A DEVASTAÇÃO DA MATA ATLÂNTICA ENTRE OS SÉCULOS XVI E XIX – UM BREVE RESUMO

Aos tempos da chegada da expedição descobridora de Pedro Álvares Cabral em 1500, a Mata Atlântica cobria cerca de 1,2 milhão de km² ou 15% do nosso atual território. A densa floresta se estendia do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte acompanhando a linha da costa. Em muitos trechos, a floresta entrava pelo território e atingia regiões no Leste do Paraguai e Nordeste da Argentina

Na sequência de postagens que estamos publicando aqui no blog, temos mostrado o avanço da destruição da Mata Atlântica ao longo do nosso complexo de povoamento, onde já comentamos os sucessivos ciclos econômicos entre o século XVI e o final do século XIX. Vamos fazer um rápido resumo so que aconteceu com a floresta até aqui: 

O ciclo da Cana de Açúcar 

A primeira grande atividade econômica desenvolvida na grande Colônia de Portugal na América do Sul foi o plantio da cana e a produção do açúcar. Desenvolvido inicialmente pelos indianos, o açúcar gradualmente foi caindo no gosto da humanidade. Sua produção se irradiou através da Pérsia (atual Irã) por toda a Ásia Central, Oriente Médio e Egito. Por volta do século IX, os canaviais chegaram a Ilha da Sicília, no Sul da Itália. Por volta do século X, a cultura chegou na Península Ibérica pelas mãos dos invasores muçulmanos. 

Os primeiros registros de canaviais em Portugal datam do ano 1159, na região do Algarves. A expansão da cultura em terras portuguesas acompanhou o avanço dos lusos pelas águas do Oceano Atlântico. As primeiras mudas de cana de açúcar chegaram na Ilha da Madeira em 1425, em 1460 no Arquipélago dos Açores e em 1493 nas Ilhas de São Tomé e Príncipe. 

No Brasil, a cultura da cana de açúcar chegou na bagagem das primeiras expedições colonizadoras de Martin Afonso de Sousa e seu irmão Pero Lopes de Sousa, donatários das Capitânias de São Vicente e Santo Amaro, e de Duarte Coelho, Donatário da Capitânia de Pernambuco. Essas duas expedições chegaram ao Brasil nos primeiros anos da década de 1530 e rapidamente passaram a derrubar as matas para a formação dos primeiros campos de cana de açúcar. 

A região que obteve maior sucesso na produção do açúcar foi o litoral do Nordeste, onde os canaviais se espalhavam desde a região de Ilhéus, no Sul da Bahia, até o Rio Grande do Norte. A Mata Atlântica ocupava uma faixa que variava entre 60 e 80 km ao longo do litoral, onde abundavam os “gordos solos de massapê”. Tanto a floresta quanto os solos foram destruídos ao longo dos mais de 350 anos da cultura do açúcar na região. 

Considerando a extensão dos canaviais na região, podemos estimar que algo entre 90 mil e 120 mil km² de Mata Atlântica foram destruídas. O Sul do Estado da Bahia, área onde viviam os perigosos índios botocudos, foi poupado dessa destruição maciça de florestas e abrigaria a produção do cacau a partir da segunda metade do século XIX. 

Um detalhe importante – devidos aos constantes embates com os produtores de cana, os criadores de gado do Nordeste Açucareiro foram expulsos do litoral e obrigados a seguir para os sertões. Esse avanço das boiadas, que eu costumo chamar de “diáspora bovina” foi responsável pelo início da destruição de outro importante bioma brasileiro – a Caatinga. 

O Ciclo do Ouro e da Mineração 

Metais preciosos como o ouro e a prata rondavam os sonhos dos conquistadores ibéricos ao longo da conquista das Américas. Os espanhóis foram mais felizes que os portugueses e, logo no início das suas conquistas, encontraram grandes quantidades de ouro em mãos dos astecas e incas. Já em meados do século XVI descobriram as minas de prata de Potosí, na Bolívia, que em poucos anos se transformaria na maior produtora de prata do mundo. 

Os portugueses não tiveram essa sorte e precisaram se contentar com os lucros da produção e venda do açúcar até o final do século XVII. No início da década de 1690, bandeirantes paulistas encontraram o tão sonhado ouro na região da lendária Serra do Sabarabuçu, no coração das Geraes.

Essa descoberta mudaria para sempre os rumos da Colônia e desencadearia uma verdadeira febre do ouro. Até meados do século XVII, perto de 2/3 da população brasileira já havia abandonado o litoral, principalmente da Região Nordeste, e se embrenhou nos sertões da Geraes em busca de ouro

Esse movimento enfraqueceu a indústria açucareira, que já vinha sofrendo com a forte concorrência dos engenhos de cana de açúcar da região do Mar do Caribe e América Central. A mineração também iniciou o processo de destruição da Mata Atlântica no interior do país. A busca pelo ouro foi iniciada nos leitos dos rios, onde era encontrado o chamado “ouro de aluvião”.

Esgotadas essas reservas, a busca passou a ser feita nas margens dos rios, onde toda a vegetação era derrubada e os solos revirados. Trechos de matas também começaram a ser derrubados para o plantio de roças de subsistência e obtenção de lenha para os trabalhos de fundição do ouro. 

Os veios auríferos das Geraes começaram a mostrar esgotamento já nas últimas décadas do século XVIII. A grande população mineira foi obrigada a se dedicar a agricultura e a criação de animais. Os solos da região, ricos em outros minerais como o minério de ferro, levaram ao desenvolvimento de uma vigorosa produção de ferro e aço. A primeira grande forjaria mineira foi construída na década de 1830 e a atividade não parou mais de crescer. 

A produção e o beneficiamento de metais são altamente dependentes do carvão, essencial para a geração do calor nos fornos e altos fornos. O Brasil é pobre em depósitos de carvão mineral e a opção que passou a ser usada desde então foi o uso do carvão vegetal, obtido a partir da madeira e da lenha retirada das matas mineiras.

Cerca de 80% da Mata Atlântica em Minas Gerais, algo correspondente a aproximadamente 230 mil km², já desapareceu desde então, a maior parte tendo sido transformada em carvão vegetal

O início do Ciclo do Café 

O terceiro grande ciclo econômico do Brasil e que atingiu em cheio a Mata Atlântica foi o café. A cultura começou a ganhar “musculatura’ na Província do Rio de Janeiro nas últimas décadas do século XVIII. Incialmente, os cafezais ocuparam as encostas de morros ao redor da cidade de Rio de Janeiro e terras de áreas vizinhas ocupadas anteriormente por canaviais.

No início do século XIX, os cafezais chegaram ao trecho fluminense do Vale do rio Paraíba, onde rapidamente consumiram as matas e os solos férteis. A partir de meados do século XIX, os cafezais avançaram para o Sul do Espírito Santo, para a região da Zona da Mata no Sudeste de Minas Gerais e para o Vale do rio Paraíba em São Paulo

Essa primeira fase do ciclo do café vai se estender até o final da década de 1880, quando a Lei Áurea foi assinada e pôs fim ao uso de mão de obra escrava no Brasil. Essa brusca mudança abalou fortemente a agricultura no Brasil, que até então estava baseada na grande disponibilidade de terras férteis e no uso de mão de obra escrava. 

Somente no Estado do Rio de Janeiro, a cafeicultura foi responsável pelo desaparecimento de cerca de metade da cobertura florestal do território, onde a Mata Atlântica representava perto de 97% – falamos aqui de mais de 20 mil km² de florestas destruídas, sem se considerar as áreas do Espírito Santo, Minas Gerais e do Vale do Paraíba em São Paulo

Se considerarmos tudo o que foi destruído da Mata Atlântica nos ciclos econômicos citados até aqui, chegaremos a perto de 400 mil km² ou aproximadamente 1/3 da área ocupada originalmente pelo bioma

E essa destruição não parou – ela continua até hoje. 

O “FIM” E O INÍCIO DA ESCRAVIDÃO DO BRASIL

O conceito de escravidão é, provavelmente, muito mais antigo do que aquilo que costumamos chamar de humanidade. 

Entre 60 e 90 mil anos atrás, quando os Homo sapiens, nossa espécie, chegaram ao Oriente Médio, Ásia Central e Europa vindos da África, encontraram nesses locais os Homo Neanderthalenses, uma espécie prima-irmã. Nos muitos embates que se seguiram até o completo desaparecimentos dos Neandertais há cerca de 30 mil anos atrás, muitos dos derrotados acabaram sendo aprisionados e, talvez, até escravizados pela nossa espécie. Uma interessante produção francesa de 2010, Ao, le dernier Néandertal (Ao, o último Neandertal), mostra como podem ter sido esses tempos. 

Com o surgimento das primeiras civilizações humanas, as nações mais fortes e/ou vencedoras de guerras costumavam escravizar os povos mais fracos e/ou derrotados. Um exemplo muito conhecido por todos e citado na Bíblia cristã foi o período de 400 anos em que os judeus foram escravos no antigo Egito. Na Europa, o conceito de escravidão sobreviveu por milhares de anos.

Uma evidência marcante dessa prática são os eslavos, povos que vivem no Leste europeu e no Norte da Ásia. A palavra eslavo é derivada do latim medieval sclavus – escravos, e indica que, durante muito tempo, a região forneceu mão de obra para o Impérios Romano. 

Com o avanço do cristianismo e seus dogmas sobre a igualdade entre os homens, o conceito de escravidão foi mudando – pessoas deixaram de ser propriedades de outras, sendo convenientemente transformadas em servos de um rei ou senhor feudal. Esses servos eram “livres” para ir e vir, desde que fosse dentro da propriedade de seu senhor, para o qual ele trabalhava e devia a mais absoluta obediência. 

A partir dos séculos XII e XIII, quando o Reino de Portugal passou a ser independente e os Reinos castelhanos de Leão, Castela e Aragão, entre outros menores, começaram a se unir para expulsar os muçulmanos da Península Ibérica, o antigo conceito de escravidão ressurgiu na Europa. Os muçulmanos derrotados em batalhas eram transformados em escravos ou semiescravos e forçados a trabalhar para um senhor cristão. 

Com o enfraquecimento cada vez maior dos califados ibéricos e com a conversão de muitos muçulmanos ao cristianismo (os famosos moçárabes ou cristãos novos), os negros escravizados, que eram vendidos em mercados por todo o Norte da África, passaram a abastecer o mercado de trabalho de Portugal e da Espanha.  

Nas terras subsaarianas eram comuns os embates entre os diferentes reinos e etnias, resultando sempre em grandes contingentes de escravos. Levados por mercadores através de rotas pelo Magreb – o Deserto do Saara, esses homens e mulheres viravam mercadoria nos souks, os mercados árabes do Norte da África. 

Há registros de negros escravizados trabalhando em canaviais do Algarve em Portugal a partir do século XIV. Com o início das grandes navegações portuguesas e a descoberta das rotas de navegação para as costas da África – o navegador Gil Eanes dobrou o Cabo do Bojador na Guiné em 1433, as naus portuguesas passaram a se abastecer de escravos direto das fontes.  

Os portugueses começaram a comprar escravos no delta do rio Níger por volta do ano 1470. Com o tempo foram se consolidando importantes centros de venda de escravos no Golfo de Biafra, Ilha de Gorée e outras localidades do oeste africano onde estão os territórios atuais da Costa do Marfim, Benin, Togo, Gana e Nigéria. 

A expansão dos portugueses em direção aos seus territórios insulares recém descobertos dos Açores, Madeira e Cabo Verde, foi seguida pela chegada das primeiras mudas de cana de açúcar e pelo início do uso da mão de obra de negros escravizados. Aos tempos da descoberta do Brasil em 1500, calcula-se que existiam cerca de 50 mil escravos africanos em Portugal. 

Como fica bem fácil de perceber, quando teve início o projeto colonial português em terras brasileiras, o uso de escravos em trabalhos domésticos e em plantações já era uma prática bastante antiga e completamente enraizada na cultura dos lusos. As expedições colonizadoras de Martim Afonso de Sousa e de seu irmão, Pero Lopes de Sousa, e também a de Duarte Coelho, Donatários das Capitanias de São Vicente e de Pernambuco, respectivamente, chegaram ao Brasil no início da década de 1530 e, muito provavelmente, já traziam escravos, bois e mudas de cana de açúcar. 

O grande objetivo do projeto colonial de Portugal, ou o “fim” citado no título, era o de se produzir a maior quantidade possível de açúcar, um dos produtos mais valorizados nos mercados da Europa daqueles tempos. Esse projeto se baseava na grande disponibilidade de terras da nova colônia e no uso intensivo da mão de obra escrava. Com a decadência da indústria açucareira, a mão de obra negra foi deslocada ao longo do século XVIII para o garimpo e processamento do ouro nas Geraes. Por fim, teve início o Ciclo do Café a partir das últimas décadas do século XVIII e os escravos, mais uma vez, se tornaram a base da estrutura produtiva. 

Estima-se que, entre 1450 e 1900, foram comercializados mais de onze milhões de escravos, principalmente para as Três Américas. Calcula-se que pelo menos um terço deste contingente tenha sido comercializado no Brasil. Algumas fontes chegam a citar uma “perda” entre 40 e 50% dos escravos durante a travessia do Oceano Atlântico nos navios negreiros – o alto valor de comercialização compensava plenamente este custo extra – um negócio de altíssima rentabilidade e riscos baixos.

Como se fizessem sentir, depois de 1550, falta de braços em todo o Brasil, permitiu o Rei de Portugal, por édito de 1559, que cada engenho importasse 130 escravos do Congo, com o que o número total de escravos negros se elevou, até 1584, a cerca de 10.000.

Esse vergonhoso sistema de produção se estendeu em nossas terras por mais de três séculos e meio, até que em 1888, depois de uma enorme pressão internacional, o Império Brasileiro pôs fim à escravidão no Brasil. A Lei Áurea foi assinada no dia 13 de maio de 1888 pela Princesa Isabel, que regia o país na ausência de seu pai, o Imperador Dom Pedro II, que estava em viagem ao exterior.  

Essa lei completava esforços anteriores como a Lei Eusébio de Queirós de 1850, que proibia a entrada de escravos africanos no Brasil, a Lei do Ventre Livre de 1871, que libertava todas as crianças nascidas de mães escravas e a Lei dos Sexagenários de 1885, que tornava livre todos os escravos com mais de 60 anos de idade. 

O fim legal da escravidão no Brasil, que não foi adotada automaticamente em todo o país logo após a sua assinatura (as notícias demoravam para circular por todo o nosso território naqueles tempos), colocou todo o sistema produtivo, principalmente a cultura do café, em xeque de uma hora para outra. Um dos reflexos mais imediatos foi o fim da monarquia e a proclamação da República cerca de um ano e meio depois, um movimento que contou com o apoio dos grandes fazendeiros do país. 

Essa brusca mudança no regime de trabalho daria uma breve pausa na devastação de florestas como a Mata Atlântica. Porém, não tardaria muito para o “sistema” se reestruturar e para as matas voltarem a cair pelo ferro dos machados e a arder pelo fogo das queimadas… 

E O CAFÉ CHEGA NO VALE DO PARAÍBA EM SÃO PAULO

Monteiro Lobato (1882-1948) foi um importante jornalista, escritor e editor de livros, principalmente de obras infantis muito conhecidas como o Sítio do Pica Pau Amarelo e seus inesquecíveis personagens – Narizinho, Pedrinho, Dona Benta, Tia Anastácia e a impagável boneca de pano Emília. Natural da cidade de Taubaté, no Vale do rio Paraíba em São Paulo, Monteiro Lobato foi uma espécie de “testemunha ocular” dos impactos sociais e ambientais deixados pela cafeicultura na região. 

Uma das primeiras e mais marcantes obras de Monteiro Lobato foi o livro de contos Cidades Mortas, onde apresenta a realidade das antigas cidades produtoras de café da região, que viveram um período de esplendor entre as décadas de 1850 e 1870, caindo no mais completo ostracismo após o colapso da produção. Já há época de sua infância, Monteiro Lobato conheceu grandes fazendas com suas antigas sedes-palacetes completamente abandonadas. Nas antigas cidades da região, que tiveram dias dos mais frenéticos no auge da cafeicultura, o que se ouvia agora era apenas um doloroso silêncio. 

“Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito!” 

O Vale do Paraíba, a ligação natural entre São Paulo e Rio de Janeiro, foi a porta de entrada do café no Estado de São Paulo, transformando-se em poucos anos numa extensão natural do trecho fluminense do médio rio Paraíba do Sul, o primeiro grande cenário da cultura cafeeira no Brasil. As condições naturais da região eram esplendidas e muito similares as do interior do Rio de Janeiro: altitudes entre 300 e 900 metros, com temperaturas dentro dos limites ideais para o café e ciclo de chuvas regulares.  

Outro ponto forte da região eram os relevos acidentados das encostas da Serra da Mantiqueira, que proporcionavam proteção contra os ventos, um fator importante para uma planta arbustiva como o café. O Vale do Paraíba em São Paulo, em meados do século XIX, tornou-se um grande centro condensador de população e de riqueza do Brasil, atraindo grandes fazendeiros das já decadentes terras fluminenses.   

Como já havia acontecido em outras regiões tomadas de assalto pela cultura cafeeira, toda esta prosperidade não durou muito tempo. A produção entrou em decadência por volta de 1875 devido ao esgotamento dos recursos naturais da região. Os terrenos locais apresentam forte declividade e não suportaram por muito tempo a supressão da cobertura vegetal e a exposição do solo à ação das intempéries – o trabalho da erosão foi muito rápido.  

Os cafeicultores da região, repetindo os mesmos erros de outras terras, agiram sem o menor cuidado no manuseio dos solos. A mata foi arrasada sem nenhum critério, mesmo nas partes mais altas dos terrenos; plantou-se o café sem outra preocupação senão o lucro imediato. O sistema de cultura implantado distribuiu as plantas em linhas retas, perpendiculares às encostas dos morros, quando a forma ideal de plantio era em curvas de nível. Não poderia ter sido utilizada técnica mais favorável à erosão.   

Conforme já comentamos em outras postagens, esse plantio do café em linhas retas tinha uma forte razão operacional – visibilidade. Um capataz montado em seu cavalo poderia acompanhar o trabalho de um grupo entre 100 e 150 escravos a partir da base do terreno. Se o café fosse plantado acompanhando as curvas de nível das encostas, como manda a boa prática agrícola, os escravos ficariam escondidos atrás das plantas e a “produtividade” seria bem menor.  

Os impactos nessa região, sobretudo nas encostas da Mantiqueira, foram a intensificação dos usos e ocupação das terras antes recobertas pela primitiva Mata Atlântica, deixando como herança o aumento da degradação ambiental, o manejo inadequado dos recursos naturais, o desrespeito à topografia acidentada e a devastação extensiva da cobertura vegetal. A somatória de todos esses problemas promoveu o empobrecimento e a exaustão quase completa dos solos, intensificando os processos erosivos e transformando-os em pastos.  

Bastaram uns poucos decênios para a produção cafeeira apresentar rendimentos aceleradamente decrescentes, com enfraquecimento das plantas e o aparecimento de pragas destruidoras. Nas palavras de Caio Prado Junior, “inicia-se então a decadência com todo seu cortejo sinistro: empobrecimento da população, abandono sucessivo das culturas e rarefação demográfica”.  

Como aconteceu em terras fluminenses, capixabas e mineiras há mesma época, o golpe final contra a cafeicultura foi a Abolição da Escravidão no Brasil, oficializada com a assinatura da Lei Áurea em 1888. As bases econômicas que balizavam a cultura até aquele momento, os baixos custos das terras, a farta mão de obra escrava, e, por fim, a chegada das estradas de ferro, caíram por terra e não voltariam mais a se reestabelecer. 

Desde meados do século XIX, diversos movimentos abolicionistas começaram a surgir por todo o país, exigindo o fim do regime escravocrata no Brasil. A partir da década de 1870, surgiram os primeiros mecanismos legais com o objetivo de enfraquecer o uso de mão de obra escrava. A Lei do Ventre Livre, assinada em 1871, declarava que os filhos de mulheres escravas eram livres. Em 1885, foi promulgada a Lei dos Sexagenários, que tornava automaticamente livres escravos que completavam 60 anos de idade. 

Inebriados pelos rios de dinheiro proporcionados pela produção e exportação do café, a imensa maioria dos grandes produtores preferiu fazer “vista grossa” a todos esses movimentos e continuaram a agir “enlouquecidamente”. Apesar de todas as dificuldades práticas e legais que estavam surgindo, havia um grande “mercado negro” (nenhuma referência aqui a cor da pele dos africanos) para a compra e venda de escravos.  

Como não era usual a emissão de certidões de nascimento para os escravos (as certidões de batismo até valeriam como documento), era muito difícil comprovar se uma criança havia nascido após 1871 ou se um idoso tinha realmente mais de 60 anos de idade. Os vendedores das “peças” alegavam que não dispunham de tais documentos e os compradores, os grandes fazendeiros do café, faziam corpo mole e diziam que fizeram as compras sem ver “os produtos”. Como não é de hoje que “quem detém o poder econômico, detém o poder político”, ficava tudo como estava. 

Muitos fazendeiros paulistas até tentaram fazer acordos de parceria com imigrantes europeus que passavam a chegar em grande quantidade à Província, mas a grande maioria não logrou sucesso. Os imigrantes receberiam um lote de terras para trabalhar e dividiriam os lucros da produção e venda do café com os fazendeiros. Esse sistema não funcionou por duas razões principais – o estado de esgotamento dos solos estava em níveis muito altos e os fazendeiros queriam ficar com a maior parte dos rendimentos.  

O tratamento dado as famílias dos imigrantes, que estava muito próximo daquele dado aos antigos escravos, levava ao abandono das terras e uma busca por novas alternativas. Os grandes fazendeiros tinham uma enorme dificuldade para entender que os imigrantes eram pessoas livres e não “propriedades”, como os escravos, não se submetendo às vontades, mandos e desmandos dos cafeicultores. 

O Oeste Paulista, com seus famosos e férteis solos de terra roxa e relevo muito menos acidentado, acabou se transformando numa alternativa ao Vale do Paraíba. Rapidamente, as grandes plantações de café migraram para essas novas terras, deixando para trás uma “terra devastada”, como já era rotina. A opção econômica que restou ao Vale do Paraíba em São Paulo foi a produção leiteira – as antigas áreas de Mata Atlântica foram transformadas em pastagens para o gado. 

Um fim melancólica para uma das florestas com a maior biodiversidade do mundo.

OS PRIMEIROS TEMPOS DO CAFÉ NA ZONA DA MATA MINEIRA

Ao longo de todo o século XVIII, as regiões de mineração de ouro nas Geraes concentraram a atenção dos dirigentes da Colônia e de grande parte da nossa população. Conforme já comentamos em postagens anteriores, a partir das primeiras notícias da descoberta de reservas de ouro na lendária Serra do Sabarabuçu, no coração das Geraes, uma verdadeira “febre do ouro” tomou conta da Colônia e, ao longo de meio século, cerca de 2/3 da população abandonou as terras do litoral e se embrenhou nos sertões para tentar a sorte no garimpo. 

Ao longo desse período, a chamada Zona da Mata era uma terra desconhecida e cheia de tribos indígenas, muitas delas hostis. Foi a necessidade de se criar um caminho para o escoamento do ouro na direção do Rio de Janeiro que levou à criação do chamado Caminho Novo, uma trilha que, pouco a pouco, levou a instalação de fazendas e de postos de apoio aos tropeiros. 

A faixa Sul da Zona da Mata foi a primeira área a ser povoada, surgindo cidades como Mar de Espanha, Leopoldina e Juiz de Fora. Em seguida foram surgindo cidades na área Central, onde se destacam Rio Novo, Rio Pomba, Cataguases, Ubá, Muriaé, Rio Branco, Viçosa e Carangola. O Norte da Zona da Mata só passaria a ser ocupado nas últimas décadas do século XIX e onde surgiriam cidades como Manhuaçu, Abre Campo e Ponte Nova. Muitas dessas cidades surgiram em decorrência da chegada dos cafezais ao território mineiro. 

Assim como aconteceu no Sul do Espírito Santo, os grandes cafezais começaram a ser instalados na Zona da Mata mineira em meados do século XIX. A expansão irracional dos cafezais fluminenses levou a um rápido esgotamento dos solos, principalmente na região do Vale do Paraíba, e os grandes fazendeiros passaram a buscar alternativas para a criação de novas áreas de produção. As férteis terras cobertas com a Mata Atlântica em Minas Gerais rapidamente entraram na alça de mira desses cafeicultores. 

Pela proximidade com a Província do Rio de Janeiro, as regiões de Mathias Barbosa, Mar de Espanha, Além Paraíba e Rio Preto foram as primeiras a assistir ao surgimento de grandes cafezais nas primeiras décadas do século XIX. A cultura chegou a Juiz de Fora e Leopoldina por volta de 1828. Os primeiros cafezais se instalariam nas regiões de Cataguases e Ubá a partir de 1848. 

modus operandi dos cafeicultores em terras mineiras era exatamente o mesmo que vinha sendo usado nas terras da Província do Rio de Janeiro – o uso dos solos até o desgaste completo, o abandono da terra e a derrubada de novas matas para uso das “terras virgens” para a abertura de novos campos de cultivo. Esse avanço sem controle dos cafezais, com suas já conhecidas consequências, passou a criar grandes preocupações entre os Governantes mineiros. O então Presidente da Província de Minas Gerais – Costa Pinto, fez o seguinte pronunciamento em 1838

Muito se tem clamado, posto que em vão, contra a destruidora rotina de nossos lavradores; elles entendem que não podem colher com vantagem os productos da Agricultura, sem que se tenha derrubado, e queimada uma grande porção de madeiras; em sua opinião as melhores terras de tornão irremediavelmente cançadas, abusando assim de um principio, alias verdadeiro, mas tomado em uma generalidade sem limites. O lavrador intelligente, e abastado costuma ter em reserva uma parte de suas terras; mas sabe prepara-la d`antemão para ser vantajosamente cultivada em occasião opportuna; o nosso lavrador tudo espera só do tempo. Dest`arte tem-se visto desapparecer pouco a pouco magníficas florestas, e o solo cobrindo-se de arbustos inuteis, e mesmo damnosos, vai perdendo sua primitiva fertilidade. 

Desde a década de 1770, quando já se tornava evidente o breve esgotamento dos veios auríferos, muitos mineiros desiludidos passaram a migrar para a região da Zona da Mata e a se dedicar a agricultura. Durante a maior parte do chamado Ciclo do Ouro, as cidades mineiras dependiam fortemente da importação de alimentos, vindos principalmente de São Paulo e também das boiadas que desciam o rio São Francisco vindas dos sertões do Nordeste. Enquanto o ouro abundava, a população das regiões mineradoras conseguia bancar os altos custos dos alimentos. Com a redução da produção do ouro, essas fazendas da Zona da Mata ganharam uma enorme importância econômica e estratégica para a Província. 

Cerca de metade do território mineiro era coberto pelo bioma Cerrado, apresentando solos muito ácidos e de baixa fertilidade para os padrões da época – esses solos só se tornariam altamente produtivos a partir da década de 1970, quando sementes de grãos especialmente adaptados para os solos do Cerrado seriam desenvolvidas pela Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. A Zona da Mata daqueles tempos já havia sido transformada no “celeiro das Geraes”. O cuidado em se preservar essa região agrícola da Zona da Mata fica evidente na fala do Presidente da Província. 

Os grandes lucros advindos da produção e exportação do café, é claro, acabavam por falar mais alto e o avanço dos cafezais prosseguia sem controle. A construção da Estrada de Ferro Dom Pedro II em 1870, que passou a ligar a Zona da Mata com o Rio de Janeiro estimularia o aumento da produção de café na região. A produção seria ainda mais dinamizada após a construção da Estrada de Ferro Leopoldina, que passou a cortar a Zona da Mata mineira no sentido Leste-Oeste e fazia entrocamentos com outras ferrovias. 

Em um relatório de 1883, Gonçalves Chaves, então Presidente da Província, comenta que o problema ainda existia e conclama os produtores a implantar técnicas agrícolas mais modernas: 

Do que havemos mister é da educação profissional elementar, diffundida na população rural; que se preparem operários e abegões para a grande lavoura; que se aumente e varie a producção e se melhorem os productos, fazendo-se conhecer e praticar a cultura intensiva, por meio de processos e instrumentos aperfeiçoados. 

As dificuldades para o escoamento da produção do café, que na maior parte da Zona da Mata precisava ser feito através de tropas de mulas e burros (vide foto), era o único limitador para uma expansão mais rápida dos cafezais. Os comboios seguiam por trilhas apertadas entre os morros até as poucas linhas férreas que ligavam a região ao Cais do Porto no Rio de Janeiro.  

A “salvação da lavoura”, falando aqui da produção de alimentos e dos remanescentes das matas, só viria em 1888, com a assinatura da Lei Áurea, que pôs fim ao uso da mão de obra escrava na produção do café. Essa brusca mudança inviabilizou a produção nas grandes fazendas de café e freou, ao menos temporariamente, a destruição maciça da Mata Atlântica mineira. 

De acordo com um censo Provincial feito em 1872, a Zona da Mata ocupava uma área correspondente a apenas 5% do território, mas abrigava perto de 16% da população e quase ¼ da população escrava da Província. Na região de Juiz de Fora, citando um exemplo, as grandes propriedades tinham em média 236 alqueires de área e perto de 100 escravos para cuidar de mais de 230 mil pés de café. É fácil notar o impacto criado pelo fim da escravidão

A cafeicultura, que depois se consolidaria no Sul de Minas Gerais, iniciou o processo de destruição em larga escala da Mata Atlântica pela siderurgia mineira, que há essa época já dependia intensamente da produção do carvão vegetal para alimentar os seus insaciáveis altos fornos. 

A CHEGADA DOS GRANDES CAFEZAIS AO ESPÍRITO SANTO NO SÉCULO XIX

O primeiro século da produção e exportação do café no Brasil foi devastador para a Mata Atlântica na então Província do Rio de Janeiro e regiões circunvizinhas. Essa cultura era baseada na exploração dos chamados solos virgens até a exaustão e na derrubada contínua de matas para a criação de novos campos agrícolas.

Usando técnicas agrícolas inadequadas como o plantio dos cafeeiros em linhas que vinham dos trechos altos dos terrenos em direção às partes baixas, além de não se preocupar com a adubação e renovação dos nutrientes do solo, essas plantações exauriam os terrenos em menos de dez anos, especialmente pela perda da camada fértil pela erosão. 

Quando a produção de uma fazenda declinava fortemente, novas áreas de mata eram então derrubadas e novas plantações eram formadas – as terras devastadas eram largadas à própria sorte. Essa agricultura irracional era estimulada pelo baixo preços das terras no interior da Província do Rio de Janeiro. A escravidão era outro fator que favorecia os grandes lucros dos produtores – a partir de um investimento inicial na compra da “peça”, o fazendeiro teria uma mão de obra praticamente gratuíta por dezenas de anos. 

A partir de meados do século XIX, essa situação começou a mudar. O estoque de terras virgens a preços baixos começou a rarear no interior do Rio de Janeiro e os cafeicultores passaram a buscar terras disponíveis em outras Províncias. Os cafezais passam então a se instalar na faixa Sudeste de Minas Gerais, no Sul do Espírito Santo e, principalmente, no Vale do Paraíba em São Paulo. 

Vamos começar falando do Espírito Santo, um pedaço do Brasil que teve uma colonização bastante complicada devido a presença de tribos indígenas extremamente hostis como os botocudos e os tamoios. Esses indígenas atacavam os assentamentos dos colonizadores e queimavam tudo o que havia sido construído. Como resultado dessas dificuldades, o Espírito Santo teve um povoamente bastante tardio – em 1880, apenas 15% do território era habitado por não indígenas

Um outro complicador surgiu em decorrência da exploração do ouro nas Geraes ao longo do século XVIII – para evitar o acesso de forasteiros e, especialmente, de estrangeiros as áreas de mineração, a Coroa de Portugal declarou a faixa Norte do Espírito Santo como “Área Prohibida”. Um Decreto Real passou a limitar o povoamento, as construções e as expedições a uma faixa de 3 léguas (15 km) do litoral capixaba, especialmente nas proximidades da região da foz do rio Doce

Essas dificuldades inibiram por muito tempo o povoamento e a colonização do território, que ficou restrito a estreitas faixas do litoral e a faixa Sul, junto a divisa com o Rio de Janeiro. Foi justamente por essa região que a cultura do café se instalou no território capixaba por influência de cafeicultores fluminenses. 

Existem registros de cafeeiros no litoral do Espírito Santo já nos primeiros anos do século XIX. Foi, porém, em meados desse século que a cultura entrou com força na Província. As “terras virgens” com baixos preços do Sul do Espírito Santo se transformaram em uma alternativa para os cafeicultores fluminenses menos favorecidos.  

Fazendas de café começaram a surgir nas regiões de Apiacá, Bom Jesus do Norte, Atílio Vivacqua, Castelo, Cachoeiro de Itapemirim, Mimoso do Sul, Muqui, São Pedro de Alcântara e Veado (Guaçui). O escoamento da produção era feito através dos portos fluviais de Limeira, que ficava em terras do atual município de Mimoso do Sul, e de Cachoeiro de Itapemirim. 

De acordo com dados do IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a conhecida Região dos Vales e Cafés chegou a ter 132 grandes fazendas em 1888, época em que o antigo sistema de trabalho escravocrata entrou em colapso. 

A mão de obra negra, em conjunto com a farta disponibilidade de terras agrícolas, formava a base da “indústria cafeeira” no Brasil há época. Um exemplo dessa dependência laboral dos escravos pode ser comprovado em um discurso feito no Parlamento em 1880 por Gaspar Silveira Martins, senador do Império do Brasil entre 1880 e 1889:  

“O Brasil é o café; o café é o negro.” 

A produção das fazendas de café do Espírito Santo era bem menor do que nas fazendas do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, fato que levou intelectuais importantes como Caio Prado Júnior e Celso Furtado a classificar a contribuição do café capixaba para a economia do país há época como “medíocre”. Existe, porém, uma explicação bastante razoável para essa diferença de produtividade: as fazendas do Espírito Santo dispunham de menos escravos

De acordo com o livro Transição para o Trabalho Livre e Pequena Propriedade no Espírito Santo – 1888-1930, de Nara Saleto, que usou dados de fazendas hipotecadas no Banco do Brasil em 1883, as fazendas de café capixabas usavam, proporcionalmente, de duas a três vezes menos escravos nos trabalhos nas plantações que suas similares fluminenses, paulistas e mineiras. Isso é um indicativo claro do menor poder aquisitivo dos fazendeiros da região quando comparados aos fluminenses. 

Contando com uma força de trabalho bem menor, as fazendas capixabas mal conseguiam atingir uma densidade de mais de 30 pés de café por hectare, enquanto as fazendas fluminenses, paulistas e mineiras, contavam com 315, 151 e 228 pés de café por hectare, respectivamente. A “pobreza” dos cafeicultores capixabas fica evidente quando se comparam as sedes de suas fazendas com os verdadeiros palacetes das fazendas dos “Barões” do café do Rio de Janeiro e do Vale do Paraíba paulista. 

Apesar de uma menor produtividade, essa primeira fase da cultura do café no Espírito Santo causou consideráveis estragos no trecho local da Mata Atlântica, uma vez que os padrões de produção eram exatamente os mesmos das fazendas fluminenses. Grandes extensões de mata eram derrubadas para a liberação das “terras virgens” e formação dos cafezais. Esses estragos só não foram maiores por que o ciclo da cultura foi efêmero na Província – com a abolição da escravidão no Brasil a partir da assinatura da Lei Áurea em 1888, a produção do café ficou inviável dentro do antigo sistema de produção escravocrata. 

A cafeicultura voltaria a ganhar algum fôlego com a chegada de grandes contingentes de imigrantes europeus ao Espírito Santo no final do século XIX. De acordo com uma citação do IPHAN:

“A partir da política de imigração desapareceram as fazendas escravagistas. As que conseguiram se manter, passaram a adotar um sistema de parceria. As que não conseguiram, utilizaram outra estratégia, garantindo a sua lucratividade através da cafeicultura, dividindo suas fazendas e vendendo seus lotes aos imigrantes ou às empresas que surgiram com o interesse voltado para a venda de lotes rurais e comercialização do café.” 

A chegada de agricultores europeus, já com uma grande tradição no uso de técnicas agrícolas mais sustentáveis – especialmente no que diz respeito à conservação dos solos férteis, levou a uma mudança nos paradigmas da cafeicultura. Um exemplo: esses imigrantes passaram a plantar os cafeeiros seguindo as linhas de nível dos terrenos, um cuidado eficiente contra a erosão e que resultou numa maior longevidade aos solos e a numa menor progressão dos desmatamentos.  

A cafeicultura no Espírito Santo passaria por vários altos e baixos ao longo da maior parte do século XX, até que o Estado se consolidasse, a partir da década de 1970, como o maior produtor de café do tipo conilon do Brasil, um grão usado em misturas (blend) e na produção do café solúvel. O território capixaba responde atualmente por mais de 75% da produção brasileira de café conilon (vide foto). Contaremos essa história e suas consequências ambientais em futuras postagens. 

Os territórios do Sudoeste da Província de Minas Gerais também receberiam grandes cafezais a partir de meados do século XIX. Falaremos disso na próxima postagem. 

O RENASCIMENTO DA FLORESTA DA TIJUCA, OU ERA UMA VEZ NO RIO DE JANEIRO…

Na última postagem apresentamos um resumo do quadro caótico que tomou conta do abastecimento de água na cidade do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XIX. Os intensos desmatamentos das florestas ao redor da cidade, principalmente para a criação de grandes cafezais, comprometeram inúmeras das nascentes que forneciam a água que corria para as fontes públicas.

Um dos corpos d’água mais degradados há época foi o rio da Carioca, uma das principais fontes de água do sistema de abastecimento do Rio de Janeiro. Esse rio era tão importante que compartilhava o nome com os naturais da cidade – os cariocas. 

A situação foi agravada pelo rápido crescimento da cidade a partir da chegada da Família Real portuguesa e toda a sua Corte – diferentes fontes falam de um acréscimo entre 12 e 20 mil pessoas à população da cidade após esse evento. Esse aumento da população foi seguido por um forte crescimento da demanda por mão de obra e transformou o Rio de Janeiro no maior mercado de venda de escravos do Brasil. Milhares de novos escravos passaram a ser incorporados à população da cidade a cada ano, pressionando cada vez mais as fontes de abastecimento de água. 

O dia a dia dos cariocas, tanto os nativos quanto os recém chegados, não era dos mais confortáveis e salutares. Mesmo tendo sido elevada à categoria de Metrópole do Império Ultramarino Português, as ruas da cidade do Rio de Janeiro eram feias, sujas e cheiravam pessimamente mal – os canais de drenagem de águas pluviais, que também eram usados para a dispersão dos esgotos e do lixo, estavam quase sempre secos e cobertos com uma grossa camada de excrementos humanos e detritos. Os nobres e os demais membros da Corte não paravam de reclamar das péssimas condições de saneamento ambiental daquele “fim de mundo”. 

Ao longo das décadas de 1820 e 1830, a cidade do Rio de Janeiro enfrentou vários períodos de seca prolongada, o que agravou ainda mais a escassez de água potável e aumentou as dificuldades para a dispersão do esgoto residencial que se acumulava nos canais. Agora não eram apenas os nobres e ricos que reclamavam – toda a opinião pública da cidade passou a exercer uma forte pressão sobre os Governantes para a adoção de políticas para o aumento da capacidade dos sistemas produtores de água. 

Data da década de 1820 a primeira decisão de se desapropriar terras na Tijuca para reflorestar as nascentes de água potável, cada vez mais escassas. Acreditava-se, de forma empírica, que o reflorestamento aumentaria o volume dos riachos. E foi revegetando as encostas da Tijuca que se reparou, em parte, os danos causados pela exploração indiscriminada de toda a sua vegetação para se produzir, sucessivamente, cana-de-açúcar, café, lenha e carvão vegetal e, finalmente, abrigar a produção de alimentos e criação de animais destinados ao consumo da crescente população. 

A partir de 1845, inicia-se, de fato, o trabalho sistemático de recomposição florestal das encostas e as desapropriações de fazendas se intensificaram. As primeiras experiências de reflorestamento haviam apresentado ótimos resultados e partia-se, agora, para um aumento na escala nas intervenções florestais. 

A partir de 1861, por ordem do imperador Dom Pedro II, grandes fazendas na região da Tijuca foram desapropriadas e iniciou-se um processo contínuo de reflorestamento em grande escala. A realização deste trabalho foi confiada ao Major Manuel Gomes Archer que, de forma totalmente amadorista e sem nenhum critério científico, iniciou os trabalhos de plantio de árvores.  

Contando com uma pequena equipe de trabalhadores, entre escravos e assalariados, foram plantadas ao longo de 13 anos mais de 100 mil mudas de árvores, especialmente mudas de espécies da Mata Atlântica, que ainda resistiam em pequenos fragmentos florestais, e muitas espécies exóticas. Ao longo de várias décadas, os trabalhos de reflorestamento foram sendo ampliados e a oferta de água potável se estabilizou.

Esse gradual renascimento da Floresta da Tijuca foi responsável pela recuperação dos caudais do rio da Carioca e, consequentemente, pelo reestabelecimento da capacidade de produção do sistema de abastecimento de água da cidade. O crescimento gradual dos volumes de água garantiria parte importante do abastecimento da população carioca até o final do século XIX, quando novas fontes passaram a ser incorporadas ao sistema. 

Em 1961 a floresta foi elevada a condição de Parque Nacional do Rio de Janeiro, nome alterado anos depois para Parque Nacional da Tijuca, ou simplesmente Floresta da Tijuca (vide foto) para os cariocas, com área total de 3.953 ha. Além de abrigar excepcional patrimônio natural da Mata Atlântica, o Parque concentra dentro dos limites de sua área valiosos bens culturais e históricos, constituindo a maior floresta artificial urbana do mundo, contemplando maciços rochosos, quedas d’água, riachos, fauna e flora da Mata Atlântica, mirantes, ruínas de antigas fazendas e da Real Fábrica de Pólvora, entre outras atrações. 

Junto com as praias e as montanhas que envolvem a cidade do Rio de Janeiro e a transformaram no cartão postal mais conhecido do Brasil em todas as partes do mundo, a Floresta da Tijuca é um dos grandes patrimônios naturais da capital fluminense, fornecendo ainda hoje preciosos serviços ambientais e atraindo milhares de turistas a cada ano.

Entre as melhores lembranças que eu tenho da cidade do Rio de Janeiro, onde tenho raízes familiares, estão caminhadas que fiz quando adolescente em trilhas no meio dessa floresta. Uma espécie de árvore que abunda nessas matas são as jaqueiras, uma planta de origem asiática que se adaptou perfeitamente ao clima local. O cheiro adocicado dessas frutas ao longo das trilhas era marcante e inesquecível. 

Desgraçadamente, esses trabalhos de reflorestamento e recuperação de áreas devastadas pela cultura do café não se estenderam a outras regiões do interior da Província do Rio de Janeiro. Áreas que no passado foram cobertas por uma densa floresta de Mata Atlântica e que foram transformadas em fazendas produtoras de café, foram abandonadas a própria sorte após a exaustão dos solos. O que foi floresta, na melhor das hipóteses, acabou transformado em ralas matas de capoeira – a maior parte dessas áreas virou pastagem para o gado ou terras para uma agricultura de pequena escala. 

Não existem estudos antigos sobre as florestas e bacias hidrográficas da Província do Rio de Janeiro anteriores ao ciclo do café, o que dificulta se fazer uma comparação da situação do meio ambiente antes e depois. É possível especular, genericamente, que toda a devastação ambiental que se seguiu ao início da cafeicultura na Província causou uma grande diminuição dos volumes de água das principais bacias hidrográficas e que expressivos volumes de sedimentos resultantes da erosão dos solos ocuparam importantes espaços na calha dos corpos d’água. 

Também podemos supor que populações animais foram reduzidas, ou até mesmo extintas, e que houve uma importante redução na diversidade botânica das matas. De acordo com estimativas, cerca de 97% do território do Rio de Janeiro era coberto por Mata Atlântica e ecossistemas associados como matas de altitude, restingas e mangues há época do descobrimento do Brasil. Atualmente, pouco mais de 15% das terras fluminenses ainda são cobertas com vegetação do bioma, especialmente em encostas de morros e serras, o que nos dá uma clara ideia da herança que foi deixada pela cultura do café no Estado. 

Como eu comentei em uma postagem anterior, a situação lembra uma área atacada por uma grande nuvem de gafanhotos – depois de comer a última folha da vegetação, os gafanhotos levantaram voo em busca de matas virgens para atacar. 

FLORESTA DA TIJUCA: UM EXEMPLO DOS IMPACTOS DA DEVASTAÇÃO AMBIENTAL PRODUZIDA PELA CAFEICULTURA

Nas últimas postagens montamos um resumido quadro histórico da chegada e interiorização da cultura do café na Província do Rio de Janeiro. Segundo os registros históricos, as primeiras mudas e/ou sementes de café chegaram nas terras fluminenses por volta de década de 1760. Ainda nas últimas décadas do século XVIII, os primeiros cafezais começaram a ocupar áreas ao redor da cidade do Rio de Janeiro. Uma dessas áreas ficava exatamente onde encontramos hoje a Floresta da Tijuca. 

Quando a cidade do Rio de Janeiro foi fundada em 1565, as montanhas e serras da região eram cobertas por uma imponente cobertura florestal, constituída exclusivamente por espécies da Mata Atlântica. Eram árvores de grande porte, com algumas espécies podendo chegar até 45 m de altura e com troncos de mais de dois metros de diâmetro. A partir de meados do século XVII, essas matas começaram a ser derrubadas e substituídas por plantações de cana-de-açúcar, principalmente na região da Baixada Fluminense.  

Além de necessitar de grandes extensões de terras para as plantações de cana, a indústria do açúcar também exigia a queima de grandes quantidades de madeira para a geração do calor necessário às diversas etapas da produção do açúcar – eram usados até 20 kg de lenha para a produção de um único quilo de açúcar. Os remanescentes florestais que ainda existiam na região passaram a ser derrubados e transformados em lenha para os engenhos. 

Em 1763, após o início da exploração do ouro nas Minas Gerais, a capital da Colônia foi transferida de Salvador para a cidade do Rio de Janeiro. A proximidade geográfica com as zonas produtoras facilitaria imensamente a administração da produção e a exportação do precioso metal para a Metrópole. A cidade portuária viveu nesse momento a sua primeira explosão populacional, assumindo em pouco tempo o título de maior cidade da Colônia com uma população de 30 mil habitantes. 

No final do século XVIII, as plantações de café começaram a ocupar as antigas áreas desflorestadas pelos canaviais e também a pressionar as matas remanescentes. O cafeeiro, conforme já comentamos em outras postagens, é uma planta arbustiva bastante exigente quanto a qualidade dos solos, excessos de calor e de frio, ventos e concorrência com outras espécies vegetais.

Rapidamente, os produtores perceberam que as encostas dos morros com suas matas eram os locais ideais para o plantio dos cafezais. A região da Tijuca, que ainda apresentava uma expressiva cobertura de floresta de Mata Atlântica há época, passou a ser desmatada e ocupada com imensos cafezais

O sucesso da cultura do café rapidamente começou a mostrar os seus custos ambientais em função da substituição da cobertura florestal por plantações. Apesar de sua localização em uma das melhores áreas portuárias naturais do Brasil – a Baía da Guanabara, a cidade do Rio de Janeiro sempre sofreu com a falta de água potável. Esses problemas se agravaram após a chegada do café a terras fluminenses.

Sem rios extensos e caudalosos, o abastecimento da população local sempre dependeu dos inúmeros riachos com nascentes nas encostas dos morros. Um desses corpos d’água, o Rio da Carioca, tinha suas nascentes justamente nas matas da Tijuca. Com a devastação das matas na região, o rio passou a apresentar uma grande redução dos seus caudais

O sistema de abastecimento da cidade do Rio de Janeiro, construído logo após a transferência da capital, trazia as águas do Rio da Carioca até o centro da cidade através de um sistema de tubulações que incluía um trecho em forma de aqueduto – os famosos Arcos da Lapa (vide imagem). Essa água jorrava através de um conjunto de fontes públicas e era carregada por moradores e escravos em jarros até as residências.

Os já antigos problemas de abastecimento de água na cidade passaram a ser mais frequentes a partir de 1808, ano da chegada da família Real Portuguesa. Naquele ano, a então modesta cidade colonial do Rio de Janeiro foi promovida a Metrópole do Império Ultramarino Português e sofreu uma grande explosão populacional.

Com a eminente invasão de Portugal pelas tropas francesas comandadas por Napoleão Bonaparte, toda a Corte Portuguesa (estamos falando de um número entre doze e vinte mil pessoas, conforme a fonte) acompanhou a Família Real para um “exílio” em terras brasileiras. Somente na frota da Marinha da Inglaterra, país aliado de Portugal e que disponibilizou vários navios para a evacuação de Lisboa, aproximadamente 11.500 pessoas se espremeram nas naus para acompanhar a Família Real e se beneficiar desta segurança para a fuga.

A cidade do Rio de Janeiro, bastante modesta para o padrão das capitais europeias da época, era de longe a cidade com a “melhor infraestrutura da Colônia” e candidata natural a receber todo esse contingente estrangeiro. Para acomodar, alimentar e manter toda essa crescente população, os já depauperados recursos florestais passaram a ser explorados ao máximo: precisava-se de madeiras para a construção civil, lenha para as cozinhas, liberação de novas áreas para a produção de alimentos e criação de animais, entre outros usos. 

Em períodos de estiagem a vazão da água costumava diminuir muito, o que provocava reclamações da população. Após a devastação das matas da Tijuca pelos cafezais, a água passou a desaparecer no período da seca. Além dos problemas de escassêz, a situação era agravada por atos de vandalismo – haviam relatos de danos às tubulações provocados por grupos de escravos fugitivos, que se escondiam nas matas ao redor da cidade e que buscavam dessa forma algum tipo de vingança contra os antigos senhores. 

Outro problema que surgiu foi a falta de mão de obra – após todo esse caótico período que se seguiu à chegada da Corte Portuguesa ao Rio de Janeiro, quando milhares de casas tiveram de ser construídas às pressas para acomodar os recém chegados, a cidade do Rio de Janeiro passou a apresentar uma forte demanda por mais escravos. 

Naqueles tempos antigos, todos os trabalhos domésticos, desde a preparação dos alimentos até a ingrata tarefa de esvaziar os penicos usados pela nobreza e pelas elites, dependiam dos escravos. Essa mão de obra também era essencial para carregar compras e todo o tipo de produtos, carregar as liteiras (o tipo de transporte individual usado há época), rachar e carregar lenha para as cozinhas, tratar dos animais domésticos e das hortas, entre outros trabalhos.

Nos sítios e fazendas do cinturão verde da cidade, se faziam necessárias mais mãos para trabalhar na produção de alimentos como o milho e a mandioca. A nascente indústria cafeeira, por sua vez, demandava cada vez mais gente a fim de atender ao insaciavel mercado externo do café. 

A província do Rio de Janeiro se transformou rapidamente no maior mercado comprador de escravos do Brasil – fossem eles “novos”, recém importados desde os portos da costa da África, fossem eles de “segunda mão”, trazidos de outros pontos da Colônia. Os preços dos “produtos” dispararam e muita gente fez fortuna. Esse aumento vertiginoso da população, livre e escrava, só fazia aumentar a pressão sobre os parcos recursos hídricos disponíveis então. 

Como não poderia deixar de ter acontecido, a cidade do Rio de Janeiro simplesmente entrou em colapso devido à escassez de água. Foi então que os Governantes locais se lembraram das antigas matas que outrora existiram na região da Tijuca, onde abundavam nascentes de água. Era preciso reflorestar a região e torcer pela volta das nascentes de água. 

Foi assim que começou a renascer a Floresta da Tijuca. Falaremos disso na próxima postagem. 

ANTÔNIO CLEMENTE PINTO, O PRIMEIRO BARÃO DE NOVA FRIBURGO

A cafeicultura na província do Rio de Janeiro foi, ao longo de grande parte do século XIX, a principal geradora de riquezas do Brasil. Nesse período, que se estendeu até a década de 1870, a então Província do Rio de Janeiro chegou a produzir perto de 80% de todo o café brasileiro, uma cultura que trouxe muita riqueza e forjou toda uma classe de “nobres” locais. 

Um grande exemplo dessa elite cafeeira foi Antônio Clemente Pinto, um proprietário rural luso-brasileiro e considerado um dos homens mais ricos dos tempos do Império. Clemente Pinto foi um típico homem de negócios da sua época e chegou a ser dono de, pelo menos, uma dúzia de fazendas produtoras de café nas regiões de Nova Friburgo, Cantagalo e São Fidélis. 

Antônio Clemente Pinto nasceu em uma pequena aldeia do Norte de Portugal em 1795. Ele chegou ao Brasil em 1821, onde começou a trabalhar como caixeiro em uma loja na cidade do Rio de Janeiro de propriedade de João Rodrigues Pereira de Almeida, o Barão de Ubá, um rico comerciante e fazendeiro português. Uma curiosidade: um dos seus companheiros de ofício naqueles tempos do início de carreira foi Irineu Evangelista de Souza, o futuro Barão de Mauá e primeiro grande industrial do Brasil

Contando com a ajuda e mentoria do seu patrão, Clemente Pinto ingressou no lucrativo e polêmico comércio de escravos africanos. Essa atividade, que até meados do século XIX foi um dos negócios mais lucrativos das três Américas, era fundamental para a agricultura há época, onde praticamente tudo dependia das pernas e braços dos escravos. 

O uso da mão de obra escrava em Portugal começou ainda nos primeiros tempos da independência (ocorrida em 1139), quando muitos dos muçulmanos derrotados em batalhas eram escravizados pelos lusos. Durante séculos, os exércitos cristãos dos portugueses (e também dos castelhanos) lutaram contra os chamados mouros, empurrando os invasores cada vez mais para o Sul da Península Ibérica. A cada vitória dos cristãos, surgiam milhares de potenciais escravos para uso nos trabalhos mais pesados e degradantes.

Com a gradual conversão dos mouros ao cristianismo, os portugueses passaram a se valer dos negros escravizados comprados na África. Há registros de escravos africanos trabalhando em plantações de cana de açúcar em Portugal ainda no século XIV. Aos tempos do descobrimento do Brasil, existiam cerca de 30 mil escravos africanos em Portugal. Após as fracassadas tentativas de usar a mão de obra indígena no empreendimento da colonização do Brasil, os portugueses iniciaram a importação da mão de obra africana – um censo de 1584 indicou que já existiam cerca de 10 mil escravos trabalhando na Região do Nordeste Açucareiro.

No ano de 1600, o número total de escravos negros no Brasil atingiu a marca de 30.000; em 1700, chegou ao número de 150.000, concentrados na Região Nordeste. Durante o Ciclo do Ouro, a demanda por escravos aumentou ainda mais. Com o crescimento das plantações de café a partir das últimas décadas do século XVIII, o tradicional negócio, mais do que nunca, foi de “vento em popa” para os “empreendedores”. 

Esses bons ventos, porém, mudaram de direção em 1845, quando o Parlamento Britânico aprovou o Bill Aberdeen, uma lei inglesa que passou a conceder à Marinha Real Britânica o direito de abordar em alto mar qualquer navio, de bandeira inglesa ou de qualquer outro país, suspeito de tráfico de escravos.

Essa medida passou a criar sérias dificuldades para o comércio internacional de escravos, o que levou muitos dos antigos comerciantes a mudar de ramo. Clemente Pinto passou a concentrar seus esforços e recursos na compra de terras para a produção do valioso café, entre outras atividades. Em poucos anos, Clemente Pinto se tornou um dos maiores produtores do Brasil.

Citando apenas duas de suas fazendas: em Nova Friburgo, Clemente Pinto comprou a Fazendo de São Lourenço, com uma área de aproximadamente 2 mil alqueires (considerando o antigo Alqueire Mineiro, essa medida corresponde a cerca de 9,6 mil hectares, sendo que cada hectare corresponde a 10 mil m²). Na mesma cidade, também possuía a Fazenda do Cônego com área de 1.200 alqueires (cerca de 5,8 mil hectares). Cerca de 200 escravos trabalhavam nessas fazendas. 

Uma das grandes realizações de Antônio Clemente Pinto e que nos dá uma verdadeira ideia do tamanho do seu patrimônio e visão de negócios, foi a construção, com recursos próprios, da Estrada de Ferro de Cantagalo, obra iniciada em 1857 e que se destinava ao escoamento de sua produção de café. O primeiro trecho dessa ferrovia, que foi concluído em 1860, ligava a Raiz da Serra (Cachoeiras de Macacu), em Friburgo, ao Porto das Caixas, na região de Itaboraí. Após sucessivas ampliações, levadas a cabo por seu filho – Bernardo Clemente Pinto, a linha férrea passou a ligar, em 1876, Niterói a Cantagalo, passando por Nova Friburgo, com uma extensão total de 178 km. 

Em reconhecimento às suas grandes realizações e, conforme comentamos em postagem anterior, feito o devido pagamento pelo título nobiliárquico, Antônio Clemente Pinto recebeu o baronato através de um Decreto Imperial em 28 de março de 1854. Junto com o título de Primeiro Barão de Nova Friburgo, Clemente Pinto também passou a ser Cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa e de Cristo, Fidalgo Cavaleiro da Casa Imperial e Grande do Império. Nada mal para um camponês nascido na pobre aldeia portuguesa de Ovelha do Marão. 

Como todo bom nobre de sua estirpe, Clemente Pinto encomendou a construção de um palacete em Cantagalo ao arquiteto alemão Carl Friedrich Gustav, um dos grandes nomes há época e que também foi responsável pelo projeto de uma outra das suas propriedades – o Palácio do Catete, concluído em 1867. Inaugurado em 1860, o Palacete do Gavião (vide foto abaixo) é um grande exemplo da arquitetura neoclássica no Brasil. Fica localizado a cerca de 2 km do centro da cidade de Cantagalo, numa colina cercada por arvoredos e pomares. A construção, que atualmente pertence a particulares, ainda está bem preservada e mantém toda a sua nobreza. 

Entre os muitos requintes, a sala de jantar possuía uma parede onde foi feita uma belíssima pintura a óleo – um renomado pintor francês veio de Paris especialmente para realizar a obra. Um outro destaque do Palacete é a sua capela, onde existe uma fabulosa imagem de Nossa Senhora da Conceição. Acima do altar existe um documento emoldurado com a autorização para a realização de missas no local – o texto foi escrito a próprio punho pelo Imperador Dom Pedro II e pelo Bispo de São Sebastião do Rio de Janeiro. 

A figura que ilustra essa postagem reproduz uma pintura a óleo com o Barão e a Baronesa de Nova Friburgo (Laura Clementina da Silva). Observem alguns detalhes interessantes da cena – ao fundo, numa colina vista através de uma janela, vemos o Palacete do Gavião. Na mesa ao lado, temos uma maquete do Palácio do Catete e nas mãos do Barão vemos um mapa com o trajeto da sua estrada de ferro. Uma demostração incontestável de riqueza, poder e prestígio.

O Barão viria a falecer aos 74 anos no Palácio do Catete em 1869, deixando uma imensa fortuna para os seus dois filhos, um enorme legado para a sua região, além de muitas polêmicas e intrigas. Um exemplo: o embaixador da Suíça – Von Tschudi, um contemporâneo que visitou a região de Cantagalo, anotou em seu relatório oficial que circulavam na região inúmeras histórias sobre uma série de negócios ilícitos realizados pelo Barão e que extrapolavam, em muito, os negócios com o café. Nada comprovado.

O tempo de vida de Antônio Clemente Pinto coincide com o auge do ciclo do café na Província do Rio de Janeiro, desde seu início modesto nos morros nas cercanias da capital do Império até a decadência da produção e “fuga” dos cafezais para o Vale do Paraíba em São Paulo. A assinatura da Lei Áurea em 1888, que pós fim à escravidão no Brasil, e a Proclamação da República em 1889, que acabou com a monarquia, enterraram de vez os antigos meios de produção do café, além de pôr um fim no comércio de títulos nobiliárquicos no país. 

A decadente “nobreza rural” fluminense ainda continuaria usando seus títulos por muitas décadas. Porém, sem a riqueza gerada em outros tempos pelo café, esses títulos cada vez mais passariam a ser apenas uma lembrança “amarelada” de velhos tempos dourados. 

A CULTURA DO CAFÉ E A DEGRADAÇÃO DOS SOLOS NA PROVÍNCIA DO RIO DE JANEIRO

Os primeiros cafezais em terras fluminenses começaram a ser plantados nas encostas dos morros que circundam a cidade do Rio de Janeiro nas últimas décadas do século XVIII. As plantações foram seguindo na direção da Serra da Bocaina no Sul fluminense, chegando até Angra dos Reis e Parati. Os cafezais também entraram no Litoral Norte de São Paulo e ocuparam as estreitas encostas da Serra do Mar em Ubatuba, Caraguatatuba e São Sebastião. 

O grande salto na produção cafeeira se deu com a chegada da cultura à região do Médio rio Paraíba do Sul. As altitudes da região se situam entre os 300 e os 900 metros, com encostas protegidas dos ventos e com boa precipitação de chuvas. A região era totalmente coberta com uma densa vegetação de Mata Atlântica e apresentava solos com alta fertilidade. As cidades de Valença, Vassouras, Piraí, Barra do Piraí, Barra Mansa e Cantagalo, entre outras, se tornaram grandes produtoras de café. 

Na sua contínua marcha em busca de terras “virgens”, os cafezais entraram na faixa Leste da Província de Minas Gerais e se espalharam em cidades como Juiz de Fora, Rio Preto, Cataguases, Rio Novo, Muriaé e Carangola. Acompanhando o baixo curso do rio Paraíba do Sul, a cultura do café chegou até o Sul do Espírito Santo. Toda essa extensa área de produção estava nas mãos de grandes fazendeiros da Província do Rio de Janeiro, os Barões, Condes e Viscondes do Café fluminense

Conforme comentamos na postagem anterior, os verdadeiros “rios de dinheiro” que passaram a circular na economia da Província desencadearam numa espécie de “loucura consumista” entre as classes mais abastadas. Verdadeiros palacetes passaram a ser construídos nas sedes das fazendas, apresentando os mais caros e luxuosos artigos de decoração disponíveis há época.  

Artigos de alto luxo como roupas, joias, relógios e alimentos passaram a ser frequentes nas sofisticadas lojas que surgiram nas cidades – os consumidores não tinham limites no orçamento para adquirir esses produtos. As cidades recebiam sucessivos melhoramentos e surgiam escolas de alto padrão, teatros, bibliotecas, ateliês de fotografia e de moda. Professores de música e de línguas se estabeleciam em grande número nessas cidades – não faltavam alunos. 

As principais bases econômicas dessa lucrativa atividade eram os baixos preços das terras e a farta mão de obra, formada basicamente por negros escravizados. A partir de meados do século XIX, a chegada dos trilhos das ferrovias ampliaria ainda mais essa base econômica. Fazendeiros e empreendedores compravam grandes extensões de terra, onde a densa floresta era rapidamente colocada abaixo com a força dos machados e do fogo. Em pouco tempo, milhares de mudas de café com suas folhas verde esperança cobriam os solos até onde a vista podia alcançar. 

O café é uma planta arbustiva, que pode crescer até uma altura de 3 metros ou mais. Diferente da rústica cana de açúcar, o café é uma planta muito delicada. A temperatura ideal para o desenvolvimento das plantas fica na faixa entre os 5 e os 33°. Insolação excessiva e geadas podem destruir as plantas. Requer ainda chuvas regulares e solos com muita fertilidade. Uma outra dificuldade da cultura é tempo necessário para o desenvolvimento das plantas e início da produção dos frutos – entre 4 e 5 anos. Durante esse prazo, a área ao redor das plantas precisa receber limpezas regulares

Era durante esse prazo de desenvolvimento das plantas que começavam os problemas de degradação dos solos. Sem a proteção da densa vegetação das antigas matas, a camada fértil de humus, revestimento formado pela decomposição de matéria orgânica ao longo de milhares de anos e que recobria os solos inertes, passava a ser “lavada” e levada pelas chuvas, sendo arrastada na direção de rios e riachos. Normalmente, bastava um período de apenas 10 anos para a fertilidades desses solos ser completamente perdida. 

A técnica de plantio das mudas de café usadas há época também contribuíram, e muito, para a rápida erosão da camada fértil. As carreiras de pés de café eram plantadas em linha, desde os trechos mais altos até as partes mais baixas dos terrenos, quando o ideal seria o plantio em curvas de nível.

A razão para esse plantio irracional era simples – com a plantas em linhas paralelas, um único capataz montado em um cavalo podia supervisionar um grupo com mais de 100 escravos desde as partes baixas dos terrenos. Caso as plantas seguissem as curvas de nível das encostas, os fazendeiros alegavam que muitos escravos dormiriam escondidos à sombra dos cafezais. 

Quando essas terras perdiam a fertilidade, elas eram rapidamente abandonadas e a produção era retomada em terras novas. O baixo custo para a aquisição de novas terras e o uso de mão de obra escrava tornava muito mais compensador para os fazendeiros o abandono das antigas áreas ao invés de tentar fazer qualquer tipo de trabalho para recuperar a fertilidade dos solos.

Assim, grandes trechos das antigas matas nativas eram derrubados em sequência, deixando em seu rastro extensas faixas de solos degradados. Como não existem recursos naturais infinitos, chegou um momento em que, simplesmente, não haviam novas áreas para se desmatar

Com o esgotamento dos solos em terras fluminenses, a produção de café no Rio de Janeiro, Província que chegou a responder por quase 80% da produção brasileira, rapidamente declinou a partir da década de 1870, sendo substituída pela crescente produção cafeeira no trecho paulista do Vale do rio Paraíba. Devido à proximidade geográfica e da infraestrutura já existente, o café paulista continuaria sendo exportado através do Cais do Porto do Rio de Janeiro.

De acordo com Caio Prado Júnior em sua obra História Econômica do Brasil, a primeira exportação de café fluminense se deu em 1779, quando pouco mais de 79 arrobas (cerca de 1,2 tonelada) seguiu para Lisboa e Cidade do Porto, em Portugal. Em 1796, essa exportação atingiu a marca de 8.495 arrobas e em 1806, 82.245 arrobas. Ao longo das décadas seguintes, esse crescimento seria contínuo e intenso. 

Com o fim dos grandes volumes de dinheiro gerados pelo plantio e exportação do café, a “nobreza” rural fluminense rapidamente entrou em bancarrota. Sem recursos para manter seu padrão de vida de alto luxo e extravagâncias de toda ordem, Barões, Condes e Viscondes caminharam para o obscurantismo da história. As encostas dos morros e os vales que outrora eram cobertos pela densa floresta de Mata Atlântica, agora estavam transformados em pastagens e ralas matas de capoeira. 

Uma figura de linguagem que eu sempre costumo usar para descrever essa destruição de biomas é a de uma grande nuvem de gafanhotos. Esses vorazes e insaciáveis insetos pousam em grandes áreas cobertas por matas e plantações, onde começam a comer, de forma alucinada, qualquer folha, semente, fruto ou ramo de planta. Quando a comida se esgota, a nuvem de gafanhotos levanto voo e sai em busca de novas áreas de alimentação. Para trás, ficam apenas terras devastadas e despidas de qualquer vegetação. 

A cafeicultura fez exatamente isso em terras fluminenses e áreas circunvizinhas no Litoral Norte de São Paulo e do extremo Leste de Minas Gerais. O meio ambiente teve seus recursos sugados até a última gota e, quando nada mais tinha a oferecer, foi largado à própria sorte. A outrora luxuriante Mata Atlântica, só conseguiu resistir nas encostas mais íngremes e nos terrenos mais altos, onde era impraticável o plantio do café. 

O Vale do rio Paraíba na Província de São Paulo seria a próxima “escala” dos cafezais e dos “gafanhotos”. 

O BREVE “REINADO” DA NOBILIARQUIA CAFEEIRA FLUMINENSE

Nobiliarquia é estudo das origens e da história das famílias nobres, seus nomes de família, escudos, armas e brasões, além dos registros ou tratados sobre esse assunto. Essa palavra foi usada no título da postagem por que o assunto de hoje são as inúmeras famílias “nobres” que surgiram na esteira da cafeicultura em terras fluminenses ao longo do século XIX. 

O “nascimento” da cafeicultura no Rio de Janeiro ocorreu cerca de um quarto de século antes da chegada da Família Real e de toda a Corte de Portugal ao Brasil. A primeira exportação de café a partir do Rio de Janeiro se deu em 1779 e se limitou a apenas 79 arrobas (cerca de 1,2 tonelada) – às vésperas da chegada da Família Real, essas exportações já superavam as 80 mil arrobas anuais.

Como todos devem recordar das aulas de história nos tempos do ensino fundamental, as tropas de Napoleão Bonaparte invadiram o território de Portugal em 1807, o que obrigou o Rei Dom João VI a buscar exílio no Rio de Janeiro, onde desembarcou em 8 de março de 1808, depois de uma rápida escala em Salvador.  

Além da Família Real, toda a Corte e as classes mais abastadas de Portugal também vieram buscar refúgio aqui em nossas terras. As estimativas falam que, no total, esse grupo de refugiados era da ordem de 10 mil pessoas e chegaram em 19 navios das esquadras portuguesa e inglesa. O seleto grupo incluía comerciantes, advogados, médicos, engenheiros, artistas, arquitetos, religiosos, militares, professores, entre muitos outros.  

Toda essa nova população, que representava a “nata dos Lusitanos”, provocou enormes impactos, principalmente psicológicos, na então elite econômica da Colônia que vivia no Rio de Janeiro, formada essencialmente por “jecas” e semianalfabetos brasileiros. Muitas dessas pessoas, que enriqueceram com atividades como a produção do açúcar, mineração do ouro e o tráfico de escravos, descobriram que não bastava ser rico – era fundamental ser nobre! 

A produção e exportação do café naqueles tempos, que crescia a olhos vistos, passou a gerar grandes fortunas entre famílias fluminenses. Conforme comentamos em postagem anterior, as exportações de café em 1820 representavam 18% das vendas externas do Brasil e não parariam de crescer até as primeiras décadas do século XX, quando representavam mais de 50% das nossas exportações. 

Os verdadeiros “rios de dinheiro” que alguns produtores de café começaram a ganhar, produziram uma onda de consumo de produtos de alto luxo e extravagâncias de toda a ordem jamais vistas em terras brasileiras. Uma das mais interessantes foi o surgimento de um mercado para a venda de títulos nobiliárquicos ou de nobreza por parte da Família Real.  Qualquer pessoa com a bolsa recheada de dinheiro poderia virar um nobre da noite para o dia.

Quem se dispusesse a pagar o equivalente a 750 mil réis em meados do século XIX, levaria para casa o título de Barão. Por pouco mais de 1 milhão de réis, podia se comprar o título de Visconde – já um título de Conde custava cerca de 1,5 milhão de réis. Para os super ricos, as melhores opções eram o título de Marquês, que podia ser comprado por pouco mais de 2 milhões de réis, ou um de Duque, que não saía por menos de 2,45 milhões de réis. Por todas as cidades das regiões produtoras de café, especialmente ao longo do médio Vale do rio Paraíba do Sul, no Estado do Rio de Janeiro, se multiplicavam as famílias “nobres”. 

A partir da década de 1820, o fluxo de riquezas gerados pela cafeicultura produziu gigantescas mudanças nos hábitos de consumo e de vida de muitas famílias de grandes centros produtores como Vassouras, Valença, Piraí, Barra do Piraí, Barra Mansa e Cantagalo, entre outras comunidades. A mais vistosa dessas mudanças se deu na arquitetura – os grandes fazendeiros não poupavam dinheiro para a construção de verdadeiros palácios nas sedes de suas fazendas (vide foto) e nos solares que mantinham nas cidades. 

As vias de acesso a essas propriedades eram, invariavelmente, cercadas por fileiras de palmeiras imperiais. Além de um sem fim número de dormitórios, essas propriedades possuíam salões de festas, sala de bilhar, sala de armas, sala de música, além de escadarias feitas com o mais fino mármore e granito que o dinheiro podia comprar.

As dependências internas eram finamente decoradas com obras de arte, espelhos de cristal, móveis finos entalhados em madeiras nobres como o jacarandá e o mogno, tapeçarias orientais, entre outros requintes. Os luxuosos aparadores e cristaleiras guardavam as mais finas baixelas e talheres lavrados em pura prata de lei

As refeições servidas às mesas eram regadas com o melhor vinho importado, presuntos de Nova York, compotas e conservas francesas, peixes nórdicos e as melhores caixas de frutas secas do Mediterrâneo. Chefes de cozinha europeus, com todo um batalhão de ajudantes e serviçais, eram encarregados do preparo e dos serviços as mesas nas refeições. 

Qualquer casa de cafeicultor de respeito possuía um grande piano de cauda, onde seus filhos e, principalmente, as filhas recebiam aulas de música com os melhores professores que existiam na Colônia. Essas casas também contavam com um verdadeiro séquito de profissionais altamente especializados: costureiras e alfaiates, sapateiros, boticários, dentistas, enfermeiros, mecânicos, serralheiros, carpinteiros, jardineiros, pedreiros, cabeleireiros e barbeiros, entre outros. Tudo precisava funcionar perfeitamente e nenhum serviço podia faltar para o fazendeiro e seus familiares. 

Além das suntuosas casas-palacetes, as fazendas também contavam com diversas estruturas que garantiam uma grande autossuficiência. As fazendas tinham uma capela para realização de todos os serviços religiosos, desde os batizados até as cerimônias fúnebres. Contavam ainda com casas para os trabalhadores livres, senzalas para os escravos (há registros de fazendas que tinham mais de mil escravos), enfermarias especializadas para homens, mulheres e crianças; oficinas como ferraria, carpintaria e serralheria.

Outras estruturas indispensáveis eram os paióis, canis, chiqueiros, estábulos e cocheiras para trato dos animais de carga, entre outras. Aqui é importante lembrar que as sacas de café eram transportadas inicialmente por tropas de mulas e burros, indo desde as fazendas produtoras até o Cais do Porto no Rio de Janeiro – o transporte ferroviário de cargas só estaria disponível a partir da segunda metade do século XIX. Muitas fazendas também possuíam vendas e boticas para atender seu grande número de moradores. 

A cultura da exuberância dos fazendeiros atraiu para as cidades interioranas um grande número de arquitetos, principalmente europeus, que se esmeravam em realizar os projetos de construção mais extravagantes. Para dar suporte às construções, surgiram as mais diversas oficinas especializadas: carpintaria, cantaria, fundições, serralheria, marcenarias, cerâmicas, olarias, hidráulica e gás – o primeiro sistema de iluminação a gás do Brasil foi instalado em uma fazenda da cidade de Valença. 

As cidades também prosperavam – surgiram inúmeros ateliês de artistas, fotógrafos e modistas. Construíam-se teatros, bibliotecas e grandes prédios públicos. Hotéis e hospedarias surgiram por todos os cantos e estavam sempre cheios. O comércio nessas cidades também se tornou bastante sofisticado, principalmente com a venda de artigos de alto luxo importados como rendas inglesas, chales orientais, sedas de Lion e leques de madrepérola. Joalherias e relojoarias das mais sofisticadas também não poderiam faltar. Professores de línguas, principalmente do francês, também eram bastante procurados e se estabeleciam nessas cidades.

A educação e a cultura para essa elite econômica não poderiam ficar de fora – criaram-se colégios de excelência, com muitos professores vindos do “estrangeiro”. Essas escolas atraíam, inclusive, os filhos de muitas famílias abastadas da cidade do Rio de Janeiro. Grupos teatrais, muitos vindos diretamente dos palcos da Europa, orquestras de câmara e musicistas renomados, além das mais importantes companhias de ópera, frequentavam os teatros das cidades fluminenses. Se a nobreza “rural” entendia as peças e músicas em francês, inglês e italiano, isso era um mero detalhe…

A chegada da linha férrea e dos seus vagões luxuosos a partir de meados do século XIX tornou as viagens entre a Capital e as cidades do interior muito confortáveis e rápidas, além de garantir um melhor escoamento das incontáveis sacas de café rumo ao porto. 

Essa vida de luxo e nobreza dos cafeicultores fluminenses foi efêmera – o mal uso e o esgotamento da fertilidade dos solos nos cafezais rapidamente comprometeram a produção do grão no Rio de Janeiro, que entrou em forte decadência em poucas décadas e levou a imensa maioria dos “nossos” Barões e Condes do café à bancarrota. Falaremos disso na próxima postagem.