CANALIZAÇÃO DO CÓRREGO DAS ÁGUAS ESPRAIADAS: UM ESTUDO DE CASO

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O Córrego das Águas Espraiadas é um velho conhecido dos moradores do meu bairro. Desde meados do século XVI, quando a pequena Vila de Santo Amaro foi fundada pelos padres Jesuítas, os caminhos de acesso à região tinham de, obrigatoriamente, cruzar o Águas Espraiadas. Como um exemplo da ligação do bairro com o curso d’água, observe a foto que ilustra esse post, tirada em 1966, que mostra o estrago causado nas fundações do pontilhão da antiga linha de bondes (atual Avenida Vereador José Diniz) por uma das incontáveis enchentes do Córrego das Águas Espraiadas.

No intenso processo de conurbação que ao longo do século XX uniu a mancha urbana da cidade de São Paulo à de Santo Amaro (O bairro foi incorporado à cidade de São Paulo em 1933), a várzea do Córrego das Águas Espraiadas seguiu intacta por algum tempo, mas acabou sucumbindo à ocupação por populações pobres – na década de 1980, cerca de 68 núcleos de favelas ocupavam uma faixa linear desde as proximidades da Marginal Pinheiros até as vizinhanças do Aeroporto de Congonhas, com uma população estimada em 80 mil pessoas. A ocupação descontrolada da várzea pela “gigantesca” favela provocava inundações cada vez mais fortes, que provocavam desmoronamentos e transtornos cada vez maiores aos moradores da favela – tanto a favela quanto o córrego incomodavam a vizinhança de classe média dos bairros do Brooklyn Paulista e do Campo Belo.

Depois de algumas tentativas frustradas por outras administrações, os Prefeitos Paulo Maluf (1993-1996) e seu sucessor Celso Pitta (1997-2000), levaram a cabo as obras de retificação do córrego e pavimentação de uma avenida de aproximadamente 5 km, ligando a Marginal Pinheiros até a região do Aeroporto de Congonhas. As obras estouraram o cronograma inicial devido as dificuldades de desapropriação e transferência dos antigos moradores (a maioria foi levada junto com os pertences de caminhão para um grande terreno na Zona Leste da cidade, onde foi formada a Comunidade Jardim Pantanal). As obras seguiram à risca os manuais de construção de avenidas de fundo de vale confinando o córrego num canal central concretado, cercado por estreitas faixas de terreno com vegetação e pelas pistas asfaltadas. A Avenida, foi batizada inicialmente de Águas Espraiadas, nome que depois foi mudado para Avenida Jornalista Roberto Marinho. Anos depois, a nova Avenida viu surgir em um dos seus extremos o novo cartão postal da cidade de São Paulo: a Ponte Estaiada. Atualmente, a Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) está construindo a Linha Prata do Monotrilho nesta Avenida. A valorização imobiliária das áreas circunvizinhas às antigas favelas foi de quase 1.000% após a inauguração da Avenida.

Até aqui o leitor não viu nada muito diferente de outros textos que escrevi falando da construção das avenidas de fundo de vale na cidade de São Paulo. Mas existe sim uma grande diferença das outras obras: a construção da Avenida custou a bagatela de aproximadamente US$ 600 milhões; considerando-se a extensão de 5 km, o custo por quilômetro linear chega aos impressionantes US$ 120 milhões, o que faz da Avenida a mais cara do mundo, com um custo por quilômetro equivalente ao do Eurotunnel, famoso túnel que liga a França à Inglaterra sob o Canal da Mancha.

O Ministério Público Federal denunciou 11 pessoas por desvio de recursos públicos, peculato, superfaturamento de obra e lavagem de dinheiro. Entre os acusados estão os ex-prefeitos Paulo Maluf e Celso Pitta (morto em 2009), diversos agentes públicos e funcionários de grandes empreiteiras. Entre muitos recursos e apelações ao longo dos últimos anos, corre-se o risco de prescrição das acusações, sem que a cidade de São Paulo consiga recuperar a maior parte do dinheiro desviado. Mas, a esperança sempre é a última que morre.

Vejam que resolver o problema das enchentes com a construção de uma grande avenida de fundo de vale é só uma parte do problema – sempre há outras questões escusas nessas obras. Certeza mesmo é a exclusão social cada vez maior das populações deslocadas das várzeas para os confins mais distantes da cidade…

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