UM RIO GRANDE, OU FALANDO DO “MAR DE MINAS”

Lago de Furnas

As nascentes do rio Grande estão localizadas na Serra da Mantiqueira, a uma altitude próxima dos 2 mil metros. Quando suas águas chegam até a confluência com o rio Paranaíba, depois de percorrer cerca de 1.360 km, e se juntam para formar o rio Paraná, já estão numa altitude próxima aos 500 metros em relação ao nível do mar. É justamente essa forte declividade que proporciona uma grande energia potencial para a geração de hidroeletricidade – as águas do rio Grande movimentam as turbinas geradoras de 13 usinas hidrelétricas, que juntas respondem por 25% da capacidade instalada do Subsistema Elétrico Sudeste/Centro-Oeste. 

A bacia hidrográfica do rio Grande ocupa uma área total de 143 mil km², englobando áreas dos Estados de São Paulo e de Minas Gerais – o rio, inclusive, marca um longo trecho da divisa entre esses dois Estados. É uma região com grande produção agropecuária, especialmente de grãos e onde o uso de sistemas de irrigação vem crescendo nos últimos anos. A primeira unidade geradora de energia elétrica instalada na bacia hidrográfica do rio Grande foi a pequena Hidrelétrica Luiz Dias, uma usina a “fio d’água”, construída no rio Lourenço Velho em Itajubá em 1914, com uma potência total de 2,43 MW.

O aproveitamento energético em larga escala das águas do rio Grande começou no início da década de 1950, período em que o Brasil experimentava um forte ciclo de desenvolvimento industrial, especialmente após a instalação das empresas do setor automobilístico. A forte demanda por energia elétrica, que ameaçava levar o país a um colapso energético, resultou na construção da Usina Hidrelétrica de Furnas, uma das maiores da América Latina na época. 

Até o início da década de 1950, o setor elétrico era controlado por inúmeras empresas estrangeiras como a Light & Power Company, que detinha concessões nos Estados de São Paulo e no Rio de Janeiro. Durante os anos do Governo Juscelino Kubitschek (1956-1961), cujo slogan era “50 anos em 5”, o Governo Federal criou diversas empresas públicas para atuar no setor elétrico e o país iniciou uma fase de grandes investimentos na produção de energia elétrica. Entre estas empresas, destaca-se a Central Hidrelétrica Furnas, que foi criada em 1957, com o claro objetivo de estimular o desenvolvimento do Estado de Minas Gerais, terra natal do Presidente. 

As fortes corredeiras do rio Grande e seu enorme potencial hidrelétrico já estavam sendo estudados na época e duas usinas já estavam sendo construídas pela CEMIG – Centrais Elétricas de Minas Gerais, desde 1952: as hidrelétricas de Itutinga e de Peixoto. Os estudos técnicos da época demonstravam que o rio Grande poderia abrigar até 14 usinas hidrelétricas, com uma potência total estimada em 7,5 mil MW. Para efeito de comparação, a capacidade instalada em todas as usinas elétricas brasileiras na época era de apenas 3 mil MW

Os planos para a construção de uma hidrelétrica de grande porte, que teria como consequência a inundação de uma extensa área para a formação do reservatório, geraram uma enorme convulsão social por toda a região. As estimativas indicavam que cerca de 35 mil pessoas precisariam ser deslocadas em 34 municípios diferentes, o que por si só já era uma operação de extrema magnitude para os padrões da época. Também haviam os enormes custos com o pagamento das desapropriações pelas propriedades e terras férteis que seriam inundadas. O lago de Furnas inundou uma área de 1.440 km² e passou a ocupar o posto de maior corpo d’água do Estado de Minas Gerais. 

Com a conclusão das obras da barragem em 1961, foi iniciado o processo de enchimento do reservatório. Devido à forte oposição de vários grupos políticos da região, essa operação foi iniciada sem uma divulgação oficial. Com o início do enchimento do lago, muitas famílias que resistiam em abandonar suas casas e propriedades acabaram forçadas a se mudar. Em várias situações, tropas do Exército precisaram ser usadas para remover famílias a força, que resistiam à desocupação mesmo com a água invadindo as suas casas. Entre as áreas afetadas destacam-se a cidade de Guapé e a vila de São José da Barra, que foram totalmente encobertas pelas águas do lago. 

O primeiro grupo gerador da hidrelétrica de Furnas entrou em operação em 1963. A inauguração oficial da usina ocorreu em maio de 1965, já no Governo Castelo Branco, o primeiro presidente do ciclo de Governos Militares, que dirigiu o país entre 1964 e 1985. Nessa época, a Usina Hidrelétrica de Furnas já operava com 6 grupos geradores. No início da década de 1970, foram instalados os dois últimos grupos geradores dos 8 previstos no projeto, levando a potência total para 1.216 MW. 

Um detalhe interessante do projeto da hidrelétrica de Furnas é que, com a formação e o enchimento do seu lago, uma parte da cidade de Capitólio e uma extensa planície alagável, conhecida como Pântano de Piui, seriam inundados e se criaria uma ligação com a bacia hidrográfica do rio São Francisco. Essa ligação funcionaria como uma espécie de “ladrão”, roubando águas do lago da hidrelétrica de Furnas. Para solucionar essa perda de água, foi necessária a construção de uma barragem, conhecida como Dique de Capitólio, e a construção de um canal para a transposição das águas do rio Piumhi desde a bacia hidrográfica do rio Grande para a bacia do rio São Francisco. 

O lago de Furnas ocupa uma área mais de três vezes maior que a Baía da Guanabara, com um perímetro superior a 3 mil km. Lentamente, o indesejado lago passou a “conquistar” os corações das populações e lago de Furnas foi se transformando no “mar de Minas”, uma das mais disputadas atrações turísticas do Estado, apresentando águas tranquilas para o banho, prática de esportes, pesca e navegação. Como se tudo isso ainda fosse pouco, as margens do lago apresentam inúmeros canyons (cuja palavra equivalente em português é canhão), grutas e cachoeiras. Furnas é, na fala popular do povo mineiro, “tudo de bão“. 

Após a formação do grande lago de Furnas, as terras de suas margens sofreram uma grande valorização – muita gente dessa região interiorana passou a sonhar com a construção de uma bela casa ou de uma pousada com vistas para o reservatório e também com o lazer em atividades esportivas nos clubes náuticos que surgiram por toda a orla do reservatório. Diversos municípios localizados às margens do lago assistiram a uma verdadeira revolução no seu perfil socioeconômico e passaram a lucrar substancialmente com a renda gerada pelo turismo, especialmente nos segmentos de hotelaria e hospedagem, alimentação, comércio, prestação de serviços em áreas ligadas ao turismo, entre outras

Uma outra atividade econômica que surgiu em função do lago de Furnas foi a piscicultura, onde os peixes são criados em cercados flutuantes. A produção de peixes em cativeiro, que já chegou a atingir a marca 1,6 mil toneladas, sofreu uma forte redução em anos recentes, quando um longo período de estiagem atingiu o rio Grande e afetou fortemente o lago de Furnas. Essa seca também afetou o turismo, o que causou grandes prejuízos em todas as cidades lindeiras ao lago. Desde 2017, quando o nível do lago começou a se recuperar, a atividade voltou a crescer e a animar os produtores de peixe do “mar de Minas” e também os setores ligados ao turismo lacustre. 

Como se vê, o rio Grande é surpreendente.

BRASÍLIA: A CIDADE QUE NASCEU SEDENTA POR ENERGIA ELÉTRICA

Cachoeira Dourada

A cidade de Brasília, Capital Federal do Brasil, foi inaugurada com muita pompa e circunstância em 21 de abril de 1960. Até então, como muitos de vocês devem lembrar das aulas de história do ensino fundamental, a cidade do Rio de Janeiro sediava a nossa Capital. Quem visita a grande e pulsante Brasília de hoje, com toda a sua grandiosidade e problemas de crescimento desordenado, terá muita dificuldade em imaginar a quantidade de problemas e desafios que foram vencidos para construir uma cidade a partir do “zero” e no meio do “nada”. 

A mudança da Capital Federal para o interior do país foi estabelecida através de um dispositivo na Constituição Republicana de 1891. Na região do Planalto Central em Goiás, foi estabelecida uma área com 14.400 km², que seria demarcada justamente para essa finalidade. Nesse mesmo ano, foi criada a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil que, sob o comando do astrônomo Luís Cruís e integrada por médicos, botânicos e geólogos, tinha a missão de fazer um levantamento completo do relevo, clima, flora e fauna da região. Essa comissão entregou um relatório ao Governo Federal em 1894, onde chamavam a futura Capital de “Vera Cruz”. 

Como parte das comemorações do Primeiro Centenário da Independência do Brasil, foi proposto o lançamento da Pedra Fundamental da nova Capital. No dia 7 de setembro de 1922, uma caravana composta por quarenta pessoas e liderada pelo Engenheiro Balduíno Ernesto de Almeida, diretor da Estrada de Ferro Goiás, representaram o Governo Federal e assentaram a Pedra Fundamental no Morro do Centenário, na Serra da Independência, localizada a 9 km de Planaltina. A construção de Brasília só teria início em meados da década de 1950, no governo do Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. 

Essa rápida introdução nos dá uma ideia da complexidade da história da nova Capital Federal, que começou 70 anos antes da sua inauguração em 1960. Transferir a Capital desde o maravilhoso litoral do Rio de Janeiro para os sertões do Cerrado goiano era uma ideia que não agradava muita gente, mas era um passo fundamental para forçar o povoamento do interior do Brasil. Conforme já comentamos em outras postagens, até meados do século XX, a maior parte da população do país se concentrava ao longo de uma faixa de 300 km a partir do litoral. Diversas políticas governamentais foram criadas para estimular a ocupação dos grandes vazios habitacionais dos interiores do Brasil. 

Entre todos os problemas de infraestrutura para a construção de uma grande cidade nos “confins” do país, havia o problema de prover fontes geradoras de energia elétrica. A solução técnica encontrada seria a construção de uma usina hidrelétrica no rio Paranaíba, na divisa entre os Estados de Goiás e Minas Gerais. A localidade escolhida foi Cachoeira Dourada, localizada a aproximadamente 450 km da futura cidade de Brasília. Para levar a cabo esse empreendimento, foi criada a CELG – Centrais Elétricas de Goiás em 1955. A empresa iniciou as obras da hidrelétrica em 1956. 

Cachoeira Dourada era na época um distrito do município goiano de Itumbiara, uma vila que foi formada às margens do rio Paranaíba. O nome é uma referência a uma grande cachoeira que existia na região (vide foto), que, segundo o folclore local, sob o reflexo do sol parecia ser da “cor dourada”. Outras fontes afirmam que o nome do lugar se deve à grande quantidade de dourados que haviam nas águas do rio naquele local. Sem considerar a beleza ou o folclore do lugar, o que chamou a atenção dos técnicos da CELG foi a grande força dos caudais do rio e o seu grande potencial para a geração de energia elétrica. 

Essa região foi, num passado distante, parte do território dos índios Caiapós. As notícias das primeiras ocupações por fazendas datam do início do século XIX. A formação da Vila de Cachoeira Dourada remonta a 1950, quando um fazendeiro doou cerca de 40 alqueires de terra para a construção de uma capela dedicada a Santo Antônio. A pequena vila se formou ao redor dessa igreja. 

Em 1959, durante a inauguração da Usina Hidrelétrica de Cachoeira Dourada, o Presidente Juscelino Kubitschek disse em seu discurso que aquela era a “a usina hidrelétrica mais distante do Oceano Atlântico já construída no Brasil”. É claro que essa afirmação do Presidente não era totalmente verdadeira – já existiam inúmeras PCHs – Pequenas Centrais Hidrelétricas, em várias regiões interioranas do país. A intenção real, imagino eu, era se ressaltar que, em se tratando de uma obra daquele porte, aquela era realmente a primeira a ser concluída. 

Eu já trabalhei em obras de infraestrutura em Rondônia, na região Amazônica, a alguns anos atrás e lembro das muitas dificuldades logísticas que tínhamos para adquirir materiais de construção, transportar equipamentos desde a sede da empresa em Minas Gerais e até mesmo para contratar pessoal especializado. Houve um momento da obra em que não tínhamos cimento, um dos insumos mais básicos da construção civil – a solução que encontramos foi a de buscar cimento na Bolívia. Podemos imaginar as dificuldades de então para se transportar pessoas e materiais, inclusive equipamentos pesados, para uma cidadezinha perdida no Sul de Goiás, através de uma intrincada malha de pequenas estradas sem pavimentação. 

A barragem da hidrelétrica foi dimensionada para trabalhar com uma altura de coluna d’agua de 30 metros, o que levou a formação de um lago com aproximadamente 100 km². Lamentavelmente, o enchimento do lago da usina encobriu a famosa Cachoeira Dourada. Como sempre comentamos em nossas postagens, aqueles anos, da década de 1950 e depois dos Governos Militares, foram marcados pela ideia de um desenvolvimento rápido ou a qualquer custo – “50 anos em 5”, era o slogan do Governo Kubitschek. Também foi uma época em que não havia uma legislação ambiental que impunha a necessidade de estudos de impacto ao meio ambiente como pré-condição para a execução de uma obra desse porte. Dentro de um cenário como esse, destruir uma Cachoeira Dourada ou um Salto das Sete Quedas era uma das coisas “mais naturais do mundo”. 

A usina foi projetada de forma a acompanhar o crescimento da demanda por energia elétrica da cidade de Brasília. Numa primeira fase, concluída em 1959, a potência instalada na usina era de 32 MW. Entre 1965 e 1970, a usina entrou numa segunda etapa de obras, quando foram instalados novos grupos geradores e a potência total foi aumentada em 156 MW. Numa terceira etapa de obras na década de 1970, foram agregados novos grupos geradores de 255 MW, além de grupos de geradores menores entre 138 e 230 kW. Finalmente, já na década de 1990, a usina passou pela etapa final de obras e agregou mais 200 MW ao sistema, atingindo uma potência total de aproximadamente 650 MW

Com o crescimento descontrolado da cidade de Brasília e de todas as suas cidades satélites, que hoje já conta com uma população de quase 3 milhões de habitantes e de 4,2 milhões na sua área metropolitana, outras fontes geradoras de energia elétrica tiveram de ser incorporadas ao sistema. Mesmo assim, a Usina Hidrelétrica de Cachoeira Dourada marcou para sempre a história da nova Capital Federal do país.

O RIO PARANAÍBA E SUAS USINAS HIDRELÉTRICAS

Ponte Alencastro Rio Paranaíba

A geração de energia elétrica através de fontes hidráulicas é fundamental para o Brasil. Dentro da matriz energética do país, as usinas hidrelétricas respondem por mais de 63% da energia gerada e a bacia hidrográfica do rio Paraná sozinha é responsável por aproximadamente 47% desse total. Graças à toda essa importância energética, muitos dos rios da bacia hidrográfica acabaram ganhando uma projeção nacional – rio Paraná, Tietê, Paranapanema e Iguaçu. Outros, como o importante rio Paranaíba, acabaram meio que “esquecidos” no cenário nacional. 

O rio Paranaíba é, junto com o rio grande, um dos formadores do rio Paraná. Ele nasce na Serra da Mata da Corda, no Estado de Minas Gerais, e percorre aproximadamente 1.170 km até o encontro com as águas do rio Grande. Sua bacia hidrográfica drena uma área com cerca de 220 mil km², abrangendo 196 municípios nos Estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul. Nessa região vive uma população na casa dos 8,5 milhões de habitantes, o que nos dá uma ideia da importância regional do rio Paranaíba

A palavra Paranaíba vem das línguas indígenas da região e significa algo como “rio ruim”, uma definição provavelmente ligada à grande dificuldade de navegação em suas águas agitadas. Essa “rebeldia” das águas resultou num grande aproveitamento para a geração de energia elétrica – foram construídas 4 usinas na calha do rio: São Simão, Cachoeira Dourada, Itumbiara e Emborcação. 

O primeiro aproveitamento hidráulico das águas do rio Paranaíba se deu em função da necessidade de gerar eletricidade para a construção de Brasília, a nova Capital Federal do país. Como já comentamos diversas vezes, as regiões interiores do Brasil apresentavam verdadeiros vazios habitacionais e diversas políticas governamentais foram criadas para povoar essas regiões – a transferência da Capital Federal do Rio de Janeiro para o Planalto Central era parte dessas políticas. A Usina Hidrelétrica de Cachoeira Dourada foi construída na década de 1950 e é considerada uma usina hidrelétrica a fio d’água. 

A construção de usina foi iniciada em 1956 e inaugurada em 1959, com uma potência instalada inicial de 32 MW. Entre 1965 e 1970, a usina entrou numa segunda etapa de obras, quando foram instalados novos grupos geradores e a potência total foi aumentada em 156 MW. Numa terceira etapa de obras na década de 1970, foram agregados novos grupos geradores de 255 MW, além de grupos de geradores menores entre 138 e 230 kW. Finalmente, já na década de 1990, a usina passou pela etapa final de obras e agregou mais 200 MW ao sistema, atingindo uma potência total de aproximadamente 650 MW. 

A partir do final da década de 1970, época das grandes obras de infraestrutura do período dos Governos Militares, foram iniciadas as obras de construção de três usinas hidrelétricas no rio Paranaíba. A primeira a ser inaugurada foi a Usina Hidrelétrica de São Simão, instalada entre os municípios de São Simão, em Goiás, e Santa Vitória, em Minas Gerais. 

Essa usina opera com 6 grupos geradores, que fornecem uma potência instalada de 1.719 MW. A barragem da usina atinge uma altura de 127 metros, formando um lago com uma área máxima de 720 km² e capacidade para armazenar 12,5 bilhões de m³ de água. A usina foi i augurada em 1978 e em 2017 foi privatizada. 

Em 1981, foi inaugurada a Usina Hidrelétrica de Itumbiara, o maior empreendimento do setor no rio Paranaíba, localizada entre os municípios de Itumbiara, em Goiás, e Araporã, em Minas Gerais. A usina possui 6 grupos geradores, que fornecem uma potência total de 2.082 MW. A barragem da usina tem uma altura máxima de 106 metros, com um lago com área máxima de 778 km² e um volume útil de mais de 12 bilhões de m³. 

Por fim, em 1983, foi inaugurada a Usina Hidrelétrica de Emborcação, construída entre os municípios de Araguari, em Minas Gerais, e Catalão, em Goiás. A usina possui 4 grupos geradores, que fornecem uma potência total de 1.192 MW. A altura máxima da barragem é 158 metros e o lago formado ocupa uma superfície de 473 km², com um armazenamento total de 13 bilhões de m³ de água. 

Além de sua importância como geradoras de energia elétrica, as usinas hidrelétricas instaladas no rio Paranaíba têm uma importância ímpar na regularização do volume de água no rio Paraná. Essa regularização é fundamental para a operação das usinas instaladas nesse rio, que juntas geram perto de 25 mil MW de energia elétrica. A regularização dos níveis de água no rio Paraná também é fundamental para a operação contínua da Hidrovia Tietê-Paraná, a mais importante do Brasil. Com uma extensão total de 2.400 km de águas navegáveis, esta hidrovia permite o transporte de grandes volumes de carga entre num trecho de 1.600 km ao longo do rio Paraná e de 800 km nos rios Tietê e Piracicaba. 

Com grande parte dos seus rios formadores e afluentes localizados em áreas do bioma Cerrado, o rio Paraná apresentava grandes variações nos seus níveis entre as épocas de seca e das chuvas. Uma das consequências dinâmica das águas era a existência de grandes planícies alagáveis, conhecidas popularmente como varjões, e sobre as quais falamos na última postagem. Em alguns trechos, as margens do rio Paraná chegavam a avançar por até 20 km, criando ecossistemas especiais, com flora e fauna bastante parecidas com as do Pantanal de Mato Grosso. A construção de sucessivas barragens de hidrelétricas em toda a bacia hidrográfica do alto rio Paraná reduziu drasticamente o tamanho dos varjões e, consequentemente, desses ecossistemas. 

O Cerrado é considerado como uma espécie de “caixa d’água”, onde estão localizadas as nascentes de rios que formam as mais importantes bacias hidrográficas do Brasil, além de abrigar dois importantes aquíferos – o Bambuí e o Urucuia, e parte do grandioso Aquífero Guarani, um dos maiores do mundo. Apesar de toda a sua importância, o Cerrado é um dos biomas brasileiros que mais sofrem com o avanço das frentes agrícolas. Para abertura de novos campos, a vegetação nativa do Cerrado é cortada, o que prejudica cada vez mais a recarga das reservas subterrâneas de água. A vegetação do bioma tem como uma das suas principais características a presença de raízes muito profundas, que ajudam a água a se infiltrar no subsolo. 

Um dos grandes riscos da destruição do Cerrado é a redução gradativa dos volumes de água em cursos d’água com nascentes no bioma como o rio Paranaíba. Esse processo já é bastante visível no rio São Francisco, que vem apresentando caudais cada vez menores a cada ano que passa. Esse é um risco ainda remoto, mas que também poderá atingir a bacia hidrográfica do rio Paraná. 

E sem a água, os rios poderão acabar transformados em simples rasgos que cortam o solo seco, algo que esperamos que nunca ocorra com o rio Paranaíba.