UTILIZANDO CORRETAMENTE AS ÁGUAS PLUVIAIS – PARTE PRÁTICA

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No meu último post falamos da utilização das águas pluviais em usos não potáveis. Vamos entender isso na prática:

Uma das maneiras mais econômicas de armazenar águas pluviais em uma residência é utilizar tambores de aço ou bombonas plásticas grandes. Pesquisando na Internet você poderá encontrar esses recipientes a venda com preços a partir de R$ 25,00 (procure volumes na faixa de 200 litros). É importante que você pesquise bastante até encontrar unidades em bom estado de conservação e adequadas para o armazenamento de água.

Para que você tenha ideia do que estamos falando, um tambor ou bombona que consiga armazenar 200 litros de águas pluviais representa água suficiente para realizar pelo menos 30 descargas no vaso sanitário (considerando-se um vaso sanitário com caixa de descarga acoplada e consumo de 6 litros por descarga) – essa simples conta permite que você tenha uma boa ideia da economia que você poderá conseguir na sua conta de água. Mas é importante lembrar que essa água não poderá ser utilizada para consumo humano – somente poderá ser utilizada para usos não potáveis como em descargas sanitárias, limpeza de pisos, rega de jardins, lavagem de carros, preparação de argamassa e concreto etc.

Outra observação fundamental é que os recipientes que serão utilizados para o armazenamento de água precisam estar apoiados firmemente sobre uma base sólida – evite os improvisos feitos com blocos de concreto ou tijolos soltos; um litro de água pesa aproximadamente 1 kg – no nosso caso, estaremos trabalhando com um recipiente com 200 litros de água (ou aproximadamente 200 kg), mais o peso líquido do recipiente: o deslocamento acidental de um volume com esse peso pode provocar múltiplas fraturas numa perna ou em um pé – muito cuidado.

A foto que ilustra esse post lhe dará uma boa ideia da configuração dos recipientes, alinhados em paralelo com a parede da residência. Observe o seguinte:

Os recipientes tem tampa: isso é importante para evitar que sua reserva de água se transforme num criadouro de mosquitos;

Evite usar recipientes transparentes ou translúcidos – a incidência de luz solar facilita o crescimento e proliferação de micro algas na água e bactérias;

A água da chuva será coletada por um sistema de calhas – é importante instalar um sistema de filtragem (tela por exemplo) na tubulação de descida, com o objetivo de reter folhas, galhos e outros materiais particulados;

Quando começar a chover, é fundamental deixar a água escorrer livremente por alguns minutos antes de conectá-la aos recipientes – essa água carregará muita sujeira que estava acumulada sobre as telhas;

Observe que a configuração dos recipientes permite a inclusão sequencial de um novo recipiente em série, a jusante a quantidade de água armazenada à demanda da residência;

Cada recipiente deve ter uma torneira na base – faça um furo com uma serra copo que tenha o mesmo diâmetro da rosca da torneira; encaixar a torneira no furo e fixar usando massa epoxi ou borracha de silicone.

É importante higienizar a água armazenada: você vai precisar aplicar uma dose de 10 ml (uma colher de sobremesa) de água sanitária para cada 100 litros de água armazenada. Com esse cuidado, seu estoque de águas pluviais poderá ser utilizado com segurança e economia.

O IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas, de São Paulo, publica um manual com ótimas informações para o armazenamento de águas pluviais. Faça o download deste manual e obtenha preciosas lições que lhe ajudarão a usufruir com muita segurança e qualidade dessa fonte de água tão preciosa que, literalmente, cai do céu sobre as nossas casas.

Existem também ótimos reservatórios em plástico de engenharia desenvolvidos especialmente para esse tipo de uso – se você não é do tipo com habilidades manuais, essa pode ser uma ótima alternativa.

Boa sorte e bom uso das águas pluviais.

UTILIZANDO CORRETAMENTE AS ÁGUAS PLUVIAIS

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Estive em Cuba há muitos anos atrás, numa visita organizada pelo governo local com o objetivo de divulgar os pontos turísticos da ilha e, assim, atrair turistas estrangeiros e dólares para socorrer a combalida economia do país. Povo muito simpático e alegre (lembram muito o pessoal da nossa Bahia), carros da década de 1950 com dezenas de camadas de tinta, hotéis cheirando a mofo, comida mediana – os anos de bloqueio econômico capitaneado pelos norte-americanos deixou a sua marca na história cubana. Acompanhados de perto por agentes do governo local, visitamos e vimos o que era considerado adequado pelos mandatários locais; os bairros mais paupérrimos, é claro, ficaram bem longe da vista do nosso grupo, formado basicamente por jornalistas especializados em turismo.

Uma coisa que me chamou bastante a atenção durante as caminhadas pela cidade de Havana eram as dezenas e mais dezenas de tambores de aço perfilados nos quintais das casas. Depois de alguma insistência, soube através de um motorista de ônibus que aqueles tambores eram usados pelos moradores para armazenar água da chuva (as autoridades negam, mas o abastecimento por lá é complicado); meu “informante”, inclusive, comentou que as famosas equipes dos programas de Saúde da Família cubanos começaram com as visitas de autoridades sanitárias às casas justamente para conscientizar os moradores dos perigos de proliferação de mosquitos nestes reservatórios.

O uso direto da água das chuvas faz parte da realidade de muitas regiões do mundo; no Brasil, especialmente na região do semiárido nordestino, a prática é muito comum e, muitas vezes, é a única fonte para o abastecimento de famílias inteiras no períodos críticos de estiagem. A construção de cisternas de concreto subterrâneas, inclusive na forma de programas governamentais de combate às secas, pode representar a garantia do abastecimento de água por muitos meses para as famílias sertanejas.

Nos centros urbanos que contam com infraestrutura de abastecimento de água, não é muito comum encontrarmos residências com cisternas instaladas – em bairros onde o abastecimento é irregular encontramos reservatórios improvisados que são usados para armazenar águas pluviais, muitas vezes sem maiores cuidados contra a proliferação de mosquitos, especialmente o odioso Aedes Aegypti. Estimular o armazenamento e uso das águas pluviais é uma política importante em tempos de carência cada vez maior de fontes de água para o abastecimento das cidades. Algumas razões práticas para isso:

  • Como já comentamos várias vezes, o crescimento das cidades cada vez mais vai provocar alterações no microclima por causa da formação dos polos ou “ilhas” de calor (a concentração de muitas construções e edifícios próximos um do outro eleva a temperatura local), levando à ocorrência de chuvas fortes nas áreas centrais das cidades e chuvas mais fracas nas regiões periféricas, onde costumam ficar os reservatórios de abastecimento;

  • A impermeabilização do solo dos centros urbanos provocará cada vez mais enchentes localizadas – o uso de cisternas nas residências é uma forma prática de reter parte da água das chuvas, aliviando os sistemas de drenagem de águas pluviais;

  • A escassez da água implicará cada vez mais em maiores custos para a captação e transporte, o que fatalmente implicará em maiores custos nas futuras contas de água;

  • Águas pluviais podem substituir a água potável em diversos usos: limpeza, regas de jardim, lavagem de veículos, descargas sanitárias etc.

Portanto, faz todo o sentido estimular e orientar os moradores das cidades no armazenamento e uso das águas pluviais para os usos não potáveis em suas residencias. No próximo post vou passar instruções técnicas e dicas para a construção de um sistema caseiro e bastante funcional para o armazenamento de águas pluviais usando tambores de aço de 200 litros ou bombonas plásticas (mostrado na foto que ilustra esse post).

Até lá!

SÃO PAULO DE PIRATININGA, OU A TERRA DAS ENCHENTES

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O Planalto de Piratininga, conjunto de campos de altitude alagáveis onde foi fundada a cidade de São Paulo em 1554, tem um nome de origem curiosa – Piratininga, na língua dos índios tupis-guaranis, significa literalmente lugar onde se encontra o peixe seco. Há uma razão muito simples para esse nome: o Rio Tietê, principal curso d’água do Planalto, transbordava na época das chuvas e alagava uma vasta extensão de campos e várzeas; quando o Rio voltava ao nível normal imensos cardumes de peixes ficavam presos em poças de água que secavam lentamente – quando completamente secas abrigavam grandes estoques de peixe seco, que eram recolhidos pelos índios que se fartavam com a iguaria. Antes de ser São Paulo, Piratininga já era sinônimo de enchente.

Contrariando os avisos dos índios, da história e da geologia, aterramos as várzeas, retificamos o curso dos rios e construímos no Planalto de Piratininga a maior cidade do Brasil, que hoje conta com uma população de aproximadamente 11 milhões de habitantes. Reclamar de enchentes na cidade de São Paulo é, literalmente, chover no molhado. É claro que a história da cidade é mais complexa do que esta descrição – os campos alagáveis foram fundamentais na produção de alimentos, que desde os primeiros anos da colonização eram exportados para as outras Capitanias do Brasil, com destaque para o trigo, feijão e marmelada.

Viver em São Paulo, para muita gente, é enfrentar enchentes ano após ano. Também é fato que, desde longa data, a cidade está sempre a buscar mecanismos para o controle das gigantescas enchentes anuais. Uma das grandes soluções encontradas foi o bombeamento das águas das cheias na direção da Represa Billings.

A Represa Billings, importante manancial de águas da Região Metropolitana de São Paulo, foi construída na década de 1920 pela empresa canadense Light & Power com o objetivo de gerar energia elétrica na Usina Henry Borden em Cubatão. Para reforçar o fluxo de águas para a Represa Billings a Light realizou obras no Rio Pinheiros, principal afluente do Rio Tietê na região do Planalto de Piratininga, que permitiu a reversão do curso do Rio a partir de 1950 na direção da Represa, através de duas usinas elevatórias (vide a foto deste post). Esse procedimento assegurava o nível mínimo de água na Represa nas épocas de estiagem, garantindo a contínua geração de energia elétrica na usina Henry Borden. Por outro lado, nos meses de chuva, a retirada de água das bacias dos rios Tietê e Pinheiros minimizava os efeitos das enchentes na capital paulista. Essa verdadeira “solução mágica” funcionou por várias décadas e evitou que enchentes mais graves assolassem a cidade.

Essa solução apresentava um custo ambiental que, gradativamente, começou a cobrar o seu preço: toda a carga de poluentes (especialmente esgotos domésticos e industriais) lançados nas bacias hidrográficas dos Rios Tietê e Pinheiros eram transferidas pelo sistema de reversão para a bacia hidrográfica da Represa Billings, que a essa altura, além de servir como geradora de energia elétrica, também era a responsável pelo abastecimento de água na Região conhecida como ABC (iniciais dos municípios de Santo André, São Bernardo e São Caetano do Sul). Os protestos dos ambientalistas e moradores foram crescendo até que, com a promulgação da nova Constituição Paulista em 1992, foi suspenso o bombeamento do Rio Pinheiros em direção à represa Billings, exceto em casos de emergência quando há risco iminente de enchente.

Observem que uma solução engenharia para o controle das enchentes de grande refinamento técnico foi derrubada pela gestão inadequada das águas dos Rios Tietê e Pinheiros (há dezenas de outros rios menores nesta bacia hidrográfica), que transformadas em esgotos foram proibidas de serem lançadas na Represa Billings.

Esse exemplo nos mostra o quão importante é a gestão integrada dos recursos hídricos – a água das enchentes que tanto transtorno traz para o dia a dia de muita gente, pode ser armazenada em uma represa para atender o abastecimento futuro de uma cidade. Só não vale repetir o que se fez em São Paulo e contaminar essa preciosa água com esgotos da cidade.

BACIAS DE DETENÇÃO ABERTAS

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No último post falamos do uso dos piscinões para o controle das enchentes localizadas. Nos exemplos mostrados foi destacado o gigantesco reservatório subterrâneo construído sob a Praça Charles Miller, no bairro do Pacaembu em São Paulo – ao final da construção do dispositivo, a Praça foi reconstruída e liberada para o uso pela população. Reservatórios fechados como o deste exemplo são ideais para as regiões de grandes centros urbanos onde não existem espaços disponíveis para a construção de equipamento similares abertos.

Quando a cidade ou o bairro possui áreas abertas disponíveis, existem outras opções de dispositivos para a retenção de águas pluviais altamente funcionais e de baixo custo. Esses dispositivos são chamados de Bacias de Detenção Abertas.

No exemplo mostrado na foto que ilustra esse post, você muito provavelmente está vendo uma quadra cimentada, cercada por um conjunto de arquibancadas. Localizada na Avenida Polônia, cidade de Porto Alegre, a quadra é o ponto de encontro dos jovens do bairro, onde são disputadas acirradas partidas de futebol acompanhadas de perto por uma torcida fanática formada por amigos e familiares dos jogadores. Se você olhar com um pouco mais de atenção, vai perceber que os degraus das arquibancadas e as rampas laterais formam uma grande bacia de retenção de águas pluviais – em dias de chuvas fortes as águas são encaminhadas para armazenamento nessa bacia; o fundo da bacia possui drenos que liberam a água vagarosamente por um período de até 24 horas. A retenção temporária desse grande volume de águas evita enchentes nas ruas da região e maiores transtornos para a população. Sendo uma instalação totalmente aberta, essa bacia de detenção pode ser facilmente limpa após o escoamento total das águas pluviais e devolvida para o uso recreativo da população. Considerando-se a frequência das grandes chuvas numa cidade, é possível afirmar que durante a maior parte do ano a instalação ficará disponível para o uso pela população. Pistas de skate, playgrounds e anfiteatros são outros modelos de equipamentos de lazer urbanos que podem ser utilizados em projetos de bacias de detenção abertas.

Quando a área disponível é grande, a melhor opção será a criação de áreas verdes como, por exemplo, os parques lineares, que nada mais são que grandes jardins implantados ao largo de córregos de drenagem. Essas áreas verdes são equipadas com bancos, coretos, áreas gramadas, trilhas e demais estruturas que permitam seu uso pela população como área de lazer. No projeto e construção são previstas barreiras para a retenção de grandes volumes de águas pluviais que, a exemplo do dispositivo mostrado anteriormente, também possuem drenos que permitem a liberação gradativa do volume armazenado. Dependendo do tipo de solo presente nessas áreas, poderão ser formados espelhos d’água permanentes, que em harmonia com a vegetação possibilitarão a criação de verdadeiros santuários urbanos para a vida selvagem (especialmente para os pássaros e aves aquáticas), formando espaços de grande beleza cênica contemplativos. Como também são estruturas abertas, a limpeza e a manutenção após o período de chuvas é facilitado, garantindo assim o uso do espaço pela população durante a maior parte do ano.

A chuva é um fenômeno natural que, graças ao crescimento desordenado das cidades, cada vez mais vem causando grandes transtornos às populações urbanas. Os espaços urbanos precisarão ser adaptados para o armazenamento de volumes cada vez maiores de águas pluviais a fim de se evitar alagamentos localizados. Também é um fato que existem cada vez menos espaços públicos para o lazer e a contemplação da natureza pela população. A criação de áreas ou bacias de retenção abertas para águas pluviais é uma forma eficiente de resolver os dois problemas de uma única vez, combinando áreas de lazer com espaços que podem armazenar grandes volumes de águas pluviais. Cabe a todos nós a busca de soluções criativas para estes problemas como nos exemplos citados.

Continuamos no próximo post.

PISCINÃO: UM EFICIENTE SISTEMA PARA O CONTROLE DAS ÁGUAS PLUVIAIS

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A Praça Charles Miller, em São Paulo, é um dos endereços mais famosos da cidade – é aqui que fica o Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, mais conhecido como Estádio do Pacaembu; mais recentemente, o Estádio passou a abrigar o Museu do Futebol, o que deu visibilidade internacional e transformou o endereço em um destino turístico da cidade. A Praça também ganhou fama por outro motivo nem um pouco glamouroso: o local era um dos pontos de enchentes mais temidos da cidade.

O atual bairro do Pacaembu nasceu em 1925, quando a Cia. City, empresa inglesa de arquitetura iniciou o loteamento e a urbanização da região. Uma das primeiras ações da empresa foram os trabalhos de drenagem e aterro de grandes áreas, que culminaram com a canalização do ribeirão Pacaembu e a construção da avenida homônima, até hoje a principal  via do bairro. Foi a Cia. City quem doou em 1935 para a Prefeitura de São Paulo o terreno de 75 mil m² onde seria construído o famoso Estádio do Pacaembu, inaugurado em 1940. Além da criação de um dos bairros mais charmosos da cidade, as ações da City, involuntariamente, acabaram por consolidar todo um ambiente favorável à formação de fortes enxurradas em dias de chuva, com a formação de enchentes violentas na parte baixa do bairro onde fica a Praça Charles Miller.

O famoso “endereço” das enchentes criou transtornos no bairro por várias décadas até que, em 1993, as autoridades da Prefeitura e do Governo do Estado juntaram forças e iniciaram as obras de um gigantesco reservatório subterrâneo com capacidade para armazenar 75 milhões de litros de água das chuvas. Projeto pioneiro na cidade, o conhecido Piscinão do Pacaembu foi inaugurado em 1995 e se transformou rapidamente numa referência no combate de enchentes localizadas; dezenas de outros piscinões foram construídos ao longo dos anos em outras regiões da cidade, auxiliando imensamente no controle de pontos de inundações.

O grande desafio para a construção do Piscinão do Pacaembu não foi exatamente na área de engenharia, mas na área da burocracia – tanto o Estádio do Pacaembu quanto a Praça Charles eram construções tombadas pelo Conselho do Patrimônio Histórico e Cultural da cidade e, por este motivo, não poderiam sofrer qualquer tipo de intervenção. Foram necessárias incontáveis reuniões e acordos entre todas as partes envolvidas no processo para que se autorizasse o início das obras; todo esforço acabou valendo a pena!

Como venho comentando há alguns posts, o crescimento das cidades e a constante impermeabilização dos solos urbanos com concreto, asfalto e edificações de todo o tipo, estão criando cada vez mais as condições para a formação de grandes pontos de alagamentos nas cidades, com riscos tanto materiais quanto para a segurança dos moradores. Cada vez mais serão necessários estudos e projetos urbanos que visem a criação de pontos de retenção e acúmulo temporário de águas pluviais, evitando assim a formação das enchentes nos pontos mais baixos.

Piscinões subterrâneos como o que foi construído sob a Praça Charles Miller são exemplos práticos de como resolver os problemas extremos provocados pelas enchentes nas cidades – na falta de áreas livres para a construção dos dispositivos em meio ao disputado espaço nos centros urbanos, o subsolo de praças e avenidas pode ser utilizado para as construções, reconstruindo-se posteriormente os espaços, que voltarão rapidamente para o uso pela população da cidade.

À Charles Miller é atribuída a introdução do futebol no Brasil – batizar a praça onde fica o estádio de futebol mais tradicional da cidade com seu nome é uma justa homenagem; já a construção do Piscinão do Pacaembu, essa pode ser chamada de um verdadeiro “gol de placa”. Que venham muitos outros…

OS EMBATES ENTRE AS ÁGUAS PLUVIAIS E OS RESÍDUOS SÓLIDOS

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Os serviços que compõem o Saneamento Básico incluem o abastecimento de água potável, a coleta e o tratamento dos esgotos, os sistemas de drenagem de águas pluviais e o gerenciamento dos resíduos sólidos, onde se incluem os serviços de varrição e limpeza das ruas de uma cidade, a coleta e a destinação dos resíduos sólidos domésticos, industriais, hospitalares, da construção civil entre outros; o equilíbrio na oferta destes serviços permitirá o controle dos vetores que tem potencial para transmitir diversos tipos de enfermidades (ratos, baratas, mosquitos, pulgas, carrapatos etc). De todos esses serviços, dois destacam-se pelo conflito: os sistemas de águas pluviais e os resíduos sólidos.

Os sistemas de drenagem de águas pluviais, que detalharemos em futuros posts, incluem todos os dispositivos e estruturas instaladas em uma rua, bairro ou cidade que tem a função de captar e dar vazão rápida para as águas das chuvas, evitando que essas acumulem e provoquem danos à uma comunidade; estes dispositivos são projetados para tolerar pequenas quantidades de resíduos sólidos, que inevitavelmente serão arrastados pelas chuvas: areia, pedriscos, folhas, galhos, resíduos de pneus e lixo. Se ultrapassados os limites nas quantidades destes resíduos sólidos, a eficiência no funcionamento na drenagem das águas pluviais fica comprometida e acontece o que se tenta evitar: as enchentes localizadas.

Um exemplo desse conflito acontece nas chamadas bocas de lobo – esses dispositivos são instalados ao longo das sarjetas, com a função de direcionar o fluxo das águas pluviais na direção das tubulações subterrâneas do sistema, que seguem na direção dos canais de drenagem (rios, córregos, piscinões etc). Esses dispositivos são dotados de uma caixa de retenção, onde os materiais particulados e os resíduos sólidos ficam retidos. Essas caixas de retenção devem receber uma atenção especial dos responsáveis pelos serviços de zeladoria da cidade – é necessária a execução de limpeza periódica, esvaziando-se essas caixas, obrigatoriamente nas épocas de seca; com a chegada dos períodos chuvosos, as bocas de lobo devem estar preparadas para realizar a sua função.

Outro grande problema, esse muito frequente, são os sacos de lixo não recolhidos pelos serviços de limpeza urbana que, durante as chuvas mais fortes, são arrastados pela enxurrada e bloqueiam os drenos de águas pluviais, especialmente as grelhas e as bocas de lobo, provocando rapidamente pontos de inundação. Nesse tópico podemos incluir os resíduos da construção civil, que figuram entre os campeões no descarte irregular das cidades. Pedaços de madeira e resíduos de demolição podem ser arrastados para o leito das ruas em eventos de chuva forte, sendo transformados em verdadeiras armadilhas para os veículos e oferendo sérios riscos à segurança dos passageiros e condutores.

Um problema menos visível é o assoreamento das tubulações e canais de drenagem, que acumulam sistematicamente camadas de areia e argila no fundo, implicando numa redução gradativa da capacidade de drenagem dos grandes volumes de águas pluviais. Autoridades responsáveis devem manter um calendário de manutenção desses sistemas, realizando trabalhos sistemáticos de limpeza e dragagem. Muitas vezes uma fina lâmina de água corrente pode até dar a impressão de uma grande profundidade num curso de água, quando na realidade essa profundidade é de alguns poucos centímetros. Em momentos de forte chuva, quando nenhum de nós tem o controle do volume de água que atinge o solo, é preciso ter certeza que os sistemas de drenagem tenham capacidade para absorver e dar vazão rápida para as águas pluviais. Não havendo cuidados com a limpeza e a manutenção dos sistemas de drenagem, o resultado poderá se apresentar em grandes inundações, com prejuízos materiais e algumas vezes até com vítimas fatais, além de graves riscos de proliferação de doenças de veiculação hídrica com a leptospirose, hepatite, cólera, giardíase entre outras.

Relembrando: todas essas preocupações devem ser preventivas, ou seja, deve-se pensar e agir nos períodos de seca. Quando as chuvas chegam, muito pouco poderá ser feito adequadamente.

PROBLEMAS HABITACIONAIS, OU A OCUPAÇÃO IRREGULAR DOS MORROS

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Os noticiários dos últimos dias estão repletos reportagens que tratam das consequências devastadoras da passagem do furação Matthew pelo já devastado Haiti – as imagens de destruição das cidades e o sofrimento humano da população nos comovem muito. Se você é um bom observador, talvez tenha notado que os morros que sempre aparecem no fundo das imagens estão completamente nus, sem vegetação arbórea; a falta de vegetação nesses morros contribuiu muito para a devastação das cidades – sem a cobertura vegetal, as águas das fortes chuvas desceram os morros em grande velocidade, devastando tudo o que estivesse em seu caminho.

Muito antes do furação Matthew e do forte terremoto que abalou o país em 2010, o Haiti já era um país devastado graças a longa ditadura da família Duvalier, primeiro com François Duvalier, o Papa Doc, que conduziu com mão de ferro o país entre 1957 e 1971; após sua morte, Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, assumiu o posto do pai e dirigiu o país até sua auto deposição em 1986. A população cada vez mais miserável do país devastou gradativamente as florestas em busca de lenha para cozinhar – Matthew nos mostrou a falta que a proteção de uma cobertura vegetal em morros nos faz…

Pelas dificuldades construtivas, os terrenos das encostas de morros sempre tiveram pouco valor durante os processos de formação das cidades. Desde muito tempo atrás, morar em morro era coisa de gente pobre – a formação das favelas nos morros do Rio de Janeiro pelos escravos libertos no final do século XIX é um grande exemplo disso. A forte migração de populações rurais para os centros urbanos iniciada nas décadas de 1950 e 1960 aliada à falta de políticas públicas na área de habitação popular, transformou as encostas dos morros numa alternativa para as construções populares e também para as famosas “habitações sub normais”, mais conhecidas como favelas.

A ocupação irregular das encostas dos morros implica em dois problemas fundamentais associados às águas pluviais:

  1. A cobertura vegetal das encostas, que atuava na retenção e redução da velocidade de descida de grandes volumes de chuvas, é removida para dar espaço para a construção das moradias;

  2. A construção das moradias, normalmente com grande adensamento, impermeabiliza o solo, aumentando a quantidade de águas superficiais que descem os morros em dias de chuvas.

Esses dois eventos provocaram aumentos nos volumes naturais de águas pluviais que chegam aos canais de drenagem, contribuindo em muito para a formação de pontos vulneráveis a enchentes. Há também um terceiro problema, muito mais grave, que nem sempre é fácil de se perceber – a combinação da remoção da cobertura, onde as raízes das plantas tem grande importância na estabilização e fixação dos terrenos, aliada ao corte do talude para a construção das moradias, provoca uma total desestabilização das encostas dos morros; em temporadas de chuvas fortes é comum a ocorrência de grandes deslizamentos, com destruição de casas e custo de dezenas de vidas. O deslizamento do Morro do Bumba (vide foto que ilustra esse post) em Niterói no ano de 2010, para citar um único exemplo, resultou em 39 mortes.

As encostas de morros comumente abrigam os remanescentes da cobertura vegetal original das regiões ocupadas pelas cidades e possuem grande importância ambiental tanto para a regulação do clima quanto para a absorção e retenção de grandes volumes de águas pluviais. Além de contribuir imensamente na formação de pontos de enchentes nas partes baixas das cidades, a ocupação irregular das encostas representa um altíssimo risco para as populações. As cidades devem redobrar os esforços para preservar e até mesmo recuperar a cobertura vegetal das encostas, criando programas de moradia popular que possibilitem a transferência dessas populações.

Morros são complicados pela sua própria natureza: ou é fogo morro acima ou é água morro abaixo – não temos controle em nenhuma dessas situações.

PERMEABILIZAÇÃO DO SOLO DAS CIDADES

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Em meu último post afirmei que um dos grandes problemas ambientais das cidades, as enchentes localizadas, tem ligação direta com a escalada da impermeabilização dos solos: quintais concretados no lugar dos antigos jardins, edificações e construções ocupando cada vez mais os espaços urbanos, calçadas a perder de vista, ruas e avenidas asfaltadas – até os tradicionais canais de drenagem naturais como os córregos e rios estão recebendo algum tipo de impermeabilização. Ao invés de explorarmos os problemas criados por essa contínua impermeabilização dos solos, vamos inverter a conversa – vamos falar das alternativas para a permeabilização do solo.

O Parque do Ibirapuera tem 1,5 milhão de metros quadrados e é a área verde mais importante da cidade de São Paulo. Minha mãe cresceu num bairro ao lado do terreno onde está instalado o Parque do Ibirapuera; na época, anos de 1930, o local era um grande brejo e os pais não deixavam que os filhos se aventurassem no lugar – hoje, os imóveis das áreas lindeiras ao Ibirapuera tem o maior valor de mercado da cidade. Atualmente, seria virtualmente impossível que a Prefeitura conseguisse desapropriar uma área equivalente para a construção de um outro Parque do Ibirapuera. Uma solução alternativa e viável economicamente seria a criação de pequenas áreas verdes em toda a cidade – pequenos jardins com área de 10 m²: se conseguirmos implantar 150 mil desses pequenos jardins, criaremos um novo Parque do Ibirapuera “virtual” na cidade; considerando-se o tamanho da cidade, atingir essa cifra de pequenos jardins não é nada difícil – uma boa campanha de conscientização junto à população poderia estimular a remoção de trechos concretados dos quintais e a criação desses pequenos jardins, com forte impacto na permeabilidade do solo da cidade (veja um exemplo na foto que ilustra este post).

O concreto permeável, poroso ou drenante, é constituído de uma mistura de cimento comum (Portland) com agregados graúdos (pedra britada), água e aditivos químicos. Como essa mistura não leva areia como no concreto comum, a massa fica com uma estrutura altamente porosa, facilitando a passagem de água e ar. O concreto poroso pode ser utilizado na pavimentação de calçadas, concretagem de terrenos (muita gente não gosta da “sujeira” criada pelas folhas das plantas), pisos de áreas de estacionamento entre outras, criando novos pontos permeáveis de solo, com capacidade de absorver centenas de milhões de litros das águas pluviais. Os bairros mais urbanizados da cidade de São Paulo, por exemplo, possuem um índice de impermeabilização médio de 80% (cálculos feitos a partir da combinação de dados de sensoriamento remoto de alta e média resolução espacial) – o uso do concreto permeável nas aplicações citadas poderia reduzir essa impermeabilização em pelo menos 10%, o que seria um grande avanço.

A substituição do pavimento asfáltico de ruas menores por blocos de concreto ou ainda pelos antigos paralelepípedos também é uma solução interessante para melhorar a permeabilidade do solo. Ruas de bairros, com baixo tráfego de veículos e onde não há o tráfego de veículos pesados, permitem facilmente essa mudança, sem qualquer tipo de prejuízo para os moradores. Alguns fabricantes de blocos para pavimentação produzem peças coloridas, o que traria um charme a mais para os bairros, fugindo da monotonia do calçamento em tons de cinza e preto. Uma outra vantagem dos pavimentos em blocos e paralelepípedos é a facilidade de remoção e recolocação para a execução de obras subterrâneas – como já comentei em posts anteriores, pela falta de planejamento de nossas cidades sempre haverá a necessidade de cavar uma vala para a instalação de alguma rede de tubulações subterrâneas.

Observem que nenhuma das propostas citadas exigirá investimentos faraônicos (justamente por isso são tão difíceis de sair do campo das idéias) – as cidades estão em constante processo de mudança e manutenção nas ruas e calçamento dos passeios públicos: basta substituir os materiais que serão usados na recomposição. Já as pequenas áreas verdes, essas implicam mais em um processo de educação ambiental do que em custos para as cidades.

Continuamos no próximo post.

TELHADOS VERDES: UMA CHARMOSA OPÇÃO PARA RETENÇÃO DE ÁGUAS PLUVIAIS

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O Governo da França acaba de aprovar uma lei que obriga, dentro das possibilidades técnicas, a instalação de painéis solares ou os chamados telhados verdes nos edifícios das cidades francesas. Os painéis solares são uma opção ecologicamente correta para a geração de energia elétrica; os telhados verdes têm múltiplas funções: ajudar a controlar os níveis de poluição nas cidades, criar áreas recreativas e contemplativas para o lazer da população, controlar as ilhas de calor comuns em áreas urbanizadas e, algo que muito nos interessa aqui no Brasil, atuar como um dispositivo de retenção das águas pluviais.

O crescimento desenfreado dos grandes centros urbanos em todo o mundo, com grandes construções de concreto e aço, forma as chamadas ilhas de calor, onde as temperaturas médias são mais altas que as temperaturas das regiões periféricas; estudos têm demonstrado que essas ilhas de calor ficam sujeitas a chuvas mais fortes que as regiões periféricas próximas. Outro problema comum nas grandes cidades é a impermeabilização dos solos por concreto e asfalto – sem áreas de infiltração e retenção, grandes enxurradas se formam e enchentes localizadas podem ocorrer. Em grandes cidades brasileiras onde já faltam infraestruturas de drenagem de águas pluviais, os problemas tomam dimensões catastróficas.

Os telhados verdes, que nada mais são que áreas ajardinadas instaladas nas lajes de casas e edifícios, estão se popularizando em grandes cidades de todo o mundo como uma solução localizada para a retenção temporária de grandes volumes de águas pluviais. Imagine, por exemplo, que a cobertura de uma edificação com uma área de 1.000 m² seja transformada em um grande jardim. Se intuirmos que durante uma chuva forte esse jardim consiga reter uma lâmina de água com 5 centímetros de altura (o que equivale a 50 litros de água em cada metro quadrado de jardim), a retenção total de água será de 50.000 litros – esse volume de águas retido temporariamente na cobertura do edifício deixa de se juntar a água que escorre nas sarjetas, aliviando a pressão sobre a rede de drenagem de águas pluviais. Quanto maior o número de edificações com telhados verdes, maior o alívio global sobre a rede de drenagem pluvial. Conforme a disponibilidade de área na edificação, reservatórios podem ser instalados para armazenar essa água de chuva para usos não potáveis como limpeza, regas de jardins e uso em descargas sanitárias.

A implantação de telhados verdes depende de uma avaliação da capacidade estrutural da edificação, que conforme o caso precisará receber reforços. A laje da cobertura recebe uma manta impermeabilizante; depois é aplicada uma camada de solo fértil de textura leve, uma rede de contenção e um sistema de drenagem. As plantas selecionadas devem resistir a altas temperaturas, a baixa umidade do solo nos períodos de seca e também suportar os momentos de inundação nos dias de fortes chuva.

As múltiplas utilidades de um telhado verde são facilmente comprovadas – a foto que ilustra esse post mostra o jardim instalado na cobertura do Edifício Matarazzo, onde funciona a Prefeitura da Cidade de São Paulo. A região central da cidade, onde fica o Edifício, chega a ter temperaturas até 10° C acima da temperatura das regiões extremas do município onde há densa cobertura de Mata Atlântica. Medições feitas em edifícios sem telhado verde próximos do Edifício Matarazzo indicaram temperaturas médias 5,3° C superiores, umidade relativa do ar até 16% inferior e um nível de absorção radiação solar superior em até 30%. Em resumo: edificações com telhados verdes são mais confortáveis para se viver e/ou trabalhar, tem menor gasto energético com sistemas de ar condicionado, tem valor de mercado acima de edificações similares sem o dispositivo, permitem o armazenamento da água da chuva para reaproveitamento em usos não potáveis do edifício, além de contribuir numa significante melhoria no visual das cidades.

Esse post mostra que nem tudo na área de saneamento básico precisa ser uma grande chatice para ser funcional e bonito.

AS LIÇÕES DO FURACÃO MATTHEW

matthew

Acompanhamos com muita apreensão o avanço do furacão Matthew, que segue desde a região do Caribe rumo ao norte, atingindo a costa leste dos Estados Unidos. No momento em que escrevo, chegam informações que o Matthew atingiu o estado da Carolina do Sul com a intensidade 1 (em uma escala de força que vai até 5). De todos os fenômenos meteorológicos, um furacão (ou tufão na região do Oceano Pacífico) é de longe um dos mais devastadores – chuva e vento fortes combinados tem um poder de destruição inimaginável.

O que chamou, de novo, a atenção para este furacão é a diferença no tamanho dos estragos que uma mesma mega tempestade faz em uma determinada região em relação a outra. Desta vez foi o paupérrimo Haiti, país mais pobre das Américas e ainda em fase de recuperação dos estragos do violento terremoto que atingiu esta parte da antiga Ilha Hispaniola em 2010, quem mais sofreu com a fúria de Matthew. Informações que chegam informam que mais de 900 pessoas morreram com a passagem da tempestade – imagina-se que o número real de vítimas será bem maior que as cifras já divulgadas; nos Estados Unidos, Matthew deixou em seu rastro 11 vítimas fatais. Mais uma vez, são os militares do Exército Brasileiro da criticada missão no Haiti, que estão à frente das equipes de resgate e atendimento às vítimas.

As imagens da destruição provocada pela passagem do furação no Haiti são impressionantes – grandes paisagens de escombros se sucedem num plano continuo, mostrando a razão do grande número de mortes já confirmadas. Vale lembrar que o grande terremoto de 2010 já havia reduzido grande parte da infraestrutura do país a ruínas e que, devido a precária situação econômica, muito pouco se reconstruiu. Nos Estados Unidos, ao contrário, Matthew encontrou cidades preparadas e populações treinadas para uma evacuação organizada, onde mais de 2 milhões de americanos abandonaram suas casas em áreas de alto risco e se deslocaram para regiões seguras; considerando-se que os três estados atingidos pelo furacão – Flórida, Geórgia e Carolina do Sul, tem uma população total de 35 milhões de habitantes, o número de vítimas fatais é extremamente baixo. Os estragos na infraestrutura das cidades atingidas pelo furacão também são pequenos e em poucas semanas a vida poderá voltar ao normal. A tragédia vivida principalmente pela população do estado da Luisiana em 2005 com a passagem do furacão Katrina, que destruiu a charmosa cidade de Nova Orleans e provocou mais de 1.000 mortes, serviu de lição para as autoridades americanas, sendo colocadas em prática antes da chegada de Matthew ao território dos Estados Unidos.

Há alguns anos atrás estive em algumas das cidades do estado da Flórida atingidas pelo furacão Matthew nesses últimos dias e confesso que fiquei impressionado com preparo para as situações de furacões e tempestades. Os americanos tem uma cultura de enfrentamento de adversidades climáticas e catástrofes de todos os tipos – as crianças desde a mais tenra idade recebem treinamentos nas escolas para evacuações em casos de incêndio, terremotos, nevascas, ciclones e furacões. As famílias possuem espaços nos porões de suas casas para o armazenamento de mantimentos, barracas, cobertores, lanternas (e armas e munições) para situações de emergência. Em Fort Lauderdale, por exemplo, observei trilhos instalados nas janelas das casas – em caso de aviso de furacão, os moradores vedam as janelas com placas de madeira encaixadas nestes trilhos; muitas casas apresentavam portas de aço de enrolar (como as portas das lojas) sobre as janelas e portas – em caso de emergência é só baixar essas portas de aço para proteger as casas. No Haiti, ao contrário, os habitantes só podiam contar com a proteção dos deuses…

Usei esse exemplo trágico e ainda em andamento para lembrar dos problemas que enfrentamos ano após ano nas previsíveis temporadas das chuvas aqui em nosso país. De intensidade muito inferior a um furacão de intensidade 1 (o mais fraco da escala), nossas chuvas sempre provocam tragédias enormes. Só para citar um exemplo – as enchentes e deslizamentos na região serrana do Rio de Janeiro em 2011, deixaram em seu rastro 916 mortos e 345 desaparecidos em Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo e outras cidades vizinhas: é praticamente o mesmo número de mortes já confirmadas pela passagem do furacão Matthew no Haiti.

É bom refletirmos muito sobre isso.