O APROVEITAMENTO ENERGÉTICO DOS GASES EMITIDOS PELA DECOMPOSIÇÃO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS

Aterro Bandeirante

A humanidade percebeu, desde tempos imemoriais, que em locais onde existia alguma matéria orgânica em decomposição havia sempre a presença de certos tipos de gases – o entendimento científico do fenômeno levou alguns milhares de anos até ser totalmente compreendido; enquanto isso, muitas crendices surgiram nestes locais. Um exemplo: imagine um corpo em decomposição numa cova rasa – uma leve nuvem branca de gases se forma sobre o local, sendo mais visível à noite; essa nuvem se movimenta à menor brisa. Supersticiosos passaram a associar o fenômeno à presença de fantasmas e de almas penadas; a mitologia cresceu geração após geração e as entidades sobrenaturais passaram a ser “reais” para muita gente.

Conforme apresentado no último post, resíduos sólidos urbanos são grandes geradores de gases tóxicos em aterros e lixões aqui do Brasil, especialmente do gás metano – há uma explicação bastante simples para isso: entre 50% e 70% do volume de resíduos descartados no Brasil é de origem orgânica. Esses resíduos entram em decomposição rapidamente devido a ação de bactérias aeróbias e anaeróbias e tem início um ciclo de emissão continua de gases. Nos aterros sanitários, as valas são projetadas prevendo-se a instalação de tubulações captadoras desses gases, que direcionam as emissões na direção de torres ou chaminés onde o gás metano é queimado; esse procedimento controla satisfatoriamente o problema da emissão dos gases, mas configura um grande desperdício de energia. Nos lixões clandestinos esses gases são lançados na atmosfera sem nenhum controle.

O início do aproveitamento energético dos gases resultantes dos processos de decomposição da matéria orgânica aconteceu em Exeter, na Inglaterra, no ano de 1895, quando foi construído um biodigestor para o tratamento do lodo sanitário decantado dos esgotos da cidade – o gás metano obtido passou a ser utilizado na iluminação pública de alguns bairros. A partir dessa experiência pioneira foram desenvolvidas várias tecnologias para o aproveitamento energético mais eficiente desses gases – turbinas acopladas a geradores elétricos representam uma ótima aplicação dessas tecnologias. Para mostrar o potencial de geração de energia elétrica a partir do uso do gás metano do lixo, vamos mostrar o caso do Aterro Bandeirantes, na cidade de São Paulo.

Localizado às margens da Rodovia dos Bandeirantes logo na saída da cidade, o Aterro Bandeirantes se apresenta como imensa montanha escalonada de terra coberta por vegetação (vide foto), com uma altura que chega a 100 metros – equivalente a um edifício com mais de 30 andares. Ao longo dos 28 anos em que esteve em operação, o Aterro recebeu aproximadamente 35 mil toneladas de resíduos sólidos; em 2007, completamente saturado e sem espaço disponível, o aterro foi fechado e a cidade passou a utilizar outros aterros próximos. Mesmo desativado, um aterro desse porte vai continuar emitindo um imenso volume de gases – no caso do Aterro Bandeirantes, esse volume médio de emissões é calculado em 3.600 m³ por dia por um período que poderá chegar a quarenta anos.

Para resolver o problema, a Prefeitura da Cidade de São Paulo assinou em 2004 um contrato com uma empresa privada, cedendo a exploração comercial dos gases. A empresa assumiu o compromisso de instalar e operar uma usina termoelétrica de geração de eletricidade a partir da queima do gás metano gerado no aterro.

O gás metano impuro e particulado de 400 poços de exaustão instalados no Aterro de 140 hectares é captado por uma rede de tubulações com mais de 60 quilômetros de extensão. O gás é encaminhado para tratamento, onde é resfriado, filtrado, reaquecido e pressurizado para a queima como combustível em 24 geradores elétricos a gás, com uma capacidade nominal para produzir 170 mil MW/h de eletricidade por mês, energia suficiente para abastecer uma cidade de 400 mil habitantes. A energia produzida pela Usina é direcionada para a uma subestação de energia elétrica da concessionária de eletricidade local, que faz a distribuição na sua rede elétrica. A empresa fez investimentos de R$ 45 milhões na implantação da Usina, investimento recuperado no ano de 2015.

A Usina Termoelétrica utiliza o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) e contabilizou e certificou já em 2007 mais de 1.200.000 toneladas de créditos de carbono. Metade dos créditos recebidos foi repassado à Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, para investimentos no Fundo Municipal de Meio Ambiente. O Projeto recebeu o Prêmio Valor Social em 2006, com o primeiro lugar pelos júris popular e de especialistas na categoria Respeito ao Meio Ambiente.

Ganhou a cidade, a empresa e, especialmente, o meio ambiente.

A POLUIÇÃO DO AR PROVOCADA PELA DECOMPOSIÇÃO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS

queima-de-gas-metano

Antes de reduzir o ritmo das postagens por causa do Carnaval estávamos falando da contribuição nociva que o transporte dos resíduos sólidos dá ao ar de uma grande cidade como São Paulo: são milhares de toneladas de gases tóxicos lançados na atmosfera local pela imensa frota de caminhões com motores a diesel usada no transporte. Enfatizamos no texto que, além de toda uma série de ganhos ambientais, a redução na produção de resíduos sólidos também contribui para a melhoria da qualidade do ar nas cidades. Vamos aprofundar um pouco mais este conceito.

O nosso popular lixo ou, mais especificamente, resíduos sólidos urbanos nada mais são do que um “ajuntamento” de porções inservíveis de tudo: plásticos, papéis, metais, vidros, restos de alimentos, materiais orgânicos de todo o tipo, produtos químicos, entulhos da construção civil, tecidos, madeiras, produtos quebrados e tudo mais. Essa “mistura de tudo” é acondicionada em embalagens pela população e colocada na porta das casas, prédios, comércios e indústrias para coleta e transporte até os locais de destino – aterros sanitários e lixões. Para os geradores dos resíduos sólidos o problema acaba aqui – na realidade, o problema só muda de endereço.

A matéria orgânica presente nos resíduos sólidos é a primeira a entrar em decomposição nos aterros ou lixões através da ação de bactérias aeróbias, que são seres vivos que respiram oxigênio retirado diretamente do ar. Quando as fontes de oxigênio se esgotam, a decomposição continua a ocorrer pela ação de bactérias anaeróbias que, ao contrário das aeróbias, retiram o oxigênio que necessitam para viver diretamente da matéria em decomposição, num processo conhecido como putrefação. Esse processo de decomposição passa a liberar gases e líquidos poluentes (chorume) no meio ambiente. Entre os gases liberados pela decomposição biológica destacam-se o metano, o dióxido de carbono e o sulfeto de hidrogênio, entre quantidades menores de outros gases.

De todos os gases liberados pela decomposição dos resíduos sólidos, o metano é o mais problemático. O metano é um dos gases responsáveis pelo chamado Efeito Estufa, fenômeno intensamente estudado nos últimos anos e apontado como um dos causadores do processo de aquecimento global – calcula-se que as emissões do gás metano correspondam a 25% do total de gases causadores do aquecimento terrestre e seu potencial poluidor é 21 vezes maior do que o dióxido de carbono. Altas concentrações de gás metano também têm alto potencial para provocar incêndios e explosões.

Nos primeiros meses após o descarte dos resíduos sólidos nos aterros ou lixões, a emissão de gás metano representa aproximadamente 40% das emissões totais de gases – essas emissões têm um crescimento contínuo e, após aproximadamente dois anos, elas se estabilizam entre 60% e 65% do total de gases emitidos no local. Dependendo do volume de resíduos descartados no local, essas emissões de gases se estenderão por dezenas de anos. Para que todos entendam o tamanho do problema, vamos citar o Aterro Bandeirantes na Zona Oeste da cidade de São Paulo: este aterro recebeu 35 mil toneladas de resíduos sólidos ao longo de 28 anos e está desativado desde 2007 – o local continua emitindo 3.600 m³ de gás metano diariamente que, felizmente, é captado por um sistema de tubulações e queimado em uma usina geradora de eletricidade (vamos falar disto no próximo post). A empresa que administra o aterro calcula que as emissões de gases devem continuar a acontecer pelos próximos 30 ou 40 anos. Em locais onde não há esse aproveitamento do gás recomenda-se a instalação de tubulações de captação e de torres para a queima do metano.

Além da emissão desses gases tóxicos resultantes do processo de decomposição da matéria orgânica e dos seus efeitos maléficos, há um outro problema ambiental bastante sério que afeta muito a qualidade do ar: frequentemente, lixões e aterros sanitários são incendiados (acidentalmente ou de propósito) e milhões de toneladas de fumaça tóxica são lançadas na atmosfera, intoxicando milhares de pessoas e, algumas vezes, chegando a provocar mortes – isso é assunto para uma outra postagem.

Vamos continuar no próximo post.

O ROMPIMENTO DE UMA BARRAGEM DO PROJETO DE TRANSPOSIÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO SÃO FRANCISCO: UMA CRÔNICA

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Depois de uma semana de Carnaval com postagens mais genéricas, previa retomar hoje as postagens sobre a Política Nacional dos Resíduos Sólidos. Acontecimentos alteraram meus planos.

Na última sexta-feira começaram a circular notícias sobre o rompimento de uma barragem no interior do Estado de Pernambuco que, ao que tudo indicava, faz parte do polêmico Projeto de Transposição das Águas do Rio São Francisco. Demorou um pouco até que o Ministério da Integração Nacional confirmasse que a barragem faz mesmo parte do Projeto. Curiosamente, essa mesma barragem havia sido inaugurada oficialmente uma semana antes com toda a pompa e protocolo.

A Barragem de Barreiros tem capacidade para armazenar 2,6 milhões de metros cúbicos de água – calcula-se que ao menos 1 milhão de metros cúbicos vazou através de uma fenda com 3 metros de largura que se abriu na frágil barragem construída com pedras e areia. Pelo menos sessenta famílias foram desalojadas pela enchente, que destruiu plantações e arrastou animais – felizmente, nenhuma pessoa morreu no acidente. Técnicos de empresas construtoras conseguiram conter o vazamento fechando a fenda com pedras e areia: em engenharia isto é chamado de “solução técnica”, no popular – “gambiarra”.

Na propaganda oficial, o Projeto de Integração beneficiará 12 milhões de pessoas em 390 municípios nos estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, além das 294 comunidades rurais às margens dos canais. São dois eixos, Norte e Leste, que, quando concluídos, possibilitarão a captação água do Rio São Francisco e a sua distribuição por 477 quilômetros de canais. Como todos devem estar acompanhando nos noticiários, o Projeto caminha a passos de tartaruga em alguns trechos e em outros está simplesmente abandonado. Há denúncias de superfaturamento e desvios dos recursos do projeto; grande parte das obras já realizadas é de péssima qualidade – o acidente na Barragem do Barreiro é uma prova disso.

Enquanto a Região Nordeste enfrenta a maior seca dos últimos 100 anos, recursos destinados a obras contra a seca são desperdiçados a olhos vistos, como parece sugerir essa barragem – isto é o que muitos chamam de Indústria da Seca; outros dirão que a Indústria da Seca é “intriga da oposição”.

Tire suas próprias conclusões…

UMA QUARTA-FEIRA CINZA E SECA NO DISTRITO FEDERAL

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Os moradores das áreas mais nobres do Distrito Federal tiveram muitos motivos para lamentar a chegada desta última quarta-feira: o Carnaval chegou ao fim e, a contragosto de muita gente, a vida vai voltando a sua rotina normal; essa quarta-feira também foi o início de um evento nunca visto nessa área da cidade de Brasília – entrou em vigor o rodízio de água potável. A crise hídrica que afeta todo o Distrito Federal já havia colocado 80% das residências (da população pobre, diga-se de passagem) num regime de rodízio de abastecimento de água – agora chegou a vez dos ricos sentirem na pele o que é a falta de água nas torneiras.

O Distrito Federal é abastecido por dois diferentes sistemas: 85% da população é abastecida com água dos reservatórios do Descoberto e do Santa Maria, e os outros 15% da população e parte dos produtores agrícolas recebem água diretamente de, pelo menos, cinco córregos. Com chuvas muito abaixo da média histórica nos últimos meses, a Barragem do Descoberto está 20% abaixo do nível esperado para esse período – a de Santa Maria não está muito diferente. A empresa responsável pelo abastecimento do Distrito Federal, inclusive, está solicitando autorização junto aos órgãos ambientais para captação de água do Lago Paranoá, cartão postal de Brasília, para ajudar no abastecimento.

Moradores das áreas nobres da Capital Federal, acostumados a um consumo diário de até 800 litros de água, mais de quatro vezes o consumo médio da população e oito vezes mais do que o consumo diário per capita recomendado pela OMS – Organização Mundial da Saúde, vão ter de “sambar miudinho” e aprender a conviver com um volume de água sustentável. O período das chuvas está chegando ao fim e a água armazenada pode não ser suficiente para atender a todos até a chegada do próximo verão – todos vão ter de se esforçar muito para utilizar cada gota de água com muita responsabilidade.

NA AMAZÔNIA, O DESMATAMENTO CONTINUA CHOVA OU FAÇA SOL

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Enquanto milhões de pessoas se divertiam nos bailes, blocos e em desfiles nos diversos Carnavais de todo o país ao ritmo das marchinhas e sambas enredos, nos confins da Amazônia era o som desafinado das motosserras que dava o tom da destruição oculta da floresta.

Depois de uma queda de 70% a partir de 2004 e de uma sequência de anos de estagnação, o desmatamento da Amazônia voltou a crescer em 2016, período em que a floresta perdeu 7.989 km². Segundo dados do IPAM – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, a floresta perdeu no período uma área equivalente a 128 campos de futebol a cada hora. Os estados que registraram maior aumento da taxa de desmatamento foram Amazonas, Acre e Pará, com incremento de 54%, 47% e 41%, respectivamente.

Dez municípios lideram a lista do desmatamento na Amazônia, o que, em tese, deveria facilitar o trabalho de fiscalização das autoridades brasileiras. No Pará são cinco municípios: Altamira, São Feliz do Xingu, Novo Repartimento, Portel e Novo Progresso; dois municípios no Amazonas: Lábrea e Apuí; dois em Rondônia: Porto Velho e Nova Mamoré e um em Mato Grosso: Colniza.

É preciso que governos e autoridades hajam com responsabilidade e consigam reverter mais uma vez essa situação, mantendo o desmatamento sob controle. A se manter o ritmo do crescimento do desmatamento, corremos o sério de risco de, num futuro não tão distante, lembrar da floresta Amazônica apenas em sambas enredos e temas de desfile das escolas de samba…

NAS SERRAS CATARINENSES, O EQUILÍBRIO PERFEITO ENTRE SOL, CHUVA E FRIO

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Diferente de outras regiões brasileiras que, conforme citei nos dois posts anteriores, passam por extremos climáticos e estão sofrendo ou com o excesso de chuva ou com a seca prolongada, diversas regiões do Estado de Santa Catarina viveram neste último ano num clima de perfeito equilíbrio entre calor, frio e chuva.

A combinação de um inverno rigoroso e de uma primavera com baixa umidade e muito calor está possibilitando uma supersafra de maçãs em Santa Catarina. Responsável por 50% da produção nacional da fruta, a perspectiva do Estado é a colheita de 500 mil toneladas de maçãs em 2017, produção 20% maior em volume e com qualidade surpreendente.

Em 2016 foram colhidas no Brasil 830 mil toneladas de maçãs. Neste ano a previsão é a colheita de mais de 1,1 milhão de toneladas. Ao contrário de anos anteriores, onde os invernos foram excessivamente quentes, as chuvas intensas e ocorreram geadas fora de hora, essa safra contou com 1.400 horas de frio rigoroso no inverno e um período de floração das árvores com poucas chuvas, resultando em frutos com polpa firme, teor de acidez e nível de açúcar em perfeito equilíbrio.

Os trabalhos de colheita devem se estender até o mês de abril, com os produtores conseguindo vender a fruta com preços até 17% superiores ao período de safra de 2016. Muita gente em Santa Catarina tem razões de sobra para comemorar muito neste Carnaval.

A PIOR SECA NO NORDESTE EM UM SÉCULO

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Enquanto milhares de brasileiros vão passar o Carnaval com as barras das calças levantadas e com os pés sujos de lama fazendo a limpeza de suas casas após os estragos das últimas enchentes, outros 33 milhões de brasileiros da região do Semi Árido continuam enfrentando as muitas agruras da maior seca registrada na região nos últimos cem anos.

De acordo com dados da ANA – Agência Nacional de Águas, que monitora 533 grandes reservatórios na Região Nordeste, 142 destes reservatórios estão secos. Com o volume de água armazenada em queda contínua desde 2012, os reservatórios operam hoje, em média, com 16,3% da capacidade – no Estado do Ceará, que está em pior situação, os reservatórios apresentam níveis de apenas 7% da capacidade armazenada. Segundo informações da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos, desde 1910 não se registrava uma seca tão severa no Estado – lembrando que essa dramática seca foi imortalizada na obra “O Quinze” da escritora Rachel de Queiroz.

Enquanto centenas de municípios estão em estado de calamidade pública por causa da seca, as obras do alardeado Sistema de Transposição das Águas do Rio São Francisco estão com muitos trechos abandonados e outros com as obras a passo de tartaruga, com denúncias de superfaturamento e desvios de verbas de todos os tipos. As muitas promessas, repetidas desde os tempos do Império, mais uma vez não foram cumpridas e água que é bom, nada.

Concordando mais do que nunca com Euclides da Cunha – o sertanejo precisa ser um forte.

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS CHUVAS

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Nesta semana de Carnaval, quando todo mundo quer relaxar na praia ou no campo, preparei uma série de posts curtos, tratando dos contrastes climáticos que tomam conta das diferentes regiões do país. Vamos a eles:

Na última sexta-feira, dia 24 de fevereiro, enquanto milhões de pessoas faziam os preparativos e as malas para a tão esperada viagem de Carnaval – calcula-se que 2 milhões de veículos deixaram a Região Metropolitana de São Paulo rumo ao litoral e ao interior, a capital paulista viveu mais um dia de caos por causa das fortes chuvas.

Chuvas com intensidade de até 69 mm, registradas na região da Vila Prudente, colocaram a cidade inteira em estado de atenção e os distritos do Ipiranga, Vila Prudente, Aricanduva, Penha e São Mateus no chamado estado de alerta. Foi registrada queda de granizo em Itaquera, Artur Alvim e no aeroporto de Congonhas, que foi fechado para pousos e decolagens por duas horas. Como é usual nestas situações, dezenas de árvores caíram em bairros de toda a cidade. Na região de Cumbica, em Guarulhos, foram registradas rajadas de vento de 72 km/h.

No início da noite, quando muitos foliões tomavam rumo às estradas para a tão esperada viagem de Carnaval, se registravam 18 pontos de alagamento por toda a cidade. Chuvas fortes e enchentes fazem parte da paisagem e do calendário de Carnaval de muitas cidades e regiões do Brasil.

OS RESÍDUOS SÓLIDOS E A POLUIÇÃO DO AR: UM EXERCÍCIO

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Na minha postagem anterior falei da Redução da produção de resíduos sólidos através da Reciclagem e Reutilização, visando a redução do volume de resíduos sólidos que acabam chegando aos aterros sanitários todos os dias. Usei como exemplo prático o caso do aterro sanitário da cidade de Caieiras, que recebe diariamente 700 caminhões de rejeitos da cidade de São Paulo – são 6 mil toneladas despejadas todo santo dia.

Para que todos vocês consigam entender a urgência da implantação plena da Política Nacional de Resíduos Sólidos, vamos realizar algumas projeções matemáticas para que você veja e sinta o tamanho do problema.

Quem conhece a gigantesca cidade de São Paulo sabe que percorrer 50 ou 100 quilômetros pelas ruas e avenidas sem sair dos limites urbanos é coisa corriqueira e diária para milhares de pessoas. Vamos imaginar que cada um dos 700 caminhões que transportam resíduos até o aterro em Caieiras tenham de circular 50 quilômetros diariamente pelas ruas de São Paulo, fazendo a coleta porta a porta. Além disso, é preciso informar que a viagem entre São Paulo e Caieiras é de 40 quilômetros (distância entre os centros das cidades) – considerando as viagens de ida e volta, são 80 quilômetros: a distância total diária percorrida por cada um dos caminhões é, neste exercício, de 130 quilômetros ou 91.000 quilômetros para toda a frota.

Para efeito de cálculo do gasto de combustível pela frota de caminhões, vamos considerar um consumo médio de 1 litro de óleo diesel para se percorrer 5 quilômetrosserão necessários 18.200 litros de óleo diesel para mover a frota de caminhões pelos 91.000 quilômetros diários de percurso. A conta do posto de gasolina fica em mais de R$ 60 mil por dia (considerando um custo de R$ 3,30 por litro de diesel).

Para tornar esse nosso exercício mais dramático, preste atenção nestes números: a literatura técnica especializada nos informa que um motor de caminhão movido a óleo diesel emite entre 2,6 kg a 4 kg de CO2 (dióxido de carbono) para cada litro de diesel queimado na combustão, a depender do peso da carga que está sendo transportada. Para efeito deste exercício, vamos considerar o valor médio, que corresponde a 3,3 kg de CO2 para cada litro de óleo diesel queimado na combustão: são 58.240 quilogramas de CO2 lançados diariamente na atmosfera da cidade somente por essa frota de caminhões usada no transporte destes resíduos sólidos. Existem também óxidos de nitrogênio e de enxofre, hidrocarbonetos, material particulado e outros gases nocivos que não estão sendo contabilizados nessa conta.

A poluição do ar é um dos grandes problemas ambientais da região metropolitana de São Paulo e os motores à diesel têm grande responsabilidade nesse problema: são lançadas anualmente cerca de 22,9 mil toneladas de fumaça preta oriundas da frota de ônibus, caminhões e caminhonetes movidos à diesel, além de cerca de 1.029 mil toneladas ano de monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio, hidrocarbonetos e óxidos de enxofre. De acordo com dados da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental – CETESB, corroboradas pelo médico e professor de patologia da USP, Dr. Paulo Saldiva, uma das maiores autoridades mundiais em doenças provocadas pela poluição do ar, até 20 pessoas morrem por dia na Região Metropolitana de São Paulo por causa da poluição do ar.

Se você tem uma boa memória, vai lembrar que no meu post anterior informei que a produção diária de resíduos sólidos na cidade de São Paulo é de 19 mil toneladas – os números apresentados neste exercício correspondem apenas às 6 mil toneladas que são descarregadas diariamente no aterro sanitário de Caieiras: para chegar aos números diários totais  da poluição do ar gerados pelos resíduos sólidos da cidade, multiplique tudo por 3.

Cada tonelada de resíduos sólidos que nossa sociedade deixa de produzir a cada dia representa uma redução na quantidade de viagens de caminhões em nossas ruas e avenidas, menor poluição atmosférica, menores gastos com a gestão, transporte e processamento, além de economia de espaço nos já saturados aterros sanitários. De quebra, como uma cereja no bolo, pode contribuir na redução do número de mortes causadas pela poluição do ar.

Viu como é urgente a redução do volume de resíduos sólidos?

REDUZIR, REUTILIZAR E RECICLAR: ACHO QUE VOCÊ JÁ LEU SOBRE ISSO POR AQUI

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O aumento do volume do lixo é uma preocupação global e existem diversos movimentos nos países mais desenvolvidos no sentido de estabilizar e reverter essa situação. Entre outras iniciativas, esses países trabalham com os conceitos de Redução do volume de resíduos sólidos gerados, no estímulo à Reutilização de resíduos e materiais e também na Reciclagem, que é a transformação dos resíduos sólidos em matérias primas. Eu já escrevi sobre esses temas e você poderá consultar alguns destes posts a partir dos links indicados.

Para não ficar “chovendo no molhado”, vamos analisar o caso prático da cidade de São Paulo, onde todos os aterros sanitários do município estão saturados e já existe a “exportação” dos rejeitos para aterros localizados em outros municípios da Região Metropolitana, como Caieiras.

São Paulo é a maior cidade brasileira, com uma população de 11 milhões de habitantes. Sua Região Metropolitana figura entre as dez mais populosas do mundo, com uma população estimada em mais de 21 milhões de habitantes. Em uma região onde vive tanta gente, como não poderia deixar de ser, geram-se volumes impressionantes de resíduos sólidos – verdadeiras montanhas de “lixo”. São Paulo é a cidade que mais produz resíduos sólidos no Brasil, com um volume com cerca de 19 mil toneladas diárias. A composição média desses resíduos pode ser conferida nesta tabela:

– Lixo orgânico (52%)
– Papel e papelão (26%)
– Plástico (3%)
– Metais: ferro, alumínio, aço, etc. (2%)
– Vidro (2%)
– Outros (15%)

Sem maiores esforços, você vai perceber que 35% dos resíduos sólidos são materiais recicláveis e reutilizáveis que, via de regra, não deveriam ser encaminhados para os aterros sanitários – a cidade de São Paulo, porém, é uma das que menos recicla e/ou reutiliza no mundo: apenas 1% dos resíduos sólidos produzidos são reaproveitados de alguma forma.

Chama atenção também o grande volume de lixo orgânico na composição dos resíduos orgânicos da cidade – 52%. Resíduos orgânicos, como todos devem saber, podem ser transformados em adubo orgânico a partir de processos de compostagem. Considerando que o Brasil é uma potência mundial na produção agrícola, seria bastante razoável imaginar que boa parte desses resíduos poderiam ser processados em escala industrial e vendidos posteriormente na forma de adubo orgânico para os produtores rurais, reduzindo-se substancialmente o volume de rejeitos orgânicos destinados aos aterros sanitários.

No item Outros, que corresponde a 15% da composição dos resíduos sólidos, encontraremos os resíduos da construção civil, restos de madeira, lixo eletrônico, além de outros resíduos diversos inclassificáveis. Resíduos da construção civil representam uma classe específica dos resíduos sólidos, com grande potencial de reciclagem e reutilização, e não devem ser misturados ao popular “lixo comum”. Resíduos de madeira, na pior hipótese, tem grande potencial na geração de energia através da queima. Lixo eletrônico, já falamos muito sobre ele, traz uma série de riscos ao meio ambiente e também apresenta grandes potenciais de reciclagem através de tecnologias apropriadas.

Usando de puro bom senso, você pode observar que é uma verdadeira “judiação”, como falavam meus avós, jogar fora tantos materiais e resíduos com potencial de reutilização, inclusive com perspectivas de ganhos econômicos. Segundo o Movimento Nossa São Paulo, enterramos R$ 750 milhões em produtos recicláveis e reutilizáveis todos os anos aqui na nossa cidade. Mas, por puro comodismo ou burrice, resistimos em mudar nosso entendimento sobre os resíduos sólidos e continuamos a enviar diariamente montanhas e mais montanhas de materiais para os aterros sanitários.

O aterro de Caieiras sozinho recebe diariamente 700 caminhões, que despejam nas valas 6 mil toneladas de resíduos sólidos todos os dias. Desde o ano de 2002, quando esse aterro começou a operar, já foram depositados ali 15 milhões de toneladas de resíduos sólidos. A vida útil estimada para este aterro é de 20 anos – quando estiver completamente saturado, ele deverá ser abandonado e as autoridades buscarão uma outra área em condições de ser transformada num novo aterro sanitário.

É por isso que, na minha opinião, a redução do volume dos resíduos sólidos é tão urgente e é um dos principais objetivos da Política Nacional dos Resíduos Sólidos.

Até o próximo post.