A ILHA DE LIXO DO OCEANO PACÍFICO

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Algumas semanas atrás, um amigo de escola do meu sobrinho encontrou um conjunto de embalagens com caracteres orientais (chinês ou japonês) num trecho da praia em Peruíbe, cidade do litoral sul do Estado de São Paulo. Em discussão com os amigos de escola, o garoto levantou a possibilidade dessas embalagens terem flutuado desde a Ásia até a praia em São Paulo – questionado por meu sobrinho, afirmei que até poderia ser possível que estes resíduos tivessem feito uma travessia tão longa, porém, o mais provável, era se tratar de lixo despejado no mar por algum navio cargueiro; só para lembrar, a cidade de Peruíbe fica na metade do caminho entre os movimentados portos de Santos, em São Paulo, e Paranaguá, no Estado do Paraná.

Como comentei em meu último post, a quantidade de lixo flutuante cresceu imensamente nas últimas décadas. Especialistas estimam que até 10% das 100 milhões de toneladas de plásticos produzidas anualmente em nosso planeta acabem chegando aos oceanos, jogadas diretamente nas águas por cidades costeiras ou por despejo de navios, como na minha suposição, ou arrastadas do interior dos continentes através dos sucessivos rios das bacias hidrográficas.

Uma constatação dessa terrível realidade se deu através da descoberta de uma imensa “ilha” de lixo flutuante no Oceano Pacífico em 1997, pelo oceanógrafo americano Charles Moore. Essa ilha flutuante está localizada a meio caminho entre as ilhas do Havaí e as costas do estado americano da Califórnia, numa região onde as diversas correntes oceânicas se encontram e formam uma espécie de redemoinho, que atrai e concentra os resíduos na região. O oceanógrafo calculou que a ilha se estende por cerca de 1.000 quilômetros, sendo formada por aproximadamente 4 milhões de toneladas de todo o tipo de resíduos plásticos – redes de pesca, garrafas PET, embalagens, sacolas plásticas e fragmentos diversos, formando uma camada espessa de resíduos com profundidade de até 10 metros. A área total calculada dessa “ilha” de plásticos é equivalente a soma das áreas dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás  – mais de 1,2 milhão de km².

Estudos do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, indicam que existem atualmente 18 mil fragmentos visíveis de plásticos flutuando em cada quilômetro de mar – é indeterminada a quantidade de resíduos  que está submersa nos oceanos. As sacolas plásticas, como as de supermercados tão presentes em nosso dia a dia, representam até 27% desse lixo flutuante dos oceanos, segundo algumas medições já feitas.

Os animais marinhos, ao longo de um processo evolutivo de milhões de anos, aprenderam a comer todo o tipo de criatura que encontram flutuando nas águas do mar, indo desde o microscópico plâncton, passando aos peixes, águas vivas até chegar às tartarugas marinhas, que frequentemente são atacadas por tubarões – nessa imensa teia alimentar marinha também se incluem as inúmeras espécies de mamíferos e as aves marinhas encontradas em todos os oceanos, inclusive nas águas polares. Essas criaturas não conseguem diferenciar os resíduos flutuantes de plásticos das suas presas – os resíduos engolidos não são digeríveis, podendo levar o predador à morte. Muitas vezes, esses animais marinhos se enroscam em restos de redes de pesca ou peças plásticas, ficando indefesos contra os predadores ou expostos ao afogamento (lembrando que os répteis, aves e mamíferos marinhos respiram ar como nós humanos). Várias espécies marinhas estão ameaçadas de extinção por causa deste problema – as simpáticas tartarugas marinhas encabeçam essa lista, ora por comerem sacos plásticos flutuantes ora se enroscando nas gigantescas redes de pesca.

A gestão dos resíduos sólidos, tema dessa sequência de posts, que trata aparentemente de um problema urbano das grandes cidades do mundo, ganha contornos dramáticos quando constatamos o impacto cada vez maior desses resíduos plásticos nos oceanos, ameaçando a sobrevivência de todo o tipo de criaturas do mar.

A irresponsabilidade humana não tem mesmo limites, seja em terra seja no mar…

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UMA NOVA ILHA DE LIXO – AGORA É NO MAR DO CARIBE

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A EXPLOSÃO DO VOLUME DOS RESÍDUOS PLÁSTICOS NO MUNDO

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Em 1984, quando eu trabalhava como técnico em eletrônica numa empresa fabricante de equipamentos de radiocomunicação, conheci um aventureiro “maluco” que apareceu na fábrica com um barco de madeira construído por ele mesmo, com o qual pretendia atravessar o Oceano Atlântico a remo. O nome daquele aventureiro era Amyr Klink e meses após esse encontro (a empresa instalou os equipamentos de radiocomunicação no barco, o Paratii), ele realizou a façanha de atravessar o Atlântico remando ao longo de 100 dias. Durante a longa travessia, Amyr manteve contato frequente via rádio com um colega da empresa – lembro bem de uma dessas conversas, quando ele relatou espantado que tinha encontrado uma ilha flutuante, formada por todo o tipo de resíduos de plásticos. Nos dias atuais, infelizmente, isso não seria mais uma notícia relevante dada a quantidade de resíduos de plástico flutuando nos oceanos, rios e lagos, além dos volumes ainda maiores descartados nas ruas, terrenos baldios e em todo o tipo de aterros sanitários e lixões.

Como comentei em meu último post, o plástico é uma matéria prima muito barata (é um subproduto do refino do petróleo), é facilmente moldável e permite a produção de peças bonitas, com acabamento impecável e extremamente fáceis de montar; as embalagens plásticas são práticas de usar, podem ser fechadas hermeticamente, sem agregar qualquer cheiro característico ou sabor ao produto embalado, especialmente no caso de alimentos. Em resumo – o plástico, em todas as suas formas, é um sucesso de mercado, o que só faz crescer o volume de resíduos plásticos descartados.

Além de ser um dos resíduos sólidos de maior crescimento no mundo, os diversos tipos de plásticos levam dezenas de anos para serem decompostos na natureza. “Bactérias e fungos que decompõem os materiais não tiveram tempo de desenvolver enzimas para degradar a substância”, afirmou a engenheira química Marilda Keico Taciro, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) em entrevista concedida ao site Mundo Estranho. E serão necessários milhares de anos até que os micro-organismos evoluam e passem a se alimentar naturalmente de plástico, consumindo milhões de toneladas de resíduos plásticos descartados na natureza.

Para que todos entendam a gravidade do problema dos resíduos plásticos, vejam a expectativa de tempo de decomposição de alguns tipos de polímeros plásticos:

Polietilenotereflalato (PET) – 200 anos

Polietileno e poliestireno – 50 anos

Polipropileno – 100 anos

Esses polímeros são a matéria prima de produtos e materiais que fazem parte do nosso dia a dia e são encontrados em utensílios domésticos, brinquedos, embalagens, eletroeletrônicos e eletrodomésticos, peças de carros, materiais descartáveis de hospitais, materiais de construção entre outros produtos. Mas há aqui uma distorção importante: enquanto uma tubulação de PVC instalada dentro de uma parede de um imóvel tem uma expectativa de vida maior do que 50 anos e peças de automóveis continuarão em uso por mais de 10 anos, a maioria dos plásticos tem uma expectativa de vida muito menor – no caso de embalagens plásticas, que é um dos resíduos sólidos mais abundantes atualmente no lixo domiciliar, essa expectativa é de apenas algumas horas após a compra de um produto e o destino final é o descarte.

Enquanto aguardamos o surgimento espontâneo ou em laboratório de algum micro-organismo devorador de plásticos ou de alguma nova tecnologia que possibilite a reutilização de resíduos plásticos em altíssima escala e a preços ínfimos, precisamos aprender a utilizar os produtos e utensílios de plástico pelo maior tempo possível e a descartá-los corretamente após a sua utilização..

Para encerrar, uma triste constatação dos problemas criados pelo descarte irregular destes resíduos: sacos plásticos (como as sacolinhas de supermercado) flutuando pelos oceanos são hoje uma das maiores causas de morte das tartarugas marinhas – o animal confunde o plástico com as águas vivas, uma de suas presas favoritas e o que seria um petisco se transforma na causa da sua morte.

Continuamos no próximo post.

O ONIPRESENTE PLÁSTICO

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Nos meus últimos posts falamos de três resíduos tipicamente domésticos, que compõem grande parte do chamado lixo doméstico: o vidro, as caixinhas longa vida e as latinhas de alumínio. Esses resíduos ganharam destaque nas últimas décadas com o crescimento da cultura dos produtos de consumo em nosso país, período em que houve uma explosão das embalagens conhecidas como one way, ou seja, sem retorno. Com as mudanças demográficas houve um grande aumento das populações urbanas, as mulheres deixaram o tradicional posto de prendas do lar e entraram no mercado de trabalho, jovens começaram a sair das casas dos pais para morar sozinho – nesse novo ambiente, entraram no cardápio e na vida dos brasileiros comidas prontas e semi prontas, cervejas e refrigerantes em garrafas de vidro e em latas de alumínio, além das mágicas caixinhas longa vida: os resíduos domésticos nunca mais seriam os mesmos…

Porém, nenhum outro resíduo teve um crescimento comparável ao do plástico, o campeão absoluto na constituição das embalagens e dos produtos descartáveis da cultura pós-moderna.

A palavra plástico vem do grego plassein que significa moldável e exprime as características de mudança da forma física dos materiais. Os primeiros experimentos datam da década de 1860, quando o inventor inglês Alexander Parkes iniciou seus estudos com o nitrato de celulosa, um material sólido bastante flexível, resistente a água, de cor opaca e com boa aderência para a pintura com tinta – esse material ganhou o nome de parquesine e é considerada a primeira matéria plástica a ser criada.

Na década de 1870, após sucessivos aperfeiçoamentos, surgiu a celulóide, a primeira versão comercial do plástico, utilizado inicialmente pelos dentistas na fabricação de próteses dentárias e pelos fabricantes de bolas de bilhar, que buscavam uma alternativa ao caro marfim animal. O celulóide ganhou fama mundial com o surgimento do cinema, quando os rolos dos filmes eram fabricados com esse material.

Em 1909 surgiu a baquelite, o primeiro polímero sintético com alto grau de dureza, resistência ao calor e ótimo isolamento elétrico, com larga aplicação na confecção de produtos elétricos e de telefonia, discos, e mais tarde na fabricação das caixas dos rádios, popularizados a partir da década de 1920.

Na década de 1930 surgiu a poliamida, conhecida comercialmente como nylon, usada intensamente durante a II Guerra Mundial (1939-1945) na fabricação de paraquedas, equipamento novo e decisivo em muitas batalhas. O esforço industrial mundial durante esse conflito levou à criação de toda uma gama de polímeros como o drácon, o isopor, o vinil, o polietileno e o poliestireno. Após o término da Guerra em 1945, os diferentes tipos de plásticos passaram a fazer parte do cotidiano do homem moderno, utilizado na fabricação de todos os tipos de produtos, utensílios e embalagens. Foi a partir desse momento que plásticos ganharam os mercados e os aterros sanitários de todo o mundo.

O plástico é um material barato, facilmente moldável e colorido com a adição de corantes, o que possibilita a criação de peças bonitas, leves, ergonômicas e com acabamentos perfeitos. Injetoras plásticas conseguem produzir milhares de peças plásticas a partir de um único molde; peças plásticas também podem ser produzidas através de processos de laminação, extrusão, moldagem a vácuo e em diversos outros processos de usinagem. Embalagens plásticas são inodoras, estéreis e permitem um fechamento hermético de alta qualidade. Peças e componentes plásticos são dominantes em produtos eletrônicos, eletrodomésticos e em brinquedos; vem se tornando cada vez mais comuns em automóveis, bicicletas, motocicletas, navios, aviões, móveis, produtos e insumos hospitalares; na construção civil ocupa cada vez mais espaços como isolante de fios elétricos e de telefonia, em tubos e conexões para eletricidade, água e esgotos, janelas, caixas de força entre outros produtos e componentes. O mundo em que nós vivemos é mais “plástico” a cada dia e, como uma consequência natural, esse é o resíduo doméstico dominante.

Existe, porém, uma palavra que raramente é mencionada pelos fabricantes, mas que faz toda a diferença: o plástico comum é, virtualmente, indestrutível, o que cria todo o tipo de problemas com os resíduos a base de polímeros plásticos.

Continuaremos no próximo post.

 

ALUMÍNIO: O CAMPEÃO DA RECICLAGEM

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Você sabia que o alumínio, metal usado para fabricar as populares latinhas de cerveja e refrigerante, já foi o metal mais raro do mundo e que valia mais do que o ouro? Vamos entender isso:

No início da Era Cristã, os médicos romanos utilizavam um raríssimo remédio conhecido como alumen, um composto de alumínio que chamamos hoje de sulfato de alumínio. Apesar de ser um dos minerais mais abundantes no Planeta Terra, o alumínio sempre é encontrado associado a outros metais e a sua separação era extremamente difícil e cara – essa é a razão da extrema raridade do metal em tempos remotos e, consequentemente, a causa do seu alto valor comercial.

Os alquimistas tentaram, durante séculos, desenvolver metodologias para a obtenção de metais raros – a mais famosa delas era a tentativa de transformar chumbo em ouro: não tiveram sucesso nesta e também não conseguiram achar um meio eficiente de separar o alumínio. Foi somente no século XIX que os cientistas conseguiram desenvolver processos eficientes e economicamente viáveis para a produção do alumínio, combinando processos de fundição com a eletrólise, que é a técnica de decomposição de um composto em seus componentes mediante a passagem de uma corrente elétrica.

O principal minério que contém alumínio é a bauxita, descoberta pela primeira vez em uma mina na cidade francesa de Lês Baux. Num processo de refino obtém-se a alumina, um pó branco semelhante ao açúcar. A alumina passa por uma série de processos químicos – moagem, filtragem, calcinação e, finalmente, a eletrólise, processo final onde é necessário o uso de muita eletricidade. O saudoso empresário brasileiro Antônio Ermirio de Moraes (1928-2014) costumava dizer que “alumínio é eletricidade empacotada”. O alumínio também é um dos campeões na geração de rejeitos minerais – para a produção de 1 quilograma do metal são gerados 4 quilogramas de rejeitos minerais.

Peças metálicas construídas com alumínio são leves, flexíveis e muito resistentes – ele se tornou um metal fundamental para a construção dos aviões, carros e outros veículos, na construção civil e também na produção de fios elétricos. Mas foi na década de 1950 que o alumínio ganhou de vez a sua popularidade: começaram a ser produzidas as latinhas de alumínio e o metal ganhou o mundo definitivamente.

No Brasil, a produção das latas de alumínio foi iniciada em 1989, com grande e rápida aceitação pelo mercado – atualmente são produzidas mais de 20 bilhões de latinhas a cada ano. O fenômeno do sucesso das latinhas também se refletiu rapidamente no mercado da reciclagem do alumínio – há mais de 10 anos que o Brasil mantém o índice de 98% de reciclagem das latas colocadas no mercado, o que dá ao nosso país o primeiro lugar na reciclagem deste metal no mundo. De acordo com dados da ABRALATAS – Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade, em 2015 foram recicladas 292,5 mil toneladas de alumínio de latinhas em todo o Brasil. A reciclagem desse volume de alumínio é, do ponto de vista da ecologia, um feito magnífico – evita-se a devastação de grandes áreas na mineração da bauxita, a produção de grandes volumes de rejeitos minerais, a emissão de milhões de toneladas de gases que provocam o efeito estufa e há uma economia brutal no consumo de energia: o reprocessamento do alumínio utiliza apenas 5% da energia que seria gasta na produção do alumínio a partir da bauxita.

Apesar de todas as vantagens proporcionadas pela reciclagem do alumínio, reciclagem essa que deve ser mantida, há um lado triste nesta história: ao contrário dos japoneses, finlandeses e outros povos de países com alto nível de desenvolvimento social e econômico, que reciclam as latinhas por razões de consciência ambiental, brasileiros miseráveis vasculham diariamente as ruas, lixeiras e todos os tipos de aterros atrás das preciosas latinhas para garantir um rendimento mínimo para a sua sobrevivência: 67 latinhas correspondem a 1 quilograma de alumínio e pode gerar um rendimento médio de R$ 3,00 – o valor de uma refeição básica para um morador de rua.

Que não tarde chegar o dia em que a reciclagem das latinhas venha a ser puramente pela conscientização ambiental dos brasileiros…

A VACA É O ANIMAL QUE DÁ O LEITE, OU AS EMBALAGENS LONGA-VIDA

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Quem entra em um supermercado hoje vai encontrar uma imensa quantidade de produtos diferentes embalados nas hoje famosas caixinhas longa-vida: leite, sucos, vinhos, goiabadas, molhos e por aí vai. Mas houve um tempo em que o fabricante das “caixinhas” precisou fazer muita propaganda para convencer os consumidores de que as caixinhas eram tão boas quanto as embalagens já tradicionais de vidro, de lata e até mesmo as de plástico: a frase do título é de um premiado comercial da década de 1990, que mostrava uma garotinha escrevendo uma redação sobre a vaca – ao invés de falar do animal, a criança descreve uma caixinha longa-vida que embala um litro de leite. Ficou curioso, clique aqui para assistir ou para relembrar este comercial.

As embalagens longa-vida foram criadas na década de 1950 com o objetivo de oferecer um meio de envase asséptico para alimentos, de forma que eles não estragassem durante o transporte, armazenamento e exposição nas prateleiras dos supermercados sem a necessidade de refrigeração. Elas são produzidas a partir da laminação de camadas de plástico, papel e alumínio, que protegem o produto da incidência de luz e do ataque de micro-organismos. No caso do leite da nossa famosa “vaca”, há inicialmente um processo de ultrapasteurização, onde o produto é aquecido a temperaturas entre 135 e 150° C por um período 2 a 4 segundos – isso mata todos os micro-organismos presentes no leite e que poderiam estragar o produto. Embalado nessa milagrosa caixinha, o leite pode ser conservado por até 180 dias sem estragar e sem necessitar de refrigeração.

Gradativamente, as “caixinhas” foram conquistando a confiança dos consumidores e ganharam cada vez espaço nas prateleiras dos supermercados e ocupando também cada vez mais espaço nas lixeiras das residências e, depois, nos aterros sanitários. A alta qualidade dos materiais usados na construção das embalagens e que impediam que os micro-organismos degradassem os alimentos, também impediam a degradação dos materiais descartados na natureza. O tempo de degradação deste tipo de embalagem na natureza é incerto, mas tomando-se como base a degradação do alumínio presente na camada mais interna chega-se a uma estimativa superior a 100 anos.

Depois de várias décadas de produção e descarte em aterros surgiram tecnologias que permitiram o reaproveitamento dos materiais das embalagens longa vida, porém ainda em quantidade tímida – dados do ano de 2012 indicam que houve uma reciclagem de 29% das embalagens longa-vida pós-consumo no Brasil, totalizando 61 mil toneladas – uma simples regra de três indica que 210 mil toneladas de embalagens longa-vida não sofreram nenhum tipo de reciclagem no mesmo ano de 2012 e acabaram indo, na melhor das hipóteses, para os aterros sanitários e lixões das nossas cidades. Milhões dessas embalagens foram jogadas nas ruas ou descartadas em terrenos baldios – com as chuvas, acabaram arrastadas para bueiros, córregos e tubulações de águas pluviais, causando entupimentos nas redes e alagamentos localizados; outras acumularam água e se transformaram em criadouros de mosquitos transmissores de doenças.

Quando devidamente reprocessadas e recicladas com equipamentos adequados, as caixinhas têm seus materiais recuperados na forma de papel, alumínio e plástico, usados como matéria prima para inúmeros novos produtos. Em processos de reciclagem mais simples, as embalagens são trituradas e podem ser transformadas, entre outros produtos, em telhas e placas rígidas usadas na construção civil – há cerca de dez anos atrás, numa obra de implantação de rede de esgotos numa cidade do litoral de São Paulo, optamos por usar essas placas rígidas para fazer os tapumes de isolamento das obras nas ruas – as tradicionais placas de madeira que usávamos até então delaminavam e aprodeciam rapidamente sob sol e chuva; para nossa infelicidade, os moradores de uma comunidade próxima descobriram as qualidades ecológicas de nossos tapumes – muitos deles começaram a sumir durante as noites e foram “reciclados” na forma de paredes e portas das casas desses moradores.

Bom, reciclagem é sempre uma boa causa…

VIDRO: UM MATERIAL LITERALMENTE “INFINITO”

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No meu último post relembrei os tempos da minha infância, quando o leite era comprado em garrafas de vidro – a maioria dos leitores só deve ter visto essa forma de compra em filmes antigos, quando as imagens mostravam o leiteiro entregando garrafas com leite na porta das casas e pegando de volta as garrafas vazias, que seriam devidamente lavadas e esterilizadas, seguindo para a linha de produção para receber um novo envasamento de leite. Nesses mesmos tempos, era também possível comprar óleo comestível a granel – você levava uma garrafa vazia e limpa até o mercado do bairro e escolhia o tipo de óleo da sua preferência: milho, girassol, amendoim, azeite etc. (acho que o óleo de soja ainda não estava disponível no mercado há época); o balconista enchia a garrafa com uma bomba manual e o cliente só pegava pelo conteúdo líquido. Refrigerantes e cervejas também eram vendidos a partir da troca dos “cascos” (ainda hoje isso persiste em menor escala). As garrafas tinham, em resumo, uma vida útil bastante longa.

O vidro é uma das matérias primas mais versáteis nos quesitos reutilização e reciclagem. Antes de tudo, deixem-me explicar rapidamente estes dois conceitos, bastante confusos para a maioria: reutilização faz referência ao reuso de uma matéria prima ou de um material sem que seja necessária a utilização de energia ou retrabalho: uma garrafa vazia de vinho, por exemplo, pode ser reutilizada para o envasamento de um licor caseiro ou até mesmo de pimentas em conserva – os artesãos que produzem esses produtos terão de se preocupar apenas em lavar e esterilizar a garrafa antes de envasar o novo conteúdo.

No caso da reciclagem a garrafa será utilizada como matéria prima para a produção de um vidro “novo” – as garrafas “velhas” serão encaminhadas para uma unidade industrial, onde o vidro será divido em função da cor (na maioria dos casos em vidro transparente, marrom e verde), passando depois por um processo de trituração, indo a seguir para os fornos de alta temperatura para derretimento em conjunto com alguns produtos químicos e areia especial, produzindo-se assim vidro “novo”; esse vidro “novo”, na maioria dos casos, poderá ser reprocessado infinitas vezes. Nesse verbete também podem ser incluídos os vidros que passam por algum tipo de retrabalho (corte, remodelagem por calor etc.) e as partes são usadas na produção de produtos e objetos – um exemplo são os copos feitos a partir do corte e processamento do vidro de garrafas usadas.

O vidro é um dos materiais mais antigos utilizados pelo ser humano – erupções vulcânicas, sob certas condições, expelem junto com a lava e cinzas pedras de vidro – no sopé do famoso vulcão Vesúvio, nas cercanias da cidade de Nápoles na Itália, a coleta de peças de vidro vulcânico é uma das atividades favoritas dos turistas. Esse vidro natural era lascado e usado como faca, além de incrementar as pontas das lanças e flechas de antigos homens das cavernas. O primeiro povo a dominar a produção “industrial” do vidro foram os fenícios, antigos habitantes da região onde encontramos o atual Líbano. Entre os anos 1.500 e 300 a.C.,auge desta civilização, os fenícios dominavam o comércio no mundo antigo – o vidro era um produto importante na sua lista de produtos comercializados, sendo vendido em peças decorativas e de utilidade, assim como em embalagens de produtos finos como perfumes e essências.

A importância do vidro só fez crescer ao longo da história da humanidade, ocupando nichos de mercado dos mais diversos. Nos dias de hoje, a construção civil, só para citar um exemplo, encontra cada vez maiores aplicações para os vidros especiais (vidros de segurança de alta resistência), o que permite construções cada vez mais bonitas e inovadores. Infelizmente, o uso de embalagens de vidro para acondicionamento de produtos de consumo vem perdendo espaço ante ao crescimento das embalagens plásticas, que foram as responsáveis pelo vertiginoso crescimento do volume de resíduos domésticos – dê uma olhada na quantidade de plásticos diversos que você descarta todos os dias aí na sua casa.

Há um outro lado – descartado indevidamente, esse mesmo vidro poderá sobreviver infinitamente no meio ambiente (pelo menos até o momento que um vulcão entrar em erupção e derreter e desintegrar esse vidro).

Viva o vidro!

O “LIXO” DOMÉSTICO NOSSO DE CADA DIA

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Aqui em São Paulo, até o começo da década de 1970, o leite era vendido nas padarias em garrafas de vidro de um litro (as garrafas mostradas na foto são originais da época). Lembro perfeitamente que na padaria vizinha de casa era possível comprar até ½ litro de leite – o balconista abria a garrafa enchia gradativamente uma outra até que o nível nas duas estivesse igual – não sei se muitos dos leitores mais jovens chegaram a conhecer esse tipo de embalagem.

Também não me esqueço de um tropeço que sofri descendo as escadas do meu prédio quando estava indo buscar leite na padaria com duas garrafas nas mãos – com a queda, as garrafas estilhaçaram nos degraus e, para evitar o pior, me apoiei com todas as minhas forças sobre as minhas mãos: sofri inúmeros cortes profundos nos dedos e nas palmas das mãos – tenho três impressões digitais parciais por causa desse acidente. Coincidência ou não, pouco tempo depois as garrafas de vidro deram lugar ao saquinho plástico de leite de um litro.

Essa pequena viagem ao passado é, no meu caso, um marco do início da era dos plásticos nas embalagens e do aumento do volume do “lixo” doméstico (uso as aspas aqui porquê na nomenclatura atual são resíduos sólidos). Mesmo sendo descartável, esses saquinhos plásticos eram reaproveitados pela população: minha Vó Dora abria esses saquinhos e costurava as peças, transformando-as em toalhas de mesa e cortinas para uso na sua casa do sítio.

Ainda na linha saudosista, se é que se pode falar assim, os resíduos domésticos da época eram colocados na rua para a coleta em grandes latas metálicas – uma lata de vinte litros era suficiente para comportar os resíduos de uma família grande como a minha (8 pessoas). Os resíduos eram latas, papel de embrulho e jornal (muito usado em embalagens), vidros, papel higiênico e muitas casca das fruta, dito no nosso dialeto paulistano. Hoje, é muito provável que cada um de vocês produza individualmente esse volume de resíduos diariamente.

Essa percepção pessoal do aumento da quantidade de resíduos produzidos nas residências pode ser comprovada por estudos especializados – de acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o volume de resíduos gerados no Brasil entre os anos de 2.003 e 2.014 aumentou 29%, uma taxa de crescimento cinco vezes maior que o aumento da população no período, que foi de apenas 6%. O brasileiro médio atual gera aproximadamente 1,062 quilo de lixo ao dia.

São produzidos diariamente no Brasil 250 mil toneladas de resíduos sólidos, metade deste volume é formado por resíduos domiciliares. Pouco mais da metade (53%) deste volume é encaminhado para os chamados aterros sanitários, 23% vai para os aterros controlados, 20% para os lixões e apenas 2% vai para a compostagem e reciclagem – por esses números é possível ter uma visão global do problema dos resíduos sólidos. Nossa sociedade moderna se especializou em produzir lixo. Peço a você que tem um pouco mais de paciência para aprender coisas novas que entre nesse link e veja o excelente vídeo A HISTÓRIA DAS COISAS – ele abrirá seus olhos para a complexidade ambiental do consumismo e a geração desenfreada de resíduos no mundo moderno.

Se o fenômeno do aumento da produção de resíduos sólidos é uma tendência mundial, aqui no Brasil o problema tem cores mais sombrias dada a incapacidade dos Governos nos três níveis (Municipal, Estadual e Federal) em lidar com o problema. Aterros clandestinos crescem sem controle, cursos d’água ficam cada dia mais entulhados e doenças de veiculação hídrica como a Dengue, a Zika e a Chikungunya crescem exponencialmente em algumas regiões – muitos resíduos acumulam a água das chuvas e se transformam em criadouros de mosquitos transmissores dessas doenças.

As formas do cidadão comum ajudar na redução destes volumes absurdos de resíduos sólidos são a redução no consumo, a reutilização de materiais e de produtos e a reciclagem dos resíduos – são os 3 Rs. Um bom exemplo dentro da nossa área dos recursos hídricos é a reciclagem do papel – cada tonelada reciclada economiza 10 mil litros de água e evita o corte de 17 árvores.

Continuamos no próximo post.

Em tempo – esse é o meu post número 100: quem diria!

OS RESÍDUOS E AS ÁGUAS

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Muitos de vocês podem ter estranhado a mudança do tema dos meus posts de água para resíduos sólidos – a princípio, pode até parecer uma mudança total, mas as águas e os resíduos sólidos têm sim uma relação direta.

Vamos começar falando dos cursos d’água:

Cerca de vinte anos atrás, o Governo do Estado de São Paulo iniciou um grande programa de rebaixamento da calha do Rio Tietê. Esse importantíssimo Rio sofreu ao longo do século XX todo um conjunto de modificações em sua calha, que passou de um continuo de curvas sinuosas para uma calha reta, de forma a liberar as extensas várzeas para a especulação imobiliária; entre outras consequências, a retificação do Rio Tietê resultou em ciclos de enchentes nos bairros mais baixos da cidade – o projeto de rebaixamento da calha do Tietê veio a ser mais uma tentativa (que, diga-se de passagem até teve sucesso) de reduzir essas enchentes. Pois bem – uma notícia veiculada durante essas obras nunca saiu da minha mente: 20 mil pneus velhos foram retirados junto com o lodo e os entulhos do fundo da calha. Eu lembro de ter passado diversas vezes nas Marginais do Rio Tietê (para quem não é de São Paulo tratam-se de grandes avenidas que correm em paralelo ao Rio) ao lado dos canteiros de obra e de ter vistos as verdadeiras montanhas formadas por esses pneus velhos. E não foram só pneus: foram içadas da calha do rio inúmeras carcaças de carros, geladeiras, fogões e todo o tipo de “tralhas” que vocês podem imaginar.

Esse mesmo tipo de comportamento pode ser verificado em rios, córregos e riachos que cortam a cidade (isso pode ser visto em rios e córregos em todo o Brasil): os moradores tratam as águas como lixeiras e lançam todo o tipo de resíduos nas calhas, como se os esgotos lançados já não fosse uma agressão mais do que suficiente. Esse tipo de comportamento costuma resultar em pontos de represamento das águas, que em dias de forte chuva resultam em enchentes localizadas. Resíduos jogados nas ruas e em terrenos baldios são arrastados pelas enxurradas, bloqueando os pontos de escoamento das águas pluviais e também resultando em pontos de alagamentos.

Quando o corpo d’água vitimado por esses despejos de resíduos tem como objetivo o abastecimento de água, haverá todo um comprometimento da qualidade e serão necessários volumes maiores de produtos químicos para o tratamento da água antes da distribuição para os consumidores.

Outro foco de atrito entre os resíduos e as águas são os lixões e aterros irregulares de resíduos. Esses locais costumam receber todo o tipo de resíduos, desde de restos de alimentos, materiais orgânicos de todos os tipos, materiais sólidos, óleos, graxas, tintas, produtos químicos e contaminantes de todo o tipo – a decomposição e combinação de todos esses produtos cria um líquido extremamente tóxico conhecido como chorume. Com auxílio da chuva, esse líquido se infiltra no solo e tem grande potencial de contaminação do lençol freático, que são as reservas subterrâneas de água mais próximas da superfície do solo. São as águas do lençol freático que são captadas nos poços semi artesianos usados para o abastecimento de muitas comunidades isoladas e rurais. Esse chorume também pode correr na direção de cursos d’água e poluir fontes usadas na captação de água usada para o abastecimento.

Esses lixões também ficam sujeitos a incêndios – a queima dos diferentes tipos de materiais produz moléculas extremamente tóxicas conhecidas como dioxinas, que são liberadas junto com a fumaça. Essas moléculas acabam voltando para o solo e são arrastadas pelas chuvas em direção aos corpos d’água: vejam que em todos esses exemplos os resíduos sempre acabam afetando ou qualidade das águas que serão usadas no abastecimento ou causando perturbações no fluxo natural das águas e causando todos os tipos de transtornos associados às enchentes. Isso sem falar em todos os tipos de vetores (ratos, baratas, pulgas, carrapatos etc) que proliferam no meio dos resíduos e podem espalhar patógenos.

Ao longo dos próximos posts vamos mostrar isso em maiores detalhes.

 

GESTÃO DOS RESÍDUOS

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O Saneamento Ambiental, como afirmamos no início desta série de posts, engloba todos os serviços de gerenciamento das águas, o que inclui: o abastecimento de água potável; a coleta, afastamento e o tratamento dos esgotos e também a drenagem e o manejo das águas pluviais (ou de chuva). Como eu tentei mostrar a todos, o abastecimento de água potável é o único destes serviços que é levado um pouco mais a sério por razões políticas: a inauguração de redes de abastecimento de água potável rende muitos votos em eleições (principalmente nas municipais); os outros serviços são deixados ao improviso e aos mal feitos.

Existe um quarto serviço, que não lida diretamente com as águas, mas que é tão mal gerido quanto: a coleta e disposição de resíduos sólidos e os serviços de limpeza urbana. Diferentemente da fluidez das águas, que provoca problemas instantaneamente quando uma adutora arrebenta ou quando uma chuva fortíssima alaga um bairro inteiro, os resíduos, que são predominantemente sólidos, permitem o acúmulo silencioso em terrenos baldios e lixões, e só depois de algum tempo começam a mostrar sua nocividade de diferentes maneiras.

Resíduos são, essencialmente, sobras resultantes de processos de produção e de consumo: embalagens de produtos, cascas e sobras de alimentos, papel usado, equipamentos eletrônicos antigos, ferragens, madeiras e móveis, entulho da construção civil, aparas diversas entre outros tipos de resíduos. Além dos resíduos propriamente sólidos, que formam a maioria dos materiais, existem aqueles que são líquidos: sobras de tintas, solventes, combustíveis, óleos lubrificantes usados entre outros.

Para começarmos essa nova série de posts, vamos separar os tipos de resíduos de acordo com as fontes geradoras:

Resíduos Domiciliares: é o nosso famoso lixo doméstico formado por restos e cascas de alimentos, embalagens plásticas e metálicas, vidros, papéis diversos, papel higiênico etc;

Resíduos Comerciais: caixas de papelão, isopor, pallets de madeira, plásticos, embalagens, sacarias em geral etc;

Resíduos Industriais: aparas de chapas plásticas, de madeira e metálicas, limalhas e outros resíduos do corte de materiais, tintas, solventes, resíduos químicos diversos etc;

Resíduos Agrícolas: embalagens de adubos e defensivos químicos, peças metálicas, pneus, restos de madeira, pedras etc;

Resíduos Hospitalares: seringas, gases, instrumentos cirúrgicos, embalagens e restos de remédios e drogas hospitalares, e demais materiais diversos contaminados por patógenos;

Resíduos da Construção Civil: entulho, madeiras, telhas, pedregulho, tintas, tijolos, tubulações, embalagens etc;

Resíduos de Portos, Aeroportos, Terminais Ferroviários e Rodoviários: embalagens, restos de alimentos, papéis, papel higiênico etc;

Resíduos de Mineração: rejeitos e sobras de materiais minerais não utilizáveis (só para lembrar: o acidente ambiental que, literalmente, matou o Rio Doce e que completou um ano no último sábado, foi provocado pelo rompimento de uma barragem de resíduos da mineração);

Resíduos Radioativos: combustível de usinas nucleares e resíduos de medicamentos e materiais de clínicas radiológicas e de hospitais.

Além dessa lista básica, exploraremos as diferentes destinações que cada tipo de resíduo deve receber – um exemplo são os resíduos hospitalares, onde existem os conhecidos materiais perfuro-cortantes e materiais contaminados por patógenos, que não podem ser descartados junto com os resíduos comuns e devem ser encaminhados para incineração em unidades de destinação especiais. Também existem os resíduos específicos como o lodo sanitário resultante do tratamento de esgotos nas ETEs e que ainda não possuem uma destinação definitiva. Junto a tudo isso, falaremos ainda da coleta seletiva e das políticas para a redução e a reutilização dos materiais. E o mais importante dentro da temática principal deste blog: a relação de todos esses tipos de resíduos com as águas. Assunto é o que não vai faltar.

O tema é bem extenso e vai render um bocado de posts. Até mais.

SALGADAS LÁGRIMAS PARA UM RIO DOCE

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O que é um rio?

Água doce que corre por um vale será a resposta fria de um atlas.

Se você olhar com um pouco mais de atenção no mesmo atlas vai encontrar toda uma escala de definições para água doce: riacho, ribeiro, córrego, ribeirão, riachão e, finalmente, um rio.

Para um pescador é seu local de trabalho, de onde retira o sustento da sua família;

Para o barqueiro é mais do que um local de trabalho – o rio é o seu segundo lar (para alguns é o primeiro);

O agricultor vê o rio como um parceiro, que empresta parte das suas águas para fazer brotar do chão os alimentos;

Para as cidades, a água do rio é a fonte da vida, que sacia a sede, lava e leva embora tudo o que não presta;

Para o romântico, o rio é a saudade que leva para longe todas as lembranças dos amores perdidos…

Talvez o rio seja a soma de tudo isso e muito mais – é a fonte de todas as vidas!

Mas, e quando o homem destrói o rio?

A água deixa de ser doce, o pescador não tem onde trabalhar, o barqueiro encalha, o agricultor fica sozinho, as cidades desabastecidas e o romântico a morrer de amor em toda a sua a sua melancolia…

Ficam somente as lágrimas salgadas e a triste lembrança da doçura de suas águas de outrora…

05/11/2016 – 1° aniversário da tragédia ambiental do Rio Doce.