O “LEITE DAS ÁRVORES” CONTRA O SUOR E O SANGUE DOS SERINGUEIROS NO ACRE

Manaus Antiga

Em nossa última postagem falamos do desenvolvimento econômico alcançado pela Região Amazônica durante o chamado Primeiro Ciclo da Borracha, conjunto de atividades econômicas baseadas na exploração, processamento e exportação do látex, matéria prima básica para a produção da borracha. Esse Ciclo se desenvolveu entre 1870 e 1913, em datas bastantes aproximadas, entrando em declínio por causa da  forte concorrência dos seringais ingleses, que foram plantados em diversas áreas coloniais no Sudeste Asiático. 

Observem que estou me referindo somente ao Desenvolvimento Econômico – a indústria gomífera, nome dado a todo o ciclo de atividades ligadas à exploração e processamento do látex, trouxe muita riqueza e prosperidade para as elites locais da Amazônia. Manaus (vide foto) e Belém foram transformadas, ainda nas últimas décadas do século XIX, em verdadeiras metrópoles europeias perdidas no meio da selva. No mesmo período, para efeito de comparação, a pequena cidade de São Paulo era um ajuntamento de algumas poucas dezenas de milhares de pessoas perdidas no alto da Serra do Mar, e que, bem por acaso, se encontravam no ponto de cruzamento de várias linhas férreas, construídas para o transporte do café.  

Toda a riqueza dessa elite equatorial foi construída com o chamado “leite das árvores”, expressão usada para se referir à seiva das árvores da espécie Hevea brasiliensis – a famosa seringueira, e com o sangue de dezenas de milhares de migrantes trazidos, majoritariamente, dos sertões do Nordeste e largados à sua própria sorte nos confins da floresta. Vamos falar um pouco dessas vidas: 

A seringueira é uma árvore nativa da Floresta Amazônica, que nasce aleatoriamente por todos os cantos das diversas formações que compõem o bioma Amazônia. Para extrair o látex dessas plantas, é necessário se fazer uma espécie de mapeamento inicial da localização de cada árvore dentro de uma determinada região, criando-se depois um roteiro específico para que um seringueiro faça a “sangria” da árvore e a coleta do látex. Esse látex, em estado líquido e com muita água em sua composição, precisa ser defumado, ou seja, transformado em uma massa sólida conhecida como péla, que nada mais é que o polímero natural concentrado. Essas pélas precisam ser transportadas até o barracão do seringal, para depois serem transportadas para a comercialização final nas grandes cidades. Trata-se de uma “indústria” que necessita de muita mão-de-obra e de uma tecnologia bastante rudimentar. 

A Floresta Amazônica daqueles tempos não é muito diferente da atual – uma gigantesca extensão de terras com pouca gente. Foi preciso “importar” mão-de-obra de outras terras. A região Nordeste, tanto pela proximidade geográfica quanto pela grande população que possuía, se transformou na grande exportadora de “gentes” para os seringais. Há aqui uma trágica coincidência histórica: entre os anos de 1877 e 1879, justamente no início do Ciclo da Borracha, os sertões nordestinos enfrentaram uma das maiores secas de sua história – dados atuais calculam que essa seca matou mais de 500 mil pessoas. A cidade de Fortaleza, só para citar um exemplo, chegou a receber 100 mil flagelados – havia mão-de-obra de sobra a ser cooptada com falsas promessas de uma vida melhor nos “sertões verdes” da Amazônia. 

Há um detalhe histórico interessante aqui, que não sei se algum de vocês já havia reparado – no mesmo período do Ciclo da Borracha, os cafezais se expandiam como nunca dantes pelas “terras roxas” de São Paulo. Aliás, neste mesmo período, o café representava 50% das exportações brasileiras – o látex ocupava a segunda posição, respondendo por 25% das receitas externas. Com o crescimento dos movimentos abolicionistas a partir de meados do século XIX, o que levou à assinatura da Lei Áurea em 1888, havia uma crise de mão-de-obra nos cafezais paulistas. E com tantos nordestinos sofrendo com as consequências da forte seca do triênio 1877-1879, por que é que não houve uma migração em massa dessas pessoas para os cafezais de São Paulo? 

A trágica resposta: esses orgulhosos sertanejos nunca se rebaixariam a realizar um trabalho que, até então, era feito por escravos negros. As promessas de trabalho e riqueza numa terra cheia de grandes rios e de muita fartura, soava como uma espécie de “canto de sereia” – era impossível resistir. Se você, por acaso, conhece a Odisseia de Homero, vai se lembrar que os marinheiros de Ulisses colocaram cera nos ouvidos, a fim de evitar o encanto das sereias – seu capitão teve de ser amarrado ao mastro do navio para que não se atirasse ao mar… 

Centenas de milhares de migrantes, especialmente cearenses, pernambucanos e potiguares, deixaram o pouco que tinham para trás e embarcaram rumo aos confins da Floresta Amazônica – o Acre foi o destino final de muitos milhares desses migrantes. 

Nos primeiros anos do Ciclo da Borracha, eram as relações familiares e de amizade os principais mecanismos para o aliciamento de mão-de-obra; depois, foi o implacável clima do Semiárido quem expulsou e encaminhou grandes contingentes na direção dos seringais. Por fim, propagandas mentirosas na forma de cartazes, mostravam como estavam vivendo os sertanejos nas terras da borracha – boas casas, filhos bem nutridos e sorrisos largos: muitos foram convencidos a seguir para os seringais por essas propagandas enganosas. 

Conforme comentamos em postagem anterior, as relações “trabalhistas”, se é que é possível usar esse termo, colocavam os seringueiros e suas famílias em uma situação similar à escravidão. As “rações” fornecidas para a alimentação das famílias era insuficiente para garantir a nutrição mínima necessária e haviam regras nos seringais que proibiam qualquer tipo de produção de alimentos em suas terras. A eventual caça ou pesca eram as únicas fontes de proteína e de complementação nutricional. Aqueles que conseguiram sobreviver à fome, às extensivas jornadas de trabalho e suas cotas de produção de pélas de látex, e ainda aos muitos surtos de doenças tropicais, simplesmente passaram a ser abandonadas à sua própria sorte quando os preços do látex entraram em forte declínio a partir de 1913. 

A crise da borracha teve seu início bem antes, ainda em 1871, quando o Royal Botanic Gardens de Kew, uma instituição dedicada à pesquisa em botânica, contratou Henry Alexander Wickham para “contrabandear” sementes de seringueira para a Inglaterra. Depois de muito tempo de trabalho coletando diversas variedades de sementes da árvore secretamente no Brasil, Peru e Bolívia, Wickham conseguiu embarcar cerca de 70 mil sementes para a Inglaterra, usando o seguinte argumento na Alfândega de Belém: as sementes eram destinadas ao “Jardim Botânico de Sua Majestade, a Rainha Vitória”. A partir dessas sementes, os botânicos ingleses conseguiram produzir 2,6 mil mudas de seringueiras.  

Ao longo de 40 anos, essas mudas foram plantadas e multiplicadas em gigantescas plantações nos territórios britânicos do Ceilão, Sri Lanka, Indonésia e Malásia. A crise da borracha tomou corpo em 1913, quando os seringais do Sudeste Asiático colocaram 48 mil toneladas de látex no mercado internacional – o Brasil vendeu naquele ano 44 mil toneladas; em 1921, as vendas inglesas alcançaram a cifra de 1,5 milhão de toneladas, enquanto as vendas brasileiras mal chegaram a 20 mil toneladas. O preço de venda do quilo do látex, que nos áureos tempos chegou a US$ 180.00, caiu a US$ 40.00 a partir de 1913. Era o fim da era dourada dos Coronéis da Borracha na Amazônia

De um dia para o outro, milhares de famílias de seringueiros dos confins das florestas do Acre, simplesmente foram abandonados, sem ter para quem vender as suas pélas de látex, formadas com muito suor e lágrimas, e sem ter qualquer outra fonte de fornecimento de víveres. Foram muitos os seringueiros que acabaram escolhendo o suicídio à vergonha profunda da mais absoluta miséria; poucos conseguiram voltar para o Nordeste. Uma grande massa dessa gente acabou ficando por lá e são os ancestrais dos acreanos que conhecemos hoje. 

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