O FRACASSO DOS ENGENHOS E CANAVIAIS NAS CAPITANIAS DE SÃO VICENTE E DE SANTO AMARO

O grande centro de produção açucareira aos tempos do Brasil Colônia se estendia entre a região de Ilhéus, no Sul do atual Estado da Bahia, e o Rio Grande do Norte. Entre a década de 1530 e o final do século XVIII, essa região foi a principal produtora de açúcar do mundo. Com a descoberta das minas de ouro na Região das Geraes nos últimos anos do século XVI e com a crescente concorrência dos engenhos da região do Mar do Caribe e América Central, a indústria açucareira do Brasil entrou em uma forte e contínua decadência. 

Uma das “heranças” mais nefastas desse período foi a destruição quase total do trecho nordestino da Mata Atlântica e a perda dos férteis solos de massapê que outrora abundavam na região. Outro grave problema ambiental foi a expulsão das boiadas na direção do Semiárido, o que levou a uma superexploração dos recursos naturais e agravamento dos problemas associados à seca. 

A cultura da cana de açúcar no Brasil, entretanto, não ficou limitada à Região Nordeste. Engenhos e canaviais também foram instalados mais ao Sul da grande Colônia de Portugal, mais especificamente nas Capitanias do Espírito Santo, de São Tomé, que englobava o Sul do Espírito Santo e o Norte fluminense, e, principalmente, nas Capitanias de São Vicente e Santo Amaro, que foram as principais formadoras do Estado de São Paulo.  

Os engenhos dessas Capitanias não conseguiam acompanhar os grandes volumes de produção da Região Nordeste e, apesar dos esforços, a destruição da Mata Atlântica local foi bem menor. 

Os Donatários das Capitanias de São Vicente e de Santo Amaro foram os irmãos Martim Afonso de Sousa e Pero Lopes de Sousa que, entre os anos de 1530 e 1533, realizaram uma grande expedição exploratória na região. De acordo com alguns registros históricos (não há consenso), as primeiras mudas de cana-de-açúcar foram trazidas para São Vicente a partir de São Tomé e, muito provavelmente, da Ilha da Madeira, onde os navios faziam escala nas viagens rumo à Índia. 

Tradicionalmente, os livros escolares costumam atribuir a Martim Afonso de Sousa a construção do primeiro engenho de açúcar do Brasil, porém, existem registros históricos que mostram que seu engenho foi o terceiro a entrar em operação no país. 

É provável que os irmãos Pero e Luís de Góis tenham sido os primeiros a erguer, em 1532, um engenho na Capitania de São Vicente (provavelmente o primeiro do Brasil), denominado Engenho-da-Madre-de-Deus. O segundo, Engenho-de-São-João, foi construído em 1533 por José Adorno e dois dos seus irmãos, Francisco e Paulo. O terceiro, pertencente a Martim Afonso de Sousa, Engenho-do-Trato ou Engenho-do-Senhor-Governador, só começou a ser construído em 1534.  

De acordo com o livro lançado por Pero de Magalhães Gândavo em 1576 – História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos de Brasil, existia 1 engenho em operação no Espírito Santo e outros 4 em São Vicente há época. Já na História Geral do Brasil, Francisco Adolfo de Varnhagen afirma que existiam 127 engenhos no Brasil há época, mais do que o dobro do número informado por Pero de Magalhães Gândavo. Entre esses engenhos se incluem 6 em São Vicente; 3 em São Tomé e 6 no Espírito Santo

Apesar do pioneirismo dos empreendedores das Capitanias de São Vicente e de Santo Amaro, a história da indústria açucareira nessa região não foi das mais longas e lucrativas do Brasil. Existem diversas explicações para esse aparente fracasso regional – a mais citada é a geografia da estreita planície costeira paulista, que, espremida entre as encostas da Serra do Mar e as águas do Oceano Atlântico, não possuía muito espaço para a formação de grandes campos agrícolas para o plantio das canas como na Região Nordeste. 

Bem menos citado nos livros eram os frequentes ataques de piratas aos engenhos da região e que causavam enormes prejuízos para os produtores. Em 1591, a expedição corsária do inglês Thomas Cavendish atacou e saqueou a capitania de São Vicente e, não bastando, incendiou as cidades de Santos e São Vicente, destruindo os engenhos de açúcar e provocando prejuízos incalculáveis aos proprietários das sesmarias de terra.  

Em 1615 houve um outro grande ataque, quando a esquadra do almirante holandês Joris van Spilberg desembarcou em Santos, saqueando e incendiando novamente engenhos. Desta vez, as moendas de cana foram destruídas e os engenhos não puderam ser recuperados.

Conforme comentamos em uma postagem anterior, há época existiam poucas fundições na Europa com capacidade para a produção das complexas engrenagens das moendas e seriam necessários vários anos para a reposição dos mecanismos destruídos, com custos exorbitantes. A cultura da cana de açúcar na região nunca se recuperou completamente desses golpes e gradativamente foi perdendo importância econômica. 

É aqui que ocorreu uma guinada que marcaria para sempre a história dos chamados paulistas – a partir de meados da década de 1550, a região do Planalto de Piratininga passou a abrigar uma série de vilas e de fazendas, com grande produção de alimentos. Além das tradicionais culturas de milho e mandioca, a região também produzia trigo e vinhos, produtos que há época precisavam ser importados da Europa. Outro produto “famoso” de Piratininga eram as marmeladas, que eram acondicionadas em caixinhas de madeira e vendidas com muito sucesso nas vilas do litoral e do interior.  

Após as descobertas das minas de ouro na região das Geraes, que inclusive foi um feito de bandeirantes paulistas em 1693, o Planalto de Piratininga se transformaria num grande produtor e “exportador” de alimentos. A vocação comercial da região seria complementada pela venda de indígenas escravizados pelos bandeirantes, principalmente aqueles capturados nas Missões Jesuíticas espanholas do Paraguai e do Rio Grande do Sul, e que se mostrariam importantes para os trabalhos domésticos nas fazendas mineiras, sendo muito mais baratos que os escravos africanos. 

Oficinas locais do Planalto de Piratininga e de vilas do interior também produziam tecidos grosseiros, roupas, sapatos e botas, ferramentas como pás, enxadas e picaretas (cito o meu bairro na cidade de São Paulo– Santo Amaro, que surgiu em função de uma mina de minério de ferro encontrada na região), chapéus de feltro e cachaça – a famosa “caninha paulista” teve suas origens nesse período. 

Um outro produto fundamental vendido pelos paulistas eram as tropas de burros e mulas vindas da região Sul da Colônia. Esses animais, que eram essenciais para os trabalhos nas regiões de mineração, eram trazidos primeiro até a região de Sorocaba e depois eram carregados com alimentos e outros produtos, e levados por tropeiros para as Geraes – animais, alimentos e outros produtos eram vendidos a “peso de ouro”, literalmente.

Esse mercantilismo paulista gradativamente substituiu a indústria açucareira local, que por fim acabou sendo completamente abandonada. Ironicamente, o tempo reescreveria a história da cultura da cana de açúcar no Estado de São Paulo que, atualmente, é o maior produtor de açúcar e de etanol do Brasil. 

O naufrágio da indústria açucareira em São Paulo teve uma importante consequência ambiental – sem a pressão dos canaviais, grandes áreas destruídas da Mata Atlântica na região da planície costeira puderam se recuperar, o que somado aos trechos intactos ao longo do relevo acidentado da Serra do Mar formam atualmente um dos trechos contínuos mais preservados do bioma no Brasil. Como diz o velho ditado – há males que vem para o bem. 

A Mata Atlântica no interior do Estado sobreviveria até meados do século XIX, quando passou a sucumbir lentamente diante do avanço dos cafezais. Trataremos disso em futuras postagens.

OS CACAUEIROS E OS RESQUÍCIOS DA MATA ATLÂNTICA NO SUL DA BAHIA

Cacaueiros do Sul da Bahia

Durante quae 300 anos, entre o século XVI e o final do século XVIII, a Região Nordeste do Brasil figurou entre os maiores centros de produção de açúcar do mundo. A uma certa altura, essa posição passou a ser abalada gradativamente pelo crescimento de um sem número de engenhos franceses, ingleses e holandeses nas ilhas do Mar do Caribe e em países da América Central Continental. Com uma estrutura produtiva mais eficiente e contando com melhores condições de transporte até os mercados na Europa, o açúcar da região começou a eclipsar aquele produzido aqui no Brasil. 

Outro duro golpe sofrido pela nossa indústria açucareira foram as notícias da descoberta,  a partir do final do século XVI, de grandes quantidades de ouro na região que passou a ser chamada de Minas Geraes. Uma verdadeira “febre do ouro” se abateu sobre a população da Colônia e, ao longo do meio século seguinte, mais de 2/3 da população abandonou as áreas ao longo do litoral e se embrenhou nos sertões para tentar a sorte nos garimpos de ouro. A já decadente indústria açucareira acabou por entrar em colapso por falta de mão de obra. 

Ao longo de todo o seu ciclo, o açúcar fez a fortuna de um seleto grupo de senhores de engenho, importadores, revendedores e comerciantes da Europa. Para nós brasileiros, restou uma faixa de terras desgastadas e despidas da sua antiga cobertura florestal – a Mata Atlântica. Quem visita a Região Nordeste atualmente, fica fascinado com os extensos coqueirais ao longo das praias – o coco, para quem não sabe, foi trazido da Índia e ilhas da região do Indo-Pacífico, sendo plantado aleatoriamente nas terras desnudas que restaram. 

Nem tudo, porém, estava perdido para a Mata Atlântica na Região Nordeste – uma importante área no Sul do Estado da Bahia conseguiu sobreviver ao avanço dos canaviais. Essa “sobrevivência” não foi gratuita – os ferozes índios botocudos que viviam na região atacaram impiedosamente todos os assentamentos e engenhos que tentaram se instalar na região, levando os “brancos” a desistirem da empreitada. 

Esses índios usavam discos de madeira nos lóbulos das orelhas e no lábio inferior, o que lhes dava uma aparência assustadora e levou os portugueses a chamá-los genericamente de botocudos. Esses índios pertenciam ao tronco macro-jê, um grupo linguístico indígena sem ligação com os tupis que predominavam na Região Nordeste. Em muitos lugares eles eram conhecidos pelo nome de aimorés. 

O território dos índios botucudos incluía todo o Sul da Bahia, o Norte do Espírito Santo e o vale do Rio Doce em Minas Gerais. Com nascentes na Serra da Mantiqueira, o rio Doce oferece uma ligação natural entre o Oceano Atlântico e a região de mineração no centro das Minas Geraes. Devido a presença dos implacáveis botocudos ao longo das suas margens, as águas do rio Doce nunca puderam ser utilizadas para o transporte de pessoas e cargas para as regiões mineradoras, além de não permitir o escoamento do ouro produzido. 

As matas do Sul da Bahia permaneceriam praticamente intocadas até o início do século XIX, quando a cultura de uma planta trazida da Amazônia encontraria ali as condições ideias para se desenvolver – o cacau. Aqui é importante lembrar que os botocudos já não dominavam mais a região a essa altura. Os Governantes da época realizaram grandes “esforços” para combater esses índios, contratando inclusive os chamados bugreiros – caçadores de índios, que ganhavam uma recompensa por cada índio “neutralizado”. 

O cacaueiro (Theobroma cacao) é uma árvore originária da bacia hidrográfica do rio Amazonas e das florestas da América Central, que produz um fruto chamado cacau – são as castanhas do cacau que dão origem ao nosso chocolate do dia a dia. Foram as grandes civilizações mesoamericanas dos Maias e dos Astecas que desenvolveram as primeiras bebidas preparadas a base do cacau – o kabkajatl.  

Os conquistadores espanhóis que chegaram ao continente americano a partir do final do século XV e que experimentaram a bebida, tinham muita dificuldade para pronunciar esta palavra nativa, que acabou sendo hispanizada para cacauatl, e por fim acabou resumida a cacau. Levado inicialmente para a Espanha, o cacau passou a ser consumido como uma bebida quente com leite e açúcar. A partir daí, ganhou o mundo com o nome de chocolate

Diferente de outras culturas, o cacau depende da sombra de uma floresta para sobreviver, o que torna o seu cultivo sustentável do ponto de vista ambiental. O sucesso da região Sul da Bahia na produção do cacau foi fruto da preservação da Mata Atlântica, que fornece sombra, umidade e proteção contra os ventos.

Além de garantir a geração de riqueza e trabalho para as populações locais, essa produção em sistema agroflorestal foi fundamental para a conservação de grandes corredores de mata nativa, onde hoje encontramos algumas espécies raras como o jequitibá-rosa (Cariniana legalis), o pau-brasil (Brasiliana echinata) e a gameleira (Ficus gomelleira), espécies que desapareceram de regiões onde a Mata Atlântica foi praticamente dizimada. 

O cacaueiro pode chegar a uma altura de 20 metros. Em plantações comerciais, onde as árvores recebem podas periódicas, essa altura normalmente fica entre 3 e 5 metros, o que facilita muito a colheita dos frutos. Existiam cerca de 60 mil produtores de cacau no Brasil até o início da década de 1990, sendo a região Sul do Estado da Bahia a que concentrava o maior número de plantadores. A produção baiana chegou a responder por 61% da produção brasileira de cacau, seguida pelo Pará, que produz 23% – Roraima, Espírito Santo e Amazonas produzem juntos 15% da produção total do país. 

A primeira exportação oficial registrada de cacau baiano data de 1825, quando 26,8 toneladas foram enviadas para a Inglaterra – em 1900, as exportações do produto já atingiriam a marca de 13 mil toneladas. O Estado da Bahia foi, durante décadas a fio, o maior produtor brasileiro de cacau, respondendo por até 90% da produção nacional e por cerca de 20% das receitas do Estado. O Brasil chegou a responder por cerca de 40% da produção mundial de cacau.  

A região de Ilhéus, no Sul da Bahia foi, durante muito tempo, de uma prosperidade ímpar graças ao cacau – os grandes coronéis dos tempos áureos da cultura deixaram as suas marcas por toda a região. Nos romances de Jorge Amado, como Gabriela, Cravo e Canela, encontramos relatos vivos desse apogeu regional. 

Crises econômicas internacionais, a II Guerra Mundial e, especialmente, a grande produtividade de países da África, pouco a pouco minaram a prosperidade da indústria cacaueira do Sul da Bahia e marcaram o fim do reinado de muitas “dinastias” de grandes produtores baianos. Uma praga agrícola originária da Bacia Amazônica, conhecida popularmente como vassoura-de-bruxa, foi detectada na região de Ilhéus-Itabuna em 1989 e comprometeu gravemente a produção local do cacau.

A doença é causada por um fungo, o Moniliophtora perniciosa, que destrói tecidos das plantas e reduz imensamente a produtividade dos cacaueiros. Entre 1991 e 2000, a produção de cacau no Brasil caiu de 320,5 mil toneladas para 191,1 mil toneladas por causa da vassoura-de-bruxa. A participação do cacau brasileiro no mercado mundial caiu de 14% para 4% e nossas indústrias de alimentos passaram a depender da importação do produto

Os cacaueiros tentam resistir no Sul da Bahia, apesar dos problemas ainda enfrentados com a vassoura-de-bruxa, com a pressão exercida pela criação de gado e avanço dos campos agrícolas que, como em séculos passados, avançam contra o que sobrou da Mata Atlântica. Além de garantir a continuidade da atividade e de toda a renda e empregos que ela pode gerar, o cacau é fundamental para salvar o que restou das matas na região. 

Então, um viva para o chocolate! 

AS BOIADAS DO NORDESTE AÇUCAREIRO

Gado no sertão nordestino

Na última postagem falamos da dramática simbiose que existiu entre os escravos africanos e os bois nos grandes canaviais do Nordeste Açucareiro aos tempos do Brasil colonial. Entre meados do século XVI e final XVIII, o açúcar foi a grande riqueza produzida e exportada pelo Brasil e todos os esforços locais eram voltados para o plantio da cana e seus trabalhos de processamento nos engenhos. Os dois principais “atores” desses intensos trabalhos eram os escravos e os bois. 

Bois e canas chegaram como passageiros das primeiras expedições colonizadoras a partir da década de 1530. Trazidos do arquipélago de Cabo Verde, onde há várias décadas os portugueses produziam um “mui fino açúcar”, as primeiras mudas de cana e os primeiros lotes de bois inaugurariam uma nova era em terras brasileiros. Os pontos de desembarque eram os antigos cais improvisados para o embarque de toras de pau-brasil e outros produtos da terra como algodão, cera, especiarias “genéricas” e animais de estimação como pequenos macacos e “papagaios falantes”, que faziam muito sucesso entre os curiosos europeus. 

De acordo com cronistas da época, cada engenho de cana de açúcar necessitava de, no mínimo, “60 negros e 60 bois” para funcionar. Também existem documentos oficiais da Coroa de Portugal, que autorizavam cada “engenho a importar até 130 peças de escravos a cada ano”. Aqui é importante lembrar que durante os primeiros séculos de nossa colonização, os importadores de escravos africanos traziam majoritariamente homens para os pesados trabalhos no campo e nos engenhos.  

As mulheres africanas representavam menos de 5% do total “das importações” e se destinavam principalmente aos trabalhos domésticos e para “atender aos desejos dos senhores das casas-grandes“. A reposição dos plantéis de escravos que se acidentavam e “ficavam imprestáveis para o trabalho” ou morriam, dependia da importação constante de novas “peças”. Peço desculpa aos leitores pelos termos usados, que estão entre aspas, e que eram comuns há época – textos históricos antigos costumavam tratar escravos e bois praticamente da mesma forma. 

Sem sofrer as mesmas restrições dos negros africanos, os carregamentos de gado vacum traziam além dos bois, muitas vacas. Com o passar do tempo, os rebanhos nos engenhos cresciam naturalmente e, além de se prestarem aos trabalhos como bestas de cargas, parte dessas boiadas passaram a ser destinadas à produção de carne para o consumo de uma população humana que não parava de crescer. Surgiram então em nossas terras as figuras do criador de bois, dos vaqueiros, dos tratadores, dos abatedores e dos coureiros, entre muitos outros. 

Um registro curioso que encontramos no livro O Açúcar nos Primórdios do Brasil Colonial, de Basílio de Magalhães, nos informa que em 1550, a caravela Galga chegou na cidade de Salvador vinda do Arquipélago de Cabo Verde com um grande carregamento de gado vacum. A tripulação tinha ordens diretas de Dom João III de “tornar a carregar no Cabo-Verde do mesmo gado”. 

O gado vacum, assim como os “gados pequenos” – cabras e carneiros, são grandes devoradores e digestores de relva verde, brotos e cascas de árvores, frutas e frutos, raízes, entre outros alimentos, o que os tornam verdadeiros exterminadores de vegetação. Existem registros que contam que logo após a destruição das Missões Jesuíticas do Sul do Brasil pelos bandeirantes paulistas, o gado que era criado nesses locais acabou fugindo e se dispersando pelos Pampas Sulinos.  

Segundo alguns estudos, a extensão dos Pampas acabou sendo aumentada artificialmente pelos grandes rebanhos de gado que foram surgindo – os animais avançavam contra as bordas das matas para comer a vegetação rasteira e os brotos das árvores, pisoteando plantas e pequenas mudas de árvores que estavam nascendo, levando assim a um recuo gradativo das florestas. Existem registros semelhantes nos Estados Unidos, onde os imensos rebanhos de bisões-americanos (Bison bison) foram um dos responsáveis pela ampliação das Pradarias, os grandes campos do centro do país. 

As atividades dos criadores de gado seguiam com vento em popa com a demanda crescente de carne e couro pela população e também em função dos “grandes estoques” de terras e matas. Os problemas começaram quando as boiadas cresceram demais e passaram a ficar muito próximas dos grandes canaviais. Os adocicados e tenros brotos das “canas jovens” eram simplesmente irresistíveis para os bois, que inocentemente invadiam e devastavam as plantações. Os arames farpados, tão usados nas propriedades rurais de nossos dias, só apareceriam no século XIX – construir cercas com troncos e madeiras ao redor dos canaviais era impraticável há época. 

Os prejuízos pontuais que começaram a ocorrer em inúmeros engenhos por todo o Nordeste Açucareiro não paravam de crescer por causa do crescimento vegetativo das boiadas. Sem as canas, os engenhos nada teriam para moer e não haveriam as “caldas melosas” que se transformavam no açúcar. Eu tento imaginar as infinitas discussões entre os senhores dos engenhos e os criadores de gado acerca de quem arcaria com os prejuízos. Imagino que muitas dessas discussões acabaram em morte. 

A solução que acabou sendo encontrada foi a expulsão das boiadas do litoral açucareiro – os criadores teriam de se dirigir para as áreas interioranas, principalmente as zonas que classificamos atualmente como o Agreste e a Caatinga. O problema era tão sério que, em 1701, foi publicada uma Carta Régia assinada pelo Rei de Portugal proibindo a criação de gado a menos de 60 km do litoral

Em meus textos, eu costumo chamar esse processo de a “diáspora bovina”, numa referência à expulsão dos judeus da Palestina pelas tropas romanas no ano 70 d.C, como um desfecho da chamada Guerra Judaico-Romana. Diáspora (תְפוּצוֹת) em hebraico significa “dispersão” e o termo passou a ser usado para indicar o deslocamento forçado de populações ao longo da história. 

Essa dispersão massiva de boiadas na direção do Semiárido Nordestino criou uma série de problemas ambientais que fogem um tanto da temática Mata Atlântica, mas que sempre é bom relembrar (nos arquivos do blog existem inúmeras postagens que tratam das boidas e dos sertões). Essas áreas interioranas não apresentavam grandes áreas cobertas por vegetação rasteira e que eram ideais para a alimentação do gado.

Adaptadas para o clima quente e seco, a vegetação do Agreste e da Caatinga apresentava folhas muito duras para a mastigação pelos bois – muitas espécies de plantas, como as cactáceas, eram cobertas de espinhos, o que dificultava ainda mais a alimentação dos animais. 

A solução encontrada pelos criadores de bois foi a de queimar sistematicamente as áreas de caatingais, criando artificialmente espaços para a expansão das áreas de campos. Essa prática, que acabou sendo estendida por todo o sertão nordestino, contribuiu, e muito, para a amplificação dos efeitos das secas sistemáticas que assolam a região. Essa prática, combinada com o crescimento dos rebanhos de caprinos e ovinos, desencadeou inúmeros processos de desertificação em muitas áreas do Semiárido, um problema preocupante em nossos dias. 

Um resumo da história ambiental do Nordeste Açucareiro – ao mesmo tempo em que os grandes canaviais cresciam e ocupavam cada vez mais os antigos domínios da Mata Atlântica, as boiadas expulsas do litoral passaram a avançar contra as áreas do Agreste e da Caatinga. Com essas duas frentes de destruição de biomas trabalhando em “perfeita sincronia”, foi construído o empobrecido Nordeste de nossos dias – empobrecido no aspecto econômico e também em perdas dos biomas naturais.

O AÇÚCAR, O ESCRAVO E O BOI

O escravo e o boi

Nesta série de postagens estamos falando do processo contínuo de destruição do trecho Nordestino da Mata Atlântica, uma densa floresta que cobria todo o trecho litorâneo da costa brasileira entre o Rio Grande do Sul e o Rio Grande do Norte. Em muitas regiões, a floresta avançava pelo interior do nosso território, chegando até o Leste do Paraguai e Nordeste da Argentina. Aos tempos da chegada da esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral em 1500, a Mata Atlântica cobria cerca de 1,2 milhão de km² ou cerca de 15% do atual território brasileiro

As estimativas atuais falam que algo entre 90% e 93% da Mata Atlântica já foi devastado por atividades humanas, o que coloca o bioma como o mais ameaçado do Brasil. O trecho Nordestino da Mata Atlântica foi o primeiro a desaparecer do “mapa”, principalmente pela intensa atividade da indústria do açúcar ao longo dos três primeiros séculos de nossa colonização

O trecho do litoral do Nordeste onde se desenvolveram as atividades açucareiras se estendia entre o Sul do Estado da Bahia e o Rio Grande do Norte, ocupando cerca de 1.500 km de costa. De acordo com as informações históricas, a largura da Mata Atlântica na região variava entre 60 e 80 km. Fazendo os devidos cálculos, chegaremos a uma área total ocupada pela cultura entre 90 mil e 120 mil km². Essa área corresponde a aproximadamente 10% da antiga área da Mata Atlântica no país

Destruir um trecho de matas densas com uma área superior à de todo o Estado de Santa Catarina não é uma tarefa das mais fáceis. O esforço se torna muito mais hercúleo quando lembramos que há época não existiam motosserras portáteis e grandes tratores que derrubam largas faixas de matas puxando pesadas correntes. O insano trabalho foi feito com o uso de machados, com a força da tração animal e, principalmente, usando o fogo. Aqui precisamos destacar dois personagens essenciais para se levar a cabo essa tarefa – os escravos trazidos desde a África e os bois

A relação do homem com o boi é milenar. Pinturas pré-históricas que encontramos em cavernas da Europa, Ásia e África mostram seres humanos caçando espécies selvagens, ancestrais dos bois atuais. Domesticado ao longo dos milênios, o boi assumiu um papel de destaque entre inúmeras civilizações como estoque e fonte de alimento, como força para o trabalho e transporte e também como um elemento místico da natureza, com inúmeras representações na mitologia, cultura e no imaginário popular. Cito um exemplo – o minotauro grego.

O gado vacum, que vamos chamar simplesmente de boi, chegou junto com os primeiros colonizadores portugueses. É bem provável que na própria expedição de Pedro Álvares Cabral já existisse algum espécime – se não vivo nos porões como reserva de carne para momentos difíceis da viagem, devidamente transformado em carne bovina salgada, alimento ideal para as longas travessias oceânicas de outrora. 

Com certeza, na implantação dos primeiros assentamentos nos primórdios da colonização, manadas de bois eram parte importante da carga das caravelas. Além de fonte principal de proteínas para os primeiros colonizadores, a força do boi era fundamental para a derrubada da mata e transporte das pesadas toras de madeira para as construções e fornos dos engenhos, para o preparo do solo e a plantação dos canaviais, para o transporte das canas, para acionar as moendas e enfim, para transportar o precioso açúcar rumo aos portos de embarque. 

Informações de meados do século XVII dão conta que para o funcionamento de um engenho de cana eram necessários, no mínimo, sessenta escravos e sessenta bois, distribuídos em todos os tipos de tarefas e processos da produção. Gilberto Freyre nos deixou uma pista da triste serventia final dos pobres bois:

Quando velho ou desvalorizado por algum acidente, (o boi) servia para beef“.

Além da força bruta dos bois, o projeto colonial português precisava de braços e pernas fortes para enfrentar as matas, dominar a terra e gestar a produção do valioso açúcar, desde a preparação dos solos e plantio das canas até o refino das “caldas melosas” para a obtenção do mais puro produto. A primeira opção tentada pelos colonizadores foi a de se usar a mão de obra dos indígenas, uma escolha que não logrou maiores êxitos. 

Caçadores, pescadores e coletores de frutos e outros produtos na natureza, e também praticantes de uma agricultura de subsistência, principalmente voltada a produção de mandioca, milho e de algumas variedades locais de arroz, os indígenas não tinham uma estrutura física adequada aos pesados trabalhos envolvidos na produção do açúcar. A cultura indígena também funcionava como um forte bloqueio para se exercer tais atividades – nas tribos, a agricultura era uma tarefa das mulheres. Começou assim a importação de trabalhadores africanos para suprir as necessidades de mão de obra da colônia. 

A escravidão humana, que se estendeu ao longo de muitos milênios na Europa, havia entrando em forte decadência após o final do Império Romano e se acelerou ainda mais com a expansão do cristianismo. A partir do século XII, com o fortalecimento dos reinos cristãos na Península Ibérica, teve início o processo de expulsão dos muçulmanos, que haviam ocupado o Sul da região no século VIII. Muitos desses muçulmanos acabavam sendo aprisionados por cavaleiros cristãos e transformados em escravos e semiescravos, criando assim um processo de renascimento da escravidão humana no continente Europeu. 

Desde o século XV, há relatos da presença de escravos africanos em territórios portugueses. Calcula-se que existiam 50.000 escravos em Portugal há época dos primeiros descobrimentos nas Américas. De compleição física robusta, plenamente adaptada às necessidades para os trabalhos na agricultura, os negros africanos também se enquadravam na categoria de infiéis, sendo portando passíveis de dominação e escravização pelos brancos. 

A captura e o tráfico negreiro tornaram-se excelentes negócios para os novos empreendedores, com farta disponibilidade no continente africano e mercado certo nas colônias das Américas. Relatos de época costumam indicar que havia um alto índice de mortalidade de escravos africanos, principalmente devido às péssimas condições de higiene dos porões dos navios negreiros – há quem tenha dito que se sabia da chegada destes navios aos portos pelo cheiro de ‘inhaca do sujo’ que se sentia a grandes distâncias. Algumas fontes chegam a citar uma “perda” entre 40 e 50% das cargas de negros durante a travessia do Oceano Atlântico – o alto valor de comercialização compensava plenamente este custo extra. Um negócio de altíssima rentabilidade e riscos baixos. 

Apesar de repugnante nos dias atuais, a implantação da mão de obra negra no Brasil deu um verdadeiro impulso econômico para a Colônia. A presença negra foi determinante para a formação cultural do povo brasileiro. O negro incorporou sua ginga, sua música, seus mitos, sua comida e ingredientes, além de sua alegria na cultura e na alma brasileira. 

Diferentemente do que muitos imaginam, não foram os bandeirantes paulistas os disseminadores da língua portuguesa em todo o Brasil – essa nobre missão coube aos negros africanos. Comprados na faixa litorânea e conhecedores da língua e dos valores sócio culturais dos lusos, os escravos foram levados para os sertões do Brasil e lá difundiram a língua portuguesa. Muitos desses escravos tinham um ótimo padrão cultural, não sendo raro encontrar grupos norte africanos, conhecidos como ladinos, que inclusive sabiam ler e escrever em árabe, muito diferente dos senhores analfabetos e ignorantes que os compravam. 

Juntos, escravos e bois gastaram seus melhores dias realizando os trabalhos mais penosos e degradantes da indústria açucareira no Brasil colonial. A triste história do negro por aqui talvez não tenha sido mais triste do que foi porque aqui ele encontrou um grande parceiro de lida e de sofrimento: o boi. Encerro com essa citação do grande antropólogo Darcy Ribeiro: 

O escravo vindo da África não encontrou aqui melhor companheiro do que o boi para seus dias mais tristes. Para os seus trabalhos mais penosos. Quando depois o boi associou-se também aos dias alegres do negro do engenho – os de dança, de cachaça, de festa – na figura do bumba-meu-boi, é natural que o negro tenha feito desse drama popular um meio de expressão de muita mágoa recalcada: a glorificação do boi, seu companheiro de trabalho, quase seu irmão.” 

Continuamos na próxima postagem.

UM MUNDO QUE CABIA DENTRO DE UM ENGENHO DE CANA DE AÇÚCAR

Casa-grande

Um dos segredos para o sucesso de muitas cidades e regiões industrializadas foram as vilas operárias. Na cidade de São Paulo e vizinhanças ainda restam alguns vestígios de importantes vilas que foram construídas por grandes empresas para a moradia de seus funcionários. 

Com o advento do café no Estado de São Paulo a partir de meados do século XIX, passou a existir a necessidade de atração de grandes contingentes de mão de obra para o trabalho nas lavouras. Naqueles tempos, o tradicional uso de mão de obra de escravos africanos já estava em decadência (havia a proibição do tráfico de escravos desde a África, a Lei dos Sexagenários, a Lei do Ventre Livre, entre outras) e os grandes fazendeiros paulistas passaram a se valer do uso de imigrantes livres assalariados, principalmente vindos da Itália. Entre esses imigrantes chegavam diversos técnicos especializados em trabalhos em indústrias. 

O pulo do gato das nascentes indústrias paulistas foi o de conseguir identificar e empregar essa mão de obra qualificada. As diversas vilas operárias que já existiam recebiam esses imigrantes e suas famílias. As indústrias ocupavam uma “área central” de uma determinada região e a vila operária se espalhava ao seu redor. Depois foram surgindo as escolas, os comércios, os prestadores de serviço e até as igrejas dedicadas ao conforto espiritual da comunidade que ali surgiu. Muitas cidades do Estado de São Paulo nasceram assim. 

No caso dos engenhos de cana do Nordeste Açucareiro do Brasil, que viveram o seu período áureo entre meados dos séculos XVI e XVIII, o quadro era praticamente o mesmo – o engenho era o centro da vida de uma comunidade. Essa estrutura produtiva e social era um resquício do antigo sistema feudal europeu, onde um nobre vivia num grande castelo, cercado por sua corte e por gente do clero. Ao redor do castelo, os servos trabalhavam as terras e realizavam todos os tipos de serviços para manter a nobreza e o clero. A versão tropical desse sistema trocou o castelo pela casa-grande (vide imagem) e os servos pelos escravos trazidos da África – a essência do sistema, entretanto, era a mesma. 

Conforme comentamos em uma postagem anterior, naus de traficantes de pau-brasil e contrabandistas de outras nações europeias frequentaram as costas brasileiras ao longo das primeiras décadas após o descobrimento oficial da terra por Portugal. Fazendo amizade com as nações indígenas, essa gente conseguia carregar embarcações com grandes volumes de toras de madeira, peles de animais, algodão, cera, animais como pequenos macacos e papagaios, entre outras mercadorias que davam grandes lucros nos mercados da Europa. 

A partir de 1532, a Coroa de Portugal se viu na situação de dar um basta nessa estrutura, sob pena de ver nações rivais se apossando de grandes quinhões de suas terras. Sem dinheiro para levar a cabo a colonização, El-Rei e sua corte criaram o sistema que ficaria conhecido como as Capitanias Hereditárias, uma espécie de “privatização da colonização”. 

Quem se predispusesse a abraçar a causa da colonização, receberia vantagens consideráveis: grandes extensões de terra – as Capitanias (a maioria com área superior à de Portugal), além de poderes soberanos para governar tais áreas e explorar suas riquezas de forma ilimitada. Mesmo com todas estas vantagens, somente doze indivíduos de pequena expressão social e econômica se apresentaram para assumir a “sagrada missão”. 

El-Rei conservaria apenas direitos de suserania, semelhantes aos que vigoravam na Europa há época do sistema feudal. Em compensação, estes Donatários das Capitanias arcariam com os custos da empreitada. Assemelhando-se ainda mais ao sistema feudal, a posse e os títulos destas Capitanias seriam hereditários. Eles teriam jurisdição civil e criminal sobre todos os cidadãos livres e escravos de suas terras, com penalidades que iam, conforme o caso e a classe social do acusado (rico no Brasil não vai para a cadeia desde muito antes do que você imaginava), do pagamento de multa, degredação ou até mesmo a pena de morte.  

Em caso de crime de heresia, traição ou sodomia, o acusado poderia ser entregue ao poder eclesiástico e as penalidades poderiam ir até a pena de morte, qualquer que fosse a qualidade do réu. Nesses casos havia o direito a apelação ou agravo (somente se a pena não fosse capital). Os Donatários tinham autonomia para fundar vilas ao longo da costa e dos rios navegáveis e também em ilhas adjacentes até uma distância de 150 quilômetros da costa. Também era o Donatário o responsável pela nomeação de ouvidores, tabeliães do serviço público e judiciário, além de distribuir a seu critério as terras de sesmarias (exceto à própria mulher ou ao filho herdeiro – nosso famoso nepotismo). 

Somente dois dos Donatários resolveram assumir pessoalmente a tarefa de administrar suas Capitanias – Duarte Coelho, da Capitania de Pernambuco, e Martim Afonso de Sousa, da Capitania de São Vicente, não por acaso as duas Capitanias que obtiveram o maior sucesso no início da colonização do Brasil. Todos os demais donatários preferiram continuar vivendo no conforto de suas quintas e palácios em Portugal, terceirizando o trabalho pesado e árduo para funcionários, grande parte de origem humilde. Essa foi a origem de muitos dos senhores de engenho do Nordeste Açucareiro e de muitas “linhagens” de famílias nobres do Brasil. 

Um detalhe importante dessa “delegação” de responsabilidades – os escolhidos pelos Donatários para assumir o comando das Capitanias Hereditárias recebiam carta branca para fazer tudo o que fosse necessário em prol de uma meta de produção de açúcar, o que, “ao fim e ao cabo” era o principal objetivo da colonização. Os grandes lucros da operação compensariam, e muito, os maus tratos e a morte de pagãos infiéis, falando aqui dos indígenas e dos escravos africanos, e também a destruição das matas e águas nas terras além-mar, como o que acabou ocorrendo com o trecho nordestino da Mata Atlântica

A moenda de cana era o coração do engenho. Em nossos tempos atuais, onde as grandes indústrias dispõem de máquinas de usinagem computadorizadas e de robôs inteligentes para fazer os trabalhos de montagem de produtos, é muito difícil imaginar as dificuldades de construção das engrenagens das moendas em pleno século XVI. Eram poucas as fundições com capacidade para produzir essas peças e quem dispunha da tecnologia cobrava muito caro pela venda dos produtos. Banqueiros, principalmente dos Países Baixos, grandes comerciantes e até mesmo gente do Clero, financiavam a compra dos equipamentos, recebendo como garantia a promessa de receber volumes de açúcar no futuro. 

Ao redor do engenho eram construídos os depósitos para armazenar as canas colhidas; a casa de purga, onde o melaço era cozido e colocado em formas para secar e decantar, as oficinas onde eram produzidas as caixas de madeira para a embalagem e transporte do açúcar, além de estábulos para os animais de tração e galpões para as ferramentas usadas na agricultura. 

O grande destaque das propriedades era a casa-grande, onde vivia o senhor das terras e sua família. A exemplo dos castelos dos antigos senhores feudais, essas casas tinham construções imponentes, sempre elevadas em relação ao solo, com muitas janelas e áreas avarandadas. Aos fundos ficava a senzala, uma construção muito mais precária e que servia como uma espécie de “depósito” para guardar a ferros os escravos durante a noite. 

Mais afastadas do núcleo central do engenho se encontravam as casas do corpo “gerencial” – os feitores de escravos, capatazes, carpinteiros e técnicos especializados na construção e operação das moendas, entre outros funcionários administrativos como contadores e tabeliães. No centro dessas pequenas vilas existia sempre uma capela. Muitos desses núcleos, como as vilas operárias que citamos no começo, formariam o embrião de muitas cidades nordestinas. A vida de muitas gerações de brasileiros se desenrolou inteiramente entre os engenhos e essas pequenas vilas, ilhados num mar de cana de açúcar. 

Continuamos na próxima postagem.

OS CANAVIAIS DA BAÍA DE TODOS OS SANTOS

Mapa de Salvador século XVI

Um dos muitos superlativos referentes ao Brasil, que todos nós aprendemos ainda nos primeiros anos dos bancos escolares, nos falava da grande extensão do nosso litoral – são mais de 7 mil km entre o rio Oiapoque, ao Norte, e o arroio Chuí, ao Sul. Uma das coisas que não nos ensinaram é que, apesar de muito extenso, nosso litoral não tem muitos portos naturais bem abrigados das ondas do mar e com uma profundidade adequada para receber embarcações de grande calado

Nos primeiros séculos de nossa história, quando as embarcações eram a vela e ainda não existiam as dragas que permitem aprofundar as águas dos canais dos portos, como é comum em nossos dias, a situação era bem mais complicada. Os melhores atracadouros naturais de nossa costa naqueles tempos eram a Baía de Todos os Santos, no atual Estado da Bahia, e a Baía da Guanabara, no Estado do Rio de Janeiro. Não por acaso, essas foram as duas primeiras capitais de nosso país. 

A Capitania da Baía de Todos os Santos foi outorgada ao fidalgo português Francisco Pereira dos Santos, que chegou às costas da Bahia em 1534. Pereira dos Santos era reconhecido como um militar “linha dura”, com uma elogiável ficha de serviços nas colônias portuguesas da África e da Ásia, onde ganhou o apelido de “Rusticão”. Pouco tempo depois de sua chegada foi fundado o Arraial do Pereira, bem próximo da atual Ladeira da Barra em Salvador. Anos mais tarde, o local passou a ser chamado de Vila Velha. 

Segundo os documentos disponíveis, Francisco Pereira dos Santos instalou os três primeiros engenhos de cana da Bahia entre 1536 e 1545. Segundo informações do livro História da Colonização Portuguesa do Brasil, os indígenas atacaram e queimaram dois desses engenhos, o que demonstra a dificuldade dos primeiros colonizadores do país. Ao final do século XVI, a Capitania da Baía teria 36 engenhos em pleno funcionamento, principalmente na região do Recôncavo Baiano, só ficando atrás da Capitania de Pernambuco com seus 66 engenhos

Ao Sul da Capitania da Baía de Todos os Santos foram criadas as Capitanias de Ilhéus e de Porto Seguro – essas três Capitanias se fundiriam no futuro e dariam origem ao atual Estado da Bahia. Essas duas Capitanias não teriam uma vida fácil – toda a região Sul da Bahia, Leste de Minas Gerais e grande parte do Espírito Santo eram território dos índios botocudos, um povo extremamente hostil e guerreiro, que resistiu bravamente contra o avanço dos colonizadores até o final do século XIX.  

Na região de Porto Seguro foram feitas tentativas para a instalação de 4 engenhos, dos quais só dois resistiram por algum tempo – os proprietários desses engenhos eram Manuel Rodrigues Magalhães e Gonçalo Pires. Em Ilhéus foram instalados 8 ou 9 engenhos, conforme informações de Gabriel Soares de Sousa em seu Tratado Descritivo do Brasil. Destes engenhos de Ilhéus, só 3 sobreviveram aos ataques dos índios botocudos. A grande ironia da história é que, graças à ferocidade dos botocudos, a Mata Atlântica no Sul da Bahia e no Espírito Santo conseguiria sobreviver ao avanço dos canaviais

Um caso famoso e que ilustra a ferocidade de muitas das nações indígenas que viviam no litoral foi o caso do Bispo eleito da cidade de Salvador, Dom Pero Fernandes Sardinha, que sobreviveu ao naufrágio de sua nau na altura do litoral de Alagoas. Capturado na praia junto com outros sobreviventes pelos caetés, notórios antropófagos, o Bispo Sardinha foi morto e devorado pelos índios. 

Apesar dos conflitos com várias das nações indígenas da região, a prosperidade econômica e a boa localização geográfica levaram à escolha da região para sediar o Primeiro Governo-Geral do Brasil em 1549. A antiga Vila Velha foi totalmente remodelada e passou a ser chamada de São Salvador da Baía de Todos os Santos. O primeiro Governador-Geral do Brasil foi Tomé de Sousa, que ocupou o cargo entre 1549 e 1553. Salvador permaneceria como capital da Colônia até 1763, quando a decadência da indústria açucareira no Nordeste e as descobertas de ouro na Região das Geraes levaram a mudança da capital para a cidade do Rio de Janeiro. 

Uma das primeiras providências do Governo-Geral foi a implantação das guerras de extermínio contra as populações hostis, “limpando e pacificando territórios” para a posterior implantação de cidades e engenhos. A estratégia era simples – guarnições militares fortemente armadas entravam nas aldeias e matavam todos os indígenas que conseguissem. Aqui é importante lembrar que o Papa Clemente VII publicou em 8 de maio de 1529 a bula papal Intra Arcana, documento jurídico-canônico que permitia o uso de força e armas contra os “bárbaros” como “forma de mostrar a estes povos o conhecimento do verdadeiro Deus”. 

Eu costumo usar uma metáfora para explicar esse período – você adquire uma casa e ao entrar no imóvel percebe que ele está tomado por baratas e ratos. O que você faz – chama uma empresa especializada no controle de pragas que, usando de venenos e armadilhas de todos os tipos, vai conseguir limpar o imóvel. A Baía de Todos os Santos foi uma espécie de laboratório inicial dessas operações de limpeza de indígenas, uma prática que depois foi espalhada por todo o Brasil daqueles tempos. 

As guerras de extermínio aconteceram durante todo o período colonial brasileiro. A primeira delas ocorreu em 1558 quando Mem de Sá arrasou a resistência dos Tupinambás, matando cerca de 30.000 índios. Em dezenas de outras guerras, centenas de milhares de índios foram mortos ou escravizados pelos brancos. 

O mesmo Mem de Sá em ocasião anterior havia autorizado uma guerra de vingança contra os índios caetés por haverem aprisionado e devorado o Bispo Pero Fernandes Sardinha em 1556. Os colonos atacaram as missões jesuíticas e, dos doze mil índios ali existentes, só sobraram mil ao momento em que foi dada uma ordem de revogação. 

Outra linha de frente aberta pela política oficial da Metrópole para a conquista do território foi a catequese dos índios através dos missionários da Companhia de Jesus. De acordo com a visão medieval, não havia uma distinção muito clara entre a atuação da Igreja e do Estado. O mundo era de Deus e a Igreja era o seu representante na terra. Assim, Papas e Reis tinham a obrigação de estender e sustentar a fé. No caso do Brasil, as relações eram muito mais intensas, visto que o Estado Apostólico fora um dos patrocinadores das expedições ao Novo Mundo. 

Os primeiros jesuítas, chefiados por Manuel da Nóbrega, chegaram ao Brasil na mesma esquadra que trouxe o primeiro Governador-Geral em 1549. Eles começaram seus trabalhos em Salvador, onde fundaram a Província Brasileira da Companhia de Jesus, a primeira do gênero a ser estabelecida no continente americano. Em pouco tempo os jesuítas construíriam um colégio e iniciariam a catequese dos indígenas. 

Uma das principais estratégias usadas pelos religiosos para catequisar e “civilizar” os indígenas eram os descimentos – grandes aldeias ou missões jesuíticas eram construídas para receber os indígenas deslocados de suas antigas moradias. Essa estratégia tinha um duplo objetivo – retirar o indígena de seu meio natural e cultural, ao mesmo tempo em que ele seria imerso no mundo dos colonizadores. 

Os relatos que chegaram aos nossos dias nos dão conta que os indígenas mais velhos não suportavam essa mudança e acabavam morrendo de “tristeza”. Doenças comuns para os europeus como a gripe e a varíola eram fatais para os indígenas, que não possuíam anticorpos para combater essas doenças. Milhares de indígenas morreram antes de serem convertidos ao cristianismo pelos “piedosos” jesuítas. 

Graças ao intenso uso das guerras de extermínio e aos “bons” trabalhos dos jesuítas, grandes trechos da Mata Atlântica na Bahia foram sendo liberados para a fundação de fazendas e engenhos de produção de açúcar. A força do fogo e dos machados faria o resto, liberando imensas áreas para o plantio da cana de açúcar

OS ”RIOS BONS E SERVIÇAIS“ DA ANTIGA ZONA DA MATA NORDESTINA

Mangue Seco

Uma das características da antiga faixa da Mata Atlântica ao longo do litoral do Nordeste era a grande quantidade de rios que fluíam desde o interior na direção do litoral. Os tripulantes das primeiras expedições que percorreram o extenso litoral do Brasil nos primeiros anos após o descobrimento mapearam e batizaram muitos desses rios. 

Uma das descrições mais conhecidas por todos nós é aquela expressada pelo escrivão-mor da esquadra de Pedro Álvares Cabral, Pero Vaz de Caminha. Em sua carta-relatório a El-Rei de Portugal, Caminha afirma que as “águas são muitas; infindas”. Com farta disponibilidade de águas, gordos” solos de massapê e ainda contando com um bom regime de chuvas, a Terra Brasilis tinha tudo para se transformar no novo celeiro (ou “açucareiro”) de Portugal. A história mostraria a lenta e gradual destruição das matas na região. 

A derrubada sistemática de matas para a abertura de novos campos para o plantio da cana de açúcar teve um efeito colateral gravíssimo – também resultou na destruição de uma infinidade de rios em toda a faixa litorânea do Nordeste. Em seu livro “Nordeste”, Gilberto Freyre nos fala de muitos desses rios nordestinos: 

Rios do tipo do Beberibe, do Jaboatão, do Una, de Serinhaém, do Tambaí, do Tibiri, do Ipojuca, do Pacatuba, do Itapuá. Junto deles e dos riachos das terras de massapê se instalaram confiantes os primeiros engenhos. Rios às vezes feios e barrentos, mas quase sempre bons e serviçais, prestando-se até a lavar os pratos das cozinhas das casas-grandes e as panelas dos mucambos (ou mocambos).” 

Preocupados primeiro com a proteção das costas brasileiras contra os ataques de mercadores e contrabandistas de nações rivais e, depois, com a abertura de campos agrícolas e a produção de volumes cada vez maiores de açúcar, a Coroa de Portugal nunca se preocupou em enviar cientistas que se ocupassem em fazer um levantamento adequado das riquezas naturais do Brasil. Existem alguns poucos relatos de viajantes e religiosos que adentraram pelos sertões e relataram a existência de rios caudalosos por toda a Zona da Mata nordestina. Muitos desses rios só podiam ser atravessados com o uso de jangadas e canoas. 

Após a chegada da indústria canavieira e de todos os “males” a ela associados, muitos desses rios, simplesmente, desapareceram e outros tantos ficaram reduzidos à condição de meros riachos. Rios caudalosos que antes só podiam ser atravessados de canoa passaram a ser vencidos facilmente a pé graças ao contínuo assoreamento e entulhamento dos seus leitos. Águas límpidas e transparentes que permitiam os banhos de rio, as lavagens de roupas e louças transformaram-se em esgotos. 

Sobre essa destruição em larga escala dos rios nordestinos, Gilberto Freyre deixou o seguinte registro: 

O monocultor rico do Nordeste fez da água dos rios um mictório. Um mictório de caldas fedorentas de suas usinas. E as caldas fedorentas matam os peixes. Envenenam as pescadas. Emporcalham as margens. A calda que as usinas de açúcar lançam todas as safras nas águas dos rios sacrifica cada fim de ano parte considerável da produção de peixes no Nordeste.” 

A Mata Atlântica, bioma que cobria aproximadamente 15% do território brasileiro há época da chegada dos primeiros europeus às costas brasileiras, era predominante ao longo do litoral da região Nordeste entre o Sul da Bahia e o Rio Grande do Norte. Conforme já comentamos em postagens anteriores, essa mata ocupava uma faixa com largura entre 60 e 80 km, entre a região do Agreste e o Oceano Atlântico. Em pouco mais de trezentos anos de monocultura da cana de açúcar, a maior parte dessas matas simplesmente desapareceram

Sem a proteção das matas, os férteis solos de massapê passaram a sofrer com os processos de erosão e grandes volumes acabaram sendo arrastados para a calha dos rios e levados na direção do Oceano Atlântico. Conforme os solos iam empobrecendo, os agricultores avançavam contra os remanescentes florestais em busca de “terras virgens”. Assim, gradativamente, a Mata Atlântica “sumiu dos mapas”. 

Essa destruição ocorreu ao longo de toda a costa Leste da região Nordeste. Existem, porém, dois rios pernambucanos que ilustram “magistralmente” essa verdadeira façanha da indústria canavieira: os rios Ipojuca e o Capibaribe. Não por acaso, esses dois aparecem no topo da lista dos rios mais poluídos do Brasil – o Ipojuca ocupa a 3° posição, ficando atrás apenas dos famosos rios Tietê, de São Paulo, e Iguaçu, no Paraná. O rio Capibaribe está na 7° posição no ranking da poluição dos rios brasileiros. 

O rio Ipojuca tem aproximadamente 320 km de extensão, com nascentes na Serra das Porteiras no município de Arcoverde, no Agreste de Pernambuco, e foz no Oceano Atlântico, no município de Ipojuca. A bacia hidrográfica do rio Ipojuca abrange um total de 25 municípios e o rio atravessa 12 cidades pernambucanas, onde, apesar de toda a devastação de suas margens e poluição de suas águas, ainda é um dos principais mananciais de abastecimento.  

Além de degradadas, as águas do rio Ipojuca concentram grandes populações de caramujos das espécies Biomphalaria glabrata e Biomphalaria straminea, hospedeiros das larvas do verme causador da esquistossomose. O vale do rio Ipojuca é atualmente o principal foco da esquistossomose no Brasil, uma ameaça que tem atingido inclusive a vila de Porto de Galinhas, um distrito de Ipojuca, e que é o principal destino turístico do Estado de Pernambuco. 

O outro destaque é o rio Capibaribe, o mais famoso e importante de Pernambuco. O trecho mais degradado do rio atualmente é a região próxima da foz no Oceano Atlântico, onde fica localizada a cidade do Recife e sua grande Região Metropolitana – são mais de 4 milhões de habitantes. No passado, essa região abrigou uma infinidade de engenhos, que recebiam grandes cargas de cana transportada por barcaças desde áreas mais ao interior.  

Hoje, completamente assoreado e degradado, o rio Capibaribe costuma ocupar as manchetes dos jornais e telejornais por causa das violentas enchentes nos meses de chuva. Nas margens do rio Capabaribe e do Ipouca dos dias de hoje se vê de tudo – menos a antiga vegetação da Mata Atlântica.  

Complementando, gostaria de deixar dois registros da destruição implacável do trecho nordestino da Mata Atlântica. O primeiro é o município de Piaçabuçu, em Alagoas, que fica ao lado da foz do rio São Francisco. Aos tempos do início da colonização, toda a orla marítima de Piaçabuçu era coberta por matas. Com a devastação das matas ao longo dos séculos, dunas de areia móveis começaram a avançar a partir da orla da praia na direção do interior do município. Atualmente, o município já possui um pequeno deserto com mais de 50 km² e as areias continuam avançando. 

Outro exemplo é a região de Mangue Seco (vide foto), uma vila que pertence ao município de Jandaíra, no extremo Norte do litoral da Bahia e que ficou famosa nacionalmente após a produção da telenovela Tiêta. A história é exatamente a mesma de Piaçabuçu – matas devastadas pela cultura da cana e avanço das dunas de areia. A única diferença é que em Piaçabuçu, a fonte da areia carregada pelos ventos é a foz do rio São Francisco – em Mangue Seco, a areia é carregada a partir da foz do rio Real.

Esse fenômeno de desertificação e avanço de dunas está ocorrendo em diferentes trechos do litoral nordestino, ameaçando terras e águas. Eu já estive nessas duas localidades e, apesar do forte apelo turístico das dunas, é lamentável imaginar que densas matas já ocuparam esses solos.

Eu costumo falar que problemas ambientais são iguais a contas – nós até conseguimos adiar os pagamentos, mas as faturas nunca param de chegar. Na natureza também é assim: as respostas às devastações até tardam, mas nunca falham… 

OS “SOLOS GORDOS DE MASSAPÊ”

Engenho de cana

Nas últimas postagens falamos brevemente da história da cana de açúcar em terras portuguesas e da chegada da planta ao Brasil nos primeiros anos da década de 1530. Muito mais do que a grande riqueza mercantil que colocou o pequeno Portugal entre as nações mais prósperas dos séculos XVI e XVII, a intensa produção de cana e de açúcar foram as principais responsáveis pela destruição (ou causa mortis) do trecho nordestino da Mata Atlântica.  

Essa densa floresta tropical cobria uma faixa de terras ao longo do litoral da Região Nordeste com uma largura média entre 60 a 80 km. Em pouco mais de três séculos de monocultura da cana de açúcar, a Mata Atlântica entre o Sul da Bahia e o Rio Grande do Norte ficou reduzida a uns poucos e pequenos fragmentos florestais. 

Uma das principais características desse trecho da costa do Nordeste eram os férteis solos de massapê, um tipo de terra escura e “gorda”, sobre a qual encontramos inúmeras referências em textos de grandes intelectuais como Gilberto Freyre, Josué de Castro, Caio Prado Jr, Capistrano de Abreu, entre muitos outros. Vale ressaltar que “gorda”, na linguagem “dos antigos”, fazia referência a robustez ou boa saúde. Naqueles tempos, diferentemente dos dias atuais, chamar ou se referir a uma pessoa ou criança como “gorda” era elogioso. As terras de massapê eram assim definidas por causa da sua extrema fertilidade. 

Conforme já tratamos em uma postagem anterior, os solos férteis ou a terra, como costumamos chamar, é o resultado de um longo processo físico-químico. As massas rochosas, que recobriam originalmente a maior parte da superfície seca do nosso planeta ficaram expostas aos elementos da natureza – sol, chuvas, ventos e gelo, sofrendo assim um contínuo processo de degradação. Esses processos erosivos passaram a fragmentar as camadas superficiais das rochas e os sedimentos foram se depositando em gretas ou diretamente sobre os solos.  

Nesses locais passaram a se desenvolver as primeiras plantas, especialmente os líquens, uma simbiose entre uma célula vegetal e uma bactéria. A combinação dos restos orgânicos dessas plantas, com os sedimentos das rochas, com a água e com o ar, originou ao que chamamos de solo fértil. Pela complexidade do processo, são necessários centenas de anos para a formação de uma camada de solo com poucos centímetros de espessura. 

Os antigos e “gordos” solos de massapê do litoral do Nordeste foram o resultado de milhões de anos de degradação das rochas calcárias do Período Cretáceo e de xistos argilosos. Com a lenta e contínua formação da cobertura vegetal, que depois seria chamada de Mata Atlântica, essa camada de solo passou a receber grandes volumes de matéria orgânica a cada ano que passava, formando uma camada de solo fértil cada vez mais espessa – a floresta se alimentava do solo e, por sua vez, retroalimentava o solo, num “movimento perpétuo”. 

Os primeiros europeus a perceberem o grande potencial agrícola dos solos de massapê foram os membros da expedição de Pedro Álvares Cabral. O escrivão-mor da esquadra, Pero Vaz de Caminha, escreve a El-Rei de Portugal: “A terra é em tal maneira dadivosa que em se querendo aproveitar dar-se-á nela tudo”. Essas observações foram fundamentais na futura decisão da Coroa de Portugal de transformar todo o litoral da nova terra em um imenso canavial. 

Com estações climáticas bem definidas e com um regime de chuvas na “medida certa” e sem os exageros da região Amazônica, a faixa litorânea do Nordeste já produzia uma excepcional abundância de frutas e plantas comestíveis há época do início da colonização, o que combinado com a abundância de caça e pesca, permitia o sustento de grandes populações indígenas. Frutas exóticas introduzidas pelos europeus nessas terras, como a fruta-pão das ilhas da Oceania e a jaca, a manga e o coco do Sudeste Asiático, se adaptaram perfeitamente ao clima e aos solos. 

As enormes expectativas de grande produção de cana de açúcar nessas terras foram rapidamente colocadas à prova – extensas áreas de matas foram eliminadas rapidamente com a ajuda do fogo e grandes campos foram preparados para o plantio de gigantescos canaviais. Pouco mais de 30 anos depois, os cerca de 23 engenhos que operavam em Pernambuco segundo a descrição de Pero de Magalhães Gândavo, já “produziam entre 50 e 70 mil arrobas de açúcar a cada ano”. 

Para se ter uma ideia do crescimento da produção de açúcar e, consequentemente, o impacto ambiental desta produção, por volta de 1620 “nas três Capitanias (Pernambuco, Itamaracá e Paraíba), havia uma produção de 500.000 arrobas de açúcar”, que “bastaria para carregar todos os anos 130 ou 140 naus”. De acordo com os registros desta fonte, a área ocupada nessas três Capitânias com o cultivo da cana de açúcar correspondia a “50 ou 60 léguas de costas ocupadas (entre 300 e 360 km), e dentro de 10 léguas para o sertão (60 km)”

Além da necessidade de terrenos para o plantio da cana, o que implicava na derrubada de matas, a indústria açucareira também dependia do uso de grandes volumes de lenha nos engenhos para a geração do calor necessário aos processos produtivos – para cada 1 kg de açúcar produzido era necessário queimar cerca de 20 kg de lenha. Os engenhos dispunham de equipes de escravos com a missão exclusiva de derrubar e cortar árvores, além de transportar a lenha para as caldeiras dos engenhos. 

A madeira também era usada na produção das caixas usadas para o acondicionamento e transporte do açúcar para os mercados consumidores na Europa.  Os engenhos mantinham oficinas de carpintaria que se dedicavam exclusivamente a essa atividade. Árvores que produziam madeiras mais macias eram selecionadas e reservadas para esse uso, escapando assim do cruel fim nas fornalhas e nas queimadas. 

Essa derrubada contínua de matas ao longo dessa extensa faixa de terras teve, é claro, um imenso custo ambiental, que não tardou a mandar as “suas primeiras faturas”. Sem a proteção das matas, os solos de massapê passaram a ficar expostos às fortes chuvas dos meses de verão e a sofrerem fortes processos erosivos. Dezenas de milhares de anos de processos naturais gastos para a formação da grossa camada de solos de massapê foram perdidas em poucas décadas de produção agrícola. 

Sem a camada superficial de solos férteis, os campos agrícolas rapidamente perdiam a sua fertilidade e novas áreas com “terras virgens” precisavam ser abertas no meio das matas. Os grandes senhores das Casas-grandes e Senzalas passaram a agir da forma mais irresponsável possível, imaginando talvez que as matas fossem infinitas. Esse processo acelerou ainda mais a destruição da Mata Atlântica na região

A erosão contínua dos solos da chamada Zona Canavieira criou um segundo problema – o assoreamento intenso das calhas de todos os rios que cortavam as antigas matas da região. Trataremos desse tema na nossa próxima postagem. 

O triste resumo dessa ópera bufa foi o desparecimento quase completo da Mata Atlântica no trecho entre Ilhéus, no Sul da Bahia, e o Rio Grande do Norte. No Sul da Bahia e também em grande parte do litoral do Espírito Santo, a Mata Atlântica ganhou uma longa sobrevida graças a presença dos perigosos índios botocudos, que atacaram e queimaram engenhos de cana e cidades que ousaram invadiram seus territórios. 

As paisagens nordestinas que encontramos hoje, marcadas principalmente pelos imensos coqueirais, nada tem a ver com a antiga floresta tropical – mais se parecem com as paisagens das ilhas do Oceano Pacífico

“O DOCE SABOR DO AÇÚCAR”

Moenda de açúcar

Vista do Atlântico, a Terra Brasilis parece ser coberta por um infinito tapete verde. Até onde a vista alcança, pode-se perceber os mais diferentes tons da vegetação, contrastando com o azul intenso do céu. Uma esbelta linha branca mostra o limite da terra, onde a areia se confunde com a espuma branca do quebrar das ondas. 

Os ventos alísios sopram com força o velame da nau; o madeiramento range de popa a proa e vibra à medida que avança rumo à costa. As folhas verdes dos chuços de cana de açúcar plantados nas caixas de madeira vibram intensamente, como se soubessem que estão próximos de sua nova morada. Em breve, os diferentes tons de verde da Mata Atlântica sucumbirão ao monótono verde folha da cana de açúcar. Grandes clareiras no meio da mata, onde outrora imperava o pau-brasil, estão com os sulcos já arados à espera da saccharum officinarum. 

Em outras naus da frota é o gado vacum que se agita, talvez sentindo o cheiro da relva fresca que se aproxima. Trazido das ilhas d’além mar, será sua força bruta que dará vida às moendas fazedoras do valioso açúcar, suas pernas fortes puxarão os carros carregados de cana e, por fim, sua carne saborosa é que vai saciar a fome dos implacáveis colonizadores…” 

O título da postagem e o texto inicial são de um capítulo de um dos meus livros, onde descrevo aquele que foi, a meu ver, o momento da chegada das primeiras mudas de cana de açúcar a terras brasileiras. Existem algumas dúvidas sobre a data exata, mas a maioria das fontes se referem aos primeiros anos da década de 1530. O litoral descrito pode ser o da Capitania de Pernambuco, destino da expedição colonizadora de Duarte Coelho, ou o da Capitania de São Vicente em São Paulo, destino de Martin Afonso de Sousa e de seu irmão, Pero Lopes de Sousa – essas duas Capitanias foram as mais bem sucedidas no início da colonização do Brasil. Por enquanto, vamos nos concentrar na Região Nordeste. 

Em Pernambuco, Duarte Coelho implantou o primeiro engenho, provavelmente, em 1535, sob a invocação de Nossa Senhora da Ajuda. Entretanto, alguns historiadores afirmam que já em 1526, Pernambuco e Itamaracá produziam açúcar. Em 1536, há registros de dois engenhos à beira-mar e um à margem do rio Beberibe em Pernambuco 

… nas colinas olindenses, à sombra dos laranjais de túnicas perfumosas, captadas as águas correntes do Beberibe para o entre mover da roda da moenda.” 

Em 1576, poucos anos antes da Coroa Portuguesa ser unificada à Coroa Espanhola, então governada pela Casa dos Habsburgo, Pero de Magalhães Gândavo (c. 1540 – c. 1580), historiador e cronista português, lançou o livro História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos de Brasil, onde faz um recenseamento do número de engenhos de açúcar em operação no Brasil: 

‘Itamaracá – um engenho de açúcar e dois em construção’; ‘Pernambuco – 23 engenhos movidos a bois ou a água, com produção de 50 a 70 mil arrobas de açúcar (no Brasil e em Portugal há época, a arroba equivalia a 14,688 kg; na Espanha variava de 10,4 a 12,5 kg conforme a região)’; ‘Bahia – 18 engenhos’; ‘Ilhéus – 8 engenhos’; ‘Porto Seguro – 5 engenhos’; ‘Espírito Santo – 1 engenho’; ‘São Vicente – 4 engenhos”. 

De acordo com a História Geral do Brasil de Francisco Adolfo de Varnhagen, existiam, entre os anos de 1580 e 1590, 127 engenhos no Brasil, mais do que o dobro do número informado por Pero de Magalhães Gândavo em 1576. A distribuição desses engenhos pelas Capitanias:  

6 em São Vicente; 3 no Rio de Janeiro (São Tomé); 6 no Espírito Santo; 36 na Bahia, 2 em Porto Seguro e 3 em Ilhéus (essas capitanias formaram, posteriormente, o Estado da Bahia); 66 em Pernambuco (incluindo neste total 7 engenhos de Alagoas), 3 em Itamaracá (região que hoje pertence ao estado de Pernambuco) e 2 na Paraíba (Rio Grande)”.  

Observem que, independentemente da fonte pesquisada, a imensa maioria dos engenhos ficavam na Região Nordeste. Além do empenho dos senhores das Casas Grandes da Região, é preciso destacar que a grande produtividade de cana estava diretamente ligada a alta qualidade dos solos de massapê da faixa litorânea, tema que trataremos na próxima postagem. Além de bons solos e grande disponibilidade de água, era preciso dotar os canaviais nordestinos da mão-de-obra necessária para as operações de plantio e corte da cana e também para a produção do açúcar nos engenhos: 

Como se fizessem sentir, depois de 1550, falta de braços em todo o Brasil, permitiu o Rei de Portugal, por édito de 1559, que cada engenho importasse 130 escravos do Congo, com o que o número total de escravos negros se elevou, até 1584, a cerca de 10.000.” 

Projeções populacionais, que consideram tanto o aumento vegetativo da população quanto a entrada no país de novos contingentes de escravos importados da África, indicam que no ano de 1600, o número total de escravos negros no Brasil atingiu a marca de 30.000; em 1700, atingiu o número de 150.000, concentrados na Região Nordeste. 

Além do fundamental açúcar, um dos produtos mais valiosos do comércio mundial naqueles tempos, os engenhos reservavam uma parte da cana de açúcar para a produção da aguardente – a nossa famosa cachaça. Além de grande consumo entre a população das Capitanias, a cachaça era exportada para a costa africana, onde era utilizada como moeda de troca (escambo) na aquisição de escravos.  

Uma outra cultura agrícola acessória que se popularizou a partir do início do século XVII foi o tabaco (Nicotiana tabacum), planta conhecida desde longa data pelos indígenas americanos e que teve crescente aceitação na Europa. O tabaco produzido no Brasil, entretanto, tinha um outro destino: ele era utilizado em conjunto com a aguardente em escambos na compra de escravos. Essas relações de “troca” de aguardente e tabaco, vergonhosamente, persistirão até o início do século XIX

A implantação dos primeiros canaviais em terras brasileiras seguiu a trilha deixada pelas atividades de extração e exportação de pau-brasil em décadas anteriores. Para a atracação das naus e para as operações de embarque das cargas, os primeiros exploradores já haviam identificado trechos do litoral e áreas em embocaduras de grandes rios com boa profundidade e abrigadas das fortes ondas do mar. Nesses locais foram construídos atracadouros improvisados para as naus, que muito facilitaram a chegada e o desembarque dos primeiros contingentes de colonizadores. 

As antigas explorações de pau-brasil também haviam criado toda uma rede de feitorias ao longo da costa, que nada mais eram que grandes clareiras abertas em meio a densa floresta tropical, onde já existiam algumas construções. As populações indígenas que moravam nas vizinhanças dessas feitorias já estavam “habituadas” ao convívio com os europeus – mesmo que não se prestassem aos trabalhos penosos e sistemáticos nas plantações de cana e nos engenhos de produção de açúcar, função que caberia aos escravos trazidos da África, esses indígenas também pouco atrapalhariam. 

Foi a partir dessas clareiras já abertas na Mata Atlântica que teve início o brutal processo de devastação das matas pela força do fogo – as áreas eram queimadas sistematicamente até que só restassem os solos de massapê cobertos por uma grossa camada de cinzas. Era hora de arar a terra e de plantar as valiosas mudas de cana de açúcar trazidas d’além mar… 

Continuamos na próxima postagem. 

PORTUGAL: UMA “ILHA” CERCADA POR ESPANHA E MARES POR TODOS OS LADOS, OU O INÍCIO DA HISTÓRIA DO AÇÚCAR EM TERRAS LUSAS

Dom Afonso Henriques

A produção intensiva de cana e de açúcar ao longo dos três primeiros séculos de colonização do Brasil foram os principais responsáveis pela devastação de praticamente todo o trecho nordestino da Mata Atlântica – isso será detalhado em uma sequência de postagens aqui no blog. Entretanto, é interessante analisarmos a situação política e econômica de Portugal há época, para entendermos a importância real do comércio do açúcar para a nossa pátria-mãe. 

Sem nos atermos a maiores detalhes, os Condados Portucalense e de Coimbra, embriões do futuro Reino de Portugal, eram até o século XII, os territórios mais ocidentais da Península Ibérica e faziam parte do Reino de Leão. Tempos depois, só para relembrar, os Reinos de Leão, Castela e Aragão, entre outros menores, se fundiriam e dariam origem à Espanha. Esse novo Reino aumentaria gradativamente os seus domínios na Península Ibérica, especialmente após a expulsão dos muçulmanos. 

É aqui que ocorreu uma espécie de ponto de inflexão na história: em 1139, o líder dos Lusitanos, Dom Afonso Henriques (vide imagem), venceu os mouros ou muçulmanos na Batalha de Ourique. Diz uma lenda que, logo após a batalha, o próprio Jesus Cristo apareceu a Dom Afonso Henriques e ordenou a fundação do Reino de Portugal e lhe ordenou “levar o seu nome a nações e gentes estranhas”. O ultra religioso Dom Afonso, é claro, obedeceu a ordem divina e declarou a independência de Portugal. Preocupado com a lutas contra os muçulmanos e com as disputas com os demais Reinos Castelhanos, o rei de Leão não se ocupou com os devaneios de dois pequenos Condados no Oeste. 

Pequeno, pobre e com uma população extremamente escassa, Portugal precisou se valer do seu talento natural para o comércio e de um pragmatismo profundo para sobreviver. Cercado pela Espanha por “todos os lados”, Portugal teve de se voltar para o mar. A partir do final do século XII, os portugueses iniciaram as relações comerciais com o Condado de Flandres, região onde encontramos a atual Holanda e Bélgica, além da Inglaterra no início do século XIII. Há registros de naus portuguesas de grande porte para a época, algumas com capacidade para 100 toneladas de carga, navegando no Atlântico Norte e no Mar Mediterrâneo. 

Além dos bons vinhos e do azeite de oliva, os portugueses também dispunham de fartos estoques de bacalhau salgado. A busca intensa pelos cardumes desse peixe em águas cada vez mais distantes incentivou os portugueses a aprimoraram a construção naval e a dominar as técnicas de navegação como nenhum outro povo europeu há época. O conhecimento dos ventos, das correntes marinhas e o aperfeiçoamento da tecnologia naval impulsionavam as embarcações portuguesas para distâncias cada vez maiores mar à dentro. O Atlântico foi se transformando no mais português de todos os mares. 

Além desses produtos citados, uma nova cultura havia chegado às terras portuguesas da Região do Algarve pelas mãos dos muçulmanos no ano de 1159 – a cana de açúcar. Essa planta ajudaria a mudar os rumos do Reino. Com a consolidação da independência de Portugal e com o avanço dos exércitos cristãos cada vez mais para o Sul nas décadas seguintes, o açúcar se tornaria um dos mais importantes produtos da pauta de exportações do Reino. 

Uma outra ajuda inesperada, essa em recursos humanos, passou a chegar ao país partir dos séculos XIII e XIV – os remanescentes da Ordem dos Templários, que eram perseguidos pela Igreja Católica no resto da Europa, encontraram asilo no reino de Portugal, onde fundaram a Ordem de Cristo. Entre estes perseguidos encontravam-se judeus, árabes e outros intelectuais, cujos conhecimentos e manifestações de fé eram considerados perigosos ou heréticos pela Santa Inquisição. Entre os exilados havia navegadores e cartógrafos de renome, que muito contribuiriam para a expansão marítima portuguesa

O infante Dom Henrique (há muita confusão entre esse nobre do século XV com Afonso Henriques, fundador do reino de Portugal no século XII), filho do rei de Portugal, fazia parte da Ordem de Cristo e foi um grande patrono das artes e ofícios da navegação. Por volta do ano de 1417, Dom Henrique iniciou o processo de concentração de todo um grupo de especialistas em astronomia, oceanografia, cartografia e navegação na região do Algarves, dando origem àquela que ficou conhecida como a Escola de Sagres

Graças aos conhecimentos acumulados pela Escola de Sagres e aos esforços dos membros da Ordem de Cristo, grandes navegadores como Gil Eanes, Diogo Cão, Bartolomeu Dias e Vasco da Gama promoveram uma expansão marítima sem precedentes para Portugal. Pedro Álvares Cabral, comandante da esquadra que “descobriu” o Brasil era cavaleiro desta ordem – a cruz vermelha, que você já viu nas velas de naus portuguesas da época representadas em quadros e pinturas antigas, eram o símbolo desta Ordem. 

Entre as descobertas marítimas portuguesas destacam-se a ilha da Madeira (1420), o arquipélago dos Açores (1427), o contorno do Cabo Bojador no Leste da África (1434), além da descoberta da Costa dos Esqueletos (1485) e do Cabo da Boa Esperança (1487) no Sul da África, que abririam em definitivo o caminho para as Índias na expedição pioneira de Vasco da Gama (1497-1499). A formação de campos de produção de cana de açúcar acompanhou de perto cada uma dessas descobertas. 

As primeiras mudas de cana de açúcar chegaram na Ilha da Madeira em 1425. Em 1460, foram plantados os primeiros canaviais nos Açores e em 1493, nas Ilhas de São Tomé e Príncipe. A partir de meados do século XV, o açúcar português produzido nas ilhas oceânicas do Atlântico já era um sucesso nos mercados em diversos países europeus. Em 1490, já existiam mais de cem embarcações dedicadas exclusivamente ao transporte desse açúcar para a Europa. Entre os capitães dessas embarcações, houve um jovem que mudaria os destinos da humanidade em 1492 – o genovês Cristóvão Colombo

Os ávidos comerciantes portugueses tinham como objetivo maior descobrir uma rota marítima que levasse as suas naus até o Oriente, onde poderiam comprar as famosas e caras “especiarias” diretamente dos produtores. Esses produtos eram transportados por caravanas de mercadores por terra desde a antiguidade, que atravessavam grandes extensões da Ásia rumo à Europa. Desde as fontes produtoras na Índia e terras do Sudeste Asiático até os portos no Mar Mediterrâneo, os preços dessas mercadorias eram multiplicados centenas de vezes – os portugueses queriam abocanhar esses lucros. 

As especiarias mais conhecidas e comercializadas na Europa eram a “canela, gengibre verde e seco, pimenta, cravo, noz-moscada, óleo de noz-moscada, almíscar, algabia (fonte de perfume), istorac (remédio indiano), benjoim, porcelana, cássia, mástica, incenso, mirra, madeira de sândalo, madeira de aloé, cânfora, âmbar, cana-da-índia, laca, múmia (remédio), anil ou índigo, tuzia, ópio, aloé patico, folio indico (folha de índigo – corante), entre muitas outras”. O brazil, famoso corante indiano, também entra nessa lista. 

Essa busca pelas especiarias foi imortalizada nos versos de Luís de Camões em “Os Lusíadas”: 

E se buscando vás mercadoria,  

Que produze o aurífero Levante, 

Canela, cravo, ardente especiaria, 

Ou droga salutífera e prestante, 

Ou se queres luzente pedraria, 

O rubi fino, o rígido diamante, 

Daqui levarás tudo tão sobejo 

Com que faças o fim a teu desejo.” 

A expedição que, “acidentalmente”, trouxe a esquadra de Pedro Álvares Cabral às costas brasileiras em 1500, tinha como objetivo chegar até a Índia para comprar essas especiarias e outros produtos valiosos. Com a “descoberta” do Brasil e de suas “infinitas terras e águas”, os portugueses encontraram o lugar perfeito para produzir grandes volumes de açúcar, uma produção em larga escala que seria iniciada a partir de 1532. 

O produto que significaria riqueza e glória ao Portugal dos séculos XVI e XVII, seria, ao mesmo tempo, a ruína da Mata Atlântica na Região Nordeste do Brasil.