AS USINAS HIDRELÉTRICAS DE PARAIBUNA, JAGUARI E SANTA BRANCA

Represa de Paraibuna

Na nossa última postagem, falamos rapidamente da história geológica do rio Paraíba do sul, que teve início há, aproximadamente, 65 milhões, quando um grande bloco rochoso afundou na atual região onde encontramos o Vale do Paraíba, no Leste do Estado de São Paulo. Esse afundamento de solo, conhecido na geologia estrutural como Graben ou fossa tectônica, desviou o curso dos rios Paraibuna e Paraitinga para o Norte, formando inicialmente um grande lago onde encontramos hoje os atuais municípios de São José dos Campos e Taubaté. Com o passar das eras, as águas foram encontrando um caminho de drenagem rumo ao Oceano Atlântico, formando assim a calha atual do rio Paraíba do Sul. 

Na história brasileira, o Vale do Paraíba ganhou destaque a partir de meados do século XIX, quando a cafeicultura foi introduzida na região e transformou as pacatas vilas em prósperas cidades. Esse vigoroso ciclo econômico durou pouco mais de vinte anos – a devastação das matas e a forma de plantio das mudas de café em linhas que desciam os morros, rapidamente esgotou os solos e a cultura acabou migrando para o Oeste paulista, onde se encontram as famosas e férteis “terras roxas”. A história da ascensão e decadência da cafeicultura no Vale do Paraíba foi imortalizada por Monteiro Lobato no livro “Cidades Mortas”. 

A partir das últimas décadas do século XIX e início do século XX, o perfil socioeconômico da região foi sendo mudado e o Vale do Paraíba se transformou primeiro numa importante produtora de gêneros agropecuários, com destaque para a produção de leite e derivados. Depois, surgiu na região um próspero pólo industrial, que foi estimulado principalmente pela construção da ferrovia São Paulo-Rio de Janeiro e pela criação da CSN – Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, interior do Estado do Rio de Janeiro. Esse forte desenvolvimento regional estimulou o crescimento das cidades e criou uma forte demanda por energia elétrica. 

A primeira geradora de energia elétrica do Vale do Paraíba foi a Usina Hidrelétrica Santa Branca, que teve suas obras iniciadas em 1957 e concluídas em 1961. O empreendimento foi realizado pela Light and Power Company, uma importante empresa concessionária de energia elétrica na época, que fez história tanto no Estado de São Paulo quanto no Rio de Janeiro. Além da preocupação com a geração de energia elétrica para os consumidores do Vale do Paraíba, a Light também tinha uma grande preocupação com o controle da vazão do rio Paraíba do Sul, que já na época tinha uma parte importante de seus caudais desviados para o Complexo Hidrelétrico de Lajes, da própria Light, no Estado do Rio de Janeiro. A Usina Hidrelétrica de Santa Branca tem uma capacidade instalada de 62 MW e inundou uma área de 27,5 km² para a formação do seu reservatório. 

A segunda usina da região foi a Hidrelétrica Jaguari, construída pela CESP – Centrais Elétricas de São Paulo (que depois teve o nome alterado para Companhia Energética de São Paulo), entre os anos de 1963 e 1971. Essa usina foi construída no rio Jaguari, um importante afluente do rio Paraíba do Sul. Além de gerar energia elétrica e também atuar no controle da vazão das águas do rio Paraíba do Sul, Jaguari também incorporou entre seus objetivos o abastecimento de água de várias cidades da região. A potência instalada na usina é de 27,6 MW e o seu reservatório alagou uma área de 56 km². 

A última e maior usina construída na região do Vale do Paraíba foi a Hidrelétrica Paraibuna da CESP. A barragem dessa hidrelétrica represou as águas dos rios Paraibuna e Paraitinga, criando um lago com área total de 224 km², sendo 177 km² no rio Paraibuna e 47 km² no rio Paraitinga. A Represa de Paraibuna (vide foto) é o maior reservatório do rio Paraíba do Sul, que tem a importante função de regularizar a vazão do rio, evitando os antigos problemas de enchentes que ocorriam em diversos trechos do Paraíba do Sul. O potencial da UHE Paraibuna é de 87 MW. 

Além da sua importância na geração de energia elétrica, os reservatórios das hidrelétricas de Paraibuna, Jaguari e Santa Branca, na região do Vale do Paraíba, e o reservatório da Usina Hidrelétrica do Funil, localizado em Resende no Sul do Estado do Rio de Janeiro, formam o “reservatório virtual” do Sistema Hidráulico do rio Paraíba do Sul, um importantíssimo conjunto de estruturas hidráulicas que respondem pelo abastecimento de 14,2 milhões de pessoas, a grande maioria no Estado do Rio de Janeiro

Todas essas usinas hidrelétricas foram construídas antes de 1986, ano em que foi publicada a Resolução CONAMA 001, quando se passou a exigir uma série de estudos de impactos ao meio ambiente em obras com potencial de causar impactos ambientais. Sem essas preocupações, a construção dessas hidrelétricas causou uma série de problemas ambientais tais como: escorregamentos de encostas; perdas de habitats; alagamento de áreas úmidas; transformação de ambientes lóticos (de águas rápidas) em ambientes lênticos (águas paradas), com diversos impactos negativos na vida de plantas e animais aquáticos; supressão do fluxo migratório de diversas espécies aquáticas, além da supressão de centenas de quilômetros quadrados de matas nativas. 

Entre os impactos sociais, a construção desses reservatórios forçou um grande êxodo rural de moradores de áreas que foram alagadas após o fechamento das comportas das represas. Alguns números da região onde foi construída a Usina Hidrelétrica Paraibuna nos dão uma ideia desse impacto: 

O município de Paraibuna teve 70 km² de seu território alagado durante a formação do reservatório e não sofreu impactos em sua população com as obras: em 1960, o município tinha 13 mil habitantes; em 1970 tinha 13,8 mil habitantes e em 2007, 18 mil habitantes. Já nos municípios de Redenção da Serra e Natividade da Serra, que tiveram 20 km² e 120 km², respectivamente, de seus territórios alagados após a conclusão da represa, houve uma redução nas populações após a conclusão das obras. Em Redenção da Serra, existiam 5,3 mil habitantes em 1960, passando para 5,1 mil habitantes em 1970 e 4 mil habitantes em 2007. Já em Natividade da Serra, a população era de 11 mil habitantes em 1960, 10 mil habitantes em 1970 e de 7 mil habitantes em 2007. 

Dados socioeconômicos demonstram que, após a formação da Represa de Paraibuna, o município de Paraibuna mostrou um grande crescimento de atividades de turismo e esportes náuticos, além de outras atividades e serviços ligados ao turismo como hospedagem, alimentação e transportes, o que compensou as perdas nas atividades agropecuárias nas regiões alagadas pelo reservatório. Nos municípios de Redenção da Serra e de Natividade da Serra, houve muito pouco crescimento dessas novas atividades e serviços, não compensando as perdas nas atividades agropecuárias – sem novas oportunidades de trabalho, moradores que abandonaram os municípios durante as obras não retornaram mais. 

Apesar dos muitos impactos positivos, destaque-se aqui a garantia do abastecimento de água a milhões de pessoas e a geração de grandes volumes de energia elétrica, a construção das usinas hidrelétricas do Vale do rio Paraíba causou enormes impactos socioambientais, que normalmente não parecem nos dados oficiais. 

AS MUITAS HISTÓRIAS DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO PARAÍBA DO SUL E DAS SUAS USINAS HIDRELÉTRICAS

Rio Paraíba do Sul

O rio Paraíba do Sul tem aproximadamente 1.100 km de extensão, com nascentes no Estado de São Paulo e foz no litoral Norte do Rio de Janeiro. Ele não é um dos maiores rios brasileiros, mas a sua bacia hidrográfica é uma das mais importantes do país, tanto em abastecimento de água para populações nos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, quanto na geração de energia em usinas hidrelétricas instaladas na sua calha e/ou que utilizam as suas águas através de sistemas de transposição entre bacias hidrográficas. São múltiplas histórias, que contaremos em diferentes postagens. 

Vamos começar falando do rio Paraíba do Sul e sua interessante história. 

O rio Paraíba do Sul se forma a partir da junção dos rios Paraibuna e Paraitinga, rios com nascentes nas encostas da Serra da Bocaina, um dos trechos da Serra do Mar no Estado de São Paulo. Assim como aconteceu com os rios Tietê, Iguaçu e Paranapanema, as águas dos rios Paraibuna e Paraitinga passaram a correr no sentido Oeste devido aos processos de soerguimento dos terrenos da Serra do Mar. Inclusive, durante um longo período geológico, esses rios eram afluentes formadores do rio Tietê. 

Há cerca de 65 milhões de anos atrás, como resultado dos movimentos combinados de falhas geológicas paralelas ou quase paralelas, um grande bloco rochoso afundou, formando a atual região do Vale do rio Paraíba, no Leste do Estado de São Paulo. Sem entrar em maiores detalhes, esse tipo de afundamento ocorreu devido à movimentação das Placas Tectônicas, também conhecida como Tectônica Global – se ficou curioso, pesquise sobre isto. 

Em geologia estrutural, isso é o que se chama de Graben ou fossa tectônica, resultando na formação de um vale alongado e com fundo plano. Um outro grande exemplo de fossa tectônica aqui no Brasil é o Vale do Rio São Francisco, na Região Nordeste. Com o afundamento dos solos nessa região, os rios Paraibuna e Paraitinga desviaram seu curso em direção ao Norte, formando inicialmente um grande lago onde encontramos hoje os municípios de São José dos Campos e Taubaté. Ao longo de milhões de anos, essas águas foram encontrando brechas no solo e, pouco a pouco, foi criado o leito do rio Paraíba do Sul até sua foz no Oceano Atlântico.  

O rio Paraíba do Sul foi descoberto logo nos primeiros anos após o descobrimento do Brasil. Entre 1501 e 1502, foi realizada a Primeira Expedição Exploradora das costas brasileiras sob o comando de Gaspar de Lemos e com a participação do navegador Américo Vespúcio. Essa expedição batizou diversos acidentes geográficos e ilhas ao longo da costa, usando especialmente nomes dos santos de cada dia, como era o costume na época. No Norte do atual Estado do Rio de Janeiro, os exploradores encontraram a foz de um grande rio, que era chamado de “paraíba” pelos índios tupi, um nome que significava algo como “rio difícil de invadir”. Como esses exploradores já haviam batizado um outro rio com esse nome no Nordeste, onde encontramos o atual Estado da Paraíba, o novo rio acabou batizado de rio Paraíba do Sul. 

Apesar de nunca ter sido um rio totalmente navegável, o Paraíba do Sul foi um importante caminho para a penetração nos “sertões” do Leste de Minas Gerais e do interior do Rio de Janeiro, onde foram instaladas fazendas, povoados e cidades. O cultivo da cana-de-açúcar foi uma das primeiras atividades econômicas da região, especialmente ao longo dos séculos XVIII e XIX. O rio Paraíba também foi o caminho de entrada da cultura do café, primeiro em regiões do interior do Estado do Rio de Janeiro, passando depois para o Vale do Paraíba, no Leste do Estado de São Paulo. Em períodos históricos mais recentes, a região da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul passou a concentrar atividades agropecuárias e industriais, estas últimas decorrentes da instalação da CSN – Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, no interior do Estado do Rio de Janeiro, na década de 1940. 

Os diferentes ciclos econômicos que se sucederam ao longo das margens do rio Paraíba do Sul e regiões adjacentes deixaram como legado um grande número de cidades e uma grande população. Ocupando uma área com mais de 56 mil km², a bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul abrange um total de 88 municípios em Minas Gerais, 57 no Rio de Janeiro e 39 no Estado de São Paulo. Somente no Estado do Rio de Janeiro, 12 milhões de habitantes dependem das águas do rio para seu abastecimento, especialmente na Região Metropolitana e na Baixada Fluminense, onde as águas do Paraíba do Sul são transpostas através do rio Guandu e respondem por 80% da água consumida pela população. 

O potencial hidrelétrico da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul é um destaque a parte. A Usina Hidrelétrica Ilha dos Pombos foi a primeira a ser construída no rio Paraíba do Sul em Carmo, no interior do Estado do Rio de Janeiro. Inaugurada em 1924, a usina utilizou um projeto técnico bastante inovador para a época, ampliando a capacidade do sistema gerador da Light em 187 MW. Uma curiosidade desta obra – a execução do projeto foi coordenada pelo engenheiro norte-americano Asa Billings, o mesmo que anos depois chefiou as obras do complexo da Represa Billings (que recebeu o nome em homenagem ao seu construtor) e Usina Hidrelétrica de Cubatão

Uma outra importante hidrelétrica do rio Paraíba do Sul é a Usina do Funil, em Itatiaia no Rio de Janeiro, que foi concebida no início da década de 1930, com o objetivo de permitir a eletrificação de estradas de ferro nos Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. As obras, porém, acabaram adiadas em cerca de 30 anos e a usina só iniciou suas operações em 1969, com uma capacidade instalada de 219 MW. Apesar de não ser uma das maiores em capacidade instalada, a Usina do Funil tem uma localização estratégica nas proximidades de grandes centros consumidores. Uma outra característica relevante da obra foi sua capacidade de regularizar a vazão do rio Paraíba do Sul, reduzindo a frequência e a intensidade das enchentes, resultado dos intensos e seculares desmatamentos em toda a área da bacia hidrográfica. 

Dentro do Estado de São Paulo, existem 3 hidrelétricas de destaque na bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul – Paraibuna, Santa Branca e Jaguari. Além de importantes fontes de geração de energia elétrica, os reservatórios dessas hidrelétricas formam uma parte considerável do reservatório virtual de abastecimento do Estado do Rio de Janeiro. Em 1952, após a conclusão da Barragem de Santa Cecília, parte das águas do Paraíba do Sul passaram a ser desviadas na direção do Complexo de Lajes, no interior do Estado do Rio de Janeiro. Esse complexo é formado por diversos reservatórios, usinas elevatórias e hidrelétricas. São as águas que descem deste Complexo que reforçam a vazão do rio Guandu, o principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. 

Apesar de toda a sua importância histórica, econômica e social, o rio Paraíba do Sul é hoje o 5° rio mais poluído do país, sofrendo com despejos de esgotos domésticos, industriais, exploração de areia e mineração, além de toda uma coleção de impactos ambientais provocados pela construção de inúmeras usinas hidrelétricas ao longo de sua bacia hidrográfica. 

Na próxima postagem, vamos falar das usinas hidrelétricas do trecho paulista da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. 

OS PROBLEMAS AMBIENTAIS DO RIO PARANAPANEMA, OU FALANDO DO SURUBIM PIRAJUENSE

Hidrelétrica de Ourinhos

A maioria dos grandes rios brasileiros que estão fora da Região Amazônica, sofrem cada vez mais com problemas de poluição em suas águas. Os rios que atravessam as nossas grandes cidades recebem cargas cada vez maiores de esgotos in natura, sem qualquer tipo de tratamento. Nas regiões com forte predomínio de atividades agropecuárias, são os resíduos de agrotóxicos e de fertilizantes que acabam carreados para os rios, causando toda a sorte de impactos ambientais. Já em regiões mineradoras, os rejeitos minerais é que são os grandes vilões dos rios. 

A lista dos rios mais poluídos do Brasil inclui nomes de peso como o Tietê, Iguaçu, Paraíba do Sul, Guandu, das Velhas, Doce, Capibaribe, Ipojuca, entre muitos outros. Curiosamente, o rio Paranapanema, um rio paulista com mais de 900 km de extensão, não tem seu nome nem cogitado para entrar nessa lista. Ao contrário, ele é considerado o grande rio mais limpo do Estado de São Paulo e, de quebra, do Paraná, uma vez que grande parte do rio corre na divisa entre esses dois Estados

O rio Paranapanema nasce discretamente nas encostas da Serra de Agudos Grandes, no Sul do Estado de São Paulo, a 900 metros de altitude. Nessa região, que é a mais escassamente povoada do Estado, existem grandes remanescentes florestais, algo que garante a “saúde” e a vitalidade do curso alto do rio. Margens cobertas com vegetação nativa de Mata Atlântica, uma paisagem cada vez mais rara, onde se avistam macacos, antas, capivaras, lontras e uma infinidade de aves. Esse trecho, que tem aproximadamente 180 km, é conhecido como Alto rio Paranapanema e se caracteriza por águas rápidas e muitas corredeiras. 

Repentinamente, as fortes corredeiras se transformam nas águas paradas da Represa de Jurumirim, um reservatório com uma área de espelho d’água com quase 450 km², equivalente a quatro vezes a área da Baía da Guanabara. A Jurumirim resume os impactos ambientais que a construção de barragens de usinas hidrelétricas pode provocar num grande rio como o Paranapanema. 

O primeiro impacto, como já comentamos, é a brusca mudança nas características do curso d’água: as fortes correntezas do rio, que formam os chamados ambientes lóticos, subitamente se transformam num meio com águas paradas ou baixíssimas velocidades de correntezas, chamados na biologia de ambientes lênticos. Essa brusca mudança nos ambientes tem reflexos diretos na vida dos seres aquáticos. Diversas espécies de peixes, citando um único exemplo, possuem uma conformação física adaptada para “lutar” continuamente contra a força da correnteza. Esses animais costumam ter suas áreas de procriação em recantos tranquilos próximos ao alto das cabeceiras do rio. Na época conhecida como piracema, esses peixes sobem os rios nadando contra a força das corredeiras até atingir essas áreas de procriação. Essa verdadeira jornada, funciona como um processo de seleção natural, onde só os mais fortes da espécie vão conseguir gerar descendentes. 

Com a construção de barragens e a formação de represas, esse fluxo migratório dos peixes ao longo da calha do rio é interrompido, dividindo os animais em diferentes grupos – um grupo que vive abaixo da represa e outro que vive na área represada. Essa divisão dos animais em grupos separados terá como primeira consequência um enfraquecimento genético da espécie, algo que, a longo prazo, reduzirá a capacidade de sobrevivência da espécie. O grupo de peixes que ficou preso abaixo da represa não conseguirá alcançar as suas antigas áreas de reprodução, passando a depender da sorte para encontrar algum recanto com águas calmas, onde as ovas fertilizadas consigam eclodir e os alevinos encontrem nichos protegidos. 

Na área das águas paradas da represa, peixes acostumados com a vida em águas rápidas ficam, literalmente, perdidos. O fluxo da correnteza atua com uma espécie de bússola para esses peixes, informando a direção em que devem nadar. Dentro das águas paradas da represa, esses peixes não sabem para qual direção nadar e passam a depender da sorte para capturar alguma presa. Para as espécies de peixes habituadas a vida em ambientes lênticos, os efeitos são justamente contrários – com o aumento da quantidade de águas paradas, essas espécies prosperam, aumento exponencialmente as suas populações. E na competição pelos estoques de alimentos, elas levam enormes vantagens diante dos peixes de ambientes lóticos. 

Um exemplo de espécie impactada diretamente pela construção de sucessivas represas no rio Paranapanema é uma espécie de surubim nativa do próprio rio e que só foi catalogada pela ciência em 2002. Chamada provisoriamente de surubim-do-Paranapanema e surubim pirajuense, essa raríssima espécie de peixe pode estar vivendo na calha do rio Paranapanema a 15 milhões de anos, sofrendo sucessivas adaptações físicas, como forma de sobreviver nos ambientes específicos do rio Paranapanema. A falta de estudos e de maiores informações sobre essa espécie de peixe é preocupante – após a construção de 11 usinas hidrelétricas ao longo da calha do rio Paranapanema desde a década de 1920, é praticamente impossível se determinar quais eram as características originais e a extensão total do habitat dessa espécie.  

Um dos poucos refúgios conhecidos do surubim pirajuense é justamente no Salto de Piraju, uma queda d’agua do rio Paranapanema nas proximidades da cidade homônima. Detalhe – existem grupos econômicos interessados na construção de uma nova usina hidrelétrica nessa região, obra que colocaria essa espécie de surubim em risco iminente de extinção. Todos os alertas devem ser ligados – é preciso se estabelecer limites para a degradação ambiental do rio Paranapanema. 

Falando em limites, vejam essa comparação entre duas usinas hidrelétricas do rio: 

A Usina de Jurumirim, chamada oficialmente de Usina Hidrelétrica Armando Avellanal Laydner, teve suas obras concluídas em 1962 e foi a responsável pela formação da grande represa de Jurumirim que, conforme já citamos, cobriu uma área de 450 km². Essa usina recebeu dois grupos geradores de energia elétrica, com uma potência total estimada de 98 MW. Graças a erros gritantes no projeto da usina hidrelétrica, a potência máxima de energia gerada não chega a 40%, ou seja, 40 MW. Em 2005, foi inaugurada a Usina Hidrelétrica de Ourinhos (vide foto), que gera 44 MW de energia elétrica, alagando cerca de 4,5 km² – a mesma produção da Usina de Jurumirim com apenas 1/100 (um centésimo) da área alagada

A aparente fartura de águas nos grandes rios pode nos dar a falsa sensação que esse recurso é ilimitado e que pode ser explorado indefinidamente, sem maiores consequências ao meio ambiente. Essa é uma visão falsa e que, infelizmente, faz parte da realidade de rios como o Paranapanema. 

A geração de energia por fontes hidrelétricas é fundamental para o nosso país. Porém, a construção dessas usinas deve ser precedida de exaustivos estudos técnicos e ambientais – se é possível gerar energia elétrica em uma usina como a de Ourinhos, caso que citamos há pouco, a construção de uma usina de Jurumirim nem deveria ser considerada. Simples assim

AS MUITAS USINAS HIDRELÉTRICAS DO RIO PARANAPANEMA

Represa Jurumirim

A Serra do Mar é uma longa cadeia montanhosa que se estende por cerca de 1.500 km entre os Estados do Rio de Janeiro e Santa Catarina, acompanhando a faixa litorânea. Essa Serra é formada por uma sucessão contínua de morros e montanhas, onde se destacam grandes blocos rochosos de granitos e gnaisses, pertencendo ao chamado Complexo Cristalino Brasileiro. Rios importantes como o Tietê, Iguaçu e Paraíba do Sul têm suas nascentes nas escarpas elevadas da Serra do Mar. Apesar de nascerem bem próximos da Costa Atlântica, as grandes altitudes da Serra do Mar forçam esses rios a correr na direção do interior do continente, formando importantes bacias hidrográficas. 

A formação da Serra do Mar está diretamente associada à fragmentação do antigo Supercontinente de Gondwana. Essa gigantesca formação continental era constituída pela América do Sul, África, Antártica, Ilha de Madagáscar, Índia (o famoso Subcontinente Indiano), Austrália, Nova Zelândia, Nova Caledônia e algumas outras ilhas menores. Esse evento teve início a cerca de 165 milhões de anos, quando as diversas Placas Tectônicas (pesquise sobre isso) começaram a se separar. Os terrenos que formam a Serra do Mar sofreram forte soerguimento durante esse período, com algumas montanhas superando os 7 mil metros de altitude – processos erosivos que se estenderam por milhões de anos deixaram a Serra do Mar com o aspecto atual. 

Os mesmos processos geológicos que formaram os rios Tietê, Iguaçu e Paraíba do Sul também possibilitaram o surgimento do discreto rio Paranapanema. Apesar de aparecer muito pouco na mídia, o Paranapanema percorre aproximadamente 924 km desde suas nascentes no alto da Serra de Agudos Grandes, uma ramificação da Serra do Mar, e segue seu curso rumo ao Oeste, até sua foz no rio Paraná. Atravessando algumas das regiões menos habitadas do Estado de São Paulo, o Paranapanema é considerado o mais limpo de todos os grandes rios paulistas. 

Apesar de estar muito longe dos problemas criados pela poluição nas águas dos outros rios com nascentes na Serra do Mar, o Paranapanema sofre de um outro terrível mal – 11 barragens de usinas hidrelétricas foram construídas ao longo de sua calha, fragmentando os habitats aquáticos e criando uma série de problemas ambientais, uma história bastante parecida com a de muitos outros rios brasileiros. Outra semelhança negativa – a maioria desses projetos foram implantados sem que qualquer estudo de impacto ao meio ambiente fosse feito. Vamos entender mais essa saga de um rio: 

A primeira usina hidrelétrica construída no rio recebeu o nome de Paranapanema e foi implantada na cidade de Piraju. As obras da barragem foram iniciadas em 1926, onde foi prevista a instalação inicial de 3 grupos geradores, com potência prevista de 2,5 MW, o que era considerado na época como uma usina de grande porte. O projeto previa a implantação sucessiva de novos grupos geradores, o que foi concluído em 1998, quando a usina atingiu a capacidade total de 31 MW. 

Outro marco importante na história das hidrelétricas do rio Paranapanema foi a construção da Usina de Jurumirim, chamada oficialmente de Usina Hidrelétrica Armando Avellanal Laydner. Suas obras foram iniciadas em 1956, durante a presidência de Juscelino Kubitschek, e concluídas em 1962. Conforme comentamos em postagem anterior, esse foi um período de forte crescimento econômico no país, quando teve início um ciclo de construção de inúmeras usinas hidrelétricas, especialmente no período dos Governos Militares, entre 1964 e 1985, onde o lema era o “desenvolvimento a qualquer custo”. 

A represa de Jurumirim (vide foto), formada após a construção da barragem, se estende por cerca de 100 km, com uma largura que atinge até 3 km. O espelho d’água do reservatório cobre uma área com, aproximadamente, 450 km², equivalente a quase quatro vezes o tamanho da Baía da Guanabara – isso nos dá uma ideia do tamanho dos impactos ambientais, onde grandes extensões de matas tiveram de ser suprimidas, além da desapropriação de grandes áreas de produção agrícola. 

Apesar da aparente grandiosidade, que representa mais de 1/3 das águas represadas do rio Paranapanema, a Hidrelétrica de Jurumirim teve inúmeras falhas no seu projeto e nunca conseguiu atingir a sua potência instalada de 98 mil kW. Estudos feitos em 2014 indicam que os dois grupos geradores da Usina só conseguem atingir 40% da capacidade projetada. A represa acabou tendo sua função alterada, passando a atuar como uma reguladora dos caudais de águas do rio Paranapanema.

Erros de concepção e de projetos em usinas hidrelétricas, aliás, são bem mais frequentes do que parecem e um grande exemplo, que abordaremos em futura postagem, é a Usina Hidrelétrica de Balbina, no Estado do Amazonas, que alagou cerca de 2.300 km² e só consegue produzir 250 MW de energia. Para efeito de comparação, a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Estado do Pará, provocou a formação de um lago com área similar, porém, com uma potência instalada da ordem de 8,4 mil MW.

A história das hidrelétricas do rio Paranapanema prosseguiu: 

  • Usina Hidrelétrica Salto Grande, construída entre 1951 e 1958, com potência instalada de 74 MW; 
  • Usina Hidrelétrica Chavantes, construída entre 1959 e 1971, com potência total de 414 MW; 
  • Usina Hidrelétrica Capivara, a maior usina do rio Paranapanema, inaugurada em 1978, com uma potência total de 619 MW; 
  • Usina Hidrelétrica Rosana, concluída em 1987, com potência instalada de 372 MW; 
  • Usina Hidrelétrica Taquaruçu, concluída em 1992, com potência total de 554 MW; 
  • Usinas Hidrelétricas Canoas I e Canoas II, concluídas em 1999, com potências instaladas de 81 MW e 72 MW, respectivamente; 
  • Usina Hidrelétrica Piraju, concluída em 2002, com 80 MW de potência e 
  • Usina Hidrelétrica Ourinhos, concluída em 2005, com uma potência instalada de 44 MW. 

Juntas, essas 11 usinas geram aproximadamente 2,4 mil MW, uma energia fundamental para atender as necessidades centenas de milhares de consumidores. Porém, como é possível notar pelas datas de conclusão das obras dessas usinas hidrelétricas, a grande maioria é anterior a 1986, ano em que entrou em vigor a Resolução CONAMA 001, onde a implantação dessas obras passou a ficar vinculada a estudos prévios de impactos ao meio ambiente. 

Apesar da aparente saturação da exploração hidrelétrica do rio Paranapanema e toda uma infinidade de problemas ambientais criados pela construção sucessiva de barragens e reservatórios, vários grupos empresariais lutam para conseguir autorização para a implantação de novas unidades geradoras no rio, acirrando a luta de cidades e populações que não querem mais saber de novas obras no Paranapanema. 

Como já afirmamos em postagens anteriores, as fontes hidráulicas são fundamentais para a geração renovável de energia elétrica. Entretanto, devem ser tomados todos os cuidados possíveis na avaliação dos impactos negativos dessas obras, buscando sempre as melhores alternativas para a minimização desses problemas. 

O rio Paranapanema é, ao mesmo tempo, um exemplo desse grande potencial hidrelétrico a ser explorado e também a mais completa tradução dos impactos ambientais que podem ser criados por essa exploração. Vale a pena refletir muito sobre isso.

SURUBIM DO IGUAÇU: UM ÍCONE DA DEGRADAÇÃO AMBIENTAL DO RIO

Surubim filhote

O Iguaçu é considerado o rio de maior aproveitamento energético da Região Sul do Brasil. Para chegar a essa marca, foram construídas usinas hidrelétricas em série no rio, construções essas que, na sua grande maioria, foram feitas sem qualquer estudo de impacto ao meio ambiente. Apesar de ser um “campeão” em geração hidrelétrica, o rio Iguaçu também ocupa um lugar de destaque em termos de devastação ambiental. Um símbolo desse descaso com o meio ambiente é a situação do surubim do rio Iguaçu, um peixe que chegou bem perto da extinção. 

Os peixes da “família” dos surubins ocorrem nas bacias do rio da Prata, do rio São Francisco e do rio Amazonas. Algumas espécies figuram entre os maiores peixes de água doce do Brasil, ao lado do pirarucu, com exemplares que podem chegar a 100 quilos de peso e atingir mais de 3 metros de comprimento. O surubim é um peixe de couro da família dos pimelodídeos, a mesma dos jaús e dos jundiás, que habita o fundo dos rios e de lagoas. Em muitos lugares do Brasil é conhecido como pintado; na região da bacia Amazônica existe uma espécie muito semelhante ao surubim e também muito apreciada pelos pescadores – o cachara, que ao invés de pintas possui o couro coberto por listas. Segundo os entendidos em culinária, o surubim é um peixe com carne de sabor delicado e sem espinhas, muito apreciado em diferentes culinárias regionais.  

O surubim do rio Iguaçu é um parente bem distante desta família de peixes – e não estamos falando apenas de uma distância física: com a formação das Cataratas do Iguaçu, num evento geológico há cerca de 22 milhões de anos atrás, as populações de surubins que viviam no rio Iguaçu ficaram isoladas e seguiram um caminho evolutivo próprio, se diferenciando das demais espécies dos outros grandes rios brasileiros. O surubim (Steindachneridion melanodermatum) é o maior peixe do rio Iguaçu, alcançando até 70 cm de comprimento e 20 quilos de peso, ocupando o topo da cadeia alimentar do ambiente. O isolamento do Iguaçu, aliás, teve consequências diretas para a maioria dos peixes que habitam o rio – 80% das espécies são endêmicas, ou seja, são exclusivas deste rio. Esses peixes desenvolveram adaptações fisiológicas específicas para viver nas fortes correntezas do Iguaçu, um tipo de meio conhecido na biologia como ambiente lótico, ou seja, de águas rápidas. 

A construção de usinas hidrelétricas em série no rio Iguaçu, a partir da década de 1970, provocou profundas alterações nos ambientes fluviais, causando a interrupção da livre circulação de peixes e prejudicando o seu ciclo natural de vida. Estas barragens criaram obstáculos intransponíveis para as espécies de peixes migradoras e as águas tranquilas represadas, classificadas na biologia como ambientes lênticos, passaram a representar um grande problema para os peixes acostumados a viver em luta permanente contra a correnteza do rio. A soma de todas essas mudanças no habitat dessas espécies endêmicas do rio Iguaçu teve fortes impactos em perda de biodiversidade e passou a representar um sério risco para a sua sobrevivência. 

Na década de 1970, quando foram implantadas as primeiras grandes usinas hidrelétricas do rio Iguaçu, os “estudos científicos” realizados com a fauna aquática local, ou por puro interesse do regime militar que dirigia o país na época ou por simples ignorância científica, afirmavam que o Iguaçu era um rio muito pobre em espécies de peixes, especialmente endêmicas, e que nas suas águas não se encontravam grandes espécies migradoras como as existentes na bacia hidrográfica do rio Paraná como os dourados, pintados, piracanjubas e pacus.  

Logo, as conclusões científicas destes estudos indicavam que o represamento do rio Iguaçu em diversos trechos não criaria problemas mais sérios para os chamados peixes de piracema. Estudos posteriores comprovaram que o rio Iguaçu não era apenas rico em biodiversidade, mas que também apresentava um alto grau de endemismo nas espécies e que a sequência de barragens que foram construídas ao longo de mais de 600 quilômetros do rio criava sérios riscos para a sobrevivência destas espécies – providências urgentes precisavam ser tomadas. 

As características particulares das espécies de peixes do rio Iguaçu passaram a exigir estudos cada vez mais específicos e providencias que iam muito além das preocupações com a construção de escadas para peixes ou a simples captura e soltura dos peixes ou alevinos a montante das barragens. Quando espécies como o surubim são inseridas em um ambiente de águas paradas, os peixes não encontram as condições ambientais em que estavam acostumados a viver, especialmente as fortes correntezas, e muitas vezes não conseguem nem capturar as espécies de peixes menores que compunham a sua dieta usual, correndo sérios riscos de não sobreviver.  

Estudos mais aprofundados sobre os novos ambientes precisaram ser desenvolvidos, especialmente na busca de afluentes do rio Iguaçu que ainda apresentassem as fortes correntezas e que permitiriam a soltura dos espécimes capturados nas bases dos reservatórios ou dos alevinos criados em tanques de reprodução, com condições naturais muito próximas dos ambientes dos seus habitats originais. 

A destruição da vegetação das margens dos rios de toda a bacia hidrográfica do Iguaçu, especialmente pelo avanço das grandes plantações, e também os estragos feitos em grandes extensões das margens pelas cavas de extração de areia, reduziram as antigas áreas de desova e reprodução de inúmeras espécies de peixes endêmicas – isso somado aos obstáculos que foram criados ao longo das últimas décadas com a construção de inúmeras barragens, podem levar inúmeras das espécies únicas do rio Iguaçu a um processo irreversível de redução das populações, com muitas correndo sérios riscos de extinção.  

A sina do surubim do rio Iguaçu, que ao que tudo indicava seria o caminho certo para a extinção, começou a mudar graças aos esforços de pesquisadores do Centro de Estudos de Peixes da Usina Hidrelétrica de Segredo. Pescadores capturaram alguns exemplares da espécie no lago dessa espécie no médio e alto rio Iguaçu, locais onde o peixe havia desaparecido há muito tempo. Alguns desses exemplares foram entregues aos pesquisadores, que iniciaram a criação em tanques com reprodução assistida. Graças a todos esses esforços, cerca de 300 mil alevinos de surubins passaram a ser reinseridos nas águas do rio todos os anos (vide foto), dando uma importante sobrevida à espécie. Isso passou a representar um tempo extra para os pesquisadores entenderem o ciclo de vida do peixe e desenvolverem novas estratégias para a sobrevivência natural da espécie. 

Em uma postagem mais antiga, falamos do desaparecimento do surubim do rio São Francisco, um primo distante do surubim do rio Iguaçu. Esse peixe ocupava o topo da cadeia alimentar do rio São Francisco e era considerado um símbolo do rio e da sua culinária. Como consequência direta da construção de diversas usinas hidrelétricas ao longo do rio, o surubim do rio São Francisco está a um passo da extinção. Muitos restaurantes ribeirinhos das cidades ao longo das margens do rio São Francisco passaram a vender pratos preparados com o cachara, uma espécie muito parecida e importada da região Amazônica. 

O surubim é apenas uma entre mais de 70 espécies de peixes endêmicos do rio Iguaçu sob ameaça (esse número total ainda não está fechado – calcula-se que mais de 70% das espécies do rio sejam endêmicas). Cerca de 40% da extensão total do rio Iguaçu está tomada por reservatórios de usinas hidrelétricas, sem contar com os impactos ambientais criados nas suas águas com a poluição gerada por cidades, plantações, desmatamentos, mineração e cavas de areia. São agressões demais para um único rio. 

IGUAÇU: O “PRIMO” DO RIO TIETÊ E SUAS USINAS HIDRELÉTRICAS

UHE Salto Caxias

Um rio que tem nascentes na Serra do Mar e que corre na direção Oeste cerca de 1.300 km, até sua foz no rio Paraná. Suas águas limpas recebem uma imensa carga de esgotos ao passar pela Região Metropolitana, transformando o rio num dos mais poluídos do Brasil. Diversas usinas hidrelétricas foram construídas ao longo de seu curso, a grande maioria sem contar com um estudo de impactos ao meio ambiente. 

Numa leitura rápida, seria bastante fácil achar que o rio descrito é o Tietê – na verdade, estamos falando do Iguaçu, um rio com história geológica muito parecida com o rio paulista e que, bem por acaso, é hoje o segundo rio mais poluído do Brasil, só perdendo para o nosso Tietê. 

O rio Iguaçu se forma a partir da junção das águas dos rios Atuba e Iraí na divisa entre os municípios de Curitiba e São José dos Pinhais – para ser mais preciso, o ponto exato desta confluência fica embaixo da ponte da rodovia BR-277. Deste ponto até sua foz, nas mundialmente conhecidas Cataratas do Iguaçu, o rio percorre aproximadamente 1.300 km, com uma área total da bacia hidrográfica correspondendo a 70 mil km², englobando 109 municípios e onde vivem 4,4 milhões de habitantes – 33% do território e 42% da população do Estado do Paraná.  Os índios tinham toda a razão ao batizarem o rio com o nome de Y’ Guasu: o “Rio Grande”. 

Essa grandiosidade toda, infelizmente, não pode ser traduzida em qualidade ambiental – o Iguaçu é hoje um rio natimorto graças a todo um conjunto de ações antrópicas: são grandes quantidades de esgotos domésticos e industriais, lixo, entulhos, areia e sedimentos que recebe ao atravessar a Região Metropolitana de Curitiba. Mas a natureza consegue ser mais grandiosa ainda e ao longo de um trecho entre 40 e 70 km, conforme a vazão de águas do rio, processos naturais conseguem depurar as águas poluídas.  

Pouco a pouco, o rio Iguaçu deixa de ser uma grande valeta de esgotos a céu aberto e volta a ser um rio poderoso e cheio de vida, com um grande potencial para o abastecimento de populações, irrigação de plantações e demais usos que se esperam de um corpo d’água em boas condições. Porém, graças ao enorme número de saltos e cachoeiras que existiam ao longo do seu curso, o Iguaçu acabou assumindo, por imposição dos Governantes locais e nacionais, o papel de um dos rios com maior aproveitamento para geração de energia elétrica da Região Sul do Brasil

A possibilidade de se aproveitar as águas do rio Iguaçu para a geração de energia elétrica remonta ao final do século XIX, quando Curitiba passou a contar, no ano de 1891, com o serviço privado de iluminação pública com lâmpadas elétricas em várias ruas da cidade e com a eletricidade gerada por uma usina termelétrica. Como já havia acontecido na época em outras cidades brasileiras, como no Rio de Janeiro, a geração de eletricidade em usinas termelétricas era problemática e cara, devido aos altos custos e as dificuldades para a importação do carvão. Após inúmeras reclamações da população devido a irregularidade da iluminação e as constantes queimas de lâmpadas, este serviço foi transferido para a administração direta pela Prefeitura de Curitiba.  

Com o aumento da demanda por energia elétrica, o Governo do Paraná passou a estudar a partir de 1907 a possibilidade de conceder o Salto Caiacanga no rio Iguaçu, no atual município de Porto Amazonas, para exploração por uma empresa privada, que construiria uma usina hidrelétrica no local. As discussões e os estudos para a realização desta obra se estenderam por vários anos sem que se chegasse a um termo final. Enquanto isso, outras iniciativas empreendedoras eram levadas avante em outras localidades: em 1910 foi construída a Usina de Serra da Prata em Paranaguá, que funcionou até a década de 1970, e em 1911 foi inaugurada a Usina de Pitangui em Ponta Grossa. 

Foi a partir do final da década de 1960, no período dos Governos Militares, que a exploração do potencial hidrelétrico dos rios brasileiros passou a ser visto como prioridade e foi iniciado o ciclo de construção das grandes usinas hidrelétricas – Itaipu, no rio Paraná, na divisa entre o Brasil e o Paraguai, que durante mais de quarenta anos ostentou o título de maior usina hidrelétrica do mundo, é um dos símbolos mais icônicos deste período. O rio Iguaçu passou a ocupar um lugar de destaque na política energética do país e seria palco para a construção de usinas hidrelétricas “em série”. 

Na região do Baixo rio Iguaçu foram construídas as Usinas Hidrelétricas de Salto Osório, com potência de 1.078 MW e inaugurada em 1975, e Salto Santiago, com potência de 1.420 MW e inaugurada em 1980. A primeira grande usina hidrelétrica do rio Iguaçu foi Foz de Areia, rebatizada depois com o nome do ex-Governador Bento Munhoz da Rocha Neto (vide foto), com potência de 1.676 MW e inaugurada em 1979. Em 1992 entrou em operação a Usina Salto Segredo, a primeira grande usina nacional a ser precedida por um estudo de impacto ambiental.  

Em Salto Caxias (vide foto) foi inaugurada uma outra grande hidrelétrica em 1999, com capacidade instalada de 1240 MW e rebatizada posteriormente com o nome do ex-Governador José Richa. Em 2013, quando todo o potencial de geração de energia hidrelétrica do rio Iguaçu parecia estar completamente saturado, foi iniciada a construção da Usina de Baixo Iguaçu, com produção a fio d’água e sem precisar do represamento do rio, com potência instalada para a produção de até 350 MW. 

Conforme comentamos em postagem anterior, os estudos de impactos ambientais em projetos e obras só passaram a ser obrigatórios a partir de 1986, quando foi publicada a Resolução CONAMA 001. A partir dessa Resolução, passou-se a exigir estudos sobre os impactos positivos e negativos na área de influência de empreendimentos com grande potencial para afetar o meio ambiente, populações e atividades humanas, além de plantas e animais, corpos d’água, solos, climas, entre outros. Medidas mitigadoras desses impactos devem ser incluídas nesse estudo. Antes dessa data, no período em que a maioria das usinas hidrelétricas do rio Iguaçu foram construídas, Governos faziam o que queriam com suas obras, sem dar satisfações a ninguém. 

Essas grandes e médias usinas hidrelétricas, a exemplo de outras grandes obras de infraestrutura que foram construídas entre as décadas de 1960 e 1980, se mostrariam fundamentais para alavancar o Milagre Econômico Brasileiro da década de 1970 e muito do desenvolvimento econômico que vivemos até os dias de hoje. Sem questionar a importância da energia elétrica renovável gerada pelas usinas hidrelétricas, o que nos preocupa são os altos custos ambientais, que ao fim e ao cabo está sendo pago por todos nós, mesmo que não percebamos isso claramente. 

A geração de energia elétrica por diferentes fontes no Brasil está rapidamente caminhando para um ponto de saturação e novas unidades geradoras precisarão ser incorporadas ao sistema, garantindo assim o consumo futuro da população. Fontes renováveis e seguras como a geração hidrelétrica precisam continuar a ser exploradas, porém, com muita cautela e respeito ao meio ambiente. 

OS IMPACTOS AMBIENTAIS PROVOCADOS PELAS USINAS HIDRELÉTRICAS CONSTRUÍDAS NO RIO TIETÊ

Desmatamento para formação de lagos de hidrelétricas

Na última postagem falamos da utilização do grande potencial hidrelétrico do Tietê, o maior e mais importante rio paulista. A primeira hidrelétrica instalada no rio foi a Usina de Parnahyba (Parnaíba na grafia atual) em 1901. A partir da década de 1950, visando atender a uma imensa demanda reprimida por energia elétrica no Estado de São Paulo, foram iniciados grandes projetos para a implantação de 6 grandes usinas hidrelétricas, que mudaram radicalmente um grande trecho do rio. 

As primeiras notícias que temos do rio, que era chamado de Anhembi pelos indígenas do Planalto de Piratininga, remontam à época dos primeiros jesuítas, que conseguiram vencer as fortes escarpas da Serra do Mar. Comandados pelos padres Manoel da Nóbrega e José de Anchieta, esses jesuítas fundaram alguns aldeamentos na região e, entre eles, a Vila de São Paulo de Piratininga. O local escolhido foi uma pequena elevação entre dois afluentes do rio Tietê – o Anhangabaú e o Tamanduateí. A partir daí, o rio Tietê foi transformado no principal caminho de acesso aos sertões do interior do Brasil. 

Nas sucessivas expedições que partiram de São Paulo em direção aos sertões, vilas e cidades foram sendo fundadas ao longo dos caminhos. Como uma das principais vias utilizadas por estes expedicionários, as margens do rio Tietê passaram a abrigar inúmeros desses assentamentos, muitos dos quais acabaram transformados em importantes cidades como Itu, Porto Feliz, Tietê e Laranjal Paulista. Surgiram também inúmeras fazendas dedicadas à produção agrícola e a criação de animais, além de uma das mais tradicionais indústrias paulistas – as olarias produtoras da famosa cerâmica vermelha, com seus tijolos, telhas, lajotas e manilhas. 

Apesar dessa intensa ocupação das margens do rio Tietê, grandes extensões de matas e áreas naturais resistiram ao avanço humano. Um destaque especial eram as áreas de várzeas, formadas por terrenos baixos, que eram alagados nos períodos de chuvas. Essas regiões se apresentavam com uma vegetação e animais bastante similares aos encontrados no Pantanal Mato-grossense, entre esses jacarés-de-papo-amarelo, capivaras, antas, veados-pantaneiros, lontras, entre outros. Nesses locais também eram encontrados os “barreiros”, grandes depósitos de argila, fonte de matéria prima para as olarias. 

A construção de barragens de usinas hidrelétricas e a posterior formação dos seus respectivos lagos tem como principal impacto a inundação das áreas agricultáveis, várzeas e áreas de matas ciliares localizadas ao longo das margens dos rios. Moradores e proprietários de terras nessas regiões são forçados, compulsoriamente, a abandonar suas propriedades, muitas vezes recebendo indenizações muito abaixo dos valores reais. Não raras as vezes, quando se tratam de pequenos produtores que ocupam áreas públicas, eles são obrigados a desocupar suas terras sem receber qualquer tipo de indenização. 

Além do valor material dessas propriedades, existem valores históricos e culturais, que nem sempre recebem a devida avaliação. São casos de construções históricas multicentenárias, verdadeiros testemunhos da história da ocupação humana nessas regiões. Também se incluem nesta lista sítios arqueológicos e paleontológicos, que muitas vezes acabam desaparecendo sob as águas sem que os estudos científicos tenham sido feitos, com perdas irreparáveis para toda a humanidade. Existem também locais considerados sagrados ou mágicos pelas populações locais, especialmente as indígenas, valores imateriais que sequer são considerados pelos planejadores dessas obras. 

A vida natural também é diretamente impactada. As áreas passíveis de alagamento têm sua vegetação suprimida antes do enchimento dos lagos, destruindo o habitat de inúmeras espécies animais, que de uma hora para outra perdem suas fontes de alimento e seus abrigos (vide foto). Muitos desses animais simplesmente não conseguem fugir para outros locais e acabam morrendo, seja de fome ou atropelados em estradas, seja vítima da caça predatória. Do lado vegetal, faixas de matas ciliares, de extrema importância para a proteção dos corpos d’água, também desaparecem e, muitas vezes, não são replantadas nas novas margens que surgirão após o enchimento dos lagos. Além de proteger os solos contra os processos erosivos, essas faixas de matas funcionam como corredores de biodiversidade, permitindo a livre circulação de espécies animais entre diferentes fragmentos florestais. Esses animais dispersam frutos e sementes das espécies vegetais, garantindo assim a preservação da própria mata. 

Há aqui um detalhe importante – desde 1986, quando foi publicada a Resolução CONAMA 001, qualquer atividade ou obra que tenha potencial significativo de impacto ao meio ambiente, necessitará de um EIA – Estudo de Impacto Ambiental, como parte do processo de licenciamento ambiental para a autorização da atividade ou obra. Nesse estudo, serão avaliados todos os possíveis impactos positivos e negativos na área de influência, que tendem a afetar populações e atividades humanas, além de plantas e animais, corpos d’água, solos, climas, entre outros. Medidas mitigadoras desses impactos devem ser incluídas nesse estudo

No caso do rio Tietê, somente a Usina Hidrelétrica de Três Irmãos, inaugurada em 1993, passou pelo devido processo de licenciamento ambiental – todas as demais obras são anteriores a essa legislação, construídas numa época de “progresso a qualquer custo”. As Usinas Hidrelétricas de Ibitinga e de Bariri foram projetadas e tiveram suas obras iniciadas na década de 1950, período de forte apelo desenvolvimentista, que teve o Presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961) como sua maior expressão. As Usinas Hidrelétricas de Barra Bonita, Promissão e Nova Avanhandava, inauguradas entre 1973 e 1982, remontam ao chamado período dos Regimes Militares, época em que os planejadores de Brasília centralizavam o projeto e a execução das obras de infraestrutura do país. Nesse período, de forte repressão política, não se admitiam “vozes dissonantes” ao regime. 

Assim, sem maiores preocupações com os impactos sociais e ambientais, essas Usinas foram sendo construídas “na marra”. Calcula-se que 80% das margens do rio Tietê entre a cidade de Tietê e a foz no rio Paraná foram impactadas pela formação dos lagos das usinas hidrelétricas. Dezenas de milhares de famílias foram removidas e suas propriedades foram inundadas, sem que houvesse qualquer margem de negociação ou estâncias superiores para receber suas reclamações. Extensas áreas de matas foram suprimidas e inúmeras espécies animais e vegetais desapareceram. Muitos patrimônios históricos e culturais acabaram encobertos pelas águas das represas. E como não foram feitos estudos prévios dessas áreas, essas perdas são escassamente documentadas. 

Um dos poucos vestígios dessa época, documentados em reportagens de jornais dessas cidades, foram os impactos sentidos pelas olarias, que foram obrigadas a abandonar suas instalações e, muito pior, perderam os barreiros, as áreas de retirada de sua matéria prima. Cidades como Barra Bonita, Igaraçu do Tietê, Macatuba, Pederneiras e Bariri, que tinham uma forte produção de cerâmica vermelha, foram as que sofreram os maiores impactos e milhares de trabalhadores perderam os seus empregos. De acordo com essas reportagens, somente no município de Barra Bonita, 150 olarias foram fechadas

O Estado de São Paulo conseguiu gerar a energia elétrica, tão necessária para impulsionar sua forte base industrial e as suas cidades sedentas por energia elétrica. Porém, todos nós saímos perdendo – na cultura, no patrimônio histórico e cultural, na produção agrícola e, principalmente, na biodiversidade. E o pior de tudo – não sabemos ao certo quais foram essas perdas. 

A única certeza que temos, é que essas perdas são irreparáveis.