MACACOS E LEMURES PODERÃO TROCAR AS ÁRVORES POR UMA VIDA NO SOLO DEVIDO AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS 

cerca de 24 milhões de anos, as regiões Nordeste e Leste da África eram cobertas por densas florestas. A região tinha um clima e quente chuvoso, muito parecido com o clima atual da região central do continente. Como acontece em toda floresta densa, essas matas abrigavam espécies animais adaptados para a vida nesse tipo de bioma, com destaque aqui para diversas espécies de macacos arborícolas, ou seja, que vivem na copa das árvores. 

As evidências dessa vegetação foram encontradas em sedimentos marinhos escavados por um navio de pesquisa no Mar Vermelho e no Oceano Índico Ocidental. Analisando os sedimentos, os pesquisadores encontraram produtos químicos e pólen criados por essa antiga vegetação, que foram lavados pelas chuvas ou carregados pelos ventos até o oceano. 

As mesmas evidências mostram que mudanças climáticas atingiram essa região entre 24 e 10 milhões de anos, transformando gradativamente as grandes florestas em savanas muito parecidas como o Cerrado Brasileiro. As grandes árvores passaram a rarear enquanto uma vegetação formada basicamente por gramíneas começou a ganhar espaço. Essas mudanças na vegetação tiveram profundas repercussões na vida animal. 

Entre 6 e 7 milhões de anos, algumas espécies de macacos arborícolas foram obrigadas a mudar de comportamento – sem contar com o abrigo e o acesso aos seus alimentos nas árvores, esses animais passaram a viver no solo na sua luta pela sobrevivência.  

Essa mudança de estilo de vida levou a uma mudança evolutiva nesses animais, fazendo surgir dois ramos distintos – de um lado evoluíram os chimpanzés e do outro os hominídeos, ancestrais de nós seres humanos. A região onde isso ocorreu é o território atual da Etiópia e do Quênia, considerado pela maioria dos especialistas como o berço da humanidade

Um estudo recente, coordenado por pesquisadores da San Diego Zoo Wildlife Alliance e com a participação de outros 118 pesquisadores de 124 instituições ao redor do mundo, mostrou que as atuais mudanças climáticas estão provocando uma mudança de comportamento muito parecida em espécies de macacos e de lêmures: esses animais estão trocando os galhos das árvores pelo solo. 

O estudo começou a partir de observações aleatórias de alguns dos pesquisadores, que passaram a suspeitar que algumas espécies de macacos arborícolas estavam passando mais tempo no solo que o normal. Dessas observações surgiram discussões entre vários grupos de pesquisadores, o que acabou levando a um estudo mais detalhado dessa questão. 

Foi criada uma grande equipe internacional de pesquisadores para se aprofundar no assunto. O grupo analisou mais de 150 mil horas de filmagens do comportamento de 47 espécies de macacos e lêmures em 68 locais diferentes nas Américas e na Ilha de Madagascar. 

O estudo mostrou que as espécies que consomem menos frutas em sua dieta alimentar e que vivem em grandes bandos são as mais propensas a se arriscar descendo ao solo. Essas “aventuras” no solo das florestas têm como principais objetivos a busca por outros tipos de alimentos e também o conforto das temperaturas mais amenas na sombra das árvores. 

Assim como aconteceu num passado distante na faixa Leste e Nordeste da África, mudanças climáticas estão alterando o regime de chuvas em muitas regiões, uma mudança de provoca reflexos na vegetação das florestas. Sem contar com os ciclos regulares de chuva, as árvores tendem a definhar e abrir espaço para uma vegetação rasteira como as gramíneas, plantas que necessitam de quantidades muito menores de água para sobreviver. 

Entre suas conclusões, os pesquisadores também sugerem que esse comportamento dos animais decorre da destruição e da fragmentação das áreas florestais por ações humanas. Com menos árvores, os animais ficam mais expostos aos raios solares e passam a sofrer com a falta de alimento – especialmente frutas. 

Muitas espécies que só se alimentam de frutas, por exemplo, estão sendo forçadas a mudar de hábitos, passando a consumir uma dieta mais generalizada, incluindo no cardápio raízes de plantas e outros alimentos que só são encontrados no solo. Em regiões onde a vegetação está bem preservada e existem poucas interferências humanas, o comportamento dos animais não mudou. 

Um outro ponto interessante que também foi observado é que os animais estão formando grupos maiores do que os usuais na copa das árvores. Essa é uma medida que está relacionada diretamente com a exposição maior aos predadores terrestres – grupos maiores garantem uma maior segurança aos indivíduos. 

Esse tipo de estudo costuma causar grandes polêmicas, especialmente dentro de grupos que não acreditam na teoria da evolução das espécies. Sem querer entrar em maiores polêmicas, acredito que o que está acontecendo no momento é simplesmente uma luta desses animais pela sobrevivência. Se isso vai levar ou não ao surgimento de novas espécies de animais num futuro distante, essa é outra conversa. 

Agora, não há como negar que mudanças ambientais forçam animais a se adaptar às novas condições. Um exemplo fartamente documentado é o dos sapos-cururu na Austrália. Originários Da América do Sul, esses animais foram introduzidos nas Ilhas do Havaí com o objetivo de predar algumas espécies de insetos que atacavam os canaviais locais. O experimento deu bons resultados. 

Tentando repetir a façanha, agricultores da Austrália introduziram esses animais no país em 1933, na tentativa de combater uma espécie local de besouro que estava destruindo os canaviais. Infelizmente, os sapos não conseguiram se dar bem nessa nova missão e passaram a se dispersar por todo o interior seco do continente australiano, mostrando uma notável adaptação ao novo meio ambiente.

Um detalhe interessante: os cientistas australianos descobriram que os sapos-cururu passaram por adaptações físicas e aumentaram a sua velocidade de propagação em cinco vezes ao longo dos últimos 60 anos. Estudos anatômicos comparativos com espécimes da década de 1930, preservados em museus, demonstraram que as patas traseiras dos sapos-cururu tiveram um aumento de 25% em seu comprimento, aumentando proporcionalmente a força muscular e a velocidade dos animais. 

Que ninguém se espante se, num futuro próximo, venha a encontrar um macaquinho rápido e ágil como um coelho correndo em disparada numa campina… 

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