Posts de ferdinandodesousa

Natural da cidade de São Paulo. Fernando José de Sousa é Jornalista (Registro nº 0085519/SP) e graduando em Engenharia Ambiental, com graduações completas em Gestão Ambiental e Computação, e Pós Graduações em Marketing, Educação Ambiental e Engenharia Civil. Após atuar profissionalmente durante 20 anos em empresas do ramo industrial, passou a atuar na área de comunicação social de obras públicas de infraestrutura, onde o contato direto e o trabalho com o público, em especial o público infanto juvenil , despertou seu interesse pela área ambiental, com destaque para os problemas na área do saneamento básico. Utilizando de suas habilidades como redator publicitário, passou a usar a literatura como forma de divulgar o respeito pelos recursos naturais e os problemas ambientais. Em 2004 publicou seu primeiro livro - AVENTURA NA SERRA DO MAR, voltado para o público juvenil, onde o autor faz um relato de uma grande aventura vivida numa expedição com alguns amigos do Clube de Desbravadores Borba Gato de São Paulo, do qual foi membro por 10 anos. Outras narrativas de suas aventuras são OS CAÇADORES DE BORBOLETAS, O SUMIÇO DO GATO PIPOCA, CONTOS DO FOGO DO CONSELHO e O PRIMEIRO ACAMPAMENTO - todos esses livros tem o meio ambiente natural e urbano como personagens de destaque. Do seu trabalho na área do meio ambiente e da sustentabilidade na construção civil, onde atuou de de 2002 a 2013, escreveu os livros ESGOTO SANITÁRIO: QUE TREM É ESSE SÔ? e A REPÚBLICA DOS GAFANHOTOS. Em 2017 publicou os livros A SUPEREXPLORAÇÃO DAS FONTES DE ÁGUA, TÓPICOS DE SANEAMENTO BÁSICO - ABASTECIMENTO DE ÁGUA E ESGOTOS, E TÓPICOS DE SANEAMENTO BÁSICO - ÁGUAS PLUVIAIS E RESÍDUOS SÓLIDOS, textos compilados a partir das postagens no WordPress. Possui grande experiência na área de Saneamento Básico, especialmente em obras de implantação de sistemas de coleta de esgotos e construção de estações de tratamento de esgotos. Atuou nas obras do Programa Onda Limpa da Sabesp entre 2007 e 2009, tendo trabalhado nas cidades de Itanhaém, Peruíbe, Cubatão, Guarujá/Vicente de Carvalho e Bertioga. Em 2009 passou a atuar nas obras de implantação do sistema de esgoto sanitário da cidade de Porto Velho, Rondônia, atividade que durou um ano e meio até a paralisação das obras devido a disputas políticas entre grupos. Entre 2010 e 2012 atuou em obras do Projeto Tietê da Sabesp na Região Metropolitana de São Paulo, desenvolvendo trabalhos nos municípios de São Paulo, Osasco, Barueri, Pirapora do Bom Jesus, Francisco Morato e Arujá. Finalmente, no ano de 2012 realizou diversos trabalhos de comunicação e educação ambiental para a Águas de Itu, concessionária de serviços de saneamento básico da cidade de Itu, São Paulo. Desde 2013 trabalha como Jornalista e Consultor de Comunicação e Educação Ambiental Autônomo.

O “PODEROSO” PEIXE-MOSQUITO

Peixe-mosquito

Na postagem anterior falamos dos problemas provocados pela introdução acidental das carpas asiáticas na bacia hidrográfica do rio Mississipi. Importadas no início da década de 1970 para o controle de algas e crustáceos que infestavam os tanques de criação de peixes em fazendas de aquacultura, as carpas acabaram sendo arrastadas para a calha do rio Mississipi pelas fortes enchentes que assolaram a região no início dos anos de 1990. De lá para cá, com farta disponibilidade de alimentos e com pouquíssimos predadores naturais, a espécie passou a dominar as águas da bacia hidrográfica e está ameaçando toda a biodiversidade nativa. 

As carpas (Cyprinus carpio) podem atingir um comprimento de 1,2 metro e um peso da ordem de 50 kg. Extremamente voraz, o peixe pode consumir um volume diário de alimentos equivalente a 40% do seu próprio peso. Quando se fala em impactos à biodiversidade de um corpo d’água, porém, nem sempre a questão do tamanho e do porte da espécie invasora é o aspecto mais determinante.  Um pequeno peixe invasor – o peixe-mosquito, está causando uma série de impactos ambientais em rios de diferentes partes do mundo. Vamos entender sua história: 

O peixe-mosquito (Gambusia affinis) é um pequeno peixe nativo de rios de uma estensa região entre o Sul dos Estados Unidos e o México. O nome da espécie se deve ao pequeno tamanho – os machos têm até 3,5 cm de comprimento e as fêmeas cerca de 6 cm, e também à sua fama de grande predador das larvas de mosquitos. Genericamente, eles são conhecidos pelo nome de gambusia. A espécie habita ambientes lênticos de águas doces paradas e pequenos riachos, onde se alimentam de insetos, vermes e zooplancton. A espécie é vívipara (os alevinos já nascem formados) e se reproduz a altíssimas taxas durante os meses de verão – são entre 3 e 5 posturas de filhotes por estação, onde nascem até 60 alevinos de cada vez. 

A fama internacional de “super” caçador dos peixes-mosquito teve início em 1925, quando a espécie foi introduzida na região pantanosa de Sochi, no Sudoeste da Rússia, onde passou a atuar no controle das populações dos mosquitos transmissores da malária. Localizada a cerca de 1.600 km de Moscou, nas margens do Mar Negro, Sochi se transformou no mais importante balneário do país. Com temperaturas anuais entre 2° C e 27° C, um clima extremamente ameno para os rigorosos padrões russos, a cidade passou a chamar a atenção da aristocracia ainda no século XIX, quando Sochi foi transformada em balneário. Nicolau II, o último czar do Império Russo, era um assíduo frequentador de suas praias. 

Após a Revolução Russa de 1917, toda a sofisticada infraestrutura hoteleira de Sochi foi nacionalizada e transformada em um patrimônio da classe proletária soviética. A partir de 1920, os Governantes Russos iniciaram um amplo programa para ampliação da orla turística da cidade, que atingiria uma extensão total de 145 km. Um dos principais trabalhos realizados foi a drenagem de uma grande área pantanosa, onde foram abertos vários canais e houve o plantio maciço de eucaliptos, árvores de grande porte e rápido crescimento, com grande necessidade de água e ideal para a secagem de terrenos úmidos.  

A combinação de águas paradas e clima quente, que possibilitava a fácil procriação de mosquitos, transformou toda a região de Sochi num foco permanente de malária desde a antiguidade (existem registros arqueológicos que provam a presença humana na região há 100 mil anos). Foi aqui que entrou em cena o peixe-mosquito – por sugestão de cientistas e especialistas em biologia, as Autoridades Russas autorizaram a importação de espécimes do peixe-mosquito dos Estados Unidos em 1925. Aqui é importante lembrar que, naqueles tempos, os norte-americanos ainda não eram os arqui-inimigos do povo russo, situação criada décadas depois pela Guerra Fria. 

Nos Estados Unidos e no México, os peixes-mosquitos eram frequentemente introduzidos em açudes e represas para o controle de populações de mosquitos, obtendo um grande sucesso nessas missões. Os especialistas russos, conhecedores dessa habilidade dos peixes-mosquito e que recomendaram a introdução da espécie em águas russas, não levaram em consideração um pequeno detalhe: em águas da América do Norte, os peixinhos poderiam desempenhar seu papel convivendo com outras espécies nativas, inclusive com vários predadores naturais, responsáveis pelo controle das populações de peixe-mosquito. Sem maiores preocupações com os impactos ambientais e sem maiores estudos sobre a fauna aquática local, os peixes-mosquitos passaram a ser introduzidos nos rios e pântanos da região de Sochi

Os esforços do Governo da Rússia na região, pouco a pouco, passaram a mostrar bons resultados – em meados da década de 1930, o número de casos de malária na região foi reduzido em 6 vezes e a doença foi completamente erradicada em 1956. Pelos grandes serviços prestados à comunidade local no combate aos mosquitos causadores da malária, os peixes-mosquitos foram homenageados em 2010 com uma estátua em bronze no distrito de Adler, em Sochi

Após ser alçado à condição de “herói do povo da Rússia”, os peixes-mosquito foram introduzidos em rios de mais de 30 países, que enfrentavam problemas semelhantes com mosquitos e com a malária e/ou outras doenças disseminadas pelo vetor. Foi então que especialistas começaram a perceber que os ganhos com a introdução da espécie invasora eram bem menores do que havia se imaginado e que os impactos à biodiversidade local, ao contrário, eram enormes

Uma das primeiras observações feitas mostraram que os peixes-mosquito comiam aproximadamente a mesma quantidade de larvas e insetos que peixes autóctones do mesmo porte desses países. Uma outra constatação, bem óbvia aliás, mostrou que os peixes-mosquito não se limitavam a comer apenas larvas de mosquito e insetos – como qualquer bom predador, os peixinhos comiam zooplâncton, vermes, pequenos crustáceos, ovas de peixes e alevinos de outras espécies, mostrando um apetite insaciável e bem desproporcional ao seu tamanho.  

Introduzidos em ecossistemas com boas condições ambientais e farta disponibilidade de alimentos, a espécie passou a se reproduzir rapidamente e a ocupar nichos ecológicos de outras espécies. Os peixes-mosquito também se mostraram grandes encrenqueiros, atacando e até matando peixes de outras espécies em lutas por alimentos e pela demarcação de territórios. Ou seja – a quantidade de problemas ambientais criados pela introdução dos peixes-mosquito em rios de todo o mundo se mostraram muito maiores do que os supostos ganhos no combate às populações de mosquitos. Falando em linguagem bem popular, ficou comprovado que “o crime não compensava”.

Na Austrália, citando um exemplo, os peixes-mosquito foram introduzidos na década de 1950, em regiões quentes e com alta incidência de mosquitos. A experiência mostrou que não houve ganhos na redução dos mosquitos e espécies nativas de peixes e de rãs passaram a ter sua sobrevivência ameaçada. Na Europa, os peixes-mosquito foram introduzidos em Portugal, Espanha, França e Itália, com o objetivo de combater a malária que era encontrada em algumas áreas remotas desses países. O surtos da doença foram eliminados com a implantação de sistemas de infraestrutura de saneamento básico nas décadas de 1960 e 1970. Já os impactos ambientais aos ecossistemas aquáticos desses países criados pela espécie invasora, esses prosseguem até hoje.

A história do peixe-mosquito é muito parecida com a dos pardais europeus (Passer domesticus), introduzidos na cidade do Rio de Janeiro em 1904. A cidade enfrentava um grande surto de febre amarela e algum “especialista” disse ao Prefeito Pereira Passos que os pardais eram grandes comedores de insetos. Cerca de 200 pardais foram importados de Portugal e soltos em uma cerimônia oficial no Campo de Santana. As aves não acabaram com os mosquitos Aedes Aegypti, que tiveram suas populações controladas com medidas de saneamento básico implantadas por Oswaldo Cruz, e pior: a espécie invasora passou a competir, e com grande vantagem graças ao seu porte avantajado, contra espécies nativas da Mata Atlântica como os sabiás, tico-ticos, sanhaços e curruíras, que disputavam os mesmos alimentos e habitats.

Moral da história – pouco importa o tamanho da espécie invasora, mas sim o tamanho dos estragos que elas podem provocar aos ecossistemas aquáticos locais. Está aí o peixe-mosquito para comprovar.

CARPAS ASIÁTICAS INVADEM RIOS DOS ESTADOS UNIDOS

Carpas asiáticas no rio Mississipi

No início da década de 1970, algumas fazendas de criação de peixes localizadas na bacia hidrográfica do rio Mississipi, no Sul dos Estados Unidos, passaram a importar carpas asiáticas, com o objetivo de controlar infestações de algas e moluscos nos tanques de criação dos peixes. Segundo as informações que foram repassadas aos aquacultores por especialistas em controle biológico, essas carpas eram peixes vorazes e com um apetite insaciável, podendo consumir diariamente até 40% do seu próprio peso em alimentos.

Na visão dominante na época, a introdução controlada dos peixes nas fazendas resolveria os problemas criados pelas espécies invasoras. Essa história lembra muito uma outra que vivemos aqui no Brasil – a introdução dos pardais europeus (Passer domesticus) no Rio de Janeiro, no início do século XX pelo Prefeito Pereira Passos, para o controle dos mosquitos transmissores da febre amarela. Clique aqui para conferir.

A carpa comum (Cyprinus carpio) é originária de lagos e rios da Ásia, especialmente da região da Eurásia Central. A espécie, que pode atingir um comprimento de até 1,2 metro e um peso de 50 kg, sempre foi utilizada para a alimentação humana. Desde a antiguidade, as carpas foram introduzidas em rios e lagos de toda a Ásia e Europa, tornando-se uma das espécies invasoras mais difundidas em todo o mundo – calcula-se que a espécie esteja presente atualmente em mais de 80 países.  

Com toda essa diversidade de novos ambientes, as carpas passaram a sofrer adaptações fisiológicas, surgindo uma infinidade de subespécies, com tamanhos e características diferentes. As carpas coloridas do Japão (Cyprinus carpio haematopterus), mais conhecidas pelo nome japonês de nishikigoi, é uma das subespécies mais conhecidas do mundo.  

O estratagema usado pelas fazendas de criação de peixe funcionou bem por cerca de 20 anos, com as carpas asiáticas dando “conta do recado”. Os problemas começaram no início da década de 1990, quando a bacia hidrográfica do rio Mississipi passou a enfrentar sucessivas cheias acima da média histórica, especialmente em regiões próximas do Delta. No seu trecho final, o rio Mississipi se abre num grande Delta, que se estende por cerca de 400 km de largura e ocupa uma área total de 75 mil km².  

Várias dessas fazendas foram atingidas e as carpas asiáticas acabaram sendo arrastadas dos tanques na direção da calha do rio MississipiExtremamente fortes e adaptáveis, as carpas passaram a colonizar as águas do rio. A exceção dos jacarés-norte-americanos (Alligator mississippiensis), as carpas asiáticas não possuem predadores naturais na bacia hidrográfica do rio Mississipi e acabaram avançando vorazmente contra as espécies nativas, alterando totalmente a biodiversidade do ecossistema. 

Sem encontrar predadores naturais, dispondo de grandes estoques de alimentos e possuindo uma alta taxa de natalidade – cada fêmea da espécie possui em seu ventre cerca de 1 milhão de ovas, as carpas encontraram um meio ambiente ideal e suas populações passaram a aumentar descontroladamente, o oposto da situação de suas congêneres do rio Tigre, citadas em postagem anterior. De acordo com entidades que representam os profissionais do setor, a pesca comercial no baixo curso do rio Mississipi já foi seriamente comprometida. 

A produção pesqueira sempre foi uma atividade econômica das mais importantes nessa extensa região, que além de peixes, produz grandes quantidades de crustáceos e moluscos, iguarias que sempre fizeram parte das culinárias cajun e creole. Entre os pratos mais famosos da região destacam-se o jambalaya, uma espécie de paella local com arroz, frango, chouriço francês, vegetais, lagostim ou camarão, e o gumbo, um ensopado de quiabo com camarões. 

A bacia hidrográfica do rio Mississipi é uma das maiores do mundo, ficando atrás apenas das bacias hidrográficas do rio Amazonas e do rio Congo, na África. O rio Mississipi tem aproximadamente 3.800 km de comprimento, ocupando a segunda posição na lista dos maiores rios da América do Norte. Entre seus principais afluentes destacam-se o rio Missouri, o maior rio do continente norte-americano, e os rios Ohio, Illinois, Arkansas e o Atchafalaya. A bacia hidrográfica do rio Mississipi drena uma área total de 3,2 milhões de km², onde se incluem 31 Estados americanos e 2 províncias canadenses.

Avançando cerca de 80 km a cada ano, as populações de carpas asiáticas foram ocupando toda a calha do rio Mississipi e invadindo afluentes de todos os tamanhos. Na sua marcha rumo ao Norte, as carpas atingiram também as calhas dos rios Missouri e Ohio, dois dos principais tributários da bacia hidrográfica, que em conjunto com o rio Mississipi formam a Hidrovia Mississipi-Missouri-Ohio, responsável pelo transporte anual de cargas num volume de mais de 425 milhões de toneladas

Um dos destaques da Hidrovia Mississipi-Missouri-Ohio é o Canal de Illinois e Michigan, concluído pelo Corpo de Engenheiros do Exército Americano em 1848. Esse Canal permitiu a interligação entre a bacia hidrográfica do rio Mississipi e os Grandes Lagos, ampliando imensamente as possibilidades de navegação hidroviária no país em meados do século XIX. Esse canal permitiu a navegação de barcaças de cargas vindas de toda a região dos Grandes Lagos e do rio São Lourenço na direção de New Orleans e do Golfo do México ao Sul, através do rio Mississipi.  

Importante interligação entre as duas bacias hidrográficas, o Canal de Illinois e Michigan passou a se apresentar como um caminho natural para o avanço das carpas asiáticas rumo ao extremo Norte dos Estados Unidos, além de abrir as portas do Canadá para a espécie invasora. Os Grandes Lagos representam a maior concentração de água doce do mundo e a chegada das carpas asiáticas, a exemplo do que aconteceu no rio Mississipi, poderia resultar em enormes impactos à biodiversidade local. Somente nos Grandes Lagos, a indústria pesqueira fatura US$ 7 bilhões por ano e gera dezenas de milhares de empregos

Autoridades da cidade Chicago e do Estado de Illinois, contando com apoio do Governo Federal dos Estados Unidos e com forte pressão do Governo do Canadá, decidiram implantar uma barreira no Canal de Illinois e Michigan, de forma a bloquear o avanço das carpas. O projeto experimental foi construído pelo Exército norte-americano, sendo formado por um conjunto de telas metálicas eletrificadas, que tem como objetivo espantar as carpas. O projeto também utiliza embarcações que descarregam pulsos elétricos de alta voltagem na água, matando as carpas aglomeradas nas proximidades da cerca (vide foto) – esses animais podem ser consumidos por populações humanas. Uma outra alternativa que foi proposta e que, felizmente, acabou rejeitada, seria a liberação de uma veneno químico que só mataria as carpas. 

A mais recente iniciativa para tentar controlar as crescentes populações de carpas asiáticas na bacia hidrográfica do rio Mississipi se deu com a inauguração de um grande complexo industrial sino-americano no Estado do Kentucky. A empresa é especializada na produção de bolinhos de peixe, peixe defumado, peixe seco e molho de peixe, produtos voltados para o mercado chinês e que serão produzidos a partir das carpas asiáticas pescadas no rio Mississipi. O projeto também prevê o uso das tripas e resíduos resultantes do processamento dos peixes na produção de adubo

A super exploração de espécies aquáticas para fins comerciais sempre foi muito eficiente na redução e/ou extinção desses animais em seus ecossistemas naturais. No caso das carpas asiáticas que infestam esses grandes rios americanos, todos estão torcendo para que a tradicional “escrita” de muitas outras histórias trágicas, se repita. 

OS RISCOS AO MASQOUF, A CARPA ASSADA IRAQUIANA, OU FALANDO DOS PROBLEMAS DA BIODIVERSIDADE DO RIO TIGRE

Maqouf

A orgulhosa Bagdá foi pensada para ser grande – a cidade planejada foi fundada no dia 30 de julho de 762 pelo califa Almançor, com o claro objetivo de se transformar na capital do império islâmico. Foram necessários quatro anos do trabalho de mais de 100 mil trabalhadores, que levaram a cabo os projetos dos maiores engenheiros, projetistas e artistas daquela época. Entre as muitas tradições legadas pela histórica cidade ao mundo está o masqouf (ou masgouf)um prato a base de carpa grelhada. 

masqouf é uma espécie de prato nacional do Iraque. Vendedores do grelhado eram encontrados por todos os cantos das cidades; em Bagdá existiam restaurantes especializados na preparação do prato. Nos lugares mais sofisticados, as carpas eram mantidas vivas em um tanque – o cliente escolhia a carpa que queria comer, que era abatida, limpa e temperada na hora. O peixe limpo recebia sal apenas na parte interna, sendo colocado numa grelha fechada e com a parte interna voltada para as brasas (vide foto). O peixe ficava pronto em 45 minutos, sendo servido com cebolas e picles. O consumo dessa iguaria multicentenária, lamentavelmente, está sob ameaça – a intensa poluição das águas de rios como o Tigre, entre outros problemas “mais graves”, estão impedindo a pesca e a produção de carpas em cativeiro. Vamos entender essa história: 

De acordo com a tradição judaico-cristã a que nós ocidentais estamos mais acostumados, logo depois de criar o homem e a mulher, Deus fez um “paraíso na terra” para que eles pudessem habitar: o Jardim do Éden. A descrição dos livros sagrados dessas religiões deixa muito clara a localização desse paraíso: uma terra entre as águas dos rios Tigre e Eufrates. Nos séculos seguintes, essa região passou a ser conhecida no Ocidente com o nome de Mesopotâmia, palavra composta de origem grega que significa, literalmente, “terra entre rios“. 

Segundo evidências arqueológicas, essa região foi ocupada por volta do 7° milênio a.C. pelos primeiros agrupamentos humanos civilizados. As linhas de pesquisa apontam que a agricultura em larga escala começou a ser desenvolvida nas terras férteis do Sul a partir do 5° milênio a.C., inclusive com o uso de sistemas de irrigação. Com a fartura de águas oferecidas pelos rios Tigre e Eufrates, a Mesopotâmia rapidamente se transformou num dos celeiros do mundo antigo, recebendo, em conjunto com o Vale do rio Nilo, o nome de Crescente Fértil. Sucessivas civilizações floresceram nessas terras: sumérios, acadianos, caldeus, babilônicos e assírios. Grandes impérios como o dos medos, dos persas e os antigos gregos, entre outros, não pouparam esforços para conquistar a região. A Mesopotâmia sempre foi uma região rica, disputada e instável. 

Essa instabilidade prossegue até os nossos dias: dos três países que formam as bacias hidrográficas dos rios Tigre e Eufrates, dois enfrentam guerras civis – Síria e Iraque; a Turquia, onde ficam as nascentes desses rios, vive uma relativa paz interna; o Governo central, porém, enfrenta sérios problemas com grupos pró-independência da região Curda nas regiões Leste e Sudeste do país, além de várias disputas milenares com outros grupos, como os armênios. Sem nos alongarmos muito mais em questões históricas, grande parte dos conflitos da região estão ligados à partilha dos territórios e formação artificial dos países por interferência de grandes potências ocidentais, uma divisão que não respeitou conflitos milenares entre diferentes grupos étnicos, e, principalmente, a disputa pelo controle das grandes reservas de petróleo da região. 

No caso do Iraque, o país foi formado pela fusão, num mesmo território, de três grupos humanos bem diferentes: os sunitas e os xiitas, duas vertentes opostas do islamismo, além dos curdos, um grupo étnico com origem, religião e língua diferente do resto do país. Além desses três grupos principais, o Iraque possui vários grupos menores como cristãos e judeus, entre muitas outras minorias étnicas. Governar esse verdadeiro “balaio de gatos” nunca foi uma das tarefas mais fáceis. 

Entre 1979 e 2003, o Iraque foi governado por Saddam Hussein, um ditador sanguinário de origem sunita. Apesar da relativa prosperidade econômica do seu Governo, garantida pelos altos rendimentos com a venda de petróleo, Saddam Hussein perseguiu e exterminou grupos curdos do Norte do país, se envolveu numa sangrenta guerra com o Irã (1980-1988), país vizinho de maioria xiita, além de invadir e anexar o Kuwait (1990), sob alegação que a região era uma província histórica do Iraque. Uma poderosa coligação militar comandada pelos Estados Unidos expulsou os iraquianos do Kuwait cerca de 6 meses depois. 

Após a derrota e expulsão do Kuwait, o regime do ditador Saddam Hussein passou a enfrentar uma série de conflitos internos. O colapso total do regime começou em 2001, logo após o atentado às Torres Gêmeas de Nova York, quando o Iraque passou a ser classificado pelos norte-americanos como um dos países formadores do “Eixo do Mal”. Em 2003, uma Coalizão Militar Internacional iniciou uma intervenção no Iraque, removendo Saddam Hussein do poder. O ditador tentou fugir do país, mas foi capturado, julgado e condenado à morte em 2006. 

E o que toda essa confusa histórica do Iraque em décadas recentes tem a ver com as carpas assadas de Bagdá?  

O rio Tigre, em conjunto com seu rio irmão, o Eufrates, acabaram sendo transformados em locais de desova para milhares de corpos das vítimas dos inúmeros conflitos entre os diversos grupos que lutam pelo controle do país. Cadáveres flutuando nas águas dos rios passaram a fazer parte das “paisagens” do país, principalmente no rio Tigre, que corta a cidade de Bagdá. Habitante do ecossistema aquático do rio Tigre, a carpa comum (Cyprinus carpio), que é um peixe onívoro originário da região do Cáucaso na Eurásia, passou a incluir a carne humana desses mortos no seu cardápio, para desespero dos clérigos muçulmanos.

Os muçulmanos ou islamitas, como preferem ser chamados, seguem o halal, um rigoroso conjunto de comportamentos, formas de vestir e de falar, e especialmente de alimentos que podem ser consumidos e que são permitidos pela religião. Se para qualquer pessoa civilizada já seria complicado consumir a carne de um animal que se alimentou de carne humana, para um crente que segue os ensinamentos do Islã é algo simplesmente inadmissível – a situação se complica ainda mais pelo fato de muitos dos mortos “desovados” nos rios serem de fé muçulmana. Quando as primeiras notícias dessa tragédia começaram a circular no Iraque, muitos clérigos (líderes espirituais das mesquitas) publicaram fatwas, decretos religiosos, proibindo o consumo da carne das carpas dos rios. 

A criação de carpas em cativeiro passou a ser uma alternativa para contornar os fatwas e abastecer o mercado, garantindo a preparação do tradicional masqouf. Tanques flutuantes para a criação dos peixes passaram a ser vistos nas cercanias das principais cidades do país, especialmente no rio Tigre. Em 2016, a produção de carpas em cativeiro no Iraque atingiu a marca de 29 mil toneladas, apesar da intensa poluição das águas, que sofrem com o lançamento de esgotos domésticos, industriais, lixo e “muitos outros resíduos”

Em outubro de 2018, uma nova tragédia se abateu sobre o rio Tigre – milhões de carpas começaram a morrer nos tanques de criação. Inicialmente, circularam notícias que falavam do lançamento de veneno nas águas do rio por um dos muitos grupos armados em luta no país. Estudos posteriores mostraram que a causa da mortandade dos peixes foi um surto do vírus do herpes Koi (KHK), inofensivo para os seres humanos, mas mortal para esses animais

A desova de corpos e a poluição das águas dos rios, os fatwas, e, mais recentemente, o surto do vírus do herpes, levaram a grandes questionamentos acerca da qualidade das carpas e a uma forte diminuição do consumo dessa carne no Iraque. O masqouf, é claro, ainda continua a ser servido, porém, em um número cada vez mais restrito de restaurantes e usando apenas carpas criadas em cativeiros de cidades muito distantes do rio Tigre. Os preços populares de outrora da iguaria, agora estão absurdamente salgados e muito distantes das posses da imensa maioria dos habitantes do país. 

Ameaças à biodiversidade das águas também causam prejuízos à cultura dos países.

AS AMEAÇAS ÀS POPULAÇÕES DE TRUTAS NOS RIOS DO CANADÁ

Truta-arco-íris

O discreto Canadá é o maior país da América do Norte e o segundo maior país do mundo em superfície, superado apenas pelo gigantesco território da Rússia. O país tem uma área total com quase 10 milhões de km², cerca de 1,5 milhão de km² maior que o Brasil. É um dos países com a maior disponibilidade de águas doces superficiais, apresentando cerca de 7% do total disponível no mundo. 

As paisagens canadenses são muito particulares e combinam grandes cadeias de montanhas, florestas, pradarias, planícies, tundra e campos de gelo, além do país possuir o maior litoral do mundo, com mais de 200 mil km de extensão. A água é um dos elementos dominantes das paisagens canadenses – 8,6% da superfície do país é formada por corpos d’água e nenhum outro país tem tantos lagos como o Canadá. Os canadenses tem uma relação muito próxima com a água, podendo até serem comparados com as populações da Amazônia – a vida junto às águas faz parte da identidade cultural dos canadenses. 

A pesca esportiva, especialmente de trutas, é uma das atividades mais populares no país, sendo praticada por centenas de milhares de pessoas. Uma das técnicas mais divertidas é a chamada fly fishing, ou pesca com mosca, onde se usa uma isca que imita um inseto e que é lançada e puxada rapidamente na água. O período de reprodução das trutas ocorre entre o outono e o inverno, época em que os peixes realizam uma migração em rios com forte correnteza, rumo as suas zonas de desova e fazem a festa de uma legião de pescadores e de ursos, animais que se aglomeram nos rios para capturar o maior número possível de peixes. 

A alegria de pescadores e ursos, infelizmente, pode estar com os dias contados – mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global já são bastante visíveis no Canadá e o futuro das trutas em rios canadenses pode estar seriamente ameaçado. Vamos entender o que está acontecendo: 

As trutas são peixes de escamas, com corpo comprimido e alongado, encontradas originalmente em rios de águas frias do Hemisfério Norte. As espécies mais comuns são a truta-arco-íris (Oncorhynchus mykiss), encontrada em rios da costa do Oceano Pacífico, entre o Alaska e a Califórnia, e a truta-marrom (Salmo trutta), que ocorre em rios da Europa e da Ásia. A truta-arco-íris (vide foto) tem um comprimento entre 30 e 45 cm, podendo pesar até 2 kg – recentemente, um pescador norte-americano capturou um espécime com mais de 21 kg de peso, batendo o recorde mundial da maior truta já pescada.  

A truta-arco-íris passou a ser criada em cativeiro em pelo menos 45 países, sendo introduzida de propósito ou acidentalmente em diversos rios de montanha nesses países. No Brasil, as trutas-arco-íris podem ser encontradas em rios da Serra da Mantiqueira, entre os Estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, além de rios das regiões serranas de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. A introdução dessa espécie exótica em rios brasileiros, é claro, causou uma série de impactos nos ecossistemas locais. 

Uma das características mais marcantes das trutas é a sua dependência de águas cristalinas, puras e muito oxigenadas, típicas de regiões montanhosas, sem as quais as diversas espécies não conseguem sobreviver. As trutas também são muito sensíveis à presença de poluentes e resíduos de agrotóxicos e fertilizantes nas águas. Os apreciadoras da truta alegam que, graças a todo esse conjunto de características, a carne do peixe é uma das mais saudáveis para o consumo humano. 

No Canadá, um dos efeitos do aquecimento global pode ser visto no aumento da temperatura das águas dos rios, que tradicionalmente sempre foram muito frias, cristalinas e altamente oxigenas. Esse aumento na temperatura está provocando um aumento na quantidade de algas nas águas, o que, entre outras coisas, resulta numa diminuição nas taxas de oxigênio dissolvido. Em seu processo de fotossíntese, as algas absorvem oxigênio, competindo diretamente com os peixes. Quando morrem, as algas servem como alimento para inúmeras espécies de bactérias aquáticas, muitas delas aeróbicas (que respiram ar), levando a uma redução ainda maior nos volumes de oxigênio dissolvido na água. 

Com o empobrecimento da oxigenação das águas, as exigentes trutas apresentam uma forte redução no seu metabolismo e ficam sem energia para enfrentar a força das correntezas na sua jornada rumo às cabeceiras dos rios e dois locais usados para a desova e reprodução da espécie. Com seu ciclo reprodutivo interrompido, as populações de trutas-arco-íris estão entrando em declínio, correndo risco de extinção em algumas regiões onde o aquecimento das águas está mais acelerado.

O aumento das temperaturas no Canadá também produz reflexos negativos nas fontes de água que formam grande parte dos rios – o derretimento de geleiras de suas montanhas. Com parte considerável do seu território dentro de latitudes polares, o Canadá apresenta invernos rigorosos, com grande precipitação de neve. Com a chegada da primavera, essa grossa camada de neve derrete, alimentando uma complexa rede de rios e lagos com água fresca. Em regiões montanhosas, essa neve se condensa na forma de geleiras permanentes, que derretem lentamente em altitudes mais baixas e alimentam continuamente diversos rios. Alguns estudos científicos projetam um aumento de até 8° C na temperatura do Norte do Canadá, o que poderá resultar no derretimento de 20% das geleiras existentes. 

Na região das Montanhas Rochosas, no Oeste do Canadá, a situação é mais preocupante – as projeções indicam que as geleiras dessas montanhas poderão perder até 70% de sua massa de gelo até o final deste século. Uma das geleiras mais ameaçadas é a Columbia Icefield, na Colúmbia Britânica, o maior glaciar montanhoso do mundo. O Glaciar Athabasca, um dos principais braços do Columbia Icefield, é uma das maiores atrações turísticas da região e um exemplo da redução das geleiras no país. Atualmente, o Athabasca ocupa uma área com aproximadamente 6 km², com uma capa de gelo com uma altura entre 90 e 300 metros. Nos últimos 125 anos, a geleira recuou mais de 1,5 km e perdeu mais da metade do seu volume. Atualmente, a geleira vem apresentando um recuo anual entre 2 e 3 metros. O degelo continuo dessa geleira alimenta uma infinidade de rios que descem das montanhas e formam os habitats ideias para a sobrevivência das trutas. 

Recentemente, uma geleira na Ilha Baffin, a 5° maior ilha do mundo e localizada no Norte do Canadá, derreteu e deu uma pequena amostra dos efeitos do aquecimento global. Estudos realizados nos afloramentos rochosos expostos pelo degelo mostraram que a geleira sobreviveu ali por cerca de 40 mil anos. Uma das conclusões dos estudos no local indicam que a região está passando pelas temperaturas mais altas dos últimos 115 mil anos. Os rios alimentados por essa geleira, simplesmente, desapareceram

Mas, nem sempre, o derretimento de uma geleira acontece de forma lenta e gradual – em abril de 2017, nós publicamos uma postagem aqui no blog, onde falamos do derretimento brusco de uma geleira no Norte do Canadá e do desaparecimento do rio Slims, um processo que durou apenas 4 dias – toda a biodiversidade das águas desapareceu instantaneamente. Um dos braços do Glaciar Kaskawulsh, que alimentava o rio Slims, desapareceu e toda a água resultante do derretimento passou a correr na direção de uma outra bacia hidrográfica, a do rio AlsekEsse processo irá se repetir inúmeras vezes nos próximos anos e dezenas de rios canadenses irão desaparecer de uma hora para outra, exterminando os habitats de inúmeras espécies, incluindo-se nessa lista as agitadas trutas-arco-íris. 

Na gíria antiga do meu bairro, quando alguém falava “é truta”, isso queria dizer que se tratava de uma mentira – com o passar do tempo, a expressão foi ganhando outros significados. Nesse caso, infelizmente, trata-se da mais pura verdade – as trutas dos rios canadenses poderão desaparecer dentro de poucas décadas. 

A PERCA-DO-NILO E AS AMEAÇAS ÀS ESPÉCIES NATIVAS DO LAGO VITÓRIA NA ÁFRICA

Perca-do-Nilo

Na nossa última postagem falamos da invasão de rios europeus por pequenos camarões nativos de rios de regiões do Mar Negro, Mar de Azov e Mar Cáspio, todos na região conhecida como Eurásia. Espécies invasoras, entretanto, nem sempre são pequenas como os camarões-assassinos e os mexilhões-dourados. Um dos casos mais graves de invasão de um corpo d’água por uma espécie exótica pode ser visto no Lago Vitória, o maior lago da África, que ocupa uma área total de 68 mil km² entre o Quênia, Uganda e a Tanzânia. Aqui, a espécie invasora é a perca-do-Nilo (Lates niloticus), um peixe originário do trecho etíope da bacia hidrográfica do rio Nilo. As percas estão ameaçando as espécies nativas do Lago Vitória – de acordo com estudos recentes, cerca de 45% das 191 espécies nativas estão ameaçadas ou dadas como extintas. 

As percas-do-Nilo foram introduzidas nas águas do Lago Vitória em 1954, época em que a região ainda era chamada de África Oriental Britânica. A presença dos britânicos na região remonta a meados do século XIX, quando foi realizada uma grande expedição para a busca das nascentes do rio Nilo. Iniciada em dezembro de 1856 pelos exploradores John Hanning Speke e Richard Francis Burton, a expedição buscava localizar o lendário Lago Niassa, citado em antigos mapas e documentos árabes, sendo considerado a nascente do famoso rio. A expedição conseguiu alcançar o Lago Tanganica em fevereiro de 1858 e, cerca de quatro meses depois, descobriu um grande lago, batizado como Lago Vitória em homenagem à rainha que governou o Reino Unido entre 1837 e 1901. As verdadeiras nascentes do rio Nilo só seriam descobertas dois anos depois por uma outra expedição. 

Com o início da colonização britânica na região, teve início um intenso processo de derrubada da cobertura florestal para permitir a implantação de grandes lavouras comerciais, especialmente de chá, café, tabaco e algodão. Para facilitar o escoamento da produção agrícola, os britânicos construíram uma ferrovia, concluída em 1902, ligando a cidade litorânea de Mombaça, no Quênia, ao Lago Vitória. Para aumentar a produtividade pesqueira, os britânicos introduziram o uso da rede de pesca, muito mais eficiente que as armadilhas tradicionais usadas pelos nativos. Esse incremento da pesca comercial e o crescimento da população levou a uma superexploração dos recursos pesqueiros no Lago Vitória. No início da década de 1950, o ngege, a espécie de peixe mais consumida pelas populações locais, estava extinta, o que prenunciava o forte declínio das populações de peixes no Lago

Numa tentativa de reverter a crise pesqueira e garantir a oferta de proteína animal para uma grande população, Autoridades Coloniais sugeriram a introdução da perca-do-Nilo nas águas do Lago Vitória. A ideia foi rechaçada de imediato pela comunidade científica, que temia um forte impacto ambiental – a perca é um predador de topo na cadeia alimentar, que pode superar os 250 kg de peso e atingir um comprimento de até 2 metros (vide foto). Sem predadores naturais, a espécie poderia rapidamente dizimar as espécies menores nativas do Lago. Não se sabe exatamente como e quando, mas é certo que, em algum momento após 1954, a espécie foi introduzida clandestinamente nas águas do Lago Vitória e, cerca de 15 anos depois, a perca-do-Nilo já era encontrada com muita frequência por todo o Lago. 

Apesar do verdadeiro desastre ambiental que foi deflagrado pela introdução dessa espécie exótica no Lago Vitória, as populações locais acabaram fortemente impactadas pela exploração desse novo recurso pesqueiro. A carne da perca-do-Nilo era muito mais rica em gordura que a grande maioria dos peixes nativos, sendo, portanto, muito mais valorizada comercialmente. Rapidamente, milhares de pescadores tradicionais passaram a se dedicar à pesca comercial da perca. O processamento tradicional de peixes no interior da África é a defumação, onde os peixes são secos lentamente com a fumaça de fogueiras. A defumação de volumes cada vez maiores de percas para exportação levou a um aumento do desmatamento das matas ciliares para o fornecimento de lenha para as fogueiras, o que, consequentemente, levou a um aumento sistemático da erosão e carreamento de resíduos para as águas do Lago Vitória. 

Os ganhos econômicos com a pesca comercial da perca-do-Nilo não tardaram a aparecer: em 1978 foram processadas 1 mil toneladas do peixe no Quênia – em 1993, essa produção saltou para 100 mil toneladas. Na Tanzânia, país onde a atividade pesqueira se tornou a maior fonte de receitas, a pesca da espécie gera 1 milhão de empregos diretos e beneficia indiretamente 5 milhões de pessoas. Todos os dias, 500 toneladas de filé de perca-do-Nilo são enviadas para a União Europeia através do Aeroporto de Mwanza. Em 2015, a produção pesqueira total da Tanzânia atingiu a impressionante marca de 600 mil toneladas – nada mal para a produção de um lago localizado no interior do continente. Um relatório publicado em 1987 pela FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, afirmou que a pesca da perca-do-Nilo no Lago Vitória constitui “um desenvolvimento positivo do ponto de vista do bem-estar humano”. Países e populações que vivem ao redor do Lago Vitória tornaram-se dependentes da pesca da perca-do-Nilo. 

A produção de cifras tão impressionantes de pescado, é claro, tem lá seus custos energéticos. Seguindo o princípio da conservação da matéria, que diz de maneira bem simplificada que “nada se cria, nada se perde – tudo se transforma”, a produção de uma quantidade tão grande de peixes requer, no mínimo, que uma quantidade equivalente de alimentos tenha sido introduzida na equação. Apesar de grande, o Lago Vitória tem recursos naturais finitos, o que estabelece limites para o suporte de vida das populações de peixes. Além de predar todas as espécies de peixes nativos do Lago, as percas-do-Nilo passaram a se valer do canibalismo para suprir parte das suas necessidades calóricas, onde os espécimes maiores passaram a devorar os espécimes menores, um problema que pode levar a espécie ao colapso. 

Um outro problema seríssimo, que tem um enorme potencial para destruir a indústria pesqueira no Lago Vitória, é a grande degradação da qualidade das suas águas. Além dos problemas criados pelo desmatamento e carreamento de grandes volumes de sedimentos para as águas, e também do despejo de grandes volumes de esgotos sem tratamento, o Lago Vitória vem sofrendo com o carreamento cada vez maior de resíduos da mineração. Em toda a África, são inúmeras as províncias minerais e os projetos de mineração tocados por grandes grupos internacionais.  

Contando com governos fracos e não democráticos, além de militares e servidores públicos facilmente corrompíveis, as atividades mineradoras, que por natureza já são fortemente degradantes ao meio ambiente, seguem sem maiores controles na África. A Tanzânia, citando um único exemplo, é o 5° maior produtor mundial de ouro – pessoas e empresas gananciosas não medirão esforços para retirar do solo as maiores quantidades possíveis do metal e o meio ambiente “que se dane”. Com a degradação da qualidade das águas, as espécies de peixes menores e mais fracas não conseguem sobreviver. Sem a disponibilidade desses peixes nativos, que são bem mais baratos que as valorizadas percas, as populações pobres ficam sem acesso a proteína animal. 

Esse é o tamanho do nó criado pela introdução de uma espécie exótica num grande Lago – a perca-do-Nilo levou dezenas de espécies nativas à extinção, as populações ficaram dependentes da pesca da perca e a degradação da qualidade das águas do Lago Vitória por resíduos da mineração pode destruir a indústria pesqueira local. Para piorar, caso as percas-do-Nilo despareçam, restou muito pouco das espécies nativas originais para repovoar as águas moribundas do Lago Vitória. 

DIKEROGAMMARUS VILLOSUS – O CAMARÃO ASSASSINO QUE INVADIU OS GRANDES RIOS DA EUROPA

Dikerogammarus villosus. Photo by S. Giesen (1998).

Em uma postagem anterior falamos da invasão do mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) em rios brasileiros e de países vizinhos da América do Sul. Esse molusco bivalve é originário de rios do Sudeste e Leste Asiático, tendo chegado ao continente americano através da problemática água de lastro de navios cargueiros. Detectado pela primeira vez em 1991 na Praia de Bagliardi na Argentina, o mexilhão-dourado rapidamente começou a se espalhar pela bacia hidrográfica do rio da Prata. Vale lembrar que essa espécie exótica não possui praticamente nenhum predador natural na América do Sul e suas populações cresceram de forma exponencial.

No Brasil, já foram encontrados espécimes do mexilhão-dourado em rios do Pantanal Mato-grossense, da bacia hidrográfica do rio Paraná e em alguns pontos do rio São Francisco. Uma das regiões brasileiras com maior incidência dessa espécie invasora é o Complexo Lagunar Guaíba / Lagoa dos Patos. É apenas questão de tempo até que o mexilhão-dourado invada os rios da Bacia Amazônica.

A invasão de ecossistemas por espécies invasoras, infelizmente, é uma triste realidade em todo o mundo. Introduzidas de forma consciente ou acidental, espécies exóticas provocam grandes impactos ambientais e podem levar espécies nativas a extinção. Um exemplo dos impactos criados pela introdução de uma espécie exótica pode ser visto em diversos rios da Europa, onde a chegada de um camarão originário das águas de rios ao largo dos Mares Negro e Cáspio, na Eurásia, está desequilibrando diversos ecossistemas. Falamos do Dikerogammarus villosus – o camarão assassino que está devastando os grandes rios da Europa.

O Dikerogammarus villosus é uma espécie de camarão que sempre foi muito comum em rios da região do Mar Negro e do Mar Cáspio. Essa região fica entre a Europa Oriental e a Ásia, sendo comumente chamada de Eurásia. O animal é um crustáceo anfípode de água doce, que pode atingir o tamanho de até 30 mm e possui mandíbulas relativamente grandes, uma característica que torna esse pequeno camarão um predador bastante eficaz. A espécie possui um crescimento rápido, atingindo a maturidade sexual entre 4 e 8 semanas.

Em seu nicho ecológico natural, esses camarões não são uma espécie abundante e se alimentam de uma grande variedade de invertebrados, insetos, ovas e pequenos peixes, vermes e outras espécies que habitam as comunidades bentônicas. Fora de seu ambiente natural, as populações da espécie crescem desordenadamente e passam a competir agressivamente com as espécies nativas. Esse camarão possui uma grande tolerância às variações de temperatura, podendo colonizar águas com temperaturas entre 0 e 30° C, com baixas concentrações de oxigênio e níveis de salinidade de até 20%. Trata-se de uma espécie oportunista, que se adapta facilmente a novos ambientes em rios, lagos e canais, comendo qualquer alimento que encontre pela frente e que possa triturar com suas mandíbulas.

A dispersão geográfica dos camarões assassinos teve início nos tempos da antiga URSS -União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, período em que a navegação fluvial e lacustre ganhou uma enorme importância para os países do Bloco Comunista. Uma das mais importantes obras do setor foi a construção de um canal de ligação entre os rios Volga e Don, que passou a permitir a navegação entre o Mar Cáspio, o maior mar interno do mundo, o Mar de Azov e, por fim, o Mar Negro. Viajando dentro dos tanques de lastro de embarcações de transporte de passageiros e de cargas, os camarões primeiro consolidaram os seus domínios nos rios que desaguam nas águas desses três Mares. O passo seguinte foi o início de uma “grande operação” de desembarque em águas de grandes rios europeus, façanha que se tornou possível através da intensa navegação na Hidrovia do rio Danúbio.

A Hidrovia do rio Danúbio é uma das mais importantes do mundo, tanto em termos de volumes de cargas e de pessoas transportadas todos os anos quanto pelo número de países cortados por ela: Alemanha, Áustria, Eslováquia, Croácia, Sérvia, Hungria, Bulgária, Romênia e, na região do Delta do Danúbio, um trecho da Ucrânia nas margens do Mar Negro. A lista de países fica ainda maior quando se incluem os afluentes navegáveis da bacia hidrográfica: República Tcheca (rio March), Bósnia-Herzegovina (rio Save) e Moldávia (rio Pruth). A maior parte dos países listados não têm acesso direto ao mar, algo que representaria um enorme obstáculo ao seu desenvolvimento econômico, uma vez que o comércio marítimo é fundamental para os grandes países. A intensa movimentação de embarcações na Hidrovia do Danúbio foi o caminho de entrada do Dikerogammarus villosus na Europa Central.

A partir de 1992, com a inauguração do Canal Meno-Danúbio, o caminho para a invasão total dos camarões assassinos foi consolidado. Essa obra, um canal com 171 km de extensão, imaginada ainda no reinado do Imperador Carlos Magno há cerca de 1.200 anos, permitiu a integração entre as Hidrovias dos rios DanúbioReno através do rio Meno (Main em alemão), que é navegável por 388 km entre as cidades de Bamberg, na Baviera, e Wiesbaden, sua foz no rio Reno. Essa interligação passou a permitir a navegação direta por via fluvial entre a cidade romena de Constança, no Mar Negro, e o porto holandês de Rotterdam, no Mar do Norte (Oceano Atlântico).

A partir dessa data, o Dikerogammarus villosus passou a ser encontrado nos principais rios da Europa Ocidental, onde se inclui o Ródano, Loire, Sena, Mosela, Reno e Meno, além de ser encontrado nas águas de diversos rios que desaguam no Mar Báltico. Em 2010 surgiram os primeiros relatos sobre a chegada dos camarões assassinos na Inglaterra e no País de Gales. Um dos grandes temores atuais das autoridades é uma possível migração dos Dikerogammarus villosus para a região dos Grande Lagos, na América do Norte. É intenso o trafego de embarcações de carga entre os portos da Europa e da América do Norte, com enormes possibilidades dos camarões assassinos serem carregados junto com as águas dos tanques de lastro.

Um exemplo da agressividade dos camarões assassinos pode ser vista nos rios e canais da Holanda – o Dikerogammarus villosus está ameaçando tanto a sobrevivência de espécies nativas do país como o Gammarus duebeni, quanto espécies invasoras como o Gammarus tigrinus, uma espécie originária da América do Norte, que chegou ao continente Europeu também através da água de lastro de navios. No rio Reno, onde está em pela operação a segunda mais importante hidrovia da Europa, a chegada dos camarões assassinos já levou à extinção de uma série de pequenos crustáceos nativos, alterando profundamente a cadeia alimentar de importantes espécies comerciais de peixes desse rio, incluindo-se na lista as enguias-europeias (Anguilla anguilla), sobre as quais falamos em postagem anterior.

E como é comum entre as espécies invasoras, os camarões Dikerogammarus villosus tem um sabor que não agrada os grandes predadores naturais das águas dos rios europeus. Sem inimigos naturais e com um apetite voraz, a espécie segue aumentando sua população e dizimando as espécies nativas que ocupam o seu mesmo nicho ecológico. Enquanto não se identificar um predator natural local, os pequenos camarões assassinos prosseguirão e aumentarão ainda mais os seus domínios nas águas de rios por todo o continente.

Com espécies invasoras é assim: elas invadem e dominam novos ambientes com relativa facilidade, podendo alterar completamente a biodiversidade nativa. Já para combatê-las, as coisas se tornam muito complicadas e, muito raramente, se consegue obter qualquer êxito.

O DESAPARECIMENTO DAS ENGUIAS DE RIOS EUROPEUS, ASIÁTICOS E AFRICANOS

Anguilla_anguilla

Ao longo de uma sequência de postagens publicadas no último mês, falamos dos impactos da poluição e da degradação dos recursos hídricos na vida de espécies aquáticas e semiaquáticas em todos os cantos do Brasil. Esse, porém, não é um mal que afeta apenas as águas de rios brasileiros – esse problema se repete em rios de todo o mundo e inúmeras espécies estão ameaçadas de extinção. Um dos exemplos mais intrigantes é o das enguias-europeias, uma espécie de peixe que já foi muito comum em rios do continente, mas que está ficando cada vez mais rara. 

A enguia-europeia (Anguilla anguilla) é uma espécie de peixe eurialino, isto é, que suporta variações acentuadas na salinidade da água. A espécie nasce nas águas salgadas do Mar dos Sargaços, uma extensa região do Atlântico Norte entre a Europa e a América do Norte, migrando depois para as águas frescas dos rios da Europa, Norte da África e também para rios que desaguam no Mar Negro, na Ásia. Existem cerca de 15 espécies descritas pela ciência (muitas espécies tem sua classificação contestada por alguns especialistas), vivendo em águas tropicais e temperadas de rios e oceanos de todo o mundo. 

As enguias possuem um corpo cilíndrico e longo, muito parecido com as serpentes marinhas. Os animais possuem nadadeiras peitorais bem desenvolvidas e uma única nadadeira na parte traseira do corpo. A espécie apresenta um grande disformismo sexual, com fêmeas que podem atingir até 1,5 metro de comprimento e machos com apenas 60 cm. O ciclo de vida completo das enguias-europeias sempre foi um grande mistério – durante séculos não se soube ao certo como e onde se dava a reprodução da espécie. Filhotes recém-nascidos e enguias jovens nunca haviam sido vistas por ninguém.

O grande mistério sobre o local de nascimento das enguias-europeias só começou a ser desvendado em 1920, quando o biólogo dinamarquês Johannes Schmidt descobriu que esses animais se reproduziam na região do Mar dos Sargaços. Depois de viver toda a sua vida adulta nas águas de rios continentais, as enguias primeiro descem os rios até atingirem as águas dos oceanos e dali nadam em direção ao Mar dos Sargaços, numa jornada que pode durar até seis meses. O Mar dos Sargaços é uma região alongada do Atlântico Norte, circundada por diversas correntes oceânicas: do Golfo, do Atlântico Norte, das Ilhas Canárias e Equatorial do Atlântico Norte. 

Após realizar essa grande jornada migratória, onde os animais nadam sem parar e sem se alimentar, as exaustas enguias buscam parceiros sexuais para o acasalamento, morrendo logo em seguida. Os ovos fecundados a uma profundidade de cerca de 400 metros passam a flutuar e eclodem próximo da superfície. As larvas, chamadas leptocéfalos, possuem um corpo achatado e serão arrastadas pelas correntes marinhas na direção das costas da Europa por um período entre dois e três anos. Ao longo dessa jornada em sua fase inicial da vida, cerca de 80% das larvas morrerão ou serão predadas por outras espécies marinhas.

Após ter atingido as águas litorâneas, os animais crescerão até atingir um estágio do seu ciclo de vida onde são chamadas de enguias-de-vidro ou meixão. Contando com um tamanho da ordem de 8 cm, os animais passarão por alterações em sua fisiologia e se tornarão tolerantes à uma vida em águas salobras. Isso lhes permitrá passar a viver em regiões estuarinas e de lagunas costeiras ao largo das costas da Europa, Norte da África e regiões circunvizinhas ao Mar Negro. 

Nesses novos ambientes, os animais mais aptos e que conseguirem sobreviver, passarão por um processo de metamorfose: após atingir um tamanho da ordem de 15 cm, os animais passam a apresentar uma cor verde-acastanhada no dorso e amarelada no ventre, característica que faz com que os animais passem a ser conhecido como enguias-amarelas. É nessa fase que as enguias passam por um período de forte crescimento, se alimentando de pequenos caranguejos, camarões, peixes e vermes durante o período do verão. Com a chegada do inverno, as enguias-amarelas se enterram na areia e ficam meses sem se alimentar. 

Na última metamorfose de suas vidas, as enguias passam para a fase adulta, quando o corpo assume uma cor negra no dorso e prateada no ventre, passando a ser chamadas genericamente de enguias-prateadas. É a partir dessa fase que os animais passam a tolerar uma vida em ambientes de água fresca. Essa passagem ocorre quando os machos apresentam um tamanho de aproximadamente 50 cm e as fêmeas cerca de 60 cm. Essa fase também é marcada pela migração dos animais para as calhas dos rios, onde viverão até atingir o ápice de sua maturidade sexual, quando vão iniciar a sua última grande jornada para a procriação no Mar dos Sargaços. 

As enguias-europeias possuem uma carne considerada saborosa e rica em teores de gordura saturadas, que podem representar até 60% do peso do animal. Essa importante fonte nutricional e calórica sempre foi muito explorada pelas populações, o que sempre levou à pesca dos animais em todas as fases de sua vida. As enguias-de-vidro ou meixões, por exemplo, são muito apreciadas nas culinárias de Portugal e da Espanha, o que resulta numa superexploração dos animais nessa fase da vida. Outras fontes de problemas para a espécie são a construção de represas, o que impede a migração rumo às cabeceiras dos rios, e a poluição. A somatória de todos esses problemas vem tendo como consequência uma redução drástica das populações de enguias-europeias

Um exemplo da rarefação das enguias pode ser comprovado no rio Tâmisa, o principal curso d’agua da Inglaterra. Poluído desde o final do século XVIII, quando teve início a chamada Revolução Industrial, o rio Tâmisa passou por um profundo processo de despoluição a partir de meados do século XX e que durou cerca de 50 anos. O auge desse processo se deu com o retorno dos salmões ao rio Tâmisa, além de outras 125 espécies de peixes que haviam desaparecido das suas águas desde a década de 1950. As populações de enguias-europeias, que também haviam retornado ao rio e estavam em crescimento, declinaram abruptamente e hoje representam apenas 5% dos valores encontrados em 2009. O consumo da carne do peixe, que é popular entre a população de Londres desde o século XVIII, agora depende da importação de enguias da Irlanda

O complexo e delicado ciclo de vida das enguias-europeias agora tem enfrentado um problema surreal – resíduos de cocaína presentes nas águas residuárias dos esgotos tratados das cidades tem atingido o curso dos rios e vem causando uma série de problemas físicos nos peixes. Esses resíduos se juntam a outros originados no lixo, em fertilizantes e herbicidas, além de traços de anticoncepcionais e antibióticos. Quando expostas a esse verdadeiro coquetel de produtos químicos, as enguias passam a apresentar uma forte degeneração muscular, o que fatalmente irá impedi-las de realizar as suas derradeiras migrações para procriação. 

Estudo feito no trecho londrino do rio Tâmisa encontrou concentrações de benzoillecgonina (um resquício metabólico que sai na urina de usuários de cocaína) da ordem de 17 bilionésimos de grama por litro de água. Em testes realizados em laboratório, enguias foram expostas a essa concentração de resíduos e passaram a apresentar degeneração muscular em poucos dias.  Mesmo após serem retiradas dessa água contaminada e colocadas em água limpa, essas enguias não conseguiram se recuperar. Sem suas perfeitas condições musculares para enfrentar uma jornada de milhares de quilômetros em rios e mares até chegar na região do Mar dos Sargaços para procriar, a sobrevivência das enguias-europeias no longo prazo é incerta.

Para encerrar – um estudo recente feito no rio Pó (o nome é esse mesmo – não é trocadilho), o principal do Norte da Itália, mostra o tamanho do problema – as medições encontraram um volume diário equivalente a 4 kg de cocaína nas águas do rio. As enguias que vivem nessas águas têm tudo para ficar “muito doidonas” e doentes.