AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS E OS RISCOS DE NOVOS CONFLITOS ARMADOS NA ÁFRICA 

Entre os meses de abril e julho de 1994, Ruanda foi tomada por um violento conflito étnico entre os membros das etnias tutsi, twa e hutus. Essa grande tragédia humanitária contemporânea ficou conhecida como o genocídio de Ruanda e também como o genocídio dos tutsis. Estimativas apontam que um número entre 500 mil e 1 milhão de tutsis morreram durante esse conflito. 

As raízes da rivalidade étnica no país remontam aos tempos da colonização pela Bélgica, encerrada após a independência em 1962. Até então, os colonizadores privilegiavam a indicação de tutsis para ocupar cargos chave na administração pública, uma preferência que desagradava, e muito, a maioria hutu da população. Os embates de 1994 foram uma espécie de “desforra” histórica entre os grupos. 

Oficialmente, a África é formada por 55 países independentes, com governos e leis próprias. No mundo real, entretanto, não existe nada mais artificial do que essas fronteiras entre os países africanos, fronteiras essas que foram decididas em sua esmagadora maioria nos gabinetes de governos da Europa em séculos passados.  

Esses governos simplesmente dividiram o grande “Continente Negro” em colônias destinadas a atender seus interesses. Se as populações que viviam nesses pedaços de territórios há dezenas de milhares de anos tinham ou não diferenças ou problemas de relacionamento, isso não fazia a menor diferença para as Metrópoles na Europa. 

Vou citar apenas o exemplo de Angola, país que também teve uma colonização portuguesa como o Brasil. Existem 22 grupos étnicos principais no país, além de uma infinidade de divisões entre esses grupos. Entre os principais grupos destacam-se os Umbundu, Kimbundu, Kikongu, Tchokwe, Fiote, Kwanyama e Nhaneca. Cada grupo tem sua própria cultura, costumes e língua, apresentando muitas vezes grandes diferenças na aparência física. 

Muitos desses grupos vinham se estranhando e lutando entre si milhares de anos antes do desembarque dos primeiros navegadores portugueses no início do século XVI. Aliás, os negros escravizados que traficantes portugueses e ingleses, entre outros, vendiam nas Américas, eram prisioneiros capturados nas guerras entre esses grupos e que eram trocados por ouro, armas de fogo e até mesmo cachaça e fumo com os europeus. 

As fronteiras territoriais de Angola e da imensa maioria dos atuais países que formam a África não respeitaram, nem de longe, os antigos territórios tribais desses grupos étnicos. A maioria dos conflitos e guerras que ocorrem na África atualmente estão ligadas diretamente as disputas entre esses diferentes grupos. 

De acordo com um artigo do CSIC – Centro Superior de Investigações Científicas, da Espanha e publicado pelo boletim de notícias acadêmicas The Conversation em julho último, foram identificadas 2.653 células territoriais em todo o continente africano entre os anos de 1990 e 2016. Esse número impressionante nos dá uma boa ideia da verdadeira “colcha de retalhos” que é a África e do potencial de conflitos armados que podem ocorrer nas disputas entre esses grupos. 

As mudanças climáticas que já estão sendo sentidas por todo o continente africano e suas consequências, especialmente em perdas de áreas agricultáveis e na disponibilidade por água, poderão atuar como verdadeiros estopins em disputas armadas entre todas essas diferentes células territoriais. 

Vou citar um exemplo já apresentado em uma postagem anterior: a forte seca que está assolando todo o Chifre da África e que já provocou o deslocamento forçado de mais de 1 milhão de pessoas desde 2021, isso segundo números da ONU – Organização das Nações Unidas. 

Essa região ocupa um território com cerca de 1,88 milhão de km2, onde se incluem os territórios da Somália, Eritréia, Etiópia e Dijibuti. A seca também está afetando todo o Norte do Quênia. Sem entrar em maiores detalhes, essa região já abrigou colônias da Grã Bretanha, da França e da Itália, o que delineou a maioria das fronteiras nacionais. Conflitos regionais levaram a novas divisões territoriais. 

No total, o Chifre da África abriga uma população de aproximadamente 120 milhões de habitantes, que, além das respectivas identidades nacionais, são divididos em inúmeros grupos étnicos, linguísticos e, principalmente, religiosos. Assolados pela fome e pela falta de água, gigantescos grupos são obrigados a abandonar suas terras ancestrais e buscar refúgio em outras regiões em melhores condições. 

Imagem uma situação hipotética: habitantes de uma vila de maioria muçulmana em uma determinada região mais ao Norte migra para o Sul, invadindo o território de uma vila onde a maioria da população é cristã. Além dos embates que surgirão na disputa pelos recursos naturais – especialmente as fontes de água, algum dos leitores tem dúvida que as diferenças de religião também irão aflorar? 

Esse é, em resumo, um rápido panorama do que já está acontecendo em diferentes partes da África. O avanço das areias de desertos como o Saara, a diminuição das chuvas em uma região ou até mesmo a disputa pelos recursos madeireiros de uma floresta ou da água de um rio – tudo tenderá a ser motivo para conflitos graves entre os diferentes grupos dessa grande colcha de retalho. 

Um dos maiores conflitos já engatilhados e que em breve poderá desencadear numa guerra regional é a disputa pelas águas do lendário rio Nilo. Além do Egito e do Sudão, países que aprendemos associar ao rio Nilo nas nossas aulas de história nos tempos do ensino fundamental, a bacia hidrográfica inclui outros sete países: Etiópia, Uganda, Tanzânia, Quênia, República Democrática do Congo, Burundi e Ruanda. 

Esses países, já há muito tempo, não conseguem se entender sobre o uso compartilhado das águas do rio. Um exemplo é a Etiópia, país que está construindo várias represas de grande porte na calha do rio Nilo, sem se preocupar em discutir os impactos ambientais com os países localizados a jusante da bacia hidrográfica. 

Com o avanço das mudanças climáticas e com as alterações nos ciclos das chuvas nessa região, as disputas pelo controle das águas do rio Nilo só tenderão a se agravar. Daí para uma guerra regional será apenas um passo. Além das disputas nacionais entre os países, é de se esperar também uma série de embates entre os diferentes grupos ou células territoriais desses mesmos países. 

A questão é bem mais grave e profunda do que se mostra na superfície. Um futuro, nem tão distante assim, nos reserva tempos difíceis e bastante incertos… 

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