A PRODUÇÃO DE CACAU ESTÁ RENASCENDO NO SUL DA BAHIA 

Um dos romances mais famosos do grande escritor baiano Jorge Amado é, sem dúvida nenhuma, “Gabriela, Cravo e Canela”, livro lançado em 1958. A personagem central do enredo é Gabriela, uma jovem sertaneja humilde que migra para uma cidade rica do litoral em busca de trabalho, o que ela encontra na casa do árabe Nacib. 

O pano de fundo da história é Ilhéus, a rica cidade dos coronéis do cacau, grandes proprietários de terras no Sul da Bahia que comandavam com mão de ferro a produção desse fruto e de suas valiosas castanhas. Entre 1901 e 1925, o Brasil foi o maior produtor e exportador de cacau do mundo, posição que foi sendo gradativamente perdida para países do Leste da África. 

Além da crescente concorrência africana, os produtores brasileiros receberam um segundo golpe em 1929, ano da quebra da Bolsa de Valores de Nova York, crise que levou o mundo a uma profunda depressão econômica. Não muito tempo depois, o mundo passou pela Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A opulência e a riqueza de décadas passadas nunca mais se repetiriam em Ilhéus e região. 

O maior e mais forte golpe contra a indústria cacaueira viria em 1989, quando o Sul da Bahia foi invadido pela “vassoura-de-bruxa-do-cacaueiro”, uma doença vegetal causada pelo fungo Moniliophtora perniciosa, que ataca e destrói as plantas. No período entre 1991 e 2000, a participação do Brasil no mercado internacional do cacau caiu de 15% para apenas 4%. A economia da cidade de Ilhéus foi uma das mais prejudicadas com a crise que se seguiu. 

O cacaueiro (Theobroma cacao) é uma árvore originária da bacia hidrográfica do rio Amazonas, que produz um fruto chamado cacau – são as castanhas do cacau que dão origem ao nosso chocolate do dia a dia. Foram as grandes civilizações mesoamericanas dos Maias e dos Astecas que desenvolveram as primeiras bebidas preparadas a base do cacau – o kabkajatl.  

Os conquistadores espanhóis que chegaram ao continente americano a partir do final do século XV e que experimentaram a bebida, tinham muita dificuldade para pronunciar esta palavra nativa, que acabou sendo hispanizada para cacauatl, e por fim acabou resumida a cacau. Levado inicialmente para a Espanha, o cacau passou a ser consumido como uma bebida quente com leite e açúcar. A partir daí ganharia o mundo com o nome de chocolate. 

Diferente de outras culturas, o cacau depende da sombra de uma floresta para sobreviver, o que torna o seu cultivo sustentável do ponto de vista ambiental. O sucesso da região Sul da Bahia na produção do cacau se deve a razões históricas importantes: os ferozes índios antropófagos que viviam na região rechaçaram todas as tentativas dos primeiros colonizadores em instalar plantações de cana e engenhos de açúcar. A Mata Atlântica preservada foi fundamental para o início da cultura há mais de 200 anos na região, fornecendo sombra, umidade e proteção contra os ventos. 

Esse regime de produção em sistema agroflorestal – conhecido como cabruca, foi fundamental para a conservação de grandes corredores de mata nativa, onde hoje encontramos algumas espécies raras como o jequitibá-rosa (Cariniana legalis), o pau-brasil (Caesalpinea echinata) e a gameleira (Ficus gomelleira), espécies que desapareceram em outras regiões onde a Mata Atlântica foi praticamente dizimada. 

Muito dessa riqueza vegetal acabou sendo perdida nas duas últimas décadas com a crise do cacau. Muitos proprietários de terras dessa região abandonaram a cultura e acabaram derrubando as suas matas para a criação de pastagens para o gado. Mesmo assim, muitos foram aqueles que persistiram com o cacau e, ao que tudo indica, a cultura está renascendo paulatinamente no Sul da Bahia. 

De acordo com um animador relatório elaborado pelo Instituto Arapyaú, o Sul da Bahia conta hoje com cerca de 3 mil produtores de cacau. Diferentemente dos áureos tempos da cultura comandada pelos grandes coronéis, a produção atual está concentrada em pequenas propriedades. Segundo o relatório, 55% das propriedades tem menos de 20 hectares e apenas 18,6% são propriedades entre 50 e 300 hectares

A média de idade dos produtores rurais é de 62 anos, com um nível de escolaridade de no máximo 7 anos. O cacau representa 79% do rendimento das propriedades rurais, sendo que metade tem renda mensal abaixo de R$ 1.606,00. A produção está concentrada em 26 municípios do Sul da Bahia, tendo Ilhéus como um dos principais polos produtores. 

A concentração de cacaueiros é de 30 árvores para cada hectare de mata, porém, os estudos técnicos indicam que essa concentração pode ser elevada para 100 árvores por hectare, o aumentaria substancialmente a produção da região. Nos áureos tempos dos coronéis, a produção de cacau na Bahia superava fácil a marca de 1,4 milhão de toneladas. Antes da chegada da vassoura-de-bruxa em 1989, essa produção já tinha caído para 390 mil toneladas. Atualmente é de apenas 40 mil toneladas/ano. 

A retomada da produção cacaueira na região não foi uma simples obra do acaso. Grandes esforços em pesquisas cientificas em importantes universidades brasileiras – entre elas a UNICAMP de São Paulo, levaram ao aprimoramento genético dos cacaueiros e a descoberta de uma molécula que combate naturalmente o fungo que provoca a vassoura-de-bruxa. 

Essa retomada da cacauicultora no Sul da Bahia está sendo acompanhada por uma mudança de mentalidade – ao invés de grandes esforços para a produção maciça de uma commodity para exportação in natura, os produtores estão se esforçando para produzir um cacau de alta qualidade destinado à produção de chocolates gourmets, um produto que tem um preço de venda muito maior e que pode gerar uma grande demanda local por mão de obra. 

Entre o sonho de atingir essa meta e a realidade atual dos produtores existem enormes desafios e grandes problemas. Um dos mais importantes é falta de interesse das novas gerações pelo trabalho na produção agrícola. Os filhos e netos dos produtores buscam oportunidades de trabalho e de vida nas cidades grandes, o que poderá comprometer a continuidade da atividade dentro de poucos anos. 

Enquanto na Bahia a produção do cacau é “coisa de gente velha”, na África é justamente o contrário. Nos países que formam a Costa do Ouro no Leste do continente o grande problema é o uso abusivo de mão de obra infantil. Grandes empresas da Europa, por forte pressão dos seus consumidores, têm sido forçadas a deixar de importar matérias primas dessa região. 

Uma produção ecologicamente sustentável e socialmente responsável no Sul da Bahia (e também na Amazônia) poderá representar uma excelente oportunidade para os produtores brasileiros ao longo dos próximos anos e uma oportunidade única para recuperar importantes fragmentos de florestas. Que os anjos digam amém! 

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