FALANDO UM POUCO SOBRE OS VETORES

mosquito

Verão chegando, chuvas frequentes, resíduos sólidos (especialmente os orgânicos), enchentes e descaso do poder público – a somatória de tudo isso nos força a acender uma luz amarela de atenção para um problema sanitário dos mais sérios: o controle dos vetores.

Qualquer ação antrópica, ou seja – realizada pelos seres humanos, no meio ambiente vai causar algum tipo de perturbação no meio natural. O delicado equilíbrio entre plantas, animais, insetos, fungos, bactérias, vírus e meio natural, conquistado ao longo de milhões de anos, é subitamente alterado e algumas populações de seres vivos tem sua população subitamente aumentada, com grande potencial de causar danos sobre as populações humanas.

Entre esses seres vivos existem alguns grupos que são chamados animais sinantrópicos – são animais e insetos que se adaptaram a uma vida próxima aos seres humanos independentemente da vontade desses, ao contrário dos animais que foram domesticados propositadamente. O maior exemplo são os ratos (chamados também de ratazanas e gabirus, conforme a região). Originário das estepes da Ásia Central, os ratos se aproximaram das antigas populações humanas em busca de alimentos. Acompanharam as longas migrações destas populações por extensos territórios e se instalaram nos subterrâneos das cidades que foram sendo criadas ao longo dos séculos. Embarcando como clandestinos em navios, se espalharam por todos os continentes, com exceção da Antártida. Restos de comida descartados no lixo doméstico são os principais responsáveis pelo sustento e manutenção das populações dos ratos urbanos que, por isso, merecem todo o nosso cuidado no descarte e no acompanhamento da sua destinação pelos serviços públicos de coleta. Só para relembrar, esses animais são transmissores da peste bubônica (transmitida por pulgas que morderam o rato) e da leptospirose, que é transmitida pela urina do rato especialmente através das enchentes.

Além dos ratos, a lista dos animais sinantrópicos inclui: abelhas, aranhas, baratas, carrapatos, escorpiões, formigas, lacraias ou centopeias, morcegos, moscas, mosquitos, pombos, pulgas, taturanas, vespas entre outros. Esses animais e insetos podem transmitir doenças e causar problemas à saúde do homem e dos outros animais – por isso, merecem especial atenção das autoridades da área de saneamento ambiental e da saúde, que devem desenvolver ações de controle e erradicação dessas verdadeiras pragas urbanas. Neste link do Centro de Controle de Zoonoses da Cidade de São Paulo você terá acesso a uma lista completa das doenças e problemas de saúde que podem ser provocados por esses insetos e animais.

Quero destacar um grupo de insetos em particular, que ao longo dos últimos anos vem causando sérios problemas de saúde à grande parte da nossa população e que estão totalmente associados ao saneamento ambiental: os mosquitos.

No seu ciclo de vida, um mosquito passa por uma metamorfose completa, passando pelas fases de ovo, larva, pupa e, finalmente, chegando à fase adulta. As três primeiras fases da vida de um mosquito dependem da presença de água parada – resíduos descartados de forma irregular acumulam as águas das chuvas e se transformam em verdadeiros berçários para as diversas espécies de mosquitos, com destaque para as espécies Aedes aegypti e Anopheles.

O famoso e temido mosquito Aedes aegypti é um dos vetores mais disseminados no território brasileiro e causador das epidemias de dengue há várias décadas e, mais recentemente, passou a transmitir também a Zika e a febre Chikungunya. O mosquito Anopheles, representado por dezenas de espécies no Brasil, é o principal transmissor da malária, especialmente na região amazônica. De acordo com a Revista Veja, até o dia 11 de junho de 2016 foram registrados no Brasil 165.932 casos suspeitos de zika, dos quais 66.180 já foram confirmados, 1.345.286 casos prováveis de dengue e 137.808 casos prováveis da febre Chikungunya, dos quais 32.679 foram confirmados. A mesma publicação informa que foram confirmadas este ano 318 mortes por dengue, 3 mortes por Zika e 17 mortes por febre Chikungunya.

A principal forma de combater todas essas doenças é eliminar os criadouros dos mosquitos – os recipientes que acumulam as águas das chuvas (destaque para os resíduos sólidos e da construção civil descartados irregularmente) e também os reservatórios domésticos de água (caixas d’água, tambores, baldes e latas). Todos nós precisamos arregaçar as mangas e fazer a nossa parte, eliminando qualquer tipo de reservatório que possa acumular água das chuvas e tampando corretamente os reservatórios domésticos de água, sem ficar esperando as providências das “otoridades”.

Sem esse esforço de todos, o “bicho” vai pegar nesse Verão.

RESÍDUOS SÓLIDOS, CHUVAS E ENCHENTES, OU RELEMBRAR É VIVER

alagamento

Estamos a poucos dias do início oficial do Verão, mas as típicas chuvas do período já chegaram com força – somente no Estado de Minas Gerais 7 pessoas morreram nas últimas 24 horas em decorrência das enchentes, deslizamentos e da falta de prevenção e de planejamento na execução de obras contra os efeitos da chuva. Infelizmente, entra ano e sai ano e as coisas não mudam.

Uma imagem dos telejornais que me chamou a atenção mostrava um rapaz com água acima dos joelhos tentando desobstruir um dreno que estava tomado por sacos de lixo em uma rua de Belo Horizonte  – ao redor, dezenas de pessoas se esforçando para vencer o alagamento ou buscando refúgio e locais mais altos. Como costumo citar com “irritante” frequência nas minhas postagens, os resíduos sólidos têm grande responsabilidade na formação de pontos de alagamentos localizados. Moradores das cidades, preocupados em descartar rapidamente os resíduos sólidos gerados em suas casas, colocam os sacos plásticos na rua em horários que antecedem em muito a passagem das equipes de coleta – expostos, esses sacos plásticos acabam rasgados e revirados por animais que procuram alimentos, por catadores de sucata em busca de latas de alumínio e outros materiais recicláveis, caem dos suportes ou dos muros por força do vento – em períodos de fortes chuvas esses resíduos são arrastados pelas enxurradas e acabam bloqueando as bocas de lobo e as grelhas que drenam as águas pluviais: os resultados são conhecidos por todos – os pontos de enchentes se multiplicam pelas cidades.

Também entram nessa conta os resíduos que são jogados nas ruas despreocupadamente por muitos moradores: são as embalagens de alimentos, os palitos de sorvete, as garrafas PET de sucos e refrigerantes, restos de feira entre outros. Esses resíduos podem parecer pouca coisa, mas uns poucos quilogramas têm potencial para obstruir uma boca de lobo e causar um estrago enorme num momento de chuva forte.

Mas não são apenas resíduos pequenos que são lançados irresponsavelmente nas ruas e logradouros públicos da cidade: móveis, eletrodomésticos (inclusive geladeiras), restos de materiais de construção e entulhos: minutos atrás, voltando da padaria, encontrei um velho sofá de dois lugares que alguém largou na calçada de uma das avenidas mais importantes do bairro – basta uma chuva forte para arrastar esses resíduos de grande porte para o meio das vias de tráfego, expondo motoristas e passageiros dos veículos a riscos sérios de acidentes, além de provocar o entulhamento dos sistemas de drenagem das águas pluviais.

Até alguns anos atrás, pneus velhos representavam uma parte expressiva dos resíduos jogados aleatoriamente nas ruas e terrenos baldios das cidades. Após alteração na legislação, foi introduzido o processo de Logística Reversa nas indústrias de pneumáticos – quando um proprietário de veículo faz a troca dos pneus, o revendedor fica obrigado a devolver os pneus velhos para o fabricante, que tem a responsabilidade de realizar o descarte correto dos resíduos: hoje em dia grande parte desses pneus velhos são triturados e adicionados na massa asfáltica usada na pavimentação de ruas, avenidas e rodovias – outra parte dos resíduos é queimada, gerando a energia usada nos fornos de  produção de cimento. Seria de um excepcional ganho para o meio ambiente a introdução efetiva do mecanismo de Logística Reversa nas lojas e fabricantes de móveis e de eletrodomésticos, estimulando os consumidores a descartarem corretamente os produtos antigos. Algumas lojas até fazem esse trabalho por conta própria, mas o ideal é que todos os envolvidos nessa cadeia de produção e de comercialização o fizessem.

Enquanto muitas dessas ideias ficam apenas no campo das “boas intenções”, cabe a cada cidadão fazer a sua parte: colocar os resíduos nos horários programados para passagem do caminhão da coleta, buscar os Ecopontos estabelecidos pelas Prefeituras para o descarte de resíduos de grande porte e de entulhos da construção civil (que em algumas cidades representam 70% do total dos resíduos produzidos), não jogar lixo na rua e, principalmente, denunciar os infratores ao poder público.

Isso tudo pode parecer clichê – é tão clichê quanto as enchentes, prejuízos e mortes anuais de todos os Verões…

O TEMIDO CHORUME

baia-de-sepetiba

Matéria mostrada no Jornal da Band no dia 12 de dezembro tem tudo a ver com o tema de hoje: o chorume. A reportagem mostrou a contaminação da Baia de Sepetiba, no Estado do Rio de Janeiro (mostrada na imagem deste post) por chorume, que é lançado intencionalmente em um rio pelo aterro sanitário da cidade de Seropédica. O aterro instalou uma tubulação com extensão total de 5 quilômetros, que lança os resíduos no Rio da Guarda e este deságua na Baia. Ambientalistas informaram que mais de cem pescadores já foram afetados e que até 100 mil litros de chorume podem ter infiltrado no solo e contaminado o aquífero Piranema, responsável pelo abastecimento de 600 mil pessoas. A operadora responsável pelo aterro informou que “recebeu autorização do IBAMA para fazer o descarte desse chorume no rio”. Desculpa difícil de engolir.

O chorume é um líquido poluente, de cheiro nauseante e de cor escura, resultante dos processos de decomposição biológicos, químicos e físicos dos resíduos orgânicos. Com a ação das águas das chuvas, esse líquido se mistura a todo o tipo de materiais e produtos químicos presentes nos resíduos de um aterro sanitário ou de um lixão, possuindo um alto poder de contaminação do meio ambiente. É preciso ressaltar que esse chorume tóxico é diferente do biochorume, que é o líquido resultante do processo de compostagem dos resíduos orgânicos puros e que pode ser usado como fertilizante líquido.

As águas superficiais e subterrâneas são as principais vítimas da contaminação por chorume, podendo acarretar em sérios riscos de intoxicação para as populações que consomem essas águas. Entre outros elementos químicos, metais pesados tóxicos são encontrados no chorume: cádmio, arsênico, cromo, cobalto, cobre, mercúrio e chumbo – esses metais pesados são acumulados pelo organismo e provocam diversas doenças nos seres humanos. Entre as enfermidades mais comuns associadas à contaminação por metais pesados destacam-se as diarreias, tumores no fígado e tireoide, dermatoses, problemas pulmonares, rinite alérgica, alterações gastrointestinais e neurológicas.

O descarte de resíduos sólidos urbanos em lixões tem como consequência a lixiviação de chorume sem nenhum tipo de contenção, podendo infiltrar no solo e contaminar as águas subterrâneas, como ocorre no aterro em Seropédica, ou escorrer sobre o solo e atingir as fontes superficiais de água, com destaque preocupante dos reservatórios de água para fins de abastecimento. Já na construção dos aterros sanitários existe todo um cuidado com a impermeabilização do solo com argila e manta plástica, além da criação de condutos que receberão e direcionarão os fluxos de chorume na direção de tanques de contenção, onde o líquido ficará armazenado.

O chorume precisa passar por um processo de tratamento similar ao usado para o tratamento dos esgotos, podendo ser transportado através de caminhão pipa até uma ETE – Estação de Tratamento de Esgotos, onde receberá o mesmo tratamento dado aos esgotos sanitários da cidade; em aterros sanitários onde existe uma produção muito grande de chorume é mais viável a construção de uma estação de tratamento dedicada, onde são utilizados tratamentos aeróbios e/ou anaeróbios em reator fechado.

A composição química do chorume nunca é fixa e varia ao longo do tempo. Conforme aumentam as quantidades de resíduos, de água que infiltra no aterro e também quando tipos de resíduos diferentes passam a ser depositados no aterro, novos elementos químicos entram na composição do chorume, sendo necessário um acompanhamento frequente através de testes em amostras coletadas nos tanques de contenção. Dependendo da composição química identificada, os processos de tratamento em uso podem se mostrar inadequados e poderá ser necessária a implantação de outras tecnologias para o tratamento do chorume como o uso de tecnologias bioquímicas, enzimas especiais e eletrólise assistida por fotocatálise.

Os problemas com os resíduos sólidos não terminam no momento em que você coloca os sacos de lixo na rua para a coleta – eles persistem ao longo do tempo e o cuidado com o chorume deve ser constante. Fique sempre de olho!

USINAS DE COMPOSTAGEM, OU TRANSFORMANDO RESÍDUOS ORGÂNICOS EM ADUBO

compostagem

No dia 31 de agosto de 2004, a população do bairro da Vila Leopoldina, na Zona Oeste da cidade de São Paulo, teve motivos de sobra para realizar um “carnaval fora de época”: depois de 30 anos de intensas reclamações e de inúmeros abaixo-assinados, a Secretaria de Serviços e Obras da cidade desativou a Usina de Compostagem que funcionava no bairro. Ocupando uma área total de 54 mil metros quadrados, a Usina de Compostagem da Vila Leopoldina recebia uma média de 800 toneladas diárias de resíduos orgânicos para tratamento – o cheiro exalado era simplesmente insuportável. O local foi transformado em uma área verde aberta ao público – o contaminado solo do local continua liberando gases com mal cheiro até hoje.

A compostagem, em resumo, consiste em todo um conjunto de técnicas que possibilitam acelerar a decomposição biológica dos resíduos orgânicos, transformando-os num adubo de excelente qualidade conhecido como terra preta ou húmus. É considerada a melhor destinação para os resíduos orgânicos e deve ser incentivada ao máximo como forma de se reduzir a quantidade de resíduos que chegam diariamente aos lixões e aterros sanitários, muitos deles próximos do limite de saturação. Agora, o que não pode acontecer é algum genial administrador público resolver instalar uma usina de compostagem num bairro residencial bem no meio da cidade como aconteceu na Vila Leopoldina.

Desde os primórdios tempos do início da agricultura, os seres humanos intuitivamente perceberam que as plantas cultivadas necessitavam de “alimentos” para crescer e dar frutos. Os antigos egípcios entenderam a importância da adubação dos solos e esperavam o fim das cheias do Rio Nilo para plantar nos solos recobertos naturalmente por matéria orgânica trazida pelas águas; os chineses já faziam a compostagem na agricultura há mais de 5.000 anos. Aqui no Brasil existem e são utilizadas até hoje imensas áreas da Floresta Amazônica conhecidas como terra preta de índio – são manchas de terra que foram enriquecidas com todo o tipo de resíduos orgânicos e cinzas,  usadas pelas antigas tribos indígenas amazônicas para a produção de alimentos como o milho e a mandioca.

A compostagem começa com a correta separação dos resíduos orgânicos ainda nas residências, evitando a contaminação com outros tipos de resíduos. Estudo realizado pela Usina de Compostagem de Irajá, no Rio de Janeiro, demonstrou o resultado dessa contaminação – metais pesados estão presentes em até 5% do volume de adubo produzido. Como comentado no post anterior, os resíduos orgânicos devem ser separados e colocados em um saco plástico ou recipiente exclusivo, que deve ser mantido fechado. As equipes que realizam os serviços públicos de coleta devem lançar os resíduos no compartimento próprio do caminhão, evitando a mistura com os demais resíduos segregados e agrupados como papel, vidro, plástico e metais (considerando-se que está sendo feita a coleta seletiva de resíduos). Os resíduos recicláveis devem ser transportados até uma área de transbordo, onde será feita uma separação mais refinada e os resíduos orgânicos devem seguir para a usina ou área de produção de compostagem.

A forma mais simples de se realizar a compostagem é a formação de montes piramidais de resíduos conhecidos por leiras, com uma altura máxima de 1,5 metros. Com temperatura e umidade constantes, colônias de micro-organismos realizarão a transformação dos resíduos em adubos. Outra técnica, de resultado mais lento, consiste em enterrar os resíduos em uma vala, que será coberta com uma fina camada de terra. O tempo de decomposição vai variar de 3 meses até 2 anos. Em ambos os casos será necessário revolver os resíduos frequentemente para aerar o material. As composteiras são estruturas mais elaboradas, onde os resíduos ocupam compartimentos com fundo formado por telas – o húmus produzido escorre para um recipiente inferior (a tela funciona como uma peneira), facilitando a separação e a coleta. As composteiras também possuem um recipiente para a coleta e armazenamento do chorume, líquido que devidamente diluído em água se transforma em um excelente adubo líquido. Existem atualmente diversos modelos de composteiras residenciais (que utilizam minhocas californianas) para a produção caseira de húmus – recomendo que vocês pesquisem isso na internet.

Até o nosso  próximo post.

OS RESÍDUOS ORGÂNICOS

cachorro

Eu trabalhei por 16 anos (como funcionário e depois como prestador de serviços) para uma grande multinacional holandesa. Frequentemente, funcionários eram enviados para treinamento na matriz na cidade de Eindhoven ou outras cidades holandesas onde a empresa possuía fábricas ou centros de pesquisa. Alguns destes treinamentos eram bastante longos e muitos funcionários acabavam levando toda a família. Entre outros problemas culturais, essas famílias se deparavam com uma regra referente à coleta dos resíduos orgânicos: cada família tinha direito a uma cota semanal entre 1 e 2 kg de resíduos por semana, o que era desesperador para os brasileiros que não conseguiam cumprir essa cota e pagavam multas. Um colega pernambucano, muito “arretado” em suas próprias palavras, não teve dúvidas – sabendo que as famílias holandesas em geral nunca atingiam a cota semanal de resíduos, fez questão de fazer amizade com todos os vizinhos logo que se mudou para uma dessas cidades e depois, valendo-se dessa “amizade”, saía distribuindo seu lixo excedente na cota da vizinhança. 

Aqui no Brasil, nossos problemas são bem maiores e ainda estamos engatinhando na gestão dos resíduos orgânicos:

Os resíduos orgânicos representam, em média, 50% do volume de resíduos gerados pelas famílias brasileiras. São definidos biologicamente como as matérias de origem animal ou vegetal e geologicamente como compostos de origem orgânica que são encontrados na superfície do solo. Esses resíduos incluem restos de alimentos preparados e ingredientes estragados; talos, cascas e sementes de frutas e vegetais; folhas e galhos de plantas e afins. Os papéis, que são feitos a partir de fibras vegetais, também entram nessa classificação, porém como já tratado em um post anterior, devem ser segregados e encaminhados para reprocessamento nas indústrias produtoras de papel.

Como se trata de matéria orgânica, são resíduos passíveis de decomposição e merecem cuidados especiais, preferencialmente sem muita demora. A decomposição dos resíduos orgânicos envolve processos físicos e químicos. Os processos físicos são realizados por insetos e vermes como formigas, besouros, minhocas, lesmas e caracóis que se alimentam dos resíduos e os transformam em partículas pequenas. Os processos químicos são realizados por micro-organismos de todos os tipos, incluindo bactérias, protozoários e fungos, que degradam os resíduos em partículas microscópicas, liberando gases como dióxido de carbono e água.

Uma regra geral da biologia diz que se existe alguma coisa para ser comida sempre aparecerá algum ser vivo para comer – logo, sacos e latas de lixo, e também os lixões e aterros sanitários, serão vistos com verdadeiros espaços gourmet por todo o tipo de criaturas: gatos, cães, urubus, ratos, baratas, formigas e outros insetos e vermes – incluindo-se aqui também seres humanos menos abastados. Algumas dessas criaturas são classificadas como “vetores” e conhecidas por transmitirem todos tipos de patologias – os ratos, só para citar, são transmissores da leptospirose (transmitida pela urina do animal especialmente em momentos de enchentes). Dependendo da forma como nós descartamos os resíduos orgânicos, poderemos estar alimentando os vetores que trarão doenças para as nossas vidas – ou seja, estaremos sustentando e cuidando dos nossos “inimigos” biológicos.

Os cuidados com o descarte dos resíduos orgânicos devem começar em nossas casas – os recipientes que recebem esses resíduos devem ser tampados ou fechados, evitando-se a atração de insetos e animais – inclusive nossos animais domésticos. Como são materiais que entram em decomposição rapidamente, deve-se evitar que fiquem muito tempo dentro de nossas casas – a decomposição por micro-organismos libera gases como o metano, que tem um cheiro bastante desagradável. A colocação dos sacos plásticos ou recipientes para a coleta nas ruas deve ser sincronizada com a estimativa de chegada dos caminhões de coleta – se colocados em horários inadequados, esses resíduos ficarão expostos a ação de cães, gatos e outras criaturas em busca de alimentos. Também é importante lembrar que em dias de chuva, sacos e recipientes com resíduos podem ser arrastados pela enxurrada,  resultando em pontos de alagamento.

Nos locais de destinação final dos resíduos orgânicos como os aterros sanitários e lixões, os responsáveis devem ser ágeis na disposição e cobertura dos resíduos com terra, controlando a quantidade dos inevitáveis “predadores”, o mal cheiro exalado pela decomposição dos resíduos, além do controle do chorume liberado.

Vamos continuar no próximo post. Até!

REUTILIZANDO LATAS, LATINHAS E LATÕES

latas

Existe muita confusão entre reciclagem e reutilização. Vou aproveitar o assunto das embalagens de aço para esclarecer um pouco as coisas.

Reciclar significa, literalmente, recomeçar um ciclo – no caso dos materiais, reciclagem remete ao início do ciclo de produção: garrafas de vidro voltam aos fornos para derretimento e posterior remoldagem ou sopro em diferentes formatos do vidro, papel e papelão são transformados em pasta de papel e reprocessados, plásticos são triturados e recebem resinas para a produção de diferentes tipos de plásticos reciclados. No caso das sucatas de metais (ferrosos e não ferrosos) também há o derretimento em fornos e o metal liquefeito é laminado em placas planas ou em barras, tubos, perfis, fios e outros produtos siderúrgicos e metalúrgicos.

Reutizar significa dar novo uso a um produto ou resíduo, adaptando algumas de suas características para um novo uso. No caso das latas, latinhas e latões isso significa cortar, remodelar, furar, pintar, soldar, rebitar e demais processos afins.

Um dos reusos mais simples para as latinhas de aço que consigo lembrar são as canequinhas – é rebitada uma alça numa lata sem tampa e sem rebarbas, que passa a ser usada para tomar leite e café: nas lembranças das férias da infância no sítio dos meus avós estão presentes algumas canecas de latas – ainda hoje é fácil de encontrar essas canecas em mercados populares de regiões interioranas. Muito em moda em tempos mais recentes é a produção de brinquedos a partir do uso de diferentes tipos de latas, como no caso da imagem que ilustra este post. Sejam feitos diretamente pelas crianças num processo lúdico ou por artesãos com técnica mais refinada, esses brinquedos são excelentes ferramentas de educação ambiental.

As latinhas também podem ser encontradas em todo o tipo de artesanato, onde após receber pintura, colagens e outros acabamentos passam a funcionar como porta trecos diversos: talheres, lápis e canetas, parafusos, temperos etc. ou modificadas para uso como vasos, luminárias, enfeites e tudo mais que a criatividade permitir.

Lata d’água na cabeça” diz o refrão da clássica música da cantora Elza Soares e nos remete ao uso mais popular das latas grandes usadas para a venda de óleo e de tintas, que limpas e sem tampas eram e ainda são preciosos vasilhames para o transporte e armazenamento de água nas comunidades mais carentes ou em regiões com falhas no abastecimento da rede de água. Cortadas, furadas, dobradas e trabalhadas de diferentes maneiras, as latas grandes viram churrasqueiras, formas de bolos e todo o tipo de utensílios domésticos, brinquedos e artesanatos que se possa imaginar.

Os grandes latões e tambores metálicos entraram definitivamente na moda: na recente crise hídrica que assolou a Região Metropolitana de São Paulo, para citar um único exemplo, quem dispunha de um desses tambores em casa podia ser considerado felizardo – com uma capacidade entre 100 e 200 litros, esses recipientes representavam uma reserva preciosa de água para os momentos frequentes de falha no abastecimento. Churrasqueiras com tampa feitas com um tambor cortado ao meio se transformaram em uma sensação e objeto do desejo dos amantes de uma boa mesa: aliar a ecologia aos prazeres de uma boa carne é tudo de bom para esse grupo. De design mais sofisticado, os móveis feitos com tambores têm conquistado admiradores em todas as camadas sociais – são cadeiras, mesas, armários e poltronas refinadas, que concorrem em condições de igualdade com as melhores peças à venda nas lojas especializadas.

A reutilização e a reciclagem são fundamentais em nosso mundo, cada vez mais frágil e debilitado pela exploração incessante dos recursos naturais. A esses dois conceitos deve ser incluído um terceiro – a redução. A redução do consumo, a reutilização de resíduos e de produtos e a reciclagem ampla dos resíduos formam o conceito conhecido como 3R, usado amplamente na educação ambiental.

Reduzir, reutilizar e reciclar – três grandes idéias que devem fazer parte do nosso dia a dia.

 

RECICLANDO AS LATAS, OU FALANDO DE ICEBERGS E TRANSATLÂNTICOS

siderurgia

Problemas ambientais são muito parecidos com icebergs, aquelas gigantescas montanhas de gelo flutuante que representam um enorme risco para os navios (o Titanic que o diga): normalmente se consegue ver apenas a ponta do iceberg acima da superfície da água, mas o verdadeiro risco está submerso: 80% da massa de gelo fica abaixo da superfície do mar; se você assistiu ao filme que conta a história deste famoso transatlântico que afundou em 1912, vai lembrar que foi o impacto contra o gelo submerso que rasgou a estrutura de aço da embarcação, resultando no naufrágio do navio e na morte de 1.514 pessoas (número oficial). A moral da história no nosso contexto é: problemas ambientais, assim como icebergs, não podem ser subestimados.

Quem leu os meus últimos posts falando sobre alguns dos problemas associados à indústria das embalagens de aço, conhecidas popularmente como latas (mineração, derrubada de matas nativas para a produção do carvão vegetal inclusive com uso de mão de obra infantil e a recuperação das áreas devastadas por atividades mineradoras) vai achar o texto de hoje extremamente “light”, pois estaremos falando do final da cadeia produtiva do aço.

Vamos aos números: considerando dados disponíveis do ano de 2012, a produção total de aço no Brasil corresponde a aproximadamente 3,5 milhões de toneladas/ano, sendo que aproximadamente 600 mil toneladas  foram destinadas à produção de embalagens de aço, o que corresponde a um quarto do consumo total. Aproximadamente 47% das embalagens de aço produzidas no Brasil são recicladas, incluindo-se neste universo as populares latas de alimentos como carnes, peixes, vegetais, doces, molhos, bebidas, tintas e massa corrida e os mais diferentes tipos de produtos químicos; inclui-se neste montante as tampas de aço destas embalagens.

Esses números são ao mesmo tempo animadores, pois indicam que quase metade das embalagens de aço são recicladas, e preocupantes pois mais da metade destas embalagens são descartadas ou diretamente no meio ambiente ou enviadas para os aterros sanitários e lixões. O aço é o material mais reciclado do mundo, com um volume anual de 385 milhões de toneladas. Aproximadamente um quarto do aço novo produzido é originário das sucatas recuperadas.

A coleta seletiva de materiais feita pelos próprios consumidores é o melhor caminho para aumentar o percentual da reciclagem – o valor de mercado pago aos coletores/recicladores de materiais pelo quilograma de sucatas em geral (onde se incluem as embalagens de aço) é de apenas R$ 0,20; uso os valores pagos pelas empresas de reciclagem próximas da minha casa – esses valores variam muito de uma região para outra. Como citei em post anterior quando comparei as diferenças de volumes na reciclagem das latinhas de alumínio em relação às garrafas plásticas PET, o baixo valor pago pelas sucatas ferrosas não estimula a sua coleta. Numa certa ocasião eu dispunha de mais de 100 kg de restos de tubos de aço carbono para descarte, que foram oferecidos para um catador de recicláveis que apareceu na empresa: o homem simplesmente afirmou que “não iria se matar carregando todo aquele peso na sua carrocinha para ganhar uma miséria”; por falta de melhor opção na época, a sucata acabou descartada no lixo comum.

Diferente dos materiais plásticos que precisam passar por um processo prévio de seleção (lembrando que cada um dos tipos de resíduos plásticos serve para reutilização em diferentes tipos de produtos), as sucatas de materiais ferrosos (eletroímãs são usados para separar os metais ferrosos dos não ferrosos) não apresentam qualquer tipo de discriminação – todo o material recuperado e entregue nas usinas de fundição segue diretamente para fornos com temperatura média de 1.550° C. Quando atingido o ponto de fusão, o metal liquefeito pode ser laminado em chapas ou moldado em peças para uso nos mais diferentes setores industriais; as sucatas também podem ser misturadas ao aço novo produzido pelas usinas siderúrgicas.

As características físicas do aço reciclado são idênticas às do aço novo, o que possibilita a reciclagem infinita dos materiais metálicos, sem implicar em qualquer prejuízo na qualidade dos produtos que serão fabricados com esta matéria prima. O descarte inadequado das embalagens de aço (e do aço em geral) não trará grandes impactos ambientais devido à deterioração, mais rápida ou mais lenta, dos metais ferrosos na natureza – latas comuns se deterioram em 5 anos e o outrora poderoso Titanic jaz em lenta decadência no fundo do mar. A reutilização de toda a sucata de aço é muito mais racional a fim de se evitar a necessidade de novas retiradas de minérios do solo, o que sempre causa danos irreparáveis ao meio ambiente.

Portanto, fique de olho na destinação das suas latas – a natureza sempre agradece!

A HISTÓRIA DAS EMBALAGENS DE LATA

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A preocupação com o armazenamento e a preparação dos alimentos acompanha a humanidade desde os primórdios da espécie. As cabaças (palavra derivada do árabe kara bassasa) foi uma das primeiras plantas cultivada pelos seres humanos. Originárias da África, assim como nossos ancestrais Homo sapiens, as sementes da planta foram carregadas inicialmente para a Ásia, depois para a Europa e Américas, cultivadas principalmente para prover as famílias de um recipiente impermeável para o armazenamento de água, de grãos, óleos, essências e temperos como o sal. A dureza e a resistência das cabaças eram ideais para acompanhar nossos ancestrais nas suas intermináveis expedições de caça e coleta.

Com o nosso desenvolvimento cultural e tecnológico, vieram as cerâmicas, as peças em madeira entalhada, em pedra, em couro, em vidro, até finalmente chegarmos a era dos metais, tão raros e caros que foi somente na alta Idade Média que as populações mais pobres tiveram acesso a esse tipo de recipiente. Foi por volta do ano 1600 na Alemanha que alguns artesãos começaram a fabricar latas com o objetivo de armazenar alimentos secos como farinhas e grãos. Eram utilizadas folhas de zinco, chumbo e, particularmente, as folhas de ferro zincadas, um processo secreto criado na Bavária no século XI e guardado a sete chaves pelos governantes dos Estados Alemães.

No final do século XV o processo de fabricação dessas folhas metálicas lentamente começou a ser divulgado para o resto da Europa e, após alguns aperfeiçoamentos, surgiu a famosa folha de flandres – uma folha fina de ferro, isenta de ferrugem, que era mergulhada num tanque com estanho fundido, processo que criava um material resistente à corrosão e que passou a permitir o acondicionamento de alguns alimentos úmidos e óleos.

Em meados do século XVIII as tabacarias inglesas passaram a utilizar latinhas de folha de flandres para embalar rapé e tabaco. Porém, até o final deste século continuaram os receios com a utilização das latas para embalar alimentos úmidos e líquidos pois se temia a contaminação dos alimentos. 

Foi o imperador e famoso general Napoleão Bonaparte (1769-1841) o grande responsável pelo incentivo ao desenvolvimento e aperfeiçoamentos dos processos de enlatamento dos alimentos. Preocupado em desenvolver uma tecnologia que permitisse a conservação, transporte e armazenamento de alimentos para as suas tropas militares, Napoleão Bonaparte criou um concurso, com alta premiação a quem apresentasse uma alternativa prática e segura. O vencedor da premiação foi Nicholas François Appert (1750-1841), que desde o ano de 1795 vinha desenvolvendo experimentos de esterilização de alimentos em frascos de vidro hermeticamente fechados, fervidos em água quente por um curto espaço de tempo. Appert observou que alimentos acondicionados em latas e fervidos também conservavam suas características e duravam por um longo período. Em 1810, Napoleão Bonaparte entregou pessoalmente a Appert o prêmio de 12.000 francos, dinheiro usado pelo inventor para iniciar a primeira empresa comercial de alimentos enlatados do mundo.

Em 1852, um sobrinho de Appert, Raymond Chevallier-Appert patenteou o sistema autoclave, que usava a pressão e vapor em altas temperaturas para esterilizar os alimentos com maior eficiência, e também o manômetro, instrumento que permitia controlar a pressão e a temperatura destas autoclaves. Em 1855, foi patenteada uma invenção que tornou o consumo dos alimentos e demais produtos enlatados ainda mais simples: o abridor de latas criado pelo inglês Robert Yates. Em 1866, o americano J. Osterhoudt simplificou ainda mais o processo de abertura com a criação das latas com ranhura e com uma chavinha de arame fixa.

Ao longo de todo o século XIX diversos cientistas se dedicaram ao estudo da conservação dos alimentos, com atenção especial ao processo do enlatamento, que todos sabiam funcionar, sem que ninguém entendesse exatamente o porquê. Destacam-se os estudos do químico Joseph Louis Gay Lussac (1778-1850) e de Louis Pasteur (1822-1895), que em 1862 comprovou que eram os micro organismos presentes nos alimentos os causadores da deterioração e que o calor aplicado aos alimentos já enlatados matava esses organismos, que não conseguiriam recolonizar o ambiente por causa do fechamento hermético das latas.

O século XIX com a colonização do Oeste americano e de grandes extensões da América do Sul e da África, além de diversos conflitos armados, deu um grande impulso para as empresas processadoras de alimentos e produtos enlatados, estimulando o aperfeiçoamento dos processos de preparação, fechamento, esterilização e distribuição dos produtos enlatados. O século XX, com duas Grandes Guerras – a Primeira entre 1914 e 1918, e a Segunda entre 1939 e 1945, entre outros grandes conflitos regionais, elevou a produção e o consumo de produtos enlatados a níveis inimagináveis no século anterior, popularizando esse tipo de embalagem em todo mundo.

Continuaremos no próximo post.

CADÊ O MORRO QUE ESTAVA AQUI? OU OS PROBLEMAS DA MINERAÇÃO

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Pode até parecer um “causo” daqueles contados por gente do interior do país, mas trata-se de uma história verídica: no final de 1997, assumi o cargo de gerente de vendas e marketing de uma empresa de iluminação – um dos maiores revendedores da empresa ficava em Belo Horizonte e frequentemente tinha de ir até esta cidade; normalmente fazia esse percurso de carro a partir de São Paulo.

Desde a minha primeira viagem, passei a prestar atenção em um morro, já bem perto de Belo Horizonte, onde uma mineradora extraía minério de ferro – a cada viagem era possível observar alguma mudança e se percebia nitidamente que o morro ficava menor. Deixei esse trabalho no início do ano 2.000 e fiquei uns bons anos sem repetir aquele trajeto; em 2013 fui convidado a participar de um evento em Ouro Preto e, para meu espanto, descobri que aquele morro simplesmente desapareceu, consumido pela retirada incessante de minérios.

Em resumo, é essa a atividade de mineração: localizada uma jazida minério (que é um mineral com importância econômica), é feito o dimensionamento das reservas, um plano de mineração para determinar a forma mais lucrativa de remover o minério – projetados os custos e o faturamento e havendo uma boa margem de lucro, é feito uma solicitação de lavra junto ao órgão responsável do governo. Como é uma atividade extremamente agressiva com o meio ambiente, essa autorização de lavra fica vinculada a um plano de recuperação ambiental: a montanha que a empresa fizer desaparecer, deverá ser “substituída” por uma floresta plantada.

Nem um de vocês precisa ser um expert em ciências ambientais para perceber que a substituição de uma montanha (numa analogia com a história que contei) por uma recomposição vegetal sobre o que restou do solo não será exatamente uma equivalência, a começar pelo tamanho da área. Se você imaginar uma montanha como um cone, a antiga área antes do evento da mineração corresponderia à superfície do cone – após a atividade da mineração ter sido concluída, a área que restou é apenas a base do cone: quando você está desenhando um cone, basta que a altura seja maior que 0 (zero) para que a área da superfície seja maior que a área da base; isso significa que a antiga área florestal que cobria a montanha era maior do que a área que sobrou e que vai ser reflorestada. Adicione-se a isso a geologia do solo que foi completamente destruída, alterando a velocidade dos ventos e o impacto das chuvas, as diferenças de altitude e seus reflexos na vida animal e vegetal, entre outras alterações.

Falando simplificadamente da recomposição ou replantio de uma área florestal, serão necessários ao menos 50 anos para que as árvores atinjam a fase adulta e se definam os diferentes estratos ou níveis da floresta: desde o vermes que vivem no subsolo até as aves que ocupam o dossel (copa superior das árvores). Você deve imaginar a floresta como um edifício com muitos andares – em cada um destes andares vivem criaturas diferentes: uma espécie de bromélia vai crescer, por exemplo, a 30 metros do solo e vai abrigar uma determinada comunidade de insetos; esses insetos serão predados por uma determinada espécie de ave, um determinado grupo de saguis irá beber da água acumulada nessa bromélia e uma determinada cepa de vírus só será encontrada ali – os vírus, aliás, serão os últimos colonos a chegar. Será que numa empresa mineradora com ações na bolsa de valores, com investidores ansiosos por lucros e executivos sedentos em receber a bonificação anual por bons resultados, haverá qualquer preocupação por uma cepa de vírus numa bromélia perdida no meio de um “matagal”?

Por mais verdadeiras e honestas que venham a ser as intenções dos profissionais de meio ambiente e de engenharia florestal envolvidos no processo de recuperação ambiental dessa área, é fácil perceber que “nada será como antes” nessa mata – qualquer que seja o resultado do processo de recuperação, ele nunca será suficiente para repor tudo o que foi perdido.

No próximo post vamos falar, por fim, das latas. Até mais!

FALANDO DE LATAS DE AÇO, OU OS MENINOS CARVOEIROS

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Comecemos com um pouco de poesia:

Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
— Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.

Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem…

Esses são os versos iniciais do antológico poema Meninos Carvoeiros, escrito em 1921 por um dos maiores poetas da história do Brasil – Manuel Bandeira.

Eu imagino que sua pergunta inicial é: o que tem a ver latas com meninos carvoeiros? Muita coisa – vou explicar:

Existe uma extensa faixa à leste do território do Estado de Minas Gerais (faixa existente também em estados da região Nordeste) conhecida por Zona da Mata – ironicamente, você vai ter de viajar por muitos e muitos quilômetros nessa região para conseguir avistar alguns fragmentos florestais remanescentes da antiga mata, a Mata Atlântica. E por que isso?

O Brasil, apesar de possuir algumas das maiores reservas de minerais ferrosos do mundo, é extremamente pobre em carvão mineral. Esse mineral, fundamental para a operação dos altos-fornos das empresas metalúrgicas e siderúrgicas, só é encontrado em minas na região sul do país, particularmente em Santa Catarina. Esse carvão brasileiro é de baixa qualidade, com baixo poder calórico e quantidade de elevada cinza – mais da metade do carvão mineral usado aqui no Brasil é importado.

Desde o início da atividade mineradora, com destaque ao ciclo do ouro nos séculos XVII e XVIII, o carvão vegetal foi o combustível que ardeu nos fornos, transformando os minerais extraídos do chão em metais – do cobiçado ouro ao ordinário ferro do dia a dia da população. E foram as árvores dos antigos domínios da Mata Atlântica que foram derrubadas e transformadas no carvão que alimentou ininterruptamente as fornalhas insaciáveis dos fornos mineiros. Respondendo ao mistério do desaparecimento da Mata: virou carvão.

Apesar de todos os esforços que são feitos até hoje pelo uso de carvão vegetal de florestas plantadas de eucaliptos, são muitas as pequenas produtoras de ferro gusa (ferro pré processado que vai para as grandes siderúrgicas) que ainda fazem vista grossa e compram o produto de carvoarias familiares que usam árvores derrubadas dos fragmentos florestais que teimam em sobreviver.

Com a escassez cada vez maior de matas, são as folclóricas veredas (tipo de formação vegetal do Cerrado encontrada nas florestas de galeria), dos textos de Guimarães Rosas, que estão nos fornos carvoeiros dos sertões do norte das Minas Gerais a arder nos dias de hoje.

Como é difícil separar o meio ambiente dos meios econômico e social, essas carvoarias clandestinas utilizam da mão de obra infantil, transformando o delito ambiental num crime completo: “Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligencia punindo na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais (Artigo 5 da Lei nº, 8.069/90, de 13 de julho de 1990 – Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA).”

Se você pesquisar os gráficos que mostram a evolução dos índices de desmatamento em Minas Gerais, vai perceber um intenso crescimento a partir de meados da década de 1950 – o início da produção dos automóveis do Brasil também foi um marco do início do fim da Zona da Mata mineira.

Os fornos arderam dia e noite para produzir o ferro gusa, matéria prima básica para a produção do cobiçado aço, que por fim seria transformado em carros, caminhões, eletrodomésticos, panelas, talheres e também nas singelas latas, embalagens das mais comuns do nosso cotidiano.

Nas Minas Gerais de hoje, talvez pela falta de matas ou pelo controle cada vez maior das autoridades, é cada vez menos frequente o uso de carvão vegetal clandestino; infelizmente, nos Estados do Maranhão e do Pará, o uso deste tipo de carvão é crescente, alimentando as grandes siderúrgicas que foram instaladas na região.

Mas há um grande diferencial – lá se queimam árvores da Floresta Amazônica. E no encalço de um crime seguem-se todos os outros, especialmente o uso de crianças nos trabalhos insalubres das carvoarias.

Continuaremos a falar das latas nos próximos posts.

PS: Para nossa tristeza, poucas horas após a conclusão deste texto, foi divulgada a morte do maior poeta do Brasil contemporâneo: Ferreira Gullar. RIP