G7 SE REUNE NA ALEMANHA E A CRISE ALIMENTAR GLOBAL SERÁ UM DOS TEMAS PRINCIPAIS 

O Grupo dos Sete ou simplesmente G7 é um grupo que reúne alguns dos países mais industrializados do mundo: Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Canadá e Japão. De acordo com informações do FMI – Fundo Monetário Internacional, esses países representam mais de 64% da riqueza líquida global ou algo equivalente a 263 trilhões de dólares.  

Curiosamente, a China, a segunda maior economia do mundo e também uma das que mais cresce em tamanho e influencia, não faz parte desse “clube”. O G7 foi criado em meados da década de 1970, época em que seus membros representavam as maiores economias do mundo, o que indica claramente o quão defasada está sua estrutura. 

Até 2014, a Rússia participava do grupo como convidada, muito mais pelo receio do seu poderio nuclear do que pelo tamanho de sua economia. O país foi expulso do grupo após a invasão e anexação da península da Crimeia naquele ano. Lembramos aqui que a Crimeia é, historicamente, parte da Ucrânia e essa agressão russa está na raiz do atual conflito entre os dois países. 

Os líderes do G7 se reunirão na Alemanha por três dias a partir de 26 de junho. Entre as principais pautas do encontro destacam-se os receios desses países quanto a uma ameaça de recessão global decorrente dos sucessivos aumentos dos preços dos combustíveis – em especial petróleo, gás e carvão; a inflação decorrente desses aumentos e também os riscos de uma crise na produção global de alimentos. 

Alguns dos pontos nevrálgicos desses problemas está associado diretamente ao conflito criado na Ucrânia pela invasão por tropas da Rússia. Os russos alegam que essa intervenção (nunca usam a palavra guerra) decorreu das ameaças aos russos étnicos que vivem em algumas províncias ucranianas – em especial Donetsk e Luhansk. Essas províncias declararam independência da Ucrânia e foram prontamente “reconhecidas” pelo Governo da Rússia. 

Conforme já tratamos em postagens anteriores, o conflito na Ucrânia desencadeou em uma série de problemas para outros países em todo o mundo. Para países europeus, em especial para a Alemanha, o conflito trouxe graves problemas para o fornecimento de gás natural. A Rússia é um dos maiores produtores e exportadores de gás do mundo e, desde a década de 1950, a Alemanha é um dos seus maiores consumidores – metade do gás consumido no país vem da Rússia. 

Outro problema grave está ligado à produção e exportação de alimentos. Citando um único exemplo: Rússia e Ucrânia respondem por 1/3 de toda a produção mundial de trigo. Com o início do conflito, parte substancial dessas exportações ficaram comprometidas – do lado russo existe todo um conjunto de sanções econômicas internacionais que proíbem suas exportações.  

Do lado ucraniano, os problemas estão ligados às dificuldades de produção nos campos e também as dificuldades para exportação a partir do porto de Odessa, o mais importante do país. O país tem feito esforços para exportar os estoques da última safra por via ferroviária através de países vizinhos como a Polônia e a Romênia, mas a capacidade das ferrovias locais fica muito aquém do escoamento marítimo via Mar Negro. 

A questão da produção agrícola ganha contornos mais dramáticos quando se inclui na equação as exportações de fertilizantes da Rússia e de Belarus, seu país aliado. A Rússia é um dos principais fornecedores de fertilizantes nitrogenados do Brasil. O país também é um importante fornecedor de fertilizantes fosfatados e, junto com Belarus, de fertilizantes a base de potássio. 

Em resposta à agressão contra a Ucrânia, as principais economias do mundo passaram a impor embargos econômicos à Rússia, medidas que passaram a comprometer as principais exportações de commodities e produtos da Rússia. Mesmo estando bem longe, o Brasil acabou sendo pego no fogo cruzado entre países. 

O Brasil, que é uma das maiores potencias agropecuárias do mundo, é totalmente dependente da importação de fertilizantes – o país importa 95% dos fertilizantes nitrogenados, 75% dos fertilizantes fosfatados e 95% dos fertilizantes a base de potássio. Até mesmo os Estados Unidos, a maior economia do mundo, está sofrendo com a falta desses fertilizantes. 

A crise desencadeada pelo conflito na Ucrânia veio se somar aos problemas criados pela pandemia da Covid-19 nos campos europeus – a falta de mão de obra. Com as políticas de fechamento dos países e proibição à livre circulação de pessoas, grande parte da mão de obra dos campos da Europa Ocidental, que era formada basicamente por cidadãos do Leste Europeu, voltou para seus países de origem. Essa falta de mão de obra comprometeu a produção de várias culturas.

No Reino Unido só fez por agravar os problemas criados pelo Brexit, a saída do bloco da União Europeia poucas semanas antes do início oficial da pandemia. Centenas de milhares de cidadãos europeus perderam o direito de trabalhar livremente na Inglaterra, em Gales, na Escócia e na Irlanda do Norte, o que afetou diretamente a produção agrícola e outras atividades que eram realizadas por esses estrangeiros. 

Além de todo um rol de impactos econômicos, o somatório de todos esses problemas na área agrícola levou a uma redução substancial dos estoques e os fluxos de alimentos em várias partes do mundo, inclusive para os países membros do G7. E como esse tema é do interesse das grandes economias, é evidente que não serão poupados esforços na busca de soluções. 

Tradicionalmente, as reuniões do G7 também costumam dedicar grande parte do seu tempo à discussão de problemas ambientais globais, onde a “destruição e queima” da Floresta Amazônica pelo Brasil é o tópico principal. Aqui destacamos que muitos dos membros do G7 estão chegando na reunião deste anos com “telhado de vidro”. Vou citar apenas dois casos: 

A Alemanha, conforme destacamos em uma postagem, autorizou a derrubada de uma floresta milenar com o objetivo de liberar a área para a exploração da lignite ou carvão-marrom, um combustível fóssil altamente poluente que será utilizado pelo país em substituição ao gás natural que vinha da Rússia. 

No caso dos Estados Unidos, pesa contra o país a liberação da produção em áreas de conservação ambiental, questão também comentada aqui no blog. A justificativa dos norte-americanos para a adoção dessa medida foi justamente liberar áreas para o aumento da produção agrícola do país e, assim, contribuir na minimização dos riscos para a alimentação da população mundial. 

Por via das dúvidas, é bom ficarmos de olho nas reuniões desse grupo – além de concentrar a maior parte do dinheiro do mundo, essas nações também possuem fartos estoques de hipocrisia… 

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