O BERÇO DAS ÁGUAS DO RIO GRANDE DO SUL

Uma das imagens mais estereotipadas do Rio Grande do Sul é a que mostra campos a perder de vista – os famosos Pampas, onde gaúchos a cavalo e vestidos com suas bombachas e ponchos tradicionais seguem tocando as suas boiadas. Por mais verdadeira que seja, essa imagem representa apenas uma parte das paisagens do Extremo Sul do Brasil. 

Conforme apresentamos em postagens anteriores, toda a faixa Norte do Rio Grande do Sul era coberta pela Mata Atlântica. Essa vegetação se estendia desde a faixa litorânea até a divisa com a Argentina, cobrindo aproximadamente 25% do território gaúcho. Uma parte importante dessa vegetação era a chamada Floresta Ombrófila Mista, mais conhecida como Mata das Araucárias. 

As diferentes ondas de colonização do Rio Grande do Sul a partir das primeiras décadas do século XIX avançaram gradativamente contra essas áreas de matas e resultaram em uma intensa destruição da cobertura florestal. De acordo com informações do Atlas Socioeconômico do Estado, restaram apenas 7% da área original da Mata Atlântica no Rio Grande do Sul. Essas matas remanescentes são formadas por pequenos fragmentos altamente dispersos, o que expõe populações de animais silvestres e plantas ao risco iminente de extinção. 

Agora, pasmem com essa informação, que nos dá uma ideia da importância das matas na preservação das fontes de água – num desses fragmentos florestais remanescentes da Mata Atlântica gaúcha, entre as cidades de Passo Fundo e Mato Castelhano, existe uma área de nascentes que são formadoras de quatro das vinte e cinco bacias hidrográficas do Rio Grande do Sul. Essa região possui pequenos banhados, que se desmembram em quatro braços distintos e seguem para direções diferentes

As bacias hidrográficas que se formam ali são as dos rios Passo Fundo, Alto Jacuí, Apauê-Inhandava e Taquarí-Antas. O rio Jacuí, citando como exemplo, é um dos rios mais importantes do Rio Grande do Sul. Ele seguirá por cerca de 800 km a partir dessa pequena nascente, recebendo contribuições de inúmeros rios tributários, até atingir o famoso Delta do Jacuí e desaguar na Lagoa do Guaíba, onde contribui com perto de 85% da vazão de águas. 

Esse fragmento remanescente de Mata Atlântica é chamado de Berço das Águas pelos pesquisadores do Rio Grande do Sul, que lutam pela sua preservação. A área, que é considerada uma zona de proteção de manancial hídrico pelo Plano Diretor da cidade de Passo Fundo devido a sua importância estratégica, já sofreu grandes intervenções nos últimos anos e, caso não sejam tomadas medidas enérgicas, corre o risco de desaparecer. 

Entre outros problemas, o Berço das Águas está cada vez mais ilhado. De um lado existe um aeroporto que precisa ser ampliado. De outro, o Parque de Exposições Wolmar Salton (Efrica), pertencente à prefeitura de Passo Fundo, que foi instalado dentro dos limites da área verde. O crescimento da mancha urbana e as pressões para a instalação de um centro empresarial e industrial completam o cenário caótico. 

A situação poderia estar ainda pior. Um empresário de Passo Fundo havia conseguido a cessão de uma grande área pública, onde pretendia construir um autódromo internacional, entres outros empreendimentos. Felizmente, uma decisão judicial impediu o avanço dessas obras e a destruição de uma parte importante dessa área verde. 

O centro de toda essa disputa é a Fazenda da Brigada, uma área de 1.136 hectares que há mais de 60 anos está sob responsabilidade da Brigada Militar do Rio Grande do Sul. A corporação desenvolve atividades institucionais, treinamentos, serviços comunitários e ainda mantém diversas associações no local. Uma área com aproximadamente 50 hectares foi cedida através de convênio para pesquisas pela EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias. 

A CORSAN – Companhia Riograndense de Saneamento, também possui a concessão de uma área da fazenda, onde capta a água de 18 nascentes da região e forma a Barragem do Arroio Miranda, responsável pelo abastecimento da população de Passo Fundo. A empresa também explora as águas de um lago que se formou na área de uma antiga pedreira que pertencia à Fazenda da Brigada.  

Essa pedreira tinha originalmente uma área com cerca de 3 mil hectares, mas acabou sendo desmembrada em várias partes. Uma parte da pedreira foi cedida para a ampliação do aeroporto. Outra parte foi usada para a construção do Parque de Exposições e uma outra área foi doada para a APAE – Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais. Por fim, uma área seria usada para a instalação de uma CEASA (Central de Abastecimento) – esse projeto não vingou, mas a área não voltou a ser reintegrada a Fazenda da Brigada. 

As águas do lago dessa pedreira eram consideradas impróprias para uso no abastecimento da população até o ano de 2013, quando uma grande seca se abateu sobre a região e houve uma brutal redução do nível das águas da Barragem do Arroio Miranda. A CORSAN foi obrigada a utilizar essa água para complementar o abastecimento da população de Passo Fundo. Desde então, o lago passou a ser considerado como um manancial de abastecimento da cidade. 

O Governo do Rio Grande do Sul tem planos para conceder uma área de 439 hectares da fazenda para a iniciativa privada, que poderá desenvolver atividades agrícolas no local. Essa iniciativa consta no Sistema de Pregão Eletrônico do Governo Estadual e está aberta a propostas. Até o ano de 2019, a AGU – Advocacia Geral União, estava tentando transformar essa área em um assentamento indígena, mas acabou desistindo da causa. 

O projeto de concessão da fazenda para a iniciativa privada possui um Plano de Manejo, onde o concessionário será encarregado da proteção e conservação da cobertura vegetal remanescente. Esse Plano delimita as áreas que poderão ser utilizadas para fins agrícolas e estabelece as distâncias a serem mantidas das nascentes. A fiscalização ficará sob responsabilidade do Batalhão Ambiental do Rio Grande do Sul. 

A situação do importante Berço das Águas exemplifica o drama da Mata Atlântica e de importantes nascentes de rios em todo o Rio Grande do Sul. Com a destruição das áreas florestais e com o crescimento da agricultura em antigas áreas de domínio do bioma, está ocorrendo uma redução contínua dos caudais de muitas fontes de água.

A explicação para isso é muito simples – as raízes de plantas de culturas como a soja e o trigo são muito curtas, o que impede que as águas da chuva infiltrem adequadamente nos solos e façam a recarga dos lençóis subterrâneos de água, um papel que as grandes raízes das árvores da Mata Atlântica faziam com primor.

Tragicamente, enquanto toda essa destruição avança, as cidades gaúchas sofrem cada vez mais para conseguir garantir o abastecimento de água das suas populações.

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