CADÊ O MORRO QUE ESTAVA AQUI? OU OS PROBLEMAS DA MINERAÇÃO

mineracao

Pode até parecer um “causo” daqueles contados por gente do interior do país, mas trata-se de uma história verídica: no final de 1997, assumi o cargo de gerente de vendas e marketing de uma empresa de iluminação – um dos maiores revendedores da empresa ficava em Belo Horizonte e frequentemente tinha de ir até esta cidade; normalmente fazia esse percurso de carro a partir de São Paulo.

Desde a minha primeira viagem, passei a prestar atenção em um morro, já bem perto de Belo Horizonte, onde uma mineradora extraía minério de ferro – a cada viagem era possível observar alguma mudança e se percebia nitidamente que o morro ficava menor. Deixei esse trabalho no início do ano 2.000 e fiquei uns bons anos sem repetir aquele trajeto; em 2013 fui convidado a participar de um evento em Ouro Preto e, para meu espanto, descobri que aquele morro simplesmente desapareceu, consumido pela retirada incessante de minérios.

Em resumo, é essa a atividade de mineração: localizada uma jazida minério (que é um mineral com importância econômica), é feito o dimensionamento das reservas, um plano de mineração para determinar a forma mais lucrativa de remover o minério – projetados os custos e o faturamento e havendo uma boa margem de lucro, é feito uma solicitação de lavra junto ao órgão responsável do governo. Como é uma atividade extremamente agressiva com o meio ambiente, essa autorização de lavra fica vinculada a um plano de recuperação ambiental: a montanha que a empresa fizer desaparecer, deverá ser “substituída” por uma floresta plantada.

Nem um de vocês precisa ser um expert em ciências ambientais para perceber que a substituição de uma montanha (numa analogia com a história que contei) por uma recomposição vegetal sobre o que restou do solo não será exatamente uma equivalência, a começar pelo tamanho da área. Se você imaginar uma montanha como um cone, a antiga área antes do evento da mineração corresponderia à superfície do cone – após a atividade da mineração ter sido concluída, a área que restou é apenas a base do cone: quando você está desenhando um cone, basta que a altura seja maior que 0 (zero) para que a área da superfície seja maior que a área da base; isso significa que a antiga área florestal que cobria a montanha era maior do que a área que sobrou e que vai ser reflorestada. Adicione-se a isso a geologia do solo que foi completamente destruída, alterando a velocidade dos ventos e o impacto das chuvas, as diferenças de altitude e seus reflexos na vida animal e vegetal, entre outras alterações.

Falando simplificadamente da recomposição ou replantio de uma área florestal, serão necessários ao menos 50 anos para que as árvores atinjam a fase adulta e se definam os diferentes estratos ou níveis da floresta: desde o vermes que vivem no subsolo até as aves que ocupam o dossel (copa superior das árvores). Você deve imaginar a floresta como um edifício com muitos andares – em cada um destes andares vivem criaturas diferentes: uma espécie de bromélia vai crescer, por exemplo, a 30 metros do solo e vai abrigar uma determinada comunidade de insetos; esses insetos serão predados por uma determinada espécie de ave, um determinado grupo de saguis irá beber da água acumulada nessa bromélia e uma determinada cepa de vírus só será encontrada ali – os vírus, aliás, serão os últimos colonos a chegar. Será que numa empresa mineradora com ações na bolsa de valores, com investidores ansiosos por lucros e executivos sedentos em receber a bonificação anual por bons resultados, haverá qualquer preocupação por uma cepa de vírus numa bromélia perdida no meio de um “matagal”?

Por mais verdadeiras e honestas que venham a ser as intenções dos profissionais de meio ambiente e de engenharia florestal envolvidos no processo de recuperação ambiental dessa área, é fácil perceber que “nada será como antes” nessa mata – qualquer que seja o resultado do processo de recuperação, ele nunca será suficiente para repor tudo o que foi perdido.

No próximo post vamos falar, por fim, das latas. Até mais!

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