A IMPLACÁVEL SECA NA ILHA DO BANANAL

Seca na Ilha do Bananal

A seca é um fenômeno natural que, periodicamente, assola algumas regiões do território brasileiro. Sempre que alguém toca neste assunto, é comum que venham às nossas mentes as imagens das violentas estiagens que assolam o Semiárido nordestino. Essas imagens aparecem com força na nossa literatura, teatro e cinema, com destaque para as obras clássicas – Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e O Quinze, de Rachel de Queiroz. Entretanto, como venho mostrando nesta sequência de publicações, já se foram os tempos das grandes secas localizadas exclusivamente na região do Semiárido – extensas áreas das regiões Sudeste, Centro-Oeste, Sul e até mesmo da região da Amazônia, vem sendo afetadas por fortes estiagens. Vejam o que está acontecendo no coração do Brasil:

A Ilha do Bananal é considerada a maior ilha fluvial do mundo e declarada área da Reserva Mundial da Biosfera pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Com aproximadamente 20 mil km², a ilha é pouca coisa menor que o Estado de Sergipe, que tem uma área total de 21.190 km² – somente por esta apresentação, vocês podem ter uma ideia do tamanho do território. Eu lembro dos meus tempos de infância, época em que nosso país era governado por uma junta militar, quando se falava muito da Ilha do Bananal – sistematicamente, grandes reportagens mostravam a beleza selvagem do lugar, com muita água, matas e tribos indígenas. Em tempos mais recentes, tenho a impressão que a Ilha ficou um tanto esquecida dos brasileiros.

Localizada entre os Estado de Tocantins, Mato Grosso e Goiás, a Ilha do Bananal se formou por uma espécie de capricho da natureza, quando o rio Araguaia resolver se dividir em dois cursos distintos, mantendo de um lado o seu curso principal, e um braço do outro lado chamado rio Javaés. Desde 1959, a região é considerada uma reserva ambiental, inclusive com a presença de vários territórios indígenas – a Ilha é há séculos o local de morada dos povos Karajá e Javaé, grupos que se subdividem em vários grupos indígenas.

O conceito geográfico de ilha, imagino eu, é um dos mais facilmente lembrados dos tempos do ensino fundamental: “porção de terra cercada de água por todos os lados”. No caso da Ilha do Bananal, esse conceito está a um passo de deixar de ser verdadeiro – a seca intensa que está assolando uma parte da região Centro-Oeste, reduziu trechos do rio Araguaia a um filete de água, deixando grandes bancos de areia a mostra, e a lâmina de água se apresentando com profundidades inferiores a 20 cm. Trechos que antes só podiam ser atravessadas com barcos ou balsas, agora são atravessados facilmente a pé; dependendo do trecho, até veículos comuns conseguem atravessar as “águas” e chegar até a “ilha”. A falta de águas chegou a um nível tão crítico que os indígenas não estão conseguindo mais pescar, uma das atividades mais tradicionais de sua cultura.

Com o avanço da fronteira agrícola na região do Cerrado Brasileiro, considerado o segundo maior bioma da América do Sul com área superior a 2 milhões de km², teve início um processo contínuo de corte da vegetação nativa e sua substituição por grãos como milho e soja, ou simplesmente a formação de extensas pastagens para acomodar gigantescos rebanhos bovinos. As abundantes fontes de água do Cerrado, que lhe valeu o título de Berço das Águas do Brasil, dependem fundamentalmente das raízes da vegetação nativa para a recarga dos reservatórios e aquíferos subterrâneos. Apesar do aspecto raquítico das árvores e arbustos, que lembram muito a vegetação da Caatinga, a vegetação do Cerrado possui sistemas de raízes gigantescos, que atingem grandes profundidades e que são fundamentais para auxiliar a água das chuva a infiltrar no solo e recarregar as fontes subterrâneas. Com o fim da temporada das chuvas, tem início a estação seca, quando toda esta água acumulada no subsolo irá fluir para alimentar as nascentes de água. Apesar da forte aridez deste período, os rios e nascentes do Cerrado não secavam nos períodos de estiagem, algo muito comum em rios da região do Semiárido nordestino. Eu fiz questão de utilizar o verbo no passado (secavam) porque, atualmente, muitos rios da região passaram a ser intermitentes: apresentam água corrente no período das chuvas e secam completamente no período das secas.

O outrora caudaloso rio Araguaia, um dos mais importantes da região Central do Brasil, há muito vem apresentando sinais de estresse hídrico, chegando muito perto de secar completamente nos momentos mais crônicos das estiagens. E a Ilha do Bananal, que deveria estar literalmente cercada por águas do Araguaia, vem sofrendo intensamente com a seca.

Sem receber chuvas a mais de cinco meses, a Ilha do Bananal tem assistido um processo contínuo de desaparecimento de nascentes e fontes de água no interior do seu território, fenômeno que está causando a morte de inúmeros animais, tanto da fauna silvestre quanto de criações. No último mês de outubro, equipes de fiscalização do IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis e do PREVFOGO – Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais, foram mobilizadas para o resgate de animais que ficaram presos em poças de lama por toda a Ilha, especialmente jacarés, capivaras e bois (vide foto). Com a falta de chuvas, as lagoas foram reduzindo seu tamanho gradativamente até ficarem restritas a pequenas poças de lama – os jacarés, moradores mais conhecidos destes habitats, acabaram presos nestes locais, sob forte risco de morte por desidratação; no caso dos animais domésticos, é a busca desesperada por água que leva os animais a se arriscar nos atoleiros, ficando atolados na grossa camada de lama. Sem auxílio humano, a morte seria inevitável para todos.

Apesar dos enormes esforços das equipes, o resgate destes animais não é tarefa fácil, especialmente se tratando dos jacarés. Acuados, os animais se tornam violentos e demonstram toda a força de um corpo que pode ter mais de 300 kg de peso – é necessária a força combinada de vários profissionais para imobilizar e amarrar os animais, carregá-los até os veículos e transportá-los para soltura em áreas que ainda apresentem bons níveis de água. Como as previsões indicam que as chuvas só devem voltar a cair na região em dezembro, haverá muito trabalho pela frente.

Apesar de ser classificada como reserva ambiental e possuir várias áreas indígenas, razões que fariam pressupor acesso restrito e a preservação ambiental, a Ilha do Bananal é, há muito tempo, usada como local de pastagem para rebanhos bovinos, que podem chegar a um total de 100 mil cabeças a cada ano, levados  pelos fazendeiros da região e que transformam importantes áreas de preservação em “restaurantes particulares”. Apesar dos líderes tribais receberem uma espécie de “aluguel” pelo uso das pastagens, estas verdadeiras invasões criam grandes problemas para os indígenas, que necessitam da terra e das matas para o cultivo de suas roças, para a coleta de frutas e a da caça de pequenos animais. O grau de penúria das comunidades indígenas ficou completo com o avanço da forte estiagem, que reduziu drasticamente a pesca, a maior fonte de proteína animal destas populações. Relatos falam que, há não muito tempo atrás, as águas dos rios Araguaia e Javaés garantiam aos nativos capturas entre 70 e 80 kg de peixe sem maiores esforços. Nos últimos anos, com a intensificação dos efeitos da seca e a redução drástica do nível dos rios, é preciso que se trabalhe dobrado para conseguir apenas a metade dos peixes. Além dos prejuízos para a pesca, a baixa profundidade dos rios tem tornado cada vez mais fácil o acesso de pessoas, veículos e de animais domésticos para o território da Ilha, que sofre intensamente com a forte pressão ambiental – o relativo isolamento da Ilha do Bananal era uma das chaves para a sua preservação; agora, transformada numa espécie de península nas épocas da seca, caminha para se transformar numa espécie de terra de ninguém.

Na próxima postagem, vamos falar um pouco mais dos graves problemas do rio Araguaia.

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