“ALTA DO NÍVEL DOS MARES ESTÁ SE ACELERANDO, DIZ ESTUDO”

Aumento do Nível dos Mares

Na minha última postagem falei do aquecimento das águas do Oceano Índico e da sua influência na fortíssima seca que vem assolando toda a região Leste e Sul da África, fenômeno que está afetando a vida de mais de 50 milhões de pessoas. Reportagem divulgada a poucos dias atrás pela grande imprensa mostrou, de forma bastante superficial, o drama vivido pela Cidade do Cabo, que está à beira do colapso nos sistemas de abastecimento de água potável. Nessa sequência de postagens, estou aprofundando as informações e mostrando a complexidade do problema, que tem suas origens no “polêmico” aquecimento global.

Por uma feliz coincidência, a AFP – Agência France Press, divulgou no mesmo dia uma reportagem que trata do mesmo assunto e que divulga um estudo sobre o aumento dos níveis dos mares. Vejam a matéria: 

“A alta do nível dos mares está se acelerando e poderia chegar a 66 centímetros até o fim do século, dentro das estimativas das Nações Unidas, podendo provocar danos significativos para cidades costeiras, disse um estudo publicado nesta segunda-feira (12).  

A taxa anual de crescimento do nível do mar anterior – cerca de 3 milímetros ao ano – poderia triplicar, a mais de 10 milímetros ao ano até 2100, disse um relato do Procedimentos da Academia Nacional de Ciências, um jornal norte-americano. 

As descobertas estão “de acordo com as projeções modelo do 5º Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC)”, afirma o estudo, baseado em 25 anos de dados de satélites.  

“Essa aceleração, levada principalmente pelo degelo mais rápido na Groenlândia e na Antártica, tem o potencial de dobrar a alta do nível do mar total até 2100, em comparação com projeções que assumem uma taxa constante – a mais de 60 centímetros, em vez dos cerca de 30”, disse o autor da pesquisa, Steve Nerem.  

“E isso quase certamente é uma estimativa conservadora”, acrescentou Nerem, professor de Engenharia Aeroespacial na Universidade do Colorado Boulder. 

Os coautores do estudo são da Universidade do Sul da Flórida, do Nasa Goddard Space Flight Center, da Universidade Old Dominion e do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica. 

Alterações climáticas aumentam o nível dos mares de duas formas:  

  • A maior concentração de gases de efeito estufa na atmosfera aumenta a temperatura da água, e a água morna se expande.  A chamada “expansão térmica” dos oceanos já contribuiu com cerca de metade dos sete centímetros do aumento médio do nível do mar global no último quarto de século, disse Nerem.  
  • Os oceanos também aumentam com o fluxo crescente de água devido ao derretimento do gelo nos polos. 

“Esse estudo destaca o papel importante que os registros de satélites podem ter para validar projeções do modelo climático”, disse o coautor John Fasullo, cientista climático do Centro Nacional para Pesquisa Atmosférica.”

 

Reportagem da AFP – Agência France Press – 12/02/2018

O AQUECIMENTO DAS ÁGUAS DO OCEANO ÍNDICO E SEUS IMPACTOS NO LESTE E SUL DA ÁFRICA

Seca na África

Na minha última postagem falei da dramática crise no abastecimento de água na Cidade do Cabo, na África do Sul, que tem como origem uma fortíssima seca que persiste na região há, pelo menos, 3 anos. Longe de ser um problema isolado, o fenômeno está afetando diversos países do Sul e do Leste do continente africano.

Estudos conduzidos desde 1980 demonstram que o volume de chuvas em toda esta extensa região diminuiu em, pelo menos, 15%, ao mesmo tempo que o número de pessoas subalimentadas mais do que duplicou – em algumas regiões, a redução no volume de chuvas pode chegar a 48%. E a origem desta redução das chuvas está ligada ao aumento da temperatura das águas do Oceano Índico, problema que não se limita ao continente africano, mas a todos os países asiáticos localizados ao longo da extensa orla deste oceano. 

Considerada como uma das piores secas dos últimos 35 anos, o fenômeno está atingindo mais de 50 milhões de habitantes em áreas no Chifre da África, onde se encontram países como Somália, Etiópia, Quênia, Uganda e Djibuti. Mais ao Sul, estão sofrendo com a seca o Malaui, Moçambique, Zimbabué, Madagascar e África do Sul, além dos enclaves em território sul-africano do Lesoto e Suazilândia

As medições sistemáticas da temperatura das águas do Oceano Índico começaram em 1880. Nos últimos anos, estas medições têm encontrado aumentos sucessivos nas temperaturas das águas: em 2010, foi observado um aumento de 0,70° C em relação à média histórica; em 2011, a temperatura média caiu um pouco e mostrou um aumento de 0,58° C; em 2012, o aumento foi de 0,62° C e em 2013, o aumento  foi de 0,67° C. Nos anos seguintes, foram registrados recordes sucessivos de aumento da temperatura: 0,74° C em 2014, 0,90° C em 2015 e 0,94° C em 2016

De todos os grandes oceanos do planeta, o Índico é o que, proporcionalmente, mais sofre com as interferências das mudanças climáticas na Antártida. O derretimento de grandes massas de gelo no Polo Sul tem provocado alterações nas correntes marinhas do Oceano Índico que, combinadas com o aumento da temperatura das águas, tem reflexos diretos na formação e no deslocamento das massas de umidade que atingem a África e a Ásia – algumas áreas estão sofrendo com chuvas abaixo da média e outras com volumes muito acima da média histórica. 

As perspectivas para o futuro não são nada animadoras – os estudos indicam que essa tendência de redução ou aumento das chuvas persistirá e até se intensificará, uma vez que o aquecimento das águas do Oceano Índico é um fenômeno que está ligado diretamente ao aquecimento global, que tende a aumentar cada vez mais. 

As mudanças climáticas regionais forçarão os países a investir cada vez mais em sistemas alternativos de produção de água como a transposição de outras bacias hidrográficas, em sistemas de dessalinização da água do mar e também em sistemas de água de reuso – depender exclusivamente das chuvas será uma aposta cada vez mais arriscada. 

Como eu sempre digo, chegou a hora de começar a pagar a fatura acumulada das agressões ambientais

A CRISE NO ABASTECIMENTO DE ÁGUA NA CIDADE DO CABO, ÁFRICA DO SUL

Cape Town

De algumas semanas para cá, diversos veículos de comunicação passaram a divulgar reportagens sobre a caótica situação do abastecimento na Cidade do Cabo, na África do Sul. Depois de uma fortíssima seca que já dura 3 anos, todos os reservatórios do sistema de abastecimento da cidade entraram em colapso, uma situação que lembra muitos dos problemas conhecidos por nós brasileiros. Essas reportagens, porém, não se aprofundam nas origens deste problema – vamos usar esses dias de Carnaval para explicar em postagens bem curtas o que realmente acontece ali do outro lado do Oceano Atlântico.

A Cidade do Cabo ou  Cape Town é um dos destinos turísticos mais importantes da África do Sul, atividade que representa 10% do PIB do país. Com 4 milhões de habitantes, é a segunda cidade mais populosa do país, com forte participação na vida econômica e cultural da África do Sul.

Com a seca prolongada dos últimos anos, o nível médio das barragens da Cidade do Cabo está próximo dos 20% – se este nível chegar ao limite de 13,5%, a cidade poderá entrar em colapso. Apesar de muitos ainda terem em mente a imagem de uma África coberta por densas florestas cheias de grandes animais, na África do Sul o clima semiárido domina grande parte das paisagens do pais e a água sempre foi um elemento raro. Uma grande parte do território sul-africano é ocupada por áreas desérticas como o Kalahari, onde as temperaturas podem chegar aos 50° C, e por planaltos secos como o Karoo, além de áreas de savanas. Somente na faixa Leste do país, ao longo da divisa com Moçambique, onde predomina o clima subtropical com chuvas mais regulares, é que uma vegetação mais densa sobrevive. Comparando a grosso modo, o país teria a maior de sua superfície coberta pela Caatinga Nordestina e pelo Cerrado, com uma faixa semelhante à Zona da Mata no Leste.

Com a intensificação da seca, as autoridades reduziram a disponibilidade diária de água de 87 litros para apenas 50 litros por pessoa. Para efeito de comparação, essa disponibilidade em São Paulo é de 165 litros/dia por habitante e, na cidade do Rio de Janeiro, chega próximo aos 300 litros/dia. Se as coisas piorarem, é possível que essa disponibilidade diária caia ainda mais, para algo em torno de 25 litros de água/dia por habitante, ou seja, algo equivalente ao que se gasta em 4 descargas em um vaso sanitário com caixa acoplada – se for uma válvula de parede daquelas mais antigas, é praticamente o gasto de uma única descarga.

Na próxima postagem, vou mostrar a origem desta seca na África do Sul, que está interligada a uma série de problemas em maior escala provocados pelo aquecimento global nas águas do Oceano Índico.

PORTO DE SANTOS: NÃO PASSA BOI, NEM PASSA BOIADA

Navio Nada

Na minha última postagem falei da ópera-buffa caiçara em que se transformou a intervenção da Prefeitura de Santos na Ponta da Praia, conjunto de obras voltadas ao controle da erosão e das ressacas naquele trecho da costa. Na “apresentação” destacaram-se inúmeros bufões, que nas antigas performances desta forma popular de teatro eram comediantes grotescos, para se falar o mínimo. Felizmente, parece que se chegou ao ato final e as obras finalmente foram retomadas.

Simultaneamente, desta vez no Porto de Santos, se desenrolou uma espécie de “novela mexicana”. O folhetim contou com um elenco formado por “pseudos ecologistas”; juízes; veterinários; autoridades municipais, federais e portuárias; representantes consulares, além de uma boiada formada por aproximadamente 25 mil animais – o número é esse mesmo. Essa novela eu vou “explicar di cosstass” (me permitam um pouco de descontração – é que o sotaque da população de Santos lembra muito o da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro):

Um frigorífico da Turquia adquiriu um rebanho que chegaria a aproximadamente 27 mil cabeças de gado. Os animais seriam transportados vivos até aquele país em um navio cargueiro adaptado para o transporte de carga viva (vide foto), com embarque contratado a partir do Porto de Santos no Estado de São Paulo. Países e populações muçulmanas, como no caso da Turquia, adotam técnicas cerimoniais para o abate dos animais, contando inclusive com a presença de uma autoridade religiosa para supervisionar os trabalhos. Os muçulmanos tradicionalistas só consomem carne que atenda certos preceitos de sua religião – por isso, frigoríficos destes países optam pela compra dos bois vivos em diversas regiões do mundo. Os animais são transportados até as suas unidades de produção, onde realizam o abate tradicional islâmico, conhecido como abate Halal, que prima pelo bem-estar do animal e só pode ser realizado em áreas exclusivas e por açougueiros muçulmanos. Essa é uma prática que vem sendo adotada desde os primeiros tempos do Islã.

O porto de Santos é o maior em área e o que tem a maior movimentação de carga do país. Depois de amargar décadas de estagnação e ineficiência, a infraestrutura do porto passou por uma modernização geral, com reforma nos cais, depósitos, sistemas de transporte de cargas e de logística. Existem ainda uma série de problemas a serem resolvidos, especialmente a construção de vias de acesso exclusivas para o embarque/desembarque de cargas diretamente nas docas sem precisar cruzar a área urbana da cidade. O embarque de cargas vivas no porto foi retomado recentemente, depois de quase 20 anos de proibição – esse embarque de bois seria o segundo após a retomada dessa modalidade de operação em Santos em dezembro de 2017.

A megaoperação de transporte e embarque dessa quantidade enorme de animais não foi feita de uma hora para outra. Foram meses de preparação e planejamento envolvendo fazendas e transportadoras, contando com o apoio da CODESP – Companhia Docas do Estado de São Paulo, da ANTAQ – Agência Nacional de Transportes Aquaviários, MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, VIGIAGRO – Vigilância Agropecuária Internacional, Polícia Rodoviária Estadual, Concessionárias de Rodovias, entre outros. Os animais seriam embarcados em fazendas no interior de São Paulo, a cerca de 500 km do Porto de Santos, em carretas com 90 animais – o navio de transporte foi preparado para receber 3 carretas a cada hora e o tempo total das operações duraria no máximo 5 dias. O navio cargueiro designado para o transporte dos animais é específico para este fim, com adaptações para o transporte de carga viva em 12 decks (andares), contando 30 tripulantes, onde se incluem médicos veterinários e vaqueiros.

O embarque dos animais foi iniciado no dia 29 de janeiro e tudo ia bem até que um grupo de “ecologistas” defensores dos direitos dos animais organizou um bloqueio para impedir o acesso das carretas ao cais. Os manifestantes protestavam contra as más condições de transportes dos animais, os maus tratos que os animais já embarcados estavam sofrendo no navio cargueiro, do mal cheiro das fezes e urina exalado pelo cargueiro na região do porto, contra o abate de animais para o consumo humano e sabe-se lá mais o quê.

Como sempre acontece, o grupo possuía entre seus membros advogados e médicos veterinários, que já haviam preparado documentos e petição para o ingresso na Justiça Federal com o pedido de suspensão do embarque dos animais, embarque que já estava bastante adiantado. A petição alegava problemas de crueldade e maus tratos contra os animais em um embarque anterior e, na iminência destes problemas se repetirem, solicitaram a proibição do novo embarque de bois. A Justiça concedeu uma liminar ao grupo na noite do dia 31, proibindo o embarque dos animais – no dia seguinte, uma nova liminar da Justiça determinava o desembarque imediato de todos os animais.

Enquanto se desenrolou uma intensa batalha jurídica envolvendo os armadores do navio; autoridades portuárias, municipais, estaduais e federais; representantes da empresa e do consulado da Turquia no Brasil; Marinha e multas milionárias contra os responsáveis pelo transporte, as condições sanitárias dos animais já embarcados começaram a se deteriorar. Alheios aos problemas humanos e ao que o destino lhes reservava, os animais continuaram com suas vidas, comendo e produzindo dezenas de toneladas de estrume e milhares de litros de urina a cada dia. De acordo com informações passadas pelos tripulantes, o navio possui uma usina que realiza a dessalinização da água do mar, que é usada tanto para a dessedentação dos animais como para a limpeza dos “currais” – havia um, porém: essa usina só funciona com os motores de propulsão do navio em pleno funcionamento; com o navio parado no cais, começou a faltar água para todos estes usos.

Ao longo de vários dias, muitos manifestantes e “otoridades” conquistaram os seus “5 minutos de fama”, protagonizando reportagens grotescas nos mais diferentes telejornais regionais e nacionais. O desgastante processo de liberação do embarque dos animais, que só foi conseguido após a derrubada da liminar pela Justiça Federal no dia 4 de fevereiro, incluiu, inclusive, intervenções do Ministro da Agricultura e do Presidente da República. O navio partiu no dia 5 de fevereiro rumo a Turquia, com um total de 25 mil bois embarcados e com uma previsão de viagem de 16 dias.

Com a devida vênia ao direito de protesto desse grupo, quem mais sofreu com esta “presepada”, como dizemos aqui no meu bairro, foram os animais que eles supostamente estavam defendendo. Em uma próxima vez, sugiro que se organizem protestos na porta das fazendas, impedindo que os caminhões saiam de lá – assim, os “direitos dos animais” ficam devidamente preservados, com garantia de comida e água fresca na tranquilidade do campo.

Eu me considero um ambientalista de carteirinha, mas me recuso a endossar esse tipo de ação feita por estes “supostos ecologistas de rede social”, que adoram brincar com os “direitos” dos bois alheios, mas que provavelmente nem fazem a separação dos resíduos sólidos em suas casas. O mesmo direito que alguns têm de comer hambúrguer a base de soja, os outros têm para comer um filé bem suculento – seres humanos são onívoros há centenas de milhares de anos.

Agora, se existem problemas no transporte e embarque de animais em navios de carga, que se discuta e se resolva da maneira mais civilizada possível – os gritos dos Neandertais, há muito, fazem parte de um passado muito distante e obscuro da humanidade.

AS OBRAS CONTRA EROSÃO NA PONTA DA PRAIA EM SANTOS, OU UMA ÓPERA-BUFFA CAIÇARA

Ressaca na Ponta da Praia - Santos

Vou começar explicando: óperas-bufas eram apresentações que misturavam teatro, comédia e música, sempre contando histórias engraçadas, absurdas e/ou satíricas, onde membros das famílias reais, autoridades públicas ou personalidades eram os alvos preferenciais. Essas apresentações tinham um forte apelo popular e eram bastante acessíveis – o povão se divertia. Foram muito comuns na Itália e em outros países europeus até o final do século XIX. Depois da invenção e popularização do cinema a partir dos últimos anos do século XIX e do nascimento do rádio e depois da televisão já no século XX, as óperas-bufas foram perdendo espaço no mundo das artes. Uma espécie de ópera-bufa caiçara está em “cartaz” na cidade de Santos. Aliás, para os mais curiosos, caiçara é um gentílico muito usado pelos paulistas do interior e da capital para se referir aos moradores e nativos do litoral de São Paulo; o termo também é usado no Estado do Rio de Janeiro e em toda a região Sul.

Há poucos dias atrás eu publiquei uma postagem que tratava do avanço do mar na região da Ponta da Praia, um bairro nobre da cidade de Santos. A região vem sofrendo com problemas de erosão a bastante tempo – a faixa de areia da praia, inclusive, já desapareceu e a Prefeitura instalou uma faixa de pedras ao longo da mureta para amortecer a força das ondas. Em dias de ressaca forte (vide foto), as ondas ultrapassam a linha da barreira e alagam a avenida – numa ressaca recente, o subsolo de diversos prédios da região ficaram completamente inundados, causando imensos prejuízos para os moradores. Essas ressacas também resultam em dezenas de toneladas de areia lançadas sobre as calçadas e vias da Ponta da Praia.

Estudos realizados por pesquisadores locais, em um trabalho conjunto com especialistas americanos e ingleses, comprovaram que o nível médio do mar na região de Santos, quando comparado ao nível médio da década de 2000, deverá ficar até 18 centímetros mais alto em 2025; no ano de 2050, a elevação do nível do mar na cidade poderá chegar até 35 centímetros. Em diversas praias da costa brasileira esse aumento do mar é perceptível, mas ainda não existem estudos científicos que permitam afirmar que se trata de algo temporário ou definitivo.

Com o objetivo de atenuar o problema, a Prefeitura de Santos iniciou, no último dia 11 de janeiro, os trabalhos de implantação de uma barreira com geobags de areia. A barreira, um projeto experimental desenvolvido por pesquisadores da UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas, terá 500 metros de extensão e 49 geobags, estruturas construídas com um tecido especial e com capacidade para armazenar 7 mil metros cúbicos de areia. Com o apoio de uma draga, mergulhadores especializados iniciaram a instalação das estacas de fixação destes geobags. Essa barreira vai funcionar com um arrecife artificial que, de acordo com do projeto, vai reduzir a força das ondas no local e permitir a recuperação gradual da faixa de areia. A depender dos resultados, essa mesma tecnologia poderá ser implantada em outras praias com problemas semelhantes, entre elas praias de Florianópolis e a Praia da Macumba, no Rio de Janeiro.

Vamos à ópera-bufa: no dia 12 de janeiro (isso mesmo – 1 dia depois), o Ministério Público Estadual ingressou com uma ação na Justiça pedindo a suspensão dos trabalhos pela falta do respectivo licenciamento ambiental ou a apresentação de um documento que declarasse a dispensa do procedimento. De acordo com as alegações do Promotor, a Prefeitura sabia que a realização das obras traria impactos ao meio ambiente e, de acordo com a legislação ambiental em vigor, “o licenciamento ambiental se faz necessário para qualquer obra ou atividade que venha provocar significativo impacto ao meio ambiente”. A Promotoria também pediu o enquadramento de todos os funcionários públicos responsáveis pela obra no crime de improbidade administrativa.

Segundo ato: em sua defesa, a Prefeitura de Santos protocolou um ofício na Justiça afirmando que a CETESB – Companhia Ambiental do Estado de São Paulo, órgão estadual responsável pelos processos de licenciamento ambiental, havia dispensado o processo de licenciamento da obra e também apresentou cópia de um documento que o órgão havia enviado ao Ministério Público Estadual, onde informava que a Prefeitura de Santos havia sido dispensada do procedimento “por que a obra não se enquadra nas competências da companhia”. A CETESB, porém, notificou a Prefeitura de Santos da necessidade de se consultar o Ibama – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, pois as águas do mar territorial estão na área de competência federal.

Entreatos: De acordo com o Secretário de Urbanismo da cidade de Santos, o Ibama foi consultado e declinou da competência para o licenciamento ambiental, solicitando que a CETESB, órgão do Governo do Estado de São Paulo, fosse consultada.

Ato final: depois de toda esta série de mandos e desmandos, sem contar com os muitos “bate-bocas” entre as “otoridades” nos meios de comunicação, no último dia 5 de fevereiro a Justiça liberou a retomada das obras na Ponta da Praia pela Prefeitura de Santos. A decisão foi baseada em um parecer técnico da CETESB que afirma que o projeto “pode ser dispensado de licenciamento ambiental” estadual.

Percebam o tamanho do imbróglio judicial em que se transformou uma obra simples, com apenas 500 metros de extensão, idealizada para resolver um problema ambiental que está afetando a vida de milhares de pessoas no bairro da Ponta da Praia. Ninguém está falando em realizar escavações no leito do oceano, algo que causaria um enorme impacto para as comunidades bênticas (criaturas que vivem no leito oceânico) e demais seres vivos das águas, e construir um paredão de concreto armado para conter a força das ondas – falando a grosso modo, o projeto nada mais é do que o empilhamento de sacos de areia gigantes para formar uma barreira semelhante a um arrecife – se funcionar, ótimo; se não funcionar, basta que se retire os “sacos” de areia e pronto, tudo volta ao que era antes.

Este período de paralização das obras causou uma série de prejuízos – a começar pela perda de uma enorme quantidade de areia que já havia sido transportada e deixada em espera numa praia ao lado: a ação das ondas ao longo de todos estes dias arrastou a areia para o leito do mar. Centenas e mais centenas de viagens de caminhões pesados e poluentes terão de ser feitas na cidade para repor a areia para as obras. Além do prejuízo financeiro de se refazer um trabalho que já estava feito, precisam ser contabilizados os prejuízos ambientais: fumaça, barulho, vibração, engarrafamentos, danos ao pavimento das vias e os riscos para a população: caminhões pesados manobrando são sempre um perigo. Santos, para quem não sabe, é a cidade brasileira com a maior população de idosos – velhinhos “distraídos” passeiam diariamente pelos belos calçadões da orla das praias e podem não perceber a chegada de um destes caminhões.

Há um outro problema menos evidente – a época escolhida para a realização da obra levou em conta a chamada tábua das marés, ou seja, o conjunto de dados que mostram as oscilações e os movimentos do mar, onde é possível determinar o período em que o mar fica mais baixo e mais calmo. Essas oscilações do mar são cíclicas – se você perder a “janela” de eventos, terá de esperar a chegada da próxima, algo que poderá levar meses.

A cidade de Santos, que têm no turismo uma das suas grandes bases econômicas, esperava ter concluído as obras da barreira da Ponta da Praia antes do Carnaval, período em que a cidade fica lotada de turistas, que disputam cada metro quadrado das areias das praias. Não deu.

Resta agora aos técnicos da obra agilizarem ao máximo os trabalhos para tentar finalizar o projeto piloto o mais rápido possível – sempre há uma chance do Ministério Público recorrer da decisão da Justiça e paralisar a obra mais uma vez. Já adianto que nada tenho contra isso, uma vez que isto faz parte das atribuições do órgão.

Nestes tempos de aquecimento global, muitas outras obras precisarão ser feitas para corrigir os efeitos de nossas ações e atividades contra o meio ambiente – e esse tipo de bagunça jurídica vai ficar cada vez mais frequente. Precisamos, desde já, pensarmos em mecanismos que facilitem o licenciamento de obras, digamos assim, “contra os efeitos das mudanças climáticas”.

A continuar a legislação ambiental e as autoridades sem sincronia como estão, “mezzo buffa“, muito engenheiro ambiental vai acabar enlouquecendo… 

 

O OUTRO LADO DA SECA NO DISTRITO FEDERAL

Seca no DF - foto correio do brasil

“A VIDA na fazenda se tornara difícil. Sinhá Vitória benzia- se tremendo, manejava o rosário, mexia os beiços rezando rezas desesperadas. Encolhido no banco do copiar, Fabiano espiava a caatinga amarela, onde as folhas secas se pulverizavam, trituradas pelos redemoinhos, e os garranchos se torciam, negros, torrados. No céu azul as últimas arribações tinham desaparecido. Pouco a pouco os bichos se finavam, devorados pelo carrapato. E Fabiano resistia, pedindo a Deus um milagre”.

O texto que abre esta postagem faz parte do antológico “Vidas Secas”, livro de Graciliano Ramos. Escrito entre 1937 e 1938, o livro narra a saga de uma família de retirantes nordestinos. Para compor a narrativa do romance, Graciliano Ramos utilizou lembranças de sua infância, quando testemunhou inúmeras famílias fugindo de uma das inúmeras e frequentes secas que assolam os sertões do Nordeste desde sempre. Relatos testemunhais de inúmeros cronistas de época e de viajantes falam de secas de excepcionais proporções em 1744, 1790, 1846 e 1877; grandes secas mais contemporâneas, como a de 1915 e a de 1932, inspiraram inúmeros livros, músicas, cordéis, artes plásticas e outras manifestações culturais, que ajudaram a consolidar a imagem popular das agruras dos sertanejos nordestinos ao longo destas fortíssimas estiagens.

Nos últimos anos, porém, a imagem do sertão seco extrapolou os limites geográficos da Região Nordeste e estendeu seus tentáculos na direção de outras regiões – alguns municípios do Norte do Estado de Goiás, por exemplo, passaram a apresentar rios intermitentes, que passaram a secar completamente na estação seca do ano. A falta de chuvas em Goiás, conforme apresentamos em diversas postagens, levou o Governo do Distrito Federal (lembrando que este é um enclave dentro do Estado de Goiás) a decretar um inédito racionamento de água para toda a população distrital.

Em outubro de 2017, os registros meteorológicos indicaram que aquele foi o mês mais seco na região em 37 anos – de um volume de chuvas esperado para o mês da ordem de 166 mm só 14 mm se confirmaram. Além do baixo volume de chuvas, o Distrito Federal apresentou um crescimento de 16% no consumo de água ao longo dos últimos 6 anos. Esse desequilíbrio no balanço hídrico se refletiu rapidamente no volume de água armazenada nos reservatórios distritais, como no Alto Descoberto, o maior de todos. Um outro problema grave também entrou no rol das preocupações: as perdas de água na rede de distribuição, onde se incluem os vazamentos nas tubulações e os roubos de água – os famosos “gatos”, que chegam a 35% do volume total de água distribuída.

A seca na região já vinha causando preocupações desde o final de 2016, quando a ADASA – Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal, autorizou a CAESB – Companhia de Saneamento Básico do Distrito Federal, a reduzir de pressão na rede, realizar o rodízio do abastecimento, efetuar a paralisação parcial do abastecimento, além de veicular campanhas de incentivo à redução do consumo de água. A CAESB iniciou o processo de racionamento no final de 2016 com a redução da pressão nas redes de tubulações, medida que afeta a oferta de água e que obriga a população a economizar. Como as chuvas continuaram a cair em níveis muito abaixo das expectativas e se observou o agravamento da queda dos níveis nas barragens, a CAESB decidiu adotar um sistema de rodízio no abastecimento de água nas localidades atendidas pela barragem do Descoberto, sistema que acabou estendido a todo o Distrito Federal. Esse racionamento teve início em janeiro de 2017.

Passado um ano desde a adoção do racionamento de água no Distrito Federal, a CAESB acaba de divulgar os números preliminares do racionamento – os dados já contabilizados pela empresa indicam que o consumo de água caiu 12%, o que indica que o objetivo principal da adoção do sistema de rodízio de água foi alcançado. O outro lado, bastante negativo, mostra que houve uma queda de 4,98% no faturamento da empresa. Como aconteceria no seu orçamento pessoal ou da sua família, essa queda de faturamento (ou no orçamento no seu caso pessoal ou familiar) significa que vai começar a faltar dinheiro para cobrir algumas despesas – cortes de gastos e de investimentos serão inevitáveis. No caso do Distrito Federal, onde Governos desastrosos vêm se sucedendo a vários mandatos, com reflexos diretos em baixos investimentos – especialmente em infraestrutura de saneamento básico, esta notícia não é das melhores.

Apesar de sediar grande parte da administração do Governo Federal, o Distrito Federal sofre há muito de problemas crônicos de gestão: são problemas nas áreas de saúde, educação, segurança, saneamento básico, infraestrutura entre outros. Por uma infeliz coincidência, hoje de manhã um trecho de um viaduto de Brasília desabou, felizmente sem deixar vítimas. Nas imagens que vi do acidente, mostradas a pouco por um telejornal, foi possível perceber que as pilastras ou colunas de sustentação de um segmento do viaduto quebraram, levando o conjunto de vigas de apoio da pista ao chão. Como o viaduto foi construído há mais de 50 anos, tudo indica que faltaram obras de manutenção na estrutura da “obra de arte” (como estas obras são chamadas entre os engenheiros). No último fim de semana, a laje de um estacionamento de um prédio residencial em Brasília também desabou, talvez por motivo semelhante. Esses dois trágicos exemplos mostram a situação caótica que impera no Distrito Federal – tem muita coisa “caindo de podre”, sem exageros. A infraestrutura de saneamento básico não foge a esta regra e a notícia da queda de faturamento da CAESB insere uma nota extra de tragédia à situação geral.

Apesar de ainda faltarem evidências científicas que comprovem que esta intensificação da seca no Estado de Goiás é um fato definitivo e que os problemas estão associadas aos efeitos do aquecimento global, a situação é bastante didática – ela demonstra os impactos financeiros das mudanças climáticas. Se admitirmos, em tese, que os problemas no Distrito Federal são realmente frutos do aquecimento global, a queda no faturamento da CAERD seria a parte inicial dos prejuízos (ou pagamento da “fatura”, como eu costumo chamar); num segundo momento, a empresa fatalmente chegará a conclusão que pesados investimentos para a construção de novos sistemas produtores de água serão necessários.

O Planalto Central, região onde o Distrito Federal está inserido, fica estrategicamente no centro divisor das águas do Brasil, onde nascem os rios de três das mais importantes bacias hidrográficas brasileiras: os rios Tocantins/Araguaia, Paraná e São Francisco. Apesar disto, não existem grandes rios dentro do território do Distrito Federal – a eventual construção de um grande sistema produtor de água teria que ser realizada em terras do Estado de Goiás ou de Minas Gerais, algo que necessitaria de grandes volumes de dinheiro e esbarraria em inúmeros problemas de legislação. Um exemplo da complexidade deste tipo de obra: alguns rios formadores das represas do Sistema Cantareira em São Paulo tem nascentes localizadas a 160 km da capital paulista – para conseguir trazer a água até os consumidores na Região Metropolitana foi necessária a construção de diversos canais, tuneis e estações de bombeamento – haja dinheiro para fazer tudo isso. Há um detalhe nesta história: o Sistema Cantareira foi planejado e construído na época do Regime Militar (1964-1985), período em que a legislação ambiental era muito insipiente e os Generais simplesmente falavam  “- Faça-se”, sem qualquer questionamento dos subordinados. Nos dias atuais, as coisas não seriam nada simples.

Com o aquecimento global, teremos todos tempos difíceis pela frente e muitas “faturas” para pagar. Preparem-se todos.

 

O INESQUECÍVEL INVERNO DE 1989

Garoa

A cidade de São Paulo da minha infância era muito fria… gelada!

Olhando para o título e para a primeira frase desta postagem, você poderá até ter a impressão de estar lendo algum romance antigo, daqueles que se encontram nos saldos dos sebos e em outras lojas que vendem objetos antigos. Na verdade, optei por este texto inicial um tanto saudosista para enfatizar todo um conjunto de alterações climáticas que vi, vivi e que percebi aqui na minha cidade em pouco mais de meio século.

A constatação mais evidente da mudança no clima da cidade de São Paulo foi o desaparecimento da famosa “garoa”, uma chuva muito rala e com gotas de água finíssimas que caía toda a tarde e que foi transformada em uma das marcas registradas da cidade – São Paulo da Garoa. Havia inclusive um mantra entre as mães e avós daquela época: “- sai da garoa, menino”. Esse mantra tinha outro significado para os começos de noites de algumas épocas do ano: “- sai do sereno, menino!” O fenômeno diário foi ficando cada vez mais raro com o passar dos anos, até que desapareceu completamente no final da década de 1970.

Atualmente, quando acontece qualquer precipitação que se aproxime da velha garoa, os mais saudosistas chegam a festejar. Nunca esqueço uma tarde em 1999, quando estava acompanhando o dono da empresa italiana em que trabalhava há época, que havia vindo ao Brasil para uma série de reuniões com grandes clientes – na saída de uma destas reuniões, começou a garoar forte e o italiano ficou boquiaberto com o fenômeno (tenho de confessar que eu e outros saudosos paulistanos presentes também ficamos maravilhados) – era uma combinação de céu muito azul e de gotas finíssimas de água.

Outra mudança marcante na cidade foi um lento e gradual aumento da temperatura. Nos tempos da velha garoa paulistana, os invernos eram muito frios. Lembro das temporadas de inverno ainda na década de 1960, quando o quintal de casa amanhecia com uma fina camada de gelo depois das noites mais frias – algumas vezes era possível até formar pequenas bolas de gelo com as mãos. Nestas estações, as camisas de flanela que minha avó confeccionava eram indispensáveis. Essa peça de vestuário fez parte do meu guarda roupa até o final da década de 1980, quando se tornou absolutamente dispensável – os invernos rigorosos na cidade não existem mais.

O ano de 1989 foi o último em que houve um inverno mais rigoroso aqui em Sampa. Eu tinha há época um carro movido a álcool, combustível que tornava as partidas do motor nos dias mais frios um verdadeiro desafio. Numa noite congelante daquele inverno, quando os termômetros de rua marcavam 2° C, tive de realizar dezenas de tentativas para ligar o motor, que só pegou, para meu desespero, quando a bateria já dava sinais claros de esgotamento. Nunca mais vi um frio daqueles por estas bandas (e também não quis mais ouvir falar em carro a álcool)…

Durante muito tempo, todo este conjunto de mudanças no padrão climático da cidade de São Paulo foi creditado ao fenômeno conhecido como “Ilhas Urbanas de Calor“. Este fenômeno começou a ser observado no começo do século XX em diversas grandes cidades e regiões metropolitanas do mundo como Londres, Nova York, Pequim e, mais recentemente, em São Paulo. Com a intensificação da urbanização, áreas de mata passaram a ser substituídas por construções, com grandes extensões de solos cobertas por concreto e por vias asfaltadas.

Estas mudanças formam polos que concentram o calor do sol e que induzem à formação de microclimas locais. Uma das consequências já comprovadas das Ilhas de Calor Urbano é a concentração das chuvas nas áreas mais quentes da “ilha” (frequentemente a área central), algo que normalmente satura rapidamente os sistemas de drenagem de águas pluviais existentes, provocando enchentes localizadas. No caso da cidade de São Paulo, que convive com enchentes praticamente desde a sua fundação, as enchentes nas áreas centrais são cada vez mais catastróficas.

O Planalto de Piratininga, região onde foi fundada a cidade de São Paulo, possui uma extensa rede hidrográfica, onde o famoso Rio Tietê é o principal curso d’água. O Tietê recebe contribuições de água de inúmeros pequenos rios e córregos, que algumas fontes antigas afirmavam chegar a 3.000 corpos d’água no município de São Paulo. Durante o processo de crescimento da cidade, especialmente a partir das últimas décadas do século XIX, centenas de córregos foram canalizados para liberar áreas para construções e aberturas de vias urbanas.

Outros tantos rios e córregos passaram por obras de retificação de curso e de canalização, onde não se realizaram os procedimentos de limpeza e de manutenção regulares para a remoção de resíduos e de areia. O resultado – enchentes generalizadas por todas as regiões da cidade no período das chuvas de Verão. Grandes obras para combater essas enchentes são sistematicamente realizadas, mas os resultados ficam cada vez menos evidentes. Eu sempre me perguntava: até onde estas enchentes são consequências de alterações no microclima regional ou podem ser resultantes de um contexto de mudanças climáticas mais amplo?

A resposta surgiu há bem pouco tempo atrás: entre os anos de 2014 e 2015, uma fortíssima e inédita seca se abateu sobre a Região Entre Serras e Águas, um recanto bastante pitoresco do Estado de São Paulo localizado entre a Serra da Cantareira e a Serra da Mantiqueira. Este evento, na minha opinião, começou a comprovar que as alterações no clima extrapolavam a área da Capital paulista. Naquela ocasião, os reservatórios do Sistema Cantareira simplesmente secaram, entrando no chamado “volume morto“. Para quem não conhece, este Sistema responde pelo abastecimento de metade da população metropolitana de São Paulo e de parte da população metropolitana de Campinas, a segunda maior região em número de habitantes do Estado. Foi necessário um esforço gigantesco da população para enfrentar um racionamento de água nunca visto em toda a história da cidade.

Autoridades locais, como sempre acontece em situações extremas, bateram cabeça como nunca para realizar obras “emergenciais de emergência” (a redundância é proposital), que deveriam ter sido planejadas e executadas com muita antecedência caso houvesse algum tipo planejamento mínimo. Felizmente, as chuvas voltaram a cair com regularidade em 2016 e as represas do Sistema Cantareira voltaram a encher. Depois desse susto, alguns projetos para aumentar a segurança hídrica da região foram tirados do papel – entre eles destaco a interligação do Sistema Cantareira com a represa de Paraibuna e a construção do novo sistema produtor de água em São Lourenço da Serra. Estamos salvos de morrer de sede – até quando, só Deus sabe!

Muitos de vocês, provavelmente, tem alguma história para contar sobre alguma mudança climática observada aí na sua cidade ou região. Sutis mudanças no clima estão acontecendo neste momento em grande parte do nosso mundo.

A moral da história: mesmo sem existir ainda uma comprovação científica sobre a verdadeira extensão e as implicações das mudanças climáticas globais, é bem provável que todos nós já estejamos a pagar os custos destas mudanças climáticas – senão, logo começaremos a receber as “faturas”. Serão dezenas de bilhões de reais em recursos públicos aplicados em obras para o controle de enchentes, reforço nos sistemas de produção e distribuição de água, reflorestamento de matas ciliares, remoção de casas em áreas de risco em encostas e baixadas, entre outras despesas ligadas diretamente aos efeitos do aquecimento global – e olhem que não estou nem fazendo referência aos prejuízos da falta de chuvas em algumas regiões, das enchentes em outras, das ondas de frio e de calor, entre outros impactos.

Que os céus nos protejam. Amém!

EVENTOS CLIMÁTICOS EXTREMOS, OU ADAPTANDO-SE ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS GLOBAIS

Quito

A temporada das chuvas de Verão está no seu auge, com muitas cidades brasileiras sofrendo com os efeitos de volumes de precipitação acima da média: enchentes violentas, desmoronamentos de encostas, destruição de trechos de rodovias e milhares de famílias desabrigadas são alguns dos aspectos mais visíveis da estação. Antes de explorar muitos destes problemas em diversas cidades e regiões, gostaria de começar falando de um lado do problema ainda tratado como mera hipótese por muita gente: as famosas mudanças climáticas.

Pouca gente discorda que o planeta está enfrentando mudanças em sua dinâmica climática global – regiões têm enfrentado períodos anormais de seca; outras sofrem com volumes de chuvas muito acima da média; extremos de frio e de calor também estão sendo vivenciados por populações em diferentes partes do mundo. O “pomo da discórdia” se dá no debate sobre as origens dos problemas: muitos defendem que as mudanças climáticas estão ligadas à toda uma somatória de agressões ambientais derivadas das ações humanas ao longo da história, particularmente das emissões de gases de efeito estufa. Outros tantos afirmam que os aumentos das temperaturas já observados em diferentes partes do planeta, com suas devidas consequências, são parte de um conjunto de mudanças cíclicas naturais do planeta, que nada tem a ver com as atividades humanas – o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é um ferrenho defensor desta tese. Logo após sua posse em 2017, Trump retirou seu país de diversos acordos internacionais para o controle de emissões de gases de efeito estufa.

Enquanto diversos grupos discutem sobre as verdades e mentiras do aquecimento global, instituições sérias e pragmáticas trabalham na busca de soluções adequadas para se combater os efeitos visíveis das mudanças climáticas. Merece destaque o trabalho do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento, uma organização financeira internacional com sede na cidade de Washington, Estados Unidos, e criada no ano de 1959 com o propósito de financiar projetos viáveis de desenvolvimento econômico, social e institucional, além de promover a integração comercial regional na área da América Latina e o Caribe.

O BID está financiando uma série de projetos pilotos voltados a adaptação de cidades e regiões às mudanças climáticas, que são bem reais e bastante problemáticas em muitos lugares. Alguns exemplos: na cidade de Quito, no Equador, está em implantação uma mudança nas fontes de captação de água para o abastecimento da população; no Peru, estão sendo redesenhados sistemas de irrigação e de exploração de água do subsolo por causa do aumento dos períodos de seca em várias regiões do país; no Uruguai, sistemas de manejo e drenagem de águas pluviais estão sendo redimensionados por causa do aumento da intensidade das chuvas; na Nicarágua, estão sendo implantados mecanismos para o controle do nível do Lago Manágua como forma de se prevenir inundações; em Honduras, estão sendo desenvolvidos projetos para a construção de diques para controle de enchentes e mudanças nos sistemas de perfuração e operação de poços artesianos por causa do aumento do nível do mar e salinização dos aquíferos e em Trinidad-Tobago, estão em andamento projetos para a construção de estações de tratamento de água e de esgotos adaptadas ao aumento do nível do mar já observado nas ilhas.

Para que todos percebam a gravidade dos efeitos das mudanças climáticas já observados em algumas regiões da América Latina e Caribe, problemas que estimularam as ações pró ativas do BID, deixem-me apresentar com maiores detalhes o caso do abastecimento de água da cidade de Quito.

A simpática Quito é uma das capitais mais altas do mundo, com sua altitude a 2.800 metros acima do nível do mar e uma população de mais de 2,7 milhões de habitantes. A cidade tem entre suas principais atrações o centro histórico, com a típica arquitetura colonial espanhola, com casarões, praças e igrejas caprichosamente preservadas e declaradas Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. A posição geográfica de Quito, no ponto exato onde o mundo é dividido em Norte e Sul, levou ao batismo da linha imaginária que separa os Hemisférios com o nome do país: a Linha do Equador.

Bem longe do cotidiano dos habitantes e dos pontos pitorescos com suas multidões de turistas, existe uma característica de Quito desconhecida da maioria – toda a água usada no abastecimento da cidade é originada em derretimentos de glaciares ou geleiras no alto dos Andes (vide foto). Estas fontes ancestrais de água, exploradas desde os tempos das primeiras populações que chegaram a estas montanhas, correm um sério risco atualmente: o aquecimento global já se faz notar nos Andes Equatorianos – as geleiras dos vulcões Antizana, Cotopaxi e Chimborazo já perderam entre 42 e 60% de suas massas. O problema não se limita ao país: das 10 geleiras que existiam na Venezuela em 1952, só restam 5; na Colômbia, 8 geleiras desapareceram restando apenas 6;  Na Cordillera Blanca no Peru, a cadeia de montanhas em área tropical com a maior concentração de geleiras do mundo, os 722 glaciares existentes sofreram uma redução de 22,4% desde 1970; na Bolívia, as geleiras de Charquini perderam entre 65 e 78% das suas áreas nas últimas décadas. Vários rios com nascentes alimentadas pelo degelo destes glaciares já apresentam visíveis reduções nos seus volumes de água.

Com vistas ao iminente colapso do abastecimento de água de Quito, o Governo Equatoriano, está desenvolvendo um projeto para a captação de água nos páramos andinos, criando desde já uma fonte alternativa de abastecimento para a população. Páramos são ecossistemas com vegetação arbustiva que ocorrem a partir de altitudes acima de 3.000 metros até a linha de neve no alto das montanhas. Graças a esta vegetação, os solos dos páramos funcionam como verdadeiras esponjas, retendo grandes quantidades de água – áreas de banhados dos Pampas do Sul do Brasil têm características bem similares. Os páramos são encontrados em várias regiões montanhosas do mundo – a Cordilheira dos Andes abriga 30 mil km² de páramos na Venezuela, Colômbia, Peru e Equador.

Aqui no Brasil, temos observado diversas alterações nos padrões climáticos de várias regiões, com chuvas acima da média em muitos lugares, secas prologadas em outros, mar avançando com violência na direção de algumas praias, entre muitos outros problemas. Todas estas “anomalias” provocam impactos na vida das populações e forçam Governos dos diversos níveis a correr atrás de soluções emergenciais, onde volumosos recursos públicos são gastos, muitas vezes sem muito critério. Além dos flagrantes desperdícios de recursos, vale lembrar que quando as situações de calamidade pública são decretadas, Governos podem realizar gastos dos mais diversos sem a necessidade de se realizar concorrências públicas – isso abre espaço para desvios e malfeitos de todos os tipo.

Enquanto países vizinhos, em estágios de desenvolvimento abaixo do nosso, demonstram preocupações com os impactos do aquecimento global e das mudanças climáticas no futuro de suas cidades, aqui no Brasil ainda patinamos na solução de problemas básicos de abastecimento de água, tratamento de esgotos e manejo de águas pluviais. Fazemos verdadeiras “gambiarras” de infraestrutura para resolver problemas antigos enquanto tem muita gente projetando soluções para problemas com vistas aos próximos 50 ou 100 anos…

Vamos falar destes desafios nas próximas postagens.

OS VÍRUS, AS CÉLULAS E O MECANISMO DE TRANSMISSÃO DA FEBRE AMARELA

Vacina Febre Amarela

Os vírus são as menores formas de vida conhecidas, porém estão entre as “criaturas” mais mortais do nosso planeta. Um exemplo devastador da periculosidade dos vírus se deu logo após a chegada dos primeiros conquistadores europeus ao continente americano. Muito mais do que a pólvora dos canhões e o aço das espadas, os europeus, sem saber, possuíam verdadeiros arsenais de armas biológicas em seus corpos: os vírus da varíola, da gripe, da tuberculose, da sífilis, entre outros. Em contato com populações que viviam isoladas a vários milênios no continente, esses vírus provocaram epidemias devastadoras que, em alguns casos documentados, foram responsáveis pela morte de até 80% dos moradores de algumas tribos dos povos nativos.

Durante milhares de anos, os sábios e cientistas desenvolveram inúmeras explicações sobre a origem de algumas doenças e pestes que surgiam do nada e que matavam milhares de pessoas após sua passagem por cidades e vilas. Falavam de desequilíbrios dos “humores” do próprio corpo, de miasmas (emanações de gases), entre outras especulações. Foi somente em meados do século XIX que o cientista Louis Pasteur propôs a Teoria Microbiana das Doenças. Pasteur imaginava que todas as doenças tinham origem em alguma forma de vida diminuta, que invadia o organismo humano e se multiplicava sem controle. Posteriormente, com o desenvolvimento de microscópios óticos, com capacidade de ampliação cada vez mais altas, foi possível analisar o sangue e as secreções dos doentes e encontrar diversos micro-organismos causadores de doenças, comprovando-se assim as suspeitas de Louis Pasteur. Com o tempo, foi comprovada a existência das bactérias e dos vírus – inclusive, o primeiro vírus humano a ser isolado foi o da febre amarela em 1928. A visualização dos vírus só se tornaria possível a partir da segunda metade do século XX, logo após a invenção dos microscópios de varredura eletrônica com altíssima capacidade de ampliação.

Nestes tempos de surtos múltiplos de febre amarela, os vírus voltaram com toda força para a mídia, que muitas vezes não consegue explicar para a população adequadamente o que são e como é que eles infectam as pessoas. Apesar de não ser um especialista na área, vou tentar explicar um pouco melhor esta questão:

Vírus são formas de “vida” extremamente simples e de dimensões microscópicas, que só conseguem sobreviver parasitando células de outros organismos. Diferente das células, que são organismos vivos autônomos, os vírus não possuem organelas (ou ribossomos) e não possuem a capacidade de gerar a sua própria energia metabólica – eles dependem da energia de uma célula viva para sobreviver e, especialmente, das organelas celulares para se multiplicar. Quando um vírus infecta um ser vivo de qualquer espécie (indo desde uma bactéria até uma baleia azul), eles passarão imediatamente a invadir as células deste hospedeiro e, se utilizando de toda a “infraestrutura” celular deste ser, iniciarão o processo de reprodução, conhecido como replicação viral – é esse processo que pode provocar as doenças. O vírus causador da febre amarela, que é o nosso exemplo, tem predileção por alguns tipos de células do organismo humano, especialmente as células do fígado. Como este vírus tem uma altíssima capacidade de reprodução, um único vírus que conseguir “invadir” o organismo poderá gerar milhares de novos vírus em poucas horas; a pessoa infectada poderá desenvolver uma hepatite gravíssima em pouco tempo e morrer em questão de dias.

O vírus da varíola, doença dizimou grande parte dos indígenas brasileiros durante a colonização do país, é um exemplo de letalidade. Este vírus é comumente encontrado em vacas e bois, animais que os povos da Europa vêm criando a milhares de anos. A partir do contato frequente com estes animais, os europeus desenvolveram mecanismos de defesa e raramente desenvolviam a doença. Quando ocorreram os primeiros contatos entre portugueses e nativos brasileiros, surgiram os primeiros surtos de varíola ou de “bexigas”, nome dado à doença na época. O antropólogo Darcy Ribeiro deixou registrado em vários dos seus livros que a doença matava entre 50 e 60% dos moradores das aldeias infectadas. A febre amarela está muito longe disto, mas em alguns poucos casos ela pode ser fatal, o que justifica toda a paranoia que tomou conta de nosso país nos últimos meses.

O vírus da febre amarela surgiu nas florestas da África em algum momento de um passado muito distante e “escolheu” algumas espécies de mosquitos hematófagos (ou seja, que se alimentam de sangue em algum momento de seu ciclo de vida) como hospedeiros. A transmissão do vírus para macacos e humanos ocorre durante as picadas das fêmeas dos mosquitos (os machos não picam) na busca do sangue, fonte de proteína essencial para o desenvolvimento dos seus ovos. Uma vez no organismo do novo hospedeiro, o vírus passa a se multiplicar, podendo levar ao desenvolvimento da doença. 

A febre amarela chegou às Américas junto com os primeiros escravos trazidos desde África, com o vírus ativo no organismo de doentes, ou ainda como hospedeiro em mosquitos que pegaram “carona” nos navios negreiros (foi assim que o famoso Aedes aegypti chegou as nossas terras). Em terras americanas, o vírus passou a ser transmitido para pessoas e macacos locais através das picadas dos recém-chegados mosquitos africanos ou através de mosquitos autóctones, que passaram a picar os africanos portadores do vírus.

De uma forma natural, o vírus encontrou um nicho ecológico com condições ideais para a sua sobrevivência no organismo de algumas espécies de mosquitos silvestres, especialmente dos gêneros Haemagogus e Sabethescom, com hábitos de picar macacos para sugar sangue. Assim como no caso do vírus da varíola, a longa convivência dos macacos com os mosquitos silvestres hospedeiros do vírus da febre amarela levou ao desenvolvimento de mecanismos de defesa nestes animais, que raramente desenvolvem a doença. Em vários momentos de nossa história, esse mecanismo de equilíbrio ambiental foi quebrado e ocorreram epidemias de febre amarela em muitas cidades – na maior parte do tempo, a circulação do vírus ficou restrita entre populações de macacos e mosquitos silvestres em áreas florestais.

Os diversos surtos de febre amarela que estão surgindo em diversas regiões do Brasil são resultantes da quebra desse equilíbrio ambiental. O crescimento desordenado de cidades na direção de matas, a circulação de macacos dentro de áreas urbanas, a proximidade de populações com regiões onde vivem mosquitos de espécies silvestres, o contato de mosquitos urbanos com macacos infectados com o vírus, entre outras causas, colocou pessoas em contato com o vírus da febre amarela e, assim, passamos a conviver com casos da doença. O caminho possível para reequilibrar as coisas num curto prazo é a vacinação em massa da população contra a doença (vide foto), providência que já está sendo tomada pelas autoridades da melhor maneira possível. Aliás, é importante lembrar que o Brasil possui uma excelente reputação internacional na realização de campanhas de vacinação em massa. A vacina, que é formada por vírus ou partes de vírus da doença enfraquecidos, provoca o desenvolvimento de mecanismos de defesa no organismo das populações, reduzindo ao máximo a possiblidade do desenvolvimento da doença mesmo após a inoculação de vírus ativos nos seus organismos.

Após o controle destes perigosos surtos da doença, que espero acontecer dentro de poucos meses, apesar da histeria de muitos órgãos e profissionais da imprensa, precisaremos repensar seriamente sobre os muitos desequilíbrios ambientais provocados pelo crescimento de nossas cidades e reparar o que for possível. Mosquitos silvestres hospedeiros do vírus, macacos e matas vão continuar em seus devidos lugares, vivendo como sempre viveram.

A humanidade sobreviveu à peste negra, a febre Espanhola e a muitas outras epidemias muito mais graves que a febre amarela. Precisamos agora de muita calma, sabedoria, informações corretas e, talvez, boas doses de canja de galinha.

MOSQUITOS, MACACOS E MATAS: O PERIGOSO TRIÂNGULO DA FEBRE AMARELA

Floresta da Tijuca

Pesquisando sobre as doenças mais características deste século XXI, encontraremos listas que mostram males que poderíamos classificar como “doenças da alma”: estresse, depressão, fobias, anorexia, bulimia, obesidade, entre outras. Nos países de alto desenvolvimento econômico, que a muito tempo conseguiram resolver os problemas mais fundamentais da humanidade como alimentação e moradia. Na conhecida teoria da “Hierarquia das Necessidades de Maslow”, esses problemas se encontram na base da pirâmide, especialmente nos itens das necessidades fisiológicas e de segurança. Nas terras “abaixo da linha do Equador”, onde infelizmente se encontra o nosso país, somos obrigados ainda a conviver com doenças que já assolavam nossos trisavôs e tetravôs (ou tataravôs, como muitos preferem chamar) ainda no século XIX. Em resumo: gringos ricos sofrem de depressão e anorexia; nós, pobres tupiniquins, ainda sofremos e morremos de febre amarela, dengue, bicho de pé e espinhela caída.

Como não é possível mudar o nosso país para o Hemisfério Norte, lado do planeta onde ficam alguns dos países mais ricos, melhor tentarmos entender a “mecânica” de funcionamento de algumas das nossas doenças como a febre amarela e, assim, buscar soluções. E uma das formas para se entender isso é imaginar um triângulo, onde encontramos as principais causas dos surtos de febre amarela: o grande número de mosquitos urbanos e silvestres em circulação, que são os responsáveis pela transmissão do vírus; cidades crescendo sem planejamento e avançando perigosamente na direção de áreas de matas e, finalmente, populações de macacos vivendo muito próximas de agrupamentos humanos. No meio deste triângulo, as populações acuadas.

A primeira coisa que precisamos entender é que esse “triângulo” não foi construído nos últimos meses, quando os surtos de febre amarela começaram a pipocar no interior do Estado de Minas Gerais. Essa foi uma construção coletiva, resultado de nosso processo de urbanização e de desenvolvimento econômico, que começou nos primeiros tempos da nossa colonização. Nos primeiros 300 anos de nossa história, tínhamos como única finalidade gerar bens e produtos exportáveis para a nossa Metrópole – Portugal; nas palavras de Caio Prado Júnior, “nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde, ouro e diamantes, depois algodão, e em seguida café, para o mercado europeu”. Em décadas mais recentes, podemos incluir na lista minério de ferro, soja, suco de laranja e carnes. E toda essa produção se baseou na destruição e domínio das matas a ferro e a fogo e na superexploração da mão de obra, primeira formada por escravos e, depois, por trabalhadores “livres”. E foi exatamente esse “modelo de desenvolvimento econômico” que foi usado na formação de nossas cidades, especialmente no último século.

Vejamos o caso das duas maiores cidades brasileiras – São Paulo e Rio de Janeiro, que estão sofrendo com casos de febre amarela. As duas cidades cresceram desordenadamente, possuem grandes áreas de matas dentro de suas manchas urbanas – temos a Serra da Cantareira na Zona Norte de São Paulo e a Floresta da Tijuca ocupando uma grande área na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Em ambas as cidades encontramos macacos e mosquitos circulando por todos os lados. Uma vez formado o “triângulo” da febre amarela, não há muito o que fazer – as populações se tornam reféns da doença.

Existem diferenças nas áreas de matas das duas cidades – a Serra da Cantareira é um importante fragmento vegetal preservado dentro da Região Metropolitana de São Paulo. Desde o início da colonização do Planalto de Piratininga, a Serra da Cantareira já era famosa pelas abundantes fontes de água limpa, característica que colaborou muito para a sua conservação. Em tempos antigos, moradores iam com suas carroças buscar água na Serra – essas carroças tinham uma espécie de estante de madeira para apoiar os cântaros de barros usados para carregar a água – essas estantes recebiam o nome de “cantareiras” – vem daí o nome dado ao lugar. Com o forte crescimento da cidade de São Paulo a partir da segunda metade do século XIX, a Serra da Cantareira foi transformada no principal manancial de abastecimento da cidade. O atual Sistema Cantareira, maior manancial de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, fica numa região um pouco mais ao Norte, já fora da Serra da Cantareira, mas manteve o mesmo nome.

A Floresta da Tijuca, ao contrário, é uma floresta que foi totalmente replantada a partir de 1870. A região havia sido completamente devastada para a implantação de grandes fazendas voltadas à produção de cana-de-açúcar, que depois se especializaram na produção de café. Com o rápido crescimento do Rio de Janeiro após a chegada da Família Real Portuguesa em 1808, a cidade começou a sofrer fortemente com a falta de água. As secas e 1822 e de 1823 foram particularmente devastadoras. Em meados do século XIX, por ordem do Imperador dom Pedro II, grandes extensões de terra na região da Tijuca foram desapropriadas com vistas ao futuro reflorestamento e recuperação de nascentes de água. Um pequeno grupo de trabalhadores, sob o comando do Major Manuel Gomes Archer, ficou encarregado de plantio de mais de 100 mil mudas de árvores, que após 13 anos de trabalho formariam a atual Floresta da Tijuca.

Além de abrigar importantes reservas de vida vegetal, as áreas florestais urbanas das duas metrópoles se consolidaram como refúgios naturais da vida silvestre, abrigando importantes comunidades de animais nativos da Mata Atlântica, especialmente saguis, micos e outros macacos. A proximidade das áreas urbanizadas com suas “interessantes” trilhas aéreas formadas pelas redes elétricas e de telecomunicações nos postes, foi irresistível para os curiosos e inteligentes símios, que pouco a pouco começaram a colonizar os bairros mais arborizados das duas cidades. Em meu bairro, que fica a pelo menos 25 km de distância da Serra da Cantareira, existem dezenas de saguis de tufo preto circulando entre as árvores das diversas praças através das cabeações de telefonia e de energia. Porém, o que era até pitoresco e simpático até alguns meses atrás, agora se transformou em preocupação – os simpáticos macaquinhos foram transformados em vilões nas duas cidades – muitos deles, inclusive, acabaram mortos a paus e pedras por alguns moradores.

Completando o caótico e complexo quadro ambiental das duas cidades, sobram problemas na área de saneamento básico, especialmente nos serviços de coleta e de tratamento de esgotos, manejo de águas pluviais e também na gestão dos resíduos sólidos. Como consequência destas deficiências, há uma verdadeira profusão de mosquitos urbanos, especialmente o sempre presente Aedes aegypti, além de mosquitos silvestres nas áreas lindeiras das regiões de mata – está formado o “triângulo” da febre amarela, que está deixando todos os cidadãos destas cidades com o cabelo em pé.

Em minhas últimas postagens, tenho repetido insistentemente (chegando até aos limites da chatice) estas informações, as quais acredito serem fundamentais para o entendimento real da situação neste momento de “emergência de saúde”. Somente a partir do compreensão das causas principais do avanço da febre amarela em nossas cidades, é que iremos encontrar soluções definitivas para o problema. Se não for assim, vamos ficar correndo indefinidamente atrás de macacos e mosquitos no meio da mata, sem acabar definitivamente com a doença.