UM QUARTO DA POPULAÇÃO BRASILEIRA VIVE NA LINHA DA POBREZA

Foto Yasuyoshi Chiba- AFP

Na última sexta-feira, dia 15 de dezembro, o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, divulgou o estudo Síntese de Indicadores Sociais, onde constatou que um quarto da população brasileira vive na linha da pobreza. De acordo com o estudo, essa camada de pessoas pobres não vive apenas com pouco dinheiro, mas em situações de moradia muito abaixo da média nacional.

Pode até parecer estranho para muitos leitores que um blog voltado para questões de recursos hídricos e saneamento básico dedique uma de suas postagens para falar sobre o problema da pobreza aqui em nosso país. Mas existe, porém, uma relação direta entre pobreza e recursos hídricos – vejam alguns exemplos: as beiradas de rios e córregos são alguns dos locais que normalmente acabam sendo ocupados por comunidades de desfavorecidos por dificuldades econômicas – os problemas ambientais enfrentados por rios e córregos urbanos, que já são muitos, só aumentam. Parte destas populações utiliza a queima de madeira como fonte de energia para cozinhar e para aquecimento; essa madeira, muitas vezes, é obtida a partir da derrubada de fragmentos florestais encontrados nas áreas urbanas ou em regiões muito próximas – esses desmatamentos contribuem para o carreamento de areia e sedimentos para as calhas dos corpos d’água. Outro problema ambiental diretamente relacionado é o descarte de resíduos sólidos nas águas dos rios e córregos urbanos, uma vez que estas comunidades não são atendidas pelos serviços públicos de coleta de resíduos.

Os dados analisados mostram que, na média, 62,1% dos brasileiros vivem em domicílios com acesso simultâneo à três serviços de saneamento básico – abastecimento de água potável por rede pública, esgotamento sanitário por rede coletora de esgotos ou por rede coletora pluvial (que não é o ideal pois os esgotos não passam por um sistema de tratamento) e coleta de resíduos sólidos domiciliares – o famoso lixo doméstico, por coleta direta e indireta. Porém, o equivalente a um quarto da população – 52 milhões de brasileiros, vive com uma renda per capita equivalente a US$ 5.50 por dia, um valor que o Banco Mundial considera como uma das linhas de pobreza; somente 40,4% desta população pobre vive em “domicílios” que são atendidos por um dos três serviços básicos de saneamento – o restante vive em domicílios onde não há cobertura total dos serviços básicos de saneamento: há de se admitir que muita gente não dispõe de nenhum destes serviços.

A palavra saneamento é derivada da expressão em latim sanus, que significa “de boa saúde” ou “sadio”. Por extensão, quando falamos de saneamento básico estamos imaginando uma situação onde buscamos uma boa saúde para toda uma comunidade e imaginamos que cada cidadão esteja saudável. Somente para relembrar, as atividades e serviços de saneamento básico incluem o abastecimento de água potável; a coleta, afastamento e tratamento dos esgotos (domésticos e industriais); o manejo das águas pluviais ou de chuva; a coleta, o transporte e a disposição final ou reutilização dos resíduos sólidos – o controle de pragas e vetores (ratos, baratas, mosquitos etc) é uma consequência direta do pleno funcionamento de todos estes serviços. Quando constatamos através de um estudo que um quarto da população de nosso país vive sem as condições mínimas de salubridade ficamos revoltados, especialmente quando vemos as muitas “malas de dinheiro” nos noticiários, circulando entre as mãos de empresários corruptores e políticos corruptos, enquanto faltam verbas públicas para a realização das obras mais elementares de infraestrutura.

Estes relatórios costumam utilizar uma linguagem bastante formal, onde não é possível enxergar com precisão os problemas mais específicos – vou citar um exemplo: os pesquisadores poderão até descobrir que um determinado número de famílias de uma favela sobrevive comendo carne de rato; os dados tabulados mostrarão uma situação de extrema pobreza, afirmando que um determinado número de famílias vive em habitações de “padrão subnormal”, onde os hábitos alimentares incluem o “consumo de carne de animais de pequeno porte”. Dentro desta linha de abordagem, a pesquisa divulgada pelo IBGE afirma que o estudo “mediu quatro inadequações das moradias – vamos entender melhor isto:

  • Ausência de banheiro ou sanitário de uso exclusivo dos moradores: por falta de espaço físico ou de condições técnicas que permitam o despejo dos efluentes por força da gravidade ou “morro abaixo” num linguajar popular, estes conglomerados de habitações “subnormais” costumam possuir poucos “banheiros” de uso coletivo nas partes mais baixas do terreno. Além das dificuldades de acesso em períodos noturnos e em dias de chuva, as condições de limpeza e higiene não costumam ser as melhores;
  • “Habitações” construídas predominantemente de materiais não duráveis: falamos aqui dos chamados “barracos” construídos com restos de madeiras, folhas de zinco, placas plásticas e até mesmo com paredes fechadas com o uso de papelão. Em comunidades mais antigas, as casas muitas vezes são reconstruídas com blocos e tijolos, porém com sérios problemas de alicerces (terrenos instáveis ou alagadiços) e sujeitas à colapsos estruturais e deslizamentos de encostas;
  • Adensamento excessivo: as construções nos terrenos ocupados (normalmente são áreas particulares, invadidas por grupos de “sem tetos”) são feitas uma ao lado da outra, deixando-se apenas espaços estreitos entre as filas de “casas” para funcionarem como vielas de circulação pública. O adensamento das construções somado ao uso de materiais altamente inflamáveis como madeira e papelão, frequentemente, resulta em grandes incêndios onde dezenas de casas são consumidas em poucas horas pelas chamas;
  • Ônus excessivo com o aluguel: este problema é mais comum nos chamados “cortiços”, habitações normalmente construídas em alvenaria e que são subdivididas em unidades pequenas, que são sublocadas à famílias de baixíssima renda. Os valores desembolsados pelas famílias com aluguel iguala ou ultrapassa 30% do rendimento familiar. Pagamentos de aluguéis ocorrem com menos frequência em favelas, especialmente nas que estão localizadas em áreas mais nobres das cidades; os valores gastos pelas famílias com aluguel nas favelas também consome parte substancial da renda.

Estas estatísticas normalmente escondem os dramas pessoais vividos por estas populações de miseráveis – gostaria de citar, mais uma vez, o exemplo da diarreia, doença que costumo chamar de “assassina silenciosa de criancinhas.” A diarreia é provocada por toxinas bacterianas como a do estafilococus, infecções por bactérias como a Salmonella e a Shighella, infecções virais e parasitas intestinais causadores de amebíase e giardíase, transportados para o sistema gastrintestinal por água ou comida contaminada. Os sintomas variam da simples dor estomacal à diarreia persistente ou à presença de fezes pastosas.

Em localidades em que não há rede de abastecimento de água potável, as populações não tem outra opção senão utilizar águas de rios, riachos, açudes, cacimbas e de poços; não são raras as vezes em que essas águas estão contaminadas por fezes de animais e por esgotos domésticos gerados nas casas dos próprios moradores dessa localidade e despejados nas ruas, corpos de água ou em fossas negras que podem contaminar o lençol freático – a ingestão ou uso dessa água com contaminantes é um dos maiores causadores da diarreia. Uma das faces mais tristes dessa estatística mostra que crianças a partir de um ano de idade são as mais vulneráveis aos efeitos devastadores da diarreia. A causa é muito simples: é a partir dessa idade que as crianças começam a engatinhar pelo chão das casas e são expostas aos patógenos que foram trazidos na sola dos sapatos dos moradores, solas estas impregnadas pelos esgotos que correm a céu aberto nas ruas e calçadas das chamadas “comunidades carentes”. Quem já viu uma criança engatinhando sabe que elas alternam as mãos entre o chão e a boca – havendo patógenos no piso, a contaminação será inevitável.

E a foto que usei para ilustrar essa postagem mostra exatamente essa realidade – uma comunidade carente, com esgoto correndo a céu aberto – são os chinelos desta jovem mãe que poderão carregar as bactérias causadoras da diarreia para dentro de sua própria casa. Muito trágico.

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