A CRESCENTE ESCASSEZ DE RECURSOS HÍDRICOS NO ALTIPLANO ANDINO, OU AINDA FALANDO DO LAGO POOPÓ

Lago Titicaca

Na última postagem falamos do desaparecimento do Lago Poopó, na região do Altilplano Boliviano. Esse lago era o segundo maior corpo d’água da Bolívia e, nos períodos de cheia, chegava a cobrir uma superfície da ordem de 2.500 km². Uma das principais razões para o desaparecimento do Lago foi o desvio das águas do rio Desaguadero, sua principal fonte de alimentação, para projetos de irrigação. 

O desaparecimento do Lago Poopó é só um capítulo a mais na intensa disputa pela água em toda a região. O Altiplano é um grande deserto de altitude e a maior parte dos seus solos é inadequada para a prática da agricultura. Nas áreas onde existem bons solos é necessário o uso intensivo de irrigação. Entre as poucas culturas que se adaptam aos solos e clima do Altiplano estão a batata e a quinoa, um grão rico em proteína. A quinoa, aliás, virou uma espécie de grão da moda em todo o mundo, especialmente entre os adeptos da alimentação natural. Essa explosão no consumo tem estimulado o aumento da produção do grão em diversas regiões dos Andes, o que, consequentemente, vem resultando em uma maior pressão sobre os escassos recursos hídricos. 

O Altiplano Andino é um extenso planalto com altitudes acima dos 3.500 metros, que se estende entre as montanhas da Cordilheira dos Andes, ocupando partes do Norte do Chile e da Argentina, do Oeste da Bolívia e do Sul do Peru. O clima do Altiplano é frio e úmido, com características entre o semiárido e o árido, além de pouca disponibilidade de fontes de água. As temperaturas médias vão dos 3° C nas proximidades da Cordilheira dos Andes Ocidentais até 12° C na região de entorno do Lago Titicaca (vide foto). Dependendo da época do ano, as temperaturas máximas podem oscilar desde 24° C durante o dia até -20° C durante a noite. 

Estudos arqueológicos indicam que a ocupação do Altiplano por populações humanas começou há cerca de 6 mil anos atrás. Por volta do ano 1.500 a.C, a região assistiu ao nascimento da civilização Tiwanaku (ou Tihuanaco), que atingiu seu auge no século X de nossa era, sendo então dominada pelo Império Inca. Esse povo alcançou um enorme desenvolvimento em tecnologias agrícolas adaptadas às difíceis condições do Altiplano. Muitas dessas tecnologias foram adotadas pelos Incas. 

Nessa época, o Lago Titicaca era bem maior, com um nível cerca de 5 metros mais alto do que a média de décadas atrás. O Poopó, o Uru-uru e outros lagos da região estavam unidos na época e formavam o grande Lago Tauca. Esse grande volume de água armazenada no Altiplano era um resquício da última era glacial e a sua maior parte se perdeu devido a evaporação. Mesmo contando com uma disponibilidade de água bem maior do que na atualidade, esse povo aprendeu a produzir muito em suas lavouras gastando o mínimo possível de água. 

O povo Tiwanaku utilizava plataformas elevadas para o cultivo de alimentos, conhecidas como suka kollu. Entre as plataformas eram construídos canais rasos preenchidos com água. Esses canais forneciam a umidade para as culturas em crescimento e também ajudavam a proteger as plantas do excesso de radiação solar, comum em altas altitudes. Também auxiliavam na drenagem do excesso de águas no período das chuvas e protegiam as plantas durante os dias de geada. Esse sistema de plataformas elevadas permitiu que a civilização Tiwanaku alcançasse uma produtividade agrícola no Altiplano cerca de dez vezes maior que em nossos dias atuais. 

Com a conquista dos Incas pelos invasores espanhóis sob a liderança de Francisco Pizarro em 1533, todo o sistema de produção no vasto império indígena entrou em rápido declínio. Sedentos por ouro, prata e outros metais preciosos, os espanhóis passaram a escravizar os povos indígenas, que eram usados nos trabalhos de mineração. Um dos grandes exemplos do uso dessa mão de obra escrava foram as minas de prata de Potosí que, de acordo com dados oficiais, produziu cerca de 31 mil toneladas de prata entre os séculos XVI e XIX

Os vários séculos de colonização espanhola deixaram marcas negativas entre os povos do Altiplano, principalmente no que diz respeito ao uso sustentável dos recursos naturais, em especial dos recursos hídricos. A mineração é um bom exemplo do descaso. Na região de entorno do desaparecido Lago Poopó, citando um exemplo, existem centenas de minas e garimpos de ouro, pedras preciosas e outros metais valiosos. Durante décadas, quiçá séculos, essas minas e garimpos produziram imensas quantidades de rejeitos minerais, que foram abandonados sobre os solos sem maiores cuidados.  

As chuvas carrearam imensas quantidades desses rejeitos na direção do Lago Poopó, que gradualmente teve a sua profundidade reduzida devido ao assoreamento. Esses rejeitos também contaminaram as águas com grandes quantidades de metais pesados e tóxicos como mercúrio e arsênico, o que provocou a morte de grandes quantidades de peixes e aves aquáticas. A pouca profundidade do lago também contribuiu, e muito, para um aumento nas perdas de água por evaporação. 

Outro exemplo de péssima gestão dos recursos hídricos pode ser visto no Lago Titicaca, o maior manancial de água doce do Altiplano. As cidades na região de entorno do Lago cresceram muito, e desordenadamente, e se transformaram em grandes consumidoras e poluidoras das águas, despejando diariamente grandes volumes de esgotos não tratados e toneladas de lixo. A cidade de El Alto de La Paz, na Bolívia, é um bom exemplo – de povoado há cerca de 30 anos, a cidade agora conta com uma população de 800 mil habitantes. No lado peruano, podemos citar Juliaca Puno, cidades que possuem juntas 500 mil habitantes. A imagem abaixo mostra a intensa poluição do rio Coata, que cruza a cidade de Pune no Peru.

Poluição no Lago Titicaca

Conforme já comentamos em postagem anterior, existem perto de 25 rios e riachos que alimentam o Lago Titicaca e que nascem a partir do degelo de glaciares no alto da Cordilheira dos Andes. Devido as mudanças climáticas globais, essas massas de gelo estão diminuindo rapidamente, o que tem provocado uma diminuição dos aportes de água no Lago Titicaca. De acordo com informações da Universidad Nacional del Altiplano, em Puno no Peru, até 1986, o nível médio do espelho d’água do Lago Titicaca se situava na cota dos 3.812 metros de altitude (algumas fontes falam de 3.821 metros). Atualmente, o nível do Lago está na cota dos 3.808 metros de altitude, o que indica a perda de uma lâmina de água de 4 metros. Outras fontes falam da perda de apenas 1 metro

A redução dos caudais dos rios e riachos que desaguam no Titicaca também são resultado da implantação de dezenas de projetos de irrigação em áreas agrícolas ao redor do Lago. O rápido crescimento das cidades criou uma forte demanda para a produção de alimentos. Utilizando técnicas agrícolas inadequadas, esses sistemas de irrigação desperdiçam muita água, que se perde por evaporação – gasta-se água demais para uma produção pequena de alimentos. 

Toda a região do Altiplano também sofre com a contaminação das águas por rejeitos da mineração, por resíduos tóxicos de fertilizantes e defensivos agrícolas, por esgotos domésticos e muito lixo. Completando o quadro, as populações das cidades da região não param de crescer. Apesar de tremendamente dramático, o desaparecimento do Lago Poopó foi só o começo dos muitos problemas ambientais que ainda recairão sobre a região do Altiplano Andino nas próximas décadas. 

 

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