ESTUDO MOSTRA AS MUDANÇAS NO CARREAMENTO DE SEDIMENTOS PELOS RIOS AO LONGO DE 40 ANOS 

Sedimentos são partículas sólidas que através de um processo físico ou químico desprendem-se das rochas. Essas partículas podem ficar acumuladas no solo ou podem ser transportadas a longas distâncias pelos ventos e, especialmente pelas águas. Dependendo do diâmetro, essas partículas são chamadas de argila, silte e areia. 

Pelas suas características dinâmicas, os rios são importantes produtores de sedimentos, que são formados por processos de erosão das rochas, e são também ótimos carreadores desses sedimentos. Os rios também recebem grandes volumes de sedimentos que são carreados pelas águas das chuvas que caem dentro de sua bacia hidrográfica.  

Além de partículas minerais, as águas das chuvas também arrastam grandes volumes de matéria orgânica, nutrientes que alimentam plantas e outras espécies da fauna aquática e que formam também a base da cadeia alimentar dos rios. Nos períodos das cheias, tanto os sedimentos minerais quanto a matéria orgânica são espalhados ao longo das margens dos rios e áreas de várzea, criando importantes áreas de terras altamente férteis. Um grande exemplo são as áreas deltaicas como são os casos do delta do rio Ganges, que se estende entre a Índia e Bangladesh, e o delta do rio Mekong no Vietnã.

Um ótimo exemplo histórico que mostra a importância das cheias dos rios e do carreamento de sedimentos férteis é o rio Nilo, berço da civilização egípcia. Com uma extensão de mais de 6.600 km, o Nilo disputa com o Amazonas o título de rio mais longo do mundo – no quesito volume total de água, o rio Amazonas é campeão incontestável. 

As nascentes do rio Nilo ficam dentro de áreas cobertas por floresta tropical no Centro-Oeste da África, região servida por uma temporada de abundantes chuvas. Grande parte da bacia hidrográfica do rio Nilo, entretanto, é formada pelos grandes desertos do Sudão e do Egito. 

A temporada das chuvas na região das nascentes do rio Nilo cria todos os anos um importante período de cheia no rio, com impactos em toda a bacia hidrográfica. Essas cheias carreiam grandes volumes de sedimentos minerais e nutrientes orgânicos. Quando as águas retrocedem, as margens do rio ficam cobertas com uma grossa camada de solo nutritivo, o que foi a chave do sucesso da agricultura no antigo Egito durante milhares de anos. 

Essa verdadeira dádiva da natureza perdurou até meados da década de 1960, época em que o Governo do Egito iniciou as obras da Represa de Assuã, estrutura destinado ao controle das cheias do rio e também para a geração de energia numa usina hidrelétrica. Com a interrupção do fluxo natural do rio Nilo, o volume de sedimentos diminui drasticamente – a atual agricultura do país se tornou altamente dependente do uso de fertilizantes químicos desde então. 

O caso extremo do rio Nilo não é, nem de longe, um caso isolado. Um estudo feito pela Universidade Dartmouth dos Estados Unidos e publicado pela revista Science mostrou que as ações humanas estão causando alterações sem precedentes no transporte de sedimentos dos rios. 

Abrangendo o período entre 1984 e 2020, o estudo utilizou imagens de satélites da NASA – Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos, e também dados do fluxo de 414 grandes rios do mundo. Essa análise permitiu uma avaliação completa dos volumes de sedimentos carreados pelos rios na direção dos oceanos. 

Entre as principais conclusões desse grande estudo destacam-se os grandes impactos que foram criados pela construção de barragens, especialmente em países do Hemisfério Norte. A exemplo do que ocorreu no rio Nilo devido a construção da Represa de Assuã, essas construções reduziram substancialmente o volume de sedimentos carreados pelas águas – essa redução foi de 49% em relação às condições pré-barragens

Em países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, especialmente no Hemisfério Sul, o volume de sedimentos transportados pelos rios aumentou cerca de 36%. A grande perda de áreas florestais por desmatamentos ou queimadas e o uso inadequado dos solos pela agricultura destacam-se como principais fontes do problema. A erosão de solos é um dos maiores males criados pela agricultura. 

De acordo com dados da CNUCD – Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, calcula-se que as perdas mundiais de solo fértil, especialmente por erosão, são da ordem de 24 bilhões de toneladas a cada ano. Essa perda corresponde a uma área equivalente a 12 milhões de hectares ou três vezes a área da Suíça. Todo esse volume de sedimentos acaba dentro da calha dos rios

Tanto a redução do volume de sedimentos quanto o seu excesso são prejudicais ao meio ambiente. A falta de sedimentos, conforme comentamos no início do texto, prejudica a fauna e a flora aquática, além de prejudicar ou, até mesmo, inviabilizar a produção agrícola nas margens e nas várzeas. 

O excesso de sedimentos provoca o assoreamento dos canais, problema que provoca inundações, interrupção da navegação fluvial, dificuldades para a captação de água por sistemas de abastecimento de populações e/ou de irrigação, prejuízos a flora e a fauna aquática, entre inúmeros outros problemas. 

É importante ressaltar que todos esses problemas nos rios não têm nenhuma relação com as tão faladas mudanças climáticas globais e de seus impactos ao meio ambiente. Falamos aqui da má gestão dos recursos naturais e de erros no planejamento e execução de grandes obras de barragens de represas e de usinas hidrelétricas. 

As mudanças climáticas poderão sim amplificar esses problemas, seja pela redução do volume de chuvas em algumas regiões ou pelo aumento das mesmas em outros lugares.  

Ou seja – o que já está ruim poderá ficar ainda pior… 

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