A DESTRUIÇÃO DAS MATAS E DAS FONTES DE ÁGUAS

Derrubada de Mata - Rugendas

Por mais estranho que possa parecer hoje aos nossos ouvidos, acostumados que estamos a ouvir relatos sobre seca no sertão nordestino e problemas no abastecimento de água nas grandes capitais da região, a água era um elemento dominante e abundante na faixa litorânea do Nordeste, o que foi fundamental para a implantação da cultura da cana-de-açúcar. Essa cultura é dependente dos rios, riachos e chuvas que lhe fornecem água para o desenvolvimento das plantas; os engenhos dependiam da força das águas para mover as moendas e das suas vias fluviais para o transporte das canas cortadas dos campos para os centros de produção. Todos os registros históricos dos antigos engenhos nordestinos, como este de Gilberto Freire, sempre citam o nome de algum rio:

“Rios do tipo do Beberibe, do Jaboatão, do Una, de Serinhaém, do Tambaí, do Tibiri, do Ipojuca, do Pacatuba, do Itapuá. Junto deles e dos riachos das terras de massapê se instalaram confiantes os primeiros engenhos. Rios às vezes feios e barrentos, mas quase sempre bons e serviçais, prestando-se até a lavar os pratos das cozinhas das casas-grandes e as panelas dos mucambos (ou Mocambos).”

Com a destruição das matas a ferro e a fogo (a imagem que ilustra este post é uma gravura do pintor alemão Rugendas, que mostra a derrubada de um trecho da Mata Atlântica no início do século XIX), a qualidade e a disponibilidades das águas dos rios da Zona da Mata nordestina entrou em um processo rápido de declínio. Foi iniciado um ciclo de destruição: sem a presença da floresta úmida com suas inúmeras árvores e raízes, as águas das chuvas não conseguem se infiltrar nos solos para a recarrega dos aquíferos que alimentam as inúmeras nascentes, o que reduz o volume de água para os rios tributários; sem essa recarga, muitas nascentes simplesmente secam; sem a proteção das matas ciliares, a erosão do solo pelas chuvas tropicais leva embora em poucos anos a grossa camada de húmus que a natureza levou milhares de anos para formar, impedindo assim o nascimento e desenvolvimento de novas árvores. A descrição a seguir é de Josué de Castro no clássico livro “Geografia da Fome”:

“O homem moderno aperfeiçoou dois inventos capazes de aniquilar por completo a civilização. Um deles é a guerra total, o outro é a erosão mundial do solo. Dos dois, o mais insidioso e fatalmente destrutivo é, sem nenhuma dúvida, a erosão. A guerra desequilibra ou destrói o meio social que é matriz da civilização; a erosão do solo destrói o meio natural que constitui o seu fundamento. A guerra é mais espetacular porque faz ruir cidades, tronos e potências. Mas estas coisas podem ser refeitas. A erosão do solo que, virtualmente, vai destruindo ou arrasando as terras, das quais dois bilhões de indivíduos (texto escrito em 1945) dependem para seu pão de cada dia, alcança uma etapa irreversível na qual o homem e as suas obras serão enterrados sob as areias amontoadas do esquecimento”.

Relatos de antigos cronistas e viajantes que passaram pelas terras do litoral do Nordeste nos primeiros tempos da cultura canavieira ou pelos antigos sertões da Zona da Mata mineira no início do ciclo do ouro, falam de rios caudalosos que antes só podiam ser atravessados de canoa – em nossos dias, esses mesmos rios podem ser atravessados facilmente a pé graças ao contínuo assoreamento e entulhamento dos seus leitos. Eu tenho relatos familiares muito parecidos de rios em Mato Grosso do Sul, como o Rio Coxim, que na década de 1950 era caudaloso e profundo e que hoje pode ser atravessado com água na altura dos joelhos – à semelhança da Zona da Mata nordestina e mineira, as antigas florestas de Mato Grosso também sucumbiram ao machado e a motoserra  e os rios da região hoje pagam o preço do assoreamento.

Nas palavras de Gilberto Freire, as águas límpidas e transparentes que permitiam os banhos de rio, as lavagens de roupas e louças transformaram-se em esgotos:

“O monocultor rico do Nordeste fez da água dos rios um mictório. Um mictório de caldas fedorentas de suas usinas. E as caldas fedorentas matam os peixes. Envenenam as pescadas. Emporcalham as margens. A calda que as usinas de açúcar lançam todas as safras nas águas dos rios sacrifica cada fim de ano parte considerável da produção de peixes no Nordeste.”

Na Zona da Mata mineira a situação não foi muito diferente. Os resíduos e rejeitos da mineração foram carreados para os leitos dos rios e acabaram por envenenar as águas com os mais diferentes tipos de metais, alguns altamente tóxicos como o mercúrio, o níquel, o cádmio e o chumbo; em tempos mais modernos, com o crescimento das cidades e a instalação das grandes indústrias, os rios passaram a receber grandes cargas de esgotos domésticos e industriais. Um exemplo dessa degradação é o Rio das Velhas, um dos mais importantes afluentes do Rio São Francisco, que sofre com o assoreamento, com a destruição das poucas matas ciliares que restaram, com o despejo de esgotos da região Metropolitana de Belo Horizonte e de resíduos de mineração vindos de todos os cantos da sua bacia hidrográfica, apresentando águas malcheirosas e muito degradadas.

Como resultado do intenso e histórico desmatamento de grandes áreas da Zona da Mata, especialmente no Estado de Minas Gerais, o Rio São Francisco tem hoje um volume cada vez menor de água correndo pela sua calha altamente assoreada e entulhada. Essa água, além de pouca, apresenta uma baixa qualidade, com grandes volumes de esgotos e contaminantes de todo o tipo.

A mesma destruição que se deu em áreas da Zona da Mata, também assolou a Caatinga – falaremos disto no próximo post.

A DESTRUIÇÃO DA ZONA DA MATA: A NORDESTINA E A MINEIRA

Carvoaria em Minas Gerais

A destruição da cobertura vegetal de uma região geográfica de clima tropical é uma das causas mais importantes para o assoreamento dos corpos d’água. Sem a proteção da vegetação, removida para permitir atividades agrícolas, pecuárias, de mineração ou simplesmente para uso da madeira, o solo fica exposto à erosão pela chuva e vento, processos que carregam enormes volumes de sedimentos na direção das calhas dos rios. A depender das características físicas do solo, o desmatamento também pode levar a riscos de desertificação, processo já observado em muitas regiões do Brasil. Como a bacia hidrográfica do Rio São Francisco é bastante extensa e atravessa diferentes biomas, vamos dividir a análise dos problemas do desmatamento, começando pela chamada Zona da Mata.

“Os ventos alísios sopram com força o velame da nau; o madeiramento range de popa a proa e vibra à medida que avança rumo à costa. As folhas verdes dos chuços de cana-de-açúcar plantados nas caixas de madeira vibram intensamente, como se soubessem que estão próximos de sua nova morada. Em breve, os diferentes tons de verde da Mata Atlântica sucumbirão ao monótono verde folha da cana-de-açúcar. Grandes clareiras no meio da mata, onde outrora imperava o pau-brasil, estão com os sulcos já arados à espera da saccharum officinarum”, a famosa cana-de-açúcar.

Este texto faz parte da introdução de um capítulo de uma das minhas publicações, onde falo da chegada da cana-de-açúcar em terras brasileiras logo no início da nossa colonização. Há dúvidas históricas sobre o ponto exato do desembarque das primeiras mudas de cana ao Brasil: oficialmente, foi na Capitania de São Vicente – alguns documentos sugerem a chegada da planta nas Capitanias de Pernambuco e Itamaracá um pouco antes. Independentemente do ponto exato da sua chegada, o início do cultivo da cana-de-açúcar no Brasil foi a sentença de morte para uma boa parte da Mata Atlântica na faixa litoral, especialmente na Região Nordeste.

A presença da densa Mata Atlântica era um obstáculo para a agricultura colonial – uma das primeiras providências tomadas pelos novos administradores da terra foi dar ordens para a realização de intensas queimadas para a formação das primeiras clareiras, onde seriam realizados os trabalhos de preparação da terra para o plantio dos primeiros brotos de cana. Pelas imagens disponíveis das grandes queimadas na região da Floresta Amazônica em nossos dias, podemos ter uma ideia muito clara dos incêndios no litoral da Região Nordeste no passado.

Essa destruição da floresta representa apenas uma parte do problema: para cada quilo de açúcar produzido, era necessária a queima de vinte quilos de madeira para gerar a energia térmica exigida pelo processo de produção nos engenhos. Segundo Capistrano de Abreu “tinha cada escravo de cortar e arrumar cada dia uma medida de lenha, alta sete palmos, larga oito, medida de um carro”. Foi esse trabalho sistemático e contínuo que, ao longo de centenas de anos, praticamente dizimou o trecho Nordeste da Mata Atlântica, afetando grandemente um trecho de 100 km no baixo Rio São Francisco, entre o semiárido e a foz, na divisa entre Alagoas e Sergipe. E justamente na foz do Rio São Francisco, no município de Piaçabuçu em Alagoas, é onde se pode ter uma visão hiper-realista dessa destruição: onde no passado existia uma densa cobertura vegetal encontramos hoje um pequeno deserto com dunas de areia com até 50 metros de altura. As dunas fazem a festa dos turistas e já ocupam uma área com 50 km², que continua a crescer sem parar.

Na Zona da Mata mineira a destruição foi a mesma, porém por razões diferentes. Inicialmente, foi a loucura causada pela “febre do ouro” que empurrou centenas de milhares de aventureiros no rumo dos sertões das Geraes. Na busca desenfreada pelo precioso metal, primeiro foram reviradas e vasculhadas todas as pedras e seixos dos rios na busca do chamado ouro de aluvião – esgotadas essas reservas, a busca passou a se concentrar nos barrancos ao largo dos rios, que tiveram toda a vegetação ciliar derrubada e os terrenos revirados, até que se iniciassem os trabalhos de mineração subterrâneos. Como consequência natural, abriram-se clareiras nas matas para a construção dos primeiros povoados e plantações de culturas rudimentares de milho e mandioca para a subsistência das populações. Num segundo momento, foi a necessidade de produção de carvão para o uso nos fornos de fundição de ouro, que levaram ao corte sistemático de madeira nas matas. Com a consolidação de Minas Gerais como um dos grandes produtores nacionais de ferro e aço de todos os tipos, o avanço do desmatamento aumentou exponencialmente – na falta de carvão mineral para queima nos altos-fornos das produtoras do ferro-gusa (estágio de produção inicial do ferro e do aço), foi o carvão de origem vegetal produzido nas pequenas carvoarias familiares que dizimou a Zona da Mata mineira. Além da intensa devastação ambiental, essas carvoarias faziam e ainda fazem uso de mão de obra infantil, o que só aumenta a gravidade do crime ambiental – 90% da Mata Atlântica no Estado de Minas Gerais desapareceu, grande parte nos fornos das carvoarias e altos-fornos das siderúrgicas.

Sem a proteção da Mata, os solos expostos passaram a ser lavados pelas chuvas e milhões de toneladas de sedimentos de todo o tipo passaram a ser carreados para as calhas dos rios – muitos dos grãos de areia, silte e argila arrastados pelos ventos do Oceano Atlântico rumo as dunas de Piaçabuçu foram carreados, primeiro pelas chuvas, depois pelas águas do Velho Chico desde os sertões das Geraes até a sua foz no mar.

Além do assoreamento e entulhamento das calhas dos rios com todos os tipos de sedimentos, a destruição das matas também causa uma redução considerável no volume de águas das nascentes, podendo até mesmo provocar o desaparecimento de muitas delas – falaremos disto no próximo post.

COMO ASSOREAR E ENTULHAR A CALHA DE UM RIO

Assoreamento do Rio São Francisco

No dia 5 de novembro de 2015, o rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração no distrito de Bento Gonçalves, cidade de Mariana – Minas Gerais, mudou para sempre a história do Rio Doce. Calcula-se que 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos minerais e muita lama vazaram após o colapso da barragem, soterrando praticamente todo o pequeno vilarejo e avançando com extrema voracidade e velocidade através da calha do córrego Santarém, atingindo a seguir o Rio Gualaxo e o Rio Doce, cuja bacia hidrográfica abrange 230 municípios nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

O fluxo de lama e rejeitos percorreu toda extensão do Rio Doce atingindo o Oceano Atlântico no dia 22 de novembro. No acidente morreram 19 pessoas, entre trabalhadores da empresa responsável pela barragem e moradores do distrito de Bento Rodrigues. Este “acidente” é considerado o maior do mundo na área da mineração e também o maior acidente ambiental já registrado no Brasil. Passados um ano e meio da tragédia, pode-se afirmar que pouca coisa melhorou nas condições ambientais do Rio Doce e na vida de milhares de famílias afetadas pela tragédia, que criou problemas desde a captação de água para o abastecimento de dezenas de cidades até na inviabilização do trabalho de pescadores.

O acidente no Rio Doce foi um caso extremo – o entulhamento e assoreamento das águas foi muito rápido: em pouco mais de 15 dias todo o meio biótico e abiótico do rio foi comprometido e, segundo alguns especialistas, a recuperação “possível” pode levar até um século; o termo possível foi usado porque muito do que foi destruído não poderá ser recuperado: das 80 espécies de peixes catalogados na bacia hidrográfica do Rio Doce, 10 já se apresentavam sob risco de extinção e 11 espécies eram consideradas endêmicas do rio – caso populações dessas espécies de peixes ameaçadas e endêmicas não tenham conseguido sobreviver em rios tributários do Rio Doce, elas estarão perdidas para sempre.

Antes de prosseguirmos, há algumas definições importantes: assoreamento de um rio diz respeito ao acúmulo de partículas como argila, silte e areia em volumes muito superiores aos naturais, podendo resultar na redução da profundidade da lâmina d’água ou na formação de bancos de areia. O assoreamento, normalmente, é provocado por desmatamentos, por atividades agrícolas e mineradoras.

Entulhamento diz respeito a todo o tipo de resíduos sólidos como plásticos, latas, restos de materiais de construção, eletrodomésticos, pneus, madeiras entre outros tipos de materiais que são jogados diretamente nos rios pelas populações ou que são carreados de outras regiões para a calha de um corpo d’água pelas chuvas.

Na bacia hidrográfica do Rio São Francisco, a situação de degradação ambiental por assoreamento e entulhamento com todo o tipo de resíduos está muito longe da gravidade vivida pelo Rio Doce, porém a situação é bastante preocupante. Falando-se apenas nos riscos apresentados pelas barragens de rejeitos de mineração – lembrando que o Estado é um dos maiores produtores de minérios do país, existem em Minas Gerais, pelo menos, 317 barragens de rejeitos registradas no DNPM – Departamento Nacional de Produção Mineral, o que representa 48% do total de instalações similares de todo o Brasil.

Dados do próprio órgão informam que 95 dessas barragens não constam no Plano Nacional de Segurança de Barragens e 37% do total das estruturas não são fiscalizadas pelo órgão. Considerando que a bacia hidrográfica do Rio São Francisco abrange uma parte bastante considerável do Estado de Minas Gerais, o risco de um “acidente” nos moldes do ocorrido no Rio Doce é extremamente preocupante.

Falando em mineração, é importante lembrarmos que os problemas causados pela atividade são históricos na região. O chamado Ciclo do Ouro em Minas Gerais durante o período colonial é um bom exemplo para que você entenda o processo de assoreamento e entulhamento da calha de um rio. Calcula-se que durante o período foram retiradas das minas e enviadas para Portugal, conforme a fonte, entre 800 e 1.000 toneladas de ouro.

É evidente que nunca se terá certeza do volume total de ouro extraído das minas por que muita coisa foi desviada: você, durante as aulas dos tempos do ensino fundamental, deve ter ouvido muitas histórias sobre os “santos do pau oco” – esculturas de santos com compartimentos secretos, usados para se desviar ouro das autoridades portuguesas.

Vamos usar o valor oficial: a mineração moderna usa um parâmetro que diz ser necessário vasculhar 1 tonelada de terra e/ou minérios para se obter 5 gramas de ouro – adotando-se esse mesmo parâmetro e considerando que foram extraídas de 800 a 1.000 toneladas de ouro na região das Minas Geraes no período, estaremos admitindo que foram movimentadas entre 160 mil e 200 mil toneladas de terra e minérios nesta exploração, aproximadamente três vezes o vazamento de resíduos que matou o Rio Doce.

Considerando que foi uma exploração altamente predatória, podemos afirmar que a maior parte desse volume de resíduos acabou carreada para os rios, provocando todo o tipo de assoreamento e entulhamento dos canais. Segundo ribeirinhos e pescadores do Rio São Francisco, existiam trechos do rio que tinham profundidades de até 20 metros no passado e que hoje em dia se tornaram extremamente rasos, o que demonstra o grau de assoreamento do rio.

Conforme comentamos no último post, a redução da profundidade da lâmina d’água do Velho Chico é uma das causas do desaparecimento/extinção de  várias espécies de peixes como o surubim.

Nos próximos posts vamos falar de outros causadores de assoreamento que estão provocando imensos problemas no Velho Chico – o desmatamento e a agricultura.

SURUBIM: O PEIXE QUE JÁ FOI SÍMBOLO DO RIO SÃO FRANCISCO

Surubim

A primeira vez que ouvi falar em surubim foi durante uma conversa em um almoço com colegas de trabalho em Recife, lá por meados dos anos de 1980. A empresa em que trabalhava na época tinha uma fábrica na capital pernambucana e, de quando em vez, era necessário fazer algum trabalho por lá. De acordo com esses colegas, verdadeiros experts no assunto, o sabor do surubim é algo incomparável. É um peixe bastante apreciado na culinária por ter muita carne e poucas espinhas.

O delicioso surubim – também é conhecido como pintado em algumas regiões, é um dos maiores peixes de água doce do Brasil, podendo atingir até 1,8 metro de comprimento e peso de até 90 kg. Para você não achar que é “conversa de pescador”, incluí uma foto do peixe publicada por uma das mais importantes revistas de pesca do país. É encontrado nas bacias hidrográficas do Rio Amazonas, do Rio da Prata e, cada vez menos, no Rio São Francisco – por isso a ironia usada no título. O desaparecimento do peixe, que já foi um ícone da gastronomia regional em toda a bacia hidrográfica do Velho Chico, é acima de tudo um alerta da degradação ambiental das águas e da falta de condições para a sobrevivência da espécie. Outros peixes, além do surubim, também estão em situação crítica – entre os mais afetados estão as espécies migratórias como o curimatá-pacu, curimatá-pioa, dourado, matrinxã, piau-verdadeiro e o pirá. Vamos entender o que está acontecendo:

Uma quantidade enorme de espécies de peixes migra de uma região para outra na época da reprodução, num fenômeno conhecido como piracema. Estas espécies de peixes nadam correnteza acima buscando as águas calmas e límpidas das nascentes, onde a desova poderá ser feita com segurança nas águas rasas e livres de predadores e onde os alevinos encontrarão condições de crescer, até um tamanho que lhes proporcione maiores chances de sobrevivência, antes de se aventuram em águas mais profundas. Existem diversas alterações ambientais que podem dificultar ou impedir a migração destes peixes: construção de barragens de usinas hidrelétricas sem “escadas” para peixes; contaminação das águas por esgotos, produtos químicos e venenos como fertilizantes e defensivos agrícolas; assoreamento e entulhamento de canais com todo o tipo de resíduos; pesca predatória e a sobrepesca (especialmente durante a época da piracema); destruição das nascentes por atividades como agricultura e mineração, entre outras causas.

Um outro problema grave é a introdução de espécies exóticas de peixes, lançados nos rios sem maiores estudos sobre os impactos e alterações ambientais que causarão no ecossistema; na bacia do Rio São Francisco foram introduzidos o bagre-africano, a carpa e o tucunaré, que ocuparam nichos ecológicos de espécies endêmicas e se tornaram verdadeiras pragas. No Velho Chico você encontra todos estes problemas, o que afetou completamente o ciclo de vida dos peixes migratórios e destruiu aquele que já foi considerado um dos rios mais abundantes em relação a pescado no país – havia registros de 158 diferentes espécies de peixes na bacia hidrográfica, algumas endêmicas. De grandes produtoras de pescados, as cidades ribeirinhas do Velho Chico passaram a condição de importadoras do produto, especialmente da região amazônica. Uma das espécies mais importadas é o cachara, um peixe de couro da Amazônia muito parecido com o surubim, pescado em rios do Maranhão e do Pará. Muitos restaurantes preparam tilápias criadas em cativeiro e tambaquis importados da Argentina – o bom e velho surubim do São Francisco está cada vez mais difícil de se encontrar nas casas dos moradores e nas mesas dos restaurantes ao longo dos rios da região.

Um exemplo da má gestão histórica das águas do Velho Chico foi a decisão pela construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho durante a época dos governos militares. O Lago de Sobradinho, formado após o fechamento das comportas, se transformou no maior espelho d’água artificial do Brasil, porém com baixas profundidades – foi justamente essa característica um dos fatores principais para a evaporação total do Lago Poopó na Bolívia, comentado em um dos posts desta série. O Lago de Sobradinho é um campeão em perda de água por evaporação, atingindo, segundo algumas fontes, a marca de até 250 m³ por segundo – essa perda representa o volume de água necessário para o abastecimento anual de uma população de 144 milhões de habitantes. Um outro erro de projeto ou falta de preocupação com a preservação das espécies do Rio São Francisco foi a não inclusão de escadas para peixes, dispositivo que permite a passagem ou migração de espécies através das barragens. Antes da construção da barragem da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, existiam diversas lagoas temporárias, onde grandes cardumes de peixes migratórios se reuniam para iniciar a migração rumo as cabeceiras dos rios para a procriação.

A análise genética de amostras de peixes coletadas e conservadas há quase 30 anos e comparadas com amostras de peixes coletados recentemente mostraram que houve uma grande redução da diversidade genética dos animais – isso mostra que a construção da barragem do Lago de Sobradinho criou um obstáculo físico para os peixes que vem de outras regiões do médio São Francisco, impedindo a renovação dos cardumes de peixes de piracema. A pouca diversidade genética de uma população de animais ou de plantas é, de acordo com a Biologia da Conservação, um caminho perigoso para a extinção de espécies, fato que, infelizmente, já se observa com o surubim e outras espécies de peixes do Velho Chico.

Continuaremos essa “viagem” pelas águas do Velho Chico no nosso próximo post.

Veja também:

O RISCO DE EXTINÇÃO DO SURUBIM DO IGUAÇU, OU OS PROBLEMAS DA ICTIOFAUNA ENDÊMICA

SURUBIM DO JEQUITINHONHA: UMA ESPÉCIE CRITICAMENTE AMEAÇADA

A BIODIVERSIDADE AMEAÇADA DO LAGO GUAÍBA, OU OS PESCADORES DO DOURADO “PERDIDO”

A PIABANHA E O RIO PARAÍBA DO SUL

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SÃO FRANCISCO: O RIO DA INTEGRAÇÃO NACIONAL

Benjamim Guimarães

Nestes últimos posts, foi possível demonstrar a você a importância histórica do Rio São Francisco no povoamento e desenvolvimento econômico do interior do Brasil nos primeiros séculos da colonização. Somente em época posterior, já no século XVIII, é que os Rios Tietê, Paraná, Pardo e Paraguai, entre outros, já em terras do distante Mato Grosso, passarão a ter importância similar, servindo como uma espécie de “estrada” para o avanço das monções dos bandeirantes paulistas rumo aos sertões de Cuiabá, onde sertanistas descobriram ouro em 1718.

Inicialmente, o Rio São Francisco integrou as regiões interioranas dos Estados de Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia com a faixa canavieira do litoral; com os avanços das boiadas rumo ao alto sertão, os caminhos criados a partir do vale do Rio São Francisco atingiram os Estados do Piauí e do Maranhão. Uma curiosidade deste período é a fundação da cidade de Teresina, que se tornaria capital do Piauí e única capital da Região Nordeste localizada fora do litoral do Estado – tribos indígenas das mais ferozes ocupavam toda a faixa litorânea do Piauí e sua integração com o restante da Colônia só seria possível através das estradas boiadeiras surgidas ao longo do vale do Rio São Francisco.

Com o início do chamado Ciclo do Ouro, os caminhos através das margens do Rio São Francisco levaram milhares de aventureiros na direção das Minas Geraes – esses caminhos garantiriam também o continuo suprimento de boiadas de todos os cantos dos sertões do Nordeste na direção das regiões mineradoras do Sudeste. Tropeiros paulistas complementavam essa rede de integração Colonial, fornecendo alimentos e suprimentos dos mais diversos, além de revender mulas criadas nos Estados da Região Sul. A integração e a comunicação inter-regional através de toda a bacia hidrográfica do Rio São Francisco, complementada posteriormente pelo comércio com a região Sul via Estado de São Paulo, lançou as bases para o início da consolidação do território brasileiro, que mais tarde se completaria com o avanço rumo as regiões Centro Oeste e Amazônica.

Caso não existisse o Rio São Francisco e todos os caminhos rumo aos sertões que foram criados a partir do seu vale, o Brasil poderia ter tido toda a sua colonização concentrada ao longo do litoral e consolidado as suas fronteiras no limite do Meridiano de Tordesillas, a linha que dividiu os territórios do Novo Mundo entre Portugal e a Espanha em 1494 – ou seja, o Brasil teria hoje uma área equivalente a 1/3 do seu atual território.

Se do ponto de vista histórico e geográfico o Rio São Francisco foi de importância ímpar na integração do território brasileiro no início de nossa colonização, do ponto de vista hidrológico as suas águas são fundamentais para o abastecimento das regiões com a menor disponibilidade hídrica de todo o Brasil: o semiárido e o alto sertão nordestinos. Com uma área total de drenagem com 638.576 km², a bacia hidrográfica do Rio São Francisco ocupa 8% do território nacional e atende uma população de aproximadamente 15 milhões de habitantes, incorporando áreas de cerrado, de caatinga e de Mata Atlântica nos estados de Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, além do Distrito Federal; através do Projeto de Transposição já em andamento, serão incorporados no hall de Estados abastecidos com águas do Rio São Francisco a Paraíba, o Ceará e o Rio Grande do Norte, o que incluirá mais 12 milhões de habitantes na já extensa lista de usuários das águas do Velho Chico. Sua bacia hidrográfica concentra a maior quantidade e diversidade de peixes de água doce da região Nordeste. A vazão média anual do Rio São Francisco é de 2.846 metros cúbicos por segundo, variando entre 1.077 m³/s nos períodos de seca e 5.290 m³/s na estação das chuvas (dados da ANA – Agência Nacional de Águas).

A agricultura é uma das mais importantes atividades econômicas, com perspectiva de consumir até 70% das águas da bacia hidrográfica nos próximos anos, considerando-se aqui o avanço das obras de transposição já em andamento. Também merece destaque o aproveitamento do potencial hidrelétrico da bacia, com a geração de 10.473MW, nas usinas Três Marias, Queimado, Sobradinho, Itaparica, Complexo Paulo Afonso e Xingó. As represas de Três Marias e Sobradinho, os maiores reservatórios da bacia hidrográfica, têm papel fundamental na regularização das vazões do Rio São Francisco. Outras atividades econômicas da bacia hidrográfica que merecem destaque do ponto de vista econômico incluem a pecuária, a atividade mais antiga da região, a indústria, a mineração, o transporte de cargas e de pessoas ao longo dos trechos navegáveis e o turismo.

Apesar de toda essa importância, as águas não recebem o tratamento e o respeito que merecem – para citar um único exemplo, dos 456 municípios com sede na área da bacia hidrográfica do Rio São Francisco, somente 93 tratam seus esgotos. Matas ciliares e nascentes estão sendo destruídas, resíduos sólidos de todo o tipo entulham as calhas dos rios e projetos de irrigação captam grandes volumes de água, devolvendo excedentes contaminados por fertilizantes e pesticidas. Isso demonstra como são fortes os contrastes socioeconômicos entre as diversas regiões da bacia hidrográfica do Velho Chico e gigantescos são os desafios para a sua conservação.

Falaremos disto nos próximos posts.

A DESCOBERTA DO OURO NA REGIÃO DAS MINAS GERAES

Lavragem do Ouro

A palavra sertão é uma abreviatura de desertão, sensação que os primeiros aventureiros “brancos” experimentaram ao percorrer imensas distâncias pelo interior do vasto território brasileiro – imensas faixas de terras vazias, salpicadas por aldeias indígenas separadas por muitas e muitas léguas. A palavra sertão, com tempo, passou a representar as áreas interioranas do país – neste contexto, o sertão ou interior nordestino, já a partir do século XVII, estava cheio de gentes de todos os tipos.

Enquanto a indústria açucareira do Nordeste prosperava a olhos vistos, nas Capitanias mais ao Sul as coisas não iam tão bem – a partir do Sul da Bahia, ferozes tribos indígenas aimorés e tupinambás, antropófagas, atacavam e destruíam quaisquer engenhos e fazendas que teimassem se instalar em seus domínios, como aconteceu com a Capitânia de Porto Seguro, destruída por ataques de índios ao longo da década de 1580. Em terras fluminenses, aventureiros franceses, curiosamente amigos das tribos tupinambás, atacaram a pequena cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e fundaram a França Antártica.

Na Capitania de São Vicente, eram os ataques de piratas ingleses e holandeses que impediam o avanço dos engenhos de açúcar – expulsos do litoral, os chamados paulistas subiram a Serra do Mar e buscaram refúgio nos campos de Piratininga, região onde fica atualmente a Região Metropolitana de São Paulo. O relevo, o clima e a hidrologia dos campos se mostraram extremamente adequados ao cultivo de todo o gênero de produtos alimentícios – inclusive do precioso trigo; os paulistas desistiram do açúcar e se especializaram na produção e venda de alimentos para as demais Capitanias. Para tocar os serviços nas lavouras, os paulistas recorriam à caça e captura de indígenas nos sertões, especialmente nas áreas castelhanas, onde podiam capturar indígenas “já civilizados” pelos padres jesuítas espanhóis. Essas expedições eram chamadas de entradas e bandeiras – os expedicionários passaram a ser conhecidos como bandeirantes. Além da caça à indígenas, os bandeirantes realizavam expedições para prospecção de ouro e pedras preciosas. Em 1693, um grupo desses bandeirantes encontrou ouro em grande quantidade na Serra do Sabarabuçu, na região das Geraes – a notícia da descoberta do ouro mudou os rumos e destinos do Brasil.

A verdadeira febre do ouro que varreu a Colônia após a divulgação das primeiras notícias dos achados auríferos nas Geraes provocou uma corrida sem precedentes para os sertões de Minas Gerais, onde não havia a menor infraestrutura ou canais regulares para o suprimento de mercadorias e víveres. Calcula-se que 70% da escassa população brasileira, estimada em 500 mil habitantes no início do século XVII, abandonou a cultura da cana de açúcar no litoral, especialmente na região Nordeste, e seguiu rumo aos sertões das Geraes para se aventurar como garimpeiros. O vale do Rio São Francisco, já densamente povoado e ocupado pelas fazendas de gado, foi o caminho seguido pela maior parte dessa corrente migratória, que se espalhou ao longo dos rios de toda a sua bacia hidrográfica e regiões lindeiras nas Geraes – na busca alucinada pelo valioso ouro, pode-se dizer que, cada pedra das margens dos rios foi revirada e cada barranco escavado, começando-se assim um intenso e contínuo processo de devastação ambiental que hoje ameaça a sobrevivência do Velho Chico. Nas palavras de Afonso d’Escragnolle Taunay:

“Intensa foi em todo o Brasil a crise determinada pela formidável perturbação aurífera, sob os pontos de vista social, econômico, sobretudo psicológico.”

A exploração do ouro também marcará o início da decadência da indústria açucareira, que entrou em queda livre em meados do século XVIII, tanto pela fuga de capitais e homens, que correram na direção dos sertões do Brasil na busca do ouro, quanto pela concorrência dos engenhos de açúcar holandeses e ingleses na região do Caribe. O golpe final nesta indústria virá com a transferência da capital da Colônia da cidade de Salvador para o Rio de Janeiro em 1763 – os caminhos para a produção e o escoamento do ouro eram mais fáceis a partir das terras fluminenses. O coração da Colônia foi transferido para a região das Minas Geraes e o Rio São Francisco e toda a sua rede de afluentes se tornariam, verdadeiramente, as veias dos sertões do Brasil.

A vida dos sertanejos nordestinos e de suas imensas boiadas acompanhou as mudanças da economia colonial: com a decadências dos canaviais e cidades no litoral, cada vez mais as boiadas percorriam rumo ao Sul, acompanhando o vale do Rio São Francisco na direção dos sítios mineradores e cidades que se formaram na região, se transformando em fornecedores de carne para o abastecimento das populações e de muares para o reforço nos trabalhos das minas e transporte do ouro rumo ao litoral. Pelo Sul eram as tropas de mulas vindas de São Paulo, carregadas com todo o tipo de suprimentos que chegavam aos mais distantes rincões das Geraes, onde tudo era vendido a preços exorbitantes, inclusive as mulas. A partir desse período, o Rio São Francisco e muitos dos seus maiores afluentes se transformaram num imenso sistema hidroviário, interligando centenas de cidades e populações de uma vasta região entre os Estados de Minas Gerais e Pernambuco.

O ciclo do ouro perdurou até o final do século XVIII, quando os veios auríferos se esgotaram. Com cidades bem consolidadas – Minas Gerais é o Estado brasileiro com mais cidades: 853, e com uma grande população, a economia de Minas Gerais pouco a pouco se voltou para a agricultura e a pecuária, passando também a fornecer produtos de ferro e aço para as demais regiões brasileiras. O Rio São Francisco se consolidou como um importante meio de integração regional.

Falaremos disto no nosso próximo post.

AS BOIADAS DO SERTÃO E AS GUERRAS DO NORTE

Rio São Francisco

“Faixa com a largura média de 30 quilômetros, ora se estreitando entre o mar e os tabuleiros da zona agreste, ora se alargando em várzeas, brejos e colinas ondulantes, sem nunca ultrapassar, no entanto, a largura máxima de 80 quilômetros. Zona de solo rico e profundo e com uma relativa abundância de chuvas, era primitivamente recoberta por um revestimento de floresta do tipo tropical, não tão luxuriante e cerrada como a floresta úmida amazônica, mas por isto mesmo muito mais fácil de se deixar penetrar e conquistar pelo homem… O solo da região, em sua maior parte do tipo massapê — terra escura, gorda e pegajosa, que recobre em espessa camada porosa os xistos argilosos e os calcários do Cretáceo — é de uma magnífica fertilidade. Solo originariamente de qualidades físico-químicas privilegiadas, com uma grande riqueza de humo e de sais minerais. O clima tropical, sem o excesso de água da região amazônica, com um regime de chuvas, de estações bem definidas, também contribui favoravelmente para o cultivo fácil e seguro de cereais, frutas, verduras e leguminosas de uma grande variedade. A própria floresta nativa tinha uma excepcional abundância de árvores frutíferas, e outras, trazidas e transplantadas de continentes distantes, se aclimataram muito bem, inteiramente a gosto do novo quadro ecológico, e aí continuaram produzindo, como em suas áreas naturais.”

Essa é uma descrição da chamada Zona da Mata Nordestina, que você encontra no clássico livro “Geografia da Fome” de 1947, obra do médico e escritor pernambucano Josué de Castro (1908-1973) – em diversas viagens, eu percorri cada quilômetro do trecho entre Mangue Seco, no Norte da Bahia, e Cabo de São Roque, no Rio Grande do Norte e, confesso, só encontrei algo parecido com essa descrição em alguns poucos fragmentos florestais que sobreviveram – da Mata sobrou muito pouco. Há mais de 300 anos que a antiga paisagem sucumbiu ao avanço dos canaviais. A indústria do açúcar no litoral nordestino destruiu a mata, matou ou expulsou os índios, e também condenou as boiadas ao exílio nos sertões do semiárido e do alto sertão. Nas palavras de João Capistrano de Abreu:  “O açúcar matou o índio.”

Diferente da exuberância da Zona da Mata, onde os solos férteis e a abundância da água proporcionavam fartura de alimento e excelentes sítios para a criação dos bois, os sertões desconhecidos representaram um desafio diário na luta pela sobrevivência. Essa migração forçada levou a uma evolução artificial, criando os bois magros do sertão e o sertanejo forte que a tudo resiste – ao clima, à fome e à sede. As sucessivas secas que se desenrolarão na região ao longo dos séculos vindouros mostrarão a força e a resistência desse nordestino.

O avanço das boiadas pelo sertão teve muitos outros percalços além do clima extremo e da terra difícil: os embates com índios – primeiro com os naturais dos sertões, depois, com os grupos que fugiram do litoral e se instalaram naquelas terras. As grandes boiadas invadiam as terras ocupadas por diversas nações indígenas e avançaram vorazmente sobre os limitados recursos naturais do meio. As melhores terras do sertão eram aquelas localizadas ao longo dos poucos cursos d’água perenes, especialmente no grande vale do Rio São Francisco; e eram justamente essas terras as mais densamente povoadas pelos grupos indígenas do sertão nordestino.

Grandes conhecedoras dos limites ecológicos do semiárido, que para os índios era muito mais importante do que qualquer limite físico da área do seu território (tradicionalmente, as culturas indígenas não demonstram uma preocupação com a posse da terra, mas sim com o uso dos recursos oferecidos pela terra), essas tribos reagiram com hostilidade contra os invasores; num segundo momento, estes índios descobriram que a caça aos bois era muito mais vantajosa do que a caça aos animais silvestres da caatinga e, em muitos casos, até passaram a tolerar a presença dos invasores. Embates entre sertanejos e índios serão frequentes ao longo do período colonial e, em diversos momentos, o Governo Geral optará pela contratação de bandeirantes paulistas para “pacificar territórios” (traduzindo: matar os índios mais violentos e escravizar os mais mansos); esses movimentos ficarão registrados na história dos paulistas como As Guerras do Norte. Após a pacificação dos territórios, muitos destes bandeirantes abandonarão a vida nômade de sertanistas e irão se estabelecer como fazendeiros nas terras do vale do São Francisco, passando a lidar com a lucrativa e tranquila criação de bois.

Uma imensa faixa da Mata Atlântica desapareceu no período e o sertão teve de absorver as atividades pastoris de bovinos, caprinos, ovinos e de muares, as quais, concorrendo por espaço com a cana, foram expulsas para o sertão. Também teve que absorver populações que ficaram sem espaço no litoral – aqui entram centenas de milhares de indígenas que viram suas matas serem tomadas e destruídas pelas lavouras de cana. Populações que se desenvolveram e cresceram em todos os confins do semiárido nordestino pagaram com inacreditável sofrimento humano e, repetidas vezes, com a própria vida pela ganância daqueles que não permitiram sua permanência nas áreas luxuriantes do litoral.

Escravos fugidos das senzalas, mulatos rejeitados, índios aculturados e fugitivos de toda a ordem, brancos aventureiros, excedentes populacionais dos engenhos, bandeirantes paulistas cansados da vida nômade e aventureira – o sertão começou a receber gentes em quantidades cada vez maiores, que foram se “aconchegando” e ficando. A soma de todas essas diferentes gentes iniciou a geração – no ventre das mulheres indígenas (é importante lembrar que havia pouquíssimas mulheres brancas ou negras nos primeiros séculos da colonização do Brasil), de toda a população dos sertanejos nordestinos. E o vale do Rio São Francisco se transformou no berço que acolheu toda essa gente dos sertões.

A INDÚSTRIA DO AÇÚCAR E A COMPETIÇÃO COM AS BOIADAS

Coqueiros na Polinésia

Quando alguém nos fala do litoral do Nordeste é comum vir à nossa mente imagens de mares com águas mornas e praias com areias brancas, cobertas por imensos coqueirais a se perder de vista, numa imagem que lembra muito as paradisíacas ilhas do Pacifico Sul – essa semelhança não é mera coincidência.

Há chegada dos primeiros portugueses às costas do Brasil, havia uma densa cobertura florestal ao longo do litoral, indo do Rio Grande do Sul até o Rio Grande do Norte – a Mata Atlântica, que chegava até a linha de areia da praia.

Se você visitar trechos do litoral Norte do Paraná e Sul de São Paulo, ou ainda do litoral Norte de São Paulo e Sul do Rio de Janeiro encontrará trechos da Mata Atlântica ainda bem preservados e muito semelhantes aos que existiam na Região Nordeste nos séculos XVI e XVII.

Essa Mata foi dizimada a ferro e a fogo para abrir os campos para o cultivo da cana de açúcar – o coco, originário da Índia, chegou com as caravelas portuguesas e, pouco a pouco, foi plantado ao longo do litoral nordestino, dando início, após a decadência da indústria açucareira, aos imensos coqueirais dos nossos dias. A foto que ilustra este post lembra praias de Alagoas ou de Pernambuco – na realidade foi tirada em uma praia do Tahiti, na Polinésia Francesa.

E porque começar a postagem falando disto?

O começo da derrubada da floresta e o plantio dos primeiros canaviais foi feito pelos primeiros colonizadores portugueses, usando a mão de obra de diversos grupos indígenas do litoral, aliados desses nos primeiros anos da colonização. Você deve ter ouvido nos seus primeiros anos de escola que os índios trocavam dias e mais dias de trabalho duro por miçangas, roupas, facas, machados e espelhinhos, o que é verdade.

Porém, essa política de boa vizinhança não durou muito e o trabalho voluntário dos primeiros anos foi trocado pela escravidão dos indígenas – Portugal, cada vez mais, pedia carregamentos maiores de açúcar, o que exigia maiores esforços dos indígenas. Acostumados à vida livre e a uma rotina de vida em nada comparada ao trabalho sistemático nas plantações, moendas e casas de purga do açúcar, os indígenas se recusavam a trabalhar, mesmo sob os castigos mais severos. A convivência pacífica deu lugar a violentos embates, resultando em mortes de inúmeros indígenas.

Foi neste momento que as tribos e grupos indígenas que ainda não haviam fugido rumo ao sertão nordestino, o fizeram na primeira chance que tiveram – a crescente “indústria” colonial portuguesa passou então a importar escravos da África em grande quantidade para fazer o trabalho pesado nas lavouras e engenhos de açúcar.

O Padre Fernão Cardim (c.1549-1625), reitor do Colégio da Bahia, fez diversas visitas às missões Jesuíticas da região entre os anos de 1583 e 1590. Ele ficou horrorizado com a mortandade dos índios:

“Eram tantos os desta casta que parecia impossível poderem-se extinguir, porém os portugueses lhes têm dado tal pressa que quase todos são mortos e lhes têm tal medo, que despovoam a costa e fogem pelo sertão adentro até trezentas a quatrocentas léguas.”

Quando se entra em um mercado hoje em dia para se comprar um pacote de açúcar por uns poucos Reais, parece não fazer muito sentido o impacto que essa cultura teve nos primeiros séculos de nossa colonização, particularmente na Região Nordeste. Há uma razão muito simples para isso: naqueles tempos, o açúcar podia ser comparado a uma espécie de ouro branco – um produto de luxo, extremamente caro, vendido em pacotes com poucas gramas nas boticas.

Vender o açúcar em boticas, as antigas farmácias, se deve ao fato do produto ser considerado remédio para uma série de doenças (a Coca Cola no seu início era considerada um tônico e também era vendida em farmácias); o uso do açúcar como alimento veio depois. O historiador Basílio da Magalhães, autoridade na história do açúcar, nos deixou o seguinte comentário:

“Era droga usual nas boticas, donde saía a título de cicatrizante e para sarar doenças dos olhos, da garganta e de outros órgãos; mas, fora dos usos terapêuticos, artigo de luxo, gozado por grandes senhores e burgueses opulentos.”

Quando uma mulher das altas sociedades europeias se casava, um dos presentes mais “chiques” que os convidados podiam dar era uma caixinha com açúcar. Naqueles tempos, o açúcar era uma das famosas “especiarias do Oriente”, com comércio monopolizado por algumas nações do Oriente Médio e, depois, pelos mercadores venezianos na Europa.

Quando os portugueses descobriram que era possível produzir o açúcar em suas terras, primeiro no Sul do Portugal, depois nas ilhas oceânicas da Madeira, Açores, Cabo Verde e, finalmente, nas imensas costas do Brasil, os lucros estratosféricos com a comercialização do produto, simplesmente, fez toda a elite lusitana “perder a cabeça”.

Logo, destruir toda a faixa Nordeste da Mata Atlântica, matar ou expulsar algumas centenas de milhares de indígenas “inúteis” ou escravizar e transportar desde a África alguns milhões de negros escravos para trabalhar na indústria açucareira valia muito, muito a pena.

Como já comentado, a criação de bois nas áreas do litoral representava uma ameaça aos canaviais e, não tardou muito, as boiadas também foram expulsas para os sertões, onde descobririam o vale do Rio São Francisco.

Continuamos essa história no próximo post.

“BERÇO DAS ÁGUAS, CERRADO PRECISA DE PROTEÇÃO PARA GARANTIR ABASTECIMENTO NO PAÍS”

Nascente no Cerrado

Para falar do Rio São Francisco é preciso falar do Cerrado Brasileiro, bioma muitas vezes chamado de “berço das águas” e que concentra as nascentes de grandes rios do país – um destes rios é o Velho Chico, que tem mais de 90% de suas nascentes em áreas de Cerrado. Acompanhe esse texto publicado pela Agência Brasil:

O bioma que ocupa um quarto do território brasileiro não tem rios de grande vazão, mas concentra nascentes que alimentam oito das 12 grandes regiões hidrográficas brasileiras. Especialistas consideram o Cerrado como o berço das águas, já que nele estão localizados três grandes aquíferos – Guarani, Bambuí e Urucuia –, responsáveis pela formação e alimentação de importantes rios do continente. Para esses pesquisadores, a preservação da vegetação do Cerrado é fundamental para a manutenção dos níveis de água em grande parte do país.

“O Cerrado é como uma floresta ao contrário, as raízes são profundas, maiores que as copas. Elas são responsáveis por absorver a água da chuva e depositá-la em reservas subterrâneas, os aquíferos”, explica o professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e diretor do Instituto do Trópico Subúmido, Altair Sales Barbosa.

Segundo o especialista, com o desmatamento e a diminuição da vegetação nativa, responsável por levar a água para regiões mais profundas, os aquíferos chegaram ao nível de base, ou seja, deixaram de abastecer diversas nascentes.

“A quantidade de água existente nesses aquíferos já chegou ao seu nível mínimo. É como se fosse uma caixa d’água com vários furos. Os furos são as nascentes. Quando ela está cheia, a água sai por muitos furos. Conforme vai esvaziando, vai saindo nos furos mais inferiores, até chegar ao último furo e há um momento em que não sai mais. Estamos em um momento em que [a água] está saindo, mas de maneira muito rudimentar, menor do que saía há 20, 40 anos”, diz o especialista.

Segundo ele, cerca de dez rios desaparecem na região anualmente.

O professor ressalta que, uma vez degradado, o Cerrado não se recupera totalmente.  Também é difícil cultivá-lo. Das 13 mil espécies vegetais catalogadas, apenas 180 são produzidas em viveiro.

“O Cerrado é diferente da Amazônia e da Mata Atlântica, por exemplo. Enquanto esses biomas têm 3 mil e 7 mil anos, o Cerrado tem mais de 45 milhões de anos que se completou totalmente. Como ele é muito antigo, evolutivamente já chegou ao seu clímax. Uma vez degradado, não se recupera jamais na plenitude de sua biodiversidade”.

De acordo com dados disponibilizados pela organização não governamental (ONG) WWF Brasil (sigla em inglês para Fundo Mundial para a Natureza), o Cerrado é a segunda maior formação natural da América do Sul e concentra cerca de 5% da biodiversidade do planeta e 30% da biodiversidade do Brasil. Metade da vegetação nativa do Cerrado foi eliminada e menos de 3% está protegida de forma integral.

“A ocupação dessa região se deu de forma acelerada nos últimos 60 anos e isso trouxe problemas. Ambientes importantes foram perdidos ou estrangulados por cidades, plantações e hidrelétricas”, diz o coordenador do Programa Cerrado Pantanal do WWF Brasil, o engenheiro florestal Julio Cesar Sampaio.

Para agravar a questão da reserva de água, o regime de chuva tem mudado na região nos últimos 20 anos.

Para o pesquisador da área de hidrologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Cerrados, Jorge Werneck, os períodos de chuva têm ficado mais curtos e os de seca, mais longos. A média pluviométrica em determinadas estações caiu de 1,5 mil milímetros para 1,2.

“Isso muda bastante o ciclo hidrológico, faz com que nossos solos fiquem mais secos, os lençóis freáticos desçam, sejam rebaixados e isso afeta diretamente todo o regime de vazão dos nossos rios”, explica.

A coordenadora de Monitoramento da Qualidade Ambiental do Instituto Brasília Ambiental (Ibram), Vandete Inês Maldaner, reforça os prejuízos com a mudança no regime de chuva. “Anteriormente, tínhamos uma estação chuvosa, com distribuição ao longo do dia nos meses de dezembro e janeiro, e tínhamos uma chuvinha bem distribuída. Hoje temos períodos grandes de veranico e chuvas torrenciais, que não contribuem para o abastecimento dos lençóis freáticos. Batem no solo e escorregam, causando o assoreamento dos rios”, diz.

Para Werneck, não é possível dizer se a causa da diminuição da chuva é a ação do homem, nem se essa redução será permanente. Barbosa diz ser inegável a influência da ação do homem e da ocupação desordenada nos grandes centros urbanos, responsáveis pela formação de ilhas de calor que impedem a chegada de massas úmidas.

O coordenador do curso de engenharia ambiental e sanitária da Universidade Católica de Brasília, Marcelo Gonçalves Resende, acredita que a ação do homem é a grande responsável pela diminuição da chuva.

“A meu ver, tudo está relacionado. O grande problema é a má gestão do uso e da ocupação do solo, seja em áreas urbanas ou rurais. É possível que haja ocupação, desde que seja feita de forma sustentável, existem técnicas, claro que tem que ter agricultura, criação de gado, indústria, moradia. Mas isso tem que ser feito de forma sustentável. Existem técnicas, mas o ser humano esquece, pela ganância, pela vontade de obter lucro fácil. O último ponto que leva em consideração é a questão ambiental.”

O Rio São Francisco, por exemplo, possui mais de 90% de suas nascentes situadas no Cerrado, embora quase 55% das águas desse rio encontrem-se fora desse bioma. A bacia dos rios Paraná e Paraguai também possui suas origens situadas majoritariamente nas áreas desse importante domínio natural, que envia águas até mesmo para a Bacia Amazônica.”

Texto:  Mariana Tokarnia – Repórter da Agência Brasil – 20/03/2015

“ALTA DO NÍVEL DO MAR PODE AFETAR ATÉ CIDADES QUE ESTÃO LONGE DELE”

Mudanças Climáticas

As Mudanças Climáticas estão sempre sendo tratadas como tema transversal em minhas postagens pois afetam diretamente as fontes de abastecimento de água, seja pelo derretimento de glaciares em montanhas, seja por mudanças nos padrões das chuvas e redução do caudal de rios por todo o planeta. Leiam esta interessante reportagem que aborda as alterações provocadas nos níveis dos mares e seus impactos em cidades distantes das costas oceânicas:

“No debate sobre mudanças climáticas, o aumento do nível do mar, acompanhado de maior incidência de inundações, é comumente associado a riscos e prejuízos para as cidades costeiras. Mas seus impactos geográficos podem ir muito além — continente a dentro.

Quando o furacão Katrina atingiu o estado americano de Louisiana em 2005, devastando a cidade de Nova Orleans, localizada às margens do Rio Mississippi, milhares de evacuados correram para as cidades do interior em busca de segurança, aumentando a pressão nessas regiões.

Um novo estudo da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, prevê que isso poderia acontecer novamente como resultado do aumento do nível do mar. Em artigo publicado nesta semana na Nature Climate Change, pesquisadores estimam que, só nos EUA, aproximadamente 13,1 milhões de pessoas poderiam ser deslocadas pela subida das águas oceânicas.

O estudo é a primeira tentativa de modelar o destino de milhões de migrantes potencialmente deslocados de comunidades costeiras densamente povoadas. Em busca de abrigo, os forçados a se mudar naquele país teriam como destino principal cidades como Atlanta, Houston e Phoenix.

“Nós normalmente pensamos sobre a elevação do nível do mar como uma questão costeira, mas se as pessoas são forçadas a se mover porque suas casas são inundadas, a migração pode afetar muitas comunidades sem acesso ao mar”, disse o principal autor do estudo, Mathew Hauer.

Segundo o pesquisador, embora as avaliações sobre o aumento do nível do mar sejam numerosas e ajudem a planejar o desenvolvimento de infraestruturas críticas nas zonas costeiras, poucos estudos investigam o destino das pessoas deslocadas e como a migração afetará essas regiões.

O novo estudo combina estimativas de populações em risco de elevação do nível do mar dentro de uma simulação de sistemas de migração para estimar o número  de afetados e destinos potenciais de migrações nos Estados Unidos ao longo do próximo século.

“Alguns dos destinos inesperados sem litoral, como Las Vegas, Atlanta e Riverside, na Califórnia, já enfrentam problemas de gestão da água ou de crescimento”, disse Hauer, destacando que “incorporar, no planejamento, estratégias de acomodação de longo alcance poderia ajudar a aliviar a intensificação futura desses desafios”.

Segundo o estudo, entender as relações entre estressores ambientais, como a alta das águas oceânicas, e os movimentos migratórios é uma tarefa complexa. As migrações podem ser tanto temporárias de curto prazo quanto permanentes, mas uma coisa é certa: o aumento do nível do mar é um estressor ambiental único porque converte permanentemente terra habitável em água inabitável.

Embora restrita a um único país, a pesquisa dá uma ideia do efeito dominó que as mudanças climáticas podem ter sobre as cidades. Considerando o cenário mundial, os impactos da elevação do nível do mar ganham contornos ainda mais sombrios. Segundo pesquisa recente, atualmente, cerca de 1,9 bilhão de habitantes, ou 28% da população mundial, vivem a menos de 100 km das zonas costeiras em áreas menos de 100 metros acima do nível do mar.”

Vanessa Barbosa em Exame.Com