SURTO DE FEBRE AMARELA NA ZONA DA MATA MINEIRA

haemagogus

No início do século XX, essa seria uma manchete facilmente encontrada nos grandes jornais em circulação no país. Eram tempos diferentes, quando o Brasil era predominantemente rural e onde os Barões do Café e os Senhores da Borracha mandavam e desmandavam na política e na vida cotidiana de todos. Nossa jovem república lutava para se consolidar e se recuperava dos traumas da maior guerra civil já vivida pela nação – a Guerra de Canudos (1896-1897); a Abolição da Escravatura em 1888 lançara milhões ex-escravos na indigência dos morros e nas recém inventadas “favelas”(nome cunhado por ex-soldados em referência a uma árvore muito comum no sertão de Canudos), ao mesmo tempo que imigrantes eram importados aos milhões a fim de ocupar as funções dos antigos trabalhadores, em condições de trabalho não muito diferentes.

Infelizmente, a manchete que se lê é recente – vem sendo publicada nestes últimos dias nos meios de comunicação eletrônicos, sendo repetida quase que diariamente nos principais telejornais do país: municípios da Zona da Mata no Nordeste e Leste do Estado de Minas Gerais estão vivendo um surto de febre amarela como não se via há décadas. Diferente dos tempos da Revolta da Vacina de 1904, quando a população da cidade do Rio de Janeiro se rebelou contra a vacinação obrigatória, moradores de cidades mineiras estão revoltados contra as autoridades de saúde pela falta de vacinas contra a febre amarela nas unidades de saúde, tamanho crescimento da demanda: citando um único exemplo, do posto de saúde do bairro de Serra em Belo Horizonte, a demanda saltou de 10 inoculações diárias para 200 aplicações.

O governo do Estado de Minas Gerais decretou na última semana a situação de emergência em um total de 152 municípios das regionais de saúde de Coronel Fabriciano (Vale do Aço), Governador Valadares (Leste), Manhumirim (Zona da Mata) e Teófilo Otoni (Vale do Mucuri) onde há uma alta incidência de casos de febre amarela. De acordo com dados da Secretaria de Saúde de Minas Gerais, há suspeita de 133 casos de contaminação com a doença e a notificação de 38 casos de mortes, sendo que em 10 casos foi confirmada a febre amarela como causa mortis.

A febre amarela é uma doença infecciosa causada por um vírus da família Flaviviridae, normalmente encontrado em macacos que habitam as florestas tropicais das Américas Central e do Sul. Em áreas rurais e silvestres, a doença é transmitida pelo mosquito Haemagogus (mostrado na imagem deste post); em áreas urbanas, o transmissor é o conhecido mosquito Aedes aegypti, transmissor da Dengue, do Zika vírus e da febre Chikungunya.  A febre amarela era considerada erradica das áreas urbanas do Brasil desde 1942.

Uma das causas mais prováveis para o reaparecimento da febre amarela em áreas urbanas é a presença de macacos nas proximidades dos bairros periféricos das cidades – desmatamentos nos fragmentos florestais remanescentes para atividades agrícolas e mineradoras expulsa os animais de seus habitats naturais, levando-os algumas vezes a ocupar pequenas matas em lotes dentro das áreas urbanas. O grande número de mosquitos Aedes aegypti que infestam as nossas cidades não diferenciam seres humanos de macacos, funcionando como um vetor para a transmissão do vírus causador da febre amarela. Os flavivirus são inofensivos para os primatas mas podem ser letais para os seres humanos.

Além de toda a atenção que as nossas autoridades das áreas de saúde e de saneamento básico têm de dar a todo um conjunto de doenças como a Dengue, a Zika, a Chikungunya e, mais recentemente, ao vírus Mayaro, agora também é necessária a atenção contra a febre amarela, uma doença típica em nossas cidades no século XIX e que parece estar voltando com força total.

O grande escritor Mario de Andrade em seu antológico livro Macunaíma parodiou a frase do naturalista francês Saint-Hilarie –“Pouca saúde, muita saúva, males do Brasil são” (a frase original do século XIX – “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”). Peço licença aos dois grandes mestres para parodiar também, com uma fundamentação bastante atual:

Pouca saúde, muito Aedes, males do Brasil são.

2 Comments

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s