OS PARDAIS DE PEREIRA PASSOS

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Em dezembro de 2012, logo após embarcar para uma viagem para o Uruguai, fui surpreendido com um procedimento dos comissários de bordo: depois do fechamento das portas do avião, os passageiros foram informados que seria aplicado um inseticida na aeronave em atendimento a uma determinação das autoridades sanitárias daquele país. O objetivo desse inseticida seria a eliminação de eventuais mosquitos Aedes aegypti clandestinos na aeronave, evitando a entrada do vetor em terras uruguaias. Foram alguns minutos sufocantes sob uma nuvem de gás, até que o sistema de ventilação fosse ligado – todos os passageiros protestaram vigorosamente. Em minha opinião,  esse tipo de atitude não é efetiva e está mais para o campo da “mágica”.

O combate ao mosquito Aedes aegypti está cheio de histórias “folclóricas” e curiosas como essa. Uma das mais interessantes se desenrolou na cidade do Rio de Janeiro no início do século XX, numa época em que a cidade enfrentava diferentes surtos de doenças como febre amarela, varíola, peste bubônica, malária, tifo e tuberculose.

Francisco Franco Pereira Passos (1836-1913), prefeito indicado da cidade do Rio de Janeiro entre 1902 e 1906, iniciou uma série de obras que tinham como objetivo a modernização da cidade. Inspirado nas reformas urbanas da cidade de Paris décadas antes, Pereira Passos desapropriou grandes áreas para a construção de largas avenidas e praças, iniciou a modernização da área do porto da cidade e também a construção do Teatro Municipal, do Museu Nacional de Belas Artes e da Biblioteca Nacional. Consta que muitos cortiços foram demolidos e que os moradores se refugiaram nos morros, dando origem a algumas das mais famosas favelas cariocas.

Parte importante do legado de Pereira Passos foram os trabalhos na área de saneamento básico e de higienização da cidade, cuja coordenação foi confiada ao médico sanitarista Oswaldo Cruz, empossado como diretor do Serviço de Saúde. Conforme comentado em post anterior, muitas das ações de Oswaldo Cruz não foram muito bem recebidas pela população, levando ao episódio que ficou conhecido como a Revolta da Vacina de 1904. Os agentes de saúde entravam nas residências, muitas vezes a força, buscando focos de mosquitos e de ratos, o que não era totalmente compreendido pela população. Quando o governo tornou obrigatória a vacinação contra a varíola, a população tomou as ruas e entrou em confronto com as forças de segurança.

Uma das ações polemicas do período foi a importação de 200 pardais (Passer domesticus) de Portugal em 1903. Alguns cientistas haviam afirmado ao Prefeito Pereira Passos que essas aves eram vorazes comedoras de insetos e que, uma vez introduzidas na cidade do Rio de Janeiro, atuariam como um agente biológico natural para o controle da população de mosquitos. As aves foram soltas no Campo de Santana, em cerimônia com pompa e muito protocolo.

Os pardais, assim como a imensa quantidade de pássaros autóctones já existentes no Brasil, se alimentam de grandes quantidades de insetos na época da reprodução, quando necessitam  de maior quantidade de proteína; na maior parte do ano são aves oportunistas, que comem o que lhes aparecer pela frente – frutas, sementes, formigas, cupins, minhocas etc, tornando inócua a soltura das aves para o combate aos mosquitos Aedes aegypti. Os pontos negativos da introdução dos pardais, ao contrário, foram muito grandes no meio biológico: o pardal é uma ave robusta e rústica, acostumada a enfrentar os invernos rigorosos da Europa; na competição natural contra os pássaros nativos, o pardal não encontrou competição à sua altura e acabou se espalhando com facilidade por todo o país. Cambacicas, curruíras, sanhaços, tico-ticos e outras espécies de pássaros de menor porte da Mata Atlântica perderam espaço nos seus nichos ecológicos para as aves invasoras. É impossível calcular o tamanho do estrago causado ao meio natural pela introdução dos pardais em nossas terras.

As obras de saneamento ambiental e de fumigação de inseticidas pelos agentes de saúde de Oswaldo Cruz é que foram efetivas no controle das populações de mosquitos da cidade, levando a uma redução substancial das doenças epidêmicas.

Não existe mágica ou ação isolada para o controle de um vetor tão danoso quanto o mosquito Aedes Aegypti – é preciso um esforço coletivo de toda a população, eliminando os focos de água parada, que são os criadouros naturais do mosquito, e evitando que novos focos voltem a se formar.

AEDES AEGYPTI: UM MOSQUITO “DOMESTICADO”

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O Homo sapiens, a nossa espécie, “emergiu” em algum momento entre 190 mil e 160 mil anos atrás na região nordeste do continente africano – entre 100 mil e 60 mil anos atrás, o Homo sapiens iniciou um processo longo e contínuo de migração para os outros continentes e domínio de todo o mundo.

Além de inteligência, robustez física, habilidade manual e imensa capacidade de adaptação aos mais diferentes climas e condições ambientais, os seres humanos devem grande parte do seu sucesso de sobrevivência a todo um grupo de animais que, domesticados ao longo de milhares de anos, forneceram inicialmente o alimento, depois força bruta para o trabalho e para as guerras, e também a guarda das residências e companhia na solidão. Citando apenas alguns exemplos globais: bois, cavalos, porcos, cabras, ovelhas, galinhas, patos, perus, cães e gatos; com elefantes e búfalos em regiões da Ásia e extremo oriente representando as particularidades regionais.

Essa lista precisa incluir também alguns animais que acabaram sendo “domesticados” involuntariamente pelas populações humanas – o rato é um dos mais importantes representantes dessa lista. Nativo das estepes asiáticas, o rato se habituou a uma vida próxima aos assentamentos humanos, onde conseguia alimentos com muita facilidade. Os ratos acompanharam as migrações das populações humanas e se espalharam por todos os cantos do mundo (a exceção, pelo menos até esse momento, é o continente Antártico). Os ratos integram a lista dos chamados animais sinantrópicos, que são aqueles que se adaptaram a viver junto ao homem, a despeito da vontade deste – ou seja, são quase “domesticados”. Incluem-se nessa lista pombos, morcegos, abelhas, aranhas, baratas, pulgas, moscas, carrapatos, escorpiões, formigas, vespas e mosquitos – destaque aqui para o nosso mundialmente famoso Aedes Aegypti.

O mosquito Aedes Aegypti é originário do continente africano, onde aprendeu a viver próximo dos assentamentos humanos desde milhares de anos atrás. Foi durante o período das grandes navegações europeias que esse mosquito “pegou carona” nas embarcações mercantis, especialmente nos chamados navios negreiros, e chegou ao continente americano, se fixando nas áreas tropicais e subtropicais, do Norte da Argentina até o estado da Flórida, nos Estados Unidos da América.

O ciclo de vida dos mosquitos apresenta quatro fases distintas – ovo, larva, pulpa e inseto adulto, destacando que os três primeiros estágios dependem da presença de água parada, o que nunca faltou nos assentamentos humanos e foi peça chave na predileção do inseto pela nossa companhia. A adaptação do mosquito Aedes aegypti ao convívio com os seres humanos foi tão grande que, de acordo com estudos especializados recentes, o inseto passou também a se reproduzir em água parada com altos índices de poluição como nos esgotos, o que explica os grandes níveis de infestações nas cidades brasileiras.

Água parada e esgotos são encontrados em abundância nas cidades brasileiras:

– Problemas nas redes de abastecimento de água em muitas cidades obrigam as populações a armazenar água nos mais diferentes tipos de recipientes: panelas, latas, latões, tambores e barris, entre outros. Sem maiores cuidados, esses recipientes podem se transformar em verdadeiros criadouros de mosquitos;

– Esgotos correndo a céu aberto e/ou eliminados de forma improvisada são facilmente encontrados nas nossas cidades, facilitando a formação de represamentos e poças, que atrairão as fêmeas dos mosquitos que buscam locais apropriados para a colocação dos ovos;

– Os sistemas de drenagem de águas pluviais, sem manutenção e limpeza periódicas, são potenciais criadouros de mosquitos pois podem permitir a formação de represamentos e empoçamentos de água;

– Os resíduos sólidos descartados incorretamente podem acumular a água da chuva e possibilitar a formação de importantes criadouros do mosquito. A lista inclui pneus, latas, embalagens plásticas e entulhos da construção civil; até cascas de ovos e tampinhas de refrigerante têm potencial para reter pequenas quantidades de água das chuvas e abrigar criadouros de mosquitos.

É responsabilidade de todos nós, Homo sapiens, rompermos em definitivo os nossos vínculos com o Aedes aegypti – esse mosquito só se reproduz graças ao auxílio humano, colonizando regiões onde encontram recipientes com água parada; e somos nós, apenas nós, os responsáveis por manter esses criadouros do mosquito ativos.

DENGUE, CHIKUNGUNYA, FEBRE AMARELA, SÍNDROME DE GUILLAIN-BARRÉ, ZIKA E MAYARO, OU AS “PESTES” URBANAS DO SÉCULO XXI

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Durante vários milênios, as chamadas “pestes” foram um dos piores pesadelos das antigas cidades. Sem qualquer aviso prévio, surgiam os sintomas da doença – manchas ou erupções na pele, febres, diarreias, vômitos entre outras manifestações físicas; logo depois, as pessoas começavam a morrer, criando verdadeiras ondas de pânico na população. Muitos acreditavam ser uma “vingança” de Deus pelos pecados praticados pelos moradores da cidade, outros se tratar de miasmas (os povos antigos acreditavam que as doenças eram transmitidas por alguns tipos de gases liberados por matérias em putrefação, os miasmas).

A história registra inúmeras “pestes” em cidades de todo o mundo, provocadas por surtos de cólera, gripe, varíola, tifo, entre outras doenças. Uma das mais terríveis pandemias enfrentadas pela humanidade foi a Peste Negra (bubônica) que, apenas no surto do ano de 1394, matou um quarto da população da Europa. No final do século XIX cientistas isolaram a bactéria Yersínia pestis e ficou comprovado que ela era a causadora da doença. Descobriram também que a bactéria era transmitida ao homem pelas pulgas do rato preto, o que abriu caminho para o controle da doença. 

O contínuo desenvolvimento científico e tecnológico resultou na criação de vacinas e medicamentos que, aliados aos avanços nas áreas do saneamento básico e da educação, possibilitaram a prevenção e o controle de inúmeras doenças, salvando milhões de vidas. Durante décadas vivemos a certeza que as “pestes” era um mal que havia ficado no passado.

Aqui no Brasil, infelizmente, involuímos neste quesito e voltamos a conviver com “pestes” urbanas que acreditávamos erradicadas desde a época do médico sanitarista Oswaldo Cruz e da Revolta da Vacina de 1904. Na época, a cidade do Rio de Janeiro tinha uma população de mais de 800 mil habitantes e era constantemente assolada por surtos de febre amarela, varíola, peste bubônica, malária, tifo e tuberculose. Oswaldo Cruz implementou um ambicioso plano de saneamento e de higienização ambiental,  além de criar um verdadeiro exército de matadores de mosquitos. Algumas iniciativas terminaram em violência quando a população se revoltou contra a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola. Os embates resultaram em, pelo menos, 30 mortos, 110 feridos e 945 prisões. O mosquito Aedes aegypti, que foi um dos alvos prioritários do plano de higienização de Oswaldo Cruz, chegou a ser considerado como erradicado; nas últimas décadas, porém, o mosquito voltou a recolonizar o Rio de Janeiro e grande parte do país, trazendo em sua esteira, mais uma vez, os riscos de transmissão de várias doenças:

Além da conhecida febre amarela urbana, o mosquito Aedes aegypti passou a transmitir a Dengue, identificada pela primeira vez no Brasil em 1986 e conhecida desde então pelos sucessivos surtos a cada novo Verão – em 2016 contabilizamos 1.487.673 (até 12/12/2016) casos prováveis de Dengue no Brasil.

A febre Chikungunya tem sintomas muito parecidos com a Dengue, sendo transmitida pela picada de mosquitos contaminados com o vírus CHIKV. Em 2016 foram registrados 263.598 casos prováveis da febre no país

O primeiro surto do vírus Zika no Brasil foi identificado em 2015;  em 2016 foram informados mais de 170 mil casos suspeitos. No final de 2015 o vírus foi isolado em um bebê recém-nascido com microcefalia – estudos posteriores comprovaram a associação do vírus com o nascimento de crianças com a doença, o que chamou a atenção de todo o mundo para a gravidade da situação. Estudos científicos em andamento estão associando o vírus da Zika com o nascimento de bebês cegos.  

A síndrome de Guillain Barré é uma doença auto imune que provoca uma fraqueza muscular de aparecimento súbito, causada pelo ataque do sistema imunológico ao sistema nervoso periférico. O vírus Zika é um dos transmissores da doença.

Recentemente, os noticiários passaram a falar do vírus Mayaro, que provoca uma doença caracterizada por uma febre hemorrágica similar à Chikungunya. Esse “novo” vírus é transmitido pelo Aedes aegypti e é a mais nova preocupação das autoridades médicas e sanitárias do Brasil.

Os ratos foram os vilões de grandes pestes na antiguidade – o posto agora é do Aedes aegypti. No próximo post vamos falar dos diversos fatores que permitem a perpetuação do mosquito Aedes aegypti.

O COLAPSO DOS SERVIÇOS DE COLETA DE RESÍDUOS NAS BAIXADAS: TANTO NA SANTISTA QUANTO NA FLUMINENSE

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A Região da Baixada Santista engloba os municípios do litoral sul do Estado de São Paulo: Bertioga, Guarujá, Cubatão, Santos, São Vicente, Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe. A população residente da região é de 1,7 milhão de habitantes – em épocas de férias e nos feriados, quando milhões de paulistas da região Metropolitana de São Paulo e de todo o interior “descem” a Serra do Mar, a população de alguns municípios chega a quintuplicar. Apesar do caos generalizado instalado, pouca gente reclama: os turistas lavam a alma nas águas do Oceano Atlântico e os moradores das cidades faturam um bom dinheiro nas áreas do comércio e dos serviços.

A Baixada Fluminense engloba os municípios que ficam ao norte do município do Rio de Janeiro: Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo, São João do Meriti, Mesquita, Nilópolis e Queimados; alguns autores também incluem os municípios de Magé, Guapimirim, Japeri, Itaguaí, Seropédica e Mangaratiba. Como se deu nos municípios de entorno da cidade de São Paulo, a Baixada Fluminense cresceu exponencialmente a partir da segunda metade do século XX, absorvendo os imensos contingentes de migrantes que buscaram uma vida melhor na Região Metropolitana da cidade do Rio de Janeiro.

A profunda crise econômica pela qual o Brasil vem passando desde 2015 criou problemas financeiros para a maioria das cidades brasileiras, que vão desde dificuldades no fechamento da folha de pagamento dos servidores públicos até a paralisação na prestação de alguns serviços municipais; nas Baixadas, os problemas tiveram um agravante: grande parte dos serviços de coleta e destinação dos resíduos sólidos entrou em colapso graças às dívidas milionárias das prefeituras com as empresas prestadoras destes serviços. O final do mandato dos prefeitos dos municípios foi um elemento a mais para o agravamento do problema.

Na Baixada Santista, seis municípios acumularam dívidas milionárias com as empresas concessionárias que, para pressionar as prefeituras, iniciaram a paralisação dos serviços a partir do mês de outubro, justamente na época da campanha eleitoral. Os valores das dívidas de algumas cidades são bem expressivos: R$ 21,2 milhões no Guarujá, R$ 16 milhões em Cubatão e R$ 70 milhões em Santos. Na Baixada Fluminense a situação não era muito diferente, sendo mais grave nos municípios de Mesquita, Belford Roxo e em Duque de Caxias.

Com a paralisação ou redução dos serviços de varrição de ruas, coleta e destinação dos resíduos sólidos, as populações das cidades destas regiões passaram a conviver com montanhas de lixo nas ruas, avenidas, praias, praças e demais logradouros públicos; em cidades da Baixada Fluminense algumas ruas acabaram bloqueadas dada a quantidade de lixo e entulhos acumulados. Nas cidades onde os prefeitos não conseguiram se reeleger, os problemas se tornaram mais graves pois a renegociação das dívidas, simplesmente, foi empurrada para os novos administradores com posse prevista para o dia 1° de janeiro de 2017; nas cidades onde os prefeitos foram reeleitos, como no caso de Santos, os governos conseguiram alinhavar acordos e retomar os serviços.

Em meio aos problemas entre administrações municipais e concessionárias de serviços públicos, milhões de moradores passaram meses convivendo com pilhas de lixo e entulho, mal cheiro, ratos, baratas e riscos de expansão das doenças epidêmicas transmitidas por mosquitos, como a Dengue, devido ao início do período das chuvas de Verão. Com a posse dos novos prefeitos, muitas renegociações já foram concluídas e os serviços vão sendo retomados.

Vale relembrar que as ações de limpeza pública, coleta e destinação de resíduos são alguns dos serviços obrigatórios mais básicos das prefeituras municipais e estão entre os direitos mais fundamentais dos cidadãos, ao lado do acesso à saúde, educação, segurança e saneamento básico. A atitude passiva e criminosa de muitos prefeitos diante do abandono na execução desses serviços (por mais justificável do ponto de vista legal por parte dos concessionários) merece uma punição exemplar – no mínimo, esses políticos deveriam ser proibidos de se candidatar a novos cargos eletivos nas administrações públicas. Centenas de cidades em todas as regiões do Brasil enfrentaram problemas semelhantes.

As populações e o meio ambiente não merecem passar por iguais situações novamente.

UM NOVO ANO NOVO, OU NADA HÁ DE NOVO NO SANEAMENTO BÁSICO

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O “interminável” e tumultuado ano de 2016 chegou ao fim e todos começamos 2017 com as esperanças renovadas.

A chegada do Verão trouxe, para algumas regiões, as preciosas e esperadas chuvas, tão importantes para a renovação dos estoques de águas para o abastecimento das cidades, geração de energia elétrica, irrigação das lavouras e garantia da sobrevivência de todos os seres vivos nos mais variados ecossistemas.

Infelizmente, a chegada do Verão e de suas chuvas traz em sua esteira as imagens das enchentes, desmoronamentos de encostas, danos ao patrimônio, veículos presos em ruas e avenidas tomadas por enxurradas e, não raras vezes, mortes de inocentes.

No Nordeste, ao contrário, se agrava a seca e a falta de água em centenas de cidades na região do semiárido, que persiste desde 2012 e, ao que tudo indica, continuará a se repetir ao longo de 2017. Essa prolongada seca, que já está sendo considerada uma das mais intensas em um século, já afeta 34 milhões de pessoas e escancara a incapacidade de governos de todos os níveis na gestão dos recursos hídricos. A construção do polêmico sistema para a transposição das águas do Rio São Francisco é um exemplo – as obras, se concluídas dentro dos prazos e orçamentos iniciais, poderiam estar auxiliando milhões de brasileiros a enfrentar esse grave período de estiagem; trechos inacabados e, não raras vezes, mal projetados estão envoltos em escândalos e desvios de verbas.

Mas esse novo ano trouxe também cenas diferentes para os telejornais: em meio a um cenário de caos, novos prefeitos assumiram o comando de cidades em situação falimentar: funcionários públicos com salários atrasados, postos de saúde e hospitais com falta dos insumos mais básicos, prédios públicos com corte de água e luz por falta de pagamentos, montanhas de resíduos sólidos nas ruas e calçadas aguardando por um serviço de coleta que nunca chega – as prefeituras devem centenas de milhões de reais para fornecedores e empresas concessionárias de todos os tipos. A combinação de crise econômica, corrupção e incompetência nunca havia sido tão explícita!

Resíduos sólidos amontoados em ruas e calçadas combinados com as fortes chuvas de Verão são um convite para a ocorrência e agravamento das enchentes localizadas – quem acompanha as minhas publicações sabe que trato, irritantemente, deste tema com muita frequência. Nossas cidades cresceram desordenadamente e sem planejamento, criando todos os tipos de dificuldades para a drenagem das águas pluviais. Qualquer descaso com a coleta e destinação dos resíduos sólidos, mesmo que temporário, implica em agravamento dos problemas.

Além dos alagamentos, a proliferação descontrolada dos vetores é também preocupante. Como todos tem acompanhado nos noticiários, diversas regiões de nosso país convivem há anos com as epidemias de Dengue, que sempre se agravam nos períodos das chuvas. O responsável pela transmissão da doença é o conhecido mosquito Aedes aegypti – os criadouros desse mosquito são os recipientes que acumulam as águas das chuvas: garrafas, latas, pneus, embalagens, entulhos e afins. Caixas d’água e recipientes usados sem maiores cuidados para armazenar água nas residências também podem se transformar em criadouros de mosquitos. Além dos “estoques” de criadouros de mosquitos já existentes nas nossas casas e cidades, os recentes problemas na coleta e destinação dos resíduos domésticos, comerciais e industriais, que observamos em inúmeros municípios, criaram as condições ideais para um aumento das populações dos mosquitos e, consequentemente, num incremento do número de casos de Dengue.

Além da Dengue, o mosquito Aedes aegypti é o transmissor da febre Chikungunya e do vírus Zika, causador da síndrome de Guillain-Barré e, já comprovado cientificamente, está associado ao nascimento de milhares de crianças com microcefalia; em menor escala, o Aedes aegypti é o transmissor da febre amarela em áreas urbanas.

A melhor defesa das populações contra todo esse conjunto de doenças é a eliminação dos criadouros dos mosquitos e a prevenção contra o surgimento de novos focos de acúmulo de águas das chuvas, a gestão responsável dos resíduos sólidos urbanos e a educação ambiental – desgraçadamente, para a infelicidade geral de todos nós, estas atividades desandaram nestes últimos tempos.

Trataremos disso nos próximos posts.

OS PERIGOSOS CACOS DE VIDRO

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Tirando alguns dias de folga na praia, mas de olho nos acontecimentos.

Recebi esta imagem na minha conta da rede social e, como falei muito dos problemas associados aos resíduos sólidos nas minhas últimas postagens, não poderia deixar de compartilhar aqui no blog e fazer alguns comentários.

Os acidentes com objetos perfurocortantes são frequentes entre os coletores de resíduos, muito mais frequentes do que você pode imaginar. Nesse período de festas de fim de ano, quando cresce muito o consumo de bebidas engarrafadas, é fácil observar que há um aumento considerável do volume de vidros descartados tanto nas residências quanto nos bares e restaurantes – além das garrafas inteiras, aumenta também a quantidade dos cacos de vidro – depois da segunda ou da terceira dose de bebida, muita gente fica com os reflexos prejudicados e sempre há o risco de quebrar um copo ou uma garrafa de vidro.

Um detalhe importante que você poderá observar na imagem é que o coletor está segurando as luvas (com a mesma mão que segura o saco plástico) – esse EPI (Equipamento de Proteção Individual) é indispensável para qualquer profissional que manipule materiais perfurocortantes – cacos de vidro, entulhos, aparas e limalhas de metal, lixo hospitalar (onde encontramos as perigosas agulhas das injeções), podas de árvores e arbustos etc. Se você prestar um pouco mais de atenção verá que o ferimento aconteceu no antebraço, que está exposto. Aliás, se formos seguir a risca as regras de segurança, o profissional deveria estar usando uma camisa de tecido grosso e com mangas compridas e calças – mas vamos e convenhamos: sair correndo atrás de um caminhão de coleta usando roupas grossas não é nada fácil.

Cacos de vidro e outros resíduos perfurocortantes devem ser embrulhados com jornal ou papelão ou acondicionados em uma embalagem fechada (caixa de leite longa vida, garrafa PET, lata com tampa etc.) de forma a não representarem riscos para os profissionais da coleta. Melhor ainda será você separar os resíduos seguindo a classificação da reciclagem: vidro, papel, plástico e metais; se não existe coleta seletiva na sua cidade, verifique se existe algum ponto de coleta de resíduos recicláveis ou entregue o material separado para um coletor de materiais recicláveis (também conhecidos como carroceiros ou catadores). Você evitará os acidentes e ainda estará ajudando na preservação do meio ambiente.

Um bom final de ano a todos!

CHEGOU O VERÃO: UMA ESTAÇÃO DE ALTOS E BAIXOS

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Fim de ano chegando. Vamos deixar de lado por enquanto a questão dos resíduos sólidos e falar novamente de um tema fundamental: a água.

Às 8h44 da manhã deste dia 21 de dezembro começa oficialmente o Verão aqui na minha região – onde não existe horário de Verão ou o fuso horário não é o de Brasília, deve-se fazer a respectiva correção do horário. Época de férias para muita gente e estação ansiosamente esperada pelos amantes do calor, das praias, dos banhos de rio e de muita bebida gelada.

Para quem vive na Região Metropolitana de São Paulo o Verão chega com, pelo menos, uma boa notícia: o Sistema Cantareira, nosso principal manancial de abastecimento de água, está próximo do nível de 46% – há exatamente um ano atrás este índice era de – 2,7%, ou seja, estávamos começando o Verão com o Sistema no volume morto e com as autoridades e população fazendo todo o tipo de esforço para economizar água. Felizmente, este período de calor se inicia com um volume de água bem mais confortável, porém com a recomendação de muita cautela e moderação no consumo.

Enquanto alguns respiram aliviados, muitos vivem dias angustiantes – a Região Nordeste passa pelo pior período de estiagem em muitas décadas. Iniciada em 2012, a seca já dura quase cinco anos, afetando 34 milhões de pessoas, tendo causado prejuízos econômicos de mais de R$ 100 bilhões.

No Estado do Ceará, os dados oficiais (20/12/2016) indicam que o volume total de água armazenada nos 153 reservatórios está com um índice de 6,9%; no Alto Sertão Pernambucano, os reservatórios de Entremontes, Saco II e Boa Vista possuem, respectivamente, os volumes armazenados de 1,4%, 4,4% e 0,9% (20/12/2016). O maior reservatório de água da Região Nordeste, a represa de Sobradinho na Bahia, poderá chegar ao final deste ano em um nível próximo de 0% caso as chuvas na bacia hidrográfica do Rio São Francisco não se intensifiquem.

Nosso país, com dimensões continentais, tem uma distribuição de água bastante irregular de uma região para outra: na Amazônia, onde vive 10% da população brasileira, encontramos 70% das reservas superficiais de água do país; já na Região Nordeste e no Estado de São Paulo, onde vivem mais de 1/3 da população brasileira, as reservas de água superficiais correspondem, respectivamente, a 3% e 1,6% do total – mesmo em condições climáticas normais, o abastecimento da população já é crítico: em períodos de estiagem a situação fica caótica. Com as mudanças climáticas que são já perceptíveis em todo o planeta e com a tendência do consumo de água apontar para uma alta contínua, a situação tende a piorar ainda mais.

Como sempre, continuaremos a esperar que o bom senso e a competência técnica prevaleçam e deixemos de depender única e exclusivamente da vontade dos céus (em todos os sentidos) para nos fornecer a tão preciosa água.

Um país minimamente sério não poderá prosperar em meio a tantos altos e baixos.

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RESÍDUOS SÓLIDOS DO COMÉRCIO, OU A LOGÍSTICA REVERSA COLOCADA EM PRÁTICA

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Existe uma região de comércio popular da cidade de São Paulo que, nessa semana que antecede o período das festas de fim de ano, chega a receber mais de 1 milhão de visitantes a cada dia: a Rua 25 de Março. Considerada o maior centro comercial da América Latina, a região concentra uma infinidade de empresas varejistas e atacadistas, especialmente dos ramos de tecidos, confecções e acessórios, papelaria e armarinhos; em ruas próximas existem pólos especializados em plásticos, equipamentos para cozinha, metal-mecânica, confecções para noivas, sem contar com o Famoso Mercado Municipal da Cantareira – o Mercadão.

Além de um comércio regular altamente organizado, a região atrai uma multidão de comerciantes irregulares, os conhecidos camelôs ou, no dito popular, marreteiros, que comercializam de tudo, desde alimentos até os produtos “genéricos” importados via Paraguai.

A maior parte dos resíduos sólidos do comércio é formada por embalagens: caixas de papelão, plásticos e isopor, espumas (usadas na proteção de produtos frágeis), sacarias, paletes e caixas de madeira; em menor escala, são descartados produtos defeituosos ou quebrados e resíduos de escritório como papeis, plásticos e itens descartáveis em geral. Centros comerciais como a Rua 25 de Março normalmente são muito organizados, com empresas e comerciantes participando de associações comerciais próprias, com boas estruturas de coleta e destinação dos resíduos gerados diariamente – ruas limpas e acessíveis são fundamentais para o acesso da clientela e bom funcionamento das atividades das lojas.

Na Rua 25 de Março e em outros centros comerciais da cidade de São Paulo os maiores problemas são os resíduos gerados pelo comércio irregular, que abandona montanhas de lixo nas ruas e calçadas dia após dia. Com alguma frequência, batalhas campais entre camelôs e autoridades do poder público, incluindo-se fiscais, Policiais Militares e Guardas Civis Metropolitanos da cidade de São Paulo, se desenrolam nessas ruas para coibir esse comércio irregular – bastam poucos dias para as ruas e calçadas voltarem a ser tomadas por vendedores ambulantes.

Além dos resíduos sólidos tradicionais, as empresas comerciais terão, mais cedo ou mais tarde, de se preocupar com um novo problema: a logística reversa que obriga os estabelecimentos comerciais a receberem de volta produtos em ciclo final de vida e embalagens, procedimento já comum em países desenvolvidos. Um exemplo são os pneus usados, que já são recolhidos pelos revendedores e encaminhados para os fabricantes, responsáveis pela destinação final dos resíduos – fragmentos de pneus são adicionados na massa asfáltica usada na pavimentação de ruas, avenidas e rodovias; outra parte dos fragmentos são queimados para geração de energia em fábricas de cimento.

Um dos grandes problemas a ser enfrentado pelo comércio, que é também um dos maiores desafios da atualidade, são os resíduos tecnológicos – computadores, celulares, monitores, televisores, pilhas e baterias, lâmpadas eletrônicas entre outros, que crescem exponencialmente e, de acordo com a legislação vigente, devem ser entregues aos revendedores, que são obrigados a dar uma destinação ambiental correta. A maioria das empresas comerciais não está estruturada para atender essa demanda e a maioria dos consumidores não sabe dessa obrigatoriedade – no vácuo existente, milhões de aparelhos eletro-eletrônicos são descartados junto com o lixo comum e encaminhados para os lixões e aterros sanitários – só para lembrar, esses resíduos possuem grandes quantidades de produtos tóxicos e metais pesados como o mercúrio das baterias, elemento altamente nocivo. Outro problema: quem vai pagar esta conta? Acreditar que o comércio vai arcar sozinho com este custo é ingenuidade.

Enquanto isso, alguns fatos curiosos acontecem: um incidente ocorrido na região da Rua 25 de Março resume bem o clima de animosidade que deverá tomar conta do comércio dentro em breve: um caminhão com 15.000 lâmpadas fluorescentes queimadas estacionou na frente de uma loja de 100 metros quadrados, pronto para realizar a logística reversa – a loja não tinha a menor condição de receber os resíduos e foi necessária muita conversa para chegar-se a um acordo entre as partes.

Imaginem a confusão que acontecerá no comércio no momento em que todos os consumidores passarem a fazer a logística reversa e abarrotarem as lojas com celulares, computadores, monitores, televisores, pilhas, baterias e tudo mais?

OS RESÍDUOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL

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O “cenário” mostrado na imagem que ilustra essa postagem se tornou frequente em alguns bairros aqui da cidade de São Paulo (imagino que em muitas outras cidades também) – proprietários de caminhões do tipo caçamba são contratados para transportar resíduos da construção civil (a cidade possui dezenas de Ecopontos oficiais aptos a receber esses resíduos), porém descarregam os materiais criminosamente em calçadas de ruas de pouco movimento; raramente as autoridades conseguem flagrar essas ações ou identificar as placas dos caminhões.

Os resíduos da construção civil são há muito tempo um grande problema das áreas urbanas do nosso país. A falta de planejamento urbano e de fiscalização, aliada às sucessivas crises econômicas, resultaram em gigantescas áreas urbanas em construção contínua – as casas das periferias sempre recebem um “puxadinho” a mais, uma complementação de acabamento ou a construção de mais um andar para acomodar melhor a família em crescimento (o que reflete a falta de uma política séria para construção de habitações populares). O resultado é a produção contínua e o descarte irregular de entulhos por todos os cantos das cidades – esse tipo de resíduo chega a representar 70% de todos os resíduos sólidos gerados por uma cidade.

Para tentar colocar um pouco de ordem nesse cenário caótico, o CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, publicou em 2002 a Resolução 307 que estabeleceu as normas, diretrizes, critérios e procedimentos para a gestão dos resíduos da construção civil.

Os resíduos da construção civil passaram a ser divididos em 4 Classes:

I – Classe A – são os resíduos reutilizáveis ou recicláveis como agregados, tais como:

  • a) de construção, demolição, reformas e reparos de pavimentação e de outras obras de infraestrutura, inclusive solos provenientes de terraplanagem;
  • b) de construção, demolição, reformas e reparos de edificações: componentes cerâmicos (tijolos, blocos, telhas, placas de revestimento etc.), argamassa e concreto;
  • c) de processo de fabricação e/ou demolição de peças pré-moldadas em concreto (blocos, tubos, meios-fios etc.) produzidas nos canteiros de obras;

Esses resíduos devem ser encaminhados diretamente para as empresas que realizam a reciclagem dos materiais ou encaminhados para os locais para armazenamento e uso futuro;

II – Classe B – são os resíduos recicláveis para outras destinações, tais como: plásticos, papel, papelão, metais, vidros, madeiras e gesso. Os resíduos devem ser separados nos canteiros de obra e encaminhados para cooperativas de reciclagem ou diretamente para empresas que utilizam e reciclam esses materiais;

III – Classe C – são os resíduos para os quais não foram desenvolvidas tecnologias ou aplicações economicamente viáveis que permitam a sua reciclagem ou recuperação. Esses resíduos devem ser separados nos canteiros e destinados conforme a orientação da norma específica;

IV – Classe D – são resíduos perigosos oriundos do processo de construção, tais como tintas, solventes, óleos e outros ou aqueles contaminados ou prejudiciais à saúde oriundos de demolições, reformas e reparos de clínicas radiológicas (o que nos faz recordar o grave acidente com o Césio-137 em Goiânia em 1987) , instalações industriais e outros, bem como telhas e demais objetos e materiais que contenham amianto ou outros produtos nocivos à saúde. Esses resíduos devem ser separados nos canteiros e destinados conforme a orientação da norma específica.

Porém (sempre existe um, porém), passados catorze anos desde a publicação desta Resolução, testemunhamos diariamente que falta fiscalização e punições para quem desrespeita a Legislação vigente. Montanhas de entulhos ocupam calçadas, terrenos baldios, margens de corpos d’água e matas ciliares; em épocas de chuvas, como já testemunhamos neste início de Verão, vemos mais uma vez as enchentes e os problemas associados. Entulhos também são o ambiente ideal para a procriação de vetores como as baratas e escorpiões (que adoram comer baratas).

Algum dia, nós ainda veremos as Leis “pegarem” neste país…