A SEGUNDA ONDA DE COLONIZAÇÃO DO RIO GRANDE DO SUL E O INÍCIO DA DESTRUIÇÃO DA MATA ATLÂNTICA

Na postagem anterior apresentamos um histórico ultra resumido da integração do Rio Grande do Sul ao território brasileiro e os primeiros tempos da ocupação territorial e da colonização da região litorânea. Foi um processo tumultuado e sujeito a constantes embates com os “castelhanos” da Prata, que não se conformavam com a perda do território. 

Uma segunda onda de colonização das terras gaúchas começou a ser gestada ainda sob a administração de Dom João VI, imediatamente antes do seu retorno a Portugal em 1821, e seria continuada já sob o reinado de Dom Pedro I. Essa colonização foi aberta apenas para europeus brancos, de origem predominante de açorianos, alemães e italianos. Por razões políticas da época, essa imigração estava proibida para holandeses, ingleses e castelhanos

Aqui é importante um comentário – havia entre as elites europeias há época uma ideia errada sobre a mistura de raças, um “mal que poderia levar a degeneração do homem”. Esse conceito seria refinado ao longo do tempo, até que em 1883, Francis Galton criou a teoria “científica” da eugenia: “o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja físico ou mentalmente”. As elites brasileiras já imaginavam que uma população essencialmente europeia traria maiores benefícios para a colônia. 

A fase inicial dessa colonização foi denominada Walkerfield e consistia da “distribuição de um lote de terra, ferramentas, animais, sementes aos agricultores, pagamento de módicos subsídios para a alimentação dos colonos no primeiro ano de estabelecimento”. Entre os anos de 1824 e 1839 desembarcaram no Sul do Brasil cerca de 5.300 colonos alemães, que formaram a Colônia de São Leopoldo e depois foram ocupando terras ao longo dos principais rios das planícies da região. 

Apesar de ter sido um verdadeiro sucesso, esse programa foi suspenso entre os anos de 1830 e 1840 por pressão dos grandes latifundiários gaúchos. Havia um consenso geral entre os grandes senhores de terras que as verbas gastas com a colonização representavam um argumento a favor da política abolicionista da Inglaterra. Dependentes da mão de obra escrava, os latifundiários enxergavam a presença de um número cada vez maior de trabalhadores livres como um grave risco aos seus interesses. 

Após esse período, a imigração foi sendo retomada pouco a pouco. Em 1848, foi assinada a Lei Geral número 514, onde o Governo Geral cederia terras devolutas para as Províncias usarem para fins exclusivos de colonização. Já a Lei das Terras, de 1850, estabeleceu os critérios para a estruturação de colônias agrícolas e legitimação das sesmarias já existentes.  

No embalo dessa nova legislação, o Governo da Província do Rio Grande do Sul promulgou a Lei número 229, que em um dos seus artigos “concedia gratuitamente as terras aos colonos provindos da imigração dirigida“. O Governo Provincial demonstrava com essa Lei uma profunda preocupação no controle dos latifúndios, que apresentavam grandes extensões de terra e pouca gente – numa Província de fronteira como o Rio Grande do Sul, onde os riscos de invasão de castelhanos era constante, era preciso contar com um bom adensamento de populações. 

Uma dessas áreas de terras devolutas e que foi transformada em um importante polo de colonização foi a encosta superior da Serra Nordeste do Rio Grande do Sul – a famosa Serra Gaúcha. Essa região é delimitada pelas bacias hidrográficas dos rios Caí, Antas e Taquari, com limites em São João de Montenegro, São Sebastião do Caí, Taquara do Mundo Novo e São Francisco de Paula de Cima da Serra. Essas eram terras cobertas por uma densa mata virgem e com grandes possibilidades para uma boa colonização.  

A ideia do Governo Provincial era assentar 40 mil colonos nessas terras ao longo de 10 anos, uma meta que não foi atingida e que gerou enormes prejuízos financeiros. O Rio Grande do Sul enfrentou uma série de conflitos militares internos ao longo de todo o século XIX, um problema que afugentava potenciais imigrantes. Dados oficiais daquele período indicam a chegada de um total de 12.563 imigrantes estrangeiros entre 1859 e 1875. Eram 8.412 alemães, 1.452 austríacos, 729 italianos (vide foto), 648 franceses, 263 suíços e 105 de outras nacionalidades

Projetos semelhantes foram criados em outras regiões da Província, especialmente nas regiões da Matas das Araucárias no Norte, onde havia um grande potencial inicial de aproveitamento das madeiras nativas, para só depois passar a trabalhar as terras. Nessas regiões, a história foi muito parecida com a que vimos acontecer nas Matas das Araucárias em terras do Oeste catarinense – inclusive, conforme comentamos em postagem anterior, as empresas de colonização que se instalaram no Oeste catarinense eram, em sua imensa maioria, originárias do Rio Grande do Sul. 

Assentados em pequenas propriedades, esses colonos se valiam da força de trabalho da família e praticavam um sistema agrícola de rotação de terras, muito utilizado na Europa há época. Algumas áreas eram usadas em um período, enquanto outras “descansavam”. O milho, por exemplo, era plantado na mesma área por um período entre 6 e 10 anos, até que os solos apresentassem sinais de esgotamento.

Passado esse período, a área era deixada em descanso por 2 ou 3 anos, recuperando assim a sua fertilidade. Outras culturas produzidas nessas colônias eram o centeio, a cevada, o feijão, a batata doce, a cana e a mandioca. O trigo e o arroz eram plantados nos meses de inverno. Outra cultura importante que surgiu em algumas colônias foi a produção da uva e dos vinhos. 

Durante muito tempo, as colônias gaúchas foram auto suficientes na produção dos alimentos e demais produtos necessários às suas populações. A partir de 1900, o Governo do Rio Grande do Sul passou a incentivar a produção em larga escala de trigo e de frutas temperadas como uvas, maçãs, marmelos e peras, iniciando assim as exportações desses alimentos para outras Províncias. 

Cada um dos diferentes grupos de imigrantes acabou adaptando seu próprio estilo de vida à nova realidade em que encontraram nas colônias. Os alemães, por exemplo, utilizavam a maior parte da sua produção de milho para a alimentação de animais como porcos e galinhas. A cevada tinha como destino certo a fabricação das suas tradicionais cervejas.  

Já para os italianos, parte importante da sua produção de milho tinha uma outra finalidade mais nobre – a produção do fubá que seria usado na preparação das suas tradicionais polentas, um dos pratos essenciais da culinária italiana. O trigo era fundamental para a produção dos mais diferentes tipos de “pastas”, que seriam regadas com o melhor molho, ou salsa. Todas essas refeições deveriam ser acompanhadas de uma boa dose de vinho. 

Esse novo ciclo de colonização continuou nas primeiras décadas do século XX e se deu em sua maior parte em áreas antes ocupadas por matas densas dos antigos domínios da Mata Atlântica no Rio Grande do Sul. A partir de meados do século passado, quando a agricultura mecanizada passou a crescer fortemente em terras gaúchas, esse avanço contra as matas se acirrou, levando a uma devastação ainda maior. Trataremos desse tema em futura postagem. 

De acordo com informações do Atlas Socioeconômico do Rio Grande do Sul, as áreas remanescentes de Mata Atlântica no Estado correspondem atualmente a apenas 7,5% da cobertura original. São remanescentes florestais altamente fragmentados, onde espécies animais e vegetais isoladas correm um risco maior de extinção. Essa é uma situação que, infelizmente, não é muito diferente de outros Estados de ocorrência do bioma em todo o Brasil. 

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