AINDA FALANDO DOS ÍNDIOS “INCENDIÁRIOS” DE FLORESTAS

Veado Vermelho

A Nova Inglaterra, região no Nordeste dos Estados Unidos, foi um dos mais importantes pontos de desembarque de colonos europeus nas primeiras décadas da colonização do país. O lendário navio Mayflower, que em 1620 trouxe o primeiro grupo com 120 colonos puritanos da Inglaterra para os Estados Unidos, aportou nessa região – no local, foi fundada a cidade de Plymouth, no Estado de Massachusetts. Com o aumento da população de colonos europeus, a região passou a assistir uma verdadeira “desindianização”.  

Povos indígenas que habitavam essa região Nordeste dos Estados Unidos a milhares de anos, como os iroqueses, passaram a sofrer fortes declínios populacionais (uma maneira elegante de falar que as populações começaram a morrer ou fugir) devido ao contato com os europeus e com as doenças trazidas, involuntariamente, por eles – a varíola, por exemplo, doença das mais comuns entre os europeus, era desconhecida e fatal para os indígenas, que não tinham anticorpos para combatê-la. Em vários casos documentados, essas doenças causaram a morte de 80% da população de grupos indígenas – os sobreviventes foram forçados a fugir para outras regiões. 

Em 1634, apenas catorze anos após o desembarque dos primeiros colonos nessa região, um inglês chamado Willian Wood escreveu uma carta para um dos seus parentes, onde reclamava das florestas da região, que até um passado recente eram abertas e fáceis de penetrar, agora estão tomadas por vegetação rasteira, de tal forma que tornara-se “inútil e penoso atravessá-las”. E o que mudou na região em tão pouco tempo? Sem a presença dos antigos indígenas incendiários, que todos os verões se valiam das chamas para limpar as matas e remover todo o excesso de matéria orgânica morta espalhada pelo chão, a vegetação rasteira e arbustiva rapidamente voltou a ocupar o seus “nichos” ecológicos dentro dessas matas, fechando assim uma infinidade de caminhos usados pelas populações e animais domésticos. Sem o fogo indígena, a floresta voltou ao seu estado natural.

Essa constatação das reais “relações” entre os indígenas e as florestas no continente norte-americano nada tem de discriminatória ou há no comentário qualquer tipo de repreensão. Esses indígenas eram seres humanos como nós, com necessidade de produzir alimentos em suas terras e obter proteínas de origem animal em seus campos de caça e nos rios e lagos que cortavam os seus terrítórios. E, para isso, se valiam de uma das mais antigas e poderosas ferramentas de “destruição” conhecida pelos humanos: o fogo. Minha crítica se dirige àqueles que se utilizam da cultura desses povos nativos para afirmar que o meio ambiente onde viviam era “intocado” – na realidade, bem ao contrário do que muitos afirmam, esses indígenas e seus incêndios florestais provocaram enormes mudanças nas paisagens de amplas regiões dos Estados Unidos e do Canadá, mudando em muitos casos até as populações de animais e de vegetais de certas regiões.

A região das Pradarias no Meio-Oeste americano é uma delas. Conforme foi comentado na última postagem, estudos revelam que grande parte desses campos abertos, cobertos por uma espessa camada de gramíneos, abrigavam matas e florestas num passado distante. Foram os incêndios florestais provocados propositalmente pelos indígenas (em muitos casos, os incêndios começavam de forma acidental ou fugiam ao controle). Testemunhas oculares de muitos desses incêndios falam de sua longa duração e da intensidade da destruição provocada; muitas vezes, o fogo só parava com a chegada das chuvas ou quando um corpo d’água interrompia o avanço das chamas.

Essa drástica mudança no ambiente favoreceu várias espécies animais – cito duas: o cão-da-pradaria (mamífero roedor do gênero Cynomys) e o bisão-americano ou búfalo-americano (Bison bison), este último uma importante fonte de alimentação para inúmeras nações indígenas. A ampliação artificial das áreas de pastagens proporcionou um aumento exponencial no número de bisões – com a fartura de alimentos e com a facilidade de perceber a aproximação de seus predadores naturais, especialmente os lobos, os rebanhos se multiplicaram. Há relatos antigos, dos primeiros pioneiros a atravessar a região das Pradarias, que falavam de rebanhos desses animais que se extendiam por vários quilômetros (eu imagino que não há exageros aqui – nos dias atuais, encontramos rebanhos de gnus nas Savanas da África que têm essa mesma característica). Espécies animais adaptadas para a vida em matas fechadas, ao contrário, perderam o seu habitat e muitas, provavelmente, se extinguiram (como não sabemos exatamente como eram esses ambientes antes das queimadas, não há como se saber tudo o que foi perdido).

Outra mudança ambiental importante pode ser verificada em populações de árvores. Em regiões onde as florestas eram queimadas frequentemente, espécies de árvores com maior tolerância aos incêndios se multiplicaram. Um exemplo são os pinheiros de folhas longas como o Pinus elliotti que, de tão adaptado aos incêndios, precisa do calor do fogo para abrir as suas pinhas e espalhar as suas sementes – no Cerrado brasileiro existem inúmeros tipos de árvores que têm características semelhantes. Espécies como a nogueira e o carvalho, outrora abundantes nessas regiões, desapareceram por não tolerar os incêndios florestais, levando junto os animais que se alimentavam de suas sementes e folhas: existe uma espécie de pica-pau especializado em comer bolotas de carvalho (essa ave tem uma função ecológica bastante parecida com a gralha-azul e seu hábito de comer os pinhões das araucárias no Sul do Brasil).

Outro animal que sofreu com o desaparecimento dessas espécies foram os veados de gêneros como o veado-vermelho (Cervus elaphus – vide foto), consumidores ávidos das folhas adocicadas e suculentas dessas árvores. Sem as suas fontes preferenciais de alimentos, essas espécies e muitas outras, simplesmente, desapareceram de seus habitats originais e fugiram em busca de outras matas. Lembramos aqui que, normalmente, os ambientais naturais estão divididos em diversos nichos ecológicos, onde vivem espécies animais, vegetais, insetos e fungos altamente especializados e interdependentes – a chegada de uma espécie “migrante” ou invasora vai causar enormes impactos ambientais.

Desgraçadamente, o avanço da colonização por todo o território dos Estados Unidos e do Canadá ao longo dos últimos séculos, dizimou a maior parte dos povos indígenas daquele continente. E as queimadas primitivas das florestas nativas feitas outrora pelos indígenas, pouco a pouco, foi substituída pelo machado e, depois, pela motosserra e pelos tratores dos “homens civilizados”…

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