dos resíduos sólidos na bacia hidrográfica do rio Ganges, o destino dos seus golfinhos será o mesmo dos baijis do rio Yangtzé: a eminente extinção. 

Uma espécie que eu costumo incluir nessa lista, que não é exatamente um golfinho de água doce, mas que vive um drama semelhante, é a vaquita (Phocoena sinus), uma pequena espécie de cetáceo que habita a região do delta do rio Colorado e um pequeno trecho de águas salobras do Golfo da Califórnia. O rio Colorado, conforme já tratamos em uma série de postagens anteriores, é um dos rios com maior aproveitamento no mundo. Suas águas são altamente exploradas em sistemas de irrigação agrícola em uma extensa área do Sudoeste dos Estados Unidos. Como resultado desse uso intensivo, praticamente não chega mais água doce na região do Delta do rio Colorado, o que destruiu o habitat das vaquitas. A intensa pesca no Golfo da Califórnia completou o drama dos golfinhos – centenas de animais passaram a morrer presos nas redes de pesca. Numa contagem recente dos animais, os biólogos encontraram menos de 20 vaquitas. 

Todas as espécies de cetáceos modernos – baleias, golfinhos, botos e orcas, descendem de um ancestral comum: o Pakicetus. Esse animal extinto era do tamanho de um cachorro e apresentava algumas semelhanças com as lontras, com características terrestres e aquáticas. O primeiro fóssil do Pakicetus foi encontrado no início da década de 1980 no Paquistão (por isso o nome Pakicetus ou cetáceo do Paquistão). Na análise do fóssil, os cientistas rapidamente perceberam a semelhança com o crânio dos cetáceos modernos, especialmente quando se observava a região da cavidade do ouvido. Esses animais evoluíram para uma vida totalmente aquática no antigo Mar de Tétis, um oceano que existiu originalmente entre a Laurásia Gondwana, os supercontinentes ancestrais do planeta Terra. 

Com a fragmentação e reconfiguração dos continentes, os ancestrais das diversas espécies de cetáceos foram encontrando seus novos nichos ecológicos e se adaptando para as novas condições de vida. No caso dos botos do Araguaia, sua história evolutiva está ligada a um grupo de animais da mesma espécie dos rios da Bacia Amazônica que acabou isolado na bacia hidrográfica dos rios Tocantins e Araguaia. Ao longo de milhões de anos, essa espécie seguiu por um caminho evolutivo diferente, surgindo assim uma espécie diferente de animais. Todo um esforço evolutivo de dezenas de milhões de anos e que resultou em todo um conjunto de espécies de animais fascinantes, está fortemente ameaçado pela insensatez e irresponsabilidade dos seres humanos.  

Neste dia, quando o mundo comemora o Dia Mundial do Meio Ambiente, é importante pararmos para pensar um pouco no que estamos fazendo com o nosso planeta e com todas as espécies animais e vegetais que compartilham suas vidas com as nossas. 

  

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