AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: OS EMBATES ENTRE A AGRICULTURA “TRADICIONAL” E A FLORESTA

A “invenção” da agricultura foi um dos maiores feitos da humanidade. O renomado escritor, pensador e futurólogo norte-americano Alvin Toffler (1928-2016) chamou esse grande evento, ocorrido entre 12 mil e 10 mil anos atrás, de “Primeira Onda”. Para que todos tenham uma ideia da intensidade e dos impactos provocados pela agricultura na humanidade, a “Segunda Onda”, denominação que foi dada à Revolução Industrial, só se desenrolaria a partir de meados do século XVIII. 

Até o início da produção de alimentos em grande escala nos campos agrícolas, a humanidade vivia num nomadismo interminável, buscando o alimento de cada dia muitas vezes sob risco de vida e sem qualquer certeza de encontrá-lo no dia seguinte. Foi então que, pouco a pouco, populações foram percebendo que era possível cultivar a terra e produzir os preciosos alimentos.  

Ao que tudo indica, essa “invenção” foi fruto do trabalho coletivo de inúmeras gerações de homens e mulheres de regiões como a Mesopotâmia, na Ásia Central, dos Vales dos rios Indus e Ganges, no Subcontinente Indiano, além de grandes rios da China e do Sudeste Asiático. Ao redor dessas áreas de produção agrícola surgiram os primeiros assentamentos humanos permanentes e as primeiras atividades pastoris. 

Há uma característica comum em todos esses locais onde a prática agrícola surgiu e que é fundamental para entendermos a questão da sustentabilidade ambiental na Amazônia – essas eram terras alagáveis, cobertas predominantemente por vegetação arbustiva e com poucas árvores. Sem me prender muito a detalhes, as práticas agrícolas tradicionais dependem de solos livres de árvores e expostos a uma forte luz solar, ou, falando de um jeito mais direto, a agricultura é uma destruidora de florestas

Um sítio histórico importante onde percebemos claramente um dos primeiros grandes embates entre florestas e agricultura foi o antigo Egito, um dos grandes celeiros do mundo antigo. A exemplo das grandes várzeas entre os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia, o rio Nilo sofria grandes enchentes anuais, que cobriam e fertilizavam grandes extensões de terras ao largo das margens. Quando as águas baixavam, os solos se encontravam cobertos por uma densa camada de sedimentos nutritivos e humus, que passavam a ser trabalhados imediatamente por um grande “exército” de homens e mulheres. 

Na região do Delta do Nilo junto ao Mar Mediterrâneo, porém, havia um grande complicador. Nessas férteis terras entre os inúmeros canais do rio Nilo, os solos estavam cobertos por uma densa floresta com aproximadamente 30 mil km², um grave empecilho para a agricultura. O que fazer então? Muito simples – derrubam-se as árvores, cujas madeiras tinham um bom uso na construção civil e na produção de móveis, carroças e embarcações, liberando assim as terras para a implantação de grandes campos agricultáveis. 

Problemas semelhantes foram surgindo em terras da África, da Europa e da Ásia, onde a expansão das práticas agrícolas se deparou com extensas áreas cobertas por florestas. Foi aí que a força dos machados e o poder do fogo se tornaram os grandes aliados dos primitivos agricultores. Todas essas práticas passaram a ser vistas como normais, essenciais e justificáveis para o avanço da humanidade. 

Dando um enorme salto na história e no tempo, veremos exatamente essas mesmas práticas ao longo da colonização do nosso país. O mais importante produto colonial produzido no Brasil durante quase três séculos foi o açúcar. As melhores terras para o cultivo da cana naqueles tempos eram os “gordos” solos de massapê da faixa litorânea do Nordeste, entre o Sul da Bahia e o Rio Grande do Norte. 

Cobertos originalmente pelos densos sistemas florestais da Mata Atlântica, esses solos foram sistematicamente desmatados e transformados em campos agrícolas para o plantio da cana. A indústria colonial também precisava de energia para transformar as caldas doces em açúcar, o que era conseguido a partir da queima de grandes volumes de lenha – para se produzir um quilograma de açúcar, perto de vinte quilogramas de lenha precisavam arder nas fornalhas dos engenhos. 

A indústria açucareira praticamente dizimou a Mata Atlântica nesse trecho no litoral nordestino. Novas culturas agrícolas desembarcariam em terras brasileiros ao longo do tempo, levando essa destruição das matas cada vez mais rumo ao Sul e ao interior do território brasileiro. Falo aqui do café, do milho, do feijão, das laranjas, da soja e de muitas outras culturas agrícolas que necessitavam de solos livres das incômodas e inúteis árvores. Mais de 80% do bioma Mata Atlântica já desapareceu diante do avanço da agricultura e da pecuária

A mesma lógica de devastação de biomas naturais para a implantação de áreas agrícolas e de pastagens para a criação de gado seria seguida em diferentes momentos na Caatinga Nordestina, nos Pampas Sulinos e no extenso Cerrado Brasileiro. Falando apenas em destruição de cobertura florestal original, esses biomas já perderam, respectivamente, 60%, 54% e 50%

Chegamos agora na Amazônia, uma espécie de “fronteira final” para a agricultura. Milhares de agricultores de outras regiões do Brasil, especialmente do Sul, foram estimulados a migrar para a Região Norte nas décadas de 1960 a 1980, sob a promessa de cessão de grandes extensões de terra para trabalhar. Criados dentro do tradicional sistema de produção agropecuária com liberação de terras mediante a derrubada das matas, esses trabalhadores começaram o processo de destruição da Floresta Amazônica. 

Porém, diferentemente do que vinha acontecendo há talvez 12 mil anos, a humanidade não aceita mais esse processo e, provavelmente por termos a última grande floresta praticamente intacta do mundo, passamos a sofrer enormes pressões internacionais em defesa da Amazônia. Por mais hipócrita que essas pressões sejam, afinal de contas quem nos critica já devastou as suas florestas há muito tempo, essa é a nova regra do jogo mundial e vamos precisar “jogar” de acordo. 

Me apropriando de palavras do grande antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), não faz o menor sentido devastarmos a maior e mais rica floresta equatorial do mundo, a Amazônia, para plantar soja, um grão que é usado majoritariamente para produzir ração para engorda de porcos em países como a China e a Alemanha, ou para produzir carnes para norte-americanos transformarem em hamburgueres. Precisamos reciclar as nossas ideias e mudar os nossos paradigmas de produção agropecuária. 

E como fazer isso? 

Existem inúmeros “produtos amazônicos” de grande valor comercial e forte apelo ecológico, que podem gerar muito trabalho e renda para as populações locais e empresas processadoras (talvez até mais do que a agricultura e pecuária tradicionais), sem que seja necessária a destruição da maravilhosa Floresta Amazônica. Esses “produtos” carregam em seu DNA um fortíssimo apelo de Marketing: são bons, ecologicamente corretos, socialmente justos (esse é um ponto que ainda precisa ser melhor trabalhado) e quem consome está ajudando a preservar a Floresta Amazônica. Muita gente no exterior vai “comprar” essa ideia e consumir esses produtos.

Na próxima postagem vamos falar de dois deliciosos produtos tipicamente amazônicos, que estão conquistando cada vez mais espaços nos mercados nacional e mundial – o açaí e o palmito do açaizeiro. Até lá! 

FALANDO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NA AMAZÔNIA

Estamos começando um novo ano e vamos torcer para que ele seja, pelo menos, um pouco melhor do que foi 2020. O trágico ano que passou vai ficar marcado para sempre na história e na nossa memória pela pandemia mundial da Covid-19. Aparentemente surgido na China, o coronavírus se espalhou rapidamente pelos quatro cantos do mundo e, literalmente, fez a humanidade parar. 

Entre inúmeros desdobramentos, a pandemia criou o “fique em casa”, o uso generalizado do álcool gel e de máscaras, suspensão de aulas em todos os níveis do ensino, fechamento de comércios e de indústrias, uma corrida desenfreada de pesquisadores e cientistas na busca por vacinas, entre muitas outros. A epidemia também criou algumas narrativas folclóricas”. Uma delas, que vem sendo divulgada por muitos meios de comunicação internacionais, afirma que a próxima pandemia surgirá no Brasil por causa dos desmatamentos da Amazônia. 

Conforme já tratamos em uma extensa série de postagens anteriores, existem grandes problemas na Floresta Amazônica como os desmatamentos, as queimadas, a extração ilegal de madeiras, os garimpos clandestinos, entre muitos outros. São problemas que se agravaram muito nos últimos sessenta anos a partir de ações governamentais para a abertura de estradas ligando o restante do Brasil à Região Norte e aos diversos programas de estímulo à ocupação e colonização da até então deserta Amazônia brasileira. Foram tempos de grandes slogans: “uma terra sem homens, para homens sem-terra”, “Brasil – ame-o ou deixe-o” e “esse é um país que vai prá frente…” 

Aqui é importante lembrar que problemas muito parecidos aconteceram e continuam acontecendo em outros Países Amazônicos como Bolívia, Peru, Equador, Venezuela e Colômbia. Trechos da grande floresta equatorial nesses países também foram derrubados e queimados, liberando terras para a agricultura, pecuária e mineração, para implantação de cidades e de obras de infraestrutura, entre outras ocupações. Todavia, a opinião pública de muitos países desenvolvidos só vê os brasileiros como os grandes vilões da natureza. 

Felizmente, esse avanço alucinado contra a Floresta Amazônica brasileira arrefeceu muito nos últimos anos e a situação entrou numa fase de “relativa” estabilidade ou de crescimento muito mais lento. É preciso ressaltar que o custo ambiental dessa “saga Amazônica” até agora já foi altíssimo. Porém, precisamos ver o lado positivo da situação – algo entre 85% e 87% da nossa grande floresta continua preservado e o nosso foco daqui para a frente deve ser a manutenção desse grande patrimônio natural

A destruição das florestas tropicais, ao contrário do que muita gente pensa, não acontece somente na Amazônia. Alguns exemplos: cerca de 90% das florestas do Sul do México desapareceram nas últimas décadas. Em El Salvador, a perda está entre 80 e 95% da cobertura florestal conforme a fonte consultada. No Haiti restam apenas 5% das densas florestas de um passado não tão distante. Em Madagascar, mais de 85% da floresta tropical já desapareceu e na Indonésia, uma área de florestas tropicais equivalente ao território da Irlanda foi destruída em apenas 12 anos. A lista de países onde ocorrem grandes agressões às florestas tropicais é enorme.

Mas os problemas de destruição de florestas não param por aí – citemos como exemplo a taiga ou floresta boreal, a maior floresta do mundo, onde se vem batendo recordes de queimadas e de desmatamentos ano após ano. Esse grande sistema florestal se estende ao redor do globo terrestre por uma faixa contínua do Hemisfério Norte entre os paralelos 40 e 70. Isso incluiu terras da Escócia, Noruega, Suécia, Finlândia, Rússia, Cazaquistão, Coreia do Norte e do Japão. A taiga prossegue do outro lado do Estreito de Bering no Alasca, região que pertence aos Estados Unidos, no Canadá e chega até na Groenlândia, ilha autônoma que pertence à Dinamarca.  

A taiga ocupa uma área total de 15 milhões de km², sendo praticamente 3 vezes maior que a Floresta Amazônica. As principais espécies dessa floresta são pinheiros, piceas, bétulas e lariços. No último verão, cerca de 100 mil km² da taiga na região da Sibéria – Rússia, foram destruídos por incêndios florestais. Isso corresponde a 10 vezes o tamanho das áreas de “florestas queimadas” na Amazônia. Os desmatamentos para exploração da madeira, principalmente na Rússia e no Canadá, também são enormes

Um outro ponto importante – segundo levantamento feito pela renomada revista científica Nature e publicado em junho de 2020, os desmatamentos em remanescentes florestais em países da União Europeia aumentaram 69% em 2018. Segundo informações da publicação, esses desmatamentos estão ligados diretamente à exploração das madeiras. Na França, um dos países que mais fortemente acusam o Brasil da devastação na Amazônia, os desmatamentos cresceram cerca de 30%. Em Portugal, esse crescimento foi de 56%. Também é preciso lembrar que países europeus como a França e a Alemanha estão entre os maiores compradores de madeiras extraídas e exportadas ilegalmente da Amazônia. E ninguém fala nada!

Minha pergunta: qual foi a última vez que qualquer um de vocês viu grupos ecológicos protestando contra a destruição acelerada da taiga ou desses desmatamentos na União Europeia? Melhor ainda – o presidente da França, Emmanuel Macron, chegou a ameaçar a poderosa Rússia de Vladimir Putin por causa dessa destruição florestal como fez com o Brasil? Ou a primeira ministra da Alemanha, Angela Merkel, falou alguma coisa sobre a derrubada dessas florestas em seus parceiros França e Portugal?

Deixando toda essa hipocrisia ambiental de lado, vamos dedicar algumas postagens a propostas econômicas ecologicamente sustentáveis para a grande Floresta Amazônica. Essa região abriga uma população de quase 25 milhões de brasileiros, gente essa que precisa de trabalho e renda. Muito além das tradicionais atividades econômicas predatórias como a exploração das madeiras e do garimpo, existem inúmeros produtos locais como frutos, castanhas e peixes que podem gerar riqueza e renda sem destruir a floresta. 

Continuamos na próxima postagem. Até lá!

AS CIANOBACTÉRIAS E A MORTE DOS ELEFANTES NO DELTA DO RIO OKAVANGO

Uma publicação rápida em complemento a postagem anterior

As cianobactérias, também conhecidas como algas azuis e algas verde-azuladas, formam um grupo de bactérias que obtém a sua energia através da fotossíntese. Esses organismos podem ser encontrados em águas doces e salgadas, e também em solos. Algumas variedades dessas bactérias produzem neurotoxinas que podem ser fatais para animais que consumam a água onde elas vivem. Essa pode ter sido a origem do problema que matou os elefantes no Delta do rio Okavango na África. 

A questão começa a ficar extremamente grave quando procuramos entender as causas mais prováveis do aumento das colônias de cianobactérias nas águas do rio Okavango – a presença de grandes quantidades de resíduos de fertilizantes carreados a partir de plantações ao longo de suas margens, além de grandes quantidades de efluentes orgânicos, ou esgotos, em suas águas

Essas substâncias servem como alimentos para as bactérias. Com o forte calor, as bactérias passam a se reproduzir continuamente e formam grandes massas flutuantes sobre as águas (vide foto). Com o aumento das populações de bactérias, há um grande aumento na produção de toxinas, abrindo caminho para tragédias como o envenenamento das águas. 

O rio Okavango nasce numa região montanhosa no Leste de Angola e atravessa extensas áreas de clima semiárido, entrando a seguir na região desértica do Deserto do Kalahari, que se estende entre Angola, Namíbia, África do Sul e Botsuana. O rio é a principal fonte de água da região, sustentando um sem número de plantações e fazendas de criação de gado ao longo de suas margens. São justamente essas atividades humanas as responsáveis pela poluição das águas do importante rio Okavango

E por que precisamos nos preocupar com isso? 

Rios poluídos com grandes quantidades de esgotos e resíduos de fertilizantes são cada vez mais comuns em todo o Brasil e no mundo. Com os já perceptíveis aumentos da temperatura do planeta decorrentes do Aquecimento Global, as chances de eventos de superprodução de colônias de cianobactérias aumentam consideravelmente e há grandes chances de contaminação de populações humanas que consomem as águas desses rios. 

Citando um exemplo – no início de 2020, cerca de 1,5 milhão de fluminenses e cariocas passaram a perceber que a água que estava chegando em suas casas apresentava uma aparência turva e um cheiro ruim. De acordo com os laudos técnicos apresentados pela CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro, a origem do problema era a geosmina, um composto orgânico volátil que é produzido por alguns tipos de cianobactérias e que, felizmente, não é tóxico. 

O principal manancial da região e responsável pelo fornecimento de 85% da água usada no abastecimento da cidade do Rio de Janeiro e de parte da Baixada Fluminense é o rio Guandu, considerado o 15° rio mais poluído do Brasil. O problema persistiu por vários dias até que foram feitas modificações no sistema de tratamento, inclusive com o aumento dos volumes de produtos químicos usados nos processos de purificação e filtragem da água. 

Agora imaginem o estrago que teria sido feito se as colônias de cianobactérias do rio Guandu fossem do mesmo tipo daquelas do rio Okavango e que produzissem as mesmas neurotoxinas que, aparentemente, foram responsáveis pela morte dos elefantes da região do Delta. Pensou nisso? 

Se essas substâncias matam animais que podem chegar a um peso de 6 toneladas, imaginem o potencial de destruição que teriam sobre uma população humana, onde a grande maioria dos indivíduos tem menos de 100 kg de peso… 

É uma questão preocupante! 

“DESVENDANDO O MISTÉRIO DA MORTE DE 330 ELEFANTES NO DELTA DO OKAVANGO, EM BOTSUANA”

O Delta do rio Okavango, em Botsuana, já foi tema de diversas postagens aqui no blog. Trata-se de uma planície alagável com mais de 20 mil km², uma área maior que o Estado de Sergipe. O rio Okavango percorre mais de 1.600 km desde suas nascentes em Angola, atravessando grande parte do Deserto do Kalahari, marcando a fronteira desse país com a Namíbia, até finalmente entrar no território de Botsuana

Diferente da maioria dos grandes rios que correm de encontro ao mar, o Okavango segue para o interior do continente africano e forma o que é chamado na geografia de bacia hidrográfica endorreica, onde a água se perde por evaporação. Um exemplo desse tipo de bacia hidrográfica é a do rio Jordão, no Oriente Médio, e que forma o Mar Morto; outro exemplo são os rios Amu Daria e Syr Daria, na Ásia Central, que formam o Mar de Aral. Aqui na América do Sul o grande exemplo é o Lago Titicaca, entre a Bolívia e o Peru. 

A riqueza e a abundância de águas transformaram o Delta do rio Okavango em um paraíso da vida animal e vegetal na África Austral. Essa riqueza, porém, há muito está ameaçada. Vejam essa matéria publicada pela Conexão Planeta

“O mistério começou em março, quando os primeiros elefantes foram encontrados mortos no vasto Delta de Okavango, no interior de Botsuana, na África, por conservacionistas que sobrevoavam a região de Serong. 

Ao todo, morreram cerca de 330 animais. As investigações foram cercadas de polêmica como contamos aqui, em julho. Primeiro, suspeitou-se de caçadores, que poderiam ter envenenado a água disponível para extrair as presas dos animais, mas logo essa ideia foi descartada. Ninguém se aproximou deles e as presas continuaram intactas. 

Os pesquisadores alertaram para a morosidade com que o governo encaminhou o assunto, mas não havia mais nada a fazer do que aguardar os resultados dos exames. E eles começaram a ser divulgados no final de julho, ainda com algumas outras hipóteses. Falamos disso em agosto. 

 Até que, no final de setembro, após meses de investigações e testes realizados em laboratórios de vários países – Estados Unidos, África do Sul, Zimbábue e Canadá – o Departamento de Vida Selvagem e Parques Nacionais informou que os elefantes consumiram água contaminada por ‘uma eflorescência tóxica de cianobactérias‘, o que provocou distúrbios neurológicos. 

Como contamos em julho, ‘alguns elefantes ainda vagavam pela região, aparentando fraqueza, letargia e cansaço, além de sinais de desorientação e dificuldades para caminhar’. 

A água contaminada estava em reservatórios sazonais na região. Os elefantes pararam de morrer quando esses reservatórios secaram completamente. 

Mais mistério 

Mas ainda há um mistério rondando o caso. Em coletiva de imprensa, em Gaborone, Cyril Taolo, diretor interino desse departamento, contou que nenhuma outra espécie que vive na região foi contaminada. Nem as hienas e os abutres, que se alimentaram dos elefantes, apresentaram sinais da doença. 

Mmadi Reuben, veterinário-chefe do mesmo departamento, destacou: ‘Ainda temos muitas questões a serem respondidas: por que apenas os elefantes, e por que apenas naquela área? Há uma série de hipóteses que ainda estamos investigando’. 

O governo declarou que as pesquisas sobre a bactéria mortal continuam, e garantiu que será instituído um plano de monitoramento de reservatórios de água sazonais de forma a rastrear possíveis incidentes como esse no futuro e evitar mortes. 

Bactérias e aquecimento global 

Também conhecidas como algas azuis, as cianobactérias são organismos microscópicos muito comuns na água, que também podem ser encontrados no solo. Algumas produzem neurotoxinas, mas nem todas são tóxicas. 

Contudo, cientistas alertam que estão cada vez mais frequentes as variedades de cianobactérias perigosas para os seres humanos e os animais. Isto se deve às mudanças climáticas, que aumentam as temperaturas do planeta

De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, na África Austral (também conhecida como África Meridional, que fica no sul do continente é banhada pelo Oceano Índico na costa oriental e pelo Atlântico na costa ocidental), as temperaturas têm subido duas vezes mais que a média global. 

As águas mais quentes favorecem o fenômeno da eflorescência tóxica, que invadiu as águas do Delta de Okavango.

Foto: National Park Rescue/Facebook 

Texto: Mônica Nunes 

CHEGOU O VERÃO E, COM ELE, AS FORTES CHUVAS DE VERÃO

O início oficial do verão ocorreu nesta segunda-feira, dia 21 de dezembro. A data é marcada pelo Solstício de Verão, um evento astronômico onde o hemisfério Sul está inclinado cerca de 23,5° na direção do sol. Essa inclinação chegou ao seu auge às 07h02. Extraoficialmente, já estávamos sentindo há um bom tempo o calor e as fortes chuvas de verão. 

Aqui é fundamental fazer um esclarecimento – um país de dimensões continentais como o Brasil não tem um único padrão climático. A temporada de verão que falamos aqui é válida para a chamada Região Centro-Sul do país, que engloba os Estados da Região Sul, a maior parte da Região Sudeste (exceto o Norte de Minas Gerais, além de partes de Goiás e do Mato Grosso do Sul. Na maior parte do território brasileiro, o clima é dividido em apenas dois períodos – o verão, com tempo quente e seco, e o inverno, a temporada das chuvas. 

Algumas amostras do que a estação reserva para Região Centro-Sul para os próximos meses: 

Na madrugada do último dia 17, um forte temporal causou uma enorme destruição e deixou, ao menos, 13 mortos na região do Alto Vale do rio Itajaí, em Santa Catarina. A cidade mais fortemente atingida foi Presidente Getúlio (vide foto). O temporal também causou muitos estragos em Ibitirama e Rio do Sul. 

Na tarde do dia 18, foi a vez da cidade de João Monlevade, em Minas Gerais, a ser surpreendida por uma forte tempestade de verão. As principais avenidas da cidade foram rapidamente tomadas por fortes enxurradas, que arrastaram carros, caçambas de entulho e tudo o mais que encontraram em seu caminho. Felizmente, não houve nenhuma vítima fatal. 

Muito mais do que uma demonstração de força da natureza, essas enchentes são consequências de ações humanas – desmatamentos, mineração desenfreada, práticas agrícolas equivocadas, assoreamento de rios e canais, crescimento desordenado das cidades, geração e descarte incorreto de resíduos sólidos, destruição de áreas de várzeas e de matas ciliares, entre outras. Sem encontrar seus antigos espaços no meio ambiente, as águas invadem as cidades e arrastam tudo o que encontram pela frente. 

É muito difícil reverter os grandes estragos que já fizemos na natureza, mas existem algumas formas de amenizar o potencial destruidor dessas chuvas de verão. Falo aqui de reflorestamento de áreas críticas, criação de espaços artificiais como os piscinões e outras áreas de contenção para o excesso de água das chuvas, limpeza e manutenção periódica de bocas de lobo e de outros sistemas de drenagem urbana, entre muitas ações preventivas. 

Infelizmente, entra verão e sai verão, e as coisas continuam como estão – vivemos todos em um grande palco que está pronto para a concretização de tragédias há muito anunciadas. Ao que tudo indica, parece que nos próximos meses vamos ter de noticiar, mais uma vez, as novas tragédias que virão. Desta vez, muitas prefeituras irão afirmar que não realizaram os serviços preventivos por causa da epidemia da Covid-19 (sempre há uma desculpa). 

O início do verão também costuma marcar o fim das publicações aqui no blog no ano. Com a chegada das festas de fim de ano, todos precisamos dar uma parada para descansar e pensar em todos os problemas que ficaram para trás. E nesse ano complicado de 2020, acho todos tivemos problemas em demasia. 

Meus melhores desejos de ótimas festas a todos e minhas esperanças de um 2021 um pouquinho melhor do que esse trágico ano que se finda. 

Abraços! 

OS PROCESSOS DE DESERTIFICAÇÃO EM ALAGOAS

Falando de uma forma bem simples, solo é uma camada fina composta por diversos tipos de minerais granulados que recobre uma camada rochosa. Entre os principais compostos do solo estão fragmentos minerais como a areia, o silte e a argila, que garantem as suas características estruturais. Esses sedimentos são o resultado de milhões de anos de processos de intemperismo em rochas – radiação solar, chuva, vento e gelo, processos erosivos que transformaram a superfície das rochas em pequenos sedimentos. 

Para que esses sedimentos inertes se transformem em solo fértil é preciso incorporar a eles matéria orgânica, a principal responsável pela fertilidade, a água, elemento que garante a dissolução dos nutrientes, e o ar. É essa combinação de elementos que garante aos solos a capacidade de sustentar vida vegetal e, consequentemente, a vida animal. O tempo gasto para transformar uma região rochosa em uma floresta com solos férteis é contado em milhões de anos. Siga esse link para ter uma descrição mais detalhada. 

Conforme já comentamos em uma postagem anterior, o trecho nordestino da Mata Atlântica foi o responsável pela formação de uma faixa de solos férteis com largura entre 60 e 80 km ao longo da costa. Nas palavras de grandes intelectuais como Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Josué de Castro e Capistrano de Abreu, esses solos eram formados por “uma terra escura e gorda”, conhecida por todos como massapê. 

A fecundidade dos solos de massapê chamou a atenção dos europeus desde a chegada da expedição descobridora de Pedro Álvares Cabral. O escrivão-mor da esquadra, Pero Vaz de Caminha, escreve a El-Rei de Portugal: “A terra é em tal maneira dadivosa que em se querendo aproveitar dar-se-á nela tudo”. E dentro do projeto colonial de Portugal, esses solos se prestariam à produção de grandes quantidades de cana, para abastecer os mercados mundiais com açúcar de ótima qualidade

O resultado desse processo todos conhecemos bem – o trecho nordestino da Mata Atlântica foi, literalmente, riscado do mapa em pouco mais de dois séculos, levando junto inúmeras espécies animais e vegetais, rios e a fértil camada dos solos de massapê. A densa floresta tropical que chegava até a linha da areia das praias foi substituída por coqueirais – lembro aqui que o coco é originário do Sudeste Asiático. 

A destruição da cobertura vegetal de uma região pode resultar em consequências devastadores ao meio ambiente – uma delas é o início de processos de desertificação. A pequena Alagoas é uma campeã nacional nessa categoria. Aproximadamente 27% da superfície do Estado está sofrendo com processos acelerados de desertificação

Alagoas tem uma área total de 27,5 mil km² e, de acordo com informações da UNIFAL – Universidade Federal de Alagoas, cerca de metade desse território ou 14,5 mil km² era coberto originalmente pelos diferentes subsistemas florestais da Mata Atlântica. Atualmente, restam perto de 800 km² do bioma no Estado. 

Além da devastação das matas da faixa litorânea para a abertura de campos agrícolas, a vegetação do Semiárido Nordestino, que pode ser dividida a grosso modo em Agreste, Caatinga e Alto Sertão, foi impactada pela expansão da pecuária. Grandes trechos da vegetação desses biomas, principalmente os caatingais, foram queimados pelos criadores para formação de áreas de pastagens para os animais. A destruição dessa vegetação teve papel fundamental nos processos de desertificação em andamento hoje no Estado. 

Há um detalhe relevante aqui: além de rebanhos bovinos, os criadores também introduziram nos sertões animais como cavalos, burros, ovelhas e, principalmente, cabras e bodes. Diferente dessas outras espécies, os caprinos comem qualquer coisa disponível, inclusive as folhas espinhosas de cactáceas e as raízes das plantas. Em épocas de seca, quando se esgotam as forrações, os espertos caprinos cavam os solos em busca de raízes de plantas. Também escalam árvores com extrema facilidade, alcançando as folhas mais altas e inacessíveis para as demais criações. 

O botânico Alberto Loefgren (1854-1918), sueco de nascimento e depois radicado no Brasil, estudando a devastação das árvores e das matas nas terras do Ceará, atribuiu um papel importante nesta degradação vegetal aos rebanhos soltos na região: 

“Outro fator não desprezível na devastação das matas, ou pelo menos para conservar a vegetação em estado de capoeira, são as cabras. Sabe-se quanto este animal é daninho para a vegetação arborescente e arbustiva e como a criação de cabras soltas no Ceará é, talvez, maior que a do gado, sendo fácil imaginar-se o dano que causa à vegetação alta”. 

A vegetação do Semiárido Nordestino também sofreu grandes derrubadas de árvores para o aproveitamento da madeira, utilizada principalmente para a fabricação de móveis e usos na construção civil na forma de portas, janelas e estruturas para telhados, além de mourões para cercas de arame farpado. As matas do sertão nordestino também forneceram grandes quantidades de dormentes para as ferrovias da região – para cada quilômetro de trilhos assentados, foram utilizados dormentes feitos com a madeira de até 500 árvores. 

Como resultado desse somatório de agressões ambientais, grandes trechos do Semiárido Nordestino caminham rapidamente para a desertificação. As estimativas apontam para um total de 230 mil km² de áreas em processo extremo de desidratação (graves ou muito graves), estágios em que os solos tendem a se tornar imprestáveis para qualquer uso.  

No Norte do Estado de Minas Gerais, existe uma área de 69 mil km² em risco extremo de desertificação, englobando um total de 59 municípios nas regiões dos Vales dos rios Jequitinhonha e Mucuri. Esse é um problema que não se limita apenas a regiões semiáridas – vários municípios do Rio Grande do Sul, citando um exemplo, sofrem com o mesmo problema. 

O Estado de Alagoas é um dos mais afetados pelo processo, com 62% dos municípios apresentando áreas em processo de desertificação em diferentes estágios. Os casos mais graves são encontrados nos municípios de Ouro Branco, Maravilha, Inhapi, Senador Rui Palmeira, Carneiros, Pariconha, Água Branca e Delmiro Gouveia.  

Além da perda da fertilidade, os solos ressequidos praticamente não permitem a infiltração da água das chuvas, o que dificulta a recarga de aquíferos e lençóis subterrâneos que alimentam os rios dessas regiões, sendo que muitos desses corpos d’água são intermitentes. 

Ao contrário do que muitos podem imaginar, a precipitação média anual de chuvas na Região do Semiárido Nordestino está entre 200 mm e 400 mm, superior àquela de cidades importantes como Barcelona e Paris, e muito acima da precipitação média no Deserto do Saara, que se situa entre 100 e 150 mm de chuva durante o ano. 

O grande fantasma da desertificação e que tira o sono de muita gente é que mesmo contando com água, um elemento fundamental para a prática agrícola, esses solos não produzem praticamente nada, nem mesmo ervas para alimentação de animais. Existem muitos experimentos sendo realizados em diferentes partes do mundo que mostram que é possível reverter os processos de desertificação em suas fases iniciais.  

Essa remediação, entretanto, tem altos custos, que crescem exponencialmente conforme a área desertificada aumenta de tamanho. Alagoas, para quem não sabe, é um dos Estados mais pobres do Brasil e onde falta dinheiro para tudo – sozinho, o Estado pode fazer muito pouca coisa para combater a desertificação dessas regiões. 

O melhor jeito de se combater a desertificação é evitar que o processo tenha início ou que seja remediado ainda nos primeiros estágios.  

OS GRAVES PROBLEMAS DA FOZ DO RIO SÃO FRANCISCO: DA SALINIZAÇÃO DAS ÁGUAS AO AVANÇO DO MAR

Regiões estuarinas e deltaicas em todo o mundo estão passando por graves problemas ambientais. Um dos casos mais graves é o que se passa na região do delta do rio Colorado no Golfo da Califórnia, onde praticamente não existe mais água doce.  

O rio Colorado é um dos rios mais longos da América do Norte, com nascentes nas Montanhas Rochosas, no Estado americano do Colorado, e, ao longo dos seus 2.320 quilômetros, banha os Estados de Utah, Arizona, Nevada e Califórnia, entrando a seguir no México, onde encontra a sua foz no Golfo da Califórnia.  

Suas águas respondem pelo abastecimento de 40 milhões de pessoas em sete Estados americanos e quase 90% do total dos seus caudais são desviados para fins de irrigação em 2 milhões de hectares. Sem as águas doces do rio, um pequeno cetáceo que vivia nas águas salobras do delta – a vaquita (Phocoena sinus), está praticamente extinto devido a perda do habitat. 

Outra região importantíssima que está seriamente ameaçada é o Delta do rio Mekong, no Sudeste Asiático. O delta do rio ocupa uma área com aproximadamente 40 mil km², praticamente a soma dos territórios dos Estados de Sergipe e Alagoas, possuindo aproximadamente 4 mil ilhas e 3.200 km de canais. Localizado inteiramente dentro do território do Vietnã, o delta do Mekong abriga uma população de 17 milhões de pessoas, que dependem das suas águas para abastecimento, alimentação, trabalho e transportes. Uma das principais culturas agrícolas da região é o arroz. 

Com a construção de diversas represas de usinas hidrelétricas a montante do seu curso, os caudais do rio Mekong estão sendo reduzidos a grande velocidade e toda a região do seu delta está sofrendo com o avanço das águas do oceano e a salinização de águas e terras. Problemas semelhantes estão ocorrendo nos estuários e deltas de rios como o Ganges, Nilo, Reno, Danúbio, entre muitos outros. 

Conforme comentamos na postagem anterior, o rio São Francisco vem apresentando uma redução progressiva dos seus caudais ao longo das últimas décadas. Entre as causas desse grave problema está a acelerada destruição de vegetação nativa do Cerrado, o que reduz a contribuição de afluentes da bacia hidrográfica, e também a construção de sucessivas barragens de usinas hidrelétricas ao longo da calha do rio. 

Com a redução dos caudais do rio São Francisco, a intrusão de águas do Oceano Atlântico na sua calha é cada vez maior e seus efeitos já podem ser sentidos a dezenas de quilômetros da foz. Diversas cidades e pequenos povoados da região que captavam as águas do rio para o abastecimento de suas populações estão sofrendo com os altos níveis de salinização das águas

A água doce ou potável que todos nós consumimos diariamente é aquela que apresenta uma concentração máxima de sal de 0,5 grama por litro – já a água salgada ou dos oceanos, apresenta níveis de concentração de sal superiores a 30 gramas por litro. As águas que apresentam níveis de sal intermediários, acima de 0,5 grama/litro e abaixo de 30 gramas/litro, são chamadas de águas salobras, justamente a classificação em que se encontram as águas do Rio São Francisco em trechos próximos da foz

Um exemplo de localidade que está sofrendo com o abastecimento de água para sua população é Potengy um distrito do município de Piaçabuçu em Alagoas. A água servida aos moradores está ficando cada vez mais salobra e inadequada ao consumo humano. Para piorar a situação, a salinidade das águas do rio São Francisco está afetando os aquíferos locais e inviabilizando o uso da água de poços. Muitos moradores precisam se deslocar por até 7 km até uma cacimba (uma espécie de poço aberto no solo) para conseguir água de boa qualidade. 

Agentes de saúde da comunidade passaram a observar um aumento dos casos de hipertensão arterial entre os moradores de Potengy, um problema que pode estar associado ao consumo excessivo de sal. Uma pesquisa feita pelos próprios agentes de saúde indicou que 36% dos moradores do vilarejo estavam com hipertensão e o consumo de água com altos níveis de sal é a causa mais provável dessa verdadeira “epidemia” de hipertensão. Esse problema está se tornando comum em toda a região do baixo curso do rio São Francisco. 

Outro problema preocupante na região são os impactos do uso de água com altos níveis de salinidade na irrigação de culturas agrícolas, especialmente em campos de produção de arroz. A presença do sal em grandes quantidades na água utilizada na irrigação mata as plantas e, a longo prazo, pode comprometer a fertilidade dos solos, impossibilitando a produção do arroz e de outras culturas irrigadas. Em Piaçabuçu, município alagoano na foz do Rio São Francisco, o plantio de arroz já está comprometido. 

Na mesma Piaçabuçu, um outro problema resume os problemas na foz do rio São Francisco – o crescimento de um pequeno deserto de areias móveis. Aos tempos do início da colonização, toda a orla marítima de Piaçabuçu era coberta por matas. Com a devastação das matas ao longo dos séculos, dunas móveis de areia começaram a avançar a partir da orla da praia na direção do interior do município. Atualmente, Piaçabuçu já possui uma área de dunas, algumas com mais de 30 metros de altura, com mais de 50 km². Para deleite dos turistas, o pequeno deserto de areias continua avançando. 

O enfraquecimento do rio São Francisco também está resultando num forte avanço do mar contra a costa na região da sua foz. O povoado de Cabeço, que pertencia ao município de Brejo Grande, e que ficava ao lado da foz foi, literalmente, varrido do mapa pelo avanço do mar. Até 1997, Cabeço tinha aproximadamente 200 moradores, a maioria pescadores, contando com perto de 50 casas, uma igreja e uma escola.  

Nessa época, havia um farol marítimo nas proximidades do povoado, instalado num ponto distante 2 km do oceano. Com o enfrequecimento do rio São Francisco e com as alterações nos sistemas de correntes marinhas, as ondas passaram a avançar contra a linha da costa onde ficava o povoado, destruindo sistematicamente todas as construções. Só restou o antigo farol que, mesmo inclinado, continua a resistir bravamente ante o avanço do mar. Este farol agora está dentro do mar (vide foto). 

Um outro sintoma do forte avanço das águas marítimas na calha do rio São Francisco é a presença cada vez mais frequente de tubarões nas águas do rio, a distâncias cada vez maiores da foz. Os tubarões da espécie cabeça-chata (Carcharhinus leucas) lideram as ocorrências de avistamento e captura no Baixo São Francisco. Os cabeças-chatas são uma das espécies de tubarões que mais se envolvem em ataques a pessoas em todo o mundo. A espécie é muito comum em águas tropicais e, por esta razão, é frequentemente avistada nas águas do litoral da Região Nordeste. 

Uma característica dos tubarões cabeça-chata é a sua capacidade de sobreviver por longos períodos em águas salobras e doces. Há relatos de espécimes que foram capturados no rio Amazonas, nas proximidades de Manaus, cidade que fica a mais de 1.500 km das águas do Oceano Atlântico. Com a redução dos caudais do São Francisco e com o avanço das águas salinas para o interior da calha do rio, os tubarões cabeça-chata passaram a se sentir praticamente em casa e podem representar um grande risco para as populações ribeirinhas do rio. 

Em síntese, é isso – a foz do rio São Francisco está sofrendo com problemas vindos de todos os lados.

A IMPONENTE FOZ DO RIO SÃO FRANCISCO, O “RIO-MAR”

Em 4 de outubro de 1501, dia de homenagens a São Francisco de Assis de acordo com o calendário da Igreja Católica, os tripulantes da expedição de reconhecimento comandada por Américo Vespúcio e André Gonçalves avistou a foz de um grande rio. Conforme a nau se aproximava do local, os marinheiros perceberam que a água doce dos poderosos caudais do rio avançavam por uma longa distância mar adentro. Os expedicionários descobririam depois que os índios davam ao rio o nome de Opará, o que na língua local significa algo como “rio-mar” ou “rio grande como o mar”. Foi registrada assim a descoberta do rio São Francisco

Com nascentes na Serra da Canastra na região do Cerrado de Minas Gerais, o rio São Francisco seguirá por 2.830 km, atravessando grande parte do Semiárido Nordestino até encontrar sua foz no Oceano Atlântico. Além de terras mineiras, o rio vai banhar terras dos Estados da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. 

A bacia hidrográfica do rio São Francisco ocupa uma área total de 641 mil km², sendo considerada a segunda maior totalmente inserida dentro do território brasileiro. Suas águas servem diretamente 521 municípios em 6 Estados da Federação: Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, além do Distrito Federal. Após a conclusão de todas as obras do Sistema de Transposição, que já funcionam parcialmente, as águas do Rio São Francisco atenderão importantes regiões nos sertões de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. 

Postagens falando do Rio São Francisco estão entre as mais numerosas aqui do blog e não precisamos ficar repetindo muitas informações. Siga esse link para acessar uma longa série de postagens sobre o rio. Vamos nos concentrar nos problemas do trecho final do rio, que atravessa o bioma Mata Atlântica

Apesar de todo o seu tamanho, somente o trecho final do rio São Francisco, com um trecho de calha entre 80 e 100 km, atravessava os domínios do bioma Mata Atlântica. Como aconteceu em praticamente toda faixa Leste do litoral nordestino, as matas dessa região também sucumbiram diante do avanço dos canaviais, porém, seus impactos no conjunto do rio São Francisco foram muito pequenos quando comparados aos demais estragos feitos ao longo da sua bacia hidrográfica pelo interior do país. 

Ao longo de seu longo curso, o rio São Francisco, ou Velho Chico para os mais íntimos, recebe contribuições de 168 rios tributários, sendo 90 na margem direita e 78 na margem esquerda. Entre todo esse conjunto de afluentes, os mais importantes e caudalosos ficam dentro de regiões do Cerrado, principalmente no Estado de Minas Gerais. Cerca de 37% da bacia hidrográfica do rio São Francisco fica em terras mineiras, porém, essa região responde por 75% dos caudais

É justamente essa região que produz alguns dos mais graves problemas que assolam a foz do rio São Francisco – a redução dos caudais e o avanço das águas do Oceano Atlântico para o interior da calha do rio. O forte avanço das frentes agrícolas no Cerrado e a destruição da vegetação nativa são os grandes vilões dos problemas do rio. 

Ocupando uma área com aproximadamente 2 milhões de km², o Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil. O Cerrado abrange os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal, além dos encraves florestais (ou manchas de Cerrado) no Amapá, Roraima, Amazonas, e também pequenos trechos na Bolívia e no Paraguai.  

Apesar de não apresentar uma vegetação luxuriante como a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica, o Cerrado e sua vegetação têm uma importância ímpar para os recursos hídricos brasileiros. Neste espaço territorial encontram-se as nascentes de importantes bacias hidrográficas da América do Sul como a Amazônica, Tocantins/Araguaia, Paraguai, Paraná e São Francisco, o que resulta em um elevado potencial aquífero e favorece a sua biodiversidade. 

As terras do Cerrado sempre foram consideradas ácidas demais, pouco férteis e inadequadas para uma grande produção agrícola. Essa realidade começou a mudar no começo da década de 1970, quando a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, conseguiu desenvolver as primeiras variedades de grãos, especialmente a soja e o milho, adaptados ao clima e as condições dos solos do Cerrado. De lá para cá grandes extensões da mata nativa do bioma foram derrubadas para a abertura de campos agrícolas – o Estado de Minas Gerais foi um dos campeões nessa modalidade. 

Dos três biomas originais do Estado de Minas Gerais, o Cerrado foi o que mais perdeu vegetação, restando apenas 40% da cobertura original. Da Mata Atlântica e da Caatinga restam, respectivamente, 23% (algumas fontes citam valores menores) e 57%. A bacia hidrográfica do Rio São Francisco em Minas Gerais está localizada, predominantemente, em áreas do Cerrado e as acentuadas perdas de área dessa vegetação é o fator que mais produz reflexos negativos no rio, notadamente a redução dos volumes de água em nascentes desse bioma

Além da perda substancial de seus caudais, o rio São Francisco também vem tendo as suas águas represadas para uso na geração de energia elétrica. Desde a década de 1940, já foram diversos os empreendimentos instalados na calha do rio para a geração de energia elétrica – Paulo Afonso, Três Marias, Sobradinho, Xingó, entre outros. O represamento sistemático do rio passou a reduzir o volume e a força das águas que chegam até a foz, permitindo um avanço cada vez maior das águas salgadas para o interior da calha.  

Colocando o problema em números para facilitar a compreensão: a vazão média histórica do rio São Francisco na sua foz no Oceano Atlântico era de 2.943 metros cúbicos por segundo. Foi esse o rio encontrado pelos primeiros exploradores no início do século XVI e que lançava caudais de água doce vários quilômetros mar adentro. Ao longo dos últimos setenta anos, essa vazão média foi reduzida à metade desse valor e, em épocas de seca prolongada, essa vazão tem chegado a 550 metros cúbicos por segundo, como ocorreu em 2013

E com a redução da vazão do Velho Chico, os níveis de salinidade nas águas da região da foz começaram a aumentar rapidamente, Em cidades e povoados localizadas na região da foz como Piaçabuçu, Igreja Nova, Penedo, Brejo Grande, Neópolis e Betume, entre outras, onde as águas do rio São Francisco eram captadas para o abastecimento da população, a situação está ficando cada vez mais complicada. Os sistemas tradicionais de tratamento de água não conseguem retirar o sal e as águas que chegam nas casas dos moradores são salobras

Quem tem uma condição melhor se esforça para buscar água em fontes distantes da foz do rio. Muitos moradores seguem em carroças até trechos de matas onde existem fontes de águas puras. Outros sobem o rio em barcos e saem em busca de pequenos afluentes livres da salinidade. Muita gente, porém, é obrigada a consumir água com elevados níveis de salinidade – médicos que trabalham nessas cidades afirmam que houve um aumento de 20% nos casos de hipertensão arterial entre os moradores. Os médicos também relatam casos de hipernatremia, que é a alta concentração de sódio no corpo, e doenças de pele, problemas todos associados aos altos níveis de salinidade nas águas. 

Também é preciso se destacar os impactos da salinização das águas para a agricultura irrigada. Um exemplo foram os sucessivos programas governamentais para estimular o cultivo do arroz em terras irrigadas no baixo curso do rio São Francisco. Apesar de pouco significativa quando comparada aos números da produção nacional, essa rizicultura era de extrema importância econômica e social para centenas de famílias de pequenos agricultores da região. Com a salinização das águas, essa produção está ficando cada vez mais inviabilizada. 

Continuaremos na próxima postagem. 

SERGIPE, O “RIO DOS SIRIS”

Com pouco menos de 22 mil km², Sergipe é o menor Estado do Brasil. Existem alguns municípios brasileiros com área maior que esse Estado – Altamira, no Pará, tem 159 mil km²; Corumbá, em Mato Grosso, tem 64 mil km² e Porto Velho, em Rondônia, tem 34 mil km², entre muitos outros. A população de Sergipe também é pequena – são aproximadamente 2,3 milhões de habitantes. 

Com apenas 210 km de extensão, o rio Sergipe consegue a façanha de ser o mais importante do Estado. Metade da população de Sergipe depende das águas dessa bacia hidrográfica para o seu abastecimento e múltiplos usos na agricultura e indústrias, entre muitos outros. Como citado no título, o nome do rio vem do tupi siri ‘ype, que significa “rio dos siris”. 

A história colonial de Sergipe remonta ao final do século XVI, quando o militar português Cristóvão de Barros atacou os indígenas tupinambás do cacique Serigy e do seu irmão Siriri, que dominavam as terras entre a foz dos rios Sergipe e Vaza Barris. Após vencer os indígenas, Cristóvão de Barros fundou uma vila na foz do rio Sergipe – São Cristóvão. Esse assentamento depois seria transferido para as margens do rio Poxim e, depois, para a região do rio Paramopama, um dos afluentes do rio Vaza Barris

Por volta de 1699, teria surgido um pequeno povoado às margens do rio Sergipe – Santo Antônio de Aracaju. Essa pequena cidade só ganharia relevância em meados do século XIX, quando as lideranças políticas da Província decidiram transferir a capital para a região. Estruturada como uma cidade planejada, a moderna Aracaju foi inaugurada oficialmente em 1855. Uma reunião da Assembleia Legislativa da Província nesse mesmo ano oficializou a mudança da capital de São Cristóvão para Aracaju. 

Um ponto que pesou bastante para essa decisão foi a grande embocadura da foz do rio Sergipe, que favorecia imensamente as atividades de operações portuárias. Apesar de bastante extenso, o litoral brasileiro carece de boas áreas para a construção de portos – a foz de grandes rios sempre foi uma das melhores alternativas para a instalação dessas infraestruturas. Desde então, a história do rio Sergipe e de Sergipe se confundem. 

O rio Sergipe tem parte de suas nascentes na Serra Negra, em Pedro Alexandre na Bahia e parte na localidade conhecida como Lagoa das Areias, região que pertence a Monte Alegre de Sergipe. Ambas regiões ficam dentro dos domínios do Semiárido Nordestino. O rio atravessa todo o território do Estado de Sergipe no sentido Leste-Oeste até desaguar no Oceano Atlântico. 

A bacia hidrográfica do rio Sergipe ocupa uma área total de pouco mais de 3,6 mil km², o que corresponde a quase 17% da superfície do Estado e onde são abrangidos 26 municípios, sendo que 8 deles ficam totalmente inseridos dentro da bacia hidrográfica. Mais de 1 milhão de sergipanos dependem diretamente das águas da bacia hidrográfica do rio Sergipe, o que permite colocar em perspectiva a sua importância

De acordo com dados da SEPLANTEC – Secretaria de Estado do Planejamento e da Ciência e Tecnologia de Sergipe, cerca de 46% do território da bacia hidrográfica do rio Sergipe é ocupada por pastagens para a criação de animais e 18,5% por atividades agrícolas. As áreas florestais correspondem a apenas 5,1% do território e também há menção de “matas pouco densas” ocupando 22,5% do território

Conforme comentamos na postagem anterior, quando falamos do sofrido rio Vaza Barris, Sergipe pode ser classificado com um dos Estados campeões em desmatamentos no Brasil. Originalmente, a Mata Atlântica, com seus mais diferentes subsistemas florestais, cobria aproximadamente 2/3 da superfície do Estado. Com os desmatamentos para abertura de campos para o plantio de cana, essa vegetação foi praticamente dizimada, restando pouco mais de 8% da sua cobertura original. 

Nas áreas do Semiárido, os desmatamentos ocorreram em função da expansão da pecuária – grandes extensões de caatingais foram queimados para o aumento artificial das áreas de pastagens. Destruição de cobertura vegetal e recursos hídricos são duas coisas de não combinam nenhum pouco – a bacia hidrográfica apresenta atualmente uma série de problemas ambientais, grande parte deles decorrentes desses desmatamentos históricos. 

A destruição de extensas áreas da Mata Atlântica e da vegetação do Semiárido resultou na diminuição dos caudais dos rios da bacia hidrográfica. O rio também sofre com o lançamento de esgotos sem tratamento, assoreamento, mineração, retirada de grandes volumes de água por sistemas de irrigação, despejos de resíduos sólidos, destruição de remanescentes florestais, entre outros problemas. A receita dessa tragédia ambiental é a mesma “aplicada” em muitos outros rios brasileiros. 

De acordo com estimativas recentes, a bacia hidrográfica do rio Sergipe possui a capacidade de fornecer um volume diário de 180 mil m³ de água para todos os seus usuários, onde se inclui o abastecimento de populações humanas e animais, além dos usos na agricultura e na indústria. O problema é que a demanda atual se aproxima dos 440 mil m³/dia, onde perto de 66,5% do volume é necessário apenas para o consumo das populações humanas

Para suprir o atual déficit de água na bacia hidrográfica do rio Sergipe vem sendo necessário a captação de água em outras fontes. Uma adutora transporta diariamente perto de 12 mil m³ a partir do rio São Francisco, água que é usada principalmente por indústrias. Também entram na conta grandes volumes de águas captados em rios próximos como o Poxim, Pitanga e Jacarecica, entre outros. Outra parte substancial dos recursos hídricos vem de poços artesianos, retirados principalmente de aquíferos como o Terra Dura. 

Além de problemas ligados diretamente aos volumes de água, o rio Sergipe apresenta comprometimentos da sua qualidade físico-química. Análises feitas pelo ITPS – Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe, vem encontrando grandes níveis de coliformes fecais nas águas, o que indica claramente o despejo de esgotos domésticos e efluentes de origem animal nas águas da bacia hidrográfica sem qualquer tipo de tratamento. Coliformes fecais são bactérias encontradas nos intestinos de animais de sangue quente como bois, cavalos e seres humanos, e presentes em grande quantidade nas respectivas fezes. 

Um outro problema importante a ser considerado é a intrusão de águas salina na região do baixo curso do rio Sergipe. Nas regiões de foz dos rios junto ao mar existe um delicado equilíbrio entre os caudais de águas doces e as águas salinas. Sempre que um rio apresenta a diminuição dos seus caudais, a água salgada consegue invadir a calha do rio, deixando as águas salobras e impróprias para o consumo humano e para dessedentação animal, além dos usos na agricultura e na indústria. 

Em 1978, quando já se notava o crescimento desse problema, foi construído um vertedor de concreto cortando o rio Poxim, afluente do rio Sergipe, onde é feita a captação de parte importante da água usada no abastecimento de Aracaju e cidades próximas. Essa obra foi executada justamente para impedir a propagação da salinidade das águas do baixo curso do rio Sergipe, algo que seria impensável em épocas passadas quando o rio “vendia saúde’. 

A situação complicada do rio Sergipe se junta à de tantos outros rios importantes da faixa litorânea do Nordeste Brasileiro, onde a Mata Atlântica imperava num passado já bem distante. Felizmente, ainda existem fontes alternativas para a captação de água em Sergipe. A pergunta é – até quando essas fontes alternativas vão conseguir garantir a complementação do abastecimento da população? 

O HISTÓRICO E DEGRADADO RIO VAZA BARRIS

O rio Vaza Barris tem aproximadamente 450 km de extensão, com nascentes na região de Uauá, no Norte do Semiárido da Bahia e foz no litoral de Sergipe, ao Sul da Capital – Aracaju, já dentro dos domínios da Mata Atlântica

Uauá é uma típica cidade do Semiárido Nordestino e que tem a sua economia baseada na caprinovinocultura, ou seja, a criação de bodes, cabras e ovelhas, animais que se adaptam bem ao clima e aos alimentos encontrados na Caatinga. Uauá é conhecida nacionalmente como a “Capital do Bode”, tamanha a importância desse animal para a economia local. Aliás, cerca de 1/3 do PIB da cidade vem de atividades ligadas à criação desses animais

Todos os anos a cidade realiza uma exposição de caprinos e ovinos, um evento que atrai visitantes de todo o Nordeste. Além da venda de animais de ótima linhagem para criadores, um dos destaques da exposição são as barracas que vendem iguarias preparadas a base de carne de bodes e ovelhas, um grande sucesso entre o público. Destaque para as famosas “buchadas de bode”. 

Em meio as paisagens locais do Semiárido, o rio Vaza Barris se destaca como o principal corpo d’água da região. Inúmeras vilas e povoados surgiram em suas margens. Um dos mais famosos foi o histórico Arraial de Canudos, que foi a sede de uma comunidade sócio-religiosa liderada por Antônio Conselheiro em fins do século XIX. 

A pequena vila de Canudos surgiu no século XVIII a partir de uma fazenda de mesmo nome. Por volta de 1893, apareceu na região um pregador messiânico que falava de uma salvação milagrosa para os humildes flagelados do sertão. Seu nome era Antônio Vicente Mendes Maciel, mas seus discípulos o chamavam de Antônio Conselheiro. Em poucos anos, a população de Canudos chegou a 25 mil habitantes e era formada basicamente por fanáticos religiosos

Pressionado pelos grandes latifundiários da região, que temiam as consequências do rápido crescimento do número de seguidores de Antônio Conselheiro e dos impactos da propagação de suas ideias socialistas, o jovem Governo Republicano enviou tropas do Exército para conter os “revoltosos”. Foram enviadas quatro expedições militares entre os anos de 1897 e 1898, naquela que entrou para a história como a Guerra de Canudos

As três primeiras expedições militares foram derrotadas de forma humilhante pelos fanáticos sertanejos de Conselheiro, o que enfureceu o comando do Exército e o Presidente da República no Rio de Janeiro. Uma nova e mais poderosa guarnição militar foi enviada para a região em fins de 1898. 

Essa expedição, que tinha ordens explícitas para riscar Canudos do mapa, foi formada por duas colunas com cerca de 4 mil soldados em cada uma e dotada das mais modernas armas disponíveis há época. Ao final dos sangrentos embates, a maior parte dos habitantes do Arraial de Canudos foi morta, em combate ou degolada após a rendição. Entre os mortos estavam Antônio Conselheiro e outros líderes do movimento. As forças regulares do Exército perderam cerca de 5 mil homens. 

Em 1910, alguns sobreviventes da antiga Canudos fundaram um novo povoado, que subsistiu até 1950, quando teve início a construção no local do Açude Cocorobó (vide foto), um importante reservatório de água para toda a região. Os desalojados criaram um novo povoado, o vilarejo de Cocorobó, distante cerca de 20 km. Em 1985, essa região foi emancipada e transformada no município de Canudos. 

Do lado sergipano, a maior parte da bacia hidrográfica do rio Vaza Barris se encontrava dentro de áreas da Mata Atlântica. Aos tempos do desembarque dos primeiros europeus em terras brasileiras em 1500, cerca de 2/3 do território do Estado de Sergipe era coberto pelos diversos subsistemas florestais da Mata Atlântica. Depois de séculos de desmatamentos, o bioma está reduzido a cerca de 8% de sua área original, disperso em inúmeros pequenos fragmentos florestais. 

A situação atual do rio Vaza Barris é considerada crítica – segundo estudos realizados no trecho sergipano da bacia hidrográfica, a demanda para os usos múltiplos das águas do rio supera a disponibilidade em 40%. São aproximadamente 2,5 mil km² de área nesse trecho da bacia hidrográfica, onde vivem perto de 280 mil pessoas, tendo o rio Vaza Barris como o principal manancial de águas. 

Sergipe é o menor Estado brasileiro e também um dos campeões em desmatamentos ao longo da história. Até o início da colonização efetiva do Brasil a partir da década de 1530, a Mata Atlântica ocupava toda a faixa litorânea do Estado, com uma largura média entre 60 e 80 km – em menos de dois séculos, a maior parte dessas matas foram derrubadas e queimadas para o plantio de cana e produção do valioso açúcar. Importantes afluentes do rio Vaza Barris dentro do bioma Mata Atlântica definharam em consequência do ciclo do açúcar. Nas terras do interior, em trechos do Agreste e do Semiárido, a situação não foi muito diferente. 

Essas terras foram sendo ocupadas gradativamente por fazendas de criação de gado, palavra genérica que inclui rebanhos de bovinos, cabras, bodes, carneiros, porcos, asinus (asnos) e equínos. Devido à pouca extensão das áreas de campos naturais para a pastagem dos bois, os criadores passaram a queimar as áreas de caatingais para ampliar artificialmente a extensão dos pastos.  

Essa prática, que acabou expandida para a maior parte do Semiárido Nordestino e Norte de Minas Gerais, acabou por incrementar os problemas ambientais associados à seca. Como nunca foram realizados quaisquer estudos científicos nessa região antes dessas queimadas, não é possível se afirmar com certeza qual foi o tamanho real desses estragos. As áreas onde ficam as nascentes do rio Vaza Barris sofrem há séculos com essas queimadas e suas consequências.

De acordo com informações de um relatório de 1997 do UNCCD – Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, na sigla em inglês, o Estado de Sergipe é considerado como uma área frágil e apresenta três regiões com alto risco de desertificação: uma faixa estreita no centro do litoral sergipano, uma faixa central ente o Norte e o Sul do Estado, além de uma grande área no chamado Alto Sertão Sergipano

Os processos de desertificação são muito mais graves e vão muito além dos problemas criados com os desmatamentos. Sem a proteção da vegetação, a camada de solo fértil é destruída por processos erosivos das chuvas e dos ventos, restando no seu lugar apenas sedimentos inertes como a areia, sem capacidade para sustentar vida vegetal. Nascentes de água nessas regiões definham e acabam sendo soterradas pela areia, reduzindo as contribuições para riachos e rios da bacia hidrográfica. 

Além de grandes perdas de água nos seus antigos tributários, os caudais do rio Vaza Barris também sofrem com a retirada de grandes volumes de água para usos em sistemas de irrigação obsoletos. Esses sistemas costumam usar um pivô central para a distribuição de água nas plantações, uma tecnologia que pode resultar em desperdícios entre 30% e 50%. Em regiões com as mesmas características climáticas é recomendável o uso de técnicas de micro gotejamento, muito mais eficientes e econômicas. 

O pacote de problemas no rio Vaza Barras se completa com os despejos de grandes volumes de esgotos sanitários sem tratamento, efluentes e resíduos de matadouros de animais, resíduos sólidos descartados irregularmente pelas cidades e pelo carreamento de resíduos de fertilizantes e de defensivos agrícolas de plantações, além de outros problemas criados pela mineração. Nos meses do inverno nordestino, época das chuvas, as enxurradas carregam grandes volumes de sedimentos para a calha do rio Vaza Barris, aumentando ainda mais os seus problemas. 

Em uma região que já sofre com a baixa disponibilidade de recursos hídricos e onde cada litro de água é importante, é inquietante ver um corpo d’água tão importante com o rio Vaza Barris sofrer com esse lento e contínuo processo de degradação ambiental.