AS GRANDES BACIAS HIDROGRÁFICAS BRASILEIRAS E O CERRADO

Rio Araguaia

O Cerrado é, reconhecidamente, o “berço das águas” do Brasil. Ocupando uma área equivalente a um quarto do território brasileiro, a região possui um clima com uma marcante estação de chuvas, além de solos altamente porosos e adequados para o armazenamento de grandes volumes de águas em seus aquíferos. A combinação de todas estas características resulta nas fecundas nascentes de águas de importantes rios que formam 8 grandes bacias hidrográficas brasileiras: Paraguai, Paraná, Parnaíba, São Francisco, Tocantins/Araguaia, Atlântico Leste, Atlântico Nordeste Ocidental e Amazônica.

Para que você consiga visualizar o que tudo isso significa, segue uma descrição resumida de cada uma destas bacias hidrográficas, com a indicação das áreas totais de drenagem e das regiões onde estão localizadas, que se espalham por todos os cantos do Brasil:

bacia hidrográfica do rio Paraguai tem uma área total de 1,1 milhão de km² e abrange áreas dos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, incluindo também áreas em territórios da Argentina, do Paraguai e da Bolívia. O Paraguai é o principal rio da bacia hidrográfica.

bacia do rio Paraná abrange uma área de 879 mil km², distribuídos pelos Estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná e Santa Catarina, além do Distrito Federal. O Rio Paraná é o principal rio da bacia hidrográfica, que conta ainda com importantes rios como o Grande, Paranaíba, Tietê, Paranapanema e Iguaçu. As bacias hidrográficas do Paraguai e do Paraná se juntam, formando parte da bacia hidrográfica do Rio da Prata, uma das mais importantes da América do Sul.

bacia hidrográfica Araguaia-Tocantins é formada pela junção das águas dos rios Tocantins e Araguaia, se estendendo pelos Estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Pará e Maranhão, além do Distrito Federal. É a maior bacia hidrográfica totalmente brasileira. Esta bacia ocupa uma área de aproximadamente 767 mil km², equivalente a 7,5% do território brasileiro.

bacia hidrográfica do Atlântico Leste ocupa uma área de 388 mil km², se estendendo desde o Nordeste do Estado de Minas Gerais, Norte do Espírito Santo, Leste da Bahia, além do Estado de Sergipe. Os principais rios formadores desta bacia hidrográfica são o Paraguaçu, das Contas, Salinas, Pardo, Jequitinhonha, Mucuri e Itapicuru.

bacia do rio Parnaíba abrange quase totalmente o Estado do Piauí e partes do Maranhão e do Ceará, com uma área total de 344 mil km². O Parnaíba é o principal rio da bacia hidrográfica, com aproximadamente 1.400 km de extensão e com nascentes no Sul do Piauí.

bacia hidrográfica do Atlântico Nordeste Ocidental possui uma área de 254 mil km², que engloba grande partes dos Estados do Maranhão e do Pará. Tem como principais formadores os rios locais: Gurupi, Turiaçu, Pericumã, Mearim, Itapecuru, Kabrelindzom e Murim.

Rios com nascentes no Cerrado também são tributários da maior bacia hidrográfica do mundo – a do Rio Amazonas, que ocupa uma área de quase 7 milhões de km². Os principais tributários com nascentes em áreas da região do Cerrado no Estado de Mato Grosso são o rio Xingu e os rios Teles Pires, Arinos e Juruena, formadores da bacia hidrográfica do rio Tapajós. Também se inclui nesta lista o rio Guaporé, afluente da bacia hidrográfica do Rio Madeira, com nascente no Estado do Mato Grosso, entre outros rios.

E não menos importante, a bacia hidrográfica do Rio São Francisco, que drena uma superfície com uma área total de 639 mil km² e se estende naturalmente pelos Estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, e através do Sistema de Transposição já atinge o Estado da Paraíba e, em breve, chegará também aos Estados do Ceará e Rio Grande do Norte.

Apesar de fornecer água para a maioria das bacias hidrográficas do Brasil, existe uma grande diferença no volume destas contribuições: enquanto as águas de rios com nascentes na região do Cerrado contribuem com apenas 4% das águas da gigantesca bacia Amazônica, na bacia hidrográfica do Rio São Francisco essa contribuição corresponde a 94%. Isto significa que a eventual destruição das fontes de água da região do Cerrado seria quase irrelevante para a região da bacia Amazônia e catastrófica para a região do Semiárido.

A conservação do bioma Cerrado, como se observa, não é importante apenas para os Estados onde o ecossistema está contido – ela tem importância vital para todo o Brasil e também para países vizinhos como o Paraguai, Argentina e Uruguai, além de trecho da Bolívia. As bacias hidrográficas dos importantes rios Paraná e Paraguai, entre outras, se juntam para formar a bacia hidrográfica do Rio da Prata, a segunda mais importante da América do Sul. Essa bacia hidrográfica é tão importante que Argentina, Paraguai e Uruguai são conhecidos internacionalmente como Países Platinos.

Infelizmente, o avanço das fronteiras agrícolas em áreas do Cerrado já apresenta como resultados uma visível redução nos caudais destas bacias hidrográficas – e no Rio São Francisco essa redução é muito mais do que visível: é alarmante!

BAMBUÍ, URUCUIA E GUARANI: OS GRANDES AQUÍFEROS DO CERRADO BRASILEIRO

Veredas

Conforme já comentado em post anterior, as áreas de Cerrado concentram nascentes de rios que abastecem 8 das 12 grandes bacias hidrográficas brasileiras. Antes de tratarmos destas bacias hidrográficas, é importante analisarmos os sistemas de aquíferos que alimentam os grandes rios da região.

Aquíferos são formações ou grupos de formações geológicas constituídas por rochas porosas e permeáveis que permitem o armazenamento de grandes volumes de águas das chuvas – essas águas alimentam as nascentes de rios e também podem ser captadas em poços semi-artesianos e artesianos para abastecimento de populações humanas. Apesar de serem apresentados sempre no singular, essas formações são agrupadas na forma de sistemas de aquíferos interligados, que se estendem por grandes áreas geográficas. A região do Cerrado brasileiro possui três grandes aquíferos: o Bambuí, o Urucuia e o Guarani. Vamos analisar esses aquíferos:

O aquífero Bambuí se divide entre áreas do Cerrado e do Semiárido, tendo seu trecho mais importante na região Norte de Minas Gerais, porém sua área natural de recarga abrange uma superfície total de mais de 180 mil km² nos Estados de Minas Gerais, Bahia, Goiás e Tocantins, atendendo um total de 270 municípios, especialmente na região conhecida como Polígono das Secas. Está inserido dentro da bacia hidrográfica do Rio São Francisco, alimentando nascentes de importantes afluentes do rio. As águas deste aquífero são consideradas de boa qualidade e se encontram em profundidades entre 50 e 100 metros. Poços de captação retiram grandes volumes de água deste aquífero para uso no abastecimento de diversos municípios no Norte de Minas Gerais e no Sul da Bahia.

O aquífero Urucuia está localizado integralmente na região do Cerrado e se estende por toda a região Oeste do Estado da Bahia, que concentra entre 75 e 80% da área total, além de trechos nos Estados do Tocantins, Goiás, Piauí, Maranhão e Noroeste de Minas Gerais, ocupando uma área total de 120 mil km². Este sistema de aquíferos têm importância fundamental na regularização da vazão de rios que nascem na região e que correm na direção do Rio São Francisco e que são fundamentais para o abastecimento de cidades e uso em sistemas de irrigação.

As águas dos aquíferos Urucuia e Bambuí são estratégicas para a Região do Semiárido, pois são elas que garantem a perenização de importantes rios da região em épocas de seca prolongada, quando diversos rios menores literalmente secam. Uma característica importante deste sistema de aquíferos é que suas águas se concentram em baixas profundidades e estão sujeitas a contaminação por atividades agropecuárias e destruição da vegetação nativa, o que também compromete a recarga de águas. Outra fonte importante de problemas é a superexploração das águas para fins de irrigação, especialmente na região do Cerrado baiano, uma das frentes agrícolas que mais tem crescido nos últimos anos.

O imenso aquífero Guarani ocupa uma área total de 1,2 milhão de km², se estendendo por áreas das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, avançando por regiões do Paraguai, Argentina e Uruguai. É considerado o segundo maior aquífero conhecido do mundo, ficando atrás apenas do sistema de aquíferos Alter do Chão da região amazônica. Alguns cálculos indicam que o Guarani possui uma reserva total de águas que seria suficiente para abastecer toda a população brasileira por até 2.500 anos.

Oito Estados brasileiros abrigam trechos do aquífero Guarani: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nestas áreas de ocorrência do aquífero no Brasil, que compreendem 70% da área total da formação, vive uma população estimada em, pelo menos, 30 milhões de habitantes (o mapeamento da área total do aquífero é atualizada constantemente). O aquífero tem 50% de sua extensão em terras brasileiras concentrada em áreas do Cerrado. Cidades do interior de São Paulo são as maiores utilizadoras de águas captadas no aquífero Guarani, a exemplo de Ribeirão Preto, cidade que retira toda a água utilizada para seu abastecimento de poços alimentados pelo aquífero.

Os aquíferos são reservas de água estratégicas, responsáveis pelo fornecimento de até 90% das águas que formam os caudais dos rios da região do Cerrado, especialmente na época da estação da seca. Apesar de serem aparentemente abundantes, as águas dos aquíferos dependem da recarga periódica nas estações das chuvas, quando a vegetação natural do Cerrado permite a infiltração da água no solo. A substituição intensa da vegetação nativa por plantações aumenta grandemente o fluxo de águas na superfície do solo, levando a grandes perdas por evaporação em prejuízo aos aquíferos, provocando reduções importantes na produção de água nas nascentes das bacias hidrográficas da região. É fundamental que se encontro um ponto de equilíbrio entre as atividades agropecuárias e a preservação das matas nativas do Cerrado como forma de se garantir a tradicional abundância das águas na região.

Continuamos no nosso próximo post.

VEJA NOSSO CANAL NO YOUTUBE – CLIQUE AQUI

O LOBO GUARÁ, A SOJA E A DESTRUIÇÃO DO CERRADO

Lobo Guará

Se você estiver viajando por uma rodovia e de repente avistar um lobo guará andando nos campos ao redor, com certeza você estará passando por uma área do Cerrado – o lobo guará é uma espécie-chave deste bioma. Por definição, uma espécie-chave, animal ou vegetal, “é aquela que desempenha um papel crítico na manutenção da estrutura de uma comunidade ecológica e cujo impacto é maior do que seria esperado com base na sua abundância relativa ou biomassa total”. A presença de espécies-chave fala muito sobre as condições do meio ambiente, uma vez que esses animais ou plantas interagem direta ou indiretamente com todo o ecossistema, especialmente regulando as cadeias tróficas, que são os fluxos de matéria e energia do sistema. O lobo guará é um canídeo adaptado para a vida em ambientes abertos, com hábitos de vida noturna e com uma alimentação onívora, comendo qualquer coisa que encontre, especialmente pequenos roedores, ovos e aves, raízes e frutas, especialmente a lobeira, uma fruta silvestre muito parecida com o tomate e que pode representar até 50% da dieta do animal. Essa preferência por frutas torna o lobo guará uma espécie com um importante papel na dispersão de frutos do Cerrado a partir das sementes não digeridas, que são expelidas junto com as fezes. Casais de animais da espécie ocupam sozinhos grandes extensões territoriais que podem ter mais de 120 km². O lobo guará é uma espécie que representa o Cerrado brasileiro.

Se você estiver viajando por uma rodovia e de repente se ver cercado por plantações de soja por todos os lados, há uma chance muito grande de se encontrar dentro de uma antiga área de Cerrado, onde a antiga vegetação natural foi substituída por plantações. Dificilmente você conseguirá ver um lobo guará andando por esses campos, porque a soja não faz parte da dieta do animal e, no meio dos imensos campos da cultura, sobra muito pouco espaço para as plantas frutíferas e animais endêmicos do Cerrado. E, infelizmente, o avanço da fronteira agrícola que se viu nos últimos 50 anos já consumiu aproximadamente metade do bioma, fragmentando o Cerrado em inúmeras ilhas – ilhas de vegetação cercadas por campos de grãos por todos os lados.

Conforme comentado no post anterior, as áreas de Cerrado foram consideradas por muito tempo como inadequadas para a agricultura comercial de larga escala. Com solos extremamente ácidos e considerados pouco férteis, extensas regiões do território brasileiro ficaram ocupadas por pequenas propriedades rurais e por reduzidas lavouras de subsistência durante vários séculos. Com o desenvolvimento de tecnologias para a correção do solo e com o desenvolvimento de sementes adaptadas para crescimento em regiões do Cerrado, esse panorama começou a mudar rapidamente já na década de 1970, quando os grandes projetos de ocupação de todo o território brasileiro passaram a ser implementados pelos governos militares. A região do Cerrado era considerada plana e com farta disponibilidade de recursos hídricos para a irrigação. Com a mudança da capital brasileira para a nova cidade de Brasília em 1960, foram feitos grandes investimentos na construção de rodovias em direção ao Planalto Central e em toda a Região Centro-Oeste, o que favorecia tanto o escoamento da produção de grãos quanto o fluxo de imigrantes de outras regiões na direção da nova fronteira agrícola. A expansão dos campos agrícolas se expandiu rapidamente na direção de Mato Grosso, que acabou dividido em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Rondônia e Acre, de um lado, e Norte de Goiás, que acabou se transformando no Estado de Tocantins, Oeste da Bahia e, mais recentemente, na direção do Sul do Estado do Piauí e do Maranhão. Regiões do Cerrado nos Estados de Minas Gerais, São Paulo e Paraná, que já estavam ocupadas por cidades e plantações experimentaram saltos na produtividade. Atualmente, os antigos domínios do Cerrado concentram 36% de todo o rebanho bovino, 63% da produção de grãos – 30% do Cerrado foi transformado em pastagens para boiadas.

Nos últimos dez anos, o Cerrado foi o bioma brasileiro que sofreu a maior perda de área nativa – 50 mil km², área maior do que o território do Estado do Rio de Janeiro. A região conhecida como Matopiba, que incorpora áreas dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, é a maior fronteira agrícola atual de expansão da cultura da soja e apresenta as maiores perdas de vegetação nativa do Cerrado.

Toda essa expansão de campos agrícolas e de pastagens em áreas de Cerrado tem um alto custo ambiental, que se traduz na redução dos caudais das bacias hidrográficas com nascentes no bioma – das 12 grandes bacias hidrográficas brasileiras, 8 tem nascentes em áreas do Cerrado, com destaque para a bacia do Rio São Francisco. A redução nos volumes de água faz-se sentir por todo o território brasileiro.

Vamos detalhar isso em nosso próximo post.

FALANDO DO CERRADO E DE SUAS RELAÇÕES COM A BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO SÃO FRANCISCO

Nascente do Rio São Francisco

No meu último post comecei a falar de uma questão chave para o entendimento da situação de degradação das águas do Rio São Francisco – a destruição sistemática das áreas de Cerrado pela expansão da agricultura. Dentro de todo um mosaico de problemas que, somados, estão destruindo e inviabilizando o Velho Chico, a redução das áreas de Cerrado destaca-se. Esse bioma é reconhecido como “o berço das águas” do Brasil e sua manutenção é essencial para garantir o volume dos caudais da bacia hidrográfica do Rio São Francisco e de outros grandes rios brasileiros. Vamos entender melhor essa questão.

De acordo com informações do Ministério do Meio Ambiente, o Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul, ocupando uma área de 2 milhões de km², somente ficando atrás da Floresta Amazônica, que ocupa uma área de 5,5 milhões de km² em 9 países – 60% da Floresta Amazônica fica em território brasileiro, ocupando cerca de 22% do território nacional. A área do Cerrado abrange os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal, além dos encraves no Amapá, Roraima, Amazonas, e também pequenos trechos na Bolívia e no Paraguai. Neste espaço territorial encontram-se as nascentes de importantes bacias hidrográficas da América do Sul como a Amazônica, Tocantins, Paraguai, Paraná e São Francisco, o que resulta em um elevado potencial aquífero e favorece a sua biodiversidade.

Quando comparado a Floresta Amazônica e a Mata Atlântica, o Cerrado não impressiona à primeira vista – árvores pequenas e retorcidas, com no máximo 15 metros de altura na região dos campos e com até 25 metros nas matas ciliares, espalhadas em grandes espaços de campos abertos com alguns arbustos. Mas isso é só ilusão: o Cerrado é considerado como uma das áreas de savanas mais ricas em biodiversidade do mundo, com 11.627 espécies de plantas nativas já catalogadas em seus diversos tipos de habitats. Em termos de vida animal, o Cerrado também se destaca: são 199 espécies de mamíferos, 837 espécies de aves, 180 espécies de répteis e de 150 espécies de anfíbios. Já foram catalogadas mais de 1.200 espécies de peixes, porém, devido ao encontro de importantes bacias hidrográficas na região, ainda não foi possível se determinar quais espécies são endêmicas do Cerrado. Estimativas recentes mostram que o bioma é refúgio de 13% das borboletas, 35% das abelhas e de 23% dos cupins dos trópicos.

Três dos principais aquíferos da América do Sul encontram-se total ou parcialmente sob áreas do Cerrado: o Guarani, o Bambuí e o Urucuia. As águas das chuvas que caem em áreas do Cerrado infiltram em grande parte nos solos porosos e ficam armazenadas nestes aquíferos. As nascentes em áreas do Cerrado abastecem 8 das 12 principais bacias hidrográficas brasileiras – essa água do subsolo responde por cerca de 90% da vazão dos rios do bioma. A preservação da vegetação é fundamental para que se permita a recarga destes aquíferos.

Os solos do Cerrado são muito antigos e apresentam uma alta porosidade – expostos às chuvas e ao intemperismo ao longo de milhões de anos, esses solos sofreram um processo de lavagem da camada externa pela água, o que diminuiu, em elevado grau, a sua fertilidade ao longo do tempo. Também são solos que apresentam uma elevada acidez e, durante muito tempo, foram considerados inadequados para a agricultura em larga escala. Graças a essas características, o bioma permaneceu praticamente inalterado até meados do século XX. A partir das últimas décadas, tecnologias para a correção dos solos do Cerrado passaram a ser utilizadas, como a calagem – correção da acidez mediante a aplicação de calcário, a adubação fosfatada e a adubação potássica. Por outro lado, a Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, desenvolveu variedades de grãos especialmente adaptados às características do Cerrado, com destaque para a soja – o Cerrado deixou de ser o “patinho feio” e se transformou na mais importante fronteira agropecuária do Brasil dos últimos 50 anos, quebrando recordes de produtividade ano após ano. A estimativa da colheita de grãos em 2017 é de 225 milhões de toneladas – o Estado de Minas Gerais deve contribuir com 6% desta produção, concentrando plantações em grande parte das áreas do Cerrado mineiro, lembrando que nestas áreas concentram-se importantes nascentes dos principais rios formadores da bacia hidrográfica do Rio São Francisco.

Depois da Mata Atlântica, o Cerrado é o bioma brasileiro que mais sofreu alterações com a ocupação humana, onde se estima que mais de 50% de suas áreas originais de vegetação natural já foram substituídas por campos agrícolas e pastagens para rebanhos. Além da supressão da vegetação nativa, o que compromete as nascentes de água, essas atividades pressionam os corpos hídricos captando grandes quantidades de água para uso em irrigação, onde excedentes voltam para os leitos dos rios contaminados por fertilizantes e agrotóxicos; sem a proteção da vegetação nativa, grandes volumes de sedimentos dos solos expostos acabam sendo arrastados na direção das calhas dos rios, assoreando e entulhando os canais. Como resultado, bacias hidrográficas como a do São Francisco recebem quantidades de água cada vez menores e com qualidade cada vez mais baixa dos seus antigos tributários do Cerrado.

Continuaremos a falar do Cerrado no próximo post.

AS NASCENTES DE ÁGUAS NAS MINAS GERAIS

Belo Horizonte

A bacia hidrográfica do Rio São Francisco abrange uma área total de 639.217 km² e se estende por sete unidades da federação, englobando um total de 521 municípios, o que corresponde a cerca de 9% do total de municípios do país – mais de 15 milhões de brasileiros vivem na região, o que equivale a 7,5% da população do Brasil. Uma característica interessante da bacia hidrográfica é que ela tem aproximadamente 37% de sua área dentro das fronteiras do Estado de Minas Gerais, porém a contribuição de águas que ela recebe dos inúmeros rios tributários mineiros corresponde a aproximadamente 75% do total de caudais do Rio São Francisco. Para efeito de comparação, o trecho baiano do médio São Francisco desde a divisa de Minas Gerais e Bahia até a cidade de Juazeiro, que representa 45% da área total da bacia hidrográfica, possui afluentes que contribuem com apenas 20% das águas do Velho Chico. Logo, a responsabilidade maior pela qualidade e quantidade das águas da bacia hidrográfica se dá em terras mineiras.

Tomemos como exemplo o Rio das Velhas, o mais extenso e um dos mais importantes afluentes do Rio São Francisco. Durante o histórico Ciclo do Ouro, que já tratamos em post anterior, o Rio das Velhas foi um dos principais eixos da mineração na região central de Minas Gerais, ligando as regiões de Ouro Preto, onde fica a nascente do Rio, Sabará e Santa Luzia ao Rio São Francisco. A importante cidade histórica de Ouro Preto é um marco importante na história do saneamento básico no Brasil – foi uma das primeiras cidades brasileiras a implantar um sistema de águas e esgotos com estações de tratamento, a partir da década de 1870. O Museu da Inconfidência que fica na cidade tem entre suas peças em exposição algumas curiosas manilhas de esgotos antigas, feitas em pedra sabão, datadas do século XVIII. Infelizmente, essa iniciativa pioneira do saneamento básico não avançou e os cuidados com as preciosas águas ficaram muito aquém do que seria esperado.

A bacia hidrográfica do Rio das Velhas abrange 34 municípios, com destaque para grandes cidades como Belo Horizonte (vide foto), Contagem, Betim Nova Lima e Lagoa Santa. A Região tem forte concentração industrial – somente nas sub-bacias dos Ribeirões Arrudas e do Onça existem mais de 3.100 indústrias, das quais metade são consideradas poluidoras, uma vez que as indústrias não realizam um adequado tratamento dos efluentes. Além dos esgotos industriais, as águas recebem enormes quantidades de esgotos domésticos e resíduos da mineração, além de resíduos sólidos descartados de forma inadequada pelas cidades.

O Rio das Velhas é hoje um corpo hídrico altamente poluído e malcheiroso, especialmente a jusante da Região Metropolitana de Belo Horizonte, apresentando altos volumes de esgotos nas suas águas barrentas e em tons vermelhos, cores resultantes da grande quantidade de resíduos de mineração, atividade econômica das mais importantes do Estado de Minas Gerais e causadora de inúmeros problemas ambientais. O alto grau de assoreamento da calha do rio das Velhas também é marcante.

Com uma população de mais de 6 milhões de habitantes, os municípios da Região Metropolitana mineira têm o Rio das Velhas como um dos seus principais mananciais de abastecimento. A água é captada a montante da região, em um trecho onde a água apresenta condições de qualidade um pouco mais favoráveis. A água tratada e potabilizada é distribuída para a população e, após o uso, é devolvida para a bacia hidrográfica do Rio das Velhas com muito esgoto in natura, despejados em afluentes como o Ribeirão Arrudas e Ribeirão do Onça, . Esta situação se repete em centenas de rios que abastecem pequenas e médias cidades em toda a região das Geraes, onde a água dos rios é tratada da mesma maneira. Grandes volumes de esgotos são lançados in natura nos leitos dos rios, se misturando aos resíduos da mineração e da agricultura e degradando cada vez mais os caudais que chegam ao Rio São Francisco.

A cobertura vegetal do Estado de Minas Gerais vem sofrendo um intenso processo de destruição ao longo da história, o que se traduz em impactos importantes nos rios, riachos e demais corpos d’água, especialmente na forma de assoreamento. É importante lembrar que a preservação da cobertura vegetal também é fundamental para a proteção das nascentes e essencial para a recarga dos aquíferos. Dos três biomas originais do Estado, o cerrado é o que mais perdeu vegetação, restando apenas 40% da cobertura original. Da Mata Atlântica e da Caatinga restam, respectivamente, 23% (algumas fontes citam valores menores) e 57%. A bacia hidrográfica do Rio São Francisco em Minas Gerais está localizada, predominantemente, em áreas de cerrado – o grau de devastação deste bioma no Estado, se reflete na situação degradante das águas do Velho Chico.

No próximo post vamos avaliar a situação das áreas do cerrado, bioma conhecido como o “berço das águas” e que concentra grande parte das nascentes da bacia hidrográfica do Velho Chico, que vem sofrendo um intenso processo de destruição devido ao avanço da agricultura nas últimas décadas.

A REGIÃO SEMIÁRIDA COM O MAIOR NÚMERO DE HABITANTES DO MUNDO

Petrolina e Juazeiro

Na região do deserto do Saara, conforme comentado em post anterior, vivem aproximadamente 2,5 milhões de pessoas dentro de uma área com 9,2 milhões de km². Na Região do Semiárido brasileiro vivem 23,5 milhões de pessoas numa área com 925.043 km², equivalente a 10% do Saara. Antes de nos aprofundarmos nestes números e demonstrarmos o problema da superpopulação no nosso semiárido, é importante informar que a região do Saara não é formada apenas pelas gigantescas dunas de areia mostradas nos antigos filmes da Legião Estrangeira francesa. No Saara existe um enorme mosaico de ecossistemas diferentes, que vão de campos de savanas às dunas de areia, incluindo-se áreas de semiárido muito parecidas com a nossa caatinga, oásis verdejantes no meio do nada, vales profundos onde correm pequenos rios e até altas montanhas com picos nevados – sempre chove um pouco por todos os lados e de vez em quando até cai neve em alguns lugares do Saara.

O semiárido brasileiro possui um enorme rebanho com todos os tipos de animais domésticos pastando nos limitados campos, caatingais, brejos, tabuleiros e outras formas múltiplas de vegetação que formam um imenso mosaico de ecossistemas. O nosso bom e velho Rio São Francisco atravessa e divide ao meio toda esta região semiárida – tudo o que acontece nestes sertões afeta, direta ou indiretamente a grande bacia hidrográfica do grande rio. Todas as práticas de agricultura e pecuária, mineração, extrativismo dos mais diversos, ocupações urbanas de tamanhos diferentes, enfim – todos os usos e abusos ambientais que se desenvolveram por todos os cantos da região do semiárido, são encontradas também nas margens de todos os riachos e rios que alimentam o Velho Chico: é por isto que tenho falado tanto de toda esta região.

A caprino-ovinocultura é a principal atividade agropecuária do sertão nordestino. A produção de caprinos, animais de pequeno porte extremamente adaptáveis às condições mais adversas impostas pelo clima, se moldou perfeitamente aos sertões semiáridos nordestinos, que detém o maior rebanho dessa espécie no Brasil, com aproximadamente 9 milhões de animais, mesmo número do rebanho de ovinos da região. O rebanho bovino no Nordeste tem aproximadamente 30 milhões de cabeças, grande parte vivendo em áreas do semiárido. Ainda é preciso incluir neste cálculo um rebanho com, talvez, 700 mil cavalos e de 900 mil asnos, onde estão incluídos os bons e velhos jumentos, burros e mulas que já foram os companheiros de vida e de trabalho de muitos nordestinos. Algo entre 15% e 20% destes rebanhos vivem na região da bacia hidrográfica do Rio São Francisco.

Das mais de 15 milhões de pessoas que vivem dentro da região da bacia hidrográfica do Rio São Francisco, pelo menos 30% vivem dentro da região do semiárido nordestino, o que representa quase o dobro da população que vive na região do deserto do Saara e transforma o nosso semiárido no mais habitado de todo o mundo. A exceção de municípios como Petrolina em Pernambuco (vide foto), com 338 mil habitantes, e Juazeiro e Barreiras na Bahia, com 200 mil e 138 mil habitantes respectivamente, a bacia hidrográfica do Velho Chico nos domínios do semiárido é formada por centenas de municípios com populações abaixo dos 40 mil habitantes, distribuídos em pequenas cidades, vilas e povoados dispersos por uma gigantesca região. Por todos os cantos se encontram pequenas propriedades rurais familiares, com seus pequenos roçados de subsistência e suas criações de bois, bodes e ovelhas. Em cada uma dessas pequenas propriedades são feitas queimadas frequentes para a preparação do solo para mais um plantio; há coleta de lenha para uso nas cozinhas, muitas vezes sendo necessária a derrubada de árvores; os rebanhos pastam soltos pelos campos comendo tudo o que está disponível para se comer; para a construção e manutenção das suas casas ou para realizar seus ofícios, os sertanejos usam as matérias primas disponíveis ao seu redor. Somando-se todos os bichos e gentes espalhados por todos os recantos da extensa bacia hidrográfica do Rio São Francisco no semiárido, são muitas bocas para se alimentar – bocas de gentes e de bichos, dentro de um ecossistema com tantas limitações.

Essa superexploração dos recursos naturais do semiárido se refletem no Rio São Francisco – a redução sistemática no volume dos caudais do rio é indicativo do uso intensivo das águas nas centenas de afluentes da bacia hidrográfica; o assoreamento que se vê por todos os recantos ao longo do seu curso mostra que as matas ciliares de todos esses afluentes sofrem com o intenso desmatamento, com práticas agrícolas insustentáveis e com mineração descontrolada nas terras ao longo das suas margens; a baixa qualidade das suas águas mostra que cidades e vilas captam grandes volumes de águas frescas e limpas dos rios e devolvem esgotos sem qualquer tipo de tratamento – resíduos sólidos de todos os tipos, despejados por essas vilas e cidades em lixões improvisados, sempre acabam alcançando as águas de algum afluente e chegam por fim na grande calha do São Francisco.

O Rio Colorado, que recebeu uma imensa quantidade de obras de canais de irrigação e represas para o armazenamento e regularização das suas águas antes que se permitisse a instalação de milhões de habitantes para colonizar e ocupar as terras semiáridas do Sudoeste americano, está literalmente secando pelo uso abusivo das suas águas. A bacia hidrográfica do Rio São Francisco, ao contrário, vem absorvendo e sustentando ao longo de séculos gigantescos contingentes de pessoas e de rebanhos sem qualquer planejamento ou obras de infraestrutura – não poderia se esperar outra coisa senão a destruição e o desaparecimento lento de suas águas. Quando constatamos hoje que o nível da represa de Sobradinho no Norte da Bahia está em pouco mais de 15% de sua capacidade total de armazenamento, não podemos simplesmente jogar a culpa na falta de chuvas – é necessário que se inclua na equação todos esses usos e abusos das águas e ecossistemas em toda a bacia hidrográfica do Velho Chico.

Todos esses problemas, porém, não ocorrem simplesmente na região do semiárido nordestino – eles começam longe, já nas cabeceiras dos rios na região das Geraes. Trataremos disto no próximo post.

SUPERPOPULAÇÃO DE BICHOS E GENTES NO SEMIÁRIDO NORDESTINO

Cabra sertaneja 4

Na sequência de postagens publicadas no último mês, foram apresentados vários casos de corpos hídricos em diversas partes do mundo em estresse (ou stress) extremo, onde a combinação de alterações climáticas, superexploração das águas e destruição dos biomas está resultando em situações de colapso: o Mar de Aral e o Lago Chade praticamente desapareceram; o Mar Morto que já perdeu 40% de suas águas; falamos dos riscos iminentes que ameaçam o maravilhoso delta do rio Okavango; do Lago Poopó que secou completamente e do Lago Titicaca que lentamente começa a secar e preocupa os bolivianos e peruanos; nos Estados Unidos, mostramos o caso do Rio Colorado, o mais importante da região Sudoeste do país, que apresenta um volume de água cada vez menor para atender uma demanda que não para de crescer. Partindo desses exemplos, passamos a analisar a situação do nosso Rio São Francisco, que sofre intensamente com toda uma série de problemas ambientais, indo desde a redução no volume dos caudais até o assoreamento de canais, desaparecimento de inúmeras espécies de peixes, contaminação das águas por rejeitos de mineração e esgotos, entre outras agressões ambientais. Uma das causas que está na raiz dos problemas ambientais que ameaçam o Velho Chico é a superpopulação de bichos e gentes em sua bacia hidrográfica, um problema com origens históricas e que não para de aumentar em nossos dias.

Repetindo o que já falamos por diversas vezes, o povoamento da região do semiárido começou nas primeiras décadas da colonização do Brasil, quando os bois foram expulsos da região dos canaviais – uma carta régia publicada pelas autoridades da colônia previa sérias penalidades à criação de gado a menos de 60 quilômetros do litoral. Expulsos da costa, homens e bois foram penetrando sertões a dentro, descobrindo em poucos anos o vale do Rio São Francisco, que viu suas margens ficarem cheias de fazendas e de boiadas. Nas estradas criadas para levar as boiadas para venda no litoral, foram surgindo pequenos povoados e, em poucas décadas, todos os recantos dos sertões estavam cheios de gentes e de rebanhos. Os criadores perceberam já nos primeiros anos que os escassos campos entre os caatingais eram insuficientes para suprir a alimentação dos animais e se começou a prática de queimar as árvores para se aumentar, artificialmente, as áreas de campos. Com o crescimento dos rebanhos por toda a região do semiárido, essa prática se generalizou e já provocou alterações em mais de 70% da área da caatinga; em diversas regiões estão surgindo manchas de desertificação devido a superexploração dos solos provocada pelo excessivo número de rebanhos. O número de habitantes no semiárido também cresceu enormemente – quanto maior o número de habitantes e de animais, maior a pressão ecológica sobre a vegetação e as águas do bioma. Para que você entenda o que é essa pressão ecológica, vamos demonstrar o exemplo do custo ambiental para a criação de animais:

De acordo com informações de especialistas em zootecnia e em agronomia, é necessário 1 hectare de pastagem para atender as necessidades nutricionais de 5 a 15 kg de peso vivo – isso significa que uma cabra com um peso de 60 kg vai necessitar de, pelo menos, 4 hectares ou 40 mil m² de pastagem para sobreviver – isso corresponde a área de 4 campos de futebol no padrão FIFA. Essa grande área é necessária para que o ambiente tenha tempo para se recuperar, ou seja, enquanto a cabra come a vegetação em um lado deste campo, a vegetação do outro lado terá tempo para crescer e se regenerar. Um boi magro, para efeito de comercialização, tem um peso de 360 kg e vai necessitar de uma área de pastagem bem maior – 24 hectares ou 244 mil m². Observe que este cálculo foi feito usando o valor mais baixo do consumo – 5 kg de peso vivo/hectare: o valor mais alto é três vezes maior. Se você por acaso já teve oportunidade de viajar pela região do semiárido nordestino, lembrará de ter visto rebanhos com dezenas e mais dezenas de cabras, bodes, carneiros e bois pastando em área bem menores do que a recomendação dos especialistas, o que lhe dá uma ideia da sobrecarga no bioma.

Existe um diferencial importante no comportamento dos animais que precisa ser demonstrado neste exemplo: em situações extremas, quando as fontes de alimentação se esgotam, bovinos e caprinos tem atitudes distintas. Pelas suas características físicas, os bovinos só conseguem comer o que está ao alcance de sua boca: quando não conseguem acessar estes alimentos, os bois passam fome. Com os caprinos, a coisa é diferente: depois que a grama ou as ervas rasteiras foram completamente consumidas, os caprinos cavam o solo na busca de qualquer vestígio de raiz; escaladores habilidosos, os caprinos conseguem chegar aos mais surpreendentes lugares no alto de encostas, rochas ou árvores, consumindo até a última folha ou ramo de vegetação disponível. Os caprinos também conseguem comer as cactáceas cobertas de espinhos sem maiores dificuldades. Esse consumo até a exaustão extrema da vegetação é o primeiro passo para a desertificação de um solo.

Pessoas também tem todo um conjunto de necessidades fundamentais de água e alimentos e, como são infinitamente mais inteligentes do que as cabras e os bois do sertão. Em situações de extrema escassez vão utilizar de todas as suas habilidades e energias para explorar o meio ambiente ao máximo para conseguir satisfazê-las. E olhe que estamos falando de um universo de mais de 23 milhões de habitantes na região do semiárido.

No próximo post vamos falar destas populações humanas do semiárido.

SAARA: O MAIOR DESERTO DO MUNDO

Saara - Lucas Galuzzi

Quando falamos em deserto, é praticamente impossível não lembrarmos imediatamente do Saara, o maior deserto do mundo. Com mais de 9,2 milhões de km² de área total, ocupa uma superfície 10% maior que todo o território brasileiro, que tem 8,5 milhões de km². O Saara se estende por todo o Norte da África, englobando um total de 12 países: Argélia, Chade, Egito, Líbia, Mali, Mauritânia, Marrocos, Níger, Saara Ocidental, Sudão, Sudão do Sul e Tunísia. A população somada de todos estes países está próxima dos 290 milhões de habitantes, porém na região do Saara vivem aproximadamente 2,5 milhões de pessoas. Caso você se recorde, eu comentei em um dos posts anteriores que na Região do Semiárido brasileiro vivem 23,5 milhões de pessoas, numa área equivalente a 10% do Saara – é importante ter esses dados em mente para que você consiga entender uma das causas primárias da desertificação de grandes áreas do semiárido: a superpopulação.

Há cerca de 20 mil anos atrás, após o último período de Glaciação ou Era do Gelo, como é mais conhecida popularmente, o Norte da África apresentava um clima mais úmido e com temperaturas mais baixas que as atuais, contanto com diversos rios permanentes – o famoso Rio Nilo, que hoje atravessa o Egito de Sul a Norte e deságua no Mar Mediterrâneo, naqueles tempos atravessava todo o Norte da África e tinha a sua foz no Oceano Atlântico. Grande parte do território que hoje se encontra soterrado por dezenas de metros de dunas de areia seca era coberto por densas florestas – as partes “mais secas” eram cobertas por vegetação de savana, muito parecida com o nosso Cerrado. Todos os animais africanos que você costuma ver nos documentários como elefantes, girafas, zebras, antílopes, rinocerontes, hipopótamos, macacos e aves de todos os tipos se espalhavam por todo esse território. Pinturas rupestres deixadas pelos antigos habitantes da região em pedras espalhadas por todo o deserto do Saara mostram cenas onde aparecem todos esses animais. Se você pudesse viajar no tempo e desembarcar no meio desse território, nada lhe lembraria a imagem atual do Saara.

Esse clima e vegetação permaneceram inalterados até um período entre 8 e 10 mil anos atrás, quando o nosso planeta sofreu um a leve alteração no seu eixo de rotação, que foi suficiente para alterar a incidência solar no Norte da África e provocar uma alteração climática nos regimes de umidade e temperatura. Alguns cientistas afirmam que essa mudança ocorreu a menos tempo, há cerca de 5 mil anos atrás, mas com as mesmas consequências – as florestas retrocederam lentamente até desaparecer e as áreas de savana se ampliaram. É aqui que entra em cena uma tese interessante, resultado de uma série de pesquisas publicadas nos últimos anos (a pesquisa mais recente foi publicada no último mês de março), para a qual devemos prestar atenção: o processo de desertificação do Norte da África que levou ao surgimento do Saara foi acelerado por ações humanas – evidências arqueológicas indicam que o avanço da criação e pastoreio de animais a partir de 10 mil anos atrás foi acompanhado de um processo de substituição de trechos de matas por pastagens (qualquer semelhança com a queima de árvores da caatinga para a formação de campos não é mera coincidência). Sem a proteção dessas matas e com o avanço das mudanças climáticas naturais e de redução das chuvas, essas regiões tiveram um processo mais rápido de desertificação. O resto é história e geografia.

Estudos científicos desta magnitude, envolvendo uma região tão grande e complexa, é claro, vão necessitar de muitos e muitos anos mais para aprofundar as pesquisas e comprovar todos os resultados nos campos da arqueologia, geologia, botânica, zoologia, geografia física e humana, meteorologia e climatologia, história entre outras ciências. Porém, a analogia entre uma ancestral superexploração dos recursos naturais de áreas de antigas savanas no Norte da África e os processos de desertificação observados em áreas da Região do Semiárido brasileiro devem servir como um alerta. Como descrito no post anterior, as áreas em processo de desertificação grave no Brasil já somam 230 mil km² somente em áreas da caatinga, além de uma área com 69 mil km² na região Norte do Estado de Minas Gerais – lembrando que estas duas regiões concentram a maior parte da bacia hidrográfica do Rio São Francisco. A derrubada de árvores dos caatingais e do agreste para uso da madeira e da lenha, as queimadas para preparação do solo para agricultura e para formação de pastos, além da criação extensiva de animais – principalmente os caprinos, são ações humanas que, comprovadamente, estão transformando terrenos férteis em áreas desérticas, onde os solos ficam imprestáveis para agricultura e formação de pastos. Muitos de vocês podem até pensar que este processo de desertificação se deve as poucas chuvas que caem nestas regiões – a precipitação média anual de chuvas na nossa Região do Semiárido está entre 200 mm e 400 mm, superior àquela de cidades importantes como Barcelona e Paris, e muito acima da precipitação média no Deserto do Saara, que se situa entre 100 e 150 mm de chuva durante o ano.

A soma de todos estes problemas ambientais somado à superpopulação que vive na Região do Semiárido colocam o Rio São Francisco cada vez mais sob estresse (ou stress) – toda a região da sua bacia hidrográfica está com seus biomas sob severa pressão ambiental e as necessidades de água da população não param de aumentar. É uma conta que hoje já não fecha e tem todos os componentes para piorar a longo prazo.

A DESERTIFICAÇÃO E OS RISCOS PARA O SEMIÁRIDO NORDESTINO E O NORTE DE MINAS GERAIS

Desertificação

Ao longo de toda uma sequência de publicações foi possível mostrar todo um conjunto de problemas ambientais que, desde os tempos do início da nossa colonização, estão degradando e destruindo gradativamente o nosso bom e velho Rio São Francisco. Se você leu e prestou atenção nos textos, o que vem acontecendo com as águas do Velho Chico é, em grande parte, reflexo das agressões antrópicas aos diversos biomas das áreas da bacia hidrográfica: problemas ligados ao desmatamento, mineração, lançamento de esgotos e agricultura entre outros; problemas exclusivos nas águas estão ligados aos muitos represamentos feitos para a construção de hidrelétricas, criados sem maiores preocupações com os impactos ambientais. De todos os biomas atravessados pelas águas do Rio São Francisco, a caatinga é o ambiente mais alterado e degradado, onde os problemas estão atingindo uma proporção catastrófica em várias regiões: a desertificação.

De acordo com a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, a definição deste fenômeno “é a degradação da terra nas regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, resultante de vários fatores, entre eles as variações climáticas e as atividades humanas”. Em diversas regiões do mundo estão ocorrendo diversos processos de desertificação – no Brasil, a Região Nordeste é a que apresenta um maior número de áreas afetadas gravemente por processos de desertificação, onde se estima um total de 230 mil km² de áreas da caatinga em processo extremo de desidratação (graves ou muito graves), estágios em que os solos tendem a se tornar imprestáveis para qualquer uso. No Norte do Estado de Minas Gerais, existe uma área de 69 mil km² em risco extremo de desertificação, englobando um total de 59 municípios nas regiões do Vale do Jequitinhonha e Mucuri. Para que você tenha ideia da área total destas duas regiões em risco graves ou muito graves de desertificação, ela é maior que a soma das áreas dos Estados de São Paulo (248 mil km²) e Rio de Janeiro (43,7 mil km²). Se consideradas todas as áreas do país em risco de desertificação, incluindo-se aquelas em risco inicial, baixo e intermediário, chegamos aos 900 mil km².

O Estado de Alagoas é um dos mais afetados pelo processo, com 62% dos municípios apresentando áreas em processo de desertificação, sendo que os casos mais graves são encontrados nos municípios de Ouro Branco, Maravilha, Inhapi, Senador Rui Palmeira, Carneiros, Pariconha, Água Branca e Delmiro Gouveia. No Estado da Bahia, uma área com extensão de 300 mil km² no sertão do São Francisco tem solos que já não conseguem reter água, sinal de alerta para o risco de desertificação; os municípios ribeirinhos do Rio São Francisco de Petrolina, em Pernambuco, e de Paulo Afonso, na Bahia, têm áreas mapeadas em estado crítico de desertificação, que ameaçam, respectivamente, 290 mil e 108 mil habitantes. Estes são apenas alguns números deste gravíssimo processo de destruição dos solos.

Além das áreas nos antigos domínios da Zona da Mata nordestina, o desmatamento afetou fortemente as áreas da caatinga e do agreste, onde as árvores foram queimadas sucessivamente para ampliação dos campos para a pastagem dos bois, tema que tratamos em postagens anteriores. Além dessa destruição progressiva e histórica, a vegetação restante continua sofrendo sistematicamente desmatamentos para exploração da madeira, usada como material para a construção de casas e para a fabricação de móveis, portas e janelas; como lenha (que responde por 30% da energia utilizada na Região Nordeste) e até mesmo para uso como mourões de cercas de arame farpado. Em décadas passadas, milhares de árvores da região da caatinga foram derrubadas para a fabricação de dormentes para as ferrovias construídas na região – para que você tenha ideia do que foi a destruição causada por essas obras, calcula-se que cada quilômetro de trilhos assentados utilizou dormentes construídos com a madeira de 500 árvores.

Além dos impactos causados pela destruição das matas a “ferro e a fogo”, como costuma se dizer, existe uma causa importante de desertificação nem sempre levada muito a sério: os rebanhos de cabras e bodes do sertão. O botânico Alberto Loefgren (1854-1918), sueco de nascimento e depois radicado no Brasil, estudando a devastação das árvores e das matas nas terras do Ceará, atribuiu um papel importante nesta degradação vegetal aos rebanhos soltos na região:

“Outro fator não desprezível na devastação das matas, ou pelo menos para conservar a vegetação em estado de capoeira, são as cabras. Sabe-se quanto este animal é daninho para a vegetação arborescente e arbustiva e como a criação de cabras soltas no Ceará é, talvez, maior que a do gado, sendo fácil imaginar-se o dano que causa à vegetação alta”.

Além da retirada de lenha e das cabras, a degradação dos biomas que levam à desertificação continua a ocorrer diariamente: vegetação e terra sofrem com queimadas frequentes para preparação dos solos para agricultura e para pecuária, destruição de matas que protegem as nascentes e os rios do assoreamento e até os sistemas de irrigação, que captam água em excesso, comprometendo cursos d’água e causando salinização do solo, além da mineração e extração de argila do leito de rios para abastecer a indústria de cerâmica. Os solos desertificados que surgem, tem suas areias carregadas pelos ventos e pelas águas das poucas chuvas, contribuído cada vez mais para o assoreamento dos raros rios permanentes da região, como o Rio São Francisco.

Continuamos no próximo post.

A QUEIMA DA CAATINGA NORDESTINA PARA A FORMAÇÃO DE CAMPOS DE PASTAGEM

Caatinga

Para quem não é sertanejo da gema, especialmente os nascidos nas regiões sul e sudeste, falar em caatinga traz imediatamente à memória as imagens de árvores retorcidas e secas, cercadas de gado magro e secura por todos os lados. No meu caso, essa imagem foi formada quando criança, primeiro pela leitura do livro, depois assistindo ao filme Vidas Secas, um clássico de nossa literatura – a saga do personagem Fabiano e de sua família fugindo da seca, seguidos de perto pela cachorra Baleia, foi marcante. Essa imagem caótica e idealizada da seca na região da caatinga fica ainda mais difícil de ser entendida quando se ouvem os relatos das belezas e da fartura do mesmo sertão pelas palavras dos muitos sertanejos que vivem nas grandes cidades, especialmente em São Paulo, lar de uma das maiores concentrações de nordestinos por quilômetro quadrado em todo o mundo. Vamos tentar mostrar o que é a Caatinga e os seus problemas:

A Região do Semiárido (ou Domínio da Caatinga) compreende 925.043 km², ou seja, 55,6% do Nordeste brasileiro. Estima-se que uma população de 23,5 milhões habite a região (dados de 2014). A Caatinga é uma região semiárida única no mundo, sendo, provavelmente, o bioma brasileiro mais ameaçado e já transformado pela ação humana. Engloba áreas dos estados nordestinos do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas e Bahia, possuindo o mais baixo índice pluviométrico do território brasileiro. Uma microrregião do Norte do estado de Minas Gerais, também de clima semiárido é associada ao sertão Nordestino numa conceituação geográfica conhecida como Polígono das Secas.

A vegetação, em função do clima e dos tipos de solo, pode ser dividida, de forma muito rudimentar em três áreas: o agreste, a caatinga e o alto sertão. Cada uma destas áreas possui uma quantidade imensa de subdivisões dos tipos de vegetação, formando biomas independentes e completos. Pela sua maior extensão e importância, vamos nos concentrar nas zonas da caatinga. Ao contrário da imagem estereotipada de árvores eternamente secas e retorcidas, a vegetação do sertão é altamente especializada em função do clima e acompanha a disponibilidade da água: quando chove, a vegetação se apresenta verdejante – já em épocas de seca, as folhas das árvores caem como forma de conservar a energia das plantas e se sobressaem as cactáceas como o mandacaru, o xiquexique e a coroa-de-frade. Um exemplo da adaptação da vegetação do sertão é a babugem, uma vegetação rasteira de rápido crescimento, que em poucos dias pinta o chão da caatinga de verde, a cor da esperança – o sertão renasce das cinzas tal qual a mitológica fênix. A foto que ilustra este post mostra uma área da caatinga no Rio Grande do Norte após uma boa temporada de chuvas.

Conforme já comentado em postagens anteriores, os conflitos entre bois e canaviais resultou na expulsão das boiadas rumo ao sertão nordestino, um ecossistema extremamente rico em espécies animais e vegetais adaptadas a uma condição climática específica e com estoques de recursos hídricos bem inferiores aos da Zona da Mata. A chegada de imensos rebanhos de bois, um animal de grande porte e com grandes necessidades calóricas e de água, teve impacto imediato na caatinga, que mostrou não possuir recursos naturais suficientes para absorver e manter tal volume de criaturas. Percebendo desde cedo que faltavam pastagens para tantos bois, esses primeiros boiadeiros adotaram uma prática nefasta do ponto de vista ambiental: grandes queimadas foram feitas na região dos caatingais com o objetivo de ampliar os horizontes e permitir a ampliação das áreas de campo – ou seja, aumentar as áreas de pastagens para a criação e engorda de rebanhos de bois, cabras, bodes, ovelhas e de toda espécie de equinos e muares. Simples assim.

É praticamente impossível saber a condição da região da caatinga antes da chegada das grandes boiadas – nunca houve nenhuma grande expedição cientifica aos sertões para estudos da flora e da fauna nos primeiros tempos da colonização. As primeiras expedições exploratórias que alcançaram o sertão Nordestino, ainda nos primeiros tempos da colonização, buscavam especialmente ouro e pedras preciosas. Encontraram uma terra de clima e vegetação bastante diferente da luxuriante vegetação da Mata Atlântica litorânea, tribos indígenas hostis e nenhuma evidência de ouro ou pedras preciosas. O que se pode afirmar com absoluta certeza é que a aridez extrema que encontramos em algumas partes da região do semiárido atualmente não é natural – foi provocada e/ou ampliada pelas ações humanas ao longo dos últimos séculos. Preste atenção neste depoimento de Euclides da Cunha (1866-1909):

“Ainda em meados deste século, no atestar de velhos habitantes das povoações ribeirinhas do S. Francisco, os exploradores que em 1830 avançaram, a partir da margem esquerda daquele rio, carregando em vasilhas de couro indispensáveis provisões de água, tinham, na frente, alumiando-lhes a rota, abrindo-lhes a estrada e devastando a terra, o mesmo batedor sinistro, o incêndio. Durante meses seguidos viu-se no poente, entrando pelas noites dentro, o reflexo rubro das queimadas.”

Diferente dos desmatamentos na Zona da Mata nordestina e mineira, onde há um volume muito maior de chuvas, a destruição de grandes trechos da caatinga provocou um menor carreamento de sedimentos para a bacia hidrográfica do Rio São Francisco. Porém, a destruição dos caatingais e a superexploração dos solos na formação de pastagens criou um outro gravíssimo problema: a desertificação e a erosão dos solos arenosos pelos ventos.

Falaremos disto no próximo post.