A FRAGMENTAÇÃO E A REDUÇÃO DE HABITATS, OU POR QUE TANTA PREOCUPAÇÃO COM AS FLORESTAS DA AMÉRICA CENTRAL?

Corredor de biodiversidade

Nas últimas postagens aqui do blog, apresentamos um quadro bastante preocupante da conservação ambiental nos países que formam a América Central. Depois de séculos de derrubada de matas para a criação de campos agrícolas e pastagens, a região apresenta hoje um quadro caótico no que diz respeito à conservação de suas florestas. 

Conforme comentamos no início dessa sequência de postagens, a história natural da América Central sofreu uma completa reviravolta após a formação do Istmo do Panamá, uma ponte de terra seca que uniu as duas grandes massas de terras das Américas do Norte e do Sul. Espécies animais e vegetais (sementes e frutos transportados por animais) dos dois lados dessa “ponte” passaram a se deslocar através desse corredor de biodiversidade, criando novos e riquíssimos biomas.  

A floresta tropical que se formou nas terras mais baixas é uma espécie de extensão da Floresta Amazônica, que com o passar do tempo desenvolveu novas espécies vegetais e criou habitats para uma infinidade de seres vivos. Nas terras mais altas, florestas de coníferas e pinheiros, típicas do hemisfério Norte, se expandiram e se adaptaram a novos climas e terrenos. 

Com o “descobrimento” e conquista das Américas, toda a região centro-americana passou a receber grandes contingentes de imigrantes, assistindo a formação de novas populações e o nascimento de inúmeras cidades. As matas passaram a ser derrubadas, tendo início um processo contínuo de fragmentação e redução de florestas e de habitats para a vida selvagem. 

E o que isso tem de tão problemático? 

Em primeiro lugar, a perda de cobertura florestal de uma região terá reflexos diretos na disponibilidade de água. As árvores são fundamentais para a infiltração da água das chuvas nos solos, algo essencial para a recarga dos lençóis subterrâneos e aquíferos que alimentam as nascentes de córregos e rios. Outro ponto são os solos férteis das florestas tropicais, que costumam ser rasos e são formados por uma camada de matéria orgânica resultante da decomposição de restos de galhos, folhas e de animais mortos da própria floresta.  

Com a destruição da cobertura vegetal, essa camada de matéria orgânica se perde rapidamente, com o complicador criado pelo carreamento de solos e sedimentos para a calha de rios e lagos. Esse assoreamento dos corpos d’água vai criar problemas na drenagem das águas pluviais da região e resultar em enchentes e destruição de margens. Esses dois problemas são recorrentemente citados em nossas postagens. 

Existe também um grande número de problemas criados para a vida animal dessas florestas, sobre os quais costumamos falar pouco e que hoje gostaríamos de tratar com maiores detalhes. Falo aqui da fragmentação e diminuição dos habitats, que no curto e médio prazo implicam na perda de espécies animais, mas que no longo prazo implicam na destruição da própria floresta. 

Podemos definir habitats como ambientes físicos ou ecológicos onde diferentes espécies – animais, vegetais, fungos, bactérias e vírus, vivem em equilíbrio. Também é importante citarmos que existe uma interdependência entre as espécies. Um exemplo são as plantas que produzem flores como parte de seu sistema de reprodução e que dependem de insetos, aves e outros animais como morcegos para realizarem a polinização.

Em alguns casos de extrema especialização, existe um único inseto ou ave que faz essa polinização – se esse polinizador desaparecer, por extinção por exemplo, a espécie vegetal também estará condenada. Essa regra também vale para os predadores especializados, que controlam as populações de outras espécies e mantém o meio ambiente em equilíbrio.

Sempre que analisamos a ecologia de uma floresta, precisamos nos preocupar tanto com a área de solos ocupados pela vegetação quanto com os diferentes “níveis” entre os solos e a copa das árvores ou dossel. A distribuição de espécies segue uma espécie de padrões “por andares”. Existem espécies que vivem no solo e subsolo, e que variam conforme a localização e o tipo desses solos. Aqui podemos citar os insetos, vermes e outros invertebrados, assim como animais terrestres como mamíferos, répteis, anfíbios e aves, entre outros. 

Essa distribuição ecológica também se dá nos “andares superiores” da floresta. Conforme vai se subindo nas árvores, diferentes espécies habitam diferentes níveis. Cito como exemplo algumas espécies de rãs que vivem dentro de pequenas porções de água acumuladas entre as folhas de algumas espécies de bromélias a dezenas de metros do solo. Essas rãs se adaptaram para uma vida em um ambiente completamente diferente do seu ambiente natural em rios e lagos. Posso citar também inúmeras espécies de macacos que vivem no dossel das árvores, onde encontram alimento e abrigo, e que nunca precisam descer até o nível do solo. Frequentemente, esses macacos consomem a águas das bromélias que citei.

Imagine agora que essa floresta foi dividida ao meio por uma inocente ferrovia ou rodovia, onde a construção exigiu a remoção de uma faixa contínua de mata. Para muitos animais terrestres maiores como mamíferos, essa perda de mata não é  tão significativa e eles conseguem atravessar, correndo algum risco, de um lado da mata para outro, sem maiores dificuldades. Outros animais como cobras, anfíbios, aves terrestres e pequenos mamíferos até poderão tentar atravessar essa faixa sem cobertura vegetal, mas ficarão expostos ao ataque de inúmeros predadores – por essa razão, muitos vão desistir da travessia.

Já para os macacos que vivem no dossel das árvores, essa faixa sem vegetação forma uma borda intransponível e as populações desses animais vão ficar “ilhadas” em cada um dos fragmentos da floresta. Essas populações isoladas vão perder diversidade genética ao longo do tempo, o que é uma espécie de meio caminho para a extinção dos animais no longo prazo. Essa barreira que se criou na mata e que impede a livre circulação das espécies é o que se chama na biologia da conservação de Efeito de Borda.

Agora peço que você imagine uma situação mais complexa como a que foi criada pela construção do Canal do Panamá, onde além da derrubada de uma extensa faixa da floresta, foi escavado um canal de navegação no solo. Alguns animais como onças, chamadas de jaguar na América Central, bichos-preguiça e capivaras, entre outros, são excelentes nadadores e não terão dificuldades em continuar circulando pelos seus antigos territórios. Para a imensa maioria das espécies animais, uma obra como essa cria uma barreira intransponível. 

Além de espécies animais, inúmeras plantas e árvores também ficarão restritas a territórios isolados, passando a correr riscos de desparecimento no longo prazo. Frutas e frutos com sementes são consumidos por aves, mamíferos, répteis e peixes, entre outros animais. Essas sementes são transportadas no estomago e intestinos desses animais até serem expelidas nas fezes, quando vão ganhar a oportunidade de germinar e formar novos indivíduos.  

Outros tipos de sementes, como os carrapichos, grudam nos pelos de animais e assim são também transportadas por longas distâncias. Com a fragmentação dos habitats, muitos desses animais têm suas migrações ou andanças pelas matas interrompidas, deixando assim de cumprir o seu papel biológico de dispersores de sementes e frutos. 

Esses processos, onde também se incluem as derrubadas de matas para a formação de campos para agricultura e pastos para animais, além de atividades mineradoras, construção de rodovias e represas, entre outras obras de infraestrutura, resultam no retalhamento de grandes áreas florestais, formando ilhas de vegetação e onde uma infinidade de espécies de animais vão acabar ficando confinadas. Esses processos de devastação florestal se multiplicaram ao longo dos séculos, em maior ou menor grau, por todos os países da América Central e hoje ameaçam a sobrevivência de inúmeras espécies animais e vegetais. 

Quando os primeiros exploradores europeus chegaram ao Novo Mundo nos últimos anos do século XV, as florestas tropicais da América Central se estendiam de forma contínua desde os sopés dos Andes na Colômbia até o Sul do México, cobrindo mais de 600 mil km². Se você pegar um mapa da região nos dias de hoje, o máximo que você vai encontrar serão pequenas manchas verdes, algumas menores e outras maiores, dos inúmeros fragmentos florestais remanescentes espalhados pelos países da região. Na Costa Rica e em Belize, países que adotaram políticas mais arrojadas para proteção e recuperação das áreas naturais, essas manchas são bem maiores. 

Como é virtualmente impossível se pensar em políticas de reflorestamento em grande escala na maioria dos países da América Central, é importante que se criem, com extrema urgência, corredores biológicos ou faixas de vegetação para a ligação desses fragmentos ou ilhas de vegetação, permitindo assim a livre circulação das espécies (vide foto). Isso não vai resolver o problema, mas pelo menos evitará que muitas espécies animais e vegetais entrem em extinção, o que é um caminho sem volta. 

Como eu sempre costumo comentar aqui no blog, há gente demais preocupada em salvar a Floresta Amazônica e gente de menos ocupada com os graves problemas de outras florestas tropicais em risco em todo o mundo. As florestas tropicais da América Central são um desses casos.

PS: Para você que se interessou pelo assunto, apresentado aqui de forma ultra resumida, recomendo o excelente livro Biologia da Conservação de Richard B. Primack e Efraim Rodrigues. 

COSTA RICA: UM VERDADEIRO PARAÍSO CENTRO-AMERICANO PARA OS ECOTURISTAS

Parque Nacional Tortuguero

Até meados do século XX, a Costa Rica era uma das muitas Repúblicas de Bananas da América Central. Controlados política e economicamente por empresas norte-americanas produtoras de frutas tropicais, como era o caso da United Fruits Company, esses países normalmente eram dirigidos por chefes oligárquicos ou por militares “de confiança dos Estados Unidos”. Uma das imagens mais arquetípicas dos presidentes centro-americanos que encontramos nos livros de história mostra um militar fardado com dezenas de medalhas penduradas no peito e até na barriga. 

Até 1821, praticamente toda a América Central estava reunida em um único território – a Capitania-geral da Guatemala, uma possessão da Coroa da Espanha. A partir da proclamação da independência, os diversos grupos políticos regionais entraram em conflito, o que resultou na fragmentação do antigo território e na formação dos diferentes países que compõem o mapa da América Central que conhecemos hoje. Como consequência da instabilidade política da região, todos os países centro-americanos sempre destinaram partes substanciais de seus orçamentos para a manutenção e equipamento de grandes contingentes de forças militares. 

Em 1948, graças a uma decisão do então Presidente José Figueres – mais conhecido entre os costarriquenhos como “Don Pepe” Figueres, a Costa Rica se tornou um dos primeiros países do mundo a abolir as suas forças armadas. No ano seguinte, a decisão foi incluída na Constituição do país, se tornando uma das “cláusulas pétreas” da legislação local e mudando os rumos do desenvolvimento econômico, social e ambiental do país. 

Estudos recentes indicam que, a partir da desmilitarização do país, a Costa Rica aumentou seus investimentos em educação de 15% para 35% do PIB – Produto Interno Bruto. Os recursos destinados à saúde foram elevados para 29% do PIB e os recursos destinados à seguridade social foram triplicados. Os estudos também demonstraram que as taxas de crescimento médio da economia do país também aumentaram.  

Até 1949, a taxa anual média de crescimento da Costa Rica era da ordem de 1,33% – a partir de 1950, esse crescimento passou a uma taxa de 2,44% ao ano. Depois de décadas de pesados investimentos em saúde e educação, a atual expectativa de vida dos costarriquenhos é de 78 anos e a taxa de alfabetização é de 96,3%, valores de dar inveja a qualquer país latino-americano e similares a de países nórdicos

Essa “reinvenção” da Costa Rica também se refletiu em mudanças na estrutura econômica. A agricultura sempre esteve na base da produção econômica do país onde, além de frutas tropicais como as bananas, o café era um dos grandes destaques. Até o início da década de 1980, depois de séculos de desmatamentos, os remanescentes florestais da Costa Rica cobriam apenas 1/4 da área territorial do país. 

Data dessa época o início de um processo de valorização do patrimônio natural e de mudanças na estrutura produtiva, onde o Governo passou a coibir o avanço dos desmatamentos. Em 1996, o Governo da Costa Rica criou uma política de pagamento por serviços ambientais – agricultores que preservassem as matas nativas em suas propriedades e que realizassem a recomposição de áreas florestais degradadas passariam a receber compensações financeiras.  

Em menos de 20 anos, essa política resultou na duplicação da cobertura florestal, saltando de 26% para 52,4% da superfície do país. A Costa Rica se transformou numa referência mundial em preservação e recuperação ambiental. O país também se transformou numa espécie de “Meca” do ecoturismo na América Central, atraindo cada vez mais multidões de amantes da natureza. 

De acordo com dados da DGME – Direção Geral de Migração e Estrangeiros da Costa Rica, o pequeno país de 51 mil km² recebeu nada menos que 3,1 milhões de turistas em 2019, o significou um crescimento de mais de 4% em relação aos números de 2018, sendo o dobro da taxa de crescimento do turismo nas Américas. Esse impressionante número de visitantes é praticamente a metade do número de turistas que desembarcaram no Brasil no mesmo período. Aqui não custa lembrar que o território brasileiro tem mais de 8,5 milhões de km². 

E o que é que a Costa Rica tem de tão especial para atrair tantos visitantes? 

A resposta é simples: muita natureza bem preservada. O país conta atualmente com mais de 100 áreas de preservação ambiental, 35 parques nacionais e 8 reservas biológicas. Além de possuir duas fachadas oceânicas, uma no Oceano Pacífico a Oeste e outra no Mar do Caribe a Leste, a Costa Rica possui nada menos que 112 vulcões e guarda em suas matas cerca de 6% da biodiversidade mundial

Entre os vulcões do país, destacam-se o Arenal, o mais famoso de todos, e o Poás. Entre os parques, um dos grandes destaques é o Parque Nacional Tortuguero, que fica na costa do Mar do Caribe e onde uma das principais atrações turísticas é a desova das tartarugas marinhas, que acontece sempre entre os meses de junho e julho. Esse evento atrai milhares de turistas todos os anos (vide foto). 

Os pacotes turísticos oferecidos aos visitantes, normalmente, incluem um roteiro de “costa a costa”, onde são visitados os principais parques nacionais e atrações turísticas da Costa Rica. Além dos ambientes naturais, esses roteiros turísticos costumam incorporar atividades de esporte de aventura, uma modalidade que faz muito sucesso entre os visitantes mais jovens. Destacam-se aqui o arvorismo; bungee jump, rapel e tirolesa; canoagem, stand up paddle e rafting; balonismo, surf e mergulho, entre muitas outras atividades. 

A partir de 1995, o turismo passou a representar a principal fonte de receitas em moeda estrangeira da Costa Rica. Em 1999, essas receitas superaram a soma das exportações de café, abacaxis e bananas, os tradicionais e principais produtos da pauta de exportações do país.  

De acordo com dados disponíveis de 2008, as atividades ligadas ao turismo respondiam na época a 7,2% do PIB do país e geravam 13,3% dos empregos diretos e indiretos – esses números, muito provavelmente, melhoraram ainda mais nos últimos anos. Apesar de todas essas boas notícias, cerca de 20% da população ainda vive no limite da pobreza, o que mostra que ainda há para se melhorar na Costa Rica. 

Dentro de uma abordagem geopolítica clássica, um país pequeno e pobre como a Costa Rica, sem contar com um grande aparato de forças militares para proteger o seu território, teria sido facilmente conquistado por nações mais poderosas da vizinhança e teria a sua população oprimida e explorada por forças estrangeiras.  

Contrariando todas essas probabilidades, aconteceu justamente o contrário – o país passou a contar com mais recursos financeiros para investimentos em saúde, educação e desenvolvimento sustentável. Comparado aos demais países da América Central continental e das ilhas do Mar do Caribe, a Costa Rica é hoje uma verdadeira “Suíça centro-americana”. 

Para você pensar na cama: um país tão grande como o nosso, com mais de 7 mil km de praias e biomas tão diversificados como a Amazônia, Cerrado, Caatinga e Pantanal, não poderia também passar a incentivar a preservação ambiental e faturar alto e a longo prazo com o ecoturismo? 

Ou será que nós ganharemos mais destruindo nossos biomas para plantar a soja e o milho, que exportamos para países estrangeiros usarem na produção de ração para engorda de porcos e galinhas?

A ELOGIÁVEL CONSERVAÇÃO DAS FLORESTAS PRIMÁRIAS EM BELIZE

Ecoturismo em Belize

Nas últimas postagens publicadas aqui no blog, foi possível demonstrar que a situação ambiental na maioria dos países que formam a América Central continental não é das melhores. Atividades agrícolas, mineradoras e também grandes obras de infraestrutura como o Canal do Panamá, destruíram e fragmentaram a outrora exuberante floresta tropical, que se estendia desde os sopés da Cordilheira dos Andes na Colômbia até a Península de Iucatã (ou Yucatán em espanhol) no Sul do México.

A formação dessa importante floresta, com sua complexa vida animal e vegetal, foi o resultado da formação do Istmo do Panamá, uma ponte de terra que ligou as grandes massas de terra da América do Norte e do Sul há mais de 2 milhões de anos atrás. O resultado final foi a formação de um importante corredor biológico que permitiu a migração bidirecional (tanto ao Norte quanto ao Sul) de espécies animais e vegetais dos dois continentes, formando um meio ambiente único. Grande parte desse patrimônio biológico e ambiental, desgraçadamente, já foi perdido.

Felizmente, ainda há o que se comemorar – como exceção à regra, Belize e Costa Rica promoveram uma verdadeira guinada em suas políticas ambientais e vem dando um ótimo exemplo ao mundo em termos de recuperação e/ou conservação de áreas florestais e, melhor de tudo, ainda ganhando dinheiro com o ecoturismo. Hoje falaremos um pouco sobre Belize.

Belize ocupa uma área de 22,9 mil km², o que corresponde à metade do território do Estado do Rio de Janeiro. Com cerca de 400 mil habitantes, é o país com a menor densidade populacional da América Central. Diferentemente dos demais países da região, Belize foi uma colônia da Inglaterra, uma característica que ajudou a mudar a sua trajetória histórica.

O território de Belize se estende entre o Sul da Península de Iucatã e a Guatemala, tendo sido uma parte importante do Império Maia. Os primeiros europeus a desembarcar nesse território eram conquistadores espanhóis, mas foram exploradores ingleses que ocuparam o litoral da região ainda no século XVII. Os ingleses criaram diversas feitorias ao longo do litoral com o objetivo de explorar o campeche ou pau-campeche (Haermatoxylon campechianum), uma árvore que produz uma madeira dura e pesada, de onde se extrai um corante vermelho muito similar ao do nosso pau-brasil (Caesalpinia echinata).

A partir do final do século XVIII, com a invenção de corantes artificiais como as anilinas, o foco da exploração colonial em Belize foi concentrado na extração de madeiras como o mogno e algumas espécies de pinheiro. A agricultura e a pecuária praticadas na região sempre tiveram como objetivo a produção de subsistência para o sustento da pequena população, o serviu como um “freio” para uma devastação em maior escala das áreas florestais.

A faixa costeira de Belize é formada por planícies costeiras planas e pantanosas, com formações florestais densas em alguns pontos. Cerca de metade do território do país é coberto por florestas, com espécies tropicais nos terrenos mais baixos e coníferas nos terrenos mais altos. Pelo menos metade do território de Belize ainda preserva a sua cobertura florestal original – algumas fontes afirmam que esse índice de conservação é superior a 60%.

Com o avanço do movimento ambientalista entre os anos de 1960 e 1970, muitos proprietários de terras do país passaram a criar o que se convencionou chamar de RPPN – Reservas Particulares do Patrimônio Natural. Devido à origem britânica de muitos desses proprietários, vários grupos ambientalistas da Inglaterra e dos Estados Unidos, além de um grande número de colabores privados, passaram a reverter doações em dinheiro para viabilizar diversas dessas reservas naturais.

Nos últimos anos, essas reservas florestais particulares foram transformadas em importantes destinos turísticos. Existem também áreas onde o principal objetivo foi a conservação de espécies como o Community Baboon Sanctuary, que foi criado em 1985. Esse santuário surgiu a partir de um acordo entre 12 proprietários de terras que buscavam preservar o habitat de uma espécie local de bugio (Alouatta pigra). Atualmente, mais de 2 mil macacos dessa espécie vivem no santuário.

A maior reserva florestal particular de Belize é a Área de Conservação e Manejo do Rio Bravo, que ocupa uma área de 97 mil hectares. Essa área foi criada a partir da contribuição de milhares de cidadãos dos Estados Unidos e Inglaterra, além de contribuições de fundações ligadas a grandes empresas desses países como a Coca-Cola, Fundação MacArthurUsaid Massachusetts Audubom Society, entre outras. O slogan usado na coleta de doações foi “adote um acre”. Acre é uma unidade de medida de terras usada em países anglo-saxões que equivale a 4.042 m².

Outra reserva natural importante é a Tapir Mountain Nature Reserve que tem 2.728 hectares. A reserva foi criada em 1975, quando o proprietário doou as terras para o Governo de Belize, que depois arrendou a área aos antigos proprietários sob a condição de um adequado manejo ambiental e desenvolvimento de programas que beneficiassem as comunidades vizinhas.

Os esforços ambientalistas de Belize não param por aí – em 1996 foi criado o PACT – Fundo Fiduciário para a Conservação de Áreas Protegidas, na sigla em inglês. Uma taxa de US$ 3,75 é cobrada junto com a taxa de embarque de cada turista que visita o país. No caso dos navios de cruzeiro com destino e/ou escala em Belize, um imposto de 20% é cobrado no valor das passagens. Todos os recursos arrecadados são revertidos em programas de conservação ambiental.

Uma outra solução encontrada pelo país para garantir a preservação e a boa gestão de áreas naturais foi a delegação da administração de alguns parques nacionais e sítios arqueológicos para organizações não-governamentais. Entre essas organizações se destacam a Monkey Bay Wildlife Society, a Forest and Marine Reserve Association of Caye Caulker, a Friends of Nature e, principalmente, a Belize Audubon Society. Essas organizações contam com milhares de membros colaboradores, que fiscalizam “com lupa” os cuidados dispensados às áreas protegidas.

Esse ano, o Governo local anunciou a proibição total do uso de plásticos descartáveis e de produtos com espuma de poliestireno no país. A nova legislação em vigor regulamenta a importação e a produção de plásticos e espumas através de um rigoroso processo de licenciamento ambiental junto ao Departamento de Meio Ambiente de Belize.

Essas restrições, que vão de sacolas plásticas de supermercados até embalagens de produtos eletrônicos, visam impedir que cenas como as da ilha de plástico da costa de Honduras se repitam no litoral de Belize, que é justamente uma das grandes atrações turísticas do país. De acordo com dados do Banco Mundial, mais de 300 mil toneladas de lixo plástico são produzidas anualmente no Caribe e na América Central, sendo que uma parte considerável desses resíduos é descartada de forma irregular.

De acordo com estatísticas do BTB – Escritório de Turismo de Belize, na sigla em inglês, o país recebeu um total de 503 mil turistas em 2019. Falamos aqui de turistas “5 estrelas” com alto poder aquisitivo e grande consciência em prol da conservação ambiental. O turismo se transformou na principal atividade econômica do país e também em uma importante empregadora da mão de obra local. O ecoturismo e as atividades ligadas à esportes na natureza (canoagem e raftingtrekking, escaladas e mergulho, entre outras) lideram a preferência dos visitantes.

O “uso sustentável” que o pequeno Belize encontrou para suas praias e florestas é um exemplo que precisa ser seguido pelos vizinhos da América Central enquanto ainda dá tempo.

A CRESCENTE ESCASSEZ DE ÁGUA EM EL SALVADOR, O PAÍS MAIS DESMATADO DA AMÉRICA CENTRAL CONTINENTAL

Cascata de Los Tercios

Ocupando uma área que tem praticamente o mesmo tamanho do Estado brasileiro de Sergipe, El Salvador tem pouco mais de 21 mil km² e é o menor país da América Central continental. Contando com uma população de pouco mais de 6 milhões de habitantes, o país foi, durante muito tempo, altamente dependente da agricultura. No início do século XX, perto de 90% da economia de El Salvador dependia da produção e exportação do café.  

Com o passar do tempo, a produção agrícola foi diversificada, passando a incluir a cana de açúcar, arroz, milho, feijão, sementes oleaginosas e tabaco. Nas últimas décadas, a indústria começou a ganhar algum destaque, especialmente nos setores de processamento de alimentos, bebidas, petróleo, têxteis, móveis e cimento. 

A expansão da agricultura em um país com território tão pequeno resultou numa enorme perda da cobertura vegetal natural – conforme a fonte consultada, essa perda se situa entre 80 e 94%. Esses números colocam El Salvador na segunda posição entre os países das Américas com a maior perda florestal, só ficando atrás do Haiti. Segundo estudos realizados em 2017 pela FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, El Salvador perdeu 30% de sua cobertura vegetal nos últimos 25 anos

De acordo com estudos do Centro Humboldt de El Salvador, esse intenso desmatamento está na raiz dos principais problemas ambientais do país, sendo a principal causa de enchentes, erosão de solos, assoreamento e contaminação das fontes de água do país. Os problemas, infelizmente, são ainda mais graves: a oferta ou disponibilidade atual de água no país está muito próxima da demanda para consumo da população, agricultura e indústria

Além de cada vez mais escassa, a água do país apresenta uma qualidade que vai de mal a pior. De acordo com estimativas do Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais de El Salvador, cerca de 90% das fontes de água do país estão contaminadas com esgotos domésticos, resíduos de mineração e metais pesados, lixo e efluentes industriais, entre outros contaminantes, uma situação insustentável

A escassez de água afeta atualmente ¼ da população do país. Nas áreas rurais, mais de 600 mil pessoas não tem acesso a água potável e outras centenas de milhares tem acesso limitado ou intermitente a fontes de água. Nos últimos anos, os aquíferos das regiões do litoral e do centro do país sofreram um rebaixamento de 4 metros, o que, nas palavras da Ministra do Meio Ambiente Lina Pohl, é “extremamente alarmante”. A foto que ilustra essa postagem resume o drama vivido pelo país: ela mostra as pedras da famosa Cascata de Los Tercios, na região de Suchitoto, que nos últimos anos só tem água nos meses de chuva.

Nas áreas rurais, os habitantes de muitas vilas já se habituaram a acordar no meio da madrugada para retirar água dos poços – quem esperar o sol nascer poderá passar o dia com baldes e panelas secas. Nas cidades, o maior problema está na baixa produção de água potável nas estações de tratamento. Como as fontes de água estão muito contaminadas, o simples tratamento convencional com filtração e cloração não está sendo eficaz na potabilização da água. Essas estações estão sendo obrigadas a realizar um tratamento cada vez mais complexo da água e, por falta de infraestrutura, a produção é muito pequena.  

A América Central é uma região do mundo que sempre contou com grande disponibilidade de água. A crise que vem sendo enfrentada por El Salvador é recente e está ligada diretamente a má gestão dos recursos hídricos do país. Além dos desmatamentos e mal uso dos solos em atividades agrícolas, o país sempre foi extremamente conivente com o garimpo de ouro e outras atividades mineradoras.  

Conforme já tratamos em inúmeras postagens anteriores, os resíduos da mineração são extremamente danosos aos recursos hídricos. Expostos às fortes chuvas tropicais, resíduos de metais pesados como chumbo, cádmio, zinco e arsênico são lixiviados e arrastados pelas enxurradas para a calha de riachos e rios. 

No caso dos garimpos de ouro, os problemas são agravados pelo uso de mercúrio nos processos de separação do ouro de outros minerais. O mercúrio, que é um metal em estado líquido, é misturado com os sedimentos e se liga aos fragmentos de ouro, formando uma amálgama. Essa amálgama depois é exposta ao calor de um maçarico, que evapora o mercúrio e deixa apenas o ouro. De acordo com estudos recentes, para se produzir 1 kg de ouro nos garimpos é necessário, na média, o uso de 1,32 kg de mercúrio

Quando a amálgama é queimada pelos garimpeiros, o mercúrio evapora rapidamente e entre 65 e 83% desse vapor é lançado na atmosfera e espalhado pelos ventos, caindo sobre os solos junto com as chuvas. Entre 2 e 7% do mercúrio permanece ligado ao ouro, só sendo eliminado no processo de purificação do metal em fornos de altas temperaturas. O restante do mercúrio volta ao estado líquido, caindo diretamente sobre solos na forma de micro gotículas.

Com a chegada do período das chuvas, todos esses resíduos de mercúrio são arrastados para as calhas dos rios e contaminam as águas. O consumo de água contaminada por mercúrio é prejudicial à saúde humana – o metal se acumula no organismo e pode provocar danos graves no sistema nervoso central, normalmente irreversíveis, que compromentem os sistemas sensoriais e motores.

Para tentar controlar parte desse grande problema, El Salvador se transformou no primeiro país do mundo a proibir a mineração do ouro e de outros metais. Essa medida foi votada e aprovada no Congresso Federal do país em 2017, obtendo 69 votos de um total de 84, com apoio de todos os partidos. Foram quase dez anos de discussões e forte pressão popular. A medida passou a proibir tanto as atividades de mineração de grande porte realizadas por empresas quanto a mineração artesanal dos garimpeiros. 

Uma mudança tão radical na política de um país não ocorre sem se enfrentar grandes problemas. A mineradora multinacional Oceana Gold, que havia ganho uma concessão para exploração de ouro no país, moveu uma ação judicial contra o Governo de El Salvador pedindo uma indenização milionária. Depois de vários anos de embates nos tribunais do país, a Suprema Corte deu ganho de causa ao Governo de El Salvador e a Oceana Gold teve de pagar US$ 8 milhões em despesas judiciais do processo. 

A situação de El Salvador, que já é complicada, poderá ficar ainda pior – projeções indicam que a América Central será uma das regiões mais vulneráveis a eventos climáticos extremos nos próximos anos. Formada por uma faixa estreita de terra seca entre o Oceano Pacífico e o Mar do Caribe, a América Central já é frequentemente assolada por fortes tempestades e furacões. Como resultado das mudanças climáticas que estão em andamento em todo o mundo, a região também poderá ficar sujeita a reduções do volume de chuvas, especialmente por conta de fenômenos como o El Niño

A polêmica proibição das atividades mineradoras no país foi um grande passo, mas muito mais precisará ser feito e rapidamente. É preciso regulamentar adequadamente o uso dos recursos hídricos, investir em sistemas de coleta e tratamento de esgotos, na coleta e destinação dos resíduos sólidos urbanos e industriais, além de se fazer pesados investimentos em programas de reflorestamento e de conservação dos poucos remanescentes florestais que sobraram no país. 

Sabemos que é muita coisa para um país pequeno e pobre fazer, porém, são ações inevitáveis e inadiáveis. A escassez do recurso de hoje poderá se transformar em falta generalizada de água dentro de poucos anos. 

SE VOCÊ FOR UM AMBIENTALISTA, EVITE IR PARA HONDURAS

Berta Caceres 2015 Goldman Environmental Award Recipient

O intrigante título da postagem de hoje tem uma boa razão: de acordo com várias organizações ambientalistas internacionais, Honduras é o país mais perigoso do mundo para os ambientalistas. Somente entre os anos de 2010 e 2015, nada menos que 109 ativistas ambientais hondurenhos foram assassinados. No ano de 2015, inclusive, 6 dos mortos eram lideranças indígenas engajadas na luta ambiental

Em março de 2016, uma das vítimas foi Berta Cáceres (vide foto), a mais conhecida ambientalista do país. Berta era líder da comunidade indígena Lenca e também uma importante defensora dos direitos humanos. Em abril de 2015, a ambientalista foi agraciada com o Prêmio Goldman, um dos maiores reconhecimentos mundiais aos ativistas da área ambiental. De acordo com informações da polícia local, a ocorrência foi um “roubo seguido de morte”, o que demonstra que as autoridades publicas não estavam muito preocupadas com as mortes de ambientalistas. 

Berta Cáceres ganhou notoriedade internacional graças a organização do movimento dos índios Lenca na luta contra a construção da Usina Hidrelétrica de Água Zarca. Esse empreendimento conjunto entre a empresa hondurenha DESA – Desarrollos Energéticos S.A. e a chinesa Sinohydro foi aprovado pelo Congresso hondurenho em 2011 e seria construído no rio Gaulcarque. Esse rio é considerado sagrado pelos índios Lenca, que sequer foram consultados pelas autoridades. Outro ponto de atrito foi a falta de estudos de impacto ao meio ambiente. 

As comunidades indígenas passaram vários anos lutando contra o projeto e vivendo sob a ameaça de grupos armados. A Sinohydro acabou se retirando do projeto em 2013 por causa do conflito com os indígenas. O ambientalista Nelson García, que também estava envolvido na luta contra o projeto da hidrelétrica, foi assassinado cerca de duas semanas após a morte de Berta.  

As mortes de Berta Cáceres e de Nelson García repercutiram fortemente pelo mundo e diversas empresas internacionais fornecedoras de equipamentos e sistemas, principalmente da Europa, e também financiadoras se retiraram do projeto. Sem apoio internacional, o Governo de Honduras acabou cancelando o empreendimento, o que foi um dos raríssimos casos do mundo onde um grupo indígena conseguiu impedir a realização de um projeto de infraestrutura de um governo. Em dezembro de 2016, a ONU – Organização das Nações Unidas, concedeu postumamente o Prêmio Campeões da Terra a Berta Cáceres.

A situação ambiental de Honduras é uma das mais graves do mundo. De acordo com um estudo publicado em 2017 pela FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, onde foram usados dados do Banco Mundial, Honduras foi o país da América Central que teve a maior perda de área florestal em um período de 25 anos: o país perdeu 44% da sua cobertura vegetal original no período. Esse número explica a razão de tantos assassinatos de ambientalistas no país. No período analisado, a perda total de áreas florestais no mundo foi de 3% e a área total perdida foi de 130 milhões de hectares. 

Os campeões em perda de áreas florestais segundo o estudo da FAO foram os países africanos, onde se destacam Togo (-73%), Nigéria (-70%) e Uganda (-56%). Os países da América Central vêm na sequência – além da campeã Honduras, são destaques a Nicarágua (-31%) e El Salvador (-30%). Na contramão dessa devastação ambiental, o Uruguai apresentou um aumento de 131% de suas áreas cobertas por florestas no mesmo período. 

Honduras possui um território com pouco mais de 112 mil km², onde se alternam montanhas, planaltos e planícies férteis, onde encontramos uma das mais ricas biodiversidades do mundo. O pequeno país abriga mais de 8 mil espécies de plantas, 110 espécies de mamíferos, 250 espécies de répteis e anfíbios,  além de impressionantes 70 mil espécies de aves. A população humana é de pouco mais de 9 milhões de habitantes. 

Parte significativa da população de Honduras é formada por indígenas e são diversos os grupos que lutam pela demarcação de suas terras. Um grande exemplo dessas lutas são os misquitos ou mosquitos, um grupo indígena que vive ao longo da costa do país, conhecida como Mosquitia ou Costa dos Mosquitos. Depois de intensas manifestações e protestos da etnia entre os anos de 1987 e 2012, o Governo de Honduras acabou por reconhecer seus direitos pelas terras e concedeu mais de 11 títulos de posse aos indígenas de 39 comunidades, totalizando mais de 14 mil km².  

Se fizermos um rápido exercício de matemática, vamos constatar que os índios misquitos passaram, de uma hora para outra, a ser donos de mais de 10% do território de Honduras. Grandes latifundiários, grileiros e demais hondurenhos “sem terra”, é claro, não costumam aceitar esse tipo de decisão da justiça. Na opinião dessas pessoas “é muita terra para poucos índios”, algo que costumamos ouvir com muita frequência aqui no Brasil. As terras dos misquitos e de diversas outras etnias indígenas continuam sendo invadidas e devastadas por grileiros, garimpeiros e madeireiros, e os conflitos agrários prosseguem. 

Outro foco permanente de tensão em Honduras são as áreas protegidas do país, onde se incluem as reservas naturais da biodiversidade e também os importantes sítios arqueológicos e históricos, onde se encontram as ruínas de civilizações pré-colombianas como os maias. De acordo com dados de 2008, essas áreas representavam cerca de 16% da superfície total de Honduras, o que corresponde a aproximadamente 19 mil km²

Cerca de 60% da população de Honduras vive abaixo da linha da pobreza, trabalhando especialmente na agricultura, atividade que emprega cerca de 40% da população e responde por 13% do PIB – Produto Interno Bruto, do país. Os principais produtos da pauta de exportações de Honduras são o café, o açúcar e as onipresentes bananas. Em menor escala estão os pescados, principalmente os camarões, charutos e produtos de madeira, além de roupas e tecidos bordados. Cerca de dois terços das exportações do país têm como destino os Estados Unidos. 

Além de enfrentar toda uma gama de problemas ambientais internos, Honduras também sofre com problemas “exportados” pela Guatemala. Falo aqui do rio Motagua, que atravessa grande parte do território da Guatemala e tem sua foz no litoral de Honduras. Dezenas de toneladas de resíduos sólidos, principalmente restos de materiais plásticos, lançados pelas populações de 95 municípios guatemaltecos atravessados pelo rio, chegam diariamente até as praias de uma extensa região de Honduras, prejudicando a pesca e o turismo. A origem do problema é a falta de serviços de coleta e destinação de resíduos sólidos na Guatemala e os dois países não conseguem chegar a um acordo para solucionar o problema. 

Ilha de plástico no Mar do Caribe

Completando o quadro caótico, Honduras vem enfrentando graves problemas de instabilidade política desde 2009, quando o então Presidente do país, Manuel Zelaya, foi deposto por um golpe militar apoiado pelos Estados Unidos. Eleito por uma coalizão de partidos conservadores de direita, o Governo do Presidente Zelaya deu uma brusca guinada para a esquerda durante o seu mandato e começou a se aproximar do Presidente Hugo Chaves da Venezuela e de outros governantes bolivarianos, o que desagradou os militares do país. Logo após sofrer o golpe, o Presidente Zelaya buscou refúgio na embaixada brasileira em Tegucigalpa, onde ficou por quatro meses até conseguir um salvo conduto para viajar para a República Dominicana. 

Apesar do então Vice-Presidente ter assumido o Governo do país e de um novo Presidente ter sido eleito democraticamente, Honduras passou a conviver com sucessivas passeatas e greves de professores, caminhoneiros, grupos indígenas, trabalhadores ligados a sindicatos, entre outras forças políticas consideradas de esquerda. Esse clima de permanente “convulsão social” não tem ajudado em nada na busca de soluções para os graves problemas ambientais que assolam o país. 

Em meio ao caos instalado, os desmatadores e agressores ambientais de plantão agradecem e avançam violentamente contra os remanescentes florestais e também contra as áreas indígenas do país. 

GUATEMALA: DE “REPÚBLICA DE BANANAS” A CENTRO PRODUTOR DE ÓLEO DE PALMA

República de bananas

A banana é uma das frutas mais populares do mundo. São ricas em vitaminas A e C, além de fibras e potássio. A planta é originária do Sudeste Asiático e estudos arqueológicos indicam que a fruta é cultivada há quase 8 mil anos. Seguindo um caminho muito parecido com aquele feito pela cana de açúcar, as bananeiras foram sendo espalhadas por toda a Ásia, Oriente Médio, África e Américas, sendo cultivadas atualmente em mais de 130 países. 

As populares, saborosas e saudáveis bananas, entretanto, ganharam uma conotação negativa no linguajar popular – chamar alguém de “banana” é um insulto que indica que a pessoa é mole e/ou fraca, ou ainda que se trata de uma pessoa sem energia e sem ânimo. Há também o gestual de “dar uma banana”, muito comum em países latinos, que é considerado ofensivo e obsceno

Grande parte dessa conotação “negativa” das bananas pode estar associada à imagem das Repúblicas de Bananas, expressão que surgiu no início do século XX como referência aos pequenos países da América Central, onde empresas norte-americanas possuíam grandes extensões de terras dedicadas à produção de frutas. A expressão foi cunhada pelo escritor norte-americano Willian Sydney Porter, mais conhecido pelo pseudônimo de O. Henry, no livro Cabbages and Kings de 1904. A trama se passa num país fictício chamado “Anchuria”, que é descrito pelo autor como “uma pequena república de bananas”. 

O autor morou muito tempo em Honduras, na América Central, e acompanhou de perto a “invasão” de empresas norte-americanas do ramo de frutas na região no final do século XIX. Entre essas empresas há um destaque especial para a United Fruit Company. Essa empresa sempre se valeu de boas relações de amizades com os governantes e/ou ditadores locais, conseguindo assim grandes concessões de terras para a formação de grandes plantações comerciais de bananas e outras frutas.  

As relações de trabalho da empresa com as populações locais chegavam muito próximas da semi-escravidão e os abusos contra as florestas nativas eram imensos – grandes faixas de matas foram derrubadas e transformadas em áreas agrícolas. Famílias que moravam nessas áreas eram expulsas sem qualquer tipo de explicação ou indenização. Já os Governantes, esses fingiam que tudo corria às “mil maravilhas” – a exportação das frutas gerava importantes divisas em moeda forte para os seus países. É essa realidade cruel que O. Henry mostrou no seu livro. 

A América Central sempre teve uma história complicada e repleta de revoltas e conflitos por todos os lados. A primeira expedição europeia a desembarcar no país foi liderada pelo espanhol Pedro de Alvarado em 1523. Há época, a Guatemala fazia parte do decadente Império Maia e houve grande resistência das cidades-estados contra os invasores. Entre 1542 e 1821, a maior parte da América Central formava a Capitania-geral da Guatemala, um território subordinado ao Vice-Reino da Nova Espanha. Com a consolidação da independência, a região se fragmentou em diversos países e teve início um ciclo quase interminável de revoltas e conflitos políticos. 

A história da United Fruit começou em 1871, quando o empreendedor norte-americano Henry Meiggs assinou um contrato para a construção de uma ferrovia na Costa Rica. Quando concluiu as obras em 1882, Meiggs descobriu que o Governo costarriquenho não tinha dinheiro para o pagamento dos serviços e recebeu, como compensação, uma área de terras com cerca de 3.200 km². Foi então que ele iniciou o negócio de produção e exportação de bananas.  

Em 1899 ele comprou uma empresa rival e, a partir da fusão das duas empresas, surgiu a United Fruit Company. Contando com apoio direto do Governo dos Estados Unidos, a empresa passou a apoiar diferentes ditaduras e grupos revolucionários da América Central e Ilhas do Caribe em troca da “liberdade” de produzir frutas em suas grandes extensões de terras. Em 1969, a empresa foi vendida e passou a se chamar Chiquita Brands. A nova empresa mudou um poucos seus métodos de trabalho, “pero no mucho“. 

Em 1901, a United Fruit recebeu o convite para iniciar suas operações na Guatemala, onde passou a contar com uma imensa “simpatia e apoio” do Governo local. Sucessivos governos ditatoriais e “fantoches” que se sucederam no comando do país tiveram apoio explícito da empresa. Em troca, a empresa recebeu dos Governos “ampla liberdade empresarial”. 

Em 1954, quando o então Presidente Jacobo Arbenz Guzmán tentou implementar uma reforma agrária que prejudicaria os interesses da United Fruit na Guatemala, a CIA – Central de Inteligência dos Estados Unidos, financiou grupos paramilitares para derrubar o Governo e apoiou a instalação de sucessivas ditaduras militares no país. Entre 1964 e 1996, o país enfrentou uma longa e sangrenta guerra civil entre o Governo e militantes de esquerda, deixando entre 160 mil e 250 mil mortos e/ou desaparecidos. 

Além das onipresentes bananas, os campos da Guatemala também eram ocupados pelas tradicionais culturas de milho, feijão e abóbora, alimentos básicos da população, e por plantações de cana de açúcar, tema que trataremos em futura postagem. Nos últimos anos, entretanto, esses campos passaram a ser ocupados de forma devastadora por imensas plantações de palma da Guiné, espécie de palmeira de origem africana que produz o dendê, um fruto rico em óleo.  Considerado um biocombustível renovável, o óleo de palma passou a ser adicionado ao óleo diesel em diversos países da Europa e da Ásia.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística da Guatemala, existiam 49 fazendas/empresas dedicadas à produção do dendê no país até o ano de 2003, ocupando cerca de 31 mil hectares de terras. Em 2007, o novo censo agropecuário mostrou um grande salto no número de fazendas/estabelecimentos dedicados a essa atividade – já eram 1.049 unidades, ocupando mais de 65 mil hectares de terras. Em 2008, a área ocupada pelos dendezeiros saltou para 83 mil hectares.

Dentro da melhor tradição guatemalteca, esse avanço descontrolado das plantações de dendezeiros no país foi capitaneado por grandes grupos empresariais apoiados por políticas governamentais. Como justificava, essas empresas exaltavam a geração de emprego e renda para os trabalhadores e dos ganhos do país com as exportações de óleo de palma. Aqui vale lembrar que o óleo de palma (ou azeite de dendê como é chamado aqui no Brasil), também tem inúmeras aplicações na fabricação produtos de limpeza, cosméticos e alimentos. 

A Guatemala é um país pequeno, com pouco mais de 108 mil km², e com uma população de cerca de 18 milhões de habitantes. Um avanço tão forte e rápido da cultura da palma no país passou a causar inúmeros impactos sociais e ambientais. O primeiro deles foi a substituição da produção de alimentos por plantações de palma em grande parte das terras férteis do país. Pequenas propriedades rurais, que tradicionalmente se dedicavam à produção de alimentos, foram desapropriadas em massa para a concessão de áreas para os grandes grupos empresariais, expulsando populações de suas terras ancestrais.

Um segundo problema é ambiental – os poucos remanescentes florestais que restaram no país após séculos de desmatamentos agora estavam sendo derrubados em grande quantidade para a criação de grandes plantações de palma, repetindo a saga das plantações de bananas. Sem as matas nativas, nascentes e cursos d’água desaparecem, comprometendo o abastecimento de cidades e a irrigação das próprias plantações. Criou-se aqui uma lógica bastante difícil de entender: a destruição de florestas tropicais em todo o mundo para produzir o biocombustível usado pelos ecologistas da Europa que lutam pela preservação de florestas tropicais como a Amazônia

Felizmente, a CEE – Comunidade Econômica Europeia, conseguiu perceber os males que a produção e o consumo em larga escala do óleo de palma estavam provocando em extensas regiões da África, do Sudeste Asiático e da América Central, entre outras, e desde de 2018 passou a rever suas políticas de incentivo ao uso desse aditivo no óleo diesel. Isso já provocou uma redução na demanda e já houve uma queda de mais de 30% no preço do óleo de palma.  

Esperemos todos que essas mudanças consigam se refletir na salvação do pouco que restou das florestas tropicais da Guatemala e de outras “Repúblicas de Bananas” da região. 

A DESTRUIÇÃO DAS FLORESTAS TROPICAIS NA AMÉRICA CENTRAL, OU RELEMBRANDO DOS “INDÍGENAS QUEIMADORES DE FLORESTAS”

Ruínas Maias

Um dos maiores problemas ambientais do planeta na atualidade é a destruição de florestas em larga escala. Muito se fala da destruição da Floresta Amazônica, que muitos afirmam erroneamente se tratar do pulmão do mundo. Porém, florestas tropicais em todo o mundo sofrem do mesmo mal: em grande parte da África, em especial em Madagascar, no Sudeste Asiático, onde destacamos a Indonésia e a Malásia, além das Filipinas, entre outros países do Sudeste Asiático.  

E esse não é um problema exclusivo das florestas tropicais – a taiga, a floresta boreal ou das coníferas, maior sistema florestal do mundo (três vezes maior que a Floresta Amazônica), chega a sofrer desflorestamentos até dez vezes maiores que a Amazônia a cada ano, principalmente na Rússia, e raramente se ouvem notícias dando conta disso. 

As densas florestas tropicais da América Central, infelizmente, não fogem dessa realidade. Grande parte da antiga cobertura florestal nativa da região já cedeu espaço para plantações de cana de açúcar, bananas e, mais recentemente, para a palma da Guiné. Apesar de países como a Costa Rica e Belize terem conseguido frear e até reverter os desmatamentos, a situação continua caótica em países como o Panamá, a Nicarágua e a Guatemala.  

Por mais surpreendente que possa parecer, essa intensa destruição de florestas na região já aconteceu em um passado distante e as consequências ambientais desencadeadas levaram à destruição de grandes civilizações como a dos Maias. Vamos entender isso. 

Quando o conquistador espanhol Hernán Cortés desembarcou nas costas da Península de Iucatã (ou Yucatán em castelhano) no México com seu pequeno exército em 1519, ele rapidamente passou a ouvir notícias dos indígenas locais que falavam de grandes cidades de pedra escondidas no meio da selva (vide foto). Contando com pouco mais de 600 soldados, Cortés imaginou que suas forças não teriam a menor chance de vitória contra um inimigo, aparentemente, tão poderoso.  

Com o passar do tempo, os espanhóis descobriram que essas fabulosas cidades haviam sido abandonadas há muito tempo atrás. Essas eram as ruínas da já decadente Civilização Maia. Sem encontrar maiores resistências, Cortés e seus homens marcharam na direção da Cidade do México, onde protagonizariam uma das maiores vitórias militares da história – a derrota do Imperador Montezuma e a conquista do Império Asteca. 

O México e toda a América Central assistiram ao nascimento e decadência de diversas grandes civilizações pré-Colombianas, onde destacamos os Olmecas, os Teotihuacanos, os Astecas e os Maias, entre outras. Os primeiros assentamentos Maias na região datam de 1.800 a.C. O auge dessa civilização, chamado pelos historiadores de Período Clássico, ocorreu entre os anos 250 e 950 d.C., quando a população pode ter chegado à casa dos 13 milhões de habitantes.  

Chichén-Itzá

Então, sem mais nem menos, o grande Império Maia, que se estendia por toda a Península de Iucatã, Guatemala, Belize e partes da Costa Rica e de El Salvador, começou a se fragmentar. Grandes cidades como Copán, Chichén Itzá, Tulum, Tikal, Palenque, Xunantunich e Calakmul, foram abandonadas apressadamente e surgiram cidades-estados menores, sem um grande poderio militar e político, e também sem um governo central. Até o final do século XVII, os invasores espanhóis destruiriam os últimos focos de resistência dos Maias. 

Várias teorias foram surgindo, numa tentativa de explicar o colapso do Império Maia: superpopulação, invasão por povos estrangeiros, colapso de rotas comercias, revolta de populações camponesas, doenças epidêmicas, mudanças climáticas, esgotamento de solos e caça excessiva de megafauna. Uma hipótese levantada há vários anos atrás, a de uma grande seca regional, ganha cada vez um maior espaço nos meios científicos. Um estudo recente, desenvolvido por cientistas da Universidade de Cambridge e da Universidade da Flórida demonstrou a intensidade dessa seca.  

Estudando resíduos minerais dissolvidos em diversas camadas de sedimentos do fundo de um lago da região, os cientistas conseguiram traçar o padrão meteorológico do período de decadência do Império Maia, entre 800 e 1.000 d.C. A análise dos dados permitiu verificar uma redução média na precipitação entre 41 e 54%, sendo que em alguns períodos a redução chegou a 70%. A umidade relativa do ar diminuiu entre 2 a 7%. Essa seca contínua pode ter afetado intensamente a produtividade agrícola, especialmente a cultura do milho, o mais importante alimento consumido pela população.  

É aqui que chegamos a um aspecto da agricultura praticada pelos maias que nos soará bastante familiar: o fogo era usado para abrir espaços nas matas para a formação de campos agrícolas, onde o milho era semeado diretamente no solo carbonizado. Apesar de possuírem avançados conhecimentos em matemática, astronomia, arquitetura e outras ciências, e de possuir um sistema de escrita que rivalizava com as mais importantes línguas europeias, os Maias não possuíam ferramentas metálicas – especialmente arados, fato que colocava a sua agricultura em padrões pré-históricos.  

O uso do fogo como uma ferramenta da agricultura não foi uma exclusividade dos povos indígenas da América Central – existem evidências arqueológicas dessa prática entre outros grupos indígenas americanos desde o Alasca, no Extremo Norte, até a Terra do Fogo, no Extremo Sul. Na Amazônia brasileira, por exemplo, encontramos grandes manchas da chamada “terra preta de índio”, um sinal claro do uso dessa prática em toda a região vários séculos antes da chegada dos primeiros europeus às Américas. 

Usando ferramentas rudimentares de madeira e sem o uso de técnicas para a preparação dos solos, a produtividade das culturas agrícolas desses povos era muito baixa. A necessidade de alimentar uma grande população levava a inúmeros excessos e à queima de quantidades cada vez maiores de florestas (isto é uma das hipóteses) para a criação de campos agrícolas.  

Uma característica física marcante das planícies da Península de Iucatã e de outras partes do território dos Maias é a falta de grandes rios – os nativos dependiam exclusivamente das fortes chuvas anuais para encher seus reservatórios de água para uso no abastecimento das cidades e na irrigação de lavouras. Conforme comentamos em uma postagem anterior, o solo fértil é uma combinação de matéria orgânica, água, ar e resíduos minerais – a perda de qualquer um destes componentes compromete a fertilidade e até mesmo a integridade física dos solos.  

Com a provável queima de grande parte da cobertura florestal, os solos das regiões sob domínio dos Maias foram perdendo a capacidade de reter volumes expressivos de água, o que comprometeu a capacidade dos solos em reter nutrientes e resultou em sucessivas perdas de safras e em inevitáveis ciclos de fome. Sem conseguir sustentar as grandes populações das cidades, o Império desmoronou como um “castelo de cartas”. Os sobreviventes desse colapso social se valeram de sucessivas ondas migratórias na busca por novos meios de sobrevivência. 

Existem diversos outros fatores ambientais e climáticos que podem ter contribuído para essa situação crítica, mas a intervenção humana nas florestas de toda a região, com certeza, teve uma importante participação no colapso do Império Maia. Com o passar do tempo, novas peças desse verdadeiro quebra-cabeça serão encontradas e chegaremos cada vez mais perto de respostas concretas sobre as causas do fim dessa grande civilização. 

As florestas voltaram a crescer sobre as terras devastadas da Península de Iucatã e dos países vizinhos, encobrindo as ruínas das grandes cidades e os monumentos da antiga Civilização Maia. Notícias de novas descobertas arqueológicas na região são frequentes. Nos diversos países da América Central existem populações indígenas de origem Maia, que ainda conservam a língua e alguns costumes dessa antiga civilização. Eles são herdeiros de um passado de glórias, porém sem um grande futuro pela frente.  

Com a destruição contínua das florestas na região, sobrará muito pouco para as novas gerações desses povos. 

VOCÊ JÁ OUVIU FALAR DO PROJETO DO CANAL DA NICARÁGUA?

Lago Cocibolca

A inauguração do Canal do Panamá em 1914, abriu uma nova era nas navegações e deixou o mundo “um pouco menor”. Conforme comentamos nas postagens anteriores, a abertura de uma via navegável através do Istmo do Panamá era um sonho antigo que vinha sendo acalentado desde o século XVI pela coroa da Espanha. Ao longo do século XIX, foram feitos inúmeros esforços para a efetivação desse sonho – as obras de construção até chegaram a ser iniciadas por empresários franceses em 1881, porém, a selva tropical acabou sendo mais forte que os homens.

No início do século XX, os norte-americanos interviram politicamente na região apoiando grupos revolucionários que lutavam pela independência do Panamá, até então parte da Colômbia. Logo após a declaração da independência em 1903, os norte-americanos compraram a concessão da Zona do Canal do Panamá junto ao novo Governo do país. Compraram também os direitos de concessão dos franceses e retomaram a construção em 1904. Desde então, o Canal do Panamá se transformou em uma espécie de área de segurança nacional dos Estados Unidos, mesmo após a entrega da administração do empreendimento ao Panamá em 1999.

Um lado dessa história que não é muito comentado é que existia um plano B para a construção de um canal de navegação através da América Central caso os norte-americanos não conseguissem levar a cabo seu “plano” para o domínio do Panamá. Falo aqui do projeto do Canal da Nicarágua, uma opção que vinha sendo estudada desde o início do século XIX. Com o sucesso da “política externa” do Presidente Theodore Roosevelt e a concessão do Canal do Panamá para os Estados Unidos, esse plano foi completamente esquecido.

Passados quase um século desde a inauguração do Canal do Panamá e depois de muitas e muitas voltas na história do mundo, surgiu a notícia que empresários chineses estavam trabalhando para retomar o projeto da construção de um canal na Nicarágua. Uma empresa com sede em Hong Kong – HK Nicaragua Canal Development Investment Co. Limited,  dirigida pelo magnata das comunicações da China Wang Jing, obteve em 2014 a concessão junto ao Governo do país para a construção e operação, ao longo de 50 anos, do canal. Os investimentos estimados eram da ordem de US$ 40 bilhões.

O projeto do Canal da Nicarágua previa a criação de uma via navegável através do país com aproximadamente 280 km de extensão, sendo que 105 km desse trajeto seriam feitos através da navegação nas águas do Lago Cocibolca (vide foto), o maior corpo de água doce da América Central. As vias de navegação desse canal teriam cerca de três vezes a largura das vias do Canal do Panamá, o que possibilitaria a passagem dos modernos supercargueiros marítimos.

Em 2011, época em que surgiram as primeiras notícias da retomada da ideia da construção dessa via interoceânica, o Canal do Panamá se encontrava saturado e ultrapassado tecnicamente. A largura de suas vias navegáveis limitava o tráfego de embarcações a uma capacidade até 110 mil toneladas, classe de navios cargueiros conhecidas como “Panamax”. Nas últimas décadas, porém, haviam surgido novos supercargueiros com capacidade para 250 mil toneladas de carga e até 455 metros de comprimento. Essa classe, conhecida como “pós-pós-Panamax”, pode receber a impressionante carga de até 14 mil contêineres. Armadores da China estão entre os maiores operadores dessa nova classe de supercargueiros.

Para a Nicarágua, a perspectiva de construção desse novo canal significaria uma verdadeira revolução econômica. Os investimentos previstos correspondiam a quatro vezes o tamanho do PIB – Produto Interno Bruto, nicaraguense e tinham potencial para a geração de 50 mil empregos. Além dos investimentos para a construção e operação do canal, o projeto previa a construção de portos, aeroportos, uma área de livre comércio, além de investimentos em turismo e hotelaria. O Presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, era o maior entusiasta do projeto.

Entretanto, nem tudo era um “mar de rosas” no projeto desse novo canal – a construção da via interoceânica trazia em seu bojo uma série de problemas ambientais e sociais. Um dos maiores problemas ambientais da obra se relacionavam ao Lago Cocibolca, principalmente os riscos de salinização das águas devido a abertura de uma via de ligação com o Oceano Pacífico. Outro sério problema seriam os impactos em diversas áreas indígenas que seriam atravessadas pelos canais de navegação. Segundo as estimativas de grupos ecologistas locais e internacionais, as obras teriam impactos diretos sobre 400 mil hectares de terras úmidas, praticamente um terço do território do país.

A perspectiva de criação de uma via navegável concorrente ao Canal do Panamá, é claro, enfrentaria uma fortíssima oposição política dos Estados Unidos. Cerca de 5% do tráfego comercial de cargas marítimas do mundo passam pelo Panamá, país historicamente controlado pelos Estados Unidos – um canal concorrente controlado pela China não seria nada conveniente. O Governo do Panamá, inclusive, foi o que mais elevou o tom contra a eventual construção do Canal da Nicarágua.

Uma notícia que começou a “circular” na imprensa e nas redes sociais da internet afirmavam que a HK Nicaragua Canal Development Investment Co. Limited era na realidade uma empresa de fachada e que o Governo da China era quem estava por trás do projeto.  Outros projetos para a construção e operação de linhas de transporte terrestre – os “canais secos”, entre o Mar do Caribe e o Oceano Pacífico na Colômbia, na Guatemala e em El Salvador, também passaram a ser acusados de estarem sendo financiados pelo Governo da China. Esses “canais secos” seriam potenciais concorrentes do Canal do Panamá.

Diversas “fontes” anônimas ligadas aos mais diferentes organismos de comércio internacional passaram a vazar declarações contrárias ao “sonho chinês” de controlar um canal interoceânico na América Central. Essas declarações iam desde os riscos de uma concorrência desleal entre os custos de passagem entre os dois canais, onde os chineses poderiam baixar artificialmente os preços para prejudicar o Canal do Panamá, até riscos de uma expansão militar da China na região, lembrando que o Governo ditatorial de Daniel Ortega é de esquerda.

Além de iniciar uma guerra de informações, o Panamá (leia-se aqui Estados Unidos) alavancou todo um conjunto de obras para ampliação da largura e profundidade dos canais de navegação, além de ampliação dos sistemas de comportas do Canal do Panamá. Essas obras visavam ampliar a capacidade do Canal para receber os novos supercargueiros em operação atualmente no mundo. Coincidência ou não, o Governo de Daniel Ortega entrou em um processo de desestabilização, com grandes protestos e convulsão social. Como toque final, o Governo do Panamá assinou um acordo estabelecendo relações diplomáticas com a China em 2017.

Dentro de todo esse rol de más notícias para o Canal da Nicarágua, começaram a circular informações sobre a possível falência do bilionário chinês Wang Jing, mentor do projeto. Até 2015, Wang Jing era uma das pessoas mais ricas do mundo, com uma fortuna avaliada em US$ 10,2 bilhões – em 2017, sua fortuna estava “reduzida” a apenas US$ 1,1 bilhão, de acordo com informações de uma empresa de dados e tecnologia para o mercado financeiro, a norte-americana Bloomberg.

A empresa de telecomunicações do magnata, a Xinwei Telecom Technology Group, com sede em Pequim, teve 35% de suas ações suspensas, abrindo caminho para a sua ruína financeira. O empresário também passou a ser investigado por serviços de investigação internacionais por operações suspeitas na aquisição de empresas do ramo aeronáutico na Ucrânia.

A soma de todos esses problemas e acontecimentos, no mínimo, de uma coincidência impressionante, enterraram, ao menos temporiamente, o sonho da construção do Canal da Nicarágua e a ambição dos chineses de controlar uma via navegável transoceânica na América Central.

O já combalido meio ambiente da região e seus inúmeros problemas sociais agradecem.

A CONSTRUÇÃO DO CANAL DO PANAMÁ E SEUS INÚMEROS IMPACTOS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Canal do Panamá

A construção do Canal do Panamá foi uma das maiores obras da engenharia do século XX e, literalmente, mudou os rumos do mundo. Com cerca de 80 km de extensão, o Canal do Panamá criou um “atalho” para a navegação entre o Oceano Pacífico e o Mar do Caribe/Oceano Atlântico, reduzindo as rotas de navegação entre muitos portos em dezenas de milhares de quilômetros.

Nas postagens anteriores apresentamos um rápido resumo da história geológica e política da região onde encontramos o Canal do Panamá. Ela começou como uma colônia da Espanha no século XVI e terminou como uma zona sob controle dos Estados Unidos, país que bancou a finalização das obras iniciadas por empresas francesas nos anos de 1880. Os norte-americanos mantiveram o controle total sobre o Canal do Panamá até 1977 – após essa data, norte-americanos e panamenhos compartilharam a gestão até 1999, quando o Canal passou para o controle do Governo panamenho.

A descoberta de um caminho de ligação entre o Mar do Caribe e o “Mar de Sur”, nome que os espanhóis davam ao Oceano Pacífico, coube a Vasco Nuñez de Balboa, que fez o primeiro avistamento no final do ano de 1513. Essa ligação terrestre entre esses dois oceanos foi fundamental para o avanço das conquistas da Espanha nas Américas.

Francisco Pizarro, o grande conquistador do Peru e das riquezas do império Inca usou esse caminho para chegar ao Oceano Pacífico e depois voltou a usar essa ligação para despachar os tesouros pilhados para a Espanha. A primeira ideia para a construção de um canal transoceânico na região foi do Rei Carlos I da Espanha em 1534, um empreendimento que foi considerado impossível de se realizar na época.

Apesar dos norte-americanos sonharem com a construção de um canal no Panamá desde a década de 1820, foram os franceses que conseguiram a concessão do empreendimento junto à Colômbia (o Panamá pertencia ao país nessa época), iniciando a construção em 1881. A direção do empreendimento foi confiada ao diplomado Ferdinand de Lesseps, que também trabalhou na construção do Canal de Suez, no Egito, obra concluída em 1869.

Para levar a cabo esse novo empreendimento, foi criada uma empresa de capital aberto, que recebeu a adesão de 800 mil investidores. O sucesso obtido na construção e operação do Canal de Suez funcionou como um grande apelo comercial para a atração de tantos investidores. Porém, ao contrário das condições dos terrenos áridos e semiáridos do Egito, onde o maior problema são as bruscas variações de temperatura entre o dia e a noite, o Panamá era coberto por uma densa e complexa floresta tropical, com rios alternando grandes períodos de seca e violentes enchentes.

Para complicar ainda mais, essas florestas estavam infestadas de mosquitos transmissores de perigosas doenças tropicais como a malária e a febre amarela. Não demorou muito para a ousada obra começar a cobrar o seu preço – todos os meses, morriam cerca de 200 trabalhadores, vítimas de doenças, ataques de serpentes e acidentes de trabalho. Até 1889, ano em que os franceses desistiram do empreendimento, cerca de 22 mil trabalhadores já haviam morrido e as despesas com as obras haviam superado a impressionante marca de US$ 287 milhões, em valores da época.

Os Estados Unidos, que há muito tempo tinham interesses estratégicos no Panamá, se aproveitaram do fracasso e da falência dos franceses e assumiram o controle das obras. O Presidente Theodore Roosevelt negociou a compra dos interesses franceses no Canal do Panamá pela “bagatela” de US$ 40 milhões, valor insuficiente para reembolsar os milhares de investidores. Depois, usando de muita “malandragem”, os norte-americanos apoiaram grupos rebeldes que lutavam contra a Colômbia pela independência do Panamá.

Após a independência e formação do novo país, o Governo do Presidente Roosevelt pagou US$ 10 milhões pela concessão de uma faixa com cerca de 80 km de extensão e 9 km de largura no Istmo do Panamá, local onde foi construído o Canal. Essa faixa passou a ser conhecida com a Zona do Canal do Panamá e o prazo de sua concessão foi negociado inicialmente em 100 anos.

Empresas norte-americanas começaram a trabalhar nas obras do Canal do Panamá já em 1904, onde realizaram várias mudanças no projeto original feito pelos franceses. A principal mudança foi na concepção do canal – os franceses imaginaram a construção de um canal ao “nível do mar”, um tipo de obra que exigia a construção de canais muito profundos. Os norte-americanos optaram por um projeto que respeitava a topografia dos terrenos e onde seriam utilizadas barragens com eclusas para elevar e rebaixar os navios. Apesar de deixar a obra tecnicamente mais complexa, esse novo projeto eliminou a necessidade de maiores escavações e transporte de rochas.

Os norte-americanos também foram mais eficientes em ações de cunho sanitário, especialmente no controle das populações de mosquitos e no combate aos focos de suas larvas. Os militares e construtores dos Estados Unidos já haviam levado a cabo uma série de obras nas regiões pantanosas do Sul do país, onde os mosquitos causavam problemas semelhantes, principalmente a transmissão da malária. Entre outras medidas, foram eliminados os criadouros de mosquitos em águas paradas, uso de telas em portas e janelas, uso de inseticidas e de fumacê, entre outras ações.

Além dessas importantes medidas, os norte-americanos se valiam de normas de segurança no trabalho mais rígidas e de técnicas de construção mais modernas. Durante essa segunda fase de obras, que se estenderam por 10 anos, cerca de 5.600 trabalhadores morreram, um número ainda bastante elevado, mas equivalente a apenas um quarto das mortes contabilizadas nos tempos em que os franceses estavam no comando. O Canal do Panamá foi inaugurado em 15 de agosto de 1914 – o cargueiro norte-americano SS Ancon foi a primeira embarcação a realizar a travessia entre os dois oceanos.

Do ponto de vista sócio ambiental, a construção do Canal do Panamá foi um verdadeiro desastre. Ao longo da faixa da Zona do Canal existiam 29 vilas e pequenas cidades, que tiveram de ser evacuadas, em muitos casos, a força – cerca de 50 mil pessoas foram obrigadas a mudar sem maiores explicações. Conforme as obras avançavam, extensas áreas de florestas foram sendo derrubadas, liberando os solos para a escavação. Cerca de 7,6 milhões de metros cúbicos de rochas e sedimentos foram removidos durante a construção do Canal, cerca de 4 vezes mais do que havia sido projetado.

As estimativas atuais indicam que o Panamá possui cerca de 1.200 espécies de árvores e cerca de 10 mil espécies de plantas de todos os tipos, sendo que aproximadamente 1.250 espécies são endêmicas do país. Como não foram realizados estudos mais detalhados da flora e da fauna da região antes da abertura do Canal do Panamá, nunca saberemos com certeza quantas foram as espécies que desapareceram para sempre.

O maior dos impactos ambientais provocados pela abertura do Canal, entretanto, foi a divisão da densa floresta tropical em duas áreas distintas, uma ao Norte e outra ao Sul. Essa divisão passou o bloquear o livre fluxo de espécies animais terrestres e, consequentemente, o fluxo de espécies vegetais entre os dois lados. Animais comem frutas e frutos, carregando em seus estômagos e intestinos sementes, que serão expelidas em outras regiões, favorecendo assim a propagação de plantas e árvores. Existem também inúmeras sementes que aderem ao pelo dos animais e assim são carregadas a longas distâncias.

O isolamento de populações de animais também se reflete no enfraquecimento genético das espécies. O cruzamento de animais com proximidade familiar pode levar ao nascimento de descendentes com inúmeras deficiências genéticas e com menores chances de sobrevivência. A situação das espécies se torna ainda mais delicada devido aos grandes desmatamentos feitos para a ampliação de campos agrícolas e para a ampliação das cidades no país.

Atualmente, perto de 15 mil embarcações atravessam o Canal do Panamá a cada ano. Cada uma dessas embarcações chega a desembolsar até US$ 200 mil em taxas, o que mostra a importância econômica e estratégica dessa via navegável. O Panamá realizou recentemente grandes obras para ampliação do canal, ao custo de mais de US$ 5 bilhões e que permitem o tráfego de embarcações com até 14 mil conteineres. Essas obras já resultaram na destruição de aproximadamente 500 hectares de remanescentes florestais e muitos mais ainda serão destruídos.

Como sempre acontece, os interesses econômicos sempre estão à frente dos interesses sociais e ambientais. Foi isso que aconteceu e que ainda acontece no Panamá.

O PANAMÁ DE VASCO NUÑEZ DE BALBOA E DE THEODORE ROOSEVELT, JR

Theodore Roosevelt

Na última postagem falamos rapidamente da teoria da Deriva dos Continentes e da formação das áreas continentais que encontramos atualmente no Mapa Mundi. Durante esse processo, as grandes massas de terra que formam as atuais América do Norte e América do Sul ficaram separadas por mais de 130 milhões de anos. Todas as formas de vida que existiam sobre essas áreas seguiram por caminhos evolutivos próprios e o isolamento gerou faunas e floras bem diferentes.

O isolamento dessas áreas continentais só terminou com a formação do Istmo do Panamá em um momento entre 2 e 23 milhões de anos atrás, quando diversos eventos vulcânicos formaram uma “ponte de terra” com aproximadamente 80 km de largura. Além de interligar as duas grandes massas de terra e criar um importante corredor para a biodiversidade, a formação do Istmo do Panamá bloqueou as correntes marinhas que circulavam entre o Oceano Pacífico e o Mar do Caribe, isolando as populações de animais e plantas, o que levou a processos evolutivos isolados de cada lado do Istmo. Essas mudanças nas correntes marinhas também criaram mudanças no clima local.

Passando da história geológica para a história humana, existem dois personagens chaves para se entender a história do Panamá e os fatos que culminaram com a construção do Canal do Panamá, inaugurado em 1914. O primeiro é o aventureiro espanhol e “caloteiro” Vasco Nuñez de Balboa, descobrir do caminho até o Oceano Pacífico em 1513. O segundo, bem mais contemporâneo, foi Theodore Roosevelt, Jr, Presidente dos Estados Unidos entre 1901 e 1909.

A América Central e as Ilhas do Mar do Caribe ganharam relevância para os conquistadores espanhóis, e por extensão para todo o mundo, a partir de 1492, data da chegada da expedição de Cristóvão Colombo. Entre os inúmeros aventureiros ibéricos que sonhavam com as míticas riquezas do Novo Mundo e que se alistavam nas expedições marítimas se encontrava um jovem de Jerez de los Cabaleros. Seu nome era Vasco Nuñez de Balboa.

Existem muitas dúvidas sobre a origem de Balboa, mas sabe-se com certeza que ele veio de uma família de nobres empobrecidos. Fugindo de dívidas e de credores, Balboa se alistou aos 26 anos na expedição de Rodrigo de Bastidas para a Colômbia, onde desembarcou em 1501. Participou de explorações nas costas da Venezuela, Colômbia e Jamaica, se estabelecendo por fim em Santo Domingo, na Ilha Hispaniola. Exerceu diversas atividades, porém, sem conseguir atingir o sucesso financeiro e as riquezas tão sonhadas pelos conquistadores.

Em 1509, fugindo mais uma vez dos seus credores, Balboa se juntou a uma expedição para a região da atual Colômbia. Graças ao seu carisma pessoal e também devido aos profundos conhecimentos da região que adquiriu em expedições exploratórias anteriores, Vasco de Balboa foi ganhando a confiança dos administradores coloniais e acabou sendo nomeado Governador da região em 1511.

O auge da vida conturbada de Vasco Nuñez de Balboa se deu em 1513, quando ele organizou uma expedição em busca do lendário “Mar de Sur”. Diversas lendas dos índios locais falavam da existência de um grande mar do outro lado do Panamá. Balboa e seus expedicionários passaram 30 dias percorrendo a região com guias indígenas. Uma lenda local conta que já no final da jornada, Balboa, acompanhado apenas pelo seu cachorro Leoncito, subiu em um morro e de lá avistou o Oceano Pacífico.

Essa descoberta abriu o caminho para a conquista do Peru e de suas fabulosas riquezas e mudou os rumos da colonização espanhola nas Américas. Os conquistadores construíram navios e portos nas costas do Oceano Pacífico e realizavam a integração de cargas e pessoas com os portos no Mar do Caribe através dessa rota terrestre pelo Panamá. Apesar dessa grande conquista, o destino final de Vasco de Balboa não foi dos melhores – anos mais tarde, ele acabou sendo acusado de conspiração contra a Coroa de Espanha e foi executado em 1517.

Saltando no tempo, chegamos ao início do século XX. A região que hoje compõe o território do Panamá pertencia a Colômbia e estava sendo cobiçada pelos Estados Unidos, que há época já era uma das grandes potenciais mundiais. Com a conquista de toda a região do Oeste americano, os Estados Unidos agora dominavam os mares a Leste e a Oeste do seu grande território. Apesar do seu grande poderia militar e econômico, os norte-americanos ressentiam de uma interligação mais rápida e mais curta entre as suas duas costas.

Até aquele momento, as embarcações norte-americanas dispunham de duas rotas para percorrer de um porto na costa Leste até outro na costa Oeste. O principal deles era seguir até o Cabo Horn, no extremo Sul da América do Sul e atravessar navegando pelas águas do Estreito de Magalhães. Um navio que saísse de Nova York, na costa Leste, com destino a São Francisco, na costa Oeste, teria de navegar cerca de 22.500 km, praticamente metade da circunferência do globo terrestre. Outra opção, bem mais perigosa e um pouco mais curta, seria a de seguir navegando pelo Norte do Canadá e chegar ao Oceano Pacífico através do Estreito de Bering. Essa viagem só era possível durante os meses do verão.

Geógrafos e militares norte-americanos defendiam, há muito tempo, a necessidade da construção de um canal com aproximadamente 80 km de extensão no Panamá. Empresários franceses, inclusive, já haviam feito uma tentativa de construção desse canal em 1880, mas fracassaram de forma retumbante. Essa obra encurtaria muito as viagens marítimas – a mesma viagem entre Nova York e São Francisco feita via Canal do Panamá cairia para apenas 9,5 mil km. A favor do projeto dos norte-americanos estava a bem sucedida experiência do Canal de Suez, no Egito, que desde de 1869 permitia viagens bem mais curtas entre a Europa e o Extremo Oriente.

É aqui que entra em cena a figura de Theodore Roosevelt, Jr (vide foto) e de sua política externa. Ao invés de iniciar exaustivas e demoradas negociações com a Colômbia, o Presidente norte-americano se embrenhou por um discutível atalho – os Estados Unidos passaram a apoiar um grupo de rebeldes do Norte da Colômbia que lutava pela independência do Panamá. Esse grupo já havia iniciado uma série de ataques contra instalações militares do Governo na região. O Governo da Colômbia reagiu enviando tropas para apaziguar os ânimos na região. Em resposta aos movimentos da Colômbia, os Estados Unidos enviaram dois navios de guerra em apoio aos revolucionários. Coincidentemente, esses navios ficaram ancorados exatamente na região onde os norte-americanos pretendiam construir o canal.

Entre muitas idas e vindas, os rebeldes separatistas conseguiram declarar a independência do Panamá da Colômbia em dezembro de 1903, com apoio explícito de Washington. A Colômbia, que não tinha a menor intenção de entrar em rota de conflito com Presidente Roosevelt e as poderosas forças armadas dos Estados Unidos, acabou por aceitar a independência da região. O Panamá passou a contar com um território total com pouco mais de 78 mil km², pouco menos de duas vezes a área do Estado do Rio de Janeiro.

Em “reconhecimento” ao apoio do Presidente Roosevelt ao movimento revolucionário, o novo governo do Panamá aceitou vender uma faixa de terras com 82 km de extensão a um custo de US$ 10 milhões, onde os norte-americanos pretendiam construir o seu canal. Essa faixa de terras passou a ser conhecida como a Zona do Canal do Panamá, um território que seria controlado exclusivamente pelos norte-americanos até o ano de 1977 e, entre 1977 e 1999, seria controlado por norte-americanos e panamenhos. As obras de construção do Canal do Panamá começaram já em 1904 e, depois de inúmeros problemas, foram finalmente inauguradas em 1914.

Com o fim da concessão dos direitos de operação, os Estados Unidos transferiram o controle do Canal para o Governo do Panamá. A operação do Canal é a grande fonte de receitas do país – o custo para a passagem de um grande cargueiro pode custar até US$ 200 mil. Nos últimos anos, os panamenhos vêm trabalhando arduamente para ampliar o seu Canal e permitir a passagem de navios cada vez maiores.

O grande descobridor do caminho rumo ao Oceano Pacífico através das selvas do Panamá, Vasco Nuñes de Balboa, foi homenageado pelo Governo local – a moeda oficial do país é o Balboa panamenho. Se você for hoje visitar o Panamá, será praticamente impossível encontrar uma nota ou moeda de Balboa em circulação. A moeda mais utilizada no país é o dólar norte-americano, que foi levada para o Panamá pelos esforços de Theodore Roosevelt. Uma grande ironia da história.