PARIS: UMA CIDADE A LUZ DE VELAS? 

O título da postagem, só para esclarecer, é uma brincadeira com uma das referências mais conhecidas da capital da França – a “Cidade Luz”. 

De acordo com o historiador francês Jacques Le Goff, Paris se transformou na maior cidade da Europa por volta do ano 1.300, quando atingiu a marca dos 200 mil habitantes. Desde então, a cidade passou a atrair, entre muitos outros migrantes, artistas, filósofos, escritores, pensadores, e cientistas das mais diferentes áreas. 

Essa concentração de artistas e de intelectuais transformou a cidade numa fonte de novas ideias e de ideais. A Revolução Francesa no final do século XVIII, com seus ideais de igualdade, liberdade e fraternidade, pode ser citada como um exemplo da importância de Paris. Um movimento intelectual que surgiu a seguir foi o Iluminismo, o que levou Paris a ser chamada de “La Villle-Lumière” ou a “Cidade Luz”. 

A partir da década de 1880, com o início da instalação de sistemas de iluminação pública com lâmpadas elétricas em toda Paris, essa ideia foi ainda mais reforçada. Monumentos, museus, prédios públicos, pontes e igrejas da cidade passaram a receber sistemas de iluminação cada vez mais sofisticados, o que acabou dando uma nova dimensão à beleza da cidade. 

A Torre Eiffel, um dos maiores ícones de Paris, foi inaugurada nessa época, mais especificamente em 31 de março de 1889. O monumento, cujo projeto foi criado pelo engenheiro Gustave Eiffel, serviria como porta de entrada para a Exposição Universal de 1889, evento que comemorou o centenário da Revolução Francesa. 

A polêmica estrutura, que a princípio seria temporária, acabou ganhando uma enorme importância após a popularização do rádio – a imponente torre, com mais de 300 metros de altura, se mostraria excepcional para a instalação das antenas de rádio da cidade. Com o início da Primeira Guerra Mundial em 1914, as transmissões de sinais de rádio a partir da Torre Eiffel se tornaram estratégicas para os militares. 

De símbolo de mal gosto para as elites parisienses do final do século XIX a condição de um dos monumentos mais conhecidos do mundo, a Torre Eiffel é atualmente um dos locais mais visitados da França. A Torre conta hoje com um sistema de iluminação com cerca de 20 mil lâmpadas, que revelam todo o seu esplendor nas noites da cidade. 

A crise energética que ameaça a França e a maioria dos países da Europa Ocidental acaba de chegar na Torre Eiffel – o Governo anunciou uma série de medidas para a economia de energia elétrica. Uma dessas medidas reduzirá o tempo de iluminação diária da Torre Eiffel em mais de uma hora

A partir de hoje, o sistema de iluminação passará a ser desligado por volta das 23h45 ao invés de 1 hora da madrugada. De acordo com informações do próprio Governo francês, o sistema de iluminação representa apenas 4% do consumo total de energia elétrica da Torre Eiffel, porém, essa medida tem um caráter simbólico, lembrando que é dever de todos economiza energia elétrica. 

Conforme já tratamos em postagens anteriores, toda a Europa Ocidental está sofrendo com os impactos da redução do fornecimento de gás natural pela Rússia. A estratégia dos russos, que não deixa de ser uma grande chantagem, é forçar os países europeus a retirar e/ou minimizar toda uma série de embargos econômicos impostos a Rússia por causa da invasão da Ucrânia. 

Nas últimas décadas, com o avanço dos chamados partidos verdes por todo o continente europeu, foram criadas inúmeras políticas de incentivo ao uso do gás natural em alternativa ao poluente carvão mineral. Entre esses usos destacam-se aplicações em indústrias e a geração de energia elétrica. Enquanto o gás russo era abundante e barato, essas políticas funcionaram muito bem, obrigado… 

Com a gradual redução dos volumes de gás natural para os países europeus, o fantasma da falta de energia, que muitos não viviam desde o final da Segunda Guerra Mundial, começou a assombrar muita gente. Um exemplo desse colapso é o que vive a Alemanha atualmente – metade do gás usado no país vinha da Rússia. 

Além dos problemas com o fornecimento de gás, grande parte da Europa também está convivendo com uma seca devastadora. Importantes rios estão com níveis muito baixos, um problema que afeta tanto o abastecimento de populações quanto a navegação fluvial e a geração de energia em usinas hidrelétricas. 

No caso da França, a seca está criando dificuldades para o funcionamento pleno do seu parque de centrais nucleares, que são responsáveis por cerca de 70% de toda a energia elétrica consumida no país. Essas usinas utilizam água para o resfriamento dos seus equipamentos – com os baixos níveis de muitos rios, a descarga dessa água quente é limitada sob risco de afetar a flora e a fauna aquática. 

O drama que já está sendo vivido por muito europeus poderá ficar ainda maior com a chegada do inverno, época em que existe um aumento das necessidades energéticas por causa do uso de sistemas de aquecimento residencial ou de calefação. Aqui entram a energia elétrica, o gás natural, a lenha e também o carvão mineral. 

O Governo da França vem conclamando o povo francês para “momentos de sacrifício” já há várias semanas. Essa decisão sobre a redução do período de iluminação da Torre Eiffel deve ser vista como mais uma “ferramenta didática” deste processo. 

Desgraçadamente, não existem melhores alternativas para os parisienses no curto prazo e muitos outros monumentos também poderão ficar às escuras por algum tempo. Por via das dúvidas, será bom fazer algum estoque de velas para os casos de emergência… 

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