RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS, CHUVAS E ENCHENTES

Resíduos sólidos e chuvas

Ao longo de toda essa segunda-feira, dia 10 de fevereiro, os telejornais de São Paulo mostraram imagens das enchentes que tomaram parte expressiva da cidade de São Paulo e municípios da Região Metropolitana. Pistas bloqueadas, trens paralisados, pessoas andando com água na altura dos joelhos, córregos e rios invadindo grandes avenidas, entre outras cenas do caos urbano que tomou conta da Região. 

Um tipo de imagem que não passou despercebida foram as grandes quantidades de lixo e detritos que estavam sendo arrastados pelas fortes enxurradas e se acumulavam em alguns trechos das áreas alagadas ou que flutuavam nas águas dos rios e córregos. Pode até não parecer, mas os resíduos sólidos gerados pelas cidades têm um papel importante na formação de pontos de alagamentos e enchentes localizadas. 

As cidades são grandes geradoras de resíduos sólidos ou lixo, na linguagem mais popular. Cada brasileiro gera em média, aproximadamente, 1,3 kg de resíduos a cada dia. São restos e cascas de alimentos, embalagens, produtos eletrônicos quebrados e eletrodomésticos antigos, roupas velhas, entre outros materiais. As Prefeituras das cidades precisam fazer pesados investimentos para a coleta de resíduos, varrição de ruas e transporte dos materiais coletados até uma destinação final adequada, o que nem sempre acontece. 

A Região Metropolitana de São Paulo gera diariamente 27 mil toneladas de resíduos sólidos, sendo que 70% desse volume correspondem aos resíduos da construção civil e sobre os quais falaremos em uma outra postagem. A cidade de São Paulo, sozinha, gera 20 mil toneladas de resíduos a cada dia, sendo que 12 mil toneladas correspondem aos resíduos da varrição e da limpeza de áreas públicas. São justamente esses resíduos descartados de maneira incorreta pela população os principais responsáveis por alagamentos e enchentes localizadas. 

Descartados de forma irregular, esses resíduos são arrastados pelas enxurradas na direção das bocas de lobo e tubulações do sistema de drenagem de águas pluviais, bloqueando a passagem de água e inutilizando os sistemas. Também chegam aos canais naturais de drenagem, que são os córregos, riachos e rios, onde se juntam a grandes volumes de areia, cascalho e outros detritos. Esses resíduos vão se acumulando em camadas e reduzindo gradativamente a capacidade de vazão dos corpos d’água. 

Quando chove um pouco mais forte, a correnteza arrasta parte desses resíduos, onde também se juntam uma infinidade de sacos plásticos com lixo doméstico e resíduos diversos. Esse turbilhão de resíduos pode estrangular trechos mais estreitos dos corpos d’água, obstruir tubulações de drenagem ou simplesmente ficam entalados sob pontilhões, o que bloqueia a correnteza e gera um grande alagamento localizado. 

Um receptor de grande parte desses resíduos sólidos na Região Metropolitana de São Paulo é o rio Tietê, o principal canal de drenagem regional. Há poucos dias divulgamos a notícia de um investimento de R$ 55 milhões por parte do Governo do Estado de São Paulo destinado a serviços de dragagem e limpeza da calha do rio. Os técnicos estimam que serão retirados mais de 500 mil m³ de resíduos num trecho de 41 km dentro da área metropolitana. Esse é um trabalho que é feito continuamente, ano após ano. 

Na década de 1990, o Governo do Estado de São Paulo iniciou um grande programa de rebaixamento da calha do rio Tietê. Conforme comentamos em outras postagens, esse rio sofreu grandes modificações em sua calha, que passou de um continuo de curvas sinuosas para uma calha reta, de forma a liberar as extensas áreas das várzeas para a especulação imobiliária. Entre outras consequências, a retificação do Rio Tietê resultou em ciclos de enchentes nos bairros mais baixos da cidade – o projeto de rebaixamento da calha do Tietê veio a ser mais uma tentativa de reduzir essas enchentes.  

Planta da cidade de São Paulo 1929

Durante os trabalhos no rio Tietê, grandes quantidades de resíduos foram retiradas da sua calha. Foram içadas inúmeras carcaças de carros, geladeiras, fogões, móveis, latas, todos os tipos de resíduos plásticos e milhares de pneus – cerca de 20 mil unidades foram retiradas junto com o lodo e os entulhos do fundo da calha. As montanhas de pneus velhos nas margens do rio se transformaram em uma espécie de ícone do descaso da população com os corpos d’água da cidade. 

E não são só os grandes rios que sofrem com o aporte de grandes volumes de resíduos – os pequenos córregos e riachos que cruzam as periferias das cidades da Região Metropolitana são transformados em verdadeiras latas de lixo pelas populações, ficando com seus leitos completamente entulhados e sem espaço para receber a água das chuvas. A população afirma que faz isso devido à falta de serviços de coleta de resíduos por parte das Prefeituras. As Prefeituras reagem e afirmam que mantém uma coleta regular em todos os bairros. Em meio a essa briga entre populações e Prefeituras, os canais de drenagem permanecem obstruídos e os bairro sujeitos a grandes inundações

Outro foco de atrito entre os resíduos e as águas pluviais são os lixões e aterros irregulares de resíduos. Esses locais costumam receber todo o tipo de resíduos, desde de restos de alimentos, materiais orgânicos de todos os tipos, materiais sólidos, óleos, graxas, tintas, produtos químicos e contaminantes. A Política Nacional de Resíduos Sólidos, publicada em 2010, previa a eliminação desses locais até o ano de 2014, o que não aconteceu. Estima-se que ainda existam mais de 3 mil aterros clandestinos e lixões irregulares por todo o Brasil. Sem o devido cuidado, os resíduos recolhidos são abandonados de qualquer jeito nesses locais e acabam sendo carreados pelas chuvas na direção dos corpos d’água

Quando cai uma chuva mais forte em uma cidade com ruas repletas de resíduos e com os seus sistemas de drenagem e canais obstruídos, não se pode esperar outra coisa senão enchentes generalizadas. Conforme a chuva vai caindo, a força da gravidade faz o seu papel, conduzindo a água para os terrenos mais baixos – não existe força na natureza que consiga deter essa água e os estragos que ela pode fazer. 

As chuvas, conforme já cansamos de falar em outras postagens, são eventos naturais que ocorrem com relativa frequência em um país com clima majoritariamente tropical e equatorial como é o caso do Brasil. A previsibilidade da chegada das chuvas, ano após ano, é um motivo a mais para as cidades estarem devidamente preparadas, o que infelizmente quase nunca acontece. As enchentes que assistimos na Região Metropolitana de São Paulo nos últimos dias são uma prova eloquente desse descaso. 

As principais causas das grandes enchentes urbanas são bem conhecidas: os desmatamentos, a ocupação das encostas de morros, a impermeabilização intensa dos solos, a canalização indiscriminada de córregos e ribeirões, a realização de obras viárias em antigas áreas de várzeas e vales de rios e córregos, entre outras. Reverter ou remediar esses problemas é bastante complicado do ponto de vista técnico e também financeiro. Agora, manter bons serviços de coleta de resíduos e de varrição de ruas, dando uma destinação adequada aos resíduos em aterros sanitários regularizados, é bem mais fácil e pode ajudar bastante na redução dos pontos de alagamentos e nas enchentes localizadas. 

UM DIA DE CAOS EM SÃO PAULO, OU CHUVA, MUITA CHUVA

Caos em São Paulo

A Região Metropolitana de São Paulo está vivendo o mais completo caos neste início de semana. Uma forte chuva começou a cair na Região no final da tarde de domingo e, depois de 20 horas ininterruptas, o volume acumulado já era equivalente a 46% de todas as chuvas previstas para o mês de fevereiro. Essa foi a maior chuva a atingir a Região Metropolitana nos últimos 37 anos. De acordo com dados do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, foram 114 mm/m² de chuva entre as 9 horas da manhã de domingo e as 9 horas da manhã dessa segunda-feira

Assim como ocorre com a grande maioria das cidades brasileiras, especialmente as grandes metrópoles, a Grande São Paulo não está preparada para conviver “pacificamente” com um volume de chuva tão grande. Aliás, em muitos municípios da Região Metropolitana, basta uma chuva mais forte para surgirem os problemas de enchentes e alagamentos. Um ciclo tão intenso de chuvas em um curto espaço de tempo termina, invariavelmente, em caos generalizado. 

Os sistemas de transportes da Região foram intensamente prejudicados. Duas linhas de trens metropolitanos foram paralisadas e uma operou parcialmente. Várias linhas do Metrô tiveram de operar com velocidade reduzida. Completando a crise nos transportes, centenas de linhas de ônibus tiveram seus trajetos alagados e milhões de paulistanos não conseguiram sair de casa. Dezenas de escolas, unidades de saúde e repartições públicas não funcionaram hoje. No município de Osasco, houve um grande deslizamento de encosta na comunidade do Morro do Socó, deixando 3 feridos. 

Na cidade de São Paulo, a maior e mais densamente povoada da Região, os problemas são gigantescos. Duas das mais importantes avenidas da cidade, as Marginais Tietê e Pinheiros, amanheceram com vários trechos inundados, o que resultou em congestionamentos de centenas de quilômetros. Para quem não conhece a cidade, as Avenidas Marginais funcionam como uma grande espinha dorsal para o trânsito da cidade, interligando uma infinidade de avenidas nos mais diferentes bairros. Quando alguma das avenidas Marginais para, a cidade inteira começa a ficar paralisada em um efeito cascata

A história da construção dessas grandes avenidas são um resumo do descaso da cidade com a questão das águas pluviais. Essas vias se encaixam no conceito das “avenidas de fundo de vale”, e começaram a ser construídas na cidade a partir da década de 1930. Para os antigos planejadores de São Paulo, os vales e as várzeas dos córregos, riachos e rios no município eram áreas mal aproveitadas e abandonadas, que teriam muito mais utilidade para a população quando urbanizadas e transformadas em grandes avenidas. Essas obras colaborariam na melhoria do tráfego de veículos e também orientariam a expansão da mancha urbana. De quebra, a realização dessas obras eliminaria algumas comunidades ribeirinhas que haviam se instalado nesses locais. 

O principal rio que atravessa a Região Metropolitana de São Paulo é o rio Tietê. Além do Tietê, a Região Metropolitana era cortada por uma infinidade de pequenos córregos, ribeirões e rios mais caudalosos como o Tamanduateí e o Pinheiros. Algumas fontes citam mais de 200 cursos d’água apenas no município de São Paulo – alguns documentos históricos chegam a falar de 1.200 cursos d’água num passado distante. Muitos desses riachos e córregos foram sendo canalizados e acabaram esquecidos sob grossas camadas de asfalto e concreto. Vez ou outra, quando acontece algum afundamento de pista em alguma avenida da cidade, as autoridades acabam redescobrindo alguns desses corpos d’água há muito esquecidos. 

Em muitas fotos históricas do século XIX, os grandes rios que cortavam o Planalto de Piratininga aparecem cheios de curvas e cercados por grandes áreas de várzea. Essa característica permitia que esses rios absorvessem os grandes volumes das chuvas de verão sem causar maiores prejuízos para as populações. As áreas de várzea assumiam características semelhantes ao Pantanal de Mato Grosso, inclusive com a presença de animais típicos desse bioma. Passado o período de chuvas, essas várzeas secavam gradativamente. 

Com o crescimento da mancha urbana, muitas áreas de várzea passaram a ser aterradas, permitindo assim a liberação dos terrenos para a construção de novas casas, armazéns e galpões. Um grande exemplo é a Várzea do Carmo, uma grande área alagável da região central da cidade de São Paulo, que nos primeiros anos do século XX passou por grandes obras de drenagem, onde foram criadas áreas “secas” para a construção do Parque Dom Pedro II, do Mercado Municipal da Rua da Cantareira, da rua 25 Março – maior centro comercial da cidade, entre outras localidades. O rio Tamanduateí, que corta toda essa região, passou por inúmeras obras ao longo das décadas seguintes e acabou transformado em uma calha apertada cercada pela Avenida do Estado

A história do rio Tietê não foi muito diferente. Esse rio atravessa a mancha urbana no sentido Leste-Oeste e teve importância ímpar na história das cidades da Região. Durante muito tempo, o rio Tietê foi uma importante via para o transporte fluvial de cargas e pessoas por todo o Planalto de Piratininga, ligando toda uma série de pequenas cidades do entorno ao centro da cidade de São Paulo. Com o forte crescimento da cidade e com uma utilização cada vez maior dos transportes rodoviários, a navegação no rio Tietê foi sendo gradativamente abandonada já nos primeiros anos do século XX.  

A partir da década de 1920, a calha irregular do rio Tietê passou a ser retificada, com vistas a permitir o avanço da cidade sobre as antigas áreas de várzea. Na década de 1950, foi inaugurado o primeiro trecho da Marginal Tietê, isolando ainda mais a calha do rio. Com o passar dos anos, todas as marges do rio Tietê dentro do município de São Paulo passou a ser ocupada pela Avenida Marginal (pista Direita e Esquerda). 

Na Zona Sul do Município de São Paulo, o rio Pinheiros teve a sua história mudada após a decisão pela construção da Represa Billings e da Usina Hidrelétrica Henry Borden em Cubatão na década de 1930. O audacioso projeto desse complexo hidrelétrico dependeria de um reforço das águas da bacia hidrográfica do rio Tietê, que seriam transpostas através do rio Pinheiros por meio de duas estações de bombeamento ou de traição. O sinuoso canal do rio Pinheiros (vide foto abaixo) foi transformado em um canal retilíneo, o que liberou grandes áreas de várzea para a especulação imobiliária, onde surgiram bairros elegantes como o Alto de Pinheiros, trechos do Butantã e do Brooklin Novo, entre muitos outros. Às margens do novo canal do rio Pinheiros foi construída a Marginal Pinheiros. 

Rio Pinheiros

Além da construção de imponentes avenidas nas várzeas desses grandes rios, a cidade também ocupou as várzeas e vales de centenas de córregos e ribeirões. Citando alguns exemplos: Avenida Pacaembu (Ribeirão Pacaembu), Avenida 9 de Julho (Rio Anhangabaú), Avenida Roberto Marinho (Córrego das Águas Espraiadas), Avenida Anhaia Melo (Córrego da Mooca), Avenida Juscelino Kubitschek (Córrego do Sapateiro), Avenida Aricanduva (Córrego Aricanduva), Avenida Jacu-Pêssego (Córrego Jacu), Avenida Sumaré (Córrego do Sumaré), Avenida dos Bandeirantes (Córrego da Traição), Avenida Luís Dumont Villares (Córrego do Carandiru), Avenida 23 de Maio (Córrego do Itororó), entre muitos outros. 

Completando o quadro de preparação para uma grande tragédia ambiental, áreas em encostas de morros foram desmatadas e ocupadas por construções, grandes áreas do solo dsa cidades foram impermeabilizadas por grossas camadas de concreto e asfalto; grandes construções passaram a ocupar os terrenos, restando poucas áreas com vegetação e solos permeáveis. Basta uma chuva mais forte para inundar e alagar grandes áreas da urbe. Com uma chuva torrencial como essa que castigou a cidade de ontem para hoje, a cidade passa a conviver com o caos. 

Para encerrar, o Prefeito da cidade de São Paulo, Bruno Covas, em entrevista a jornalistas no final da tarde, disse que a responsável por todas essas tragédias foi “a forte chuva das últimas horas”. 

Tire suas próprias conclusões. 

SEDIMENTAÇÃO E ASSOREAMENTO DE CÓRREGOS, RIACHOS E RIOS URBANOS

Assoreamento de rios urbanos

Há poucos dias atrás, o Governo do Estado de São Paulo anunciou um investimento de mais de R$ 55 milhões para a realização de obras de desassoreamento e limpeza da calha do rio Tietê na Região Metropolitana da capital paulista. Esse valor é cerca de 10% maior do que os investimentos destinados a essas obras em 2019. Os trabalhos serão realizados ao longo de um trecho de 41 km, entre a Barragem da Penha, na Zona Leste da cidade de São Paulo, até a barragem Edgard de Souza, em Santana do Parnaíba. 

À primeira vista, essa é uma notícia que, muito provavelmente, não chamaria a sua atenção numa página de jornal ou em uma nota de um telejornal. Entretanto, esse é o tipo de trabalho “invisível” que pode fazer toda a diferença no combate às famigeradas enchentes de verão. De acordo com a nota do DAEE – Departamento de Águas e Energia Elétrica, autarquia do Governo do Estado de São Paulo responsável pela área, serão removidos perto de 500 mil m³ de sedimentos da calha do rio Tietê neste trecho. Esse volume convertido em água corresponde a aproximadamente 500 bilhões de litros ou 200 piscinas olímpicas. Quando chove, é esse o volume de água que não encontra espaço na calha do rio e passa a ocupar as rua e avenidas da Região Metropolitana

O assoreamento é o resultado final de um processo de alteração ou degradação da calha de um curso d’água, geralmente em virtude do grande acúmulo de sedimentos. Dependendo da intensidade do assoreamento, a calha de um corpo d’agua pode, literalmente, desaparecer ao longo do tempo. Já a sedimentação é o processo de retirada de sedimentos dos solos, que são arrastadas e acumulados no leito de cursos d’água por força das chuvas

Falando de uma forma bem simplificada e muito resumida, sedimentos são fragmentos de rochas resultantes dos mais diversos processos erosivos. Ao longo de milhões de anos, as rochas ficaram expostas ao sol, chuvas, gelo e ventos. Essas diferentes “forças” da natureza foram degradando a superfície das rochas e gerando fragmentos de diferentes tamanhos – argila, silte, areia, cascalho e seixos, entre outros. Os diferentes tipos de solos, essenciais para a existência da maior parte da vida vegetal do planeta e base da cadeira alimentar da maioria das espécies animais, surgiram a partir dessa degradação das rochas. Solos combinam sedimentos de rochas, matéria orgânica, água e ar. 

Grandes volumes de sedimentos, principalmente os mais finos, são arrastados pelas chuvas e acabam se depositando no leito de córregos, riachos e rios. Esses sedimentos são carreados pela correnteza dos rios e depositados em áreas planas como as bacias sedimentares, onde ao longo das eras formarão novos tipos de rochas como os arenitos e os calcários. Parte dos sedimentos, especialmente os mais finos como a argila, o silte e a areia, serão levados cada vez mais longe, chegando por fim até aos oceanos – a areia das praias tem origem em rochas degradadas que estão localizadas a centenas ou milhares de quilômetros dos oceanos. 

Esses importantes mecanismos naturais, responsáveis pela formação de grande parte das paisagens que nos cercam, sofrem constantemente em consequência das ações humanas. Os desmatamentos, citando um exemplo, expõem os solos à ação erosiva das chuvas, o que resulta no assoreamento descontrolado dos corpos d’água. Com a tomada da calha dos rios com sedimentos, as águas excedentes das chuvas de verão avançam contra os barrancos das margens, aumentando gradativamente os problemas ambientais. 

Nas áreas urbanas, os problemas são semelhantes – desmatamentos, impermeabilização de solos e obras de infraestrutura provocam mudanças na dinâmica das águas pluviais, que tem como consequências enchentes e alagamentos. Esses problemas são amplificados pelo assoreamento do leito dos canais de drenagem, tanto naturais quanto os artificiais, sendo os causadores de grandes transtornos para a população. 

Areia e cascalho, dois aglomerados largamente utilizados na construção civil, são os sedimentos de origem mineral encontrados em maiores quantidades nos leitos de córregos, riachos e rios urbanos. A disseminação desses sedimentos nos ambientes urbanos já começa durante o transporte desde as fontes de produção até os canteiros de obras. As cargas são acondicionadas de maneira improvisada nos caminhões, que saem espalhando pedras e areia pelo caminho.

Outra fonte de problemas está nos próprios canteiros de obras – essa indústria é famosa pelos seus níveis de perdas de materiais e componentes, o que em muitos casos chega à casa dos 30%. Os materiais “perdidos” acabam se transformando em resíduos sem utilidade nos canteiros de obra, que depois precisarão ser descartados no meio ambiente. 

Os resíduos da construção civil respondem por 70% de todos os resíduos gerados por uma cidade e são a principal fonte dos sedimentos carreados para os corpos d’água nas áreas urbanas. Apesar da maior parte desses resíduos poderem ser reutilizados, principalmente pela própria indústria da construção civil, é comum encontrarmos entulhos abandonados em ruas, calçadas e terrenos baldios. Basta uma chuva mais forte para os problemas começaram – o acúmulo desses resíduos bloqueia o escoamento das águas pluviais e causam diversos problemas de alagamentos.  

Os fragmentos mais finos, especialmente a areia e o cascalho, são arrastados pelas enxurradas na direção dos canais de córregos e riachos, onde vão se acumulando. Tubulações da rede de águas pluviais também acabam sendo o destino final de grande parte desses resíduos. Sem um trabalho regular de limpeza, a camada de sedimentos vai ficando cada vez mais espessa e esses canais de drenagem vão ficando cada vez mais rasos, comportando cada vez quantidades menores de água. O resultado são as enchentes.

A foto que ilustra essa postagem, que é uma imagem comum na paisagem das cidades, mostra o canal de um córrego na periferia completamente assoreado e exposto ao carreamento de grandes volumes de resíduos descartados incorretamente pela população.

Como se essa situação já não fosse suficientemente complicada, resíduos sólidos dos mais diferentes tipos acabam chegando ou são jogados nesses canais. Falamos aqui de resíduos plásticos e embalagens, pneus, móveis, eletrodomésticos como fogões e geladeiras, carcaças de carros velhos, entre outros resíduos. Cito um exemplo desse descaso com as águas – na década de 1990, durante as obras de aprofundamento da calha do rio Tietê na cidade de São Paulo, foram retirados 20 mil pneus velhos do leito do rio, entre outras milhares de toneladas de resíduos de todos os tipos. Eu nunca me esqueci das montanhas de pneus velhos que podiam ser avistadas nas margens do rio durante as obras. 

O assoreamento dos canais de drenagem de águas pluviais urbanos é um processo contínuo e, em grande parte, inevitável. As autoridades municipais e estaduais, conforme o caso, precisam realizar trabalhos de limpeza dos canais, evitando assim a redução da capacidade de drenagem. A boa gestão dos resíduos sólidos urbanos também é fundamental – as cidades precisam contar com bons serviços de coleta e destinação  dos resíduos sólidos domiciliares, assim como para o encaminhamento, armazenagem e reciclagem dos resíduos da construção civil

Acima de qualquer coisa, as populações precisam ter consciência do seu papel como agentes ambientais e devem descartar seus resíduos corretamente, evitando que as águas pluviais os arrastem para os canais de drenagem naturais e artificiais. Enchentes e alagamentos não são processos exclusivamente naturais – as mãos humanas estão por trás de grande parte dos problemas criados pelas chuvas de verão. Os resíduos que geramos em nosso dia a dia são grande parte do problema. 

AS CHUVAS, A OCUPAÇÃO DESORDENADA E OS RISCOS DE DESLIZAMENTOS DE ENCOSTAS NAS ÁREAS URBANAS

Ocupação de encostas

Os problemas vividos nas cidades durante o período das chuvas de verão costumam ser agravados pelos deslizamentos de encostas, que muitas vezes terminam com o soterramento e morte de pessoas. Nas recentes chuvas e enchentes que assolaram os Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, a maior parte das vítimas fatais foi atingida por deslizamentos de terra e desmoronamento de construções em encostas de morros. 

Desde a “invenção” da agricultura entre 10 e 12 mil anos atrás, as cidades começaram a surgir nas regiões com vocação agrícola. Um dos principais pré-requisitos para a formação de um centro urbano era a proximidade com fontes perenes de água. Um exemplo dessa dependência de fontes “confiáveis” de água potável pode ser encontrado na civilização do Vale do Indo, entre a Índia e o Paquistão, que floresceu entre os anos de 3.300 e 1.300 a.C. Uma das mais impressionantes cidades dessa civilização foi Molenjodaro, que começou a usar sistemas canalizados de água potável e de esgotos sanitários no ano 3.200 a.C. Em meados do segundo milênio a.C, mudanças climáticas regionais mudaram o curso do rio Indo e essa civilização, simplesmente, desapareceu – sem fontes de água, não é possível a existência de cidades

No processo de ocupação e de colonização do Brasil, essa busca por fontes de água para sustentar as populações das cidades fica muito clara. Todo arraial, vila ou cidade fundada em nosso território ficava próximo de um riacho, rio ou lago com águas perenes. Durante o processo de crescimento desses núcleos urbanos, os moradores passaram a buscar terrenos em solos com boa topografia e com os melhores acessos às fontes de água. As áreas de encostas de morros e os terrenos baixos das áreas de várzea, considerados ruins para abrigar novas construções, sempre foram evitados. Por essa razão, os terrenos nessas regiões sempre foram muito desvalorizados

Na nossa cultura popular, morar em morro é coisa de gente pobre – a formação das favelas nos morros do Rio de Janeiro pelos escravos libertos no final do século XIX é um grande exemplo disso. A forte migração de populações rurais para os centros urbanos iniciada nas últimas décadas do século XIX, aliada à falta de políticas públicas na área de habitação popular, transformou as encostas dos morros numa alternativa para as construções populares e também para as famosas “habitações sub normais”, mais conhecidas como favelas. De acordo com estudos realizados em 2010 pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mais de 8 milhões de pessoas viviam em áreas com risco potencial de enchentes e deslizamentos em 872 municípios brasileiros.

A ocupação irregular das encostas dos morros implica em dois problemas fundamentais associados às águas pluviais: 

  • A cobertura vegetal das encostas, que atuava na retenção e redução da velocidade de descida de grandes volumes de chuvas, é removida para dar espaço para a construção das moradias; 
  • A construção das moradias, normalmente com grande adensamento, impermeabiliza o solo, aumentando a quantidade de águas superficiais que descem os morros em dias de chuvas. 

Essas intervenções provocam aumentos nos volumes naturais de águas pluviais que chegam aos canais de drenagem, contribuindo em muito para a formação de pontos vulneráveis a enchentes. Há também um terceiro problema, muito mais grave, que nem sempre é fácil de se perceber – a combinação da remoção da cobertura, onde as raízes das plantas tem grande importância na estabilização e fixação dos terrenos, aliada ao corte do talude para a construção das moradias, provoca uma total desestabilização das encostas dos morros. Em temporadas de chuvas fortes, a água transforma os solos em lama instável, o que pode terminar com a ocorrência de grandes deslizamentos e com o soterramento de casas e moradores.  

A título de exemplo, vou relembrar duas tragédias ocorridas na cidade de Niterói, no Estado do Rio de Janeiro: em 2010, as fortes chuvas provocaram o escorregamento da encosta do Morro do Bumba, no bairro Vistoso Jardim, causando a morte de 46 pessoas. Em novembro de 2018, um outro grande deslizamento de terra no Morro da Boa Esperança, próximo da famosa Praia de Piratininga, derrubou e soterrou diversas casas, deixando um saldo de 15 mortos. Se qualquer um de vocês fizer uma pesquisa na internet, encontrará facilmente dezenas de casos semelhantes por todo o Brasil. 

Um dos casos mais dramáticos já ocorridos no país e que merece um grande destaque foram os gravíssimos escorregamentos de encostas na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro em 2011. Essa tragédia, que tem um lugar de destaque entre todos os grandes desastres naturais já ocorridos no Brasil, deixou um rastro de destruição por toda a Região Serrana do Rio de Janeiro, com especial ênfase às cidades de Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo, Sumidouro, São José do Vale do Rio Preto e Bom Jardim, além de ter provocado reflexos na cidade de Areal, na região Centro-Sul do Estado. De acordo com dados da Secretaria de Estado da Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro, foram registradas 916 mortes e perto de 345 desaparecidos nessa tragédia

A topografia da Região Serrana, com cidades espremidas em pequenos vales cercados por morros contribuiu muito para a ocupação gradativa das encostas nessa Região, que em muitos casos fugiu ao tradicional estereótipo de pessoas pobres ocupando os morros. A falta de fiscalização e até mesmo a famosa “vista grossa” das Prefeituras deu o toque final para o que podemos chamas de tragédias anunciadas. 

Foram registradas 428 mortes em Nova Friburgo, 382 em Teresópolis, 71 em Petrópolis, 21 em Sumidouro, 4 em São José do Vale do Rio Preto e 1 morte em Bom Jardim. Os números de pessoas desaparecidas na tragédia também são impressionantes: foram 45 em Petrópolis, 180 em Teresópolis, 85 em Nova Friburgo e 2 em Sumidouro. Outras 32 pessoas que moravam em pequenos distritos da Região também engrossam as estatísticas de desaparecidas. Os dados da Defesa Civil registraram que aproximadamente 35 mil pessoas ficaram desabrigadas em toda a Região Serrana. Passados 9 anos desde aqueles terríveis dias, muitos dos desaparecidos ainda não foram localizados e ainda podem ser vistos vestígios da destruição. 

As encostas de morros costumam abrigar os remanescentes da cobertura vegetal original das regiões ocupadas pelas cidades e possuem grande importância ambiental tanto para a regulação do clima quanto para a absorção e retenção de grandes volumes de águas pluviais. Além de contribuir imensamente na formação de pontos de enchentes nas partes baixas das cidades, a ocupação irregular das encostas representa um altíssimo risco para as populações. As cidades devem redobrar os esforços para preservar e até mesmo recuperar a cobertura vegetal das encostas, criando programas de moradia popular que inibam a ocupação e que também possibilitem a retirada dessas populações das áreas de risco. 

Morros são complicados pela sua própria natureza: ou é fogo morro acima ou é água morro abaixo – não temos controle em nenhuma dessas situações. 

A CIDADE DO RECIFE E SUAS ENCHENTES HISTÓRICAS

Enchente de 1975 no Recife

Nas postagens anteriores falamos um pouco da urbanização descontrolada como uma das principais causas das enchentes de verão. Cidades possuem grandes áreas de seus solos cobertas por uma grossa camada de concreto e de asfalto, intervenções que limitam a infiltração de parte da água das chuvas e contribuem para a formação de grandes correntezas superficiais e enchentes. Intervenções em áreas de várzea e em margens de córregos e riachos para a construção das famosas avenidas de fundo de vale também dão importantes contribuições para a ocorrência de enchentes e alagamentos. Também não é nada desprezível o impacto da redução das áreas com cobertura florestal nesses eventos. 

Entre as grandes cidades brasileiras que, frequentemente, são assoladas por grandes catástrofes nos meses de verão destacamos Recife, a capital do Estado de Pernambuco. O primeiro registro histórico de uma enchente no Capibaribe data do ano de 1632, pouco tempo depois da invasão holandesa e a consolidação da Suickerland, a terra do açúcar descrita em uma postagem anterior. Registros da época informam que as chuvas foram muito fortes, “causando perdas de muitas casas e vivandeiros estabelecidos às margens do Rio Capibaribe”.  

Anos mais tarde, em 1638, o Conde Maurício de Nassau (1604-1679) autoriza a construção da primeira barragem do Rio Capibaribe – o Dique dos Afogados, com o objetivo de proteger a cidade do Recife das constantes enchentes. Há registros históricos de uma infinidade de enchentes na cidade: 1824, 1842, 1854, 1862, 1869, 1914, 1920, 1960, 1966, 1970, 1977, 2004 e 2005 – a lista é muito maior e estou apenas citando alguns casos. Entre os dias 17 e 18 de julho de 1975, a cidade do Recife viveu a maior catástrofe natural da sua história: o transbordamento do rio Capibaribe atingiu 31 bairros e alagou 80% da superfície da cidade (vide foto) – 350 mil pessoas foram desalojadas de suas casas e, tragicamente, 104 pessoas morreram. As fortes enchentes também atingiram outros 25 municípios da bacia hidrográfica do rio Capibaribe

As raízes das enchentes na cidade do Recife estão ligadas diretamente aos tempos coloniais, quando praticamente toda a economia do país girava em torno da produção e exportação do açúcar. Naqueles tempos, a Capitania de Pernambuco e regiões vizinhas concentravam a maior produção de açúcar da Colônia e a cidade do Recife era o grande centro econômico do Nordeste açucareiro. Um relatório do ano de 1620 das Autoridades Coloniais mostram a importância econômica da região: 

“…nas três Capitanias (Pernambuco, Itamaracá e Paraíba), havia uma produção de 500 mil arrobas de açúcar (equivalente a 7,5 milhões de toneladas), que bastaria para carregar todos os anos 130 a 140 naus.” O relatório prossegue informando a área ocupada com o cultivo da cana-de-açúcar: “50 ou 60 léguas de costas ocupadas (entre 300 e 360 km), e dentro de 10 léguas para o sertão (60 km).” 

Essa produção toda era possível graças aos “gordos solos de massapê”, conforme a descrição do médico e escritor pernambucano Josué de Castro (1908-1973). Ricos em nutrientes e matéria orgânica, os solos argilosos do litoral do Nordeste foram formados ao longo de milhares de anos graças a densa vegetação nativa de Mata Atlântica – a floresta se alimentava dos solos e gerava continuamente uma grossa camada de plantas e folhas mortas, que por sua vez eram recicladas pelos solos, realimentando a própria floresta. Vejam essas citações do grande historiador Capistrano de Abreu (1853-1927):

Os engenhos estavam todos na mata, o que se explica pela maior fertilidade dos terrenos bem vestidos, e pela abundância de lenha, necessária às fornalhas em um labor que às vezes durava, dia e noite, oito e nove meses…

A cana devorando tudo em torno de si, engolindo terras e mais terras, consumindo o húmus do solo, aniquilando as pequenas culturas indefesas e o próprio capital humano, do qual sua cultura tira toda a vida.” 

A Mata Atlântica era um riquíssimo bioma composto por diferentes sistemas florestais, que cobria uma área equivalente a 1,3 milhão de km² ou 15% do território brasileiro, acompanhando a costa desde o Norte do Rio Grande do Sul até o Sul do Estado do Ceará, com alguns trechos entrando continente adentro e atingindo áreas da Argentina e do Paraguai. A referência à floresta foi feita com o verbo em tempo passado (era) porque restam apenas 7% da cobertura da mata original. Quase dois terços da atual população brasileira vivem em áreas que eram, originalmente, cobertas pela Mata Atlântica – o crescimento das cidades, a mineração, o extrativismo, a agricultura e a pecuária foram os responsáveis pela destruição gradativa desta floresta.  

O trecho da Mata Atlântica destruído com maior voracidade e velocidade foi justamente o trecho da costa da Região Nordeste, entre a Bahia e o Rio Grande do Norte – essa destruição, feita a ferro e a fogo, se deu justamente para a implantação dos grandes canaviais do período Colonial. No Estado de Pernambuco, que já no século XVII era considerado um dos maiores produtores mundiais de açúcar, a velocidade desta destruição foi incomparável. Apenas no primeiro século da produção açucareira em Pernambuco, uma área de florestas entre 18 mil e 21 mil km² foi devastada para a implantação de canaviais – essa área é equivalente ao território total do Estado de Sergipe. 

Esse avanço voraz contra as matas pernambucanas, é claro, teve um alto preço: os férteis solos de massapê se perderam rapidamente após a contínua derrubada da cobertura vegetal protetora. As chuvas sistematicamente arrastavam grandes quantidades de solo na direção dos muitos rios da região, destruindo ao mesmo tempo a fertilidade das plantações e os canais dos rios, muitos dos quais praticamente desapareceram em meio ao intenso assoreamento sofrido.  

Inúmeras espécies de animais como veados, antas, capivaras, cotias, gambás, macacos e incontáveis espécies de aves e pássaros desapareceram, empobrecendo de forma irreversível a biodiversidade das matas e destruindo a fonte de proteína consumida pelas populações mais pobres e pelos escravos, que caçavam vários destes animais para comer. Também desapareceram inúmeras espécies de vegetais, entre essas inúmeras variedades de frutas altamente nutritivas, além de muitas espécies de peixes dos rios. A fome de açúcar do mundo foi saciada a partir da fome dos trabalhadores locais dos engenhos e canaviais nordestinos. 

Aqui chegamos ao ponto central: sem a proteção da cobertura vegetal, que absorve parte da água das chuvas e permite a infiltração de grandes volumes de água no solo, toda a região da bacia hidrográfica do rio Capibaribe passou a receber volumes de água cada vez maiores a cada novo período de chuvas. No trecho final da bacia hidrográfica, que atravessa diversas cidades na Região Metropolitana do Recife, esse grande volume de água simplesmente extrapola os limites da calha do rio Capibaribe e avança ferozmente contra ruas, avenidas, casas, prédios públicos e todo e qualquer pedaço de terra seca que encontre pela frente. 

À fúria dessas águas que correm dos terrenos mais altos a montante no interior de Pernambuco, se juntam as águas que caíram sobre a própria área Metropolitana. Sem grandes áreas com cobertura vegetal e com solos altamente impermeáveis, as águas pluviais simplesmente correm por força da gravidade buscando os terrenos mais baixos, formando assim as cenas de caos que, repetidamente, assistimos nos noticiários e que são vividas ano após ano pela população local. 

Em resumo – enchentes urbanas não são fenômenos naturais; elas são o resultado de décadas de esforços das populações humanas na destruição dos meios naturais. E a cidade do Recife está aí para provar isso.

RIO TAMANDUATEÍ EM SÃO PAULO E RIBEIRÃO ARRUDAS EM BELO HORIZONTE: A TRÁGICA HISTÓRIA DE DOIS IMPORTANTES RIOS URBANOS

Ribeirão Arrudas

Uma das grandes inovações urbanísticas implantadas em grandes e médias cidades brasileiras ao longo do século XX foi a construção, em larga escala, das chamadas “avenidas de fundo de vale”. Esse tipo de obra começou a ganhar espaço na cidade de São Paulo a partir de 1927 – o então Prefeito da Cidade, João Pires do Rio, havia reunido um grupo de urbanistas e engenheiros com o objetivo de formular alternativas para a infraestrutura da cidade. Essa equipe de profissionais, que tinha entre seus membros o ilustre engenheiro Francisco Prestes Maia, apresentou suas conclusões na forma da Teoria dos Fundos de Vale

A principal premissa dessa Teoria era o uso dos terrenos alagadiços e desvalorizados das áreas ribeirinhas dos córregos e rios da cidade para a construção de toda uma rede de avenidas e vias radiais e perimetrais que orientariam e estruturariam o crescimento da cidade de São Paulo ao longo das décadas futuras. De quebra, a realização dessas obras permitiria a eliminação de diversas favelas, cortiços e habitações de baixa qualidade que foram tomando esses terrenos e “enfeiavam” a modernista e pujante Pauliceia

Em 1938, o Engenheiro Prestes Maia foi indicado Prefeito da Cidade de São Paulo e, até o final da sua administração em 1945, realizou cerca de 4 mil km lineares de canalizações e retificações de cursos de córregos, riachos e ribeirões por toda a cidade, construindo diversas avenidas de fundo de vale nos locais “urbanizados”. Os diferentes Prefeitos que o seguiram na administração da cidade continuaram a seguir essa Teoria, que acabou sendo transformada no que eu chamo de “Teoria dos Fundo$ de Vale” (o uso do cifrão na grafia se deve ao uso dessas obras para o desvio de verbas públicas, onde um dos grandes exemplos é a Avenida das Águas Espraiadas). Diversas outras cidades brasileiras acabaram sendo influenciadas por essa “moda urbanística”, criando assim todas as bases para muitas das grandes enchentes que nós estamos assistindo atualmente. 

Para mostrar o verdadeiro desastre ambiental criado por muitas dessas obras, gostaria de exemplificar com dois casos práticos: a construção da Avenida do Estado na cidade de São Paulo, a partir da canalização do rio Tamanduateí, e de diversos trechos de importantes avenidas de Belo Horizonte, a partir da canalização do Ribeirão Arrudas. 

Conforme já apresentado em postagens anteriores, o Planalto de Piratininga apresentava aos primeiros tempos da colonização uma grande mancha do bioma Cerrado ao largo de uma complexa rede de córregos, riachos e ribeirões. Conforme a fonte de pesquisa, o número de copos d’água na região vai de 300 a 1.200. O Planalto também apresentava vegetação de Mata Atlântica e da Mata das Araucárias. A palavra Piratininga é de origem tupi e significa, literalmente, “lugar onde se encontra o peixe seco”. Na época das chuvas, as grandes áreas de várzea enchiam para acomodar o excesso de água; quando esse período terminava, as áreas de várzea começavam a secar e grandes cardumes de peixes ficavam presos nas poças de água, que por fim secavam. Bastava aos índios sair recolhendo os peixes já secos. 

O principal rio da região era o Anhembi, antigo nome do rio Tietê. Seu principal afluente é o rio Tamanduateí, que em tupi signicava algo como “o rio dos tamanduás”. Além dos índios, os peixes secos atraiam as formigas, que por sua vez atraíam os tamanduás, o que acabou dando origem ao nome do rio – simples assim. O rio Tamanduateí nasce no município de Mauá, passando por Santo André e depois entra na cidade de São Paulo, onde segue até sua foz no rio Tietê nas proximidades da Estação Rodoviária e do Parque de Exposições Anhembi. O seu percurso total é de cerca de 35 km. 

Até meados do século XIX, o rio Tamanduateí era o principal manancial de abastecimento da cidade de São Paulo. Com o crescimento da cidade e com o aumento da poluição, foi criado o Sistema Cantareira Velho. O Tamanduateí tinha um curso bastante sinuoso e formava grandes áreas de várzea, como era o caso da antiga Várzea do Carmo. Sucessivas obras de retificação e inúmeros aterros aprisionaram o rio numa calha apertada, retilínea e demasiadamente pequena para suportar os grandes volumes de águas pluviais dos verões paulistanos. Estavam dadas as condições para o rio se transformar numa importante fonte de enchentes

A partir da década de 1950, com o acelerado crescimento da cidade e de sua frota de automóveis, foi iniciado o asfaltamento da Avenida do Estado, criando uma via marginal ao largo do rio Tamanduateí, que ao longo de diferentes administrações passou a ligar a Marginal Tietê ao Município de Santo André. Com a implantação do parque automobilístico na chamada Região do ABC (sigla para Santo André, São Bernardo e São Caetano), a importância da Avenida do Estado aumentou progressivamente, levando a uma intensa urbanização dos bairros ao longo do seu trajeto. A população cresceu exponencialmente na região, grandes áreas de mata foram suprimidas e os solos passaram por um intenso processo de impermeabilização. O resultado – a Avenida do Estado apresenta alguns dos maiores e mais “tradicionais” pontos de alagamento nos verões da cidade de São Paulo. 

O outro “personagem” dessa postagem é o Ribeirão Arrudas. Esse Ribeirão tem nascentes na Serra do Rola Moça e atravessa toda a cidade de Belo Horizonte até desaguar no rio das Velhas, no município de Sabará. Ao longo do seu curso de cerca de 40 km, o Ribeirão Arrudas recebe contribuições de uma infinidade de córregos: Jatobá, Barreiro, Bonsucesso, Cercadinho, Piteiras, Leitão, Acaba Mundo, Serra, Taquaril, Navio-Baleia, Santa Terezinha, Ferrugem, Tijuco e Pastinho, entre muitos outros, o que o transforma em um dos principais canais de drenagem de águas pluviais da capital mineira.  

Como sempre aconteceu na história da maioria das cidades brasileiras, o Ribeirão Arrudas, desde os primeiros anos da fundação de Belo Horizonte, passou a funcionar como um grande coletor e dispersor de esgotos da cidade: as casas e edifícios foram sendo construídos e as manilhas de esgotos foram instaladas sob as ruas e avenidas, com as saídas de efluentes voltadas para a calha do Ribeirão. Assim como aconteceu com o paulistano rio Tamanduateí, o forte crescimento urbano de Belo Horizonte estrangulou as margens do Arrudas para permitir a construção de grandes avenidas de fundo de vale, entre elas trechos importantes da Avenida do Contorno e da Avenida Andradas. Somando-se isso à destruição de áreas verdes e a impermeabilização dos solos temos as catastróficas enchentes que se repetem a cada verão (vide foto). 

Mesmo separadas por uma distância de mais de 600 km, as semelhanças entre as obras de canalizações e de construção das avenidas de fundo de vale ao longo do rio Tamanduateí e Ribeirão Arrudas impressionam – as violentas enchentes e o caos generalizado que se instalam ao longo de suas margens nos sucessivos verões também tem magnitudes semelhantes. São Paulo e Belo Horizonte pagam um alto preço por causa do crescimento urbano desordenado, destruição e ocupação de áreas de várzea e vales, além da intensa destruição da cobertura vegetal e impermeabilização de grandes extensões dos solos urbanos. 

Infelizmente, essas duas grandes cidades brasileiras não estão sozinhas nessa trágica sina. 

ARITMÉTICA AMBIENTAL BÁSICA: CRESCIMENTO URBANO + IMPERMEABILIZAÇÃO DE SOLOS – COBERTURA VEGETAL = ENCHENTES

Cidade de São Paulo

As violentas enchentes provocadas por fortes chuvas em áreas urbanas de todo mundo estão se tornando cada vez mais frequentes. Aqui no Brasil, todos nós acompanhamos, literalmente, há séculos esse problema em cidades como Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, entre muitas outras. Em cidades importantes do mundo como Paris, Florença, Londres, Tóquio e Los Angeles, que contam com eficientes sistemas de drenagem de águas pluviais, o problema vez ou outra tem ressurgido com força. Existem diversas razões para isso estar acontecendo. Vamos começar falando da impermeabilização dos solos destas cidades. 

Diferentemente da vida das populações das áreas rurais, onde a fonte principal de trabalho e renda são as atividades agropecuárias e onde os solos são a “matéria prima” de praticamente todos os produtos, nas áreas urbanas os solos são uma espécie de “cenário” da vida. A economia das cidades se baseia principalmente no comércio, na prestação de serviços de todos os tipos e em atividades industriais. A exceção dos jardins, parques e praças instalados nas vias públicas urbanas, além dos canteiros de muitos edifícios e de pequenas hortas localizadas nas casas de alguns moradores, os solos urbanos costumam ser impermeabilizados com uma grossa camada de asfalto nas vias de tráfego e de concreto nos passeios públicos e áreas internas de casas e edifícios. 

A construção de casas, edifícios, galpões de todos os tipos e de prédios públicos, também contribui fortemente para a formação de áreas impermeáveis nos solos. Se qualquer um de vocês analisar o código de obras de um munícipio, vai perceber facilmente que a legislação permite, com restrições é claro, a ocupação da maior parte da área dos terrenos com construções. 

Se por um lado as atividades humanas ocupam e impermeabilizam quantidades cada vez maiores dos solos das áreas urbanas, esse avanço se dá sobre áreas naturais que eram cobertas por vegetação. Essa distorção do meio ambiente natural altera completamente as relações entre as águas das chuvas e os solos, onde parte importante das águas pluviais são absorvidas pelos terrenos com a ajuda da vegetação e apenas uma parte dessas águas corre na direção dos canais naturais de drenagem – córregos, riachos, rios e lagos. 

Conforme comentamos na postagem anterior, as paisagens que vemos ao nosso redor são o resultado de um processo de “construção natural” que se desenrolou ao longo de milhões de anos. Dentro desses processos se inclui a tectônica global, responsável pela movimentação dos continentes, soerguimento e rebaixamento de solos, entre outros eventos. Também precisamos falar dos diferentes processos de erosão produzidos pelas chuvas, pelo gelo e pelos ventos. Nessa construção também se inclui a força hidráulica dos rios, que, alimentados pelas águas das chuvas, abrem canais nos solos e carregam milhões de toneladas de sedimentos a cada ano, redesenhando assim mapas de regiões inteiras – exemplo disso é o grande Arquipélago de Marajó, formado ao longo das áreas pela poderosa Bacia Amazônica

Vou citar como exemplo a minha cidade – São Paulo (vide foto). A cidade está localizada no Planalto de Piratininga, a uma altitude média de 850 metros acima do nível do mar, a pouco mais de 50 km do litoral do Oceano Atlântico e inserida nos domínios da Serra do Mar. A história geológica dos solos paulistanos é bem interessante e remonta ao tempo da fragmentação do antigo Supercontinente de Gondwana, iniciada há cerca de 160 milhões de anos atrás. A Serra do Mar fazia parte de uma grande cadeia montanhosa com cerca de 800 km de comprimento e 300 km de largura, localizada no centro de Gondwana. Conforme a América do Sul foi se separando e se afastando da África, a movimentação dos solos foi fragmentando essa cadeia montanhosa e surgiram as formações rochosas que deram origem às Serras da Canastra, da Mantiqueira, do Mar, do Espinhaço e de Maracaju. 

As forças tectônicas resultantes da separação dos continentes também produziram um forte soerguimento dos terrenos – alguns trechos da Serra do Mar chegaram a possuir altitudes superiores a 7 mil metros, muito parecidas com a Cordilheira dos Andes. Milhões de anos de erosão por chuvas, ventos e gelo moldaram as paisagens do Planalto de Piratininga, formando uma grande bacia sedimentar ao longo do curso do rio Tietê e seus muitos afluentes (são mais de 300 cursos d’água na região – algumas fontes chegam a citar 1.200 pequenos afluentes). O cenário é completado pelas elevações do maciço da Avenida Paulista, pela Serra da Cantareira e Pico do Jaraguá, entre outras. 

Uma característica marcante da região do Planalto de Piratininga eram as grandes áreas de várzeas, que enchiam há época das chuvas, absorvendo assim todo os excedentes de águas pluviais. Grande parte da vegetação que cobria o Planalto de Piratininga era formada por manchas de Cerrado, existindo também grandes áreas cobertas por Vegetação de Mata Atlântica e de Mata das Araucárias (o paulistano bairro de Pinheiros recebeu esse nome por causa das araucárias). Essa vegetação absorvia diretamente uma parte das águas das chuvas e suas raízes facilitavam a absorção de grandes volumes de água pelos solos. Apenas uma parte da água das chuvas chegava aos corpos d’água. 

Todo esse grande sistema ambiental, que funcionava em perfeita harmonia, foi completamente alterado com o crescimento da cidade e de toda a Região Metropolitana de São Paulo. Rios e córregos tiveram seus cursos retificados e alterados, sendo que grande parte foi canalizada para a construção das famosas “avenidas de fundo de vale”. Grandes áreas de várzea foram aterradas a fim de se criar terrenos para especulação imobiliária, como ocorreu com a antiga região da Várzea do Carmo. As matas foram sendo gradativamente derrubadas para a expansão da mancha urbana, que só na cidade de São Paulo ocupa uma área de 1.200 km².  

Acima de tudo, centenas de milhares de quilômetros quadrados de solos das cidades do Planalto de Piratinga passaram a receber, ano após ano, revestimentos de asfalto, concreto, cerâmica, pedras, entre outros tipos de acabamento, formando imensas áreas completamente impermeáveis para as águas das chuvas, que passaram a correr diretamente para canais de drenagem naturais e artificiais não dimensionados para absorver volumes cada vez maiores de águas pluviais. Como resultado de tudo isso, as enchentes se repetem a cada verão e com intensidades cada vez maiores. 

Guardadas as devidas particularidades do relevo, solo e vegetação, esse é o mesmo processo que se desenvolveu na maioria das grandes e médias cidades brasileiras, que atualmente convivem com grandes enchentes nas épocas de chuvas. A impermeabilização de grande parte dos solos de todas essas cidades está na raiz de grande parte da questão das enchentes

Como eu sempre costumo repetir – essa é uma conta que não fecha. Com solos altamente impermeabilizados e com cada vez menos terrenos cobertos por vegetação nas cidades, as enchentes continuarão a ser uma espécie de assombração, que a cada novo verão voltará para nos aterrorizar!