A INTRODUÇÃO DOS SAPOS-CURURU NA AUSTRÁLIA, OU AS AMEAÇAS AO CROCODILO DE JOHNSTON

Na postagem anterior fizemos uma rápida análise dos grandes impactos ambientais criados pela introdução dos sapos-cururu nas Ilhas do Havaí. Espécie comum da fauna sul-americana, esses animais foram levados para as ilhas havaianas com a missão de combater pragas de insetos que ameaçavam os grandes canaviais locais. Exitosos em sua missão, os sapos-cururu passaram a infestar as matas das ilhas e a ameaçar uma infinidade de espécies locais. 

No início da década de 1930, os canaviais da faixa Leste da Austrália sofriam grandes perdas devido a uma infestação de besouros-da-cana (Dermolepida albohirtum), e não demorou muito até algum dos produtores locais lembrar da façanha dos sapos-cururu no controle de pragas semelhantes nas Ilhas do Havaí.  

Em 1933, um lote com 102 animais foi capturado nas ilhas havaianas e levados até a Austrália, onde passaram a ser soltos nos canaviais. O sapo-cururu (Rhinella marina), também chamado de sapo-boi, sapo-jururu ou simplesmente cururu, é uma espécie de sapo robusto, que se adapta aos mais diferentes climas, ecossistemas e recursos alimentares. Em média, os sapos-cururu têm um tamanho entre 10 e 15 cm, mas já foram encontrados exemplares com 38 cm de comprimento. 

Espécie muito fecunda, os sapos-cururu rapidamente passaram a abundar nas zonas canavieiras australianas, porém, sem conseguir repetir o sucesso de sua introdução nas Ilhas do Havaí. Ao contrário dos insetos rasteiros dos canaviais do Havaí, os besouros-da-cana da Austrália se alojavam nos caules das plantas bem acima do solo, numa altura em que os sapos não conseguiam atingir com seus pulos. 

Em busca de outros recursos alimentícios, os sapos-cururu passaram a abandonar as plantações de cana-de-açúcar e foram se dispersando primeiro pelas matas costeiras e depois por regiões mais interioranas do Outback, nome com o qual os australianos se referem a sua “Grande Ilha”. 

Conforme comentamos na postagem anterior, os sapos-cururu são dotados de glândulas de veneno abaixo de sua mandíbula, uma defesa natural que torna a espécie intragável para a maior parte dos predadores. Somente jacarés-de-papo-amarelo e algumas espécies de aves e cobras nativas da América Central e do Sul conseguem tolerar esse veneno. Na fauna australiana, predadores de sapos como cobras, lagartos, aves de rapina e marsupiais passaram a se intoxicar com o veneno dos sapos-cururu e a morrer em grande quantidade, o que alterou o equilíbrio ecológico de muitas regiões. 

Além de contar com esse poderoso arsenal químico, os sapos-cururu sofreram uma adaptação física natural, o que aumentou a sua velocidade de propagação em cinco vezes ao longo dos últimos 60 anos. Estudos anatômicos comparativos com espécimes preservados em museus demonstraram que as patas traseiras dos sapos-cururu tiveram um aumento de 25% em seu comprimento, aumentando proporcionalmente a força muscular e a velocidade dos animais – os sapos se transformaram em “pequenos e velozes cangurus”. 

Cálculos feitos por entidades ambientais do país calculam que já existem mais de 200 milhões de sapos-cururu na Austrália e a espécie não para de invadir ecossistemas em todas as regiões australianas. De acordo com estudos feitos através do monitoramento de sapos que receberam pequenos radiotransmissores, esses animais conseguem percorrer até 2 km por dia em suas migrações pelo interior do país

Além de ameaçar outras espécies de anfíbios locais, os sapos-cururu impactam aves, repteis, pequenos mamíferos, répteis e até animais de grande porte como os crocodilos-de-água-doce-da-Austrália (Crocodylus johnstoni), também chamados de crocodilo de Johnston e crocodilo-anão (vide foto). Esses crocodilos habitam as áreas alagadas e os manguezais do Norte da Austrália e têm menos da metade do comprimento de seus temidos primos que vivem nas águas salgadas da região e que podem atingir até 6 metros de comprimento. 

Esses crocodilos se alimentam de peixes, aves e anfíbios, o que os expõe frequentemente ao contato com o sapos-cururu e ao envenenamento. No reino animal, as espécies levam dezenas de gerações até conseguirem se adaptar a mudanças em seu meio ambiente. Em muitos casos, espécies são levadas a extinção antes de conseguirem se adaptar a mudanças, um problema que poderá ocorrer com os crocodilos de Johnston

Estudos científicos realizados em quatro localidades do Norte australiano indicaram que houve uma redução média de 45% nas populações dos crocodilos de Johnston após a introdução dos sapos-cururu no país. Num dos locais pesquisados, a Lagoa Longreach, foi observada uma redução de pouco mais de 15% nas populações dos répteis. Em outro local estudado, no encontro dos rios Victoria Wickham, a redução da população dos crocodilos atingiu a impressionante marca de 77%.   

Sempre que uma espécie de topo da cadeia alimentar de um determinado nicho ecológico apresenta uma redução na sua população, espécies predadas como peixes, répteis, mamíferos, anfíbios e aves sofrem grandes explosões populacionais. Citando um exemplo aqui do Brasil, a caça indiscriminada de jacarés-do-Pantanal nas décadas de 1970 e 1980 levou a um crescimento descontrolado das piranhas nos rios e lagos da região. É esse tipo de risco que assombra os habitats dos crocodilos australianos. 

Após diversas tentativas frustradas para o controle das populações de sapos-cururu, as autoridades ambientais da Austrália estão partindo para uma solução radical – centros científicos do país estão trabalhando no desenvolvimento de sapos machos, geneticamente modificados para serem estéreis. Criados em cativeiro até atingirem a fase adulta, esses sapos serão introduzidos em ambientes infestados com sapos-cururu, onde lutarão com os outros machos na disputa pelas fêmeas, porém sem conseguir sucesso na reprodução.  

Além das matas da faixa costeira da Austrália, os sapos-cururu começam a avançar na direção das áreas semiáridas e desérticas do interior do continente, onde estão impactando as populações de outras espécies da fauna local e se juntando a outras espécies invasores que, há muito tempo, vem causando inúmeros problemas ambientais. Destaco aqui os ratos, os coelhos e as lebres. 

A introdução de espécies exóticas lembra muito aquela história da velhinha incomodada com um rato que vivia embaixo de sua cama. Para caçar o rato, ela trouxe um gato, precisando depois de um cachorro para expulsar o gato, de um leão para expulsar o cachorro e, depois, de um elefante para expulsar o leão. Por fim, a pobre mulher foi obrigada a arrumar um outro rato para expulsar o elefante. 

Depois que uma espécie exótica invade um novo meio ambiente, é muito difícil conseguir retirá-la de lá. Que o digam os sapos-cururu… 

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