PLANETA TERRA ACABA DE ENTRAR EM “SOBRECARGA”

Trocando em miúdos, essa análise indica que todos os recursos naturais disponíveis em todo o planeta já não são suficientes para atender todas as necessidades das populações. Falando de uma forma bastante didática, ou conseguimos rapidamente um outro planeta para complementar essa quota de recursos naturais, ou precisamos reduzir a nossa demanda. 

Para chegar a essa conclusão, a Global Footprint Network analisou as contas da pegada ecológica e a capacidade biológica dos ecossistemas em gerar recursos naturais de mais de 180 países. A organização batizou a data de Dia da Sobrecarga do Planeta. 

De acordo com a definição da WWF – Fundo Mundial para a Natureza, na sigla em inglês, uma das maiores organizações ambientalistas do mundo, a pegada ecológica é “uma metodologia de contabilidade ambiental que avalia a pressão do consumo das populações humanas sobre os recursos naturais. Expressada em hectares globais (gha), permite comparar diferentes padrões de consumo e verificar se estão dentro da capacidade ecológica do planeta”. 

O conceito de sobrecarga da Terra (Overshoot Day, em inglês), foi criado pelo instituto britânico de pesquisas New Economics Foundation, que é uma organização parceira da Global Footprint Network. Desde o ano 2001, o Dia de Sobrecarga da Terra vem tendo sua data antecipada, em média, três dias a cada ano. 

No ano 2000, para que todos tenham uma ideia clara desse avanço, a data foi “comemorada” no dia 5 de outubro, pouco mais de dois meses depois da data estabelecida para este ano. 

Apesar de simbólica, essa data é um importante aleta dos rumos que a humanidade vem pavimentando para seu futuro. É bom pararmos alguns minutos para pensar nessa questão. 

ALTAS TEMPERATURAS NO OCEANO ATLÂNTICO AMEAÇAM CORAIS NO SUL DA FLÓRIDA

Existem mais de 6 mil espécies de corais marinhos, sendo encontrados em mares tropicais e subtropicais. No Sul da Flórida, a temperatura das águas oscila entre os 21º e 28,8º C – entretanto, nos últimos dias, as temperaturas na região estão ultrapassando a marca dos 32º C. 

Nessas condições ambientais, os corais expulsam as zooxantelas, um tipo de alga que vive nos seus tecidos e que proporciona alimentação e energia, além de determinar a coloração dos corais. Esse fenômeno causa o branqueamento dos corais e é um sinal claro que existe risco para a sua sobrevivência. 

Essa formação tem aproximadamente 2 mil km, se estendendo entre o Leste da Austrália e a ilha de Papua-Nova Guiné. Com uma largura que varia de 30 a 740 km, a formação possui o maior agrupamento de corais do mundo – cerca de 400 espécies, distribuídas em cerca de 2.900 recifes, 600 ilhas continentais e 300 atóis de coral. Cerca de 1.500 espécies de peixes, 4 mil variedades de moluscos, entre outras inúmeras espécies marinhas vivem nesse habitat 

Desde a década de 1990, as formações de coral vêm sofrendo um processo de branqueamento, uma anomalia provocada pela perda de pigmentos e de algas associadas aos tecidos dos corais. As razões apontadas como as causadoras desse branqueamento são o aquecimento anormal das águas do oceano e a poluição marítima. Estudos realizados em 2016 pela Universidade James Cook da Austrália, indicaram que cerca de um terço dos corais estavam mortos ou morrendo, colocando a Grande Barreira de Coral na lista dos ecossistemas em maior risco no mundo. 

No Sul da Flórida, a questão criou uma enorme mobilização envolvendo autoridades públicas, especialistas em vida marinha e organizações ambientalistas, que estão travando uma verdadeira corrida contra o tempo para salvar as espécies de corais da região. 

Essas equipes instalaram viveiros especiais no mar que permitem a captura de amostras de pólipos dos diferentes tipos de corais, que serão levadas para tanques especiais de água salgada com temperatura controlada. No futuro, esses corais serão reintroduzidos em áreas oceânicas com condições ambientais compatíveis com sua morfologia. 

Infelizmente, não são todos os países que têm as mesmas condições financeiras, humanas e tecnológicas dos Estados Unidos, e que podem se dar ao luxo de tamanha mobilização em prol dos corais. Inúmeras espécies estão sofrendo as mesmas agressões devido ao aquecimento das águas dos oceanos sem que esforços semelhantes para sua sobrevivência sejam feitos. 

Vislumbramos cada vez mais um futuro de mares com águas cada vez quentes e com uma biodiversidade cada vez menor… 

BAIXO NÍVEL DO LAGO TITICACA PREOCUPA COMUNIDADES NA BOLÍVIA E NO PERU 

Com aproximadamente 8.500 km², o Lago Titicaca é o maior corpo d’agua da América do Sul, encravado na fronteira entre o Peru e a Bolívia. Na margem nordeste do Lago, em território boliviano, fica a Cordilheira Real onde se localizam algumas das montanhas mais altas dos Andes. O derretimento de glaciares ou geleiras no alto destas montanhas forma alguns dos rios que alimentam o Lago Titicaca; no lado peruano, são cerca de 20 rios tributários, com nascentes em 91 glaciares nos Andes do Peru. 

Esse lago abriga a Ilha do Sol, considerada o berço da civilização Inca. Ali, acredita-se terem chegado Manco Capac e Mama Ocllo, os filhos do “Deus Sol”, em busca de um lugar apropriado para formar o povo Inca e difundir sua cultura. A partir do Lago Titicaca, os Incas se espalharam por um extenso território ao longo da Cordilheira dos Andes e criaram um dos mais poderosos impérios da América Pré-Colombiana, que subsistiu até a conquista final pelos espanhóis liderados por Francisco Pizarro. 

O império controlado pelos Incas, o povo que formava a elite dominante do Peru, se estendia por 4.500 km, desde o Chile e Argentina ao Sul até a Colômbia ao Norte, governando mais de 15 milhões de pessoas de diferentes etnias e línguas. A capital do Império ficava na cidade de Cusco, que na língua quéchua significa “umbigo do mundo”. Tawantinsuyu era a palavra usada pelos Incas para descrever seus domínios – “império dos quatro cantos”; e de todos os cantos, o Lago Titicaca era o mais sagrado. 

Além de sua importância mítica, o Lago Titicaca também se destaca por ser a mais importante fonte permanente de água de uma extensa área do altiplano, um extenso planalto frio e seco na Cordilheira dos Andes que se estende entre o Peru e a Bolívia, chegando até o Norte da Argentina e do Chile. 

Somente para emplificar a importâncias das águas do Lago Titicaca para o abastecimento de cidades e para a agricultura, a cidade de Puno, que fica na margem peruana, tem cerca de 222 mil habitantes. 

De acordo com as projeções feitas pelos militares, o nível do Lago Titica deverá continuar caindo, podendo atingir uma redução de 64 cm até dezembro. Caso isso se confirme, essa será a maior redução do espelho d’água desde 1998, quando atingiu uma redução de 33 cm, o recorde atual.  

Sem as águas resultantes do derretimento de algumas dessas geleiras, o Lago Titicaca não consegue repor as perdas de água provocadas pela intensa radiação solar das altas montanhas. Sem a reposição dessas perdas, o Titicaca vai continuar secando lentamente. 

Caso não haja maiores mudanças no cenário climático global, o destino do Lago Titicaca não será muito diferente do Lago Poopó… 

ESTUDO BRASILEIRO MOSTRA A IMPORTÂNCIA DOS MANGUEZAIS NA RETENÇÃO DO CARBONO 

Os manguezais ou mangues, como são chamados popularmente, são ecossistemas costeiros de transição entre os ambientes marinhos e terrestres. São comuns nas regiões tropicais e subtropicais de todo o mundo, sendo encontrados em enseadas, barras, lagunas, foz de rios, baías e em outras formações costeiras onde as águas doces de rios e lagos se encontram com as águas marinhas, formando um ambiente de águas salobras.  

Essa característica transforma os manguezais em importantes “exportadores” de matéria orgânica, algo essencial para a produtividade das áreas costeiras. Esse ecossistema rico em alimentos abriga centenas de espécies de peixes, moluscos, crustáceos, verme, aves, mamíferos e, também, populações humanas.   

Segundo estudos científicos, cerca de 70% das espécies marinhas utilizadas para alimentação humana, onde se incluem peixes, siris, camarões, lagostins, caranguejos, entre outras espécies, dependem das áreas de mangue para a sua reprodução.  

Um exemplo são os alevinos de diversas espécies de peixes, que passam a fase inicial de suas vidas abrigados entre as raízes do mangue, só migrando para as águas abertas dos oceanos após atingirem um tamanho maior e mais adequado para fugir dos predadores. Em regiões onde as áreas de mangues foram destruídas ou ocupadas, a produtividade pesqueira é cada vez menor. 

Esses biomas lamacentos e cobertos com uma vegetação intrincada não podem ser incluídos na lista dos ambientes naturais mais bonitos. Entretanto, pesquisadores da UERJ –Universidade do Estado do Rio de Janeiro, concluíram que os manguezais têm uma importância ímpar na retenção do carbono. 

Esse estudo consolidou dados levantados em uma investigação anterior feita pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, que mostrou que os manguezais capturam 57% mais carbono que outras vegetações de regiões tropicais. 

Existem cerca de 10 mil km² de manguezais em todo o Brasil, áreas que sofrem bastante pressão devido ao crescimento da mancha urbana de cidades costeiras e avanços de atividades econômicas como a agricultura e, principalmente, a criação de espécies marinhas como camarões em cativeiro – carcinicultura marinha. 

Em cidades da Baixada Santista, no litoral do Estado de São Paulo, esse tipo de agressão é bem fácil de se ver. Em cidades como São Vicente e Santos, grandes extensões de manguezais são aterradas para a ocupação habitacional. Entre os anos de 2007 e 2009, citando um exemplo, eu trabalhei em obras de implantação de redes de esgoto nessa região e lembro que tínhamos muito trabalho para cortar as raízes de mangues enterradas sob o pavimento das ruas.  

Em tempos de aquecimento global e de grandes preocupações com as emissões de carbono e de gases de efeito estufa, proteger e recuperar áreas de manguezais pode ser uma importante ferramenta de gestão ambiental. 

A AMOC – CIRCULAÇÃO DE REVOLVIMENTO MERIDIONAL DO ATLÂNTICO, IRÁ FALHAR NAS PRÓXIMAS DÉCADAS, OU “O DIA DEPOIS DE AMANHÔ 

A Corrente do Golfo faz parte de um complexo sistema global de correntes marítimas e suas águas quentes tornam o clima mais ameno na Irlanda e na Grã-Bretanha. Sem as águas quentes da Corrente do Golfo, a vida de irlandeses, ingleses, escoceses e galeses seria muito mais difícil devido ao clima inóspito. 

Essa corrente marítima faz parte de um sistema ainda maior conhecido na sigla em inglês AMOC – Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico. A circulação de água nessas correntes marítimas é provocada por mudanças na salinidade e na temperatura dos oceanos de todo o mundo. Esse processo de circulação é conhecido como termoalina. 

Nas regiões de altas latitudes como no Norte do Oceano Atlântico, as águas superficiais são convertidas em correntes de água fria profundas que correm na direção dos trópicos. Esse movimento “cria espaço” para que as águas superficiais quentes dos tópicos sigam na direção das altas latitudes. 

Falando de uma forma bastante simplificada, esse grande sistema de correntes marítimas de águas quentes e frias permite uma distribuição equilibrada da temperatura entre as regiões tropicais e polares, garantindo uma estabilidade climática em todo o planeta. 

Essa “parada”, é claro, está ligada diretamente aos efeitos das mudanças climáticas geradas pelas agressões ambientais criadas pela humanidade. A principal delas, conforme citamos sistematicamente em nossas postagens, são as emissões de gases de efeito estufa. 

O estudo dinamarquês analisou dados das temperaturas oceânicas dos últimos 150 anos, o que permitir concluir que a AMOC vai falhar entre 2025 e 2095. O ano mais provável para essa falha é 2037. A taxa de certeza desse colapso é de 95%.  

As consequências dessa falha na circulação da AMOC, é claro, ficarão muito longe do grande colapso no clima mundial como foi mostrado no filme de ficção científica “O dia depois de amanhã”. Entretanto, ela terá fortes repercussões no clima regional, levando a temperaturas mais baixas. 

Aqui com os “meus botões”, suspeito que coisas não muito boas afetarão as nossas futuras gerações… 

ILHA DO BANANAL PODERÁ DESAPARECER 

A Ilha do Bananal, localizada na divisa dos Estados de Tocantins e de Mato Grosso, é considerada a maior ilha fluvial do mundo. Com cerca de 20 mil km², essa ilha se encontra entre os rios Araguaia e Javaés. É classificada como reserva ambiental brasileira desde 1959, e como Reserva da Biosfera pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, desde 1993.

Por mais incrível que possa parecer, essa ilha está desaparecendo! 

Afirmar que uma ilha do tamanho do Estado de Sergipe poderá desaparecer é algo que soa meio forte. Na verdade, é o território da ilha que em breve poderá deixar de ser cercado de águas por todos os lados, a classificação básica de qualquer ilha. 

No caso da Ilha do Bananal, o problema está no rio Javaés, um braço do rio Araguaia que vem perdendo caudais ao longo dos anos. O problema, na verdade, tem sua origem no rio Formoso, um afluente do rio Javaés que vem tendo suas águas cada vez mais exploradas pelos produtores agrícolas de Mato Grosso. 

A bacia hidrográfica do rio Formoso é tomada por grandes e médias propriedades rurais onde há uma forte utilização da água para irrigação de plantações. As principais culturas da região são o arroz e a soja, além de milho, feijão e melancias. 

De acordo com o IAC – Instituto de Atenção das Cidades, uma instituição formada por pesquisadores da UFT – Universidade Federal do Tocantins, a bacia hidrográfica do rio Formoso ocupa uma área de 22 mil km² e onde existem mais de 100 bombas hidráulicas instaladas pelos produtores rurais.  

De acordo com os pesquisadores, cada uma dessas bombas retira um volume de água entre 1,2 mil e 2 mil litros de água por segundo, uma captação equivalente ao consumo total da cidade de Palmas, capital do Tocantins. Com essa redução drástica da vazão, sobra muito pouca água para ser despejada na calha do rio Javaés. 

Sem os caudais do rio Formoso, a calha do rio Javaés vem ficando cada vez mais assoreada e com menos água. Com isso, o território do Bananal está deixando de ser uma ilha e está se integrando cada vez mais ao território do Mato Grosso. 

Do ponto de vista ambiental, ilhas costumam criar ambientes isolados onde diversas espécies de plantas e animais acabam evoluindo de maneira independente e desenvolvem características genéticas diferenciadas das espécies originais. 

Com o fim desse isolamento e com o acesso cada vez mais facilitado, espécies “continentais” acabam avançando e ocupando os antigos nichos ecológicos que antes estavam isolados. Isso acaba reduzindo a biodiversidade de espécies. 

Entre as espécies animais que tem seu refúgio na Ilha do Bananal podemos citar a onça-pintada (Panthera onca), o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), o pato-corredor (Neochen jubata), o tatu-canastra (Priodontes maximus), o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) e também o pica-pau-do-parnaíba (Celeus obrieni), uma espécie que ficou mais de 80 anos sem ser avistada. 

Na flora, a Ilha combina espécies do Cerrado e da Floresta Amazônica, o que forma um bioma com características únicas no mundo. Desde 1993, a Ilha do Bananal integra a lista de zonas úmidas de relevância internacional, classificada, assim, como um Sítio Ramsar, um tratado intergovernamental firmado em 1971. 

Do ponto de vista humano, essa integração territorial também acaba facilitando o acesso, o que, mais cedo ou mais tarde, vai levar à degradação ambiental. É importante citar que diversas comunidades indígenas ocupam o território da Ilha do Bananal há séculos – o “fim da ilha” poderá criar profundos impactos nessas comunidades. 

Depois de “feito o estrago”, autoridades de órgãos ambientais e da ANA – Agência Nacional de Águas, entre muitos outros, passaram a correr contra o tempo e estão buscando formas de regulamentar e disciplinar o uso das águas do rio Formoso. Entre as propostas estudadas está a cobrança pelo uso da água, uma medida que forçaria os produtores rurais a racionalizarem o uso desse insumo. 

Enquanto não se chega a uma solução, a Ilha do Bananal vai perdendo seu status de maior ilha fluvial do mundo e tendo a sua rica e exclusiva biodiversidade cada vez mais ameaçada… 

VENDAS DE APARELHOS DE AR-CONDICIONADO E DE VENTILADORES DISPARAM NA INGLATERRA 

A rede varejista Sainsbury’s, a segunda maior da Inglaterra, divulgou dados de suas vendas que são bastante esclarecedores em relação as ondas de calor que vem assolando a Europa nas últimas semanas.

De acordo com a empresa, as vendas de aparelhos de ar-condicionado aumentaram 1.400% na semana passada. As vendas de ventiladores, que são mais baratos e acessíveis para a maior parte da população, cresceram 1.876% na mesma semana. 

Esses dados complementam um outro – desde o ano 2000, as vendas de sistemas de ar-condicionado vêm crescendo a um ritmo de 4% ao ano na Europa. Aqui no Brasil, país de clima bem mais quente que a Europa, esses fenômenos costumam ser registrados em períodos em que a situação econômica das famílias melhora. 

Na Europa, continente onde as famílias têm um rendimento bem mais alto que o nosso, dinheiro nunca foi um empecilho para a compra desse tipo de aparelho – as famílias, simplesmente, não precisavam de sistemas de ar-condicionado. De alguns anos para cá, ter um aparelho desses em casa virou uma necessidade básica. 

Até algumas décadas atrás, ter uma lareira ou algum outro sistema de calefação era praticamente obrigatório em todo o continente europeu. Vivendo em um clima temperado, as populações necessitavam desses sistemas de aquecimento para enfrentar o rigor dos invernos. Em muitas regiões do Sul da Europa, esses sistemas já não são tão essenciais quanto antes. 

São as mudanças climáticas mostrando as “suas garras”. 

Eu sempre costumo comentar sobre as mudanças que venho observando no clima da minha cidade ao longo da minha vida. Quando eu era garoto lá nas longínquas décadas de 1960 e 1970, São Paulo ainda era bastante fria. Nos tempos de infância dos meus pais era mais fria ainda. 

Sempre que viajamos para visitar familiares no Rio de Janeiro, eu ficava impressionado com a quantidade de aparelhos de ar-condicionado nas casas e nos apartamentos, algo que em São Paulo não era tão comum ou necessário na época. 

Atualmente, quando temperaturas chegam próximas dos 40º C frequentemente nos verões da cidade, a ideia de ter um aparelho de ar-condicionado nas casas paulistanas passou a ser uma necessidade. 

É algo desse tipo que está se passando nos países europeus, onde o clima está mudando de forma extremamente acelerada. Primeiro, a necessidade de ter em casa sistemas de ventilação ou de refrigeração de ar. Dentro em breve, a própria arquitetura das residências vai precisar mudar, se adaptando para períodos mais longos de calor intenso. 

Uma dica para os “gringos” – já que falam tanto da Amazônia, seria bom passar a observar a arquitetura das casas da região, que contam com amplas varandas nas laterais para amenizar um pouco o calor escaldante da região. Esse tipo de construção é bem mais fresco que as casas de pedra, comuns em muitos lugares do velho continente. 

TEMPERATURAS DO ASFALTO DAS RUAS DE PHOENIX, NOS ESTADOS UNIDOS, ESTÃO ATINGINDO A MARCA DE ATÉ 80º C 

Na mitologia grega, a fênix era uma ave lendária que entrava em combustão pouco antes de morrer e que depois renascia das próprias cinzas. Uma cidade norte-americana, que teve seu nome inspirado nessa ave, está muito próxima de “entrar em combustão” – Phoenix, no Estado do Arizona. 

A cidade vem registrando temperaturas na casa dos 43º C ao longo dos últimos dias, algo que não era registrado desde 1974. A cidade é o epicentro de uma grande área que está sendo castigada por altas temperaturas na região Sudoeste dos Estados Unidos. 

De acordo com autoridades médicas, estão sendo relatados inúmeros casos de moradores que chegaram a sofrer queimaduras de até terceiro grau ao cair sobre o asfalto quente das ruas ou em calçadas, onde as temperaturas têm alcançado até 80º C. Também existem registros de queimadura provocadas por maçanetas, estofamentos e volantes de automóveis e outros objetos deixados expostos ao forte sol. 

A cidade de Las Vegas, que fica no Estado de Nevada e fica relativamente próxima de Phoenix, a situação é bem parecida. De acordo com informações do NWS – Serviço Meteorológico dos Estados Unidos, foram emitidos alertas para temperaturas acima dos 50º C no pavimento das ruas em áreas sombreadas e de até 62º C em áreas expostas ao sol. 

As temperaturas em Las Vegas tem superado a marca dos 43º C, um nível que tem surpreendido os moradores locais já bastante acostumados as altas temperaturas. A localidade onde encontramos a atual cidade de Las Vegas foi até o final do século XIX uma parada no meio do deserto para as caravanas de pioneiros na época da “Grande Marcha para o Oeste”. 

A pequena Las Vegas começou a ganhar alguma relevância da década de 1930, quando dois fatos aparentemente desconexos criaram as bases para o crescimento da cidade mais efervescente da América: em 1931 o jogo foi legalizado na cidade e, principalmente, com o início da construção da Represa Hoover no Rio Colorado em 1932. 

De acordo com o NWS, essa onda de calor deverá aumentar sua área de abrangência e atingir outras regiões dos Estados Unidos como o Sul do país. Segundo o órgão, mais de 80 milhões de norte-americanos deverão enfrentar temperaturas de até 40º C nos próximos dias. 

Um exemplo do que está sendo essa onda de calor no país é o que está sendo visto no Death Valley, um trecho particularmente escaldante do deserto de Mojave no Estado da Califórnia. Turistas que visitam o local, que é um parque nacional, têm tirado selfies ao lado dos termômetros de rua onde temperaturas acima de 52º C vêm sendo registradas (vide foto). 

O lado preocupante de todo esse calor – o verão no Hemisfério Norte está apenas começando… 

CERBERUS E CHARON – AS ONDAS DE CALOR QUE ESTÃO ASSOLANDO A EUROPA  

Na nossa última postagem falamos da inacreditável temperatura de 52,2º C que foi atingida na cidade de Sanbao, na região de Xiangjiang, no Oeste da China, há poucos dias atrás. Entretanto, o calor bem acima da média está assolando outras regiões do Hemisfério Norte – a Europa é desses lugares. 

Na Semana passada, partes do Sul da Europa como a Grécia, Itália e Espanha foram atingidas por uma onda de calor que recebeu o nome de Cerberus. Na mitologia grega, Cerberus ou Cérbero era um cão monstruoso de 3 cabeças que guardava os portais do inferno – um nome bem apropriado. 

Segundo a Agência Espacial Europeia, uma nova onda de calor está chegando e foi batizada de Charon por meteorologistas italianos. Esse nome também faz referência à mitologia grega – Charon ou Caronte era o barqueiro de Hades, o deus do mundo dos mortos, responsável pelo transporte das almas para o submundo. 

Até o momento, a Itália é o país mais fortemente atingido, com muitas cidades enfrentando temperaturas superiores aos 40º C. As autoridades dos países mais afetados pelas ondas de calor estão se preparando para os inevitáveis incêndios florestais e preparando as unidades de saúde para o atendimento das populações. 

A cientista climática e professorada Universidade Reading da Inglaterra – Hannah Cloke, utilizou a metáfora de um forno gigante para falar sobre o calor na região do Mar Mediterrâneo: 

A bolha de ar quente que se inflou no sul da Europa transformou a Itália e os países vizinhos em um gigantesco forno de pizza”. 

Segundo a cientista, esse ar quente veio do Deserto do Saara, no Norte da África e está parado sobre o Mar Mediterrâneo, com condições de alta pressão estabelecidas. Isso faz com que o calor no mar, em terra e no ar continuem aumentando. 

Segundo Simon Lewis, presidente de ciência da mudança global na University College London, “este é apenas o começo”. Segundo ele, as temperaturas globais já subiram 2,7º C em relação aos níveis da era pré-industrial, principalmente devido a queima de combustíveis fósseis como o carvão e os derivados de petróleo. 

De um modo geral, os cientistas acreditam que ondas de calor como essas que estão assolando a Europa se tornarão mais frequentes e intensas. Entretanto, ao contrário da opinião do professor Lewis, a maioria dos cientistas acredita que as temperaturas subiram “apenas” 1,2º C em relação aos níveis da era pré-industrial. 

Polêmicas à parte, existe um relativo consenso entre a comunidade científica sobre as possibilidades de se conter o avanço das temperaturas. Isso incluiria uma redução drástica das emissões de carbono e de gases de efeito estufa pelos países, uma medida que até momento se mostrou bastante difícil de ser alcançada. 

Só para lembrar, o último mês de junho foi o mais quente já registrado em nosso planeta de acordo com dados do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus da União Europeia. As temperaturas oceânicas bateram recordes em diversas regiões – especialmente no Atlântico Norte, e o volume de gelo nos mares ao redor da Antártida atingiram os mais baixos níveis da história. 

Literalmente, os europeus estão vivendo dias de “calor infernal”. 

TEMPERATURA RECORDE NO OESTE DA CHINA: 52,2º C 

A coisa está ficando mesmo ficando complicada! 

De acordo com registros da Administração Meteorológica da China, a temperatura na cidade de Sanbao, que fica na região de Xiangjiang, no Oeste da China, atingiu a inacreditável marca de 52,2º C no último dia 16 de julho. 

A temperatura recorde anterior, que já era extremamente alta e foi estabelecida em julho de 2017, foi de 50,6º C. Na cidade de Turpan, que fica nos arredores de Sambao, a temperatura na superfície do solo chegou a 80º C no mesmo dia. 

Até alguns anos atrás, temperaturas acima dos 50º C só eram encontradas em algumas regiões desérticas pelo mundo a fora. Um desses caso é o Death Valley, um deserto extremamente árido na Califórnia – Estados Unidos.  

A temperatura mais alta já registrada no Death Valley foi de 56,7º C, que inlusive é a temperatura mais alta já registrada na Terra. Com o aquecimento global e as com as ondas de calor que estão sendo geradas em diversas regiões, esse recorde mundial não tardará a ser quebrado. 

O lado curioso da notícia é que a divulgação dessa informação ocorreu no mesmo dia em que o enviado climático dos Estados Unidos – John Kerry, chegou na China para tratar dos avanços da agenda para o combate às mudanças climáticas com seu colega chinês Xie Zhenhua

Veterano da política norte-americana, tendo inclusive concorrido à presidência do país em 2004, John Kerry já foi senador pelo Estado de Massachusets e Secretário de Estado. Na administração do Presidente Joe Biden, Kerry ocupa o cargo de enviado especial para o clima desde 2021. 

Em relação à China, Kerry pretende estimular a descarbonização do setor elétrico, reduzir as emissões de metano, além de buscar uma redução da devastação florestal. 

A China, conforme já tratamos em inúmeras postagens anteriores, é o maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, além de ser campeã em diversas outras “modalidades” de agressões ambientais. 

Considerada a “fábrica do mundo”, a China queima enormes quantidades de carvão mineral em centrais termelétricas de geração de energia elétrica, além de outros usos industriais. O Governo chinês, inclusive, costuma se recusar a reduzir suas emissões globais a valores inferiores a valores já negociados em acordos anteriores. 

A essa “altura do campeonato”, quando o estrago ambiental já está feito, todo mundo está correndo atrás do prejuízo…