OS RISCOS DE COLAPSO NA BARRAGEM DE SOBRADINHO

Uvas do Rio São Francisco

O Lago de Sobradinho vive seu pior momento – o nível das águas está abaixo dos 15% da capacidade total, o volume mais baixo desde a formação do Lago há 38 anos. A CHESF – Companhia Hidrelétrica do Rio São Francisco, foi obrigada a reduzir a vazão para 650 m³/s, a menor de sua história, como uma forma de evitar que o reservatório entre no chamado “volume morto”. A mesma medida foi estendida à Usina Hidrelétrica de Xingó já na região do baixo Rio São Francisco. Essa redução de vazão está criando uma série de problemas na região da foz do Velho Chico que, sem forças para enfrentar as águas do Oceano Atlântico, sofre cada vez mais com a intrusão das águas salgadas na calha do Rio, evento que está afetando o abastecimento de dezenas de cidades, a agricultura, a navegação, a pesca e a vida de dezenas de milhares de habitantes locais.

A situação seria menos preocupante se o fenômeno da estiagem não persistisse há cinco anos. A primeira vista, poderíamos associar o baixo volume de águas no reservatório à seca que vem assolando toda a região do Semiárido por este mesmo período – porém, conforme já comentamos em post anterior, 75% dos caudais da bacia hidrográfica do Rio São Francisco vêm das áreas do Cerrado no Estado de Minas Gerais que, apesar de não viver em seus melhores períodos de chuvas, não justificaria sozinho a uma redução tão grande do volume de águas do Lago de Sobradinho. Podemos então concluir que os problemas vividos hoje em Sobradinho representam toda a somatória de problemas ambientais demonstrados rapidamente nesta sequência de postagens; ou seja – uma espécie de “prêmio” pelo conjunto das obras.

A traumática construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho forçou a remoção e o deslocamento de aproximadamente 75 mil pessoas, liberando as terras que viriam a ser alagadas pelo enchimento do Lago, conforme apresentado no último post. Aliás, a construção de barragens para o abastecimento de água ou para a geração de energia elétrica sempre produz o deslocamento forçado de grandes contingentes de populações ribeirinhas, as quais, sem uma devida compensação financeira ou apoio para o recomeço da vida em outra região, correm sérios riscos de marginalização. A recente construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Estado do Pará, é um exemplo desse processo nefasto – muitos ribeirinhos deslocados da região por causa das obras incharam a periferia da cidade de Altamira, que já está enfrentando sérios problemas de falta de infraestrutura de serviços públicos e apresentando um aumento dos índices de violência.

Deixando o problema específico das populações deslocadas para uma outra postagem, o enchimento do Lago de Sobradinho criou uma nova paisagem ecológica na região do Semiárido – um grande espelho d’água razoavelmente estável numa região carente do recurso. Essa mudança na paisagem estimulou todo um conjunto de mudanças na região, especialmente no estímulo à produção agrícola irrigada – a região se transformou, ao longo de várias décadas, num importante polo de produção de frutas, inclusive para exportação, proporcionando o chamado “emprego e renda” para milhares de sertanejos. O “Vale do Rio São Francisco” também se tornou a denominação de origem de várias linhas de vinhos regionais, com parreirais irrigados com as águas do Velho Chico (vide foto). Apesar da forma traumática como foi levado a cabo, o represamento do Rio São Francisco atendeu aos objetivos estabelecidos pelo antigo regime militar: proporcionar a regularização da vazão do Rio, gerar energia elétrica e estimular a produção agropecuária pelo aproveitamento das águas. O baixo nível das águas do Lago de Sobradinho nos últimos anos tem colocado tudo isso perigosamente em cheque.

Os produtores de frutas da região vem amargando sucessivas perdas de produção e enormes prejuízos financeiros criados pelas dificuldades na captação de água para a irrigação de suas plantações. Com a redução do volume de água armazenada no Lago de Sobradinho, a linha de margem passou a sofrer um forte e constante recuo, obrigando os produtores a instalar tubulações cada vez mais extensas e de bombas cada vez mais potentes a fim de conseguir irrigar as suas plantações – em alguns lugares a água recuou vários quilômetros, inviabilizando a produção rural.

A produção de energia elétrica na Usina de Sobradinho também corre riscos – o funcionamento das unidades geradoras depende do fluxo constante de um certo volume de água descendo a partir de uma altura mínima, o que garante a energia potencial necessária para girar as turbinas. Com a queda contínua do nível do reservatório, o desnível mínimo para o acionamento das máquinas é atingido e a produção de energia corre o risco de ser reduzia ou interrompida.

Em resumo – o Lago de Sobradinho se transformou numa vitrine de todos os problemas ambientais, econômicos e sociais vividos em toda a bacia hidrográfica do Rio São Francisco. A coisa é muito mais séria do que pode aparentar e exige mudanças drásticas na relação entre os homens e as águas, de preferência enquanto ainda existir alguma água.

ADEUS REMANSO, CASA NOVA, SENTO-SÉ E PILÃO ARCADO

Sento Sé

A construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho na década de 1970 foi decidida, junto com tantas outras grandes obras de infraestrutura, nos gabinetes do governo militar, sem consultar o povo, sem maiores preocupações com meio ambiente ou com os impactos negativos que o represamento do Rio São Francisco poderia produzir no futuro. Sobrava dinheiro no mercado internacional para empréstimos para os países em desenvolvimento e os planejadores oficiais da pátria tinham centenas de projetos faraônicos prontos para serem colocados em prática.  Alguma autoridade com o peito cheio de medalhas tomou a decisão e disse “faça-se”. Ninguém questionava uma ordem dessas naquela época.

Calcula-se que 12 mil famílias, o que corresponde a aproximadamente 70 mil pessoas, tiveram de ser removidas das áreas que seriam alagadas após a formação do Lago de Sobradinho. Essa população foi remanejada para outras regiões do semiárido baiano. Quatro cidades localizadas dentro da área de inundação da represa – Remanso, Sento-Sé (vide foto), Casa Nova e Pilão Arcado tiveram as suas áreas urbanas transferidas para outras regiões – as ruínas das antigas casas, igrejas, mercados e demais construções sumiram sob as águas quando o lago encheu. A propaganda oficial da época enalteceu a capacidade das empresas de engenharia brasileiras, falou dos milhares de Mega Watts de energia elétrica que seriam gerados em prol do desenvolvimento da Região Nordeste e outras coisas na linha da “patriotada”. Eu era adolescente na época e, sinceramente, não lembro de ter ouvido falar do drama social de dezenas de milhares de pessoas que, de uma hora para outra, tiveram de abandonar as suas terras e casas, para dar lugar as águas de uma represa.

Os cantores Sá e Guarabyra lançaram na época uma música de protesto contra a construção da represa, que falava da expulsão dos moradores e da destruição das cidades. O nome da música, bastante oportuno aliás, é Sobradinho – um pequeno trecho:

Adeus Remanso, Casa  Nova, Sento Sé
Adeus Pilão Arcado, vem o rio te engolir
Debaixo d’água lá se vai a vida inteira
Por cima da cachoeira o Gaiola vai subir
Vai ter barragem no salto do Sobradinho
E o povo vai se embora com medo de se afogar
O sertão vai virar mar…

Eu já trabalhei em algumas obras viárias e de saneamento básico onde o projeto exigia a desapropriação de imóveis dentro da área urbana – este é um processo lento, burocrático e cheio de idas e vindas, que normalmente é feito por pessoas e empresas especializadas no assunto. Sempre que surge a notícia de desapropriação de imóveis para uma obra pública, os preços dos imóveis no local aumentam de preço de maneira “milagrosa”, surgem escritórios de advocacia especializados para defender o direito dos moradores entre outros percalços. Às vezes, alguns projetos acabam sendo mudados de forma a se fugir de alguma desapropriação difícil. Em áreas rurais as negociações costumam ser um pouco mais fáceis. Na década de 1970, em pleno regime militar, não havia tempo para muita conversa – se foi decidido que a obra seria feita naquele lugar, o mais sensato era arrumar as malas e aceitar os termos do acordo. O progresso e o bem estar da nação estavam em primeiro lugar.

No sertão baiano, longe dos olhos do grande público, a máquina governamental usou de toda a sua força (além das falcatruas privadas sobre as quais comentei em meu último post) para expulsar milhares de pequenos agricultores de suas terras (calcula-se que 80% dos desapropriadas eram de áreas rurais) – esses agricultores acabaram dispersos por todo o semiárido, instalados em terras de qualidade muito inferiores às margens férteis do Rio São Francisco; nas áreas urbanas que seriam alagadas, os planejadores construíram novos imóveis em terrenos mais altos e transferiram os moradores – se havia alguma relevância histórica, artística ou arquitetônica nas antigas cidades, azar delas. Passados quase quarenta anos da conclusão das obras da barragem de Sobradinho, ainda existe muita mágoa, tristeza e luta por compensações morais e econômicas por parte desses antigos moradores, organizados em diversos movimentos sociais.

Existe um outro lado nesta história, comum a outras barragens construídas em todos os cantos do país – quem tem acesso privilegiado e antecipado a informações sobre uma obra de barragem, além de saber quais serão as áreas que serão inundadas, sabe também quais serão as terras que, após a formação do lago, terão localização e vista privilegiada com a frente voltada para as águas. Pequenas propriedades em zonas áridas e distantes do Rio São Francisco foram arrematadas por baixos preços por “empreendedores” com bons amigos no governo – após o enchimento do lago, as áreas agora supervalorizadas pelo fácil acesso as águas, foram transformadas em plantações irrigadas, fazendas de lazer, pesqueiros, hotéis fazendas, marinas entre outras ocupações privilegiadas. Quem tem bons amigos, tem “tudo”.

Quando se fala em Sustentabilidade, não há como separar os problemas ambientais, sociais e econômicos – e Sobradinho é um grande exemplo disto.

 

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A CONSTRUÇÃO DA USINA HIDRELÉTRICA DE SOBRADINHO

Sobradinho

Há mais ou menos vinte anos atrás, durante uma viagem de trabalho ao Recife, ouvi um relato vergonhoso de um empresário local sobre a origem de sua fortuna. Visivelmente alterado pelo álcool durante um jantar, o homem começou a se gabar de suas realizações e, num determinado momento, falou que na época da construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, ele e um grupo de amigos tinham acesso a informações confidenciais sobre as áreas que seriam desapropriadas para a formação do lago e também quais valores seriam pagos em indenização aos proprietários das terras. Muita gente fez fortuna usando este mesmo artifício em inúmeras outras obras por todo o Brasil. Com apoio de corretores de imóveis locais, eles visitavam as terras e convenciam os proprietários, em sua maioria gente simples e analfabeta, que as águas do lago iriam inundar as terras e que eles não receberiam nenhuma indenização. 

Com muita conversa e apresentação de dinheiro vivo, o grupo arrematava as terras a preços irrisórios; com a documentação regularizada nos cartórios locais, o grupo apresentava as escrituras ao departamento da concessionária responsável pela construção e embolsava o valor integral da indenização. Repetido algumas centenas de vezes, o golpe gerou grandes lucros para o grupo e transformou muita gente pobre em miserável. Interessante que durante a elaboração do meu TCC – Trabalho de Conclusão de Curso, de Educação Ambiental entre os anos de 2004 e 2005, ouvi exatamente a mesma história de antigos moradores de áreas desapropriadas para a construção das represas do Sistema Cantareira no interior do Estado de São Paulo: os mesmos vivaldinos com acesso a informações privilegiadas e gente pobre vendendo suas terras a preço de banana. 

A história de Sobradinho começa no final da década de 1960, época em que o Governo Militar criou a ideologia do “Brasil Grande” e elaborou projetos de grandes obras e empreendimentos bilionários, que prometiam transformar o nosso país em uma das grandes potências mundiais. Entre rodovias, pontes e portos, os planejadores federais criaram planos para a construção de grandes usinas hidrelétricas, que forneceriam a energia necessária para o “país do futuro” – a Usina Hidrelétrica de Sobradinho tornaria a região Nordeste autossuficiente em energia elétrica e a sua barragem regularia as vazões no baixo rio São Francisco. 

Sobradinho começou a ser construída em 1973, num trecho do rio São Francisco a 40 km a jusante das cidades de Juazeiro, no Estado da Bahia, e de Petrolina, em Pernambuco. A Usina foi projetada para gerar 1.050 MW de energia elétrica a partir de 6 unidades geradoras com potência unitária de 175.050 KW. A barragem teria um comprimento total de 12,5 km, com uma altura máxima de 41 metros. A usina entrou em operação em 1979.

Vejam um filme oficial do Governo da época sobre a construção de Sobradinho:

O lago formado a partir da construção da barragem de Sobradinho possui uma capacidade de armazenamento total de 34 bilhões de metros cúbicos de água, com um espelho d’água máximo de 4.214 km². É o maior lago artificial do Brasil em área ocupada e o segundo do mundo, só ficando atrás do Lago Volta na África. Quando o Lago atinge a sua cota máxima de armazenamento, o espelho d’água atinge um comprimento de 350 km e uma largura entre 10 e 40 km. Muitos sertanejos costumam lembrar da profecia de Antônio Conselheiro (1830-1897), que dizia que “o sertão vai virar mar e mar vai virar sertão” ao se referir ao Lago de Sobradinho. 

Ninguém conseguiria construir uma obra tão grandiosa sem gerar impactos sociais, econômicos e ambientais. Muitos desse impactos foram minimizados pela propaganda oficial da época, que tudo fez para destacar apenas os impactos positivos da obra. De acordo com o Movimento Nacional dos Atingidos por Barragem (MAB), foram retirados das áreas alagadas cerca de 70 mil habitantes, sendo aproximadamente 80% deste grupo formado por pequenos produtores rurais e seus familiares. Sete municípios tiveram áreas inundadas: Casa Nova, Sento-Sé, Pilão Arcado e Remanso, que tiveram as suas sedes transferidas e foram bastante afetados; e mais Juazeiro, Xique-Xique e Barra, que sofreram menores impactos. Esses pequenos produtores ocupavam as férteis planícies ao longo das margens e ilhas, adubadas naturalmente pelas cheias anuais do rio São Francisco. Após a desapropriação compulsória, muitos desses antigos produtores foram reassentados em áreas da caatinga e com condições muito menos favoráveis para a produção agrícola. 

No próximo post vamos falar um pouco sobre o traumático processo de transferência compulsória dessas populações. 

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ADEUS REMANSO, CASA NOVA, SENTO-SE E PILÃO ARCADO

OS RISCOS DE COLAPSO NA BARRAGEM DE SOBRADINHO

SURUBIM: O PEIXE QUE JÁ FOI SÍMBOLO DO RIO SÃO FRANCISCO

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EROSÃO E SEDIMENTAÇÃO NA FOZ DO RIO SÃO FRANCISCO

Foz do Rio São Francisco - Márcio Fernandes - Estadão

Tecnicamente falando, a foz do Rio São Francisco é considerada um delta – um conjunto de sedimentos formado pelos materiais trazidos pelas correntes do Rio ao longo do tempo. Os sedimentos carregados e acumulados constantemente pelas águas fluviais são erodidos pelas correntes marinhas, mantendo o ambiente em equilíbrio. Ambientes deltáticos são complexos e multifacetados, apresentando ambientes característicos: águas fluviais e marinhas; lagoas, pântanos e planícies inundáveis; praias, mangues e matas, entre outros. O equilíbrio entre as forças do mar e do rio está no centro da vida de um delta.

Na foz do São Francisco, com a redução dos caudais do Rio, esse equilíbrio foi comprometido e a erosão do delta tem crescido em ritmo acelerado, com as águas salinas avançando ferozmente terra adentro. A redução da vazão do Rio São Francisco, que estamos comentando há algumas postagens, tem ocasionado uma redução da força das águas do rio contra o mar, o que tem impedido o transporte e acúmulo de sedimentos na região do delta; sem a reposição dos sedimentos perdidos para a erosão marinha, a linha de costa é cada vez mais afetada pelas correntes marinhas, com as ondas impactando a costa com cada vez mais energia. Uma outra fonte de perda de sedimentos nos depósitos do delta se dá pela força dos ventos, que carrega fragmentos de areia, silte e argila, e os espalha continente a dentro – o avanço das dunas na região de Piaçabuçu é o resultado deste processo. As areias já encobrem uma área total de 50 km², com dunas com mais de 30 metros de altura, que continuam avançando cada vez mais, para deleite dos turistas e preocupação para os moradores locais.

Um exemplo didático do avanço do mar contra a linha da costa na região da foz do Rio São Francisco pode ser verificado in situ, no local onde já existiu um antigo povoado de nome Cabeço, que pertencia ao município de Brejo Grande no lado sergipano da foz. Até 1997, Cabeço tinha aproximadamente 200 moradores, a maioria pescadores, contando com perto de 50 casas, uma igreja e uma escola. Nesta época, havia um farol marítimo nas proximidades do povoado, instalado num ponto distante 2 km do oceano. Com as alterações nos sistemas de correntes marítimas, as ondas passaram a avançar contra a linha da costa onde ficava o povoado, destruindo sistematicamente todas as construções. Só restou o antigo farol (vide foto) que mesmo inclinado continua a resistir bravamente ante o avanço do mar. Este farol está agora 300 metros mar adentro.

Esse notável avanço do mar coincide com a redução sistemática dos volumes de água do Rio São Francisco após a construção das barragens de Sobradinho, Paulo Afonso IV e Moxotó. Aqui é importante deixar um registro de cautela porque, apesar de todas as evidências, não é possível afirmar cientificamente que a construção dessas barragens seja a única causa dos processos de erosão na região do delta do Rio São Francisco – existem outros pontos do litoral brasileiro que sofrem processos erosivos semelhantes sem que haja interferência de barragens. Mas, como diz um antigo ditado, onde há fumaça há fogo.

Com o represamento das águas do São Francisco, uma parte importante dos sedimentos, que antes eram carregados pelas águas do Rio na direção da foz, passou a ficar retida nas barragens. Isso somado à redução dos caudais, muito provavelmente, desencadeou a desestabilização e a erosão dos bancos de sedimentos na região do delta, tendo como consequência uma alteração na dinâmica das correntes e marés, facilitando o avanço das ondas contra a linha de costa e a erosão das praias, a intrusão da água marinha no canal do Rio, a redução dos recursos pesqueiros, entre outros problemas já comentados.

As populações tradicionais que habitam a região e que historicamente sempre dependeram das águas do Rio são as que mais sentem os problemas no seu dia a dia. Estudos indicam que a atual produção de pescados (peixes nobres e camarões) é de apenas 1/10 do que era antes da construção das grandes barragens. Pescadores mais antigos falam da antiga fartura da pesca, quando grandes dourados, surubins e piaus sobrecarregavam as redes de pesca, garantindo uma ótima renda para as comunidades ribeirinhas.

Enquanto as autoridades e os cientistas debatem os problemas ambientais que assolam a foz do São Francisco, mais de 25 mil ribeirinhos e moradores da região sofrem diariamente e diretamente com a redução do volume dos pescados, com o abastecimento de água com níveis de sal até dez vezes acima do máximo tolerável em água potável, com problemas de navegação e com o uso das águas para a agricultura, com o avanço do mar contra a costa, entre outros problemas.

A vida na foz ou, se preferirem, no delta do Rio São Francisco está cada vez mais inviável para muita gente. Uma vida, cada vez mais, sem perspectivas.

OS RISCOS PARA A NAVEGAÇÃO NO RIO SÃO FRANCISCO

Rio São Francisco em Piranhas

Francisco Adolfo de Varnhagen, o visconde de Porto Seguro (1816-1878) foi um militar, diplomata e, especialmente, um importante historiador brasileiro do século XIX. Em seu primeiro trabalho de história, Notícias do Brasil, escrito entre 1835 e 1838, Varnhagen nos informa que as margens do Rio São Francisco, nos primeiros tempos da colonização, eram habitadas por numerosas tribos indígenas, com destaque para os caetés, tupinambás, tapuias, amorpiras e ubirajaras – essas tribos, em sua língua comum, chamavam o Rio de “Pará”, mesma palavra usada para chamar o mar. Isso significa que, para esses índios, o Rio São Francisco era tão grandioso quanto o mar. Pinturas rupestres milenares, encontradas em diversos sítios arqueológicos da região, mostram representações de índios navegando nas águas do “Pará” em suas pirogas, o que demonstra o quão antiga é a ligação entre esses homens e o Velho Chico na arte da navegação.

Quando se realiza uma pesquisa sobre o Rio São Francisco, é comum se encontrar textos onde se lê a divisão tradicional da bacia geográfica em quatro partes: alto, médio, submédio e baixo Rio São Francisco. Você encontrará também informações que informam que existem dois trechos navegáveis: o primeiro, no médio São Francisco, entre as cidades de Pirapora, no Norte do Estado de Minas Gerais, e Juazeiro/Petrolina, na divisa dos Estados da Bahia e de Pernambuco, com 1.371 km de extensão; o segundo, entre a cidade de Piranhas, Estado de Alagoas, e a foz no Oceano Atlântico, com aproximadamente 208 km de extensão. As clássicas “gaiolas”, embarcações movidas a vapor, usadas por décadas no transporte de passageiros no médio São Francisco, se transfomaram em um dos ícones do Rio – o último destes vapores em operação, o Bernardo Guimarães, tem passado longos períodos ancorado em portos fluviais aguardando condições favoráveis para a navegação. É lamentável falar sobre isso, mas os bancos de areia, a baixa profundidade das águas e os trechos rochosos com pedras aparentes estão dificultando ou até mesmo inviabilizando a navegação em grande parte destes dois trechos, o que inclui transporte de passageiros, de cargas e também as balsas que realizam a travessia de veículos e passageiros em rodovias em diversos pontos do Rio São Francisco. Deixem-me apresentar alguns números para demonstrar o tamanho do problema;

Um estudo publicado no Journal of Climate, da Sociedade Meteorológica Americana, feito por pesquisadores do National Center for Atmospheric Research (NCAR), com sede no Estado americano do Colorado, concluiu que o Rio São Francisco foi o rio Latino Americano que mais perdeu volume de água: 35% de redução em meio século. Os autores do estudo analisaram os registros históricos das vazões dos 925 maiores rios do nosso planeta, entre os anos de 1948 e 2004, e concluíram que os rios das regiões mais populosas estão reduzindo as suas vazões. O estudo mostrou variações no fluxo de água de outros grandes rios brasileiros: o Rios Amazonas e Tocantins perderam, respectivamente, 3,1% e 1,2% do seu fluxo de água; já o Rio Paraná apresentou um aumento de 60% nos seus caudais. O estudo conclui que essas variações se devem principalmente a mudanças nos volumes de chuvas nas diferentes regiões das bacias hidrográficas – ações antrópicas como destruição de matas nativas, mineração e atividades agropecuários também dão suas importantes contribuições. É importante informar que este estudo foi publicado no ano de 2009 e, de lá para cá, a região do Semiárido nordestino vem passando por um período de seca intensa, o que prejudicou ainda mais o volume de água do Rio São Francisco.

No baixo Rio São Francisco, entre outros problemas que já comentamos, a redução no volume dos caudais tem provocado um aumento na área das ilhas – 14,23% de aumento nos últimos 10 anos, e alterações na geometria dos canais, o que tem criado todo o tipo de problemas para a navegação. A ligação de balsa entre Penedo, no Estado de Alagoas, e Neópolis em Sergipe é um exemplo: os comandantes das balsas são obrigados a realizar inúmeros zigue-zagues durante as travessias para fugir dos bancos de areia e trechos com águas de baixíssima profundidade. Na cidade de Piranhas em Alagoas, localizada próxima da barragem de Xingó, a largura do Rio São Francisco já chegou a medir 300 metros – hoje, possui alguns trechos com pouco mais de 50 metros de largura e o antigo canal navegável se apresenta repleto de grandes pedras, o que transformou a navegação num grande risco.

Em resumo – o Rio São Francisco não está nem para os peixes nem para os barcos, para desespero dos homens…

A RIZICULTURA NO BAIXO RIO SÃO FRANCISCO E O AVANÇO DA SALINIZAÇÃO DAS ÁGUAS

Rizicultura

O arroz é uma planta da família das gramíneas e produz o grão responsável pela alimentação de mais da metade da população do mundo. A produção e o consumo de arroz só são superados pelo trigo e pelo milho. Além de fácil preparo, o arroz é um alimento saboroso e saudável, constituído principalmente por carboidratos, proteínas, lipídios, vitaminas e minerais. No Brasil, o arroz faz parte da alimentação diária de milhões de pessoas – estudos indicam que 95% dos brasileiros consomem arroz e mais da metade o fazem no mínimo uma vez por dia. O arroz forma uma dupla perfeita com todos os tipos de feijão, um hábito alimentar que faz parte da identidade cultural de todos brasileiros.

O cultivo do arroz requer água em abundância e necessita de cuidados especiais para se manter a temperatura da planta em condições ideais. As áreas marginais na região do baixo Rio São Francisco vem se transformando em um pólo de rizicultura (nome técnico da produção do arroz) nos últimos anos e está gerando emprego e renda para centenas de pequenos agricultores. A produção de arroz na região do baixo Rio São Francisco, apesar de pouco significativa diante da produção nacional do grão, é de extrema importância econômica e social a nível regional. Com incentivos do Governo Federal, diversos projetos foram implantados na região, com destaque para os perímetros irrigados Boacica (Igreja Nova), Marizeiro (Penedo), Itiúba (Porto Real do Colégio) e em Piaçabuçu, envolvendo cerca de 800 famílias de pequenos agricultores. No perímetro irrigado Betume, no município de Neópolis, Estado de Sergipe, cerca de 450 pequenos produtores cultivam 1.750 ha de arroz. Em alguns perímetros irrigados, é possível obter duas safras de arroz por ano. Levantamentos iniciais apontam que o perímetro Betume atingiu produtividade média de 10,5 toneladas por hectare, o que é praticamente o dobro da produtividade média nacional de 5,4 toneladas de grãos por hectare.

Ao mesmo tempo em que a cultura do arroz cria novas perspectivas econômicas para as áreas marginais do baixo São Francisco, o avanço das águas salgadas do mar calha do Rio adentro cria grandes preocupações e ilustra de modo inequívoco os problemas da salinização das águas nos usos agrícolas. A presença do sal em grandes quantidades na água utilizada na irrigação mata as plantas e, a longo prazo, pode comprometer a fertilidade dos solos, impossibilitando a produção do arroz e de outras culturas irrigadas. Um exemplo do problema da salinização das águas já pode ser constatado em Piaçabuçu, município alagoano na foz do Rio São Francisco, onde o plantio de arroz já está comprometido.

Historicamente, a vazão média das águas do Rio São Francisco na foz no Oceano Atlântico era de 2.943 metros cúbicos por segundo, o que assegurava ao rio uma extraordinária energia para empurrar e manter as águas salgadas do mar distantes da calha do Velho Chico. As sucessivas agressões ambientais, ao longo de séculos de ocupação das margens de todos os rios que formam a bacia hidrográfica, tiveram como consequência uma redução gradual dos caudais, o que gradativamente se refletiu na redução do volume e na energia das águas que chegam na foz do Rio. Ao longo de todo o século XX, especialmente devido à construção de diversas barragens de usinas hidrelétricas, a redução dos caudais aumentou significativamente, tornando ainda mais crítica a luta das águas do Velho Chico contra o avanço contínuo das águas do mar.

Um longo período de seca na região do Semiárido nos últimos anos teve reflexos intensos na bacia hidrográfica do Velho Chico, que está apresentando um dos mais baixos volumes de águas das últimas décadas. Um exemplo desta situação crítica pode ser observado no lago de Sobradinho, que está em um nível crítico, abaixo de 15% da sua capacidade. Para evitar o eminente colapso da barragem, a CHESF – Companhia Hidrelétrica do Rio São Francisco, com autorização do IBAMA – Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, iniciou no último dia 22 de maio uma redução no volume de água liberado pelas barragens de Sobradinho e de Xingó, reduzindo a vazão para 650 m³/s (menos de 1/4 da vazão histórica média).

Com essa vazão, uma das menores já vistas no baixo Rio São Francisco, o avanço das águas salgadas terra a dentro será ainda mais intenso, afetando diretamente o abastecimento de um número ainda maior de cidades e inviabilizando cada vez mais a irrigação de milhares de hectares de áreas agrícolas.

Esse é o mais novo problema, entre tantos outros, vividos pelo nosso tão sofrido Rio São Francisco.

A SALINIZAÇÃO DAS ÁGUAS DO BAIXO RIO SÃO FRANCISCO

Lavadeiras do Rio São Francisco - Mariana Garcia

O consumo de sal de cozinha, conhecido tecnicamente como cloreto de sódio, é fundamental para o correto funcionamento dos organismos de pessoas e de animais. O sal é responsável pelo controle de entrada e saída de substâncias e de água do interior das células, mantendo assim o balanço de nutrientes e de água em nossos corpos. Isso é conseguido com uma ingestão de 6 a 8 gramas de sal todos os dias.

Se consumido na quantidade ideal, o sal aumenta os chamados “movimentos peristálticos” dos intestinos, melhora a digestão, auxilia no funcionamento dos rins e na produção de energia. O sal também auxilia o organismo na reposição do sódio perdido junto com o suor. O consumo excessivo de sal, ao contrário, causa uma série de problemas: o organismo passa a reter grandes quantidades de líquidos, o que provoca o aumento da pressão arterial. Também prejudica o funcionamento dos rins e causa interferências na absorção de cálcio e de nutrientes pelo organismo. Em resumo: quando o assunto é o sal, vale aquele antigo ditado – nem tanto ao mar, nem tanto à terra: tem de se achar um ponto de equilíbrio.

Muitos de vocês que leem esse texto, seja por razões de saúde seja por conta de algum regime para perder peso, deve ter recebido instruções médicas para reduzir ou moderar o consumo de diário de sal que ingere nos alimentos; quando se tem a liberdade de controlar livremente o consumo de sal, sua saúde sempre irá agradecer. Muita gente, ao contrário, até que gostaria de ter esta liberdade de escolha, mas as condições em que vivem não lhes permite qualquer outra opção – estou falando de dezenas de milhares de moradores de regiões lindeiras do baixo curso do Rio São Francisco, na divisa entre os Estados de Alagoas e de Sergipe. Vamos entender melhor isso:

No último post falamos dos problemas enfrentados pela região da foz do Rio São Francisco onde, em função da intensiva redução do volume dos caudais provocado pelo represamento das águas nas barragens das hidrelétricas – em especial Sobradinho e Xingó, as águas do mar estão avançando dezenas de quilômetros terra a dentro. Um sintoma visível dessa salinização das águas do baixo Rio São Francisco são os relatos cada vez mais frequentes, feitos por ribeirinhos e pescadores, que tratam do avistamento e captura de tubarões em trechos do Rio cada vez mais distantes da foz. A alta salinidade da água que permite a sobrevivência de tubarões, é fatal para os seres humanos. A água doce ou potável que todos nós consumimos diariamente é aquela que apresenta uma concentração máxima de sal de 0,5 gramas por litro – já a água salgada ou dos oceanos, apresenta níveis de concentração de sal superiores a 30 gramas por litro; as águas que apresentam níveis de sal intermediários, acima de 0,5 gramas/litro e abaixo de 30 gramas / litro, são chamadas de águas salobras, justamente a classificação em que se encontram as águas do Rio São Francisco em trechos próximos da foz. O consumo de água salobra pelos habitantes da região tem afetado a saúde de muita gente.

No povoado de Potengy, que pertence ao município de Piaçabuçu em Alagoas, temos um exemplo desses problemas: pesquisa realizada por agentes de saúde da comunidade constatou que houve um aumento de 36% no número de moradores hipertensos acompanhados pelas autoridades de saúde. A água captada pela empresa de abastecimento local é retirada diretamente do Rio São Francisco e os processos de tratamento utilizados não conseguem retirar o excesso de sal da água – esse mesmo problema afeta dezenas de cidades nas margens do baixo Rio São Francisco. Para conseguir água fresca, muitos moradores do povoado são obrigados a se deslocar por 7 quilômetros para retirar água de uma cacimba (espécie de poço aberto no solo). A salinidade das águas do Rio São Francisco está afetando gradativamente os aquíferos locais, que produzem água cada vez mais salobra.

Até uma das atividades femininas mais típicas das mulheres ribeirinhas da região – a lavagem de roupas nas águas do Rio, cada vez mais é uma coisa do passado: as roupas ficam mal-lavadas e o sal estraga os tecidos, dizem elas. Para os moradores locais, é cada vez mais revoltante ver águas tão importantes se tornando cada vez mais “imprestáveis” para os usos mais comuns do seu dia a dia.

No próximo post vamos falar dos problemas da salinidade das águas usadas em atividades agrícolas.

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OS PROBLEMAS NO BAIXO RIO SÃO FRANCISCO

Penedo

Consta nos livros de história que a descoberta da foz do Rio São Francisco se deu no dia 4 de outubro do ano de 1501, quando uma expedição exploratória comandada pelo navegador Américo Vespúcio fazia o primeiro mapeamento da costa brasileira. O rio foi batizado em homenagem a São Francisco de Assis, santo homenageado nesta data pelo calendário da Igreja Católica. Segundo o relato desses primeiros exploradores, a força da correnteza do Rio era tão intensa que suas águas doces avançavam até 4 quilômetros mar adentro. Esse fato também é relatado por antigos capitães de navios mercantes que entravam pelo canal do Rio São Francisco em direção da cidade de Penedo (vide foto), no Estado de Alagoas.

A primeira vez que visitei Penedo foi em 1990 – estava passando alguns dias de folga em Maceió e ouvi a recomendação de diversos moradores locais para visitar esta antiga cidade colonial, definida por muitos como a Ouro Preto do Nordeste. Eu nunca havia ouvido falar de Penedo e, curioso, acabei acatando a recomendação. Para minha grata surpresa, descobri que a cidade ficava às margens do lendário São Francisco – o encantamento foi duplo: pela cidade e pelo Rio. Com o passar dos anos, a minha alegria por ter feito essa viagem naquela época só aumentou – menos de quatro anos depois dessa primeira visita ao Rio São Francisco, a Usina Hidrelétrica de Xingó foi inaugurada e, com a redução da vazão do Rio, teve início a acentuada deterioração das condições ambientais na sua foz, que tive o “desprazer” de conferir in loco em uma nova visita no ano de 2007. Vamos entender um pouco disto:

Na época do descobrimento da foz do Velho Chico, conforme comentado em diversas postagens, a Mata Atlântica cobria a faixa litorânea do Brasil, desde o Rio Grande do Sul até o Rio Grande do Norte. No trecho do Nordeste, a Mata tinha uma largura média de  30 km entre o litoral e o Agreste – em alguns trechos, como no caso da região da foz do Rio São Francisco, essa largura podia chegar aos 80 km; como o processo de destruição da floresta começou junto com a colonização da terra e na época não foram feitos estudos sobre os recursos naturais do país, nunca teremos certeza da sua real extensão. O que é certo: em menos de 200 anos, a floresta sucumbiu aos canaviais.

Com a destruição da Mata Atlântica e, especialmente, de extensos trechos das matas ciliares, o assoreamento e o entulhamento de riachos e ribeirões na região do baixo São Francisco se transformou em uma espécie de “parte da paisagem” – muitos pequenos afluentes do Rio São Francisco, que formavam uma extensa rede hidrológica regional, desapareceram ao longo dos séculos. Os volumosos caudais do rio vindos desde os mais distantes sertões sempre mascararam estes problemas, garantindo a presença de água para o abastecimento, navegação e agropecuária – o eventual desaparecimento de uma fonte de água podia ser compensado com a migração da população e das culturas para um outro local São Francisco acima, onde podia se encontrar um outro afluente ainda intacto; a formação de pequenos bancos de areia em trechos do rio principal ou a redução das contribuições destes pequenos rios passava despercebida pela população.

Em décadas mais recentes, após a construção de grandes barragens como a de Sobradinho e a de Xingó, estes problemas aumentaram de forma exponencial, mostrando toda a fragilidade ambiental da região. A redução sistemática do volume de caudais na direção da foz minou as forças do Velho Chico, deixando-o cada vez mais vulnerável ao avanço das águas do mar terras a dentro. Hoje, a salinização das águas do Rio São Francisco é um dos maiores problemas regionais, afetando desde a pesca até a saúde das populações, cada vez mais exposta ao consumo de água com altos níveis de sal – em algumas cidades e vilarejos está acontecendo uma verdadeira epidemia de moradores com hipertensão arterial. Para ter acesso a água potável, moradores das margens do baixo Rio São Francisco precisam, muitas vezes, viajar vários quilômetros em busca de nascentes ou de cacimbas onde a água ainda não está contaminada com altos níveis de sal.

Vamos detalhar isso nas próximas postagens.

“IBAMA AUTORIZA REDUÇÃO DA VAZÃO DO RIO SÃO FRANCISCO PARA 600 m³s.”

Redução da vazão no baixo Rio São Francisco

Ao longo das últimas semanas, temos falado bastante sobre os problemas do Rio São Francisco nas regiões do Cerrado e do Semiárido, que vão desde a destruição da vegetação nativa nas áreas de nascentes dos afluentes à superexploração das águas em toda a bacia hidrográfica. Mas os problemas não param por ai: no Baixo São Francisco, na divisa entre os Estados de Alagoas e Sergipe, os problemas se acumulam. O mais novo deles diz respeito à redução da vazão das águas do Rio, iniciada no último dia 18 de maio – veja a notícia publicada no Portal G1 – Alagoas:

“Descarga mínima começa a ser praticada pela CHESF a partir do dia 18 de maio e deve prosseguir até 30 de novembro deste ano.

Com a autorização do Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para redução da vazão do Rio São Francisco, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf ) já poderá, a partir do dia 18 de maio, iniciar os testes para diminuir a vazão das águas do rio de 700 m³s para 600 m³s.

De acordo com a Autorização Especial N⁰ 11/2017, de 10 de maio de 2017, os testes para as novas reduções nas defluências mínimas devem acontecer nos reservatórios de Sobradinho e Xingó em dois momentos: em Sobradinho a redução vai de 700m³/s para 650m³/s a partir do dia 18 de maio e para 600 m³/s a partir do dia 29 de maio. Já em Xingó, a redução de 700 m³/s para 650 m³/s começa no dia 22 de maio e a partir do dia 29 de maio cai para 600 m³/s.

A autorização de redução da descarga miníma, que já havia sido autorizada pela ANA, mas aguardava parecer técnico do Ibama, está prevista para ser mantida até 30 de novembro de 2017.

Objetivo

De acordo com Agência Nacional de Águas (ANA) a redução das vazões mínimas liberadas visa preservar o estoque de água disponível nos reservatórios da bacia hidrográfica, frente sua importância para o atendimento dos usos múltiplos, em particular ao abastecimento de várias cidades.

No entanto, essa será a maior baixa de redução hídrica no Rio São Francisco, que já vem sofrendo as consequências das reduções de vazões ao longo dos anos. Como consequência, alguns trechos do rio, que ficam mais próximo do mar, vêm sofrendo com a salinização.

A bacia do rio São Francisco vem enfrentando condições hidrológicas adversas nos últimos anos, com vazões e chuvas abaixo da média. Por isso, desde 2013 a ANA vem autorizando a redução das vazões de defluência mínimas nesses reservatórios que, em condições normais, operam com descarga mínima de 1.300 m³/s, conforme previsto na licença ambiental de operação das usinas.

De outubro de 2016 a maio de 2017, choveu 51% abaixo da média para o período, o que faz do período chuvoso de 2016/2017 o pior ano hidrológico para a bacia do São Francisco. O último ano de precipitação acima da média foi em 2011.

Desde então, tem chovido abaixo da média em todos os anos. Em 14 de maio, o volume equivalente dos reservatórios da Bacia do Rio São Francisco acumulava 20,16% do volume útil. Para evitar que o reservatório de Sobradinho comece a operar no volume morto, a ANA apresentou proposta de adoção de medidas preventivas.”

PARACATU: O “RIO BOM”

 

Rio Paracatu

O rio Paracatu era até poucos anos atrás o mais caudaloso afluente do rio São Francisco, contribuindo com 26% do volume total de caudais. Com extensão total de 485 km, sendo aproximadamente 360 km navegáveis, a bacia hidrográfica do Paracatu ocupa uma área equivalente a 8% da área total da bacia hidrográfica do Velho Chico. Era um rio de respeito com lugar de destaque na hidrografia regional.

Em tupi-guarani, Paracatu quer dizer “rio bom”. Conhecedores como ninguém da fauna e da flora, os antigos indígenas tiveram suas razões para dar ao rio tal nome – com margens repletas de pequenas lagoas, o Paracatu era um rio extremamente piscoso e com uma correnteza tranquila por um longo trecho, o que deve ter rendido excelentes pescarias para uma infinidade de gerações destes antigos moradores locais.

Típico rio do Cerrado, o Paracatu nasce no Estado de Goiás, bem próximo da divisa com Minas Gerais, numa região relativamente seca, com baixa pluviosidade, porém, até bem pouco tempo atrás, muito rica em vegetação típica como as veredas de buritis, cerradões e campos cerrados, que eram as nascentes naturais dos cursos d´água que formam ribeirões e rios. O rio Paracatu é retratado por Guimarães Rosa como “o Moreninho”, onde, segundo o escritor, os moradores da região costumavam caçar capivaras. Em sua obra mais famosa – Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa descreveu como ninguém a relação dos habitantes locais com o bioma Cerrado, as veredas ao longo dos cursos d’água, os descampados e as estradas ao longo das margens sutis dos rios da bacia hidrográfica do São Francisco. O narrador-personagem dessas histórias é Riobaldo, um velho jagunço que relembra seus antigos dias, seus amores, medos, frustraçoes e conflitos.

Das narrativas poéticas deixadas por Guimarães Rosa, muito se perdeu. O avanço da agricultura destruiu muitas das belezas da terra descritas em prosa apaixonada pelo eterno viajante dos antigos sertões. A agricultura mecanizada e as grandes pastagens transformaram em simples lembrança a imagem dos antigos homens da terra. Os cavalos foram aos poucos abandonados e as grandes máquinas tomaram os seus lugares nos imensos campos. A tranquila espera pela estação das chuvas foi substituída pelas tubulações dos sistemas de irrigação com pivô central, que arrancam a força as águas dos ribeirões e rios, e as dispersam abundantes sobre a terra seca, fazendo brotar os valorizados grãos. As antigas matas de galeria – as veredas, foram derrubadas para garantir o máximo aproveitamentos dos campos ou para facilitar o acesso das grandes boiadas às beiradas dos rios – como se fosse possível separar as águas das veredas…

Sedentos pelos grãos valiosos, esses incautos homens arrasaram as matas, as margens e as águas. As típicas lagoinhas, que eram uma marca do rio Paracatu, simplesmente desapareceram, levando junto a antiga fartura de peixes. Os fartos caudais viraram algo como caldinhos ralos para a tristeza de todos. O bom rio sentiu muito.

Á primeira vista, o Paracatu continua com sua aparência imponente e curso largo – só aparência: o assoreamento do seu leito chega a representar hoje risco de vida para os “piloteiros” menos experientes, que a qualquer momento podem atingir um banco de areia e acabar virando com sua embarcação. Os pescadores tradicionais do rio e também os amantes da pesca esportiva, que sempre conseguiam capturar belos espécimes de peixes como o dourado e o pintado, hoje reclamam das dificuldades em se capturar um único peixe de qualquer espécie. A destruição das pequenas lagoas acabou com os berçários que eram utilizados pelos alevinos em sua fase de crescimento em seus primeiros meses de vida. A exemplo dos manguezais do litoral que abrigam entre suas raízes aéreas os pequenos habitantes dos oceanos em sua primeira fase da vida, as lagoas marginais do rio Paracatu abrigavam as crias dos peixes do rio, aumentando o número de filhotes que sobreviviam aos primeiros meses de vida e garantiam grandes populações de todas as espécies nas águas largas e profundas. A derrubada das matas ciliares e o desmatamento das terras resultou no carreamento de grandes volumes de sedimentos e no entulhamento do leito dos rios – a típica receita repetida em todos os rios da região.

Além de todo o arcabouço de problemas típicos da bacia hidrográfica do Velho Chico, nós hoje encontramos no rio Paracatu um problema novo: a destruição da prática da pesca esportiva, que atraia um número enorme de aficionados para a região, em busca dos grandes pintados, dourados, cachorras, matrinxãs, piraputangas, trairões entre outras espécies. O velho “rio bom” já não é tão bom assim.

Diadorin, o emblemático personagem de Grandes Sertões: Veredas, deixou seu ponto de vista sobre o lugar: “Depois de Paracatu é o mundo…”

Se o personagem visse o que aconteceu com sua região nos nossos dias, muito provavelmente sua fala seria bastante diferente…