AO CONTRÁRIO DO QUE ACONTECE NO RESTO DO MUNDO, O NÍVEL DO MAR ESTÁ BAIXANDO NA ISLÂNDIA 

Localizada a meio caminho entre a Escandinávia e a Groenlândia, a Islândia é uma grande ilha vulcânica com pouco mais de 102 mil km2. Uma das características mais peculiares da ilha é a sua estrutura geológica – cerca de metade da ilha está localizado sobre a Placa Euroasiática e a outra metade sobre a Placa Norte-americana. 

A Islândia é considerada como um dos últimos territórios europeus a ser colonizado por seres humanos, o que se deve ao seu descobrimento tardio. De acordo com a descrição do Landnámabók ou Livro da Colonização, um detalhado manuscrito medieval do século XII, a ilha foi descoberta acidentalmente por navegadores nórdicos por volta do ano 800 de nossa era e os primeiros colonizadores teriam se estabelecido na ilha no ano 874, na região de Reykjavik, capital do país (vide foto). 

De acordo com uma das versões do descobrimento da Islândia (o Landnámabók tem várias), o marinheiro escandinavo Naddoddr se perdeu durante uma viagem para as Ilhas Feroé e acabou atingindo a costa Oeste da ilha. Ele batizou a ilha com o nome Snæland – terra da neve. Anos depois, o explorador norueguês Flóki Vilgerðarson aportou na ilha para passar o inverno e rebatizou o lugar como Ísland – terra do gelo. 

Todas as descrições dos primeiros navegadores e exploradores que chegaram até a Islândia ressaltam a beleza e a magnitude das paisagens geladas da ilha, suas grandes geleiras, seus fiordes e suas fontes de água termais. Essa imagem se perpetuou ao longo da história e se transformaram em uma espécie de marca registrada da ilha em todo o mundo. 

Em tempos de aquecimento global e de aumento das temperaturas em todo o mundo, essa imagem da Islândia precisa ser urgentemente revista. Assim como se assiste na Groenlândia, na Antártida e em outras terras frias do planeta, as paisagens da ilha estão mudando muito rapidamente devido a perda de enormes massas em suas grandes geleiras. 

Um exemplo dessa situação foi o que ocorreu em agosto de 2019, quando foi decretada a morte” oficial da geleira Okjökull. Essa geleira ocupava uma área com cerca de 38 km² em 1901 e vinha perdendo massa desde então, apresentando uma área menor que 1 km² em 2019. A Islândia tem cerca de 400 geleiras e, de acordo com as estimativas atuais, o aquecimento global vai eliminar totas em no máximo 200 anos.  

Muito mais do que uma alteração no padrão climático de toda a ilha, a perda de massa de gelo está provocando mudanças importantes na geografia da Islândia. Uma das mais curiosas é o gradativo soerguimento da ilha em relação ao nível do mar. Enquanto a maioria dos países com fachada oceânica experimenta um avanço do nível do mar, na Islândia as águas estão baixando. 

Um dos efeitos mais evidentes do soerguimento dos solos da Islândia pode ser visto nitidamente nos canais de navegação dos portos ao redor da ilha. Massas de rocha estão aflorando por todos os lados, criando grande dificuldade e perigos reais para a navegação. É importante citar que a indústria pesqueira é uma das principais atividades econômicas da Islândia. 

Segundo as projeções da NASA – Administração de Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos, o derretimento das geleiras ao longo das próximas décadas vai provocar uma elevação de 1 metro nos oceanos de todo o mundo, o que deverá redesenhar o mapa mundi. Na Islândia, ao contrário, o nível do mar deverá apresentar um recuo de 20 cm. 

Para entender o que está acontecendo tomemos como exemplo a maior massa de gelo da Islândia – a geleira Vatnajökull. Essa imensa estrutura natural ocupa uma área com aproximadamente 8.100 km², o que corresponde a 8% da superfície do país. Essa geleira é considerada a segunda maior capa de gelo da Europa e a maior em volume – a espessura do manto de gelo chega a 1 km. 

O peso dessa impressionante massa de gelo sempre exerceu uma poderosa compressão sobre os solos e rochas. Com o gradual derretimento da capa de gelo, o peso sobre o solo vai diminuindo e passa a ocorrer uma gradual descompressão das rochas, que passam a se elevar em relação ao nível do mar. 

De acordo com Thomas Frederikse, um pós-doutorando no Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, a situação da ilha é mais complexa. Segundo ele, “a camada de gelo é tão pesada que puxa o oceano em direção a ela, devido à gravidade. Mas se o manto de gelo derrete, essa atração começa a enfraquecer e a água se afasta. Quanto mais distante você está do manto de gelo, mais água você recebe”. 

A perda de massa de gelo em geleiras e glaciares de montanha respondem por cerca de 2/3 da elevação do nível do mar em nossos dias. No caso da Islândia, o derretimento de todas as suas geleiras implicaria em um aumento de apenas 1 cm no nível dos oceanos. 

No caso da Groenlândia e Antártida, regiões com áreas imensamente maiores, o derretimento das geleiras seria algo catastrófico para todo o planeta. De acordo com as projeções de especialistas, o derretimento do manto de gelo da Groenlândia tem potencial para elevar o nível dos oceanos em 7,5 metros. No caso da Antártida, esse derretimento contribuiria para um aumento de quase 60 metros no nível dos oceanos. 

Enquanto situações mais catastróficas associadas ao aumento do nível dos oceanos ainda estão no plano teórico, o recuo do mar ao redor da Islândia está exigindo medidas práticas no curto prazo. Áreas portuárias do país precisão receber pesados investimentos para o rebaixamento do nível dos canais de navegação, inclusive com o derrocamento de grandes massas de rocha. Em alguns casos, será mais barato reconstruir as áreas portuárias em outros lugares. 

Como acontece com todo país insular, a Islândia depende fortemente da navegação e da pesca para a sobrevivência de sua pequena população de pouco mais de 360 mil habitantes. A situação “surreal” que está se desenhando em seu litoral não poderá continuar por muito mais tempo, sob risco de destruir a já combalida economia do país. 

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