OS VIOLENTOS INCÊNDIOS FLORESTAIS NA AUSTRÁLIA E AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Incêndios Florestais na Austrália

Na última postagem comentamos sobre o mais recente relatório sobre os desmatamentos na Floresta Amazônica. De acordo com dados do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a Amazônia perdeu 9.762 km² de sua vegetação nativa, o que representa uma perda de 0,22% da sua área total. Esses desmatamentos são uma consequência do aumento das atividades econômicas na Região e, para desespero de muita gente, vão continuar a acontecer ao longo dos próximos anos. 

A demanda por alimentos, produtos e matérias-primas de origem agropecuária vai se manter em alta ainda por muito tempo, pressionando a expansão das fronteiras agrícolas do país na direção da Amazônia. Grupos empresariais da China estão fazendo pesados investimentos em infraestrutura e na compra de terras por todo o continente africano e, dentro de poucos anos, a África vai se transformar em uma grande potência agrícola com foco no abastecimento da China. Na minha modesta opinião, somente quando isso se consolidar daqui uns 15 ou 20 anos, é que vamos sentir a pressão sobre os recursos naturais da Amazônia diminuir. 

Infelizmente, não é só a Floresta Amazônica que vem sofrendo fortes agressões ambientais – nesse exato momento, grandes extensões de florestas na Austrália estão ardendo em grandes incêndios. Desde o mês de setembro, grandes incêndios vêm devastando grandes áreas de florestas nos Estados de New South Wales e Queensland, com uma ferocidade jamais vista no país. Segundo as estimativas oficiais, cerca de 1,6 milhão de hectares já foram atingidos pelo fogo

A Austrália, chamada por muitos de ilha-continente, é pouca coisa menor do que o Brasil – o país ocupa uma área de 7,7 milhões de km², exatamente 10% a menos do que o nosso território. Apesar da localização do país ocupar praticamente as mesmas latitudes das regiões Central e Sul do Brasil, o clima australiano é bem diferente do nosso – aliás, podemos afirmar que é praticamente o inverso. No Brasil, o clima Semiárido é encontrado em uma área relativamente pequena do interior da região Nordeste e no Norte do Estado de Minas Gerais – a maior parte do país tem clima Equatorial e Tropical; na região Sul, o clima é subtropical.  

Na Austrália, a maior parte do território tem climas Semiárido e Desértico; uma estreita faixa ao longo das costas do Sul e uma grande área no Sudeste do país têm um clima Mediterrâneo, que nada mais é do que um clima temperado. Pequenas faixas ao Sudoeste e Leste do continente tem um clima Subtropical e uma faixa no extremo Norte apresenta características Tropicais (clima quente com uma forte temporada de chuvas de Monção).  As áreas do país cobertas por florestas se concentram justamente nessas zonas de climas Mediterrâneo, Subtropical e Tropicais. 

De todos os continentes habitados do mundo, a Austrália é o mais seco. Para efeito de comparação, o Brasil possui 12% das reservas de água doce do mundo (lembrando que a maior parte dessas águas se encontram na Bacia Amazônica), com chuvas regulares na maior parte do território. A Austrália, ao contrário, detém apenas 1% das reservas mundiais de água doce. Grande parte do território australiano sofre com a falta de chuvas, que além de ocorrerem somente numa temporada específica, caem em volumes muito pequenos.

Como se não bastassem todos esses problemas, o país enfrentou uma fortíssima estiagem generalizada entre os anos 2000 e 2009. Neste ano de 2019, a temporada de chuvas ficou bem abaixo da média histórica e as altas temperaturas vêm batendo sucessivos recordes. Esse verdadeiro “caldeirão australiano” tem favorecido os incêndios florestais. 

Incêndios florestais são comuns na Austrália durante o verão, assim como o são no Cerrado brasileiro e nas Savanas africanas. Em alguns anos, entretanto, a intensidade desses incêndios é muito maior, como está sendo o caso desse ano, Além da falta de chuvas e das altas temperaturas, neste ano os ventos estão mais fortes na Austrália, o que vem agravando a propagação das chamas. Seis pessoas já morreram e cerca de 450 casas já foram destruídas. Existem, pelo menos, 140 focos de incêndio no país. 

As maiores e principais cidades do país estão tomadas por uma forte cortina de fumaça, o que vem causando diversos problemas respiratórios. O volume e a intensidade da fumaça dos incêndios na Austrália estão tão intensos que estão sendo percebidos aqui na América do Sul, a mais de 12 mil km de distância. Segundo dados do SMN – Serviço Meteorológico Nacional da Argentina, desde o último dia 14 de novembro, traços dessa fumaça estão sendo detectados no país. 

Além dos graves prejuízos às populações humanas das áreas rurais e urbanas, principalmente do Nordeste, Sul e Sudeste da Austrália, esses grandes incêndios florestais estão sendo devastadores para várias espécies animais, particularmente para os coalas, animal só encontrado nas florestas do país. Os coalas são marsupiais que parecem pequenos ursos de pelúcia e estão seriamente ameaçados de extinção. A dieta desse animal é constituída basicamente de folhas de eucalipto, espécie de árvore nativa da Austrália e que há várias décadas vem tendo suas florestas nativas derrubadas para a abertura de campos agrícolas – o país é um grande produtor de trigo e de cana-de-açúcar, além de abrigar importantes rebanhos de bovinos e ovinos. 

Centenas de coalas já morreram nos incêndios e outros tantos estão internados em hospitais veterinários com queimaduras graves e problemas respiratórios. Uma cena que correu o mundo nesses últimos dias mostra uma mulher salvando um coala que estava preso em meio as chamas (vide foto abaixo). A mulher correu para o meio do fogo, tirou a própria camisa e enrolou no animal assustado, que já apresentava diversas queimaduras no corpo. O animal está em recuperação em um hospital universitário. 

Coalas

Os serviços de meteorologia do país esperam a chegada de duas frentes frias entre os últimos dias desse mês de novembro e primeiros dias de dezembro, o que pode trazer algumas chuvas e um pouco de alívio para as regiões afetadas pelos incêndios florestais. Entretanto, como a temporada dos incêndios no país costuma ocorrer entre os meses de outubro e março, as autoridades da Austrália estão bastante pessimistas – o pior dos incêndios ainda pode estar por vir. 

Desde meados do século XIX, quando as observações meteorológicas passaram a ser rigorosamente anotadas e estudadas, o padrão climático da Austrália vem se mantendo constante, com a temporada das chuvas ocorrendo com bastante regularidade – a colonização e a ocupação do país foram baseadas nessa regularidade dos padrões climáticos. Nessas últimas três décadas, entretanto, vem ficando cada vez mais evidente que o clima do país vem mudando, o que muitos cientistas estão associando às mudanças climáticas globais. Entre os anos 2000 e 2009, a Austrália enfrentou uma fortíssima seca, chamada de Seca do Milênio, a temporada anual de chuvas tem ficado irregular e os incêndios florestais estão ficando mais intensos a cada ano que passa, problemas que vêm preocupando muito os dirigentes do país. 

Um país-continente que já é considerado o mais seco do mundo e que poderá ficar ainda mais seco – isso tem tirado o sono de muita gente. 

OS MAIS RECENTES NÚMEROS DOS DESMATAMENTOS NA AMAZÔNIA

Desmatamentos na Amazônia 2019

Nas últimas postagens, falamos um pouco dos graves problemas ambientais criados pelos derramamentos acidentais (ou não) de petróleo nas águas de mares, rios e lagos aqui no Brasil e em o todo o mundo. Como todos devem estar acompanhando nos telejornais e redes sociais, misteriosas manchas de óleo começaram a aparecer por todo o litoral do Nordeste a partir do final do mês de agosto, causando imensos impactos ambientais em praias, manguezais e em áreas estuarinas de toda a Região. Nos últimos dias, fragmentos de óleo passaram a ser encontrados em praias dos Estados do Espírito Santo e do Rio de Janeiro. Felizmente, a intensidade e a frequência do aparecimento dessas manchas e fragmentos de óleo estão diminuindo – os responsáveis pelo incidente, apesar de fortes suspeitas, ainda não foram identificados. 

Antes de tratarmos dos problemas ambientais criados pela extração e transporte do petróleo, estávamos falando da Amazônia e dos seus muitos problemas. Em meados do último mês de agosto, redes sociais e noticiários dos principais telejornais do mundo passaram a mostrar, à exaustão, imagens da Floresta Amazônica sendo consumida pelo fogo. Líderes internacionais como Emmanuel Macron, Presidente da França, ambientalistas, artistas e celebridades de todos os “naipes”, entre muitos outros, se transformaram em verdadeiros experts em Amazônia e passaram a falar abertamente da “destruição iminente da maior floresta equatorial do mundo pelo fogo”. 

Um dos grandes destaques desse verdadeiro espetáculo de horrores amazônicos foram os pronunciamentos da jovem sueca Greta Thunberg, que se notabilizou por faltar às aulas nas sextas-feiras para ir protestar em prol do meio ambiente em frente ao Parlamento da Suécia. Se somarmos tudo o que foi mostrado e falado por todos esses “especialistas” sobre as queimadas na Amazônica nesse período, hoje teríamos apenas um gigantesco deserto de cinzas às margens dos rios da Bacia Amazônica. 

Agora um fato curioso – passado o anúncio do ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2019 – Abiy Ahmed Ali, Primeiro-Ministro da Etiópia, os “especialistas” em Amazônia sumiram dos noticiários e das redes sociais. Aparentemente, toda essa gritaria estava sendo orquestrada na forma de um grande lobby, com o claro objetivo de induzir o Comitê do Nobel a indicar a jovem Greta à premiação. Já os incêndios que estavam consumindo “toda” a Floresta Amazônica, essas foram debelados em muitos lugares por forças civis e militares a serviço dos Governos Federal e dos Estados, além de serem controladas gradativamente com a chegada do inverno amazônico e suas salvadoras chuvas. 

Um novo capítulo dessa “saga” das queimadas na Amazônia começou a ser escrito no último dia 18, quando o INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, publicou um relatório sobre os desmatamentos na região no período entre agosto de 2018 e julho de 2019. De acordo com os dados, a Amazônia perdeu uma cobertura florestal estimada em 9.762 km², ou o equivalente a 8 vezes a área total da cidade de São Paulo. O dado “bomba” desse relatório é que isso representou um aumento de 29,54% em relação ao período medido anteriormente entre agosto de 2017 e julho de 2018. 

Esse brusco crescimento da área total desmatada nesse período contrariou as expectativas dos especialistas, que esperavam um número inferior a 7 mil km². De acordo com os dados históricos do INPE, esse foi o maior desmatamento desde o ano de 2008, quando foi registrada uma perda de vegetação nativa de quase 13 mil km². Foi justamente a “surpresa” de todo esse crescimento dos desmatamentos na Amazônia que deu um novo fôlego aos ecologistas e “especialistas” em Amazônia de plantão. 

Matérias publicadas em páginas das redes sociais e nos telejornais passaram a mostrar o grande crescimento dos desmatamentos na Floresta Amazônica, relembrando as “grandes queimadas que devastaram” a região meses antes. Gráficos com complexos dados estatísticos passaram a ser mostrados incansavelmente; “especialistas” das mais diferentes áreas passaram a traçar os cenários mais sombrios sobre o futuro do bioma – ”a continuar esse nível de devastação, a Floresta Amazônica desaparecerá dentro de poucas décadas”.  Pouca atenção foi dada aos números absolutos.

Quando se analisam os dados com maior atenção, se observa que 84% desses desmatamentos se concentraram nos Estados do Pará, Mato Grosso, Amazonas e Rondônia. O Pará foi responsável por quase 40% da área total desmatada ou cerca de 3.900 km². Na sequência, temos os Estados do Mato Grosso, Amazonas e Rondônia, com participações respectivas de 17,26%, 14,56% e 12,75%. Por coincidência, são estes os Estados amazônicos que apresentaram as maiores taxas de crescimento populacional nas últimas décadas e onde os assentamentos rurais e urbanos estão consolidados já há vários anos. 

A maioria desses desmatamentos estão ligados diretamente ao crescimento das atividades econômicas já instaladas nesses Estados. Existem centenas de milhares de fazendas e pequenas propriedades rurais na Região – muitas dessas propriedades ampliaram as suas áreas produtivas e realizaram desmatamentos. Também podemos especular, para efeito de exemplo, que foram criadas milhares de novas propriedades rurais, onde foi necessária a derrubada de trechos de matas – uma propriedade rural típica da Amazônia tem 100 hectares ou 1 km². Somadas todas essas áreas, se chega facilmente aos 9.762 km² desmatados no período e se concluirá que essa área não é tão grande quanto muitos “especialistas” fazem supor. 

Uma outra forma de se analisar esses desmatamentos é se observar a perda de cobertura vegetal em relação à área total da floresta: se considerarmos que a Floresta Amazônica em território brasileiro ocupava originalmente 4,5 milhões de km², a perda de cobertura florestal no período 2018-2019 foi de 0,21%. Considerando que a Floresta Amazônica brasileira já perdeu 15% de sua cobertura original, seriam necessários mais de 400 anos para devastar o restante da Floresta se mantida essa taxa de desmatamento.

A perda de qualquer quantidade de área de florestas em nosso mundo atual é sempre preocupante, mas estamos muito longe da situação apocalíptica pregada por muita gente em relação à Floresta Amazônica. Para efeito de comparação, perto de 70% das florestas equatoriais da Malásia desapareceram nos últimos 30 anos por causa da expansão das plantações de palma e produção de azeite de dendê – isso sim é verdadeiramente dramático.

É claro que existem inúmeros problemas na Região – áreas indígenas, reservas naturais, florestas nacionais e áreas de preservação permanente estão sendo ocupadas ilegalmente por grileiros, madeireiros e garimpeiros, que estão derrubando matas sem qualquer controle. Todas essas infrações devem ser combatidas com o máximo rigor da lei e muita fiscalização. 

A população atual da Região Amazônica brasileira está na casa dos 23 milhões de habitantes e toda essa gente precisa fazer alguma coisa para ganhar o seu “pão de cada dia” – isso fatalmente provoca impactos nas matas da região. Aqui é importante lembrar que grandes esforços para a ocupação de toda a Região foram feitos por sucessivos Governos nos últimos 50 anos. Muitas estradas foram abertas, foram criados projetos de colonização e reforma agrária, projetos de mineração, entre outros esforços. Milhões de brasileiros se predispuseram a migrar para a Amazônia e começar uma vida nova.  

Também vale a pena citar que, logo após a II Guerra Mundial (1939-1945), surgiu a ideologia da Hileia Amazônica, onde muitos líderes políticos mundiais propuseram a internacionalização da Amazônia e sua “administração” por um organismo multinacional – o temor dessa eventual internacionalização foi um dos grandes estímulos à uma ocupação rápida e intensa da Amazônia brasileira.

De resto e como sempre, existe “muita fumaça e pouco fogo” nesses dados sobre os desmatamentos na Amazônia. É precisa muita cautela e bom senso ao se analisar e contextualizar essas informações – ainda falta muito para o “fim do mundo”…

O NAUFRÁGIO DO NAVIO PETROLEIRO AMOCO CADIZ NO LITORAL DA FRANÇA EM 1978

Amoco Cadiz

A Europa é, já há muitos anos, o continente que adota as práticas de segurança mais rígidas para o transporte de petróleo e seus derivados. O último grande acidente envolvendo o transporte de petróleo em águas europeias ocorreu em 1978, quando o navio Amoco Cadiz naufragou nas costas da Bretanha e provocou o maior desastre ambiental da história, só superado pela tragédia com o Exxon Valdez onze anos depois. 

Cadiz era um superpetroleiro da classe VLCC – Very Large Crude Carrier, ou Transportador de Óleo Muito Grande, de propriedade da empresa petrolífera norte-americana Amoco. A embarcação foi construída em 1974 por um estaleiro espanhol localizado em Cádiz, sendo batizado com o nome dessa cidade. Há época do acidente, a embarcação era nova e considerada uma das mais modernas da frota mundial.  Com um comprimento total de 334 metros, o Amoco Cadiz tinha capacidade para transportar cerca de 270 mil toneladas de petróleo bruto

Em sua última viagem, o Amoco Cadiz estava transportando uma carga de petróleo iraniano embarcado no Golfo Pérsico e seguia na direção a uma refinaria na Europa. Na manhã do dia 16 de março, enquanto a embarcação enfrentava uma forte tempestade ao largo da costa da Bretanha, no Noroeste da França, ela foi atingida por uma onda gigantesca. O impacto da onda no casco danificou o sistema do leme, deixando o navio à deriva. Um navio rebocador foi enviado em auxílio ao Amoco Cadiz, porém, devido as más condições do mar, não foi possível realizar qualquer tipo de manobra ou operação. O superpetroleiro encalhou num afloramento rochoso localizado a 3 milhas da costa, próximo do pequeno porto de Portsall

O grave acidente acabou transformado numa gigantesca tragédia no dia seguinte – atingindo continuamente por fortes ondes, o casco do Amoco Cadiz foi partido ao meio (vide foto), liberando a maior parte de sua carga de petróleo nas águas do Atlântico Norte. Uma grande mancha de óleo foi espalhada ao longo de 1.300 km, atingindo toda a costa Oeste da França e também praias do Nordeste da Espanha. 

De acordo com levantamentos realizados pela NOAA – Administração Nacional Oceânica e Atmosférica na sigla em inglês, instituição ligada ao Governo dos Estados Unidos, o acidente com o Amoco Cadiz liberou 22.280 toneladas métricas de petróleo nas águas do oceano. Durante as operações de limpeza das águas que se seguiram, foram recuperadas cerca de 100 mil toneladas de água misturada com óleo e, desse total, apenas 20 mil toneladas de petróleo foram recuperadas em refinarias. A maior parte do petróleo que vazou acabou sendo dispersada de forma difusa pelo meio ambiente, se acumulando principalmente no leito oceânico

As consequências desse acidente ao meio ambiente vêm sendo intensamente estudadas por inúmeros cientistas de diversas áreas e existe uma farta quantidade de dados para consulta. Cerca de 300 km de praias de areia, de pedras e de cascalho foram atingidas. O óleo também atingiu paredões rochosos, molhes de pedras de áreas portuárias, além de ter atingido locais de vegetação costeira como lodaçais e sapais. Os locais atingidos pelo óleo tiveram 30% de sua fauna e 5% de sua flora destruídos

O primeiro grande impacto às comunidades da fauna aquática foi mostrado cerca de duas semanas depois do acidente, quando as praias da região foram cobertas com os restos mortais de milhões de moluscos, ouriços-do-mar, crustáceos e outras espécies marinhas. As praias também foram tomadas por cerca de 20 mil aves marinhas mortas, principalmente de espécies que mergulham para capturar seus alimentos. O óleo presente na água fica impregnado nas penas das aves, que não conseguem mais regular a temperatura corporal e acabam morrendo por hipotermia. 

O petróleo também atingiu inúmeras “fazendas” de criação de ostras, vieiras e outras espécies de moluscos de alto valor comercial e bastante usadas na culinária francesa. Cerca de 9 mil toneladas desses produtos tiveram de ser descartados por riscos de contaminação, prejudicando milhares de pequenos produtores e trabalhadores do setor. A pesca de diversas espécies de peixes e também a coleta de algas foram afetados. O turismo em toda a região, uma importante atividade econômica, também ficou seriamente prejudicado. 

Durante os processos de limpeza de rochas e paredões rochosos, as equipes utilizaram jatos de alta pressão, onde a água recebe produtos químicos a base de solventes. Apesar de remover satisfatoriamente o óleo que ficou preso na superfície das rochas e melhorar a paisagem das praias e costões rochosos, esse processo apenas transferiu o problema para o fundo do oceano – as equipes de limpeza lançavam pó de giz sobre as manchas de óleo, o que criava aglomerados pesados e que afundavam rapidamente. 

No acompanhamento dos impactos ambientais às espécies bentônicas, ou seja, que vivem no fundo marinho, os especialistas perceberam que diversas espécies, principalmente os equinodermos, filo onde se incluem as estrelas-do-mar, e pequenos crustáceos desapareceram completamente de muitas áreas. Foram necessários mais de ano para que essas áreas voltassem a ser colonizadas, o que demonstra a intensidade dos impactos da presença de óleo no fundo oceânico. Essa limpeza com jatos de alta pressão também prejudicou inúmeras comunidades de seres vivos que vivem nas chamadas “zonas de maré”, onde se incluem ostras e cracas que vivem presas nas pedras e costões rochosos – foram necessários vários anos para a recuperação dessas comunidades. 

Nas áreas alagadiças da costa, de difícil acesso e limpeza, os impactos da presença do óleo foram sentidos por vários anos. Esses ecossistemas, onde os sapais são os mais importantes, são áreas de terras baixas ao longo da costa que são sujeitas ao alagamento por água do mar durante a maré alta. Nessas águas salobras se encontra uma vegetação características, conhecida como halofítica, ou seja, dotada de grandes raízes adaptadas para a vida na água como os manguezais das regiões tropicais. Algumas dessas espécies de planta crescem sobre uma grossa camada de sal. 

Os sapais da Europa, assim como ocorre com os manguezais, são ecossistemas de grande importância ambiental, fornecendo grande quantidade de matéria orgânica para os oceanos. Existem diversas espécies marinhas que se reproduzem e vivem parte do seu ciclo de vida nos sapais e que são fundamentais na cadeia trófica de diversas espécies marinhas de grande valor comercial. Como consequência da contaminação dessas áreas alagadas por óleo, a produtividade pesqueira de uma extensa região da França ficou prejudicada por vários anos.

O Governo da França, em conjunto com pescadores, criadores de moluscos marinhos, empresas da área de turismo, entre outros prejudicados com o acidente, entrou com um pedido de indenização na Justiça dos Estados Unidos, país onde fica a sede da empresa propritária do Amoco Cadiz. Em 1992, as partes chegaram a um acordo, quando foi acertada uma indenização de US$ 200 milhões, menos da metade do valor reinvindicado pelos europeus.

O gravíssimo acidente com o superpetroleiro Amoco Cadiz provocou uma série de mudanças na legislação dos países europeus, tornando muito rigorosas as regras de segurança exigidas para o embarque, transporte, desembarque e armazenamento de petróleo no continente. Graças a todas essas mudanças, nenhum outro acidente de grande porte como o do Amoco Cadiz voltou a ser registrado.

Felizmente, existem lugares do mundo onde as pessoas aprendem alguma coisa a partir de seus próprios erros. Ai que inveja que dá…

A INVASÃO DO KUWAIT PELO IRAQUE EM 1990, O INCÊNDIO DE POÇOS E O DESPEJO PROPOSITAL DE 500 MILHÕES DE BARRIS DE PETRÓLEO NO MAR

Vazamentos de petróleo no Kuwait

Quando se fala em derrame de petróleo no mar, é obrigatório citar o despejo intencional de 500 milhões de barris por tropas do exército do Iraque ao longo da desastrosa invasão do Kuwait entre 1990 e 1991. Esse gigantesco derramamento de petróleo é considerado o maior da história da humanidade e suas consequências nas águas do Golfo Pérsico são sentidas até hoje. Para entender a origem do conflito entre o Iraque e o Kuwait, é preciso relembrarmos um pouco da história do antigo Império Otomano:

A partir do final do século XIII, começou a se formar na região da Anatólia, na Turquia, aquele que seria conhecido no mundo todo como o Império Otomano. Esse Império foi fundado pelo líder tribal Oguz Osmã I por volta do ano 1299. Ocupando inicialmente todo o território da Turquia, o Império Otomano começou a se expandir em direção ao Cáucaso, Sudeste da Europa, Ásia Ocidental, Norte da África e também na região conhecida como Chifre da África. Esse grande Império sobreviveu até 1922 – os turcos se aliaram aos alemães na I Guerra Mundial e, terminado o conflito, grande parte do território do derrotado Império Otomano acabou na mão das Potencias Aliadas vencedoras da Grande Guerra Mundial. 

As fronteiras atuais do Iraque e do Kuwait foram demarcadas pela Sociedade das Nações em 1920, quando foi assinado o Tratado de Sèvres, acordo internacional para a divisão dos territórios do Império Otomano entre os Aliados (Reino da Grécia, Reino da Itália, Império Britânico e República Francesa). Essa região ficou submetida a autoridade do Reino Unido, onde foi criado o Mandato Britânico da Mesopotâmia. Essa divisão foi feita de forma a atender os interesses econômicos dos Britânicos, entenda-se aqui a exploração do petróleo, e não levou em conta os povos que viviam nesses territórios desde a antiguidade. 

Historicamente, a região onde foi formado o Kuwait fazia parte de uma grande região ocupada por tribos sunitas, o principal grupo étnico do Iraque. Em 1932, o Iraque conquistou sua “independência” do Império Britânico e, desde então, a ideia de integrar o Kuwait ao território iraquiano passou a ser gestada. O Kuwait se manteve como um protetorado independente do Império Britânico até 1961, o que inibiu por muito tempo as intenções expansionistas do Iraque. 

Em agosto de 1990, quando o Iraque era dirigido pelo sanguinário ditador Saddam Hussein, tropas do país invadiram o Kuwait, que foi transformado em uma província do Iraque. As justificativas de Saddam para essa invasão citavam a ligação histórica da região e dos seus habitantes ao Iraque, falavam de roubo de petróleo do subsolo iraquiano pelo Kuwait e que estava sendo vendido abaixo do preço do mercado internacional, entre outras desculpas esfarrapadas. Segundo muitos analistas internacionais, a real intenção do Governo do Iraque era se livrar de uma grande dívida junto Kuwait, resultante de um empréstimo tomado durante a Guerra Irã-Iraque, conflito que se estendeu de 1980 a 1988 e que arrasou a economia do país.

O grande “golpe de mestre” de Saddam Hussein não durou muito tempo – uma grande coalizão militar liderada pelos Estados Unidos e com a participação de 30 países aliados foi formada com autorização do Conselho de Segurança da ONU – Organização das Nações Unidas. Vigorosas sanções econômicas foram impostas ao Iraque, que foi intimado a sair do Kuwait até o início de janeiro de 1991. O Iraque não atendeu aos apelos da ONU. 

No dia 17 de janeiro de 1991 teve início a chamada “Operação Tempestade no Deserto”, também chamada de I Guerra do Golfo. Essa foi a maior operação militar desde o final da II Guerra Mundial e foi transmitida ao vivo por televisões de todo o mundo. Quem é um pouco mais velho deve se lembrar dos poderosos mísseis Tomahawk lançados pelos navios de guerra americanos, que iluminavam as noites do deserto com suas explosões. Os iraquianos respondiam os ataques lançando seus antiquados mísseis Scud. Caças bombardeiros dos países aliados decolavam a todo momento de porta-aviões e bases áreas próximas, atingindo com “precisão cirúrgica” as posições iraquianas. Dados históricos falam de 85 mil toneladas de bombas lançadas nesse conflito. 

O poderio desproporcional das forças aliadas levou o Iraque a abandonar o Kuwait em 26 de fevereiro. As estimativas falam de baixas entre as tropas do Iraque entre 60 mil e 200 mil, além de um número de civis iraquianos mortos estimados entre 40 mil e 180 mil. Entre os kuwaitianos, as estimativas falam de 4 mil a 7 mil mortos. As forças aliadas perderam 148 soldados em combate, além de 145 mortes por motivos diversos, entre eles o chamado “fogo amigo”. Essa retirada vergonhosa dos iraquianos não foi gratuita –Saddam Hussein ordenou a abertura de todas as válvulas dos reservatórios de petróleo, oleodutos e navios petroleiros do Kuwait, o que levou ao vazamento de cerca de 500 mil barris de óleo nas águas do Golfo Pérsico. O ditador talvez imaginasse incendiar todo esse óleo, de forma a prejudicar as ações militares das forças aliadas.  

Outra ordem dada por Saddam Hussein a seus soldados foi a de destruir e incendiar todos os poços de petróleo em operação no Kuwait (vide foto). Essa é uma antiga tática militar usada por forças em debandada – a “terra arrasada”. A ideia dessa “política” é a de destruir toda a infraestrutura dos territórios abandonados – ferrovias, rodovias, pontes, fábricas, redes de energia elétrica e de telecomunicações, refinarias de petróleo, entre outras, o que evitará seu uso pelas tropas inimigas. De acordo com as imagens de satélite da época, cerca de 500 poços de petróleo foram incendiados no Kuwait. 

As colunas de fumaça geradas por esses incêndios chegavam a se estender por distâncias de até 1.300 km, lançando grandes quantidades de fuligem sobre o deserto, que em muitos lugares ficou totalmente negro. A atmosfera local ficou tomada por grandes quantidades de dióxido de enxofre, causando uma série de problemas respiratórios na população local. Um geólogo egípcio que trabalhou nas operações de contenção dos incêndios nos poços de petróleo afirmou que os incêndios e a grande mancha de óleo no Golfo Pérsico eram a “mãe de todos os desastres ambientais”. Essa afirmação ironiza uma fala frequente do ditador iraquiano, que dizia se essa era “mãe de todas as guerras”.

Foram necessários quase dez meses de trabalho de equipes especializadas somente para apagar os incêndios de todos os poços de petróleo, a um custo estimado de US$ 12 bilhões. Cerca de metade do petróleo que vazou no Golfo Pérsico pode ser recuperado com o uso de embarcações com equipamentos especiaisde sucção. Grandes quantidades de petróleo foram lançadas contra as praias do Kuwait e da Arábia Saudita, onde foi necessário o emprego de grandes equipes de trabalhadores e o uso de muitas máquinas para a limpeza da areia. Uma parte considerável desse petróleo acabou afundando e se acumulando sobre o fundo marinho e os recifes da região. 

Passados quase trinta anos dessa tragédia, os ecossistemas locais ainda não se recuperaram completamente. As marcas negras do petróleo ainda podem ser vistas nos recifes e nas algas da região; as populações de peixes, aves e outros animais marinhos ainda não se recuperaram. De acordo com especialistas da área médica, a incidência dos casos de problemas cardíacos e de câncer aumentou consideravelmente na população do Kuwait, uma consequência direta da poluição. Doenças respiratórias que antes eram consideradas pouco frequentes na região passaram a ser consideradas comuns e muito preocupantes

Saddam Hussein acabaria sendo deposto e preso em 2003 durante a chamada II Guerra do Golfo. Ele foi julgado por um Tribunal Especial iraquiano por genocídio e crimes contra a humanidade, sendo condenado a morte e enforcado em 2006. Seu “legado” para as gerações futuras, entretanto, ainda demorará muito até ser completamente superado (se é que isso venha a ser totalmente possível). 

Os tiranos se vão, mas as tragédias ambientais ficam…

O ROUBO DE PETRÓLEO E AS “REFINARIAS” CLANDESTINAS NA NIGÉRIA

A fireman targets his water hose at the base of a fire after a pipeline fire erupted in Ijegun area of Lagos

Em junho de 2003, centenas de moradores da pequena vila Amaoke Oghughe, na região Sudeste da Nigéria, se aglomeravam ao redor do vazamento de um dos muitos oleodutos que atravessam o país. Como é cotidiano na Nigéria, um grupo criminoso especializado no roubo de petróleo fez um furo na tubulação e instalou uma derivação para levar parte do óleo para uma “refinaria clandestina” nas proximidades. A instalação improvisada deixava vazar uma grande quantidade de óleo, o que atraiu muitos moradores locais, que queriam aproveitar para também faturar uns trocados enchendo baldes e latas com o petróleo.  

De repente, ocorreu uma grande explosão, seguida por um intenso incêndio (vide foto). As autoridades locais imaginam que foi uma fagulha, provavelmente criada por uma motocicleta que passou no local, que provocou essa enorme explosão. De acordo com informações da Cruz Vermelha, pelo menos 105 pessoas morreram na tragédia, além de centenas que sofreram queimaduras e ferimentos causados por estilhaços. 

Longe de ser um acontecimento isolado, esse tipo de acidente é frequente na Nigéria – se você fizer uma pesquisa na internet, encontrará dezenas de casos semelhantes nos últimos anos. Além das precárias condições de manutenção dos sistemas de oleodutos no país, é o roubo de petróleo um dos principais causadores desse tipo de tragédia na Nigéria. De acordo com dados oficiais, cerca de 10% do petróleo produzido no país é perdido, seja através de vazamentos, que são muitos, seja por causa do roubo realizado por esses grupos especializados

modus operandi das quadrilhas é quase sempre o mesmo – utilizando de informações fornecidas por comparsas que trabalham nas empresas petrolíferas do país, as quadrilhas sabem com antecedência os momentos em que o bombeamento do petróleo nos dutos vai ser desligado para a realização de algum tipo de manutenção. Perfurar uma tubulação de óleo pressurizada é extremamente perigoso – o óleo poderia incendiar com o calor do atrito da broca e, muito pior, o vazamento de um jato de óleo sob alta pressão pode até matar alguém que esteja no caminho. 

Com o oleoduto despressurizado, as quadrilhas conseguem furar as tubulações com alguma segurança e adaptar de forma precária tubulações para desviar o óleo. Como o encaixe dessas tubulações não é preciso, quase sempre eles têm vazamentos e estão na origem de muitas das explosões de oleodutos que citamos. As tubulações instaladas pelas quadrilhas normalmente levam o petróleo roubado para pequenas refinarias clandestinas, onde o óleo será “refinado” e transformado em querosene, gasolina e óleo diesel, produtos que serão vendidos por toda uma rede de pequenos comerciantes do país.  

Esses combustíveis “genéricos”, apesar de ter uma qualidade duvidosa e causar uma série de problemas nos motores dos veículos, são bem mais baratos que os derivados de petróleo produzidos pelas grandes empresas petroquímicas do país e, por essa razão, tem um forte apelo no grande mercado popular. 

O petróleo bruto ou cru é formado por dezenas de substâncias químicas, água, metais, além de diversas impurezas do solo. Durante o processo de refino, o petróleo primeiro é decantado para separar a água e as impurezas mais pesadas, Depois, o petróleo passa por processos químicos onde se obtém as frações do petróleo, que são a base dos diferentes derivados. Entre os processos químicos usados para o refino do petróleo destacam-se a destilação fracionada, a destilação a vácuo, o craqueamento térmico ou catalítico e a reforma catalítica

O processo de refino do petróleo utilizado pelas quadrilhas da Nigéria é uma adaptação da destilação fracionada. Nesse processo, o petróleo é colocado em uma espécie de “panela de pressão”, que depois é colocada no fogo gerado pela queima de petróleo. Com o aumento da temperatura e da pressão, os elementos mais leves do petróleo começam a migrar para a superfície do óleo e são retirados por meio de uma tubulação. O gás é sempre o primeiro derivado a desprender do petróleo. Na sequência vem o querosene, a gasolina e o óleo diesel. Os elementos mais pesados – o óleo combustível e o piche ficam para o final. 

As grandes refinarias de petróleo são dotadas de equipamentos e infraestruturas projetadas especialmente para a realização desses processos; todas as etapas do refino são realizadas com absoluta segurança e cuidadosamente monitoradas por uma série de sensores e por profissionais especializados em petroquímica. Nas refinarias clandestinas da Nigéria, os equipamentos usados são fabricados a partir de sucatas, velhos barris metálicos, canos de água e mangueiras de jardim, sem maiores sofisticações técnicas e sujeitos a todos os tipos de problemas e falhas ao longo dos processos de refino. Os “operadores” dessas destilarias não tem qualquer formação técnica e ficam sujeitos a explosões, incêndios, inalação de vapores tóxicos entre outros tipos de acidentes. Não são raros os casos de mortes e os acidentes com queimaduras graves nessas refinarias. 

As autoridades civis e militares sabem onde ficam essas destilarias – grandes colunas de fumaça negra, resultante da queima do petróleo, indicam claramente a sua localização. De acordo com os trabalhadores dessas refinarias, as autoridades costumam fazer vista grossa mediante o recebimento de algum suborno. Mesmo quando um fiscal ou um militar bem-intencionado leva o dono de uma dessas refinarias até uma delegacia ou quartel militar, basta uma boa conversa com alguma promessa de pagamento futuro de vantagem para conseguir a liberação. 

Em meio ao caos criado por essas atividades clandestinas, populações que moram em vilarejos próximos sofrem com a forte poluição do ar. As nuvens de fumaça e de vapores tóxicos invadem as casas, provocando graves problemas respiratórios, especialmente em crianças e idosos. Os resíduos mais pesados do petróleo, que se acumulam no fundo dos destiladores improvisados e não tem valor comercial para esses grupos, são descartados no meio ambiente, se juntando ao petróleo que vaza das tubulações, comprometendo águas e solos. 

As grandes multinacionais petrolíferas que atuam no país, como a anglo-holandesa Shell, afirmam que seguem as “melhores práticas de engenharia e de segurança em seus sistemas de oleodutos” – para essas empresas, as organizações criminosas é quem são as responsáveis pelos acidentes e pela poluição do ar, da água e dos solos. Esse é um argumento fraco: quando o número de acidentes em instalações petrolíferas dessas empresas na Nigéria é comparado com os que ocorrem em seus países de origem, os números são bem maiores. Essas empresas também alegam que a lucratividade de suas operações na Nigéria é muito baixa e que, por essa razão, não dispõem de grandes recursos para modernizar suas instalações petrolíferas no país. 

Nesse jogo de empurra-empurra, milhões de nigerianos ficam expostos a condições de vida das mais degradantes, ilhados em meio a pobreza extrema, condições de trabalho sem os mínimos padrões de segurança e cercados por poluição generalizada. Estudos indicam que essas populações têm uma expectativa de vida de apenas 40 anos, o que é menos da metade do esperado nos países sede dessas grandes multinacionais

Alguma coisa está muito errada nesse processo todo… 

OS VAZAMENTOS DE PETRÓLEO NA NIGÉRIA E A DESTRUIÇÃO DO DELTA DO RIO NÍGER

Manguezal do Delta do rio Níger

Na nossa última postagem fizemos uma breve apresentação da indústria petrolífera na Nigéria, conhecida como a “Grande Nação Africana”. Desde 2013, a Nigéria ocupa a primeira posição entre as economias da África e é o país mais populoso do continente – são essas as duas características que justificam a alcunha dada ao país. A base da economia da Nigéria é a exploração do petróleo, atividade responsável por 40% do PIB – Produto Interno Bruto, e por 80% das receitas do Governo Federal

Infelizmente, como não é incomum nos países africanos, a distância entre a riqueza e o caos é muito pequena. A exploração selvagem desse recurso transformou algumas das mais belas paisagens do país em terras e águas mortas, cobertas por resíduos de óleo e de piche. Os vazamentos de petróleo nos gasodutos são frequentes, contaminando grandes áreas e, especialmente, alguns dos mais importantes rios do país. Esse descaso pode ser visto com toda a sua intensidade na outrora fabulosa região do Delta do rio Niger

Com cerca de 4.180 km de extensão, o rio Níger é o terceiro maior rio da África, só ficando atrás dos rios Nilo e Congo. Sua bacia hidrográfica tem aproximadamente 2,2 milhões de km² e abrange cinco países: Guiné, Mali, Níger, Benim e Nigéria. Conforme se aproxima da sua foz no Oceano Atlântico, o rio Níger se abre num grande delta com cerca de 70 mil km². Cerca de 31 milhões de pessoas vivem nessas áreas férteis, habitadas desde tempos imemoriais. 

A primeira grande “riqueza” explorada pelos comerciantes europeus a partir do final do século XV no Delta do rio Níger foram os negros escravizados, que eram vendidos a altos preços nas colônias que começaram a surgir no Novo Mundo, especialmente no Brasil, Antilhas e Estados Unidos. A escravização e a venda de seres humanos na África já eram milenares naqueles tempos, sendo resultado das infinitas guerras entre as diferentes etnias. A navegação pelo rio Níger permitia o transporte de grandes comboios de embarcações repletas de escravos, o que transformou as costas da Nigéria num grande mercado para esse tipo de “produto”. 

Um segundo produto local que aos poucos começou a conquistar mercados pelo mundo foi o azeite de palma, mais conhecido como azeite de dendê. A palma ou dendezeiro é uma árvore nativa da costa Oeste da África e, conforme já apresentamos em postagens anteriores, é a planta que produz a maior quantidade de óleo vegetal por hectare plantado, superando com muita folga a soja e o milho. Além dos usos na culinária, o azeite de palma era um importante combustível, usado principalmente para iluminação de residências e vias públicas no passado. 

Em décadas bem mais recentes, foi o petróleo que se transformou na grande riqueza da Nigéria, uma atividade que durante muito tempo foi dominada por grandes empresas petrolíferas internacionais. E como sempre aconteceu ao longo da história, empresas fortes dominam facilmente Governos fracos – em busca de lucro rápido e fácil, essas empresas passaram a explorar o petróleo de modo selvagem, sem maiores preocupações com a qualidade de vida das populações locais e com o meio ambiente. 

Grandes unidades de prospecção e de perfuração de petróleo começaram a aparecer por todos os cantos, sem que se realizassem estudos de impacto ao meio ambiente ou se mostrassem maiores preocupações com as comunidades vizinhas. Grandes sistemas de oleodutos passaram a rasgar os territórios, sem maiores esforços com a manutenção das tubulações ou reparos de pequenos vazamentos – enquanto o petróleo chegasse em grandes quantidades aos terminais de embarque e garantisse bons lucros para as empresas, pequenas perdas ao longo das linhas de tubulações seriam toleradas. 

Essa mentalidade persistiu por várias décadas, transformando muitos corpos d’água da Nigéria em depósitos de resíduos de petróleo. Gradativamente, esses vazamentos de óleo começaram a escorrer na direção do Delta do rio Níger, hoje tomado por poças de óleo. Grupos ambientalistas calculam que, nos últimos 50 anos, mais de 10 milhões de barris de petróleo vazaram na Nigéria e poluíram grandes extensões de terras e águas. Para efeito de comparação, o grande derrame de petróleo no Alasca provocado pelo navio petroleiro Exxon Valdez em 1989 ficou entre 250 mil e 750 mil barris. Porém, muito diferente da grande repercussão midiática daquele acidente, esses vazamentos de óleo na Nigéria são silenciosos. 

De acordo com um estudo feito pelo PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, as maiores vítimas dessa poluição são as populações do Delta do rio Níger, que consomem água contaminada por hidrocarbonetos. Amostras de água recolhidas em rios, córregos e poços encontraram grandes concentrações de produtos químicos associados ao petróleo. Um exemplo é o benzeno, um elemento cancerígeno que chegou a ser encontrado em algumas amostras recolhidas em poços com uma concentração 900 vezes superior ao limite máximo permitido internacionalmente

Para o meio ambiente, esses volumes de vazamentos de petróleo são devastadores. O Delta do rio Níger apresenta a maior concentração de manguezais de todo o continente africano. Os mangues são ecossistemas de transição entre os oceanos e a terra seca, concentrando uma enorme biodiversidade vegetal e animal. Cerca de 70% das espécies de peixes e crustáceos marinhos de grande valor comercial dependem dos manguezais para reproduzir. Com a poluição das águas por resíduos de petróleo, toda essa riqueza acaba prejudicada, comprometendo a fonte de trabalho e de renda de milhares de pescadores e a fonte de alimentação de milhões de pessoas. 

Extensas áreas de manguezais no Delta do rio Níger não têm mais folhas e as suas raízes estão cobertas por uma camada de óleo (vide foto). As inúmeras espécies marinhas que buscavam essas áreas no passado desapareceram, transformando suas águas em verdadeiros desertos sem vida. Uma espécie emblemática que costumava viver nas águas dos canais do Delta e no rio Níger é o peixe-boi marinho africano (Trichechus senegalensis), primo-irmão do peixe-boi marinho que vive nas costas do Nordeste brasileiro e primo em segundo grau do peixe-boi amazônico.  

Essa espécie marinha, que já encontra em situação altamente vulnerável por causa da caça predatória, costumava encontrar refúgio e alimentos nos inúmeros canais do Delta do rio Níger. Com a intensa destruição desses habitats, o futuro desse peixe-boi é cada vez mais incerto. Incerto também é o futuro de dezenas de milhões de seres humanos que vivem nessa extensa região. 

O Governo da Nigéria vem buscando indenizações e reparações através de processos judiciais movidos contra os grandes grupos petrolíferos que atuam no país. As empresas, é claro, alegam que seguem todas as normas de segurança e de respeito ao meio ambiente; segundo suas defesas, esses vazamentos são consequência direta dos roubos de petróleo nos oleodutos e da enorme rede de “refinarias clandestinas” que se espalham por todo o país. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

NIGÉRIA: O SEGUNDO MAIOR PRODUTOR DE PETRÓLEO DA ÁFRICA

Refinaria ilegal na Nigéria

Ao longo de várias décadas, a imagem dos maiores produtores de petróleo do mundo esteve associada aos países do chamado “Mundo Árabe”, com territórios cobertos por grandes dunas de areia e dirigidos por sheiks bilionários vestidos com seus trajes típicos extravagantes. Recentemente, essa imagem mudou muito – os dois maiores produtores de petróleo da atualidade são, respectivamente, os Estados Unidos e a Rússia, países que fogem completamente ao estereótipo popular. Até mesmo o nosso Brasil, que até meados do século XX não produzia um único barril de petróleo, já se encontra na lista dos dez maiores produtores do planeta e, dentro de poucos anos, deverá ocupar a quinta posição desse ranking

No continente africano, a situação dos países produtores também foge da imagem tradicional. O grande Deserto do Saara, com suas areias escaldantes no Norte da África, e de forte tradição árabe, ocupam um plano secundário entre os grandes produtores de petróleo – Angola é o maior produtor da África, seguido bem de perto pela Nigéria, país onde a produção é cada vez maior. A produção nigeriana atual está na casa de 1,8 milhão de barris/dia e só não é maior devido à cota de produção imposta pela OPEP – Organização dos Países Produtores de Petróleo, o grande cartel de produtores, do qual a Nigéria é membro

Mesmo repleta de problemas sociais e econômicos, a Nigéria é a maior economia da África e também a nação mais populosa do continente, com cerca de 190 milhões de habitantes. O país é habitado por mais de 250 grupos étnicos, divididos em dois grandes blocos religiosos – muçulmanos ao Norte e cristãos ao Sul, além de diversas minorias praticantes de religiões tradicionais africanas como jgbo (ou Ibo) e iorubá. Esses diferentes grupos religiosos vivem em um estado de tensão permanente, o que é agravado pela extrema pobreza em que vive a grande maioria dos nigerianos. 

Ao longo dos séculos, toda a região da África Ocidental assistiu o apogeu e a decadência de diferentes reinos e impérios como o de CanemBornuOió e Benim. A partir das últimas décadas do século XV, com a chegada dos comerciantes europeus, principalmente portugueses, toda a costa Oeste da África acabou sendo transformada em fornecedora de escravos para o mercado mundial, situação que se manteve até o século XIX e influenciou na conformação de diferentes territórios e grupos nacionais. A região do Delta do rio Niger acabou sendo ocupada pelos britânicos no final do século XIX e, após fundir diferentes protetorados, os ingleses formaram a colônia britânica da Nigéria em 1914. 

A exploração do petróleo na Nigéria foi iniciada na década de 1930, mas a descoberta de grandes reservas só se consolidou na década de 1950, quando foi iniciada a produção em larga escala. Grandes empresas multinacionais do setor como a Shell, Mobil (atual ExxonMobil), Gulf (atual Chevron), AgipSarap (atual Elf) e Texaco, entre outras, passaram a dominar a indústria petrolífera local. Em 1964, a Nigéria atingiu a expressiva produção diária de 120 mil barris de petróleo. Essa crescente produção seria prejudicada anos depois por uma guerra civil, mais conhecida como a Guerra do Biafra, que se estendeu de 1967 a 1970. Terminado o conflito, a produção de petróleo rapidamente voltou a crescer e, em 1973, já se encontrava na casa dos 2 milhões de barris/dia. 

A Guerra do Biafra, também conhecida como Guerra Civil da Nigéria e Guerra Nigéria-Biafra, foi uma consequência de uma tentativa de independência de províncias do Sudeste da Nigéria, que se autodenominavam como República do Biafra. Apesar de pouco conhecido entre nós brasileiros, esse foi um conflito violento, que fez cerca de 200 mil vítimas entre as tropas oficias do Governo da Nigéria e perto de 1 milhão do lado dos rebeldes do Biafra, entre civis e militares.

Até o início da década de 1970, a indústria petrolífera da Nigéria foi muito favorável à entrada de empresas estrangeiras, quando a Lei do Petróleo determinava que apenas 35% dos ganhos com a exploração e exportação do óleo eram devidos ao Governo local. Essa situação, que já vinha mudando lentamente desde a independência do país em 1960, mudou radicalmente após a entrada da Nigéria na OPEP em 1971. A mudança se consolidou em 1977, com a criação da Nigeria National Petroleum Corporation, uma empresa estatal que passaria a regulamentar e controlar a produção, a exportação e a concessão de blocos de exploração. Essa estatal também passou a ser a responsável pelos acordos de parceria do Governo com as empresas multinacionais do setor. 

As atividades de exploração, refino e exportação de petróleo respondem atualmente por 40% do PIB – Produto Interno Bruto, da Nigéria e pela geração de cerca de 80% das arrecadações de impostos do Governo local. Pode-se afirmar, sem sombra de dúvidas, que essa grande nação africana é movida, literalmente, a base do petróleo. 

Se, por um lado, a indústria petrolífera é tão importante para o país, ela é, ao mesmo tempo, a principal responsável pela degradação de importantes recursos naturais da Nigéria. Vazamentos de petróleo ocorrem sistematicamente no país há mais de 50 anos, com uma relativa conivência e falta de providencias das autoridades locais. De acordo com cálculos de organizações ambientalistas, cerca de 10 milhões de barris de petróleo vazaram de dutos e de unidades de processamento de petróleo do país nas últimas décadas, atingindo e contaminando rios e cursos d’água do território – a importante região do Delta do Rio Niger é uma das áreas mais atingidas

O roubo de petróleo é uma das atividades criminosas que mais crescem na Nigéria e, de acordo com muitos especialistas, uma das grandes responsáveis pelos vazamentos de óleo no país. As autoridades locais calculam que cerca de 10% da produção local de petróleo é roubada por esses grupos, que se valem de desvios feitos nas tubulações dos oleodutos. Os dutos de transporte de petróleo são perfurados e tubulações improvisadas são instaladas para desviar o óleo cru para inúmeras “refinarias clandestinas de petróleo” (vide foto). Esses desvios normalmente geram vazamentos de óleo no meio ambiente, o que muitas vezes acaba resultando em explosões e grandes incêndios. Todos os anos, o Exército da Nigéria fecha centenas dessas “refinarias”, que rapidamente voltam a funcionar em outros locais. 

A partir do início da década de 1990, com a descoberta de grandes reservas petrolíferas na plataforma marítima da Nigéria, teve início a exploração offshore, que responde atualmente por metade da produção de petróleo do país. Essa nova modalidade de produção contribuiu para a redução da exploração em terra e, consequentemente, pela redução dos roubos nos oleodutos e instalações petrolíferas. Ainda assim, a situação contínua sendo muito grave. 

Na próxima postagem, vamos falar mais desses roubos e vazamentos de petróleo, além de todo um conjunto de problemas ambientais que eles geram na Nigéria.