
O licenciamento e a implantação de áreas destinadas ao despejo sanitário de resíduos sólidos residenciais e industriais (nesse caso as restrições e dificuldades são ainda maiores) não é tarefa das mais fáceis – numa sequência de posts foram mostradas as diversas dificuldades para a aquisição de uma área e alguns problemas criados pela operação de um aterro. Encerrar o despejo irregular de resíduos sólidos em um lixão também não é tarefa das mais fáceis. Vamos acompanhar um resumo da história do “lixão” do Jardim Gramacho, no município de Duque de Caxias – Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
O Jardim Gramacho abrigou entre os anos de 1978 e 2012 aquele que foi considerado o maior “lixão” da América Latina. O terreno, onde se formaram inicialmente as áreas residencial e a de descarte de resíduos, é o chamado “Terreno de Marinha”, uma faixa de terra de uso restrito com 33 metros contados a partir do mar em direção ao continente ou ao interior das ilhas costeiras com sede de Município que pertence à União, ou seja, houve uma invasão de área pública. Os Terrenos de Marinha só podem ser ocupados após autorização de órgão federal competente e com a contrapartida de pagamento de uma taxa de uso. Com o crescimento do volume de resíduos sólidos despejados nessa faixa de terra, a área ocupada avançou tanto na direção da terra quanto na direção do mar, quando os resíduos e líquidos percolados se consolidaram como um dos grandes poluidores da sofrida Baia da Guanabara.
Lixões e aterros controlados, como é do conhecimento de todos, atraem todos os tipos de criaturas, que buscam encontrar ali comida e moradia – em se tratando de seres humanos, a atração se dá pela farta disponibilidade de resíduos recicláveis, que são garimpados em duras jornadas de trabalho e trocados por valores irrisórios junto aos intermediários nos chamados ferros velhos. Há época do fechamento do Gramacho, haviam 1.700 catadores de recicláveis trabalhando na área de despejo, muitos com mais de 30 anos de atividade no local, e perto de 20 mil moradores nas áreas de entorno, vivendo de atividades ligadas direta ou indiretamente à reciclagem de materiais.
Quando o Gramacho foi oficialmente fechado em 2012, a área recebia aproximadamente 11 mil toneladas diárias de resíduos sólidos, sendo que 75% do volume despejado era gerado pelo município do Rio de Janeiro e o restante gerado por municípios da Baixada Fluminense. Com o fim dos despejos oficiais (despejos irregulares continuaram acontecendo, porém com volumes muito menores), os catadores de recicláveis rapidamente viram seus minguados rendimentos caírem a valores irrisórios – sem materiais recicláveis para garimpar não há renda para suprir as necessidades mais básicas do ser humano, especialmente a alimentação. Os resíduos sólidos das cidades passaram a ser encaminhados para o novo e polêmico aterro sanitário de Seropédica (vamos falar dele no próximo post), que não permite a entrada de catadores de recicláveis, barrando uma eventual migração dos catadores “desempregados” do Jardim Gramacho.
O fechamento do “lixão” do Jardim Gramacho deixou um gigantesco passivo ambiental e social. Uma série de promessas e compromissos dos Governos Estadual e Federal feitos juntos aos catadores de recicláveis e moradores do Jardim Gramacho não foram cumpridos: regeneração das áreas de mangue, revitalização e infraestrutura do bairro e implantação de programas de qualificação profissional para os milhares de catadores de recicláveis, entre outras promessas. Um único compromisso assumido foi cumprido: cada um dos 1.700 catadores cadastrados recebeu, na época, uma indenização de R$ 14 mil e nada mais.
Uma reportagem do jornal O Dia, do Rio de Janeiro, fez uma radiografia da pobreza das residências da população local: 91% das casas são construídas com restos de madeira e papelão; 63% tem piso de chão batido; 93% tem ligações elétricas irregulares (os famosos “gatos”); 74% das casas não tem água encanada e 26% não tem “banheiro”. E como se não bastasse tudo isso, as famílias perderam a sua fonte de renda e foram, literalmente, abandonadas à própria sorte.
O fechamento dos lixões e aterros irregulares é fundamental – porém é urgente que se encontrem alternativas de trabalho e renda para as 400 mil pessoas que vivem do lixo em todo o Brasil (considerando-se os dependentes, esse número vai a 1,2 milhão de pessoas). Você, muito provavelmente, quer distância do lixo – essas pessoas dependem dele para sobreviver…
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