A NIGÉRIA, O PETRÓLEO E A “INDÚSTRIA” DO ROUBO DE PETRÓLEO

A worker pours crude oil into a locally made burner using a funnel at an illegal oil refinery site

Algo que a longa história da humanidade nos ensinou é que sempre que uma mercadoria valiosa circula entre os mercados, haverá sempre alguém ou algum grupo de pessoas de má índole que vai tentar roubar a carga. Um exemplo histórico que podemos citar eram os grupos especializados em roubar as cargas que circulavam por meio de caravanas nas antigas rotas mercantes conhecidas como Rotas da Seda. Essas rotas eram caminhos que ligavam a China ao Oriente Médio, ao subcontinente indiano, ao Sudeste Asiático e a África, e a partir das quais circulavam as valiosas mercadorias do Extremo Oriente, especialmente a seda

Os séculos foram passando e esse tipo de delito ainda é muito frequente. Atualmente, aqui no Brasil, os caminhoneiros passam com frequência por esse tipo de situação, especialmente quando estão transportando mercadorias valiosas como eletroeletrônicos. E não são apenas as mercadorias embaladas ou ensacadas dos caminhões que são alvos dos assaltantes – eles tentam roubar de tudo, inclusive combustíveis e derivados de petróleo. Empresas petrolíferas de todo o mundo perdem muito dinheiro com o desvio e roubo – um exemplo que podemos citar é a PEMEX – Petróleos Mexicanos, que declara perdas anuais de US$ 3 bilhões devido ao roubo de combustíveis. 

De acordo com informações da Petrobrás, empresa estatal brasileira responsável pela prospecção, extração e comercialização de petróleo e seus derivados, ocorreram mais de 300 roubos em dutos de transporte da empresa em 2019. Dados já consolidados de 2018 indicam que aconteceram 261 roubos em 2018. Para efeito de comparação, a empresa registrou apenas 1 caso em 2014; em 2016 houve um grande salto e os dados indicam 72 registros de roubo. As perdas anuais para a Transpetro, subsidiária da Petrobrás responsável pela distribuição do petróleo e derivados, são da ordem de R$ 150 milhões.  

Os responsáveis por esse tipo de delito são grupos especializados e que possuem em seus “quadros profissionais” técnicos com grandes conhecimentos na construção e operação de oleodutos. Contando muitas vezes com informações privilegiadas de funcionários da Petrobras e suas subsidiárias, esses grupos conseguem furar os dutos e instalar tubulações que permitem o desvio de grandes volumes de derivados de petróleo, produtos que são revendidos no mercado paralelo. Essas operações são muito arriscadas, uma vez que esses dutos trabalham com líquidos combustíveis em alta pressão. 

A Nigéria, país da África que se destaca na produção de petróleo e sobre o qual falamos na última postagem, é uma espécie de “paraíso” para os grupos criminosos especializados no roubo de petróleo. Segundo cálculos do Governo local, cerca de 10% do petróleo nigeriano é roubado e desviado para refino em centenas de pequenas refinarias clandestinas por esses grupos. O óleo é precariamente refinado e transformado em derivados grosseiros, que abastecem uma parte considerável da frota de veículos da Nigéria. Apesar de causar inúmeros problemas nos motores de veículos a gasolina e a diesel, esses produtos clandestinos têm um apelo irresistível – são muito mais baratos que os produtos “oficiais”. 

modus operandi das quadrilhas africanas é quase sempre o mesmo – utilizando de informações fornecidas por comparsas que trabalham nas empresas petrolíferas do país, as quadrilhas sabem com antecedência os momentos em que o bombeamento do petróleo nos dutos vai ser desligado ou reduzido para a realização de algum tipo de manutenção. Perfurar uma tubulação pressurizada é extremamente perigoso – o óleo pode incendiar com o calor do atrito da broca e, muito pior, o vazamento de um jato de óleo sob alta pressão pode até matar alguém que está nas proximidades.  

Com o oleoduto despressurizado, as quadrilhas conseguem furar as tubulações com alguma segurança e adaptar de forma precária tubulações para desviar o óleo. Como o encaixe dessas tubulações não é preciso, quase sempre eles têm vazamentos e estão na origem de muitas das explosões e incêndios de oleodutos registrados anualmente na Nigéria. Na maior parte das vezes, essas tubulações levam o petróleo roubado para pequenas refinarias clandestinas, onde o óleo é “refinado” e os derivados são vendidos por toda uma rede de pequenos comerciantes do país.   

O petróleo bruto ou cru é formado por dezenas de substâncias químicas, água, metais, além de diversas impurezas do solo. Durante o processo de refino, o petróleo primeiro é decantado para separar a água e as impurezas mais pesadas, Depois o petróleo passa por processos químicos onde se obtém as frações do petróleo, que são a base dos diferentes derivados. Entre os processos químicos usados para o refino do petróleo destacam-se a destilação fracionada, a destilação a vácuo, o craqueamento térmico ou catalítico e a reforma catalítica.  

O processo de refino do petróleo utilizado pelas quadrilhas da Nigéria é uma adaptação da destilação fracionada. Nesse processo, o petróleo é colocado em uma espécie de “panela de pressão”, que depois é levada a uma fonte de calor (normalmente uma fogueira alimentada pela queima de petróleo). Com o aumento da temperatura e da pressão, os elementos mais leves do petróleo começam a migrar para a superfície do óleo e são retirados por meio de tubulações. O gás é sempre o primeiro derivado a desprender do petróleo. Na sequência vem o querosene, a gasolina e o óleo diesel. Os elementos mais pesados – o óleo combustível e o piche, ficam para o final.  

As grandes refinarias de petróleo são dotadas de equipamentos e infraestruturas projetadas especialmente para a realização desses processos. Todas as etapas do refino são realizadas com absoluta segurança e cuidadosamente monitoradas por uma série de sensores e por profissionais especializados em petroquímica. Nas refinarias clandestinas da Nigéria, os equipamentos usados são fabricados a partir de sucatas, velhos barris metálicos, canos de água e mangueiras de jardim, sem maiores sofisticações técnicas e sujeitos a todos os tipos de problemas e falhas ao longo dos processos de refino.

Os “operadores” dessas destilarias não tem qualquer formação técnica e ficam sujeitos a explosões, incêndios, inalação de vapores tóxicos entre outros tipos de acidentes (vide foto). Não são raros os casos de mortes e os acidentes com queimaduras graves nessas refinarias.  

Existem centenas de pequenas refinarias clandestinas espalhadas ao largo das linhas de dutos de transporte de petróleo por toda a Nigéria. Esconder uma instalação desse tipo das autoridades não é uma tarefa das mais fáceis. As tubulações que desviam o petróleo costumam apresentar inúmeros vazamentos, que deixam um rastro de óleo no solo e nas águas, algo muito difícil de passar despercebido. As grandes nuvens de fumaça liberada pelo óleo queimado nas refinarias clandestinas podem ser vistas a quilômetros de distância. Todos os anos, as forças armadas do país fecham centenas destas destilarias que, “milagrosamente”, voltam a funcionar pouco tempo depois.

O aparente esforço Governamental para inibir o roubo e o refino clandestino de petróleo na Nigéria padece de um grande mal, muito conhecido por nós brasileiros – a corrupção. Sabe-se que existe uma grande rede de corrupção e suborno de autoridades no país, indo desde de fiscais e policiais até altos funcionários nos Ministérios. As autoridades recebem generosas “gratificações” dos grupos criminosos para fazerem vista grossa a tudo o que acontece a sua volta. Assim, a “indústria” do roubo de petróleo continua prosperando. 

Além do grande prejuízo econômico para as empresas do setor, o roubo sistemático de petróleo provoca danos ambientais incalculáveis para os solos e, principalmente, para as águas de grandes regiões da Nigéria. Dados oficiais falam de vazamentos de mais de 10 milhões de barris de óleo nas últimas décadas, óleo esse que está destruindo rios e lagos, comprometendo inclusive o abastecimento de água de vilas e cidades, além de comprometer sistemas florestais e terras agrícolas.  

Vamos tratar disso na próxima postagem. 

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