OS RESÍDUOS PERFUROCORTANTES OU ESCARIFICANTES – GRUPO E

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A foto que ilustra esse post é da divulgação do filme EPIDEMIA, lançado em 1995 e que contou com um elenco de primeira linha: Dustin Hoffman, Rene Russo, Cuba Gooding Jr, Kevin Spacey, Morgan Freeman, Patrick Dempsey e Donald Sutherland, entre outros. Para quem ainda não viu, fica a dica.

O enredo do filme tem tudo a ver com o tema de hoje: um vírus desconhecido e mortal começa a assolar a população de uma pequena cidade nos Estados Unidos. Preocupado com a possível disseminação da doença, o exército americano isola a cidade, impedindo a saída de qualquer um dos moradores enquanto uma equipe de médicos e virologistas luta contra o tempo para descobrir a origem, o portador do vírus e a cura. Em uma das cenas, a personagem vivida pela atriz Rene Russo – uma médica, se fere acidentalmente com uma agulha com o sangue de um dos doentes e é contaminada com o vírus mortal, aumentando a emoção do filme.

Apesar de ser uma obra de ficção, o risco de contaminação com as agulhas, bisturis e outros objetos perfurocortantes ou escarificantes em áreas de isolamento em hospitais e centros de pesquisa é uma realidade – profissionais da área de saúde devem seguir rigorosos protocolos de segurança. Epidemias com cepas de vírus altamente perigosos também são uma ameaça real em nossos dias – entre 2013 e 2015, diversos países da África Ocidental enfrentaram uma epidemia devastadora causada pelo vírus Ebola, que deixou um rastro de destruição e de mortes: mais de 11.300 mortes oficiais em mais de 28.600 casos relatados – mais de 99% na Guiné, Libéria e Serra Leoa. Graças aos esforços da OMS – Organização Mundial da Saúde, e de profissionais e de organizações de saúde de diversos países, a epidemia foi controlada e praticamente erradica da região – casos isolados continuam a ser notificados.

Os Resíduos dos Serviços de Saúde do Grupo E, os chamados materiais perfurocortantes ou escarificantes, incluem: objetos e instrumentos contendo cantos, bordas, pontas ou protuberâncias rígidas e agudas, capazes de cortar ou perfurar. Os materiais mais comuns desse Grupo são lâminas de barbear, agulhas, escalpes, brocas, limas endodônticas, pontas diamantadas, lâminas de bisturi, tubos capilares, lancetas, ampolas de vidro, micropipetas, lâminas e lamínulas, espátulas. Todos os utensílios de vidro quebrados no laboratório (pipetas, tubos, de coleta sanguínea e placas de Petri) e outros similares. Esses materiais podem ser infectados durante o uso com vírus, bactérias, substâncias químicas etc, podendo infectar profissionais de todas as áreas que, por alguma eventualidade, venham a se ferir com pontas e lâminas; se descartados de maneira irregular, esse risco passará aos profissionais de coleta de resíduos, catadores de materiais recicláveis, crianças brincando entre outros. Dependendo do tipo de contaminante e do nutriente em que ele está imerso (no caso de vírus, bactérias e outras células vivas), o risco de contaminação persistirá por várias horas ou até mesmo por vários dias.

Esses resíduos devem ser descartados separadamente em recipientes rígidos, resistentes à punctura, ruptura e vazamento, com tampa, devidamente identificados, sendo expressamente proibido o esvaziamento desses recipientes para o seu reaproveitamento. Devem ser encaminhados para uma unidade de esterilização ou incineração e os resíduos devem ser encaminhados para disposição em um aterro sanitário controlado. Existem em todo o Brasil empresas especializadas na coleta, transporte, esterilização e destinação final deste tipo de resíduo.

Uma das embalagens de coleta e armazenamento mais comuns são caixas de papelão especiais, utilizadas em hospitais, clínicas, consultórios, farmácias e centros de pesquisa, mais conhecidas como Caixa Coletora de Perfurocortante. Quando se atinge o limite de capacidade indicado (que nunca deve ser desrespeitado), a tampa da caixa deve ser fechada, não devendo ser aberta ou ter qualquer material removido posteriormente. Essas caixas possuem uma impressão com a indicação do conteúdo, o símbolo de material infectante e a capacidade. De acordo com as normas técnicas, o papelão utilizado na confecção dessas caixas coletoras deve resistir ao corte e a perfuração pelos objetos contidos em seu interior e também devem ser à prova de vazamentos.

Infelizmente, muitos destes resíduos perfurocortantes não são devidamente embalados e descartados conforme as normas técnicas. Eu mesmo já vi caixas de papelão com seringas e restos de frascos de vidro abandonadas em calçadas na região central da cidade de São Paulo – sabe-se Deus como elas foram parar por lá. Muitos destes resíduos acabam em lixões a céu aberto ou abandonados em terrenos baldios, expondo catadores de resíduos, moradores de rua, crianças e animais domésticos a ferimentos no caso de contato com esses materiais. Em muitos casos alguns desses resíduos podem acumular a água das chuvas e vir a abrigar criadouros do mosquito Aedes aegypti.

O cuidado com esses resíduos deve ser redobrado.

RESÍDUOS HOSPITALARES COM SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS E MATERIAIS RADIOATIVOS – GRUPO B E GRUPO C

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No início do século XX, quando os nossos avós e bisavós nasceram, a expectativa de vida dos brasileiros era de 33,7 anos –  atualmente, essa expectativa já é superior a 75 anos e continua aumentando ano a ano. Os principais responsáveis por esse espantoso aumento em pouco mais de um século foram as melhorias na alimentação, na habitação, na educação, no saneamento básico e na saúde, incluindo-se nesse item as campanhas de vacinação, a evolução tecnológica no desenvolvimento e produção de medicamentos, equipamentos para o diagnóstico e tratamento de doenças, técnicas cirúrgicas, terapias com células troncos, transplantes de órgãos entre outras maravilhas da medicina moderna. Vamos nos ater à duas áreas específicas: a bioquímica e a medicina nuclear.

A bioquímica é a ciência que está por trás do desenvolvimento e produção dos medicamentos através do estudo e aplicação da química da vida e dos processos químicos que ocorrem nos organismos vivos. De uma maneira geral, a bioquímica consiste no estudo da estrutura molecular e das funções metabólicas de biomoléculas, biopolímeros e componentes celulares e virais, como as proteínas, as enzimas, os carboidratos, os lipídios, os ácidos nucleicos entre outros.

Tanto nos estudos e desenvolvimento de novos medicamentos nos laboratórios e centros de pesquisa, quanto na aplicação desses medicamentos nos diversos serviços de saúde em hospitais, clínicas e universidades, existe a geração de resíduos contaminados por substâncias químicas que, se descartados de maneira incorreta, têm potencial para apresentar riscos à saúde pública e ao meio ambiente – como diz um antigo ditado: a diferença entre remédio e veneno está na dosagem.

Entre esses resíduos perigosos da Casse B destacam-se: antimicrobianos, hormônios sintéticos, quimioterápicos e materiais descartáveis por eles contaminados. Medicamentos vencidos, contaminados, interditados, parcialmente utilizados e demais medicamentos impróprios para consumo. Objetos perfurocortantes contaminados com quimioterápicos ou outros produtos químicos perigosos.

Também se incluem mercúrio e outros resíduos de metais pesados. Saneantes e domissanitários. Líquidos reveladores e fixadores de filmes (centro de imagem). Efluentes de equipamentos automatizados utilizados em análises clínicas. Quaisquer resíduos do Grupo D (Resíduos que não apresentem risco biológico, químico ou radiológico à saúde ou ao meio ambiente), comuns, com risco de estarem contaminados por agentes químicos.

Os Resíduos do Grupo B devem ser acondicionados em embalagens rígidas, com tampa rosqueada ou na própria embalagem de origem, devidamente identificadas com o símbolo de substância química e a identificação da substância nelas contidas. Produtos e substâncias químicas com identificação da origem devem ser encaminhadas ao fabricante para providências. Os demais resíduos devem incinerados ou esterilizados e encaminhados para descarte em aterros sanitários autorizados. A colocação destes resíduos em valas assépticas é considerada uma opção igualmente válida.

Já os Resíduos da Classe C incluem os materiais e substâncias que contenham elementos radioativos em quantidades superiores aos limites de eliminação especificados nas normas da CNEN – Comissão Nacional de Energia Nuclear, e, normalmente, estão ligados aos estudos e tratamentos das áreas médicas conhecidas como medicina nuclear e radioterapia. A medicina nuclear permite observar o estado fisiológico dos tecidos de forma não invasiva, através da marcação de moléculas participantes nesses processos fisiológicos com isótopos radioativos. Através da emissão de partículas beta ou alfa em equipamentos de radioterapia, que possuem alta energia, possibilitam a destruição de células ou estruturas indesejáveis, como por exemplo as células cancerígenas de tumores.

Os Resíduos da Classe C incluem todos os resíduos dos grupos A, B e D contaminados com radionuclídeos, provenientes de laboratório de análises clínicas, serviços de medicina nuclear e radioterapia. Estes resíduos quando gerados, devem ser identificados com o símbolo internacional de substância radioativa, separados de acordo com a natureza física do material, do elemento radioativo presente e o tempo de decaimento necessário para atingir o limite de eliminação, de acordo com a Resolução NE 605 da CNEN. Devido às características de periculosidade dos materiais radioativos, é aconselhável que os resíduos sejam manejados somente por pessoal especializado nesta área.

Para lembrar do perigo dos materiais radioativos, vou citar um exemplo drástico: o vazamento de Césio-137 em Goiânia em 1987, quando catadores de materiais encontraram um equipamento de radioterapia abandonado em uma clínica. Esses catadores abriram a cápsula onde estava o Césio-137 e mais de 1.600 pessoas foram contaminas pelo elemento radioativo – estima-se que o acidente resultou em 104 mortes ao longo de 25 anos. Todo o cuidado com esse tipo de resíduo é pouco.

RESÍDUOS DOS SERVIÇOS DE SAÚDE COM POSSÍVEL PRESENÇA DE AGENTES BIOLÓGICOS – GRUPO A

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Parte importante dos Resíduos dos Serviços de Saúde são aqueles onde é possível a presença de agentes biológicos com potencial risco de contaminação e infecção de pessoas caso não recebam cuidados especiais. São identificados pelo símbolo de substância infectante, com rótulos de fundo branco, desenho e contornos pretos. A gestão desses resíduos requer um Responsável Técnico especializado.

Esses resíduos são classificados como Resíduos do Grupo A e são subdivididos na seguinte estrutura, conforme as suas características de maior virulência ou concentração:

Grupo A1 – resíduos que necessitam de tratamento específico: Incluem-se nesse grupo: culturas e estoques de microrganismos; descarte de vacinas de microrganismos vivos ou atenuados; meios de cultura e instrumentais utilizados para transferência, inoculação ou mistura de culturas. Bolsas transfusionais contendo sangue ou hemocomponentes rejeitadas por contaminação ou por má conservação, ou com prazo de validade vencido, e aquelas oriundas de coleta incompleta. Sobras de amostras de laboratório contendo sangue ou líquidos corpóreos, recipientes e materiais resultantes do processo de assistência à saúde, contendo sangue ou líquidos corpóreos na forma livre.

Os Resíduos Classe A1 que serão encaminhados para tratamento devem ser embalados em sacos brancos leitosos revestidos por sacos vermelhos e, quando encaminhados para o descarte, acondicionados em sacos brancos leitosos. O tipo de tratamento recomendado para esses resíduos deve garantir o Nível III de Inativação Microbiana e desestruturação das características físicas (incineração, por exemplo);

Grupo A2 – Carcaças, peças anatômicas, vísceras e outros resíduos: Resíduos provenientes de animais submetidos a processos de experimentação com inoculação de microorganismos, bem como suas forrações, e os cadáveres de animais suspeitos de serem portadores de microrganismos de relevância epidemiológica e com risco de disseminação, que foram submetidos ou não a estudo anátomo-patológico ou confirmação diagnóstica.

Devem ser submetidos a tratamento antes da disposição final. Devem ser inicialmente acondicionados de maneira compatível com o processo de tratamento a ser utilizado (incineração por exemplo). Quando houver necessidade de fracionamento, em função do porte do animal, deve ser solicitada autorização do órgão de saúde local. Após o tratamento, podem ser encaminhados para aterro sanitário licenciado ou local devidamente licenciado para disposição final deste tipo de resíduo, ou sepultamento em cemitério de animais;

Grupo A3 – resíduos que necessitam de tratamento específico: Peças anatômicas (membros) do ser humano; produto de fecundação sem sinais vitais, com peso menor que 500 gramas ou estatura menor que 25 centímetros ou idade gestacional menor que 20 semanas, que não tenham valor científico ou legal e não tenha havido requisição pelo paciente ou familiares.

Esses resíduos devem ser acondicionados em sacos brancos leitosos revestidos por sacos vermelhos identificados com o símbolo de risco biológico e a inscrição “Peça Anatômica / Produto de Fecundação” e encaminhados ao necrotério. Comunicar o SCIH – Serviço de Controle de Infecção Hospitalar, ou Serviço Social, conforme a estrutura do hospital, para preenchimento do formulário de autorização para encaminhamento ao Cemitério Municipal para sepultamento;

Grupo A4 – resíduos que não necessitam de tratamento: Kits de linhas arteriais, endovenosas e dialisadores, quando descartados. Filtros de ar e gases aspirados de área contaminada; membrana filtrante de equipamento médico-hospitalar e de pesquisa, entre outros similares.

Inclui também: sobras de amostras de laboratório e seus recipientes contendo fezes, urina e secreções. Resíduos de tecido adiposo proveniente de lipoaspiração, lipoescultura ou outro procedimento de cirurgia plástica que gere este tipo de resíduo. Recipientes e materiais resultantes do processo de assistência à saúde, que não contenha sangue ou líquidos corpóreos na forma livre. Peças anatômicas (órgãos e tecidos) e outros resíduos provenientes de procedimentos cirúrgicos ou de estudos anátomo-patológicos ou de confirmação diagnóstica. Bolsas transfusionais vazias ou com volume residual pós-transfusão.

Os Resíduos Classe A4 devem ser acondicionados em sacos brancos leitosos em contêineres ou lixeiras brancas identificadas com o símbolo de risco biológico. Podem ser descartados sem necessidade de tratamento e devem ser encaminhados para um aterro sanitário controlado;

Grupo A5 –  Subgrupo que inclui órgãos, tecidos, fluidos orgânicos, materiais perfurocortantes ou escarificantes e demais materiais resultantes da atenção à saúde de indivíduos ou animais, com suspeita ou certeza de contaminação com príons (moléculas proteicas que possuem propriedades infectantes). Esses resíduos devem ser acondicionados em saco plástico branco leitoso e corretamente identificado com o símbolo de risco biológico. Devem sempre ser encaminhados a sistema de incineração, de acordo com o definido na Resolução ANVISA nº 305/2002

Pela simples leitura deste texto bastante técnico, você pôde perceber que a gestão dos Resíduos de Serviços de Saúde da Classe A1 requer profissionais e procedimentos especializados. Se, na sua cidade, você perceber qualquer procedimento diferente na gestão e no descarte de resíduos médico hospitalares dessa Classe, denuncie imediatamente para as autoridades de Saúde e do Meio Ambiente – por incrível que pareça, muitos destes resíduos acabam descartados clandestinamente em lixões a céu aberto.

A CLASSIFICAÇÃO DOS RESÍDUOS DOS SERVIÇOS DE SAÚDE

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No post anterior começamos a falar dos Resíduos dos Serviços de Saúde que, apesar de representar uma fração muito pequena do volume total dos resíduos sólidos gerados diariamente em nosso país, merecem atenção muito especial no manuseio, armazenamento provisório, transporte e, especialmente, na sua destinação final pois representam riscos à saúde pública e ao meio ambiente.

De acordo com a Resolução número 306/04 da ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, os Resíduos dos Serviços de Saúde são divididos nos seguintes grupos:

I – GRUPO A: São os Resíduos com a possível presença de agentes biológicos que podem apresentar riscos de infecção;

II – GRUPO B: Resíduos que contém substâncias químicas que podem apresentar riscos à saúde pública ou ao meio ambiente. Esses resíduos são divididos conforme suas características de inflamabilidade, corrosividade, reatividade e toxicidade;

III – GRUPO C: Materiais e substâncias que contenham elementos radioativos em quantidades superiores aos limites de eliminação especificados nas Normas da CNEN – Comissão Nacional de Energia Nuclear, e para os quais a reutilização é imprópria ou não prevista;

IV – GRUPO D: Resíduos que não apresentem risco biológico, químico ou radiológico à saúde ou ao meio ambiente, podendo ser equiparados e descartados como resíduos domiciliares;

V – GRUPO E: Resíduos classificados como perfurocortantes ou escarificantes, tais como: lâminas de bisturi, agulhas, escalpes, ampolas de vidro, brocas, limas endodônticas, pontas diamantadas, aparelhos de barbear e de depilação, lancetas; tubos capilares; micropipetas; lâminas e lamínulas; espátulas; e todos os utensílios de vidro quebrados no laboratório (pipetas, tubos de coleta sanguínea e placas de Petri) e outros similares. Pelas suas características, esses resíduos devem ser descartados em embalagens rígidas como caixas de papelão, garantindo que os profissionais estejam protegidos contra riscos de cortes e perfurações na pele ao manipular e transportar esses Resíduos.

Observe que os Resíduos das Classes A, B, C e E podem apresentar riscos à saúde pública e ao meio ambiente. Eles devem ser segregados nas áreas geradoras em embalagens adequadas e devidamente sinalizadas. A manipulação, transporte e o armazenamento temporário destes Resíduos até o momento do embarque em veículos para o transporte até os locais de descarte, incineração ou armazenamento, conforme as características de cada material, devem ser realizados por equipes de profissionais especializados, com roupas e equipamentos de proteção adequados e seguindo-se as normas internas da instituição e/ou as normas estabelecidas pelas autoridades públicas da Saúde e do Meio Ambiente do Governo Municipal, Estadual e respectivos Ministérios do Governo Federal.

Os Resíduos que formam o Grupo D são os mais volumosos gerados dentro de um hospital, clínica, centro de pesquisas ou unidades similares. Esses Resíduos não podem ser manipulados, transportados ou armazenados juntos com os Resíduos das demais Classes. Os resíduos do grupo D não recicláveis e/ou orgânicos devem ser acondicionados nas lixeiras cinzas devidamente identificadas, revestidas com sacos de lixo preto ou cinza; os resíduos recicláveis devem ser acondicionados nas lixeiras ou contêineres coloridos, identificadas para receber os resíduos de papel, plástico, metais e vidro, que depois serão encaminhados para as centrais ou cooperativas de reciclagem credenciadas. Os Resíduos  não recicláveis e orgânicos são descartados junto com os resíduos sólidos domiciliares e comerciais.

Os Resíduos do Grupo D incluem:

a) Papel higiênico, papel toalha, fraldas, absorventes higiênicos, peças descartáveis de vestuário, restos alimentares de pacientes, materiais e substâncias antissépticas, garrotes, frascos e materiais para aplicação de soro e outros similares não classificados como A1;

b) Sobras de alimentos e de ingredientes da cozinha;

c) Restos de alimentos do refeitório;

d) Resíduos diversos gerados nas áreas administrativas;

e) Resíduos de varrição, restos de plantas e flores e de trabalhos de jardinagem;

f) resíduos de gesso provenientes de serviços de ortopedia.

No próximo post vamos detalhar melhor os perigosos Resíduos das Classes A, B, C e E, mostrando os cuidados com a embalagem, manipulação, armazenamento, transporte e destinações específicos e adequados para cada uma das classificações.

OS RESÍDUOS DOS SERVIÇOS DE SAÚDE

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Estamos no período das chuvas de Verão em grande parte do país, época em que os problemas de gestão dos resíduos sólidos urbanos, controle dos vetores e a disseminação de doenças infecto contagiosas ganham dimensões extras. Dentro de toda uma gama de resíduos sólidos gerados por nossa sociedade e que merecem as melhores práticas de coleta, transporte e destinação final, há um grupo especial que merece atenção de todos – os Resíduos dos Serviços de Saúde.

Os Resíduos dos Serviços de Saúde (RSS), também chamados de lixo hospitalar ou resíduos hospitalares, são todos os resíduos gerados em ações médicas nos hospitais, laboratórios, farmácias, atividades médico-legais e em serviços de ensino, em atividades ligadas aos cuidados com a saúde, prevenção, diagnóstico, tratamento, reabilitação e investigações relacionadas com seres humanos e animais. Também estão incluídos os procedimentos invasivos de atividades como acupuntura, colocação de piercings e execução de tatuagens.

Trata-se de uma ampla gama de resíduos, onde incluem-se: sangue e hemoderivados; meios de culturas; tecidos, fetos e peças anatômicas; curativos e materiais de sutura; resíduos de análises laboratoriais e patológicas; restos alimentares de áreas de isolamento; restos de medicamentos e substâncias químicas; objetos perfuro cortantes, entre outros.

O Brasil produz diariamente 150 mil toneladas de resíduos residenciais e comerciais – os Resíduos dos Serviços de Saúde representam uma fração inferior a 2% deste volume e, destes, apenas 10 a 25% necessitam de cuidados especiais. Apesar da aparente pouca representatividade do volume total, a periculosidade destes materiais para a saúde das populações impõe que existam procedimentos de segregação dos diferentes tipos de resíduos em sua fonte e no momento de sua geração, objetivando o controle e a minimização, especialmente daqueles que requerem uma destinação final específica. Nos resíduos classificados como de Risco Biológico, a manipulação, transporte e destinação final deve considerar a cadeia de transmissibilidade de doenças, que envolve características do agente agressor, tais como capacidade de sobrevivência, virulência, concentração e resistência, desde a contaminação do agente às condições de defesas naturais do receptor. Em tempos em que vivemos sob epidemias frequentes de Dengue, Zica e Chikungunya e preocupados com os recentes casos de febre amarela, os cuidados com os Resíduos dos Serviços de Saúde devem ser redobrados – um profissional dos serviços de coleta de resíduos ou simples catador de sucatas pode se ferir com, por exemplo, uma seringa descartada incorretamente e contrair uma dessas doenças – os Resíduos podem se transformar em “vetores involuntários” das doenças. E, como já comentado em posts anteriores, os acidentes com corte e perfurações da pele com resíduos é muito mais comum do que você pode imaginar.

A gestão interna e externa dos Resíduos dos Serviços de Saúde é normatizada pela Resolução 306/04 da ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária e também pela Resolução 358/05 do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente. As Resoluções ressaltam a importância da segregação na fonte geradora e a utilização de recipientes adequados para o acondicionamento de cada tipo de resíduo, os cuidados com a manipulação e o transporte e, especialmente, para a destinação final adequada a cada um dos tipos diferentes de resíduos, que devem estar de acordo e aprovados pelos Órgãos de Meio Ambiente, Limpeza Urbana e de Saúde do Município e do Estado da Federação. Embora essas resoluções sejam de responsabilidades dos Ministérios da Saúde e do Meio Ambiente, ambos hegemônicos em seus conceitos, refletem a integração e a transversalidade no desenvolvimento de trabalhos complexos e urgentes.

Neste interessante momento histórico onde nossa sociedade alterna conquistas tecnológicas da Era Digital com as mazelas dos primeiros anos da industrialização de nosso país, quando as nossas grandes e médias cidades ainda sofriam com as constantes epidemias de febre amarela e surtos pontuais de tifo, tuberculose e peste bubônica, doenças que imaginávamos vencidas e controladas há várias décadas, é importante entendermos como deve ser feito o gerenciamento dos resíduos hospitalares e os riscos ligados às falhas nos procedimentos, de forma que todos possamos acompanhar e cobrar providências de nossas autoridades eleitas e de todos os gestores indicados.

Vamos falar sobre tudo isso nos próximos posts. Até mais!

E SOBRE OS RATOS – NINGUÉM FALA NADA?

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De tanto falar nos mosquitos Aedes aegypti e de toda uma lista (cada vez maior) de doenças transmitidas por esse vetor, a gente acaba esquecendo de outros vetores importantes. Nessa época de fortes chuvas e das inevitáveis enchentes em cidades de grande parte do Brasil, é importante lembrar dos problemas e doenças associadas aos ratos.

Parte importante do legado das ações sanitárias e higiênicas deixadas pelo trabalho do médico sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917) na cidade do Rio de Janeiro nos primeiros anos do século XX, foi o controle das populações de ratos e o combate às epidemias associadas a esse vetor: leptospirose, peste bubônica (também conhecida como peste negra), tifo murinho, febre da mordida do rato e hantaviroses, além de sarnas e alergias.

Antiga capital da colônia (a partir de 1763, substituindo a cidade de Salvador), depois corte real do Império Ultramarino Português, capital do Império do Brasil e, a seguir, capital da República Federativa do Brasil, a cidade do Rio de Janeiro era na época a maior e mais importante cidade do Brasil, com 800 mil habitantes. Vítima de um crescimento desordenado, com milhares de moradores se espremendo nos infinitos cortiços e ocupando as encostas dos morros e iniciando aquelas que se transformariam em uma das marcas da má distribuição de renda no país – as favelas, a cidade era tomada por surtos frequentes de febre amarela, tuberculose, tifo, peste bubônica e varíola.

À frente da Secretaria da Saúde, Oswaldo Cruz focou as ações da Prefeitura na implantação de infraestrutura de saneamento básico e ações de higienização, combatendo os focos de infestação de mosquitos e ratos. No caso do combate aos ratos, há uma passagem curiosa – as autoridades da área da saúde instituíram um prêmio em dinheiro para as pessoas que levassem ratos mortos até os diversos postos de coleta da Prefeitura. Não tardou muito até que a famosa “malandragem carioca” enxergasse na ação uma oportunidade de ganhar dinheiro: surgiram nos morros os criadores profissionais de ratos, que pagavam comissões para as crianças que se dispusessem a levar os roedores até os postos da Prefeitura para a troca. “Jeitinho” carioca.

Nos meios urbanos encontramos, normalmente, três espécies de ratos: o rato preto ou de telhado, que se alimentam de restos de comida que são jogados no lixo e também de alimentos e rações servidas aos animais domésticos como cães e gatos; o rato cinza ou ratazana (gabiru em muitas regiões), que vive em esgotos e ao longo de córregos; e os camundongos, espécie de ratos pequenos, que vivem em residências e são oportunistas quanto a alimentação, atacando despensas, armários e latas de lixo. As três espécies são transmissoras de doenças.

Uma das formas mais eficientes de se combater os ratos é deixar de alimentá-los: guardar alimentos em embalagens e recipientes bem fechados, recolher os vasilhames de alimentação dos animais e descartar alimentos somente após tê-los embalado (dentro de garrafas PET, em latas, embalagens plásticas etc), de forma que eventuais ratos que visitem o seu lixo não consigam ter acesso ao jantar. Em países desenvolvidos, é comum a instalação de trituradores de lixo nas pias das cozinhas, permitindo a eliminação de restos de alimentos e cascas de frutas e legumes através da rede coletora de esgotos; aqui no Brasil, essa facilidade seria de difícil popularização devido ao alto custo dos equipamentos e da falta de redes coletores de esgotos em grande parte dos domicílios.

A leptospirose, doença infecciosa transmitida pela bactéria do tipo Leptospira presente na urina de ratos, encontra as condições ideais de propagação nos períodos de fortes chuvas, quando a população entra em contato com as águas de enxurradas e pontos de alagamentos. A bactéria Leptospira entra no corpo humano através da pele, pela boca e pelos olhos – é preciso um extremo cuidado com as águas das enchentes. Nos casos mais graves, a leptospirose provoca falência renal, meningite, falência hepática e deficiência respiratória, podendo até levar a morte. As enchentes também forçam os ratos a abandonar suas tocas, aumentando a possibilidade de aproximação com os seres humanos, o que pode resultar em ataques e mordidas.

Além dos providenciais cuidados com os criadouros dos mosquitos, são fundamentais o controle e o combate às infestações de ratos – na falta de ações do poder público, faça a sua parte: não alimente os ratos!

A MALÁRIA NOS EUA, OU YES, WE HAVE MOSQUITOES TOO!

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Quem tem acompanhado as minhas últimas postagens pode ter ficado com um sentimento de inferioridade por viver em um país “terceiro mundista”, repleto de mosquitos transmissores de doenças e com problemas de todos os tipos na infraestrutura de saneamento básico. Mas os mosquitos não causam problemas somente aqui no Brasil: existem mais de 3.600 espécies de mosquitos transmitindo doenças em todo o mundo. Um exemplo é a malária, uma das mais antigas e fatais doenças transmitidas ao homem pelos mosquitos. O agente transmissor é o Plasmodium, um parasita unicelular protozoário, que infecta os eritrócitos, causando a malária.

Apesar de ser uma doença muito comum em áreas tropicais, a malária já foi endêmica em grande parte da Europa e dos Estados Unidos. Hipócrates (460 a.C.-370 a.C.), sábio grego considerado o pai da medicina, foi o primeiro a fazer uma conexão entre água parada e a ocorrência de febres na população. Esse conhecimento foi passado aos romanos, que foram os pioneiros na drenagem de pântanos como forma de controlar as sucessivas epidemias na península itálica – aliás, a palavra malária deriva da expressão em italiano antigo mal aria ou ar ruim. Há relatos de grandes epidemias de malária na França, Espanha, Inglaterra, Holanda, Alemanha entre outros países europeus – onde existisse pântanos e mosquitos havia possibilidade de grandes epidemias de malária. A doença foi erradicada gradualmente a partir de melhorias na infraestrutura de saneamento e drenagem de áreas pantanosas. A Itália, para citar um exemplo, só conseguiu erradicar totalmente a malária em 1970.

A malária chegou aos Estados Unidos junto com os primeiros colonos, muitos dos quais estavam infectados com os agentes Plasmodium vivax e Plasmodium malariae, comuns na Inglaterra. Posteriormente, com a importação dos primeiros escravos vindos do continente africano a partir de 1620, foi introduzido no país o agente Plasmodium falciparum.

As epidemias eram recorrentes nas antigas Colônias Anglo Americanas – em 1723 um colono escrevia para sua família na Escócia: “Estou sempre com febres e calafrios… este lugar só é bom para médicos e padres”. Com o avanço dos colonizadores rumo ao interior do país, a malária foi se disseminando e se tornando endêmica nas regiões Sul e Oeste. Consta que as epidemias de malária eram tão frequentes e custosas na antiga colônia francesa da Louisiane, que este foi um dos motivos que levou Napoleão Bonaparte a vender o território para os americanos em 1803, atualmente chamado de Estado da Louisiana. Nos estados do Sul dos Estados Unidos, aliás, a combinação do clima subtropical (o mesmo clima do Sul do Brasil a partir do Sul do Estado de São Paulo), da grande quantidade de áreas pantanosas e do sensível empobrecimento da região após a derrota dos Estados Confederados na Guerra Civil Americana (1861-1865), tornou a região propícia à presença de grandes populações de mosquitos e de uma alta incidência de epidemias de malária. Estudos indicam que até a década de 1930, um terço da população dos estados do Sul americano sofria de malária crônica.

O controle e a reversão das epidemias de malária nos Estados Unidos só foram possíveis a partir da massificação da infraestrutura de saneamento básico, da aplicação de inseticidas para o controle das populações de mosquitos, da drenagem de áreas pantanosas e, principalmente, da obrigatoriedade da instalação de telas nas janelas e portas das residências. O governo americano também investiu pesadamente em campanhas educativas, mostrando à população quais eram os hábitos e os horários de maior incidência dos ataques dos mosquitos. Por volta do ano de 1950, a malária foi considerada erradicada dos Estados Unidos, restrita a alguns poucos casos anuais em regiões isoladas e densamente florestadas onde os mosquitos são e sempre farão “parte da paisagem”. É importante ressaltar que não existem vacinas homologadas contra a malária e que as medidas preventivas são as melhores alternativas para o controle da doença.

Aqui no Brasil, onde as doenças transmitidas por mosquitos têm crescido ano a ano, a estratégia americana de controle e erradicação da malária deve ser um exemplo. Nossas cidades precisam investir com seriedade em infraestrutura de saneamento básico, gestão dos resíduos sólidos e em educação ambiental – esses são os caminhos para a eliminação dos criadouros dos mosquitos Aedes aegypti que, ao fim e ao cabo, é o grande vetor de transmissão da Dengue, Zika, Chikungunya, Mayaro e, desgraçadamente, da febre amarela urbana, doença que está ressurgindo e que poderá se transformar numa grande epidemia nacional caso as autoridades das áreas de saúde e de saneamento não mostrem pulso firme e competência nos próximos meses.

Que o espírito dos Pais Fundadores da América nos ilumine!

MACACOS ME MORDAM

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O genial Fernando Sabino (1923-2004) foi jornalista, escritor e um dos maiores cronistas da nossa história. Uma de suas mais famosas crônicas, Macacos me Mordam, narra as desventuras de um cientista de uma pequena cidade do interior de Minas Gerais que, para a realização de um experimento científico, envia um telegrama para um amigo de Manaus solicitando o envio de “1 ou 2 macacos” – um erro do telegrafista alterou a mensagem para “1002 macacos”. A chegada do primeiro lote do pedido na estação ferroviária da cidade com 600 macacos terminou em tragédia – aguardando as providências do cientista, os funcionários da estação ferroviária não tiveram outra opção senão abrir as jaulas: os macacos esfomeados se espalharam pela cidadezinha deixando tudo de pernas para o ar…

Fugindo da ficção, invasões de bandos de macacos, especialmente os pequenos saguis e micos, são uma realidade em muitas cidades brasileiras. Aqui em Santo Amaro, bairro da Zona Sul da cidade de São Paulo, você encontrará facilmente saguis de tufo preto andando nos fios elétricos e de telefonia dos postes na busca por frutas e insetos nas copas das árvores; na cidade do Rio de Janeiro, quem mora em bairros próximos das grandes matas convive há muito tempo com saguis e micos em suas varandas. Apesar das cenas divertidas e simpáticas com os macaquinhos, a presença destes animais em áreas urbanas pode ser bastante problemática – primatas são hospedeiros naturais dos vírus da família Flavividae que, se inoculados em seres humanos através da picada de mosquitos contaminados, transmitem a febre amarela.

O surto de febre amarela que vem assombrando dezenas de cidades das regiões Nordeste e Leste do Estado de Minas Gerais pode estar associado à migração de macacos para áreas próximas de cidades e vilas – essa é uma hipótese já levantada e em fase de estudos para sua comprovação. Porém, diversas cidades em outras regiões do Brasil têm relatado o encontro de macacos mortos nas suas áreas urbanas, o que tem deixado as autoridades em alerta.

Em Jaboticabal, cidade localizada a 358 quilômetros da cidade de São Paulo, foi confirmado que dois macacos encontrados mortos em novembro foram vítimas de febre amarela; as autoridades de saúde iniciaram uma campanha de vacinação da população contra a doença. Nas cidades de Ribeirão Preto e Monte Alto, também no interior do Estado de São Paulo, foram encontrados macacos mortos pela febre amarela, colocando todas as autoridades da área de saúde destes municípios em alerta. Esse problemático avanço de animais silvestres para as áreas urbanas está associado ao processo contínuo de destruição dos fragmentos florestais remanescentes, substituídos por plantações, pastagens e atividades de mineração. Sem seus antigos habitats, os animais silvestres migram em busca de alimentos e abrigos, alcançando muitas vezes as áreas urbanas. Notícias de animais silvestres como onças, capivaras, tamanduás e suçuaranas (onça parda) encontrados em quintais de casas nas cidades têm se tornado constantes – em um caso recente, uma suçuarana foi resgatada pela Polícia Florestal na garagem de uma casa em Cotia, município vizinho da cidade de São Paulo.

Além dos riscos de ataques e ferimentos em seres humanos, uma vez que esses animais instintivamente se protegem atacando prováveis predadores, a presença dos animais silvestres em áreas urbanas sempre trará riscos de transmissão de doenças silvestres para os seres humanos. Além da febre amarela que é transmitida por vírus de macacos das Américas do Sul e Central, podemos citar, entre outros, os perigosos vírus Ebola e da Aids que, comprovadamente, foram transmitidos de macacos africanos para seres humanos – existem inúmeros vírus desconhecidos da ciência hospedados em macacos e outros animais silvestres escondidos nas matas fechadas; o avanço do desmatamento e destruição de florestas poderá colocar alguns desses perigosos vírus em contato com populações humanas, com consequências imprevisíveis.

Que esses dramáticos surtos de febre amarela em áreas urbanas que estamos assistindo nas últimas semanas no Estado de Minas Gerais sirvam de alerta contra a irresponsabilidade humana que ataca e destrói as áreas naturais – a natureza tem suas armas para se proteger: a civilizada humanidade poderá levar a pior neste embate…

A TRAGÉDIA DO RIO DOCE E A EPIDEMIA DE FEBRE AMARELA: ALGUMA RELAÇÃO?

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Em novembro de 2015, a barragem de uma mineradora no município de Mariana, em Minas Gerais, se rompeu e lançou uma enxurrada com cerca de 60 milhões de metros cúbicos de lama e rejeitos minerais na direção de casas e sítios da comunidade de Bento Rodrigues, provocando a morte de, pelo menos, 19 pessoas e poluindo todo o trecho do Rio Doce entre Mariana até sua foz, em Regência no Espírito Santo.

Considerada a maior tragédia ambiental já ocorrida no Brasil e o maior desastre da mineração em todo o mundo, o acidente provocou inúmeras alterações na flora e na fauna de toda a bacia hidrográfica do Rio Doce. Calcula-se que, ao longo de um trecho de 853 quilômetros, mais de 120 nascentes tenham sido soterradas pela lama – onze espécies de peixes endêmicas da bacia hidrográfica que já estavam em risco de extinção podem ter desaparecido para sempre. Milhares de árvores foram arrancadas e arrastadas, misturando-se a lama, pedras e entulhos, soterrando a antiga calha do rio. A pesca, a agricultura e a navegação, simplesmente, ficaram inviáveis – milhares de trabalhadores perderam a sua fonte de renda, agravando a situação financeira de dezenas de cidades que já viviam uma situação de penúria desde o início da crise econômica brasileira em 2015.

O recente surto de casos de febre amarela nas regiões Nordeste e Leste do Estado de Minas Gerais pode estar relacionado à tragédia do Rio Doce – esta é a hipótese levantada pela Prof. Márcia Charme, bióloga da FIOCRUZ – Fundação Oswaldo Cruz, vinculada ao Ministério da Saúde e considerada a mais importante instituição de ciência e tecnologia em saúde da América Latina.

A hipótese proposta tem como ponto de partida a localização das cidades com relatos de casos de febre amarela em Minas Gerais – grande parte está localizada em regiões formadoras da bacia hidrográfica do Rio Doce. Considerando todo o conjunto de alterações ambientais provocadas pelo rompimento da barragem de rejeitos nas águas e margens do Rio Doce, pode-se concluir que houve uma intensa migração de animais (mamíferos, aves, répteis, peixes e insetos) para outras regiões, buscando um novo habitat com um bom suprimento de água potável e alimentos. Atenção especial deve ser dada a migrações de grupos de macacos que, como comentado em meu último post, são hospedeiros naturais dos vírus da família Flavividae (flavivírus), que são os causadores da febre amarela em seres humanos.

A presença de macacos em áreas muito próximas a cidades e vilas aumenta muito a probabilidade de transmissão do flavivírus dos primatas para os seres humanos – as fêmeas de mosquitos hematófagos como o Aedes aegypti picam humanos e macacos indistintamente em busca de sangue para suprir seus ovos com reservas de nutrientes, o que possibilita a transmissão e disseminação do vírus entre as espécies. Os conhecidos problemas nas áreas de saneamento básico de nossas cidades proporcionam as condições ideais para a procriação e sobrevivência de grandes populações de mosquitos, o que só faz aumentar as probabilidades de circulação do vírus entre as populações de primatas e seres humanos.

O governo de Minas Gerais decretou situação de emergência em um total de 152 municípios do Estado – se confirmada a hipótese da relação dos casos de febre amarela com a tragédia do Rio Doce, há uma possibilidade real de um crescimento do número de municípios em situação de risco, inclusive em municípios do Estado do Espírito Santo banhados pelas águas do Rio.

Ainda que hipotética, a relação entre o desastre ambiental no Rio Doce e o surto de febre amarela é assustadora, pois abriria espaço para um grande crescimento da epidemia. Considerando que passados mais de ano desde o rompimento da barragem de rejeitos em Mariana, muito pouco foi feito em prol da recuperação do Rio Doce. É fundamental que se elaborem desde já estratégias para o controle das populações de mosquitos Aedes aegypti nos municípios de toda a bacia hidrográfica do Rio – o controle do vetor e a vacinação em massa das populações são as únicas alternativas imediatas para o controle de um eventual surto em toda a região.

SURTO DE FEBRE AMARELA NA ZONA DA MATA MINEIRA

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No início do século XX, essa seria uma manchete facilmente encontrada nos grandes jornais em circulação no país. Eram tempos diferentes, quando o Brasil era predominantemente rural e onde os Barões do Café e os Senhores da Borracha mandavam e desmandavam na política e na vida cotidiana de todos. Nossa jovem república lutava para se consolidar e se recuperava dos traumas da maior guerra civil já vivida pela nação – a Guerra de Canudos (1896-1897); a Abolição da Escravatura em 1888 lançara milhões ex-escravos na indigência dos morros e nas recém inventadas “favelas”(nome cunhado por ex-soldados em referência a uma árvore muito comum no sertão de Canudos), ao mesmo tempo que imigrantes eram importados aos milhões a fim de ocupar as funções dos antigos trabalhadores, em condições de trabalho não muito diferentes.

Infelizmente, a manchete que se lê é recente – vem sendo publicada nestes últimos dias nos meios de comunicação eletrônicos, sendo repetida quase que diariamente nos principais telejornais do país: municípios da Zona da Mata no Nordeste e Leste do Estado de Minas Gerais estão vivendo um surto de febre amarela como não se via há décadas. Diferente dos tempos da Revolta da Vacina de 1904, quando a população da cidade do Rio de Janeiro se rebelou contra a vacinação obrigatória, moradores de cidades mineiras estão revoltados contra as autoridades de saúde pela falta de vacinas contra a febre amarela nas unidades de saúde, tamanho crescimento da demanda: citando um único exemplo, do posto de saúde do bairro de Serra em Belo Horizonte, a demanda saltou de 10 inoculações diárias para 200 aplicações.

O governo do Estado de Minas Gerais decretou na última semana a situação de emergência em um total de 152 municípios das regionais de saúde de Coronel Fabriciano (Vale do Aço), Governador Valadares (Leste), Manhumirim (Zona da Mata) e Teófilo Otoni (Vale do Mucuri) onde há uma alta incidência de casos de febre amarela. De acordo com dados da Secretaria de Saúde de Minas Gerais, há suspeita de 133 casos de contaminação com a doença e a notificação de 38 casos de mortes, sendo que em 10 casos foi confirmada a febre amarela como causa mortis.

A febre amarela é uma doença infecciosa causada por um vírus da família Flaviviridae, normalmente encontrado em macacos que habitam as florestas tropicais das Américas Central e do Sul. Em áreas rurais e silvestres, a doença é transmitida pelo mosquito Haemagogus (mostrado na imagem deste post); em áreas urbanas, o transmissor é o conhecido mosquito Aedes aegypti, transmissor da Dengue, do Zika vírus e da febre Chikungunya.  A febre amarela era considerada erradica das áreas urbanas do Brasil desde 1942.

Uma das causas mais prováveis para o reaparecimento da febre amarela em áreas urbanas é a presença de macacos nas proximidades dos bairros periféricos das cidades – desmatamentos nos fragmentos florestais remanescentes para atividades agrícolas e mineradoras expulsa os animais de seus habitats naturais, levando-os algumas vezes a ocupar pequenas matas em lotes dentro das áreas urbanas. O grande número de mosquitos Aedes aegypti que infestam as nossas cidades não diferenciam seres humanos de macacos, funcionando como um vetor para a transmissão do vírus causador da febre amarela. Os flavivirus são inofensivos para os primatas mas podem ser letais para os seres humanos.

Além de toda a atenção que as nossas autoridades das áreas de saúde e de saneamento básico têm de dar a todo um conjunto de doenças como a Dengue, a Zika, a Chikungunya e, mais recentemente, ao vírus Mayaro, agora também é necessária a atenção contra a febre amarela, uma doença típica em nossas cidades no século XIX e que parece estar voltando com força total.

O grande escritor Mario de Andrade em seu antológico livro Macunaíma parodiou a frase do naturalista francês Saint-Hilarie –“Pouca saúde, muita saúva, males do Brasil são” (a frase original do século XIX – “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”). Peço licença aos dois grandes mestres para parodiar também, com uma fundamentação bastante atual:

Pouca saúde, muito Aedes, males do Brasil são.