RIO HAN: O TIETÊ COREANO

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A cidade de Seul, na Coreia do Sul, tem algumas similaridades com a cidade de São Paulo: populações de tamanho muito próximo, ambas as cidades sofreram um crescimento explosivo a partir de meados do século XX, são cidades de forte economia e perfil internacional, ambas são atravessadas por um grande rio poluído – no caso da cidade de São Paulo, essa informação continua sendo verdadeira com o Rio Tietê ainda em agonia devido a poluição; o Rio Han, que atravessa a cidade de Seul em um trecho de 41 km, já saiu dessa condição há alguns anos e hoje é um rio limpo, com suas águas utilizadas para o abastecimento, para o lazer e para o transporte.

Nas décadas de 1.960 e de 1.970, a Coreia enfrentou um expressivo crescimento econômico, muito similar ao Milagre Econômico Brasileiro que vivemos nos anos de 1.970. Seul cresceu como nunca e, como é de praxe nestas situações, o Rio Han pagou muito caro: poluição por esgotos domésticos e industriais, margens retificadas para a construção de grandes avenidas marginais: a população, focada num futuro promissor, virou as costas para o Rio. Mas os coreanos de Seul se mostraram diferentes dos brasileiros de São Paulo – em um dado momento perceberam o tamanho da tragédia do Rio Han e deram um basta nas agressões; desse nosso lado do mundo, continuamos a ver a lenta agonia do Rio Tietê e fingimos acreditar que nossos governantes estão tomando providências para reverter esse quadro terminal.

Em 1999, uma das ilhas do Rio Han foi transformada em área de proteção ambiental e teve o acesso de visitantes proibidos – essa foi uma das primeiras iniciativas que levaram ao projeto de despoluição do rio a partir de meados da década de 2.000 e quem tem previsão de estar totalmente concluído no ano de 2.033. Uma das primeiras providências efetivas foi o início do controle da qualidade das águas dos 40 córregos e riachos que atravessam a cidade de Seul e desaguam no Rio Han – a cidade possui seis Estações de Tratamento de Esgotos e era preciso garantir que nenhum lançamento irregular atingisse o Han. Outra providência importante foi a proibição da instalação de qualquer tipo de empresa poluidora ao longo das margens do rio.

Uma segunda frente de trabalho procurou aproximar os moradores da cidade do seu rio – entre parques novos e reformados já são 12 unidades nas margens do rio – um deles, o Seul Forest tem 1 milhão de metros quadrados, tamanho equivalente ao nosso Parque do Ibirapuera. As margens do Rio Han foram dotadas de espaços públicos para corridas, ciclovias, áreas de piquenique além de toda uma gama de esportes náuticos realizados dentro das águas do rio. Passeios de barco e restaurantes flutuantes transformaram as águas do Han num ambiente para passeios das famílias.

Apesar de já se encontrarem num estágio que provoca inveja em nós paulistanos, os coreanos pensam grande: querem elevar as áreas naturais que hoje ocupam 14% das margens do Rio Han para impressionantes 90%. Como? Construindo túneis  que possam substituir as atuais vias marginais, liberando assim os espaços hoje ocupados pelas pistas para a implantação de áreas cobertas por vegetação, facilitando ainda mais o acesso e a aproximação dos moradores de Seul de seu rio. Se nós de São Paulo ou de qualquer outra cidade brasileira conseguíssemos fazer algo semelhante, levando as populações para perto das várzeas dos seus rios, com certeza a pressão sobre os nossos dirigentes políticos aumentaria imensamente e, com certeza, as coisas começariam a acontecer.

Na véspera do primeiro aniversário da catástrofe ambiental do Rio Doce, é reconfortante saber que um grande rio pode renascer da lama – mesmo que seja um rio do outro lado do mundo.

O RENASCIMENTO DO CHEONGGYECHEON

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Nos meus últimos dois posts mostrei dois exemplos de córregos paulistanos canalizados que passaram por um processo de redescoberta pela população: o Córrego Pirarungáua, no Jardim Botânico de São Paulo, e o Córrego das Corujas, na Vila Madalena. Para não parecer bairrista, vamos falar hoje de um dos maiores feitos até o momento em termos de recuperação de um curso d’água canalizado e esquecido: o Rio Cheonggyecheon em Seul, na Coreia do Sul.

O Rio Cheonggyecheon é um canal artificial que foi construído durante a Dinastia Joseon (1392-1410) com a função de drenar as águas pluviais e controlar as enchentes da antiga cidade de Seul. A tradução literal do nome do coreano para o português significa “rio das águas límpidas. Conta-se que na fundação da cidade, os antigos governantes se valeram de princípios do feng chui e construíram as ruas e edifícios alinhados entre montanhas e cursos d’água. Na tradição oriental, o feng chui reúne os conhecimentos das forças necessárias para conservar as influências positivas que supostamente estariam presentes em um espaço e redirecionar as negativas de modo a beneficiar seus moradores.

Durante centenas de anos, o Rio manteve suas características originais como um oásis no centro da cidade de Seul. Na década de 1950, durante a guerra que dividiu a Coreia, milhares de refugiados do Norte migraram para Seul – as margens do Rio Cheonggyecheon foram transformadas em imensas favelas (algo muito parecido com o que acontece nas grandes cidades brasileiras). Em pouco tempo, as antigas águas límpidas se transformaram num canal de esgotos a céu aberto.

O rápido crescimento econômico da Coreia na década de 1960, com o natural crescimento da frota de veículos, levou a Prefeitura de Seul a criar o seu plano de novas avenidas e, entre outras mudanças, resolveu pela canalização do Rio Cheonggyecheon, processo que exigiu o remanejamento de milhares de famílias das suas margens. E mais: sobre o leito canalizado foi construído um extenso viaduto, muito parecido com o Elevado Presidente João Goulart (o popular Minhocão) de São Paulo.

O crescimento desordenado, o excesso de carros e a poluição do ar degradaram imensamente a região central de Seul. Em julho de 2003, urbanistas desenvolveram um projeto revitalizar a área e ajudar Seul a se tornar uma cidade moderna e ecologicamente correta como parte de um vasto projeto de revitalização urbana. O plano previa a remoção da via elevada e a reabertura e revitalização do Cheonggyecheon. Num trabalho de 2 anos e custo de US$ 280 milhões, o viaduto foi demolido e o rio foi recuperado e transformado em um impressionante parque urbano linear de 5.8km de extensão, 400 hectares e 80 metros de largura – 30 mil pessoas visitam o parque a cada fim de semana. Para que vocês tenham noção do tamanho da obra, somente a demolição do viaduto gerou 600 mil toneladas de entulho – 75% deve entulho foi reciclado e utilizado na construção do parque. Clique neste link e assista a um vídeo, com narração de Brad Pitt em inglês, contando a história desse rio.

Eliminar uma via elevada desse tamanho na área central da cidade traria grandes problemas para o trânsito de Seul – a Prefeitura fez grandes investimentos em faixas exclusivas para ônibus e fez campanhas para estimular o uso de transportes coletivos; contrariando as expectativas de muitos, a população passou a usar ônibus e metrô – muitos coreanos redescobriram o prazer de caminhar pelo centro da cidade. Os comerciantes reclamam de queda nas vendas pela falta dos carros mas a maioria esmagadora da população gostou da mudança e do renascimento do Rio.

Talvez você possa ter achado que o custo de US$ 280 milhões para demolir um gigantesco viaduto, recuperar um rio e criar um Parque Linear de quase 6 km no coração de uma das maiores cidades do mundo é muito alto – lembro que a simples retificação do Córrego das Águas Espraiadas e a construção de uma avenida de fundo de vale de 5 km em São Paulo custou o dobro disso.

Pensar grande, com honestidade e seriedade – é isso que falta aqui em nossas paragens.

PARQUE LINEAR DAS CORUJAS

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A Vila Madalena é um dos bairros mais descolados da cidade de São Paulo. O bairro se transformou num conhecido reduto boêmio no início da década de 1970, quando estudantes da USP – Universidade de São Paulo e da PUC – Pontifícia Universidade Católica começaram a se instalar na região em busca de alugueis baratos; os antigos casarões rapidamente passaram a hospedar repúblicas estudantis. Onde há estudantes há bares – na Vila Madalena eles são dezenas e atraem frequentadores de todos os cantos.

Andando pelas simpáticas ruas do bairro, você encontrará nomes como Rua Harmonia, Paulistânia, Simpatia, Girassol, todos nomes sugeridos pelos estudantes e acolhidos pela Prefeitura. Também vai se surpreender com a quantidade de ateliês de artistas e de artesãos, que dão um colorido todo especial às vitrines; também vai encontrar escolas de música, de dança e de teatro. Complementando o clima de boemia, o bairro é sede da Escola de Samba Pérola Negra.

É nesse bairro diferenciado da cidade onde vem acontecendo há alguns anos um movimento pela valorização de um pequeno córrego espremido entre as construções – o Córrego da Coruja.

Com nascente na região do espigão da Avenida Paulista, o Córrego da Coruja atravessava todo o Bairro da Vila Madalena, seguindo para o bairro de Pinheiros até desaguar no Rio Pinheiros, num percurso total de 2.300 metros. Região de grande valor imobiliário desde a época das mansões dos barões do café, não tardou que a especulação imobiliária se apoderasse das margens do Córrego no alto da Paulista, onde foi canalizado para ceder lugar a construção de edifícios. Na parte baixa do Córrego, foi a expansão do bairro de Pinheiros quem levou ao desaparecimento das águas sob o concreto e o asfalto.

Na região da Vila Madalena, o Córrego das Corujas teve um pequeno trecho de 420 metros poupado da canalização, ocupando um trecho de uma praça, além de uma pequena faixa de terra espremida entre construções – é justamente essa pequena faixa de terra que foi “tomada” pela população e transformada no Parque Linear das Corujas.

Em 2001, foi iniciado um movimento dos moradores em prol de melhorias no terreno, que era uma área pública abandonada e estava tomada por um imenso matagal. O terreno foi limpo, ganhou gramado, árvores, bancos, grades, aparelhos de ginástica, uma ponte – os moradores também instalaram portões nas extremidades, controlando a passagem de veículos entre as Ruas Natingui e Beatriz: esses portões passaram a ser fechados a noite e vigiados por seguranças. A ideia do Parque Linear foi ganhando força.

De lá para cá o movimento foi aumentando e contando com um apoio cada vez maior da comunidade. Arquitetos e paisagistas, moradores do bairro, desenvolveram projetos para urbanização das margens do córrego; empresas doaram recursos para a realização de intervenções; moradores passaram a ocupar as “praias” do Córrego das Corujas com esteiras e famílias passaram a instalar mesas nos finais de semana para almoçar ao ar livre.

As discussões e iniciativas da comunidade continuam buscando uma valorização cada vez maior do espaço como a instalação de um deck para caminhadas, plantação de árvores frutíferas e também brinquedos paras as crianças. A qualidade da água também é uma grande preocupação pois há vestígios do lançamentos de esgotos in natura nas águas do Córrego – os moradores cobram providências junto a companhia de saneamento pois todas as ruas do bairro possuem redes coletores de esgotos e não há justificativa para ligações irregulares de esgotos nas águas do córrego. Também há movimentos da comunidade pela reabertura de novos trechos do Córrego das Corujas, canalizados sob áreas de estacionamento de alguns edifícios nas vizinhanças – essa possibilidade gera tensões entre a comunidade e os condomínios. Com o tempo, as partes chegarão a um acordo em todos sairão ganhando.

O Parque Linear das Corujas é um exemplo do que uma comunidade unida pode fazer em prol dos recursos hídricos de sua cidade, com reflexos na qualidade de vida de todos e sem depender da boa vontade dos governantes. Este é um exemplo que pode ser seguido por muita gente.

CÓRREGO PIRARUNGÁUA: O RENASCIMENTO DE UM CURSO D’ÁGUA

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Os problemas na drenagem de águas pluviais nas cidades são uma realidade e neste início da estação das chuvas em grande parte do país, quando as enchentes, alagamentos e desmoronamentos com as habituais vítimas ocupam os noticiários, é impossível não deixar de encontrar temas a serem apresentados. Também a corrupção escancarada na execução de obras e serviços de engenharia é matéria diária nos meios de comunicação graças às inúmeras operações da Polícia Federal – muito difícil de não se indignar. Mas, vamos dar uma pausa nisso tudo e tentar achar as coisas boas que estão acontecendo.

O Jardim Botânico de São Paulo é uma das mais importantes áreas verdes da cidade de São Paulo com 360 mil metros quadrados vegetação típica da Mata Atlântica, onde o visitante pode conhecer 280 diferentes espécies de árvores, além de observar animais típicos dessa floresta como bichos preguiças, saguis, bugios, tucanos-do-bico-verde, entre outros. Foi criado em 1928 graças a um convite feito ao famoso naturalista Frederico Carlos Hoehne, quando o Governo local pretendia implantar e desenvolver um projeto de botânica na região da Água Funda. Aceito o convite, o professor Hoehne criou inicialmente o Orquidário de São Paulo, considerado o embrião do Jardim Botânico. Em 1938, após a criação do Departamento de Botânica de São Paulo , o espaço foi oficialmente inaugurado como Jardim Botânico.

Como manda a nossa tradição colonial, o Jardim Botânico de São Paulo teve sua estrutura baseada no Jardim Botânico de Upsala na Suécia – foram construídas estufas, lagos, escadarias e espaços de exposições interligados por alamedas calçadas ao estilo do Jardim sueco. Para viabilizar a construção de uma dessas alamedas, um trecho de uma nascente de córrego foi canalizada na década de 1940 – essa nascente foi simplesmente esquecida pela administração e era desconhecida da população.

Em 2007, parte da galeria construída sobre o córrego desmoronou e, depois de 70 anos, as águas límpidas do Córrego do Pirarungáua se mostraram à luz do sol. A administração do Jardim Botânico avaliou a situação e entendeu que, ao invés de reconstruir a galeria e voltar a manter o curso d’água escondido novamente, seria muito melhor remover completamente esse trecho do calçadão da alameda e deixar o Pirarungáua “vir a tona” outra vez. Ao longo de um ano de trabalho, a galeria de tijolos foi completamente demolida e as margens foram recuperadas com a plantação de vegetação – várias espécies de árvores em risco de extinção que foram retiradas do trecho sul das obras do Rodoanel (o Rodoanel é um conjunto de rodovias que circunda toda a Região Metropolitana de São Paulo) foram replantadas nessas margens.

Para facilitar o acesso dos visitantes, inclusive dos portadores de problemas de mobilidade, foi implantado um extenso deck de madeira reflorestada, inclusive com alguns trechos suspensos. Apesar de representar um trecho de apenas 250 metros de curso d’água recuperado, a notícia do renascimento do Córrego de Pirarungáua provocou um aumento no número de visitantes ao Jardim Botânico de São Paulo, o que demonstra que a população apoia e gosta deste tipo de iniciativa. O custo total dessa “revolução”: R$ 2,3 milhões em valores atualizados.

O processo de regeneração do Córrego do Pirarungáua também ajudou a aumentar o número de espécies nativas e ameaçadas de extinção plantadas no Jardim Botânico; também foi fundamental no processo de recuperação das nascentes do famoso Riacho do Ipiranga, do qual o Córrego é um dos tributários – diversas nascentes formadoras do Ipiranga estão localizadas dentro do Jardim Botânico.

O exemplo da recuperação do Córrego Pirarungáua também inspirou a formação de diversos grupos de cidadãos que, preocupados com os problemas das enchentes e gestão dos recursos hídricos da cidade de São Paulo, passaram a pressionar as autoridades municipais pela recuperação de cursos d’água e criação de parques lineares como o Parque das Corujas, na Vila Madalena, zona oeste da cidade.

Falaremos sobre esse Parque no nosso próximo post.

A TEORIA DOS “FUNDO$” DE VALE

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O Plano de Avenidas do Engenheiro Francisco Prestes Maia, publicado em 1930, propôs a criação de uma rede de avenidas e vias radiais e perimetrais que orientariam e estruturariam o crescimento urbano da cidade de São Paulo. Uma das premissas desse Plano era a utilização das áreas de fundo de vale e das baixadas, formada por áreas alagadiças e de baixo valor imobiliário. A concepção e a construção destas vias (e de dezenas de outras) seguiu a Teoria de Fundo de Vale, encomendada em 1927 pelo então prefeito José Pires do Rio a um grupo de urbanistas, cuja equipe de formuladores contou com a participação do Engenheiro Prestes Maia. Nomeado prefeito em 1938, Prestes Maia executou grande parte do seu plano de Vias e Avenidas e, até o final de sua administração em 1945, foram canalizados 4.000 km lineares de córregos, riachos e ribeirões por toda a cidade.

Esse é o resumo do resumo da história de grandes avenidas que você vai encontrar hoje aqui na cidade de São Paulo, construídas ao longo de todo século XX. Porém, entre uma área de várzea e a inauguração de uma grande avenida de fundo de vale, muita água e “fundos” vão rolar. Deixe-me explicar meu ponto de vista.

Se seguirmos à risca a Lei n° 8.666, de 21 de junho de 1993, que instituiu as normas para licitações e contratos da Administração Pública, encontraremos que o objeto da licitação, no nosso caso seria a construção de uma avenida de fundo de vale, deve possuir um projeto definido, mostrando exatamente o que deverá ser feito e os custos estimados para a execução das obras, desapropriações de imóveis, obras de arte (pontes, pontilhões etc) entre outros serviços. De posse destas informações, o ente público (Prefeitura, Governo Estadual, Governo Federal, empresas públicas ou autarquias) elabora um Edital e se inicia um processo público para a contratação das empresas que vão realizar as obras – a empresa que oferecer a melhor proposta técnica e financeira ganha a licitação e vai realizar as obras. Como a maioria de vocês deve estar acompanhando nos noticiários, todo esse processo possui inúmeras brechas e descaminhos, que permitem todo o tipo de esquemas de corrupção. 

No nosso caso, o edital para a construção de uma avenida de fundo de vale, serão necessários vários estudos de geotecnia de solos para determinar o tipo de pavimento que deverá ser construído e a estabilização de encostas de morros e margens; a quantidades e os tipos de obras de arte, determinar a quantidade de famílias que precisarão ser desapropriadas, o volume de águas que vai correr no canal, as compensações ambientais que deverão ser realizadas etc. De posse de todas essas informações é possível estipular um orçamento com os custos globais da obra – serão esses custos que serão incluídos no orçamento do ente público e os valores ficarão reservados para custear a execução das obras.

No mundo real, as coisas não costumam seguir esse roteiro: muitos editais são publicados com base em pré-projetos bastante incompletos: a empresa que vence a licitação vai verificar que “muita coisa deixou de ser incluída no texto do edital” – isso abre espaço para os famosos Aditivos Contratuais, que nada mais são do que serviços e obras que precisam ser incluídos no orçamento para a realização das obras. O custo previsto inicialmente no edital começa a aumentar e, algumas vezes, o custo final é varias vezes maior do que a previsão inicial.

Um exemplo: no meu último post falamos das obras de canalização e pavimentação do Córregos das Águas Espraiadas, onde foi necessária a remoção de 40 mil famílias; se durante os estudos iniciais houve um “erro” de 5% no número de famílias a serem desapropriadas, teremos de fazer um aditivo para cobrir os custos de mais 2 mil famílias – se cada uma dessas “famílias” tiver direito a uma indenização de R$ 10 mil, teremos só nesse item um sobre preço de R$ 20 milhões. Reportagem publicada no jornal O Estado de São Paulo na última semana, só para citar um exemplo dos desvios que ocorrem nessas obras, indicou o pagamento de 1.764 indenizações fantasmas e um prejuízo de R$ 6,2 milhões aos cofres do Estado de São Paulo na execução das obras de extensão da Avenida Jacu-Pêssego. Cadastros fictícios de moradores foram criados para justificar os pagamentos das indenizações fantasmas.

O resultado de tudo isso são obras mal feitas, córregos e riachos que transbordarão em dias de chuvas fortes, grandes engarrafamentos, famílias pobres simplesmente remanejadas para bairros distantes e miseráveis e muitos “fundos” desviados do orçamento das obras.

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CANALIZAÇÃO DO CÓRREGO DAS ÁGUAS ESPRAIADAS: UM ESTUDO DE CASO

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O Córrego das Águas Espraiadas é um velho conhecido dos moradores do meu bairro. Desde meados do século XVI, quando a pequena Vila de Santo Amaro foi fundada pelos padres Jesuítas, os caminhos de acesso à região tinham de, obrigatoriamente, cruzar o Águas Espraiadas. Como um exemplo da ligação do bairro com o curso d’água, observe a foto que ilustra esse post, tirada em 1966, que mostra o estrago causado nas fundações do pontilhão da antiga linha de bondes (atual Avenida Vereador José Diniz) por uma das incontáveis enchentes do Córrego das Águas Espraiadas.

No intenso processo de conurbação que ao longo do século XX uniu a mancha urbana da cidade de São Paulo à de Santo Amaro (O bairro foi incorporado à cidade de São Paulo em 1933), a várzea do Córrego das Águas Espraiadas seguiu intacta por algum tempo, mas acabou sucumbindo à ocupação por populações pobres – na década de 1980, cerca de 68 núcleos de favelas ocupavam uma faixa linear desde as proximidades da Marginal Pinheiros até as vizinhanças do Aeroporto de Congonhas, com uma população estimada em 80 mil pessoas. A ocupação descontrolada da várzea pela “gigantesca” favela provocava inundações cada vez mais fortes, que provocavam desmoronamentos e transtornos cada vez maiores aos moradores da favela – tanto a favela quanto o córrego incomodavam a vizinhança de classe média dos bairros do Brooklyn Paulista e do Campo Belo.

Depois de algumas tentativas frustradas por outras administrações, os Prefeitos Paulo Maluf (1993-1996) e seu sucessor Celso Pitta (1997-2000), levaram a cabo as obras de retificação do córrego e pavimentação de uma avenida de aproximadamente 5 km, ligando a Marginal Pinheiros até a região do Aeroporto de Congonhas. As obras estouraram o cronograma inicial devido as dificuldades de desapropriação e transferência dos antigos moradores (a maioria foi levada junto com os pertences de caminhão para um grande terreno na Zona Leste da cidade, onde foi formada a Comunidade Jardim Pantanal). As obras seguiram à risca os manuais de construção de avenidas de fundo de vale confinando o córrego num canal central concretado, cercado por estreitas faixas de terreno com vegetação e pelas pistas asfaltadas. A Avenida, foi batizada inicialmente de Águas Espraiadas, nome que depois foi mudado para Avenida Jornalista Roberto Marinho. Anos depois, a nova Avenida viu surgir em um dos seus extremos o novo cartão postal da cidade de São Paulo: a Ponte Estaiada. Atualmente, a Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) está construindo a Linha Prata do Monotrilho nesta Avenida. A valorização imobiliária das áreas circunvizinhas às antigas favelas foi de quase 1.000% após a inauguração da Avenida.

Até aqui o leitor não viu nada muito diferente de outros textos que escrevi falando da construção das avenidas de fundo de vale na cidade de São Paulo. Mas existe sim uma grande diferença das outras obras: a construção da Avenida custou a bagatela de aproximadamente US$ 600 milhões; considerando-se a extensão de 5 km, o custo por quilômetro linear chega aos impressionantes US$ 120 milhões, o que faz da Avenida a mais cara do mundo, com um custo por quilômetro equivalente ao do Eurotunnel, famoso túnel que liga a França à Inglaterra sob o Canal da Mancha.

O Ministério Público Federal denunciou 11 pessoas por desvio de recursos públicos, peculato, superfaturamento de obra e lavagem de dinheiro. Entre os acusados estão os ex-prefeitos Paulo Maluf e Celso Pitta (morto em 2009), diversos agentes públicos e funcionários de grandes empreiteiras. Entre muitos recursos e apelações ao longo dos últimos anos, corre-se o risco de prescrição das acusações, sem que a cidade de São Paulo consiga recuperar a maior parte do dinheiro desviado. Mas, a esperança sempre é a última que morre.

Vejam que resolver o problema das enchentes com a construção de uma grande avenida de fundo de vale é só uma parte do problema – sempre há outras questões escusas nessas obras. Certeza mesmo é a exclusão social cada vez maior das populações deslocadas das várzeas para os confins mais distantes da cidade…

PARQUE LINEAR TIQUATIRA: UM BOM COMEÇO

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A Zona Leste de São Paulo é a região mais populosa da cidade e é, ao mesmo tempo, a que possui a menor área verde per capita. Percorrendo as ruas e avenidas de alguns bairros deste “lado” da cidade, encontraremos uma paisagem com as tintas avermelhadas de um deserto, resultado de toda uma imensidão sem fim de casas semiacabadas com tijolos à mostra. Caso esse percurso inclua a Avenida Governador Carvalho Pinto no bairro da Penha, você irá se surpreender com uma ilha verde de 320 mil metros quadrados que surge repentinamente no canteiro central da via – é o Parque Linear Tiquatira.

A história da Avenida vai soar bastante familiar a você que leu meus últimos posts: seguindo a antiga lógica de ocupação das áreas de fundo de várzea do Córrego Tiquatira, a Prefeitura executou em 1988 obras de retificação do copo d’água, onde o leito natural foi substituído por um canal linear concretado; a várzea passou por um trabalho de “despobrezação” (ou seja, moradores em situação miserável transferidos para áreas mais miseráveis ainda), terraplenagem e pavimentação, surgindo aquela que hoje é conhecida como Avenida Governador Carvalho Pinto – a mesma história de dezenas e mais dezenas de grandes vias da Região Metropolitana de São Paulo. Por conta e obra da geografia da várzea local, foi deixada uma grande faixa de terra entre as pistas e o canal do córrego, inicialmente transformada em um gramado.

Em 2003, um empresário local chamado Hélio Silva caminhava pela avenida e se deparou com a imensa área descampada – imediatamente teve a ideia de plantar algumas mudas de árvores. Utilizando recursos próprios, o Sr. Hélio plantou inicialmente 500 mudas de espécies nativas da Mata Atlântica – 80% destas mudas ou foram arrancadas ou acabaram sendo destruídas pelas crianças e moradores do entorno. Persistente, o Sr. Hélio plantou mais 5.000 mudas de 170 espécies diferentes e, pouco a pouco mostrou a importância do seu trabalho para a comunidade, que se transformou numa grande aliada da sua causa.

Com o crescimento das mudas, especialmente das árvores frutíferas, os pássaros começaram a frequentar a pequena mata: cambacicas, sabiás, tico-ticos, beija-flores, sanhaços, corruíras, gaviões, papagaios e muitos outros. O arvoredo formado por espécies como pau-brasil, jatobás, embaúbas, jequitibás, ingás, canelas, goiabeiras, amoreiras, pitangueiras e tantas outras mudou, literalmente, o clima do lugar. Políticos oportunistas, percebendo o potencial do empreendimento alheio, se apressaram em votar uma lei em 2007 transformando o espaço no primeiro parque linear da cidade de São Paulo, batizado com o pomposo nome de Parque Linear Tiquatira Eng. Werner Eugênio Zulauf. Ao longo dos anos o parque recebeu equipamentos como quadras poli esportivas, pista de Cooper, campos de futebol, pista de caminhadas, de ciclismo e de skate, áreas de convivências e ainda um anfiteatro; aos domingos e feriados, a Prefeitura instala uma ciclo faixa de lazer com 14 km de extensão – o esforço inicial de um único morador mudou definitivamente a história da região.

Até o último mês de julho, o Sr. Hélio contabilizava 17.686 mudas plantadas no Parque. Contando com idade de 67 anos, ele afirma que ainda pretende plantar de 40 a 50 mil mudas. Em seu esforço pessoal, o empresário segue plantando suas mudas e gasta mensalmente entre R$1.000,00 e R$ 3.000,00 em recursos próprios na compra de mudas, adubos e insumos – vejam que exemplo.

Todos os anos, o Córrego Tiquatira ocupa espaço nas manchetes dos meios de comunicação com notícias de transbordamentos em dias de chuvas fortes, o que causa inúmeros transtornos para moradores e motoristas – a culpa recai sobre o tradicional modelo de retificação forçada do córrego e ao seu confinamento em um canal impermeável, reto e com poucos pontos de infiltração de água – a área vegetada do Parque Linear, ao menos, consegue fazer sua parte e ajuda a conter uma parte do excesso de águas pluviais. Se o projeto tivesse sido pensado desde o começo para ser um parque linear verdadeiro, esses transtornos seriam, com certeza, bem menores.

Sr. Hélio Silva – Valeu o grande esforço e o exemplo!

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ALTERNATIVAS A CANALIZAÇÃO DE CURSOS D’ÁGUA, OU QUESTIONANDO A TEORIA DE FUNDO DE VALE

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Prosseguindo com o texto de meu último post, a canalização desenfreada de corpos d’água na cidade de São Paulo, e em muitas outras Brasil afora, sempre teve como objetivos a liberação de áreas de várzea e de baixadas para a especulação imobiliária e também para a construção de vias urbanas para o tráfego de veículos, especialmente os automóveis particulares.

Alguns exemplos de famosas avenidas de São Paulo construídas a partir da canalização/retificação de rios, córregos e riachos: Avenida Pacaembu (Ribeirão Pacaembu), Avenida 9 de Julho (Rio Anhangabaú), Avenida Roberto Marinho (Córrego das Águas Espraiadas), Avenida Anhaia Melo (Córrego da Mooca), Avenida Juscelino Kubitschek (Córrego do Sapateiro), Avenida Aricanduva (Córrego Aricanduva), Avenida Jacu-Pêssego, onde eu trabalhei em um dos trechos (Córrego Jacu), Avenida Sumaré (Córrego do Sumaré), Avenida dos Bandeirantes (Córrego da Traição), Avenida Luís Dumont Vilares (Córrego do Carandiru), Avenida 23 de Maio (Córrego do Itororó), Avenida do Estado (Rio Tamanduateí), Avenida Eng. Caetano Álvares (Córrego do Mandaqui), Avenida Ricardo Jafet (Córrego do Ipiranga) e vou citar também o Córrego Anhanguera, do qual muitos nunca ouviram falar e onde foram construídos trechos de importantes ruas e avenidas da cidade: Rua da Consolação, Avenida Higienópolis, Rua General Jardim, Largo do Arouche entre outros. A concepção e a construção destas vias (e de dezenas de outras) seguiu a Teoria de Fundo de Vale, encomendada em 1927 pelo então prefeito José Pires do Rio a um grupo de urbanistas e mais tarde usada no projeto das grandes vias da cidade de São Paulo.

Na visão da época, as áreas de fundo de vale da cidade eram mal aproveitadas e, de alguma forma, apresentavam riscos para a saúde da população, especialmente como criadouros de mosquitos, pontos de acúmulo de lixo e dejetos, esgotos e, grifo meu, de gente pobre (não é de hoje que essas áreas são ocupadas por favelas ou “habitações subnormais”). Na cidade de Londrina, no Paraná, havia uma percepção semelhante e essas áreas foram transformadas em parques e áreas de lazer; em São Paulo optou-se pela canalização ou retificação dos corpos d’água e a construção de avenidas – os “obstáculos” foram transferidos para outras regiões distantes da cidade.

Em dias de fortes chuvas, não por uma mera coincidência, muitas dessas avenidas e ruas aparecerão nas televisões em notícias sobre engarrafamentos e pontos de alagamentos. “Cedo ou tarde, o rio se vinga” nas palavras de Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba, engenheiro civil e arquiteto paisagista, que provavelmente lembrava o texto do escritor mato grossense Manoel de Barros:

“Assim, quando vêm as chuvas, todo ano o rio se vinga, transbordando da calha ou do duto que o aprisiona, feito o rio desbocado, mal comportado. Cheio de furos pelos lados, torneiral, ele derrama e destramela à toa. Só com uma tromba d’água se engravida. E empacha. Estoura. Carrega barrancos. Cria bocas enormes. Vaza por elas. Cava e recava novos leitos. E destampa adoidado.”

A lei n° 10.257, de 10 de julho de 2001, mais conhecida como Estatuto da Cidade, lançou uma nova luz sobre as chamadas áreas de fundo de vale, incorporando uma perspectiva ambiental para as sustentabilidade das cidades e passando a considerar essas desprezadas regiões como Áreas de Preservação Ambiental. Com essa mudança, a solução de canalizar desenfreadamente córregos e riachos deixa de ser a regra e passa a ser vista como a exceção da exceção. O conceito de Canais Verdes, onde há toda uma preocupação de preservar as margens dos corpos d’água com o plantio de vegetação, os Parques Lineares, que transformam as várzeas em áreas de lazer para a população, e os espelhos d’água, onde é criada uma fina lâmina d’água com espaço para acumular temporariamente grandes volumes de águas das chuvas, abriram toda uma gama de novas soluções para o manejo das águas pluviais.

Continuaremos nesse assunto no próximo post.

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AINDA FALANDO DA CANALIZAÇÃO DE RIOS E CÓRREGOS

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A Rua 25 de Março é o maior centro popular de compras da cidade de São Paulo e, possivelmente, do Brasil. Diariamente, meio milhão de pessoas vindas de todos os lugares do Brasil, de países vizinhos da América do Sul e até da África, se acotovelam nas calçadas da Rua, buscando todo o tipo de pechincha. Nas vésperas de feriados como o Dia das Mães, Dias das Crianças e Natal, o número de visitantes chega a dobrar. É um verdadeiro formigueiro humano. É difícil de imaginar que há pouco mais de 100 cem anos, o local onde encontramos a Rua 25 de Março era um trecho do sinuoso Rio Tamanduateí – havia um grande porto fluvial no local, onde as mercadorias chegavam em barcas para serem vendidas ali perto no conhecido Mercado Caipira: a Ladeira Porto Geral, travessa da Rua 25 de Março é uma lembrança do acesso ao antigo porto fluvial (sinta um pouco do clima bucólico da Ladeira Porto Geral nesta pintura de 1893 que ilustra o post).

Assim como centenas e mais centenas de córregos e riachos que desapareceram canalizados, cedendo seu espaço para a abertura de ruas e avenidas por toda a cidade e ”criando” terrenos secos para a especulação imobiliária, os grandes rios da cidade – destaque para o Tietê, o Tamanduateí e o Pinheiros, cederam suas várzeas para que a cidade tivesse espaço para sua expansão; os antigos leitos sinuosos destes rios foram retificados, liberando centenas de quilômetros quadrados de terrenos para urbanização. O fascinante documentário Entre Rios lhe dará uma ótima visão de como esse processo se consolidou.

De acordo com informações do Professor Alexandre Deliajaicov, arquiteto e urbanista da FAU – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, somente na gestão do Prefeito Prestes Maia (1938-1945), foram canalizados 4.000 km lineares de córregos, riachos e ribeirões por toda a cidade, criando espaços para a implantação do seu famoso plano viário. Entre as justificativas, usadas desde o final do século XIX, citavam questões sanitárias, controle das enchentes e problemas ligados ao lixo e resíduos que a população despejava nos corpos d’água. Também se procurava esconder as águas já contaminadas pelos esgotos da cidade, que eram despejados descaradamente nos rios, riachos e córregos desde muito tempo atrás.

Felizmente, essa “concepção” urbanística e sanitarista está em grande parte ultrapassada e, apesar de muitas prefeituras insistirem na prática, muita gente séria fala em outras soluções para os cursos d’água como o uso de canais verdes (tratarei disto no próximo post) e também da “descanalização” – a cidade de Seul, na Coréia do Sul, tem reaberto e recuperado muitos cursos d’água que passaram décadas encobertos por asfalto e concreto.

Canalizar cursos d’água cria uma série de problemas para o meio ambiente. Listo alguns:

Um curso d’água é um ecossistema complexo, onde além da água existem margens com mata ciliar, plantas aquáticas, peixes, anfíbios, insetos, pássaros, mamíferos, répteis, bactérias, fungos entre outros seres vivos: a canalização simplesmente inviabiliza o ecossistema;

Esse ecossistema interage com a sua vizinhança, provocando mudanças no micro clima com alteração na temperatura e umidade;

Os cursos sinuosos e cheios de obstáculos reduzem a velocidade das águas das chuvas, ajudando a reter nutrientes do solo e também controlando o volume e a velocidade das águas que chegam aos rios principais; a canalização de cursos d’água insere as paredes lisas das tubulações no sistema – sem resistência, a velocidade do fluxo líquido aumenta consideravelmente, criando problemas para as comunidades biológicas dos rios receptores;

As margens com vegetação possibilitam que parte da água dos períodos de cheia infiltre no solo, recarregando o lençol freático e reduzindo o volume na calha;

As áreas verdes ao largo dos cursos d’água proporciona espaços públicos para o lazer e a contemplação da população, contribuindo para uma melhora na qualidade de vida.

Esse interessantíssimo assunto vai render muitos outros posts. Até mais!

CANALIZAÇÃO DE CÓRREGOS E RIOS URBANOS

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Cerca de três meses atrás, conversei longamente com uma arquiteta, proprietária de um renomado escritório de projetos aqui na cidade de São Paulo, que estava enfrentando um problema surreal: sua empresa projetou e fez todo o gerenciamento da construção de um edifício comercial na região de Pinheiros, zona oeste de São Paulo – todos os trâmites burocráticos para a autorização da construção foram solicitados e as autoridades municipais deram o sinal verde para a construção. Após o prédio ter sua construção totalmente concluída, a autorização de funcionamento (conhecido como “Habite-se”) foi negada pela própria Prefeitura da cidade: algum departamento descobriu em algum arquivo interno perdido que o edifício foi construído em um terreno sob o qual existe um córrego canalizado há muitas décadas atrás – a legislação municipal não permite construções sobre córregos canalizados.

O município de São Paulo possui, ao menos, 186 sub-bacias hidrográficas catalogadas pela Prefeitura, o que representa mais de 200 cursos de água – algumas fontes chegam a falar de 300 cursos de água – outras falam em até 2.000 se considerarmos os pequenos afluentes: na verdade, ninguém sabe exatamente quantos são e onde estão esses córregos, riachos e nascentes que existem escondidos no subsolo da cidade. Além dos inúmeros cursos d’água naturais, milhares de tubulações de esgotos foram sendo construídas e aterradas ao longo de várias décadas, para o despejo dos resíduos nestes cursos de água, o que complica um pouco mais a questão. É justamente essa falta de conhecimento do que existe no subsolo que gerou o problema para os construtores do edifício que citei – problema, aliás, de difícil solução.

A cidade de São Paulo até meados do século XIX era um fim de mundo perdido no alto da Serra do Mar – o censo demográfico de 1872 encontrou 30 mil habitantes espalhados em diversos vilarejos do município; foi a expansão da cultura cafeeira e a passagem das ferrovias que vinham do Porto de Santos rumo aos centros produtores no interior do Estado que, “acidentalmente”, colocaram a cidadezinha no mapa – em 1900 a cidade já tinha uma população de 240 mil habitantes. O forte crescimento populacional deste período levou a uma intensa demanda por terrenos para a construção de casas, lojas e galpões – nas últimas décadas do século XIX começou um intenso processo de canalização de córregos e riachos visando “liberar” grandes áreas de várzeas e baixadas para a especulação imobiliária; a importância geográfica dessas áreas no controle das cheias anuais dos períodos de chuvas foi simplesmente desprezada: as enchentes que assistimos no presente é parte do preço desse crescimento irracional. Através deste link, os mais curiosos poderão assistir a um vídeo produzido pela Associação Águas Claras do Rio Pinheiros que mostra um pouco do avanço da cidade sobre as várzeas dos rios de parte da cidade de São Paulo e suas consequências na atualidade.

Grande parte dessas canalizações simplesmente não existem nos mapas oficiais da cidade – se não existem oficialmente, não estão incluídas nos planos de manejo e manutenção; logo, é fácil imaginar o grau de assoreamento e entulhamento em que se encontram. Também é fácil concluir por que algumas regiões da cidade alagam com tanta frequência.

Na última quinta-feira, dia 20 de outubro, choveu muito forte na cidade de São Paulo – na zona oeste da cidade onde fica o bairro de Pinheiros, o índice pluviométrico passou dos 50 mm, o que é muita água para uma única chuva. Foi um caos, com enchentes generalizadas, queda de centenas de árvores, falta de energia elétrica em bairros inteiros e engarrafamentos gigantescos – ao menos uma morte registrada foi provocada por essa chuva. Muitos destes córregos canalizados desconhecidos pelas autoridades da cidade deixaram de cumprir seu papel na drenagem das águas desta chuva, inclusive o córrego que citei no começo deste post.

Além das obras que não foram feitas, a drenagem de águas pluviais em uma cidade grande como São Paulo têm de se preocupar com um sem número de obras mal feitas e esquecidas no subsolo. Haja incompetência.