A TRAGÉDIA DO RIO DOCE E A EPIDEMIA DE FEBRE AMARELA: ALGUMA RELAÇÃO?

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Em novembro de 2015, a barragem de uma mineradora no município de Mariana, em Minas Gerais, se rompeu e lançou uma enxurrada com cerca de 60 milhões de metros cúbicos de lama e rejeitos minerais na direção de casas e sítios da comunidade de Bento Rodrigues, provocando a morte de, pelo menos, 19 pessoas e poluindo todo o trecho do Rio Doce entre Mariana até sua foz, em Regência no Espírito Santo.

Considerada a maior tragédia ambiental já ocorrida no Brasil e o maior desastre da mineração em todo o mundo, o acidente provocou inúmeras alterações na flora e na fauna de toda a bacia hidrográfica do Rio Doce. Calcula-se que, ao longo de um trecho de 853 quilômetros, mais de 120 nascentes tenham sido soterradas pela lama – onze espécies de peixes endêmicas da bacia hidrográfica que já estavam em risco de extinção podem ter desaparecido para sempre. Milhares de árvores foram arrancadas e arrastadas, misturando-se a lama, pedras e entulhos, soterrando a antiga calha do rio. A pesca, a agricultura e a navegação, simplesmente, ficaram inviáveis – milhares de trabalhadores perderam a sua fonte de renda, agravando a situação financeira de dezenas de cidades que já viviam uma situação de penúria desde o início da crise econômica brasileira em 2015.

O recente surto de casos de febre amarela nas regiões Nordeste e Leste do Estado de Minas Gerais pode estar relacionado à tragédia do Rio Doce – esta é a hipótese levantada pela Prof. Márcia Charme, bióloga da FIOCRUZ – Fundação Oswaldo Cruz, vinculada ao Ministério da Saúde e considerada a mais importante instituição de ciência e tecnologia em saúde da América Latina.

A hipótese proposta tem como ponto de partida a localização das cidades com relatos de casos de febre amarela em Minas Gerais – grande parte está localizada em regiões formadoras da bacia hidrográfica do Rio Doce. Considerando todo o conjunto de alterações ambientais provocadas pelo rompimento da barragem de rejeitos nas águas e margens do Rio Doce, pode-se concluir que houve uma intensa migração de animais (mamíferos, aves, répteis, peixes e insetos) para outras regiões, buscando um novo habitat com um bom suprimento de água potável e alimentos. Atenção especial deve ser dada a migrações de grupos de macacos que, como comentado em meu último post, são hospedeiros naturais dos vírus da família Flavividae (flavivírus), que são os causadores da febre amarela em seres humanos.

A presença de macacos em áreas muito próximas a cidades e vilas aumenta muito a probabilidade de transmissão do flavivírus dos primatas para os seres humanos – as fêmeas de mosquitos hematófagos como o Aedes aegypti picam humanos e macacos indistintamente em busca de sangue para suprir seus ovos com reservas de nutrientes, o que possibilita a transmissão e disseminação do vírus entre as espécies. Os conhecidos problemas nas áreas de saneamento básico de nossas cidades proporcionam as condições ideais para a procriação e sobrevivência de grandes populações de mosquitos, o que só faz aumentar as probabilidades de circulação do vírus entre as populações de primatas e seres humanos.

O governo de Minas Gerais decretou situação de emergência em um total de 152 municípios do Estado – se confirmada a hipótese da relação dos casos de febre amarela com a tragédia do Rio Doce, há uma possibilidade real de um crescimento do número de municípios em situação de risco, inclusive em municípios do Estado do Espírito Santo banhados pelas águas do Rio.

Ainda que hipotética, a relação entre o desastre ambiental no Rio Doce e o surto de febre amarela é assustadora, pois abriria espaço para um grande crescimento da epidemia. Considerando que passados mais de ano desde o rompimento da barragem de rejeitos em Mariana, muito pouco foi feito em prol da recuperação do Rio Doce. É fundamental que se elaborem desde já estratégias para o controle das populações de mosquitos Aedes aegypti nos municípios de toda a bacia hidrográfica do Rio – o controle do vetor e a vacinação em massa das populações são as únicas alternativas imediatas para o controle de um eventual surto em toda a região.

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