AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NO CINEMA E NA TV 

As novelas da televisão, os filmes do cinema, o teatro e as músicas, entre outras formas de arte, têm o poder de influenciar pessoas e lançar modas e ideias. Aqui no Brasil o melhor exemplo são as telenovelas. As roupas dos principais protagonistas rapidamente viram moda, o bordão de algum deles rapidamente ganha as ruas, entre outras influencias. Muitos recém-nascidos acabam sendo batizados com os nomes dos atores na trama. 

Lembro de cabeça de uma novela chamada o Clone, que foi produzida por um grande canal de televisão aqui do Brasil há uns 20 anos atrás. Uma das protagonistas do enredo era uma jovem árabe do Marrocos. Tradições típicas do país, citando a dança do ventre como exemplo, passaram a influenciar muita gente e levaram a abertura de inúmeras escolas especializadas. 

Essa influência do mundo das artes muitas vezes é usada para fins mais comerciais. Vou citar como exemplo um filme norte-americano que gosto muito e que ilustra muito bem como essas coisas funcionam – Obrigado por fumar. O personagem principal do enredo é Nick Naylor, vivido pelo ótimo ator Aaron Eckhard, que é lobista das grandes empresas fabricantes de cigarros. 

Preocupados com a queda contínua do consumo dos cigarros, os fabricantes encarregam Nick de encontrar uma solução para o problema. Depois de muita pesquisa, ele recebe uma proposta interessante de um grande agente de Hollywood – contratar grandes estrelas do cinema mundial a “peso de ouro” para fumar em seus filmes, o que influenciaria os espectadores/telespectadores a fumar, aumentando assim as vendas da indústria. 

Se qualquer um dos leitores assistir a um filme clássico das décadas de 1940, 1950 ou de 1960, vai observar que o cigarro fazia parte da personalidade das pessoas daquela época. Não por acaso esses anos marcaram o auge da indústria do cigarro. A partir de então começaram a surgir inúmeros estudos ligando o tabagismo a inúmeras doenças, e, pouco a pouco, os personagens foram se tornando “abstêmios”. O feeling do personagem Nick Naylor parece fazer sentido.  

Seguindo esse raciocínio da influência das artes no comportamento das pessoas, um grupo de pesquisadores resolveu verificar como está andando a temática das mudanças climáticas nos enredos de programas de televisão, em filmes e outras formas de arte. 

A Good Energy, uma consultoria de histórias sem fins lucrativos, e a Media impact Project, ligada a USC – Universidade do Sul da Califórnia, passaram a analisar milhares de roteiros de filmes e programas de televisão escritos entre os anos 2016 e 2020, buscando palavras-chaves relacionadas à temática mudanças climáticas

A pesquisa analisou 37.500 roteiros de filmes e programas de televisão ao longo de 5 anos. Os pesquisadores criaram um banco de dados com transcrições dos roteiros e passaram a pesquisar um grupo de 36 palavras-chave ligadas ao tema mudanças climáticas. 

Do total de roteiros analisados, apenas 2,8% traziam uma ou outra referência ao tema. De acordo com Anna Jone Joyner, fundadora da Good Energy, “é uma ausência bastante gritante, visto que estamos falando de um fenômeno que, literalmente, todos os humanos da Terra estão experimentando de maneira individual e coletiva”. 

A Showtime, um serviço de televisão a cabo norte-americano, foi a mídia com o maior número de menções a temas ligados ao clima. A National Geografic, cujos documentários são famosos por mostrar a vida selvagem e a natureza, atingiu a marca de 14,6% das menções. Também são destaques a HBO e a Netflix pelas suas respectivas menções. 

O filme ligado a questões de mudanças climáticas mais lembrado pelos telespectadores foi o Dia Depois de Amanhã (vide foto), um blockbuster lançado em 2004, e que faturou mais de US$ 550 milhões em bilheterias de todo o mundo. A produção ganhou vários prêmios, especialmente na área dos efeitos visuais. 

Na trama, o aumento das temperaturas globais e o degelo do Ártico provocaram a interrupção da Corrente do Golfo, uma importante corrente marítima de águas quentes que vai do Mar do Caribe em direção ao Atlântico Norte. Sem essa corrente, uma nova Era do Gelo tem início no Hemisfério Norte. 

Um detalhe chamou a atenção dos pesquisadores – mesmo quando secas, ondas de calor, incêndios florestais e grandes furações aparecem nos roteiros, apenas 10% deles são associados às mudanças climáticas. Quando o tema combustíveis fósseis aparece nos roteiros, em apenas 12% dos casos são associados às mudanças climáticas. 

Para tentar reverter esse quadro, a Good Energy passou a organizar workshops com escritores e roteiristas para conscientizá-los da importância de incluir essa temática em seus roteiros. Esse trabalho não é nada fácil – esses profissionais não gostam de sofrer influências eternas. 

Um dado que vem reforçar a importância de filmes e programas de televisão abordarem questões climáticas em seus roteiros foi detectado através de uma pesquisa ambiental feita pelo instituto Gallup a pedido do IEP – Instituto for Economic and Peace, uma instituição australiana com filiais em todo o mundo. Os pesquisadores entrevistaram 125.000 pessoas em 121 países. 

Apenas 48,7% dos entrevistados, praticamente 5 em cada 10 pessoas, consideram as mudanças climáticas como uma ameaça grave para a humanidade. Isso nos dá uma clara ideia da quantidade de pessoas que não tem acesso a informações sobre o que está acontecendo com o clima em nosso mundo. 

Dentro desse cenário, usar os roteiros dos filmes e o enredo de telenovelas para divulgar os problemas decorrentes das mudanças climáticas globais parece ser uma boa ideia. Falta só convencer os produtores, artistas e roteiristas da importância disso. 

Oxalá surjam novas produções ao estilo de o Dia Depois de Amanhã, onde um herói solitário consegue salvar o dia, ou melhor, salvar o mundo. Estamos precisando muito disso… 

One Comment

  1. Fernando, sempre nos privilegia com temas importantes, atuais, com um texto claro e didático. Muito obrigada por compartilhar seu conhecimento.

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