FORTES CHUVAS CONTINUAM CASTIGANDO CIDADES DA FAIXA LESTE DO NORDESTE BRASILEIRO

O Distúrbio Ondulatório do Leste continua causando estragos em toda a faixa Leste da Região Nordeste. Chuvas fortes e frequentes, que há vários dias vem caindo numa extensa região entre o Leste do Rio Grande do Norte e o Leste de Sergipe, vão continuar. O Leste e o Sul da Bahia vêm enfrentando chuvas menos intensas. 

São esperados grandes volumes acumulados de chuvas para os próximos dias em Natal, João Pessoa, Recife e Alagoas, eventos climáticos que sempre são seguidos de enchentes, alagamentos e deslizamentos de encostas. Duas pessoas já morreram em Alagoas por conta das fortes chuvas. 

O Distúrbio Ondulatório de Leste é um fenômeno climático que provoca uma perturbação nos ventos e na pressão que atuam na faixa tropical do globo terrestre que fica entre a África e o litoral do Brasil. Essa perturbação interfere no regime dos ventos alísios.  

Os ventos alísios sopram no sentido Leste-Oeste, formando nuvens de chuvas, que atravessam o Oceano Atlântico e chegam ao litoral Leste do Brasil. É esse distúrbio que está provocando as fortes chuvas nos Estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.  

Nessa segunda-feira, dia 4 de julho, o Governo Federal reconheceu a Situação de Emergência em 15 cidades dos Estados de Alagoas, Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte, além de incluir cidades no Amazonas e em Santa Catarina que também estão sendo castigadas com fortes chuvas. 

As cidades brasileiras, em sua grande maioria, não estão preparadas para suportar fortes chuvas. Essa é uma triste realidade que assola especialmente as médias e grandes cidades, aglomerados humanos que cresceram sem maiores preocupações com a construção de sistemas adequados para a drenagem das águas pluviais

O drama é ainda maior quando se verificam as péssimas políticas para a construção de moradias populares. Sem opção, dezenas de milhares de famílias em todo o país se voltam para os terrenos baratos das áreas de várzea e das encostas de morros. Construções precárias, sem as mínimas condições de segurança, vão se amontoando nos morros – bastam alguns poucos dias de chuva mais forte para colocar muitas dessas construções em risco. 

Na faixa Leste da Região Nordeste a situação é agravada pela falta de vegetação nativa nas margens de rios e nas encostas dos morros. Conforme já comentamos em inúmeras postagens aqui do blog, o trecho local da Mata Atlântica foi literalmente arrasado por séculos de cultivo da cana de açúcar. 

A Mata Atlântica dominava uma área equivalente a 15% do território brasileiro há época da chegada dos primeiros europeus às costas brasileiras. O bioma era predominante ao longo do litoral da região Nordeste entre o Sul da Bahia e o Rio Grande do Norte. Essa mata ocupava uma faixa com largura entre 60 e 80 km, entre a região do Agreste e o Oceano Atlântico. Em pouco mais de trezentos anos de monocultura da cana-de-açúcar, a maior parte dessas matas simplesmente desapareceram.  

Sem a proteção das matas, os férteis solos de massapê passaram a sofrer com os processos de erosão e grandes volumes acabaram sendo arrastados para a calha dos rios e levados na direção do Oceano Atlântico. Conforme os solos iam empobrecendo, os agricultores avançavam contra os remanescentes florestais em busca de “terras virgens”. Assim, gradativamente, a Mata Atlântica “sumiu dos mapas”.  

Essa destruição ocorreu ao longo de toda a costa Leste da região Nordeste e, entre outras consequências, resultou na destruição de inúmeros rios. Como exemplo podemos citar os rios Ipojuca e o Capibaribe em Pernambuco. Não por acaso, esses dois aparecem no topo da lista dos rios mais poluídos do Brasil – o Ipojuca ocupa a 3° posição, ficando atrás apenas dos famosos rios Tietê, de São Paulo, e Iguaçu, no Paraná. O rio Capibaribe está na 7° posição no ranking da poluição dos rios brasileiros. 

Rios caudalosos, que antes só podiam ser atravessados de canoa, passaram a ser vencidos facilmente a pé graças ao contínuo assoreamento e entulhamento dos seus leitos. Águas límpidas e transparentes que permitiam os banhos de rio, as lavagens de roupas e louças transformaram-se em esgotos.  

Sobre essa destruição em larga escala dos rios nordestinos, o grande intelectual pernambucano Gilberto Freyre deixou o seguinte registro:  

O monocultor rico do Nordeste fez da água dos rios um mictório. Um mictório de caldas fedorentas de suas usinas. E as caldas fedorentas matam os peixes. Envenenam as pescadas. Emporcalham as margens. A calda que as usinas de açúcar lançam todas as safras nas águas dos rios sacrifica cada fim de ano parte considerável da produção de peixes no Nordeste.” 

Entre outros inúmeros serviços ambientais, rios são os canais naturais para a drenagem das águas pluviais. Se seus canais foram tomados por areia e outros resíduos sólidos carreados ao longo de muitas décadas, vai faltar espaço para receber as águas das chuvas. Resultado – enchentes e alagamentos generalizados vão tomar conta das partes mais baixas das cidades. 

A falta de vegetação ao longo das margens e, em especial, nas encostas de morros é outro ponto crítico. As raízes da vegetação têm papel ímpar para a infiltração de parte da água das chuvas nos solos. Além de ser fundamental para a recarga de lençóis subterrâneos e aquíferos, essa vegetação ajuda a reduzir o volume e a velocidade das águas pluviais rumo a calha dos rios. Essas raízes também evitam o desmoronamento das encostas. 

Esse delay ou retardo nos volumes de água que chegam aos rios permite que haja tempo para escoar os volumes excedentes, evitando que haja transbordamentos. Na falta desses mecanismos naturais, as cidades precisam criar sistemas artificiais para a retenção das águas excedentes. Falo aqui de bacias de detenção abertas, piscinões e represas, entre outros tipos de sistemas. A construção desses tipos de estruturas depende de grandes volumes financeiros, tempo e vontade política, coisas em falta nas nossas cidades. 

Como sempre comentamos aqui em nossas postagens, temporadas de chuvas são e sempre serão coisas normais em um país como o nosso, onde grande parte do território fica dentro de latitudes com climas tropical e equatorial. 

Fenômenos climáticos como Distúrbio Ondulatório do Leste vão continuar a acontecer, salvo alguma mudança que venha a ocorrer devido ao aquecimento global e as mudanças climáticas já perceptíveis em todo o mundo. Logo, notícias desse tipo vão continuar frequentes.  

Ou assumimos as inevitáveis temporadas de chuvas aqui em nossas terras, ou vamos ficar sempre lamentando as más notícias e as mortes de inocentes por contas das águas pluviais. 

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