CONSTRUÇÃO DE ESTRADA NO SUL DO CHILE AMEAÇA ÁRVORES MILENARES GIGANTES 

Em nossa última postagem falamos da importância dos Estudos de Impacto Ambiental – EIA, como pré-condição essencial para a liberação de obras de infraestrutura. Citamos no texto o exemplo do sapinho-admirável-de-barriga-vermelha, uma espécie endêmica que só é encontrada em um pequeno trecho da margem do rio Forqueta no Rio Grande do Sul. 

Por uma triste coincidência, uma reportagem publicada quase que simultaneamente pela DW – Deutsche Welle, uma empresa pública de radiodifusão da Alemanha, afirmou que a construção de uma estrada no Sul do Chile poderá resultar na derrubada de centenas de árvores milenares endêmicas e ameaçar outras tantas. Entre elas está “Gran Abuelo”, um cipreste-da-Patagônia com idade estimada em 5.400 anos e que pode ser uma das árvores mais velhas do mundo. 

De acordo com a reportagem, o Governo chileno pretende reabrir e ampliar uma antiga estrada madeireira que corta o Parque Nacional Alerce Costero, com o objetivo de facilitar os transportes entre diversos municípios da região. 

Porém, de acordo com grupos ambientalistas e entidades de indígenas da etnia Mapuche, que lutam pela preservação ambiental da região, o objetivo dessa estrada é facilitar o transporte de lítio explorado na Argentina com destino a portos na costa do Chile.  

O lítio é um mineral altamente valorizado e essencial para a produção de baterias, com um enorme mercado em todo o mundo, principalmente na China. Baterias de lítio são usadas em aparelhos eletrônicos como computadores, tablets e telefones celulares. Também é fundamental para a produção de baterias usadas em carros elétricos. 

Somente com essas informações é possível concluir o tamanho dos interesses econômicos envolvidos na questão. O projeto, que atualmente está com a análise travada, foi apresentado em 2008. Autoridades governamentais pretendem apresentar um novo estudo de impacto ambiental como parte de um grande esforço para liberar a obra. 

Entre as árvores ameaçadas pelo projeto encontram-se exemplares da espécie cipreste-da-Patagônia (Fitzroy cupressoides), uma espécie endêmica da região. O nome científico da árvore homenageou Robert Fitzroy, o capitão do lendário HMS Beagle, navio da marinha da Inglaterra que passou vários anos explorando o Sul da América do Sul nas décadas de 1820 e 1830. O passageiro mais ilustre dessas expedições foi o naturalista Charles Darwin

A espécie é uma conífera, sendo considerada a maior árvore da América do Sul. A altura média das árvores se situa numa faixa entre 40 e 60 metros, com alguns exemplares atingindo até 70 metros – o diâmetro do caule pode chegar a 5 metros. Outra característica da espécie é a longevidade, estimada em vários milênios. 

O habitat do cipreste-da-Patagônia está restrito à região das florestas temperadas valdivianas, numa área localizada entre o Centro-sul do Chile e um trecho da Cordilheira dos Andes na Argentina. Essas florestas foram intensamente exploradas por empresas madeireiras nos séculos XIX e XX, o que dizimou grande parte dos estoques da espécie. 

Falando grosso modo, podemos comparar a situação do cipreste-da-Patagônia com o pau-brasil (Paubrasilia echinata), árvore da família das leguminosas que abundava na Mata Atlântica aos tempos do descobrimento do Brasil e que foi explorada até a quase extinção da espécie. Relembrando as aulas de história do ensino fundamental, a madeira dessa árvore era usada na produção de um corante de um vermelho intenso – o brasil. O nome do nosso país veio daí. 

Árvores milenares como o cipreste-da-Patagônia ou as sequoias gigantes da Califórnia (Sequoiadendron giganteum) são verdadeiros monumentos naturais. Os anéis de crescimento impressos na madeira permitem estudar as variações ambientais ao longo do tempo. Cada um desses anéis corresponde a um ano. 

Os cientistas utilizam uma ferramenta conhecida como trado, uma espécie de serra-copo, para furar o tronco das árvores e extrair uma amostra da seção transversal da madeira. Isso permite estudar as condições climáticas da região nos últimos milênios com absoluta precisão. 

Um único exemplo de estudo que pode ser feito – a avaliação da composição química dos anéis de uma árvore permitiria mapear todas as erupções vulcânicas ocorridas no Chile nos últimos milênios e analisar os impactos na atmosfera. O Chile tem mais de 2.900 vulcões, sendo que ao redor de 90 continuam ativos. 

Além dos incontáveis prejuízos para a biologia e o meio ambiente, a perda de uma única das árvores remanescentes da espécie pode significar a perda de informações científicas insubstituíveis para os mais diferentes estudos, sem considerar estudos futuros que ainda não foram sequer imaginados. 

A queda de braço entre ambientalistas e autoridades do Governo será difícil. Torçamos sempre para que o bom senso prospere entre as partes. 

VOCÊ CONHECE O SAPINHO-ADMIRÁVEL-DE-BARRIGA-VERMELHA? 

O nome engraçadinho pode até fazer você acreditar que se trata apenas de uma brincadeira. Mas essa espécie de sapo existe de verdade. 

O sapinho-admirável-de-barriga-vermelha (Melanophryniscus admirabilis) é um anfíbio da família Bufonidae, família essa que engloba o gênero dos sapinhos-de-barriga-vermelha – os Melanophryniscus. O anfíbio mede apenas 3 cm e se alimenta de formigas e ácaros, de onde extrai uma série de toxinas usadas na produção de secreções usadas na sua defesa contra predadores. 

Esse sapinho tem uma característica única – toda a população da espécie vive exclusivamente em um trecho de 700 metros da margem do rio Forqueta, no município de Arvorezinha no Rio Grande do Sul. Pesquisadores já reviraram outras regiões do Estado e não conseguiram achar nenhum outro exemplar da espécie. 

Essa característica, que se encontra em espécies animais e vegetais, é chamada em biologia de endemismo – a ocorrência restrita de uma espécie ou grupo de espécies a uma determinada região geográfica. Essa região pode ser desde um bioma grande como os Pampas Sulinos ou a Mata Atlântica, até áreas bem pequenas como o topo de um morro ou a margem de um rio. 

Agora, imagine a seguinte situação – alguma “otoridade”, autarquia ou órgão publico decide construir uma represa no rio Forqueta ou então uma rodovia que corte o pequeno micro bioma onde vive o sapinho. A resposta é óbvia: dificilmente os sapinhos conseguiriam sobreviver para “contar a sua história”. 

Por mais incrível que possa parecer, grandes obras de infraestrutura vinham sendo construídas sem maiores preocupações com os impactos ao meio ambiente até a década de 1960, época em começaram a crescer os movimentos de defesa do meio ambiente. 

Em 1962, a renomada ambientalista, bióloga marinha e escritora norte-americana Rachel Carson publicou um livro que dividiu a história da humanidade em dois períodos distintos – antes e depois da Primavera Silenciosa, título dado à renomada publicação.  

Alarmada com o uso crescente e sem qualquer controle de inseticidas e herbicidas pelos produtores rurais norte-americanos, Rachel Carson relatou em linguagem acessível e extremamente didática as consequências nefastas desses venenos para a natureza e para a saúde dos seres humanos. O livro se transformou rapidamente em um sucesso de crítica e de público, sem esquecer é claro da fúria e da ira que despertou em dirigentes da indústria química mundial.

O impacto do livro também foi fundamental para a proibição do uso de muitos destes venenos pelos agricultores – o DDT por exemplo, e a um controle mais rígido da produção e venda de agrotóxicos pelo Governo dos Estados Unidos.  

Dois outros importantes desdobramentos da publicação de Primavera Silenciosa: a criação da EPA – Environmental Protection Agency (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) em 1970 e o início do movimento ambientalista, que mudaria o mundo para sempre.  E como as coisas mudaram…

O controle da poluição do ar, da água e dos solos; os problemas ligados à geração e ao descarte do lixo; a queima de combustíveis fósseis não renováveis e a busca por fontes de energia limpas; a destruição das florestas tropicais e o avanço das fronteiras agrícolas; a caça às baleias e a proteção dos rinocerontes negros da África; os impactos de grandes obras de infraestrutura, entre muitos outros avanços – tudo passou a ser acompanhado “com lupa” pelos governos e suas máquinas burocráticas. 

Esse movimento tardou a chegar no Brasil, mas, em 1982, foi criada a Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA), regulamentada pela Lei nº 6.938/1981. Essa política tem como objetivo a preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental para garantir condições adequadas ao desenvolvimento socioeconômico do país. 

Um exemplo prático dessa Política – toda obra com potencial para causar alterações e/ou impactos ao meio ambiente passou a demandar uma série de estudos prévios nos campos da biologia, antropologia, geografia física e humana, geologia, história e arqueologia, entre muitas outras áreas do conhecimento. Esses estudos são mais conhecidos como EIA – Estudos de Impacto Ambiental. De forma complementar é gerado o RIMA – Relatório de Impacto ao Meio Ambiente. 

Toda essa documentação precisa ser apresentada, conforme o caso, a uma autoridade ambiental municipal, estadual ou federal. Após uma profunda análise, essa autoridade ambiental poderá aprovar a execução da obra, exigir maiores estudos ou ainda vincular a aprovação do projeto a implantação de medidas de compensação ambiental. 

No caso do sapinho-admirável-de-barriga-vermelha e do seu pequeno território na margem do rio Forqueta, qualquer analista do órgão ambiental decretaria que construtoras ou incorporadoras se mantenham o mais longe possível da região. 

Infelizmente, milhares de espécies animais e vegetais não tiveram essa sorte e sucumbiram sob pesadas camadas de pedra, concreto, asfalto e águas ao longo da história humana. Uma vez desaparecida uma espécie, somente através de um esforço monumental de engenharia genética, similar ao que foi feito para a desextinção polêmica do lobo-terrível, poderá ser trazida de volta a vida – é claro que isso ainda é hipotético e muitos estudos ainda precisam ser feitos. 

Por enquanto, os sapinhos do rio Forqueta estão a salvos. Porém, nada impede que ocorra um derramamento criminoso ou acidental de contaminantes nas águas do rio, o avanço de uma queimada descontrolada na mata ou ainda uma enchente devastadora, como aconteceu recentemente em grandes áreas do Rio Grande do Sul. 

Para quem trabalha em áreas da construção civil, como é o meu caso, as exigências ambientais dos órgãos reguladores muitas vezes nos tiram do sério, mas, nos conforta saber que tudo se faz por um valor bem maior que nossas obras. 

DESMATAMENTOS NA AMAZÔNIA CRESCEM 18% NO ANO DA COP 30 EM BELÉM

Como deve ser do conhecimento da maioria dos leitores, o Brasil vai sediar a COP 30 – 30ª Conferência da ONU sobre as mudanças climáticas. O evento está agendado para o próximo mês de novembro na cidade de Belém do Pará. 

Além de um sem-número controvérsias como a derrubada de um trecho da Floresta Amazônica para a construção de uma avenida, o “plantio” de árvores artificiais e gastos multimilionários em obras, uma sombra escura está causando arrepios nos organizadores – os desmatamentos e as queimadas não param de crescer na Amazônia. 

De acordo com dados do SAD – Sistema de Alerta de Desmatamentos, as áreas de desmatamentos na Amazônia Legal cresceram 18% nos primeiros oito meses do “calendário do desmatamento” da Amazônia. Esse calendário é determinado pela estação chuvosa no bioma, que se estende entre os meses de novembro a maio. Os desmatamentos aumentam na estação seca que vai de junho a outubro, época em que é mais fácil fazer as queimadas e extrair as madeiras. 

Imagens de satélite captadas pelo IMAZON – Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, mostram que a área desmatou passou de 1,94 mil km² entre agosto de 2023 e março de 2024, para 2,29 mil km² entre agosto de 2024 e março de 2025. Essa área é equivalente ao território ocupado pela cidade de Palmas, capital do Estado do Tocantins. 

A Amazônia Legal é um conceito geográfico que foi criado no final da década de 1950 e que costuma causar alguma confusão. Além de incluir a totalidade da região coberta pela Floresta Amazônica, a Amazônia Legal inclui a totalidade do Estado do Mato Grosso e do Tocantins, além de parte do Maranhão, o que corresponde a uma área total de mais de 5,2 milhões de km², equivalente a 61% do território do Brasil. 

Esse aumento na área desmatada na Amazônia, que por si só já causa um enorme constrangimento para o país anfitrião da COP 30, podem ficar ainda mais dramáticos quando analisados de uma forma mais ampla. 

Se for usado o calendário de desmatamento acumulado entre os meses de agosto a março, a degradação florestal cresceu 329%, passando de 7,92 mil km² entre agosto de 2023 e março de 2024, para 34,01 mil km² no período entre agosto de 2024 e março de 2025. Esses números desastrosos vão impedir que muitos vistam a fantasia de “grandes salvadores da Amazônia”. 

Conforme tratamos com grande frequência nas postagens aqui do blog, a proteção da Floresta Amazônica, o segundo maior sistema florestal do planeta, é fundamental para a manutenção e estabilidade do clima e das chuvas tanto no Brasil quanto em parte importante do mundo. Qualquer esforço para coibir a derrubada de árvores e as queimadas são sempre bem-vindos. 

O que quase nunca é lembrado é que cerca de 25 milhões de brasileiros vivem dentro da região coberta pela floresta, pessoas essas que precisam trabalhar e produzir alguma coisa para sobreviver. Para muitas dessas pessoas, derrubar árvores para vender a madeira ou queimar trechos da mata para plantar ou criar gado é uma das poucas formas de se ganhar o pão na região. 

Esse problema, que já é sério, fica ainda maior em tempos de problemas econômicos no país. Antes de criticar esses “destruidores” da Amazônia, grupo formada em sua grande maioria por gente pobre, é preciso implementar programas de desenvolvimento sustentável, onde essa população consiga produzir sem ameaçar a Amazônia. Siga esse link para conferir uma série de postagens aqui do blog com a demonstração de inúmeras atividades econômicas sustentáveis para o bioma. 

Pelo andar da carruagem, a COP 30 vai apresentar uma série de discursos inflamados e vazios de ecologistas, políticos e famosos, todos intrépidos defensores do meio ambiente. Soluções práticas e objetivas para os problemas que assolam a Amazônia e outros ecossistemas do mundo, bom, isso vai ficar para a COP 31… 

TIBBLES, A GATA SOLITÁRIA QUE EXTINGUIU UMA ESPÉCIE DE AVE NA NOVA ZELÂNDIA 

Conforme apresentamos em uma postagem recente aqui do blog, gatos domésticos representam uma perigosa ameaça para a fauna silvestre – a imagem acima ilustra bem isso. Curiosamente, O Município, um periódico da cidade de Blumenau e região, publicou uma reportagem que trata de um desses casos – uma única gata que conseguiu exterminar uma espécie de ave em uma das ilhas da Nova Zelândia. 

As ilhas que formam o arquipélago da Nova Zelândia estão separadas de outras áreas continentais há, pelo menos, 19 milhões de anos. Devido a esse isolamento, as únicas espécies de mamíferos nativos das ilhas são os morcegos, que chegaram voando. A fauna original local era formada essencialmente por aves, peixes e insetos. Algumas espécies de mamíferos marinhos como baleias e focas visitam as ilhas frequentemente, porém sem causar impactos ambientais.  

A invasão do território neozelandês por espécies exóticas começou por volta do ano 1300, quando desembarcaram nas ilhas as primeiras expedições de maoris, grupo polinésio originário do Sudeste Asiático. Em suas grandes canoas, os maoris transportavam porcos, galinhas, cães e gatos, entre outros animais domésticos. Ao longo dos últimos 700 anos, essas espécies invasoras (incluindo na lista os humanos) passaram a competir com as espécies nativas, levando muitas delas a extinção. 

Uma das primeiras espécies da fauna da Nova Zelândia a ser extinta após a chegada dos maoris às ilhas foram as moas, um grupo de aves que era formado por nove espécies de seis gêneros. Essas aves não voavam e as duas maiores espécies, a Dinornis robustus e a Dinornis novaezelandiae podiam atingir uma altura de 3,6 metros com o pescoço estendido e um peso de 230 kg. Quando os polinésios desembarcaram nas ilhas por volta do ano 1280, estima-se que existiam cerca de 58 mil moas – no ano 1440, todas as moas já haviam desaparecido devido à caça excessiva.   

A situação se complicaria ainda mais nas primeiras décadas do século XIX, época em que foi iniciada a colonização das ilhas pelos britânicos. Os recém-chegados traziam, além de suas bagagens e sonhos, novos animais domésticos como vacas, cavalos, porcos, ovelhas, cabras galinhas e patos, entre outras espécies, além de seus próprios gatos e cachorros. 

Após essa segunda onda de espécies animais invasoras, todo um grupo de espécies de aves terrestres passaram a desaparecer das grandes ilhas, ficando restritas a alguns poucos recantos isolados e ilhas vizinhas. Um desses casos foi o da pequena ilha de Stephen, separada de uma das grandes ilhas por um canal com cerca de 3,2 km de largura. 

A aparente tranquilidade desse refúgio natural terminou em 1892, ano em que foi construído um farol marítimo na ilha. Diferente dos faróis automáticos modernos, as instalações antigas dependiam da presença de um faroleiro, que na grande maioria dos casos, vivia sozinho nesses locais. 

O primeiro faroleiro alocado na ilha de Stephen não suportou a solidão e, poucos meses depois, foi substituído por David Lyall, que trouxe junto com suas bagagens Tibbles, sua gata de estimação. Como todo felino, a curiosa gata passou a fazer seus passeios pelo interior da minúscula ilha e começou a abater aves terrestres que encontrava pelo caminho. 

A principal presa da gata era a cotovia-da-ilha-de-Stephen, uma pequena ave terrestre com cerca de 10 cm de altura. A espécie, que no passado era encontrada nas grandes ilhas da Nova Zelândia, tinha encontrado na ilha de Stephen o seu derradeiro refúgio.  

Como é comportamento comum nos gatos domésticos, Tibbles costumava trazer algumas das cotovias que caçava para a sua casa no farol. David Lyall guardou algumas dessas aves mortas, que depois vendeu para o barão Walter Rothschild, um famoso ornitólogo da época. O cientista identificou a ave como uma espécie nova para a ciência e a batizou com o nome de Traversia lyalli. Infelizmente, a espécie já se encontrava extinta naquele momento. 

Tibbles foi a responsável pela extinção da cotovia-da-ilha-de-Stephen, porém, ela não pode ser responsabilizada – gatos são animais irracionais e agem por puro instinto. A culpa é toda do humano que a levou para o ambiente da ilha – David Lyall

Desgraçadamente, existem muitos desses Davids espalhados por nosso mundo… 

A “ILHA DE PLÁSTICOS” DO OCEANO PACÍFICO, OU O 7º CONTINENTE 

Em meio as grandes preocupações com as queimadas e a destruição da Floresta Amazônica ou o aumento das temperaturas globais, temas esses que dominam os meios de comunicação e as discussões nas redes sociais, uma gigantesca ameaça ambiental cresce silenciosamente dia após dia em uma região remota do Oceano Pacífico. 

Falamos aqui da “ilha de plásticos”, um gigantesco aglomerado de resíduos dos mais diversos tipos de plásticos, que flutua numa extensa área do Oceano Pacífico entre a Califórnia, Estado da Costa Oeste dos Estados Unidos, e as ilhas do Havaí. 

De acordo com as mais recentes medições, essa “ilha” flutuante está ocupando uma área equivalente a 1,6 milhão de km², equivalente ao território do Estado do Amazonas ou algo como três vezes a área da França. Especialistas afirmam que essa massa é formada por aproximadamente 1,8 trilhão de pedaços de plásticos, com um peso estimado em 80 mil toneladas. Em alguns pontos, essa massa tem 10 metros de espessura. 

Essa “ilha” foi descrita pela primeira vez pelo oceanógrafo norte-americano Charles Moore em 1997. O pesquisador concluiu que aquela região ficava no ponto de encontro de diversas correntes oceânicas, onde se formava uma espécie de redemoinho que atrai e concentra os resíduos plásticos na região. O volume de resíduos foi calculado na época em 4 mil toneladas. 

Um estudo posterior publicado na prestigiada revista científica Nature afirmou que 94% da massa flutuante era formada por resíduos plásticos pequenos, especialmente fragmentos de embalagens plásticas. Uma grande quantidade de pedaços de redes de pesca também foi encontrada junto aos fragmentos. Outro destaque dessa massa de resíduos são as sacolas plásticas distribuídas em supermercados e lojas. 

Esse estudo também mostrou que 2/3 dos fragmentos recolhidos apresentava caracteres chineses e japoneses impressos. Também foi possui rastrear a origem de grande parte dos fragmentos – além da China e do Japão, a lista inclui fragmentos originários do México, Taiwan, Filipinas, Canadá, Chile, Colômbia, Alemanha, Itália e Venezuela, entre outros. 

Uma das maiores ameaças representadas por esse tipo de resíduo são os chamados microplásticos, fragmentos muito pequenos que são ingeridos pelas espécies marinhas. Segundo um relatório de 2016 publicado pela FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação, cerca de 800 espécies de peixes, crustáceos e moluscos presentes na alimentação humana estão contaminados por microplásticos. 

Os problemas não param por aí – um estudo feito pela organização ambiental internacional Greenpeace em 2018, em parceria com a Universidade Nacional de Incheon, da Coréia do Sul, concluiu que 90% do sal de origem marinha vendido no mundo está contaminado por resíduos microscópicos de plástico. 

Essa “anomalia” geográfica não é uma exclusividade do Oceano Pacífico – existem, entre muitas outras, uma grande formação similar no Mar do Caribe e outra no Oceano Indico, bem memores em área, mas tão nocivas quanto. Isso demonstra que a poluição dos mares por resíduos plásticos é um problema global. 

E tem mais – especialistas estimam que até 10% das 100 milhões de toneladas de plásticos produzidas anualmente em nosso planeta acabem chegando aos oceanos, jogadas diretamente nas águas por cidades costeiras ou por despejo de navios ou arrastadas do interior dos continentes através dos sucessivos rios das bacias hidrográficas. 

Estudos do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, indicam que existem atualmente 18 mil fragmentos visíveis de plásticos flutuando em cada quilômetro de mar – é indeterminada a quantidade de resíduos que está submersa nos oceanos.  

Os oceanos são fundamentais para todos nós. Além de ser uma enorme fonte de alimentos para muita gente, as águas oceânicas são o verdadeiro pulmão de nosso planeta – cerca de 51% do oxigênio presente na atmosfera terrestre é gerado pelas algas e microalgas oceânicas. Não custa lembrar que o oxigênio é essencial para a existência a vida no planeta Terra. 

Ou seja – a humanidade até consegue sobreviver sem peixes, moluscos e crustáceos capturados nos oceanos. Com algum esforço também é possível substituir o sal oceânico pelo produto encontrado em minas terrestres e salares espalhados por todos os cantos do planeta. 

Agora, sem oxigênio, seres humanos e outras formas de vida não sobrevivem nem por 5 minutos… 

UM PROJETO HIDROVIÁRIO PARA A CIDADE DE SÃO PAULO, OU DE VOLTA PARA O PASSADO 

Desde o mês de maio de 2024, está em operação o Aquático-SP, um serviço de transporte hidroviário público através das águas da Represa Billings. O serviço utiliza embarcações com capacidade entre 30 e 60 lugares, fazendo a ligação entre o Cantinho do Céu, um bairro afastado no extremo Sul da cidade de São Paulo, e o Parque Mar Paulista, na região do bairro da Pedreira. 

O trajeto tem cerca de 5,6 km de extensão e pode ser feito em 15 minutos. Isso pode até parecer pouca coisa para a maioria dos leitores, mas, para os moradores da região, isso significa uma redução do tempo de trajeto em mais de uma hora quando comparado ao roteiro feito por ônibus. 

A Represa Billings que, conforme comentamos em postagem recente, comemorou o primeiro centenário há poucas semanas, é o maior reservatório da Região Metropolitana de São Paulo. Suas margens se estendem por áreas dos municípios de São Paulo, Santo André, São Bernardo do Campo, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, com um espelho d’água com cerca de 100 km². 

O serviço está com um ótimo nível de aprovação pelos usuários e representa apenas a ponta do iceberg de todo um pacote de serviços e soluções de transporte hidroviário já em gestação e que deverão ser implementados na cidade de São Paulo ao longo das próximas décadas. 

A Região Metropolitana de São Paulo é cortada por diversos rios e córregos de bom tamanho, com grande potencial para uso como hidrovia. O maior desses corpos d’água é o Rio Tietê, maior rio do Estado, que dentro da Região Metropolitana conta com cerca de 125 km de extensão. 

Também se destacam os rios Pinheiros, com 25 km de extensão, e Tamanduateí, este com 35 km. Também podemos incluir na conta córregos volumosos como o Aricanduva, com 20 km de extensão, e a Represa Guarapiranga, localizada na Zona Sul da cidade de São Paulo, que tem um espelho d’água com aproximadamente 25 km². 

Após a realização de todo um conjunto de obras como barragens, eclusas, aprofundamento e alargamento de canais, reconfiguração de pontes já existentes e construção de docas para carga e descarga, todo esse conjunto de vias fluviais poderá ser usado tanto para o transporte de passageiros, quanto para o transporte de cargas. 

Sistemas semelhantes estão em operação em diversas cidades do mundo. Um dos exemplos mais conhecidos são os canais dos Países Baixos, que estão em operação desde a antiguidade. Também podemos citar o rio Sena e os canais da cidade de Paris, e o rio Tâmisa em Londres. 

Ao contrário da grande inovação que esse futuro sistema de transportes hidroviários poderá representar para toda a cidade e Região Metropolitana, a cidade de São Paulo nasceu e se desenvolveu utilizando o transporte fluvial através de toda uma rede de rios e córregos por todo o Planalto de Piratininga. 

Quando os primeiros padres Jesuítas, entre eles Manuel da Nobrega e José de Anchieta, chegaram ao Planalto de Piratininga na década de 1550, encontraram diversas aldeias indígenas espalhadas. Esses indígenas utilizam canoas de diversos tamanhos para o transporte de pessoas e de mercadorias. Após a fundação da cidade de São Paulo em 1554, esse sistema de transporte foi mantido e sobreviveu até o início do século XX. 

Um exemplo notável desse modal de transporte paulistano é a região da rua 25 de Março, bem no coração da cidade e que abriga o maior centro comercial a céu aberto do Brasil. Até o final do século XIX, um braço do rio Tamanduateí existia no local e abrigava um movimentado porto fluvial, bem ao lado do mercado central. Com o crescimento da cidade, essa região foi aterrada e urbanizada – uma das únicas lembranças daqueles tempos está no nome de uma rua – Ladeira Porto Geral. 

De acordo com registros históricos, o Planalto de Piratininga, a região onde encontramos grande parte das cidades da Região Metropolitana de São Paulo, era cortado por cerca de 300 rios e córregos de bom tamanho. Algumas fontes afirmam que esse número se situava na casa de 1.200 corpos de água. Durante séculos, toda essa rede hidroviária foi usada para o transporte de pessoas e mercadorias, definindo os contornos atuais da área metropolitana. 

Um exemplo que sempre cito é o do meu bairro – Santo Amaro, localizado a pouco mais de 15 km do centro de São Paulo. Até a década de 1930, Santo Amaro foi um município independente, especializado na produção de produtos hortifrutigranjeiros, lenha, carvão e produtos cerâmicos. Esses produtos eram transportados até o mercado central por toda uma rede de rios como o Guarapiranga, Jurubatuba, Pinheiros e Tietê. 

Com o advento da cafeicultura na Província de São Paulo a partir dos anos de 1850, a cidade de São Paulo passou a crescer de forma exponencial. A partir da década de 1860, trechos de rios, córregos e áreas de várzea passaram a ser canalizados e/ou aterrados, criando terrenos para a expansão da mancha urbana da cidade. 

Ao longo de todo o século XX, devido ao aumento massivo de automóveis, caminhões e ônibus nas ruas da cidade, rios passaram ter seus cursos retificados para a construção de grandes avenidas como as Marginais Tietê e Pinheiros. Também surgiram as avenidas de fundo de vale como Aricanduva, do Estado, Salim Farah Maluf, Pacaembu e Bandeirantes, entre muitas outras. Centenas de riachos e córregos desapareceram sob camadas de concreto e asfalto.

A futura revitalização do modal de transporte hidroviário poderá mudar a cara da cidade de São Paulo e vizinhanças para melhor. Uma das premissas do projeto é a despoluição dos rios e córregos, e, de quebra, solucionar os problemas históricos das enchentes. Serão menos carros, ônibus, caminhões e enchentes, e mais lanchas, barcos e barcaças 

Será uma bem-vinda volta para o passado! 

AS VINHAS DA IRA CLIMÁTICA 

São as águas de março fechando o verão 
É a promessa de vida no teu coração” 

A maioria dos leitores deve conhecer esses versos maravilhosos que fazem parte da atemporal canção “Águas de março”, composição do imortal Tom Jobim e que ganhou o mundo na inigualável voz de Elis Regina. O verso exalta o final do verão e da temporada das chuvas na região Centro Sul do país. 

Em tempos de mudanças climáticas globais, entretanto, a letra não está mais correspondendo com a realidade – já se passou quase um mês desde o final do verão e as “águas de março” continuam a castigar com força muitas cidades e regiões do Brasil em pleno mês de abril. 

Exemplos fáceis que podemos citar são as fortes chuvas que castigaram as regiões Central e Sul do Estado do Rio de Janeiro poucos dias atrás ou ainda as tempestades que continuam assolando as tardes na Região Metropolitana de São Paulo. As mudanças climáticas, é certo, vieram para ficar! 

Um grande setor econômico que vem sentindo como nenhum outro os impactos das mudanças climáticas é a vitivinicultura, que engloba todo o processo de produção do vinho, desde o cultivo das uvas até a produção dos vinhos.  Esclarecendo: a viticultura se dedica ao cultivo e a produção de uvas, enquanto a vinicultura corresponde a produção dos vinhos. 

O vinho é uma das mais antigas bebidas alcoólicas produzidas e consumidas pela humanidade. Evidências arqueológicas encontradas em áreas da Ásia Central como a Geórgia, o Irã, a Turquia e a China, datadas entre 8 mil e 5 mil anos antes de Cristo (a.C), indicam que a domesticação da videira, a planta que produz a uva, e o início da produção de vinhos começou ali, se espalhando gradativamente pelo mundo. 

Regiões de clima temperado, com invernos frios e verões quentes se mostraram as mais adequadas para o cultivo da uva. Extensas regiões da Europa, do Norte da Ásia e do Oriente Médio se destacaram na produção de vinhos de excelente qualidade desde o limiar da história das civilizações. Entre os países de maior tradição vinícola se destacam a Itália, França, Espanha, Portugal, Alemanha, Grécia e Turquia. 

Com o avanço das ciências e da cartografia em eras mais modernas, os geógrafos perceberam que as melhores regiões produtoras de vinho no Hemisfério Norte se situavam entre os paralelos 30 e 40° – essa constatação ficou ainda mais evidente após o início da produção de vinhos na Califórnia, região que se encontra dentro destes paralelos, ainda no início da colonização espanhola (a região na época pertencia ao México). 

Com o passar do tempo, cartógrafos descobriram que no Hemisfério Sul também existia uma faixa climática que apresentava as condições ideais para a produção do vinho. Dentro dessa faixa climática, entre os paralelos 30 e 40° Sul, encontramos o Chile, a Argentina, o Uruguai, o Sul do Brasil, a África do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia, países que nas últimas décadas se tornaram grandes produtores mundiais e exportadores de vinho de alta qualidade. 

Estas duas regiões produtoras, conhecidas também como Paralelos do Vinho, durante muito tempo representavam uma espécie de garantia para a produção de bons vinhos. Entretanto, nos últimos anos, extremos climáticos, tanto no Hemisfério Norte quanto no Sul, têm criado problemas para o cultivo das uvas e prejudicado a produção de vinhos em todo o mundo. 

Tradicionais regiões produtoras de países como França, Espanha e Itália vem assistindo reduções tanto no volume quanto na qualidade de seus vinhos, Verões escaldantes, secas, geadas e invernos irregulares tem afetado a produção de uvas, com consequências diretas na qualidade dos vinhos. 

Por outro lado, regiões sem nenhuma tradição na produção de bons vinhos vem surpreendendo o mundo e os apreciadores da bebida. Um exemplo notório é o sul da Inglaterra, onde a atividade sempre foi taxada como medíocre pelos produtores europeus tradicionais. Os vinhos “made in England” vem evoluindo muito bem nos últimos anos. A região apresentou um crescimento de 60% na produção da bebida nos últimos anos. 

E as coisas não param por aí – a Noruega, país famoso por suas paisagens geladas e fiordes deslumbrantes, está assistindo o surgimento de parreirais em seus vales, onde as videiras estão crescendo bem e onde estão se instalando pequenos produtores de vinho.   

Aqui no Brasil, a Região Sul é a grande produtora de vinhos, com a Serra Gaúcha no Rio Grande do Sul respondendo por cerca de 80% da produção nacional. Outra região do Estado com produção relevante é a Campanha Gaúcha, no oeste sul riograndense. Também, é uma das regiões brasileiras onde as mudanças climáticas têm causado os maiores desastres. 

Todos devem ter memórias bem frescas das catastróficas enchentes vividas por grande parte do Rio Grande do Sul no ano passado. Cidades quase que totalmente cobertas pelas águas das enchentes, famílias ilhadas nos telhados de casas ou amontoadas em abrigos temporários. 

O que talvez muitos não saibam é que o Rio Grande do Sul vem convivendo com grave escassez de recursos hídricos já há várias décadas. Algumas regiões apresentam hoje paisagens mais parecidas com o Semiárido Nordestino do que com os Pampas Sulinos. Nesse momento, 61 municípios gaúchos estão enfrentando problemas relacionados com a estiagem. 

Como vem acontecendo na maioria das regiões produtoras do mundo, vinicultores e viticultores gaúchos correm contra o tempo para se adaptar a esses novos tempos. Parreirais estão sendo replantados em configurações que racionalizam o uso de água e dos solos; novas variedades de uvas desenvolvidas pela Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, que se adaptam melhor às novas condições climáticas, estão sendo testadas. 

Também estão sendo implantados novos sistemas de irrigação, onde são utilizados volumes de água menores e com perdas cada vez mais reduzidas. Unidades de produção de vinho estão sendo modernizadas, buscando uma eficiência cada vez maior e com custos significativamente mais baixos. 

A palavra de ordem é – quem não se adaptar às mudanças climáticas corre o risco de sair do mercado num futuro bem próximo. Que assim seja e que o vinho nosso de cada dia, seja lá de onde venha, continue presente em nossas mesas! 

GATOS DOMÉSTICOS: UMA DAS MAIORES AMEAÇAS À FAUNA SILVESTRE NO MUNDO 

Ameaças à fauna e à flora estão por todos os lados e são, quase que diariamente, temas de notícias e reportagens especiais nas redes sociais e nos meios de comunicação tradicionais. Os vilões são, invariavelmente, a destruição e a queima de florestas, o avanço da agricultura, mineração e criação de animais; o crescimento desordenado de cidades, a poluição das águas de rios, lagos e mares; a queima de combustíveis fósseis, entre outras ameaças. 

Todo esse conjunto de “vilões clichês” da natureza estão bem cristalizados no imaginário popular. Falar de outros tipos de ameaça ao meio ambiente pode até soar como algum tipo de heresia. Entretanto, existe um tipo de ameaça à fauna silvestre que convive conosco em nossas casas, ruas e outros logradouros públicos, que raramente levamos em conta – os gatos domésticos

Sim, eles mesmos – nossos fofos e amados gatinhos de estimação! 

Uma pequena amostra da periculosidade dos bichanos – de acordo com estimativas ambientais realizadas nos Estados Unidos, gatos domésticos (Felix silvestris catus) matam a cada ano 2,4 bilhões de aves, 12,3 bilhões de mamíferos, 478 milhões de répteis e 173 milhões de anfíbios – exclusivamente dentro do território norte-americano. 

Muitos dirão que os gatos são exímios caçadores de ratos, realizando assim um importante serviço no controle de epidemias. Sim, isso é a mais absoluta verdade. A lista de animais caçados, entretanto, é enorme. Estudos indicam que mais de duas mil espécies são caçadas por gatos domésticos, em sua imensa maioria formada por animais com menos de 5 kg de peso

Diferente de seus primos selvagens, os gatos domésticos costumam ser alimentados por seus donos ou, no caso dos chamados “vira-latas”, vasculham sacos e latas de lixo para conseguir alguma coisa para comer. Mesmo assim, de barriga cheia, esses animais costumam sair em passeios por áreas silvestres próximas de suas casas para exercitar seus instintos de caçador, matando um ou outro animal apenas por “diversão”. 

Ao contrário de muitos dos seus primos selvagens, que vem sofrendo com a perda de seus habitats e áreas de caça, sofrendo assim de risco de extinção em muitas regiões, a população de gatos domésticos não para de crescer. Aqui no Brasil estima-se que mais de 29 milhões de gatos vivem em casas e ruas de nossas cidades. Nos Estados Unidos são estimados em 84 milhões de animais e, em países desenvolvidos, se estima algo como um gato para cada quinze habitantes. 

De acordo com estimativas de arqueólogos e outros cientistas, pequenos gatos selvagens começaram a se aproximar de assentamentos humanos há cerca de 8 ou 9 mil anos, especialmente na África. Esse foi um período marcado pelo início da agricultura e abandono da vida de nômades caçadores/coletores por muitos grupos humanos. 

Esses gatos passaram a rondar os agrupamentos humanos em busca de alimentos fáceis proporcionados por criações domésticas como galinhas, patos e coelhos. Também visavam a caça de um animal “doméstico” indesejado – os ratos. Isso mesmo – ratos são classificados como animais sinantrópicos, ou seja, animais que aprenderam a viver junto com os seres humanos. Nessa lista se incluem também baratas, pulgas, carrapatos, formigas, abelhas, centopeias, lagartixas e morcegos, entre muitos outros. 

Os ratos domésticos ou camundongos (Mus musculus), os ratos pretos (Rattus rattus) e as ratazanas (Rattus norvegicus), conhecidas em algumas regiões como gabirus, são originários das planícies da Ásia Central. Esses animais se aproximaram dos assentamentos humanos em busca de alimentos, especialmente os grãos que passaram a ser estocados em silos e celeiros. Com as migrações humanas, esses animais seguiram as caravanas e se espalharam por todo o mundo. 

Além de causar perdas nos estoques de alimentos, os ratos passaram a transmitir um sem-número de doenças aos grupos humanos. Quando essas pessoas perceberam que os gatos caçavam e comiam esses ratos, rapidamente passaram a adotar os simpáticos gatos como animais de estimação. Estimativas atuais falam de mais de 250 raças diferentes de gatos. 

Apesar da boa e confortável vida doméstica, com abrigo, comida e muito carinho, os gatos nunca perderam seus instintos de caçador furtivo. Também mantiveram muitos dos seus hábitos ancestrais como a hiperatividade noturna e o gosto por longos passeios pelo “seu território”. E são justamente nesses passeios noturnos onde se deixam levar pelos instintos mais primitivos de caçador. 

Muitos que tem um gato de estimação em casa já foram surpreendidos com o recebimento de “presentes” trazidos pelos animais – pássaros, lagartos ou outros animais mortos, caçados durante a última noite. Estima-se que, pelo menos, 33 espécies de animais silvestres foram levadas à extinção por ação direta de gatos domésticos. 

A pior parte dessa história – qual ambientalista consegue convencer os donos de um desses fofos e simpáticos animais de sua periculosidade para a fauna silvestre

A POLÊMICA “DESEXTINÇÃO” DO LOBO-TERRÍVEL 

Ambientalistas, cientistas e fãs do desenvolvimento científico entraram em um verdadeiro êxtase após a divulgação da notícia da “desextinção” do lobo-terrível, uma espécie aparentada com os lobos atuais e que desapareceu da face da terra há mais de 10 mil. 

A responsável pela suposta façanha foi a empresa Colossal Biosciences, uma startup norte-americana. De acordo com o comunicado, a empresa conseguiu trazer de volta a vida três filhotes de lobo-terrível: Romulus e Remus, dois machos que estão com cinco meses (foto), e Khalesi, uma fêmea que nasceu no final de janeiro. 

De acordo com a empresa, o genoma dos animais foi reconstruído a partir de amostras de DNA antigo recuperadas de fósseis de lobo-terrível que datam de 11,5 mil e 72 mil anos. Trechos específicos desse material genético foram inseridos no DNA de lobos cinzentos, a espécie viva mais próxima do lobo-terrível. Esse DNA “editado” foi usado para recriar os filhotes. 

O extinto lobo-terrível (Aenocyon dirus), também conhecido como lobo pré-histórico, tinha como habitat a América do Norte. Cientistas afirmam que a espécie surgiu na América do Sul e que migrou para a porção norte do continente há cerca de 100 mil anos.  

Essa antiga espécie era um pouco maior que os lobos cinzentos atuais, com um peso que podia chegar aos 80 kg. A principal diferença entre as duas espécies está no esqueleto, que no lobo-terrível era mais pesado e massivo. Os primeiros fósseis da espécie foram encontrados na bacia hidrográfica do rio Ohio em 1854, porém, a maior fonte de ossadas desses animais são encontradas no famoso poço de piche de La Brea, que fica no centro da cidade de Los Angeles.

A espécie também tinha a cabeça maior que os lobos cinzentos atuais, com dentes mais fortes e uma mandíbula massiva, uma característica que permitia ao lobo-terrível triturar ossos com extrema facilidade. O animal também tinha patas mais curtas, o que indica que a espécie era mais lenta que o lobo cinzento. 

A análise das características físicas do lobo-terrível indica que a espécie era especializada na caça de animais grandes e lentos da antiga megafauna norte-americana, espécies que vagavam pelas paisagens do pleistoceno. Nessa lista podemos incluir bisontes, antas, preguiças gigantes, mastodontes e mamutes jovens, entre outros. Essas espécies se extinguiram entre 16 mil e 10 mil anos, eventos que contribuíram fortemente para a extinção do lobo-terrível. 

Inúmeros cientistas estão vindo a público para questionar o feito da Colossal. O principal questionamento é como foi feita a reconstrução do DNA do lobo-terrível. Estudos científicos costumam ser publicados em detalhes em publicações especializadas, de forma que cientistas de universidades e empresas possam avaliar a metodologia ou que possam, até mesmo, replicar todo o processo, validando assim a descoberta. 

Outro questionamento frequente diz respeito a “desextinção”. Segundo o comunicado da Colossal, o DNA usado para a reprodução dos animais era de lobos cinzentos com apenas 20 trechos editados com DNA do lobo-terrível. De acordo com os especialistas, esse processo apenas “maqueou” algumas características do lobo cinzento, o que permitiu criar “lobinhos brancos”. 

Essa é uma discussão que vai se estender por muitos e muitos anos… 

Polêmicas à parte, os estudos da Colossal Biosciences abrem todo um leque de possibilidades técnicas para a conservação de espécies animais sob risco iminente de extinção. São casos em que o número de indivíduos é muito pequeno e a simples clonagem de indivíduos não é viável devido à baixa diversidade genética. 

Um caso que podemos citar é o da vaquita (Phocoena sinus), considerada a espécie de cetáceo mais ameaçada do mundo. São pequenos golfinhos com cerca de 1,4 metro de comprimento que vivem somente em um pequeno trecho do Mar de Cortês, na costa Oeste do México, localizado junto ao delta do rio Colorado. De acordo com as últimas estimativas, existe algo entre 10 e 20 vaquitas ainda vivas. 

A criação de uma técnica de reconstrução de DNA antigo como essa que, supostamente foi utilizada para recriar os lobos-terríveis, permitiria a reconstrução do DNA recolhido em ossos antigos de vaquitas, o que permitiria trazer de volta a vida indivíduos com características genéticas diversas. Estes indivíduos poderiam se misturar aos remanescentes da espécie e produzir filhotes mais saudáveis, o que viabilizaria a sobrevivência das vaquitas a longo prazo. 

Nessa conta também podemos incluir espécies animais recém extintas pela humanidade. Vou citar o exemplo do baiji ((Lipotes vexillifer), também chamado de golfinho-lacustre-chinês ou golfinho branco. Essa espécie era encontrada exclusivamente na bacia hidrográfica do rio Yangtzé na China. A intensa poluição e degradação das águas desse rio foi fatal para esses golfinhos – o último baiji vivo foi visto em 2006. 

A lista de espécies criticamente ameaçadas e/ou recentemente extintas é enorme. A possibilidade de reversão dessas situações a partir desse tipo de tecnologia enche de esperança o coração de ambientalistas e amantes da natureza. 

Por enquanto, a única certeza que todos temos é que três lobinhos brancos e muito fofos nasceram nos laboratórios de uma empresa norte-americana. O que virá daqui para a frente é simplesmente uma grande incógnita. 

AS CHUVAS TORRENCIAIS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

O Estado do Rio de Janeiro foi castigado por fortes chuvas nos últimos dias. Além da Região Metropolitana, foram atingidas as regiões da Baixada Fluminense, Serrana e, particularmente, o Litoral Sul. 

As cidades mais afetadas pelas chuvas foram o Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo, Mesquita, Magé, Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo. Angra dos Reis e Paraty, municípios do Litoral Sul que fazem parte da chamada Costa Verde, foram os mais fortemente atingidos. 

As cidades brasileiras, conforme já tratamos em inúmeras postagens aqui do blog, não estão preparadas para conviver com fortes chuvas. Existem algumas exceções, é claro, mas esse fato é praticamente uma regra geral. Além da falta de infraestrutura, os chamados sistemas de drenagem de águas pluviais, o problema é sempre agravado pela ocupação irregular de encostas de morros e margens de rios e córregos

Na Região Serrana do Rio de Janeiro, em cidades como Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, tragédias de escorregamentos de encostas em episódios de chuva forte são comuns, com centenas de casas destruídas e com inúmeros mortos e feridos. 

No quesito infraestrutura, as cidades costumam pecar muito no dimensionamento da drenagem de grandes volumes de águas pluviais. Os sistemas que realizam este tipo de trabalho começam com as sarjetas e o meio-fio das ruas, seguindo para os bueiros, caixas de passagem e tubulações. Grande parte dos bairros das cidades ou não tem esses dispositivos ou, quando existem, foram feitos com grande índice de improvisos. 

Nesse último episódio de fortes chuvas em terras fluminenses, a cidade de Angra dos Reis foi a mais fortemente castigada. De acordo com informações da Prefeitura, o volume acumulado de chuvas, que começaram a cair na sexta-feira dia 4, foi de impressionantes 324 mm nas primeiras 24 horas e de 357 mm em 48 horas. 

Para quem não conhece esse sistema de medição, falamos aqui da quantidade de águas de chuva que atinge uma área de 1 m² durante um certo período. Imagine uma caixa com arestas de 1 m (altura, largura e profundidade). Quando falamos de uma chuva com 324 mm, falamos que o volume de água acumulado nessa caixa atingiu uma altura de 324 mm, ou seja, 324 litros de água para cada metro quadrado da região. 

Em 2010, época em que trabalhei nas obras do sistema de coleta e tratamento de esgotos da cidade de Porto Velho em Rondônia, acompanhei estarrecido a chuva mais forte que já vi na minha vida. De acordo com a medição de um pluviômetro instalado no nosso canteiro de obras, foram mais de 145 mm de chuva forte e contínua ao longo de 6 horas. Em alguns momentos, a vibração da chuva no telhado do escritório nos dava a impressão de que um desmoronamento seria iminente. 

O volume dessa chuva que atingiu Angra dos Reis entre a última sexta-feira e o sábado foi bem mais que o dobro da chuva que vivi na Amazônia. Esse volume de água caindo sobre uma cidade em um espaço de tempo tão curto já teria um potencial de destruição fabuloso, mesmo que a cidade tivesse um sistema de controle de águas pluviais exemplar. 

Normalmente, episódios de chuva forte em nossas cidades apresentam volumes máximos da ordem de 50 mm. Quando circulamos pelas ruas e avenidas nesses momentos costumamos enxergar grandes enxurradas descendo pelas calhas das sarjetas, encontramos pontos de alagamento aqui e ali, e observamos também canais de drenagem e outros corpos d’água tendo seus volumes e níveis aumentando dramaticamente. 

Na minha cidade – São Paulo, que nem de longe está preparada para uma convivência com chuvas mais fortes, uma chuva dessas tem potencial para provocar um verdadeiro caos. São alagamentos nas áreas mais baixas, destelhamento e até desmoronamento de casas em áreas críticas, muito lixo espalhado por rua e avenidas, além de engarrafamentos monstruosos. 

Angra dos Reis e Paraty, cidades que são famosas pelo seu grande potencial turístico, com belos pontos históricos e fabulosas mansões ao longo da faixa costeira, também são famosas por bairros precários ocupando encostas de morros e com total falta de infraestrutura. Foram justamente esses bairros os mais atingidos pelas fortes chuvas. 

De acordo com informações da Defesa Civil Estadual, mais de 50 mil pessoas da região litorânea foram impactadas pelas fortíssimas chuvas. Desmoronamentos de casas e encostas de morros deixaram 17 mortos até o momento – 10 em Angra dos Reis e 7 em Paraty, deixando um rastro de destruição. Ruas, avenidas e canais de drenagem foram tomadas por lama e entulho, alagando rapidamente. Centenas de pessoas estão desabrigadas.

A rodovia BR 101, mais conhecida como Rio-Santos, teve 6 pontos de interdição por causa de desmoronamentos de encostas em Paraty, Angra dos Reis e Mangaratiba. Essa rodovia é um dos principais acessos às cidades atingidas, problema que complicou as operações de socorro aos afligidos pela chuva. 

Como é praxe em emergências, toda a máquina pública das cidades e do Governo estadual, além de órgãos do Governo Federal, são acionados e os mais diferentes tipos de esforços são colocados em campo para atender as vítimas. Abrigos de emergência são abertos, cestas básicas são distribuídas, programas de renda emergencial são criados, feridos recebem atendimento médico e os mortos são enterrados sob muita comoção. 

E, como sempre acontece, a vida pouco a pouco vai voltando ao normal, com as populações reconstruindo pouco a pouco as suas vidas. Governantes e autoridades, discretamente, também começam a desaparecer das áreas impactadas – todos procuram se poupar para voltar a aparecer em futuras e inevitáveis novas tragédias. 

Mais cedo ou mais tarde será necessário dar um basta nesse lamentável ciclo vicioso de uma tragédia sendo seguida por outra maior ainda. Saneamento básico e políticas habitacionais sérias precisam deixar de ser apenas planos mirabolantes em propostas de governo (que, milagrosamente, costumam se multiplicar nas campanhas eleitorais) para serem transformados em realizações públicas. 

A temporada de chuvas deste ano na região centro-sul do país está terminando, mas a próxima, inevitavelmente, vai chegar no final do ano. E como se repete ano após ano, as mesmas tragédias associadas as fortes chuvas vão voltar a acontecer, muitas vezes nos mesmos lugares. 

Hora de dar um basta em tudo isso!