PISCINÃO: UM EFICIENTE SISTEMA PARA O CONTROLE DAS ÁGUAS PLUVIAIS

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A Praça Charles Miller, em São Paulo, é um dos endereços mais famosos da cidade – é aqui que fica o Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, mais conhecido como Estádio do Pacaembu; mais recentemente, o Estádio passou a abrigar o Museu do Futebol, o que deu visibilidade internacional e transformou o endereço em um destino turístico da cidade. A Praça também ganhou fama por outro motivo nem um pouco glamouroso: o local era um dos pontos de enchentes mais temidos da cidade.

O atual bairro do Pacaembu nasceu em 1925, quando a Cia. City, empresa inglesa de arquitetura iniciou o loteamento e a urbanização da região. Uma das primeiras ações da empresa foram os trabalhos de drenagem e aterro de grandes áreas, que culminaram com a canalização do ribeirão Pacaembu e a construção da avenida homônima, até hoje a principal  via do bairro. Foi a Cia. City quem doou em 1935 para a Prefeitura de São Paulo o terreno de 75 mil m² onde seria construído o famoso Estádio do Pacaembu, inaugurado em 1940. Além da criação de um dos bairros mais charmosos da cidade, as ações da City, involuntariamente, acabaram por consolidar todo um ambiente favorável à formação de fortes enxurradas em dias de chuva, com a formação de enchentes violentas na parte baixa do bairro onde fica a Praça Charles Miller.

O famoso “endereço” das enchentes criou transtornos no bairro por várias décadas até que, em 1993, as autoridades da Prefeitura e do Governo do Estado juntaram forças e iniciaram as obras de um gigantesco reservatório subterrâneo com capacidade para armazenar 75 milhões de litros de água das chuvas. Projeto pioneiro na cidade, o conhecido Piscinão do Pacaembu foi inaugurado em 1995 e se transformou rapidamente numa referência no combate de enchentes localizadas; dezenas de outros piscinões foram construídos ao longo dos anos em outras regiões da cidade, auxiliando imensamente no controle de pontos de inundações.

O grande desafio para a construção do Piscinão do Pacaembu não foi exatamente na área de engenharia, mas na área da burocracia – tanto o Estádio do Pacaembu quanto a Praça Charles eram construções tombadas pelo Conselho do Patrimônio Histórico e Cultural da cidade e, por este motivo, não poderiam sofrer qualquer tipo de intervenção. Foram necessárias incontáveis reuniões e acordos entre todas as partes envolvidas no processo para que se autorizasse o início das obras; todo esforço acabou valendo a pena!

Como venho comentando há alguns posts, o crescimento das cidades e a constante impermeabilização dos solos urbanos com concreto, asfalto e edificações de todo o tipo, estão criando cada vez mais as condições para a formação de grandes pontos de alagamentos nas cidades, com riscos tanto materiais quanto para a segurança dos moradores. Cada vez mais serão necessários estudos e projetos urbanos que visem a criação de pontos de retenção e acúmulo temporário de águas pluviais, evitando assim a formação das enchentes nos pontos mais baixos.

Piscinões subterrâneos como o que foi construído sob a Praça Charles Miller são exemplos práticos de como resolver os problemas extremos provocados pelas enchentes nas cidades – na falta de áreas livres para a construção dos dispositivos em meio ao disputado espaço nos centros urbanos, o subsolo de praças e avenidas pode ser utilizado para as construções, reconstruindo-se posteriormente os espaços, que voltarão rapidamente para o uso pela população da cidade.

À Charles Miller é atribuída a introdução do futebol no Brasil – batizar a praça onde fica o estádio de futebol mais tradicional da cidade com seu nome é uma justa homenagem; já a construção do Piscinão do Pacaembu, essa pode ser chamada de um verdadeiro “gol de placa”. Que venham muitos outros…

OS EMBATES ENTRE AS ÁGUAS PLUVIAIS E OS RESÍDUOS SÓLIDOS

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Os serviços que compõem o Saneamento Básico incluem o abastecimento de água potável, a coleta e o tratamento dos esgotos, os sistemas de drenagem de águas pluviais e o gerenciamento dos resíduos sólidos, onde se incluem os serviços de varrição e limpeza das ruas de uma cidade, a coleta e a destinação dos resíduos sólidos domésticos, industriais, hospitalares, da construção civil entre outros; o equilíbrio na oferta destes serviços permitirá o controle dos vetores que tem potencial para transmitir diversos tipos de enfermidades (ratos, baratas, mosquitos, pulgas, carrapatos etc). De todos esses serviços, dois destacam-se pelo conflito: os sistemas de águas pluviais e os resíduos sólidos.

Os sistemas de drenagem de águas pluviais, que detalharemos em futuros posts, incluem todos os dispositivos e estruturas instaladas em uma rua, bairro ou cidade que tem a função de captar e dar vazão rápida para as águas das chuvas, evitando que essas acumulem e provoquem danos à uma comunidade; estes dispositivos são projetados para tolerar pequenas quantidades de resíduos sólidos, que inevitavelmente serão arrastados pelas chuvas: areia, pedriscos, folhas, galhos, resíduos de pneus e lixo. Se ultrapassados os limites nas quantidades destes resíduos sólidos, a eficiência no funcionamento na drenagem das águas pluviais fica comprometida e acontece o que se tenta evitar: as enchentes localizadas.

Um exemplo desse conflito acontece nas chamadas bocas de lobo – esses dispositivos são instalados ao longo das sarjetas, com a função de direcionar o fluxo das águas pluviais na direção das tubulações subterrâneas do sistema, que seguem na direção dos canais de drenagem (rios, córregos, piscinões etc). Esses dispositivos são dotados de uma caixa de retenção, onde os materiais particulados e os resíduos sólidos ficam retidos. Essas caixas de retenção devem receber uma atenção especial dos responsáveis pelos serviços de zeladoria da cidade – é necessária a execução de limpeza periódica, esvaziando-se essas caixas, obrigatoriamente nas épocas de seca; com a chegada dos períodos chuvosos, as bocas de lobo devem estar preparadas para realizar a sua função.

Outro grande problema, esse muito frequente, são os sacos de lixo não recolhidos pelos serviços de limpeza urbana que, durante as chuvas mais fortes, são arrastados pela enxurrada e bloqueiam os drenos de águas pluviais, especialmente as grelhas e as bocas de lobo, provocando rapidamente pontos de inundação. Nesse tópico podemos incluir os resíduos da construção civil, que figuram entre os campeões no descarte irregular das cidades. Pedaços de madeira e resíduos de demolição podem ser arrastados para o leito das ruas em eventos de chuva forte, sendo transformados em verdadeiras armadilhas para os veículos e oferendo sérios riscos à segurança dos passageiros e condutores.

Um problema menos visível é o assoreamento das tubulações e canais de drenagem, que acumulam sistematicamente camadas de areia e argila no fundo, implicando numa redução gradativa da capacidade de drenagem dos grandes volumes de águas pluviais. Autoridades responsáveis devem manter um calendário de manutenção desses sistemas, realizando trabalhos sistemáticos de limpeza e dragagem. Muitas vezes uma fina lâmina de água corrente pode até dar a impressão de uma grande profundidade num curso de água, quando na realidade essa profundidade é de alguns poucos centímetros. Em momentos de forte chuva, quando nenhum de nós tem o controle do volume de água que atinge o solo, é preciso ter certeza que os sistemas de drenagem tenham capacidade para absorver e dar vazão rápida para as águas pluviais. Não havendo cuidados com a limpeza e a manutenção dos sistemas de drenagem, o resultado poderá se apresentar em grandes inundações, com prejuízos materiais e algumas vezes até com vítimas fatais, além de graves riscos de proliferação de doenças de veiculação hídrica com a leptospirose, hepatite, cólera, giardíase entre outras.

Relembrando: todas essas preocupações devem ser preventivas, ou seja, deve-se pensar e agir nos períodos de seca. Quando as chuvas chegam, muito pouco poderá ser feito adequadamente.

PROBLEMAS HABITACIONAIS, OU A OCUPAÇÃO IRREGULAR DOS MORROS

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Os noticiários dos últimos dias estão repletos reportagens que tratam das consequências devastadoras da passagem do furação Matthew pelo já devastado Haiti – as imagens de destruição das cidades e o sofrimento humano da população nos comovem muito. Se você é um bom observador, talvez tenha notado que os morros que sempre aparecem no fundo das imagens estão completamente nus, sem vegetação arbórea; a falta de vegetação nesses morros contribuiu muito para a devastação das cidades – sem a cobertura vegetal, as águas das fortes chuvas desceram os morros em grande velocidade, devastando tudo o que estivesse em seu caminho.

Muito antes do furação Matthew e do forte terremoto que abalou o país em 2010, o Haiti já era um país devastado graças a longa ditadura da família Duvalier, primeiro com François Duvalier, o Papa Doc, que conduziu com mão de ferro o país entre 1957 e 1971; após sua morte, Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, assumiu o posto do pai e dirigiu o país até sua auto deposição em 1986. A população cada vez mais miserável do país devastou gradativamente as florestas em busca de lenha para cozinhar – Matthew nos mostrou a falta que a proteção de uma cobertura vegetal em morros nos faz…

Pelas dificuldades construtivas, os terrenos das encostas de morros sempre tiveram pouco valor durante os processos de formação das cidades. Desde muito tempo atrás, morar em morro era coisa de gente pobre – a formação das favelas nos morros do Rio de Janeiro pelos escravos libertos no final do século XIX é um grande exemplo disso. A forte migração de populações rurais para os centros urbanos iniciada nas décadas de 1950 e 1960 aliada à falta de políticas públicas na área de habitação popular, transformou as encostas dos morros numa alternativa para as construções populares e também para as famosas “habitações sub normais”, mais conhecidas como favelas.

A ocupação irregular das encostas dos morros implica em dois problemas fundamentais associados às águas pluviais:

  1. A cobertura vegetal das encostas, que atuava na retenção e redução da velocidade de descida de grandes volumes de chuvas, é removida para dar espaço para a construção das moradias;

  2. A construção das moradias, normalmente com grande adensamento, impermeabiliza o solo, aumentando a quantidade de águas superficiais que descem os morros em dias de chuvas.

Esses dois eventos provocaram aumentos nos volumes naturais de águas pluviais que chegam aos canais de drenagem, contribuindo em muito para a formação de pontos vulneráveis a enchentes. Há também um terceiro problema, muito mais grave, que nem sempre é fácil de se perceber – a combinação da remoção da cobertura, onde as raízes das plantas tem grande importância na estabilização e fixação dos terrenos, aliada ao corte do talude para a construção das moradias, provoca uma total desestabilização das encostas dos morros; em temporadas de chuvas fortes é comum a ocorrência de grandes deslizamentos, com destruição de casas e custo de dezenas de vidas. O deslizamento do Morro do Bumba (vide foto que ilustra esse post) em Niterói no ano de 2010, para citar um único exemplo, resultou em 39 mortes.

As encostas de morros comumente abrigam os remanescentes da cobertura vegetal original das regiões ocupadas pelas cidades e possuem grande importância ambiental tanto para a regulação do clima quanto para a absorção e retenção de grandes volumes de águas pluviais. Além de contribuir imensamente na formação de pontos de enchentes nas partes baixas das cidades, a ocupação irregular das encostas representa um altíssimo risco para as populações. As cidades devem redobrar os esforços para preservar e até mesmo recuperar a cobertura vegetal das encostas, criando programas de moradia popular que possibilitem a transferência dessas populações.

Morros são complicados pela sua própria natureza: ou é fogo morro acima ou é água morro abaixo – não temos controle em nenhuma dessas situações.

PERMEABILIZAÇÃO DO SOLO DAS CIDADES

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Em meu último post afirmei que um dos grandes problemas ambientais das cidades, as enchentes localizadas, tem ligação direta com a escalada da impermeabilização dos solos: quintais concretados no lugar dos antigos jardins, edificações e construções ocupando cada vez mais os espaços urbanos, calçadas a perder de vista, ruas e avenidas asfaltadas – até os tradicionais canais de drenagem naturais como os córregos e rios estão recebendo algum tipo de impermeabilização. Ao invés de explorarmos os problemas criados por essa contínua impermeabilização dos solos, vamos inverter a conversa – vamos falar das alternativas para a permeabilização do solo.

O Parque do Ibirapuera tem 1,5 milhão de metros quadrados e é a área verde mais importante da cidade de São Paulo. Minha mãe cresceu num bairro ao lado do terreno onde está instalado o Parque do Ibirapuera; na época, anos de 1930, o local era um grande brejo e os pais não deixavam que os filhos se aventurassem no lugar – hoje, os imóveis das áreas lindeiras ao Ibirapuera tem o maior valor de mercado da cidade. Atualmente, seria virtualmente impossível que a Prefeitura conseguisse desapropriar uma área equivalente para a construção de um outro Parque do Ibirapuera. Uma solução alternativa e viável economicamente seria a criação de pequenas áreas verdes em toda a cidade – pequenos jardins com área de 10 m²: se conseguirmos implantar 150 mil desses pequenos jardins, criaremos um novo Parque do Ibirapuera “virtual” na cidade; considerando-se o tamanho da cidade, atingir essa cifra de pequenos jardins não é nada difícil – uma boa campanha de conscientização junto à população poderia estimular a remoção de trechos concretados dos quintais e a criação desses pequenos jardins, com forte impacto na permeabilidade do solo da cidade (veja um exemplo na foto que ilustra este post).

O concreto permeável, poroso ou drenante, é constituído de uma mistura de cimento comum (Portland) com agregados graúdos (pedra britada), água e aditivos químicos. Como essa mistura não leva areia como no concreto comum, a massa fica com uma estrutura altamente porosa, facilitando a passagem de água e ar. O concreto poroso pode ser utilizado na pavimentação de calçadas, concretagem de terrenos (muita gente não gosta da “sujeira” criada pelas folhas das plantas), pisos de áreas de estacionamento entre outras, criando novos pontos permeáveis de solo, com capacidade de absorver centenas de milhões de litros das águas pluviais. Os bairros mais urbanizados da cidade de São Paulo, por exemplo, possuem um índice de impermeabilização médio de 80% (cálculos feitos a partir da combinação de dados de sensoriamento remoto de alta e média resolução espacial) – o uso do concreto permeável nas aplicações citadas poderia reduzir essa impermeabilização em pelo menos 10%, o que seria um grande avanço.

A substituição do pavimento asfáltico de ruas menores por blocos de concreto ou ainda pelos antigos paralelepípedos também é uma solução interessante para melhorar a permeabilidade do solo. Ruas de bairros, com baixo tráfego de veículos e onde não há o tráfego de veículos pesados, permitem facilmente essa mudança, sem qualquer tipo de prejuízo para os moradores. Alguns fabricantes de blocos para pavimentação produzem peças coloridas, o que traria um charme a mais para os bairros, fugindo da monotonia do calçamento em tons de cinza e preto. Uma outra vantagem dos pavimentos em blocos e paralelepípedos é a facilidade de remoção e recolocação para a execução de obras subterrâneas – como já comentei em posts anteriores, pela falta de planejamento de nossas cidades sempre haverá a necessidade de cavar uma vala para a instalação de alguma rede de tubulações subterrâneas.

Observem que nenhuma das propostas citadas exigirá investimentos faraônicos (justamente por isso são tão difíceis de sair do campo das idéias) – as cidades estão em constante processo de mudança e manutenção nas ruas e calçamento dos passeios públicos: basta substituir os materiais que serão usados na recomposição. Já as pequenas áreas verdes, essas implicam mais em um processo de educação ambiental do que em custos para as cidades.

Continuamos no próximo post.

TELHADOS VERDES: UMA CHARMOSA OPÇÃO PARA RETENÇÃO DE ÁGUAS PLUVIAIS

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O Governo da França acaba de aprovar uma lei que obriga, dentro das possibilidades técnicas, a instalação de painéis solares ou os chamados telhados verdes nos edifícios das cidades francesas. Os painéis solares são uma opção ecologicamente correta para a geração de energia elétrica; os telhados verdes têm múltiplas funções: ajudar a controlar os níveis de poluição nas cidades, criar áreas recreativas e contemplativas para o lazer da população, controlar as ilhas de calor comuns em áreas urbanizadas e, algo que muito nos interessa aqui no Brasil, atuar como um dispositivo de retenção das águas pluviais.

O crescimento desenfreado dos grandes centros urbanos em todo o mundo, com grandes construções de concreto e aço, forma as chamadas ilhas de calor, onde as temperaturas médias são mais altas que as temperaturas das regiões periféricas; estudos têm demonstrado que essas ilhas de calor ficam sujeitas a chuvas mais fortes que as regiões periféricas próximas. Outro problema comum nas grandes cidades é a impermeabilização dos solos por concreto e asfalto – sem áreas de infiltração e retenção, grandes enxurradas se formam e enchentes localizadas podem ocorrer. Em grandes cidades brasileiras onde já faltam infraestruturas de drenagem de águas pluviais, os problemas tomam dimensões catastróficas.

Os telhados verdes, que nada mais são que áreas ajardinadas instaladas nas lajes de casas e edifícios, estão se popularizando em grandes cidades de todo o mundo como uma solução localizada para a retenção temporária de grandes volumes de águas pluviais. Imagine, por exemplo, que a cobertura de uma edificação com uma área de 1.000 m² seja transformada em um grande jardim. Se intuirmos que durante uma chuva forte esse jardim consiga reter uma lâmina de água com 5 centímetros de altura (o que equivale a 50 litros de água em cada metro quadrado de jardim), a retenção total de água será de 50.000 litros – esse volume de águas retido temporariamente na cobertura do edifício deixa de se juntar a água que escorre nas sarjetas, aliviando a pressão sobre a rede de drenagem de águas pluviais. Quanto maior o número de edificações com telhados verdes, maior o alívio global sobre a rede de drenagem pluvial. Conforme a disponibilidade de área na edificação, reservatórios podem ser instalados para armazenar essa água de chuva para usos não potáveis como limpeza, regas de jardins e uso em descargas sanitárias.

A implantação de telhados verdes depende de uma avaliação da capacidade estrutural da edificação, que conforme o caso precisará receber reforços. A laje da cobertura recebe uma manta impermeabilizante; depois é aplicada uma camada de solo fértil de textura leve, uma rede de contenção e um sistema de drenagem. As plantas selecionadas devem resistir a altas temperaturas, a baixa umidade do solo nos períodos de seca e também suportar os momentos de inundação nos dias de fortes chuva.

As múltiplas utilidades de um telhado verde são facilmente comprovadas – a foto que ilustra esse post mostra o jardim instalado na cobertura do Edifício Matarazzo, onde funciona a Prefeitura da Cidade de São Paulo. A região central da cidade, onde fica o Edifício, chega a ter temperaturas até 10° C acima da temperatura das regiões extremas do município onde há densa cobertura de Mata Atlântica. Medições feitas em edifícios sem telhado verde próximos do Edifício Matarazzo indicaram temperaturas médias 5,3° C superiores, umidade relativa do ar até 16% inferior e um nível de absorção radiação solar superior em até 30%. Em resumo: edificações com telhados verdes são mais confortáveis para se viver e/ou trabalhar, tem menor gasto energético com sistemas de ar condicionado, tem valor de mercado acima de edificações similares sem o dispositivo, permitem o armazenamento da água da chuva para reaproveitamento em usos não potáveis do edifício, além de contribuir numa significante melhoria no visual das cidades.

Esse post mostra que nem tudo na área de saneamento básico precisa ser uma grande chatice para ser funcional e bonito.

AS LIÇÕES DO FURACÃO MATTHEW

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Acompanhamos com muita apreensão o avanço do furacão Matthew, que segue desde a região do Caribe rumo ao norte, atingindo a costa leste dos Estados Unidos. No momento em que escrevo, chegam informações que o Matthew atingiu o estado da Carolina do Sul com a intensidade 1 (em uma escala de força que vai até 5). De todos os fenômenos meteorológicos, um furacão (ou tufão na região do Oceano Pacífico) é de longe um dos mais devastadores – chuva e vento fortes combinados tem um poder de destruição inimaginável.

O que chamou, de novo, a atenção para este furacão é a diferença no tamanho dos estragos que uma mesma mega tempestade faz em uma determinada região em relação a outra. Desta vez foi o paupérrimo Haiti, país mais pobre das Américas e ainda em fase de recuperação dos estragos do violento terremoto que atingiu esta parte da antiga Ilha Hispaniola em 2010, quem mais sofreu com a fúria de Matthew. Informações que chegam informam que mais de 900 pessoas morreram com a passagem da tempestade – imagina-se que o número real de vítimas será bem maior que as cifras já divulgadas; nos Estados Unidos, Matthew deixou em seu rastro 11 vítimas fatais. Mais uma vez, são os militares do Exército Brasileiro da criticada missão no Haiti, que estão à frente das equipes de resgate e atendimento às vítimas.

As imagens da destruição provocada pela passagem do furação no Haiti são impressionantes – grandes paisagens de escombros se sucedem num plano continuo, mostrando a razão do grande número de mortes já confirmadas. Vale lembrar que o grande terremoto de 2010 já havia reduzido grande parte da infraestrutura do país a ruínas e que, devido a precária situação econômica, muito pouco se reconstruiu. Nos Estados Unidos, ao contrário, Matthew encontrou cidades preparadas e populações treinadas para uma evacuação organizada, onde mais de 2 milhões de americanos abandonaram suas casas em áreas de alto risco e se deslocaram para regiões seguras; considerando-se que os três estados atingidos pelo furacão – Flórida, Geórgia e Carolina do Sul, tem uma população total de 35 milhões de habitantes, o número de vítimas fatais é extremamente baixo. Os estragos na infraestrutura das cidades atingidas pelo furacão também são pequenos e em poucas semanas a vida poderá voltar ao normal. A tragédia vivida principalmente pela população do estado da Luisiana em 2005 com a passagem do furacão Katrina, que destruiu a charmosa cidade de Nova Orleans e provocou mais de 1.000 mortes, serviu de lição para as autoridades americanas, sendo colocadas em prática antes da chegada de Matthew ao território dos Estados Unidos.

Há alguns anos atrás estive em algumas das cidades do estado da Flórida atingidas pelo furacão Matthew nesses últimos dias e confesso que fiquei impressionado com preparo para as situações de furacões e tempestades. Os americanos tem uma cultura de enfrentamento de adversidades climáticas e catástrofes de todos os tipos – as crianças desde a mais tenra idade recebem treinamentos nas escolas para evacuações em casos de incêndio, terremotos, nevascas, ciclones e furacões. As famílias possuem espaços nos porões de suas casas para o armazenamento de mantimentos, barracas, cobertores, lanternas (e armas e munições) para situações de emergência. Em Fort Lauderdale, por exemplo, observei trilhos instalados nas janelas das casas – em caso de aviso de furacão, os moradores vedam as janelas com placas de madeira encaixadas nestes trilhos; muitas casas apresentavam portas de aço de enrolar (como as portas das lojas) sobre as janelas e portas – em caso de emergência é só baixar essas portas de aço para proteger as casas. No Haiti, ao contrário, os habitantes só podiam contar com a proteção dos deuses…

Usei esse exemplo trágico e ainda em andamento para lembrar dos problemas que enfrentamos ano após ano nas previsíveis temporadas das chuvas aqui em nosso país. De intensidade muito inferior a um furacão de intensidade 1 (o mais fraco da escala), nossas chuvas sempre provocam tragédias enormes. Só para citar um exemplo – as enchentes e deslizamentos na região serrana do Rio de Janeiro em 2011, deixaram em seu rastro 916 mortos e 345 desaparecidos em Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo e outras cidades vizinhas: é praticamente o mesmo número de mortes já confirmadas pela passagem do furacão Matthew no Haiti.

É bom refletirmos muito sobre isso.

CALCULANDO O TAMANHO DAS ENCHENTES

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Você deve estar achando a imagem da foto publicada neste post familiar: ela mostra um trecho do Rio Los Angeles, na cidade homônima da Califórnia, Estados Unidos. Dezenas de filmes americanos, produzidos em Hollywood (distrito da cidade de Los Angeles), mostraram cenas de perseguições ao longo da calha concretada do Rio Los Angeles; podemos citar os filmes Exterminador do Futuro e Uma Saída de Mestre; no filme O Núcleo – Missão ao Centro da Terra, um ônibus espacial faz um pouso de emergência no local . A curiosa desproporção entre o pequeno filete de água e o tamanho da calha tem uma explicação simples – a calha foi superdimensionada para receber o volume das águas das chuvas e evitar enchentes na cidade – simples assim.

Os volumes das águas das chuvas são previsíveis em cada uma das regiões de um Estado ou País e podem ser calculados a partir de uma série histórica das médias de chuvas ao longos dos anos. Conhecido os volumes das chuvas, o sistema de drenagem de águas pluviais pode ser dimensionado, de forma que não ocorram as enchentes. Quando um sistema de drenagem não consegue escoar adequadamente o volume das águas das chuvas, temos o conhecido fenômeno das enchentes, tão familiar a todos nós. Enchentes nada mais são do que acúmulos anormais de água das chuvas, que não conseguem “lugar” nos dispositivos de extravasão pluvial – se não há lugar nesses dispositivos, a água excedente fica nas ruas e avenidas “esperando” chegar sua vez de seguir pelas rede de drenagem. E como disse, esse volume de chuvas é previsível e não há como chamar uma enchente de catástrofe natural (algumas vezes isso até acontece): é irresponsabilidade de governantes.

O dimensionamento dos sistemas de drenagem de águas pluviais deve considerar os volumes típicos de chuva na região que caem sobre a superfície. Uma chuva com precipitação de 20 mm, por exemplo, resultará num volume de 20 litros de água sobre cada metro quadrado da região; considerando-se que as casas e terrenos de uma determinada rua ocupam área total de 10.000 m², pode-se calcular que o volume de águas pluviais que será lançado sobre essa rua será de 200.000 litros nessa chuva (ou seja, 20 litros/m² x 10.000 m²) – portando, todos os dispositivos instalados para drenar a água da chuva terão de ser capazes de absorver esse volume de água. Se a chuva tiver precipitação de 30 mm ou 40 mm, os volumes de água aumentarão respectivamente para 300.000 e 400.000 litros – não havendo uma capacidade de drenagem instalada para se absorver e escoar rapidamente todo esse volume de chuvas, o resultado será um ponto de alagamento nessa rua, que somada às águas de tantas outras ruas poderá se transformar no alagamento de uma avenida e depois de todo um bairro ou cidade.

A chuva, como todos sabem, é um fenômeno da natureza essencial para a vida no planeta, contra o qual não temos nenhum controle e que nunca seremos fortes o bastante para vencer: temos de adaptar nossas cidades para o convívio com as chuvas, de forma a minimizar ao máximo os eventuais problemas e prejuízos de sua fúria. Apesar de previsível e natural num país de clima essencialmente equatorial e tropical, muitas cidades do Brasil ainda não estão plenamente adaptadas ao convívio com este fenômeno. Minha cidade, São Paulo, simplesmente para em dias de chuva forte, com enchentes generalizadas nos bairros mais baixos que, entra ano e sai ano, continuam alagando e causando prejuízo sistemático para a população. As vezes até chego a pensar que nossos governantes estão a esperar por alguma mudança climática que, de uma hora para outra, virá a reduzir substancialmente os volumes anuais das chuvas, fazendo desaparecer as odiosas enchentes num passe de mágica.

Na falta de soluções milagrosas, sabemos que o próximo verão, ou inverno conforme a região, trará em sua esteira as fortes chuvas de final de tarde e, mais uma vez, assistiremos ruas e avenidas alagadas, deslizamentos de encostas, famílias desabrigadas e a mercê das doenças de veiculação hídrica.

É muito triste ser um profeta de catástrofes anunciadas…

MEIO FIO E SARJETA, OU O BÊ-Á-BÁ DA DRENAGEM URBANA

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Os sistemas de drenagem de águas pluviais vêm fazendo parte da paisagem urbana das cidades há milhares de anos. Valendo-se da intuição e da observação sistemática, nossos antepassados perceberam que em certos períodos do ano as chuvas se intensificavam e que eram necessários cuidados especiais para o seu escoamento na direção dos rios. Vários dispositivos urbanos foram criados ao longo dos séculos para drenar as águas das chuvas (e também do degelo em países de clima temperado) – sarjetas ou calhas estão entre dispositivos mais antigos.

Anos atrás, durante a realização de obras de redes coletoras de esgotos na cidade de Porto Velho, em Rondônia, enfrentei uma crise sem precedentes na minha carreira com os moradores de uma pequena rua no bairro Aponiã. A Rua Bidu Sayão tem aproximadamente 200 metros de extensão, interligando duas grandes avenidas do bairro, leito de terra (pelo menos há época), sem meio fio e sarjeta – uma típica rua de periferia urbana. De acordo com os protestos dos moradores, que fizeram muito barulho na imprensa local, após as obras realizadas, a rua passou a enfrentar problemas com enchentes. Depois de muitas idas e vindas, nossos técnicos constataram através de medições topográficas que a parte central da rua ficava num nível 25 centímetros abaixo do nível das avenidas nos extremos, ou seja, não havia como a água das chuvas escorrer para um ponto mais baixo – a movimentação de terra feita pelas nossas obras nada tinham a ver com o problema.

Por essa rápida descrição, é muito fácil perceber a importância do projeto e construção de sistemas de drenagem de águas pluviais bem dimensionados nas áreas urbanizadas das cidades e nas áreas impactadas por obras de infraestrutura como rodovias, ferrovias, pontes, aeroportos e túneis. Em áreas rurais com vocação agrícola, as técnicas de produção devem incorporar o cultivo respeitando as curvas de nível no terreno, uso de barreiras de contenção, a preservação de faixas de matas ciliares nas beiras de rios e córregos entre outras técnicas de conservação do solo e redução de processos de erosão provocados pelas águas pluviais. E todo sistema de drenagem de águas pluviais começa pelo básico – o corte de ruas e avenidas ainda na fase do loteamento de um lote ou gleba deve considerar o nível do solo, criando desde o início um caminho para as águas da chuva fluírem naturalmente; o meio fio (conhecido em São Paulo como guia) e a sarjeta, instaladas na sequência, simplesmente vão dar um corpo “sólido” para os caminhos de drenagem das águas de chuva. No exemplo citado da Rua Bidu Sayão, nome que homenageia a grande cantora lírica brasileira, os brilhantes projetistas não respeitaram os princípios básicos da agrimensura, ciência criada pelos antigos egipcios para a demarcação das propriedades rurais após as cheias anuais do famoso Rio Nilo.

Nos meios urbanos, os sistemas de drenagem de águas pluviais são responsabilidade das prefeituras das cidades. Eles começam com um bom projeto de urbanização, onde o traçado das ruas, avenidas e demais logradouros considera as condições ideais para o rápido escoamento das águas de chuva, que correm por ação da força da gravidade. Essa preocupação deve começar, como já dissemos, nas operações de terraplanagem e corte das vias, que devem ser executadas de maneira que o leito da via ficará num nível abaixo do nível das calçadas, que por sua vez ficará num nível abaixo do nível dos terrenos; os imóveis devem ser construídos num nível mais alto que o nível dos terrenos. As ruas receberão as guias e sarjetas que, na forma de uma calha, terão a função de escoar as águas pluviais na direção das tubulações da drenagem pluvial.

Ressalte-se que a rede de drenagem de águas pluviais é uma rede de tubulações subterrâneas independente da rede de esgotos. Essa rede de tubulações deve receber apenas as águas pluviais captadas pelos bueiros, bocas-de-lobo, grelhas e outros dispositivos e deve encaminhar o fluxo de águas na direção de valas de drenagem, córregos, rios ou outros receptores como piscinões, lagos e represas (por exemplo, as represas que armazenam a água para uso no abastecimento das cidades).

AS CHUVAS DE VERÃO E OS PROBLEMAS QUE VIRÃO

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Ao longo de muitos milênios, os sistemas naturais foram se adaptando aos inevitáveis e periódicos ciclos de chuvas: canaletas naturais de escoamento foram escavadas por erosão nas faces de serras e montanhas, leitos de córregos e rios criaram áreas de várzeas para comportar o excedente de águas das cheias dos rios, pedras e gargantas em rios montanhosos foram moldadas para reter e reduzir a velocidade dos excedentes de água, os diferentes tipos de vegetação se adaptaram para armazenar parte da água da chuva e suas raízes se adaptaram para uma forte fixação no solo e evitar o arrastro com a enxurrada. As matas ciliares nas bordas dos rios se especializaram na retenção de galhos, toras e demais particulados, de forma a evitar o entulhamento da calha e futuras enchentes. O próprio solo desenvolveu diferentes tipos de permeabilidade, absorvendo volumes consideráveis de água de chuva (até 50% da água da chuva pode ser absorvida pelo solo) e assim reduzindo os volumes de água que correm desesperadamente a procura das partes baixas dos terrenos – são sistemas em equilíbrio. Na natureza há um alongamento do tempo de drenagem das águas da chuva e as cheias dos corpos d’água são controladas e acontecem sem maiores danos ao ambiente natural local.

Os diferentes tipos de intervenção humana nos meios naturais interferem com esse delicado equilíbrio natural, produzindo distorções na dinâmica das águas pluviais. Na agricultura, a remoção de grandes extensões de cobertura vegetal para a formação das culturas resulta em alterações nos volumes de absorção de água pelo solo e formação de grandes correntes de água: sem a proteção da vegetação que reduz a velocidade da correnteza, grandes volumes de solo agricultável são arrastados para os leitos dos rios, deixando um rastro de erosões e voçorocas pelo caminho. O assoreamento dos rios reduzirá cada vez mais a capacidade da sua calha em receber futuros excedentes de águas de chuva – a água avançará cada vez mais na direção das bordas das margens e produzirá cada vez maiores assoreamentos neste rio. Cria-se uma continuidade de problemas que crescem cada vez mais.

Nas cidades, o crescimento desenfreado das construções interfere cada vez mais na dinâmica das chuvas:

  1. A ocupação cada vez maior de encostas de morros leva a remoção da cobertura vegetal e ao corte do solo para a construção de habitações. Períodos de chuva mais intensos saturam o solo com água, o que pode provocar sérios desmoronamentos, com alto risco para os moradores;

  2. A impermeabilização do solo resultante da aplicação de imensas faixas de asfalto nas ruas, concretagem de calçadas e quintais, reduz drasticamente a absorção de água pelo solo e provoca a formação de fortes enxurradas, com enorme potencial de inundações;

  3. Construções ocupam grandes extensões de solo e concentram nos seus telhados grandes volumes de água que descem velozmente por sistemas de calhas e se somam as volumosas enxurradas do solo;

  4. Áreas de várzea, que originalmente absorviam os excedentes de águas nos períodos de chuva, foram aterradas para permitir o aumento da área disponível para as construções;

  5. Margens de rios e córregos foram retificadas e urbanizadas, diminuindo a área de recepção das águas excedentes e, em muitos casos, diminuindo a velocidade da correnteza do curso d’água, e aumentando assim o tempo de drenagem das águas da chuva.

  6. Restaram nas áreas urbanas poucas áreas verdes e remanescentes florestais com grande capacidade de absorção de água nos seus solos e pela vegetação.

As consequências dessa somatória de interferências humanas no meio ambiente urbano são enchentes cada vez maiores e mais frequentes nas cidades, deslizamentos de encostas de morros, prejuízos econômicos enormes e, tristemente, danos algumas vezes irreparáveis na saúde de populações inteiras, inclusive com situações de invalidez permanente ou morte dos mais desafortunados.

SISTEMAS DE ÁGUAS PLUVIAIS: DESCASO, CHUVAS E ENCHENTES

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Em nosso último post falamos rapidamente do predomínio da água salgada dos oceanos no planeta Terra – nada menos que 97,5% de toda a água disponível se encontra nos oceanos e mares ao redor de nosso mundo. A transformação de água salgada em água potável (ou doce, como se diz frequentemente) depende da energia do sol – bilhões de litros de água do mar evaporam todos os dias e são carregadas pelas correntes de vento para os quatro cantos do planeta. Esse vapor, ao ser resfriado, cairá sobre o solo na forma de neve, granizo, de chuva, de orvalho etc, e formará todas as formas possíveis de fontes de água para o consumo de plantas, animais e pessoas. No inóspito deserto do Atacama no norte do Chile, por exemplo, a principal fonte de água para as plantas e animais é a neblina noturna vinda do oceano Pacífico que condensa sobre o solo e plantas. Rios importantes como o Jordão em Israel, Tigre e Eufrates no Iraque, Indus e Ganges na Índia e Paquistão, além do nosso Amazonas, tem nascentes alimentadas pelo degelo das neves em cumes de montanhas. Em regiões de clima equatorial e tropical como o território brasileiro são as chuvas que fornecem toda a água que utilizamos em nosso dia a dia.

Dependemos das chuvas para a manutenção de nossas florestas e demais sistemas naturais – muita chuva na Floresta Amazônica e pouca água na região da Caatinga nordestina. Na agricultora, nossa dependência das águas das chuvas é total, seja na forma direta por precipitação seja de forma indireta por irrigação da água de rios e reservatórios ou de fontes subterrâneas. O abastecimento de nossas cidades e indústrias se baseia na ideia de ciclos regulares de chuva para recarga de aquíferos, fontes e reservatórios – até a dispersão de muito do nosso lixo e dos dejetos não tratados dos esgotos são dependentes da frequência das águas pluviais que correm na direção dos rios e tudo arrastam.

A naturalidade e a previsibilidade das chuvas em nosso país pressupõem que haja em nossa infraestrutura geral um mínimo de adequação e preparo para a convivência com grandes períodos de precipitação intensa e suas naturais consequências, como as enchentes, desmoronamentos, bloqueios de ferrovias e de rodovias entre outros problemas. Porém, todos nós sabemos que essa convivência com as águas pluviais não é assim tão natural. A cada ano as enchentes (e também as secas) se repetem, com todos os problemas associados, e nossas cidades e infraestrutura geral se mostram insuficientemente preparadas. Improvisam-se as soluções e se fazem promessas de futuras obras…

Sistemas de drenagem de águas pluviais tem a função de escoar os grandes volumes das precipitações que caem sobre as cidades na direção de canais de drenagem, rios e outros corpos de água, no maior volume e no menor tempo possível. Conforme a declividade do terreno, parte da lâmina de água de chuva formada sobre o solo ganha grande velocidade de descida, formando corredeiras violentas e com grande potencial de danos a vegetação, formações naturais do solo e construções como casas, edifícios, ruas, rodovias, ferrovias etc. Em meio aos danos materiais, as águas pluviais podem causar enormes prejuízos nas populações afetadas por enchentes, incluindo-se ai os riscos à vida humana. Também há riscos à saúde humana – doenças como a leptospirose, provocada pela contaminação da água com urina de ratos, são frequentes em áreas alagadas por enchentes.

Épocas de chuvas, “coincidentemente”, são as mesmas onde acontecem as grandes enchentes nas cidades brasileiras. Na cidade de São Paulo, por exemplo, existem ruas e avenidas onde as enchentes tem data e hora para acontecer. Um exemplo que já se tornou um clássico é o Jardim Pantanal, na zona leste da cidade – nos últimos anos, o bairro tem ficado alagado por semanas a fio no verão, sem que as autoridades consigam resolver o problema na drenagem.

Continuaremos no próximo post..