O OUTRO LADO DA SECA NO DISTRITO FEDERAL

Seca no DF - foto correio do brasil

“A VIDA na fazenda se tornara difícil. Sinhá Vitória benzia- se tremendo, manejava o rosário, mexia os beiços rezando rezas desesperadas. Encolhido no banco do copiar, Fabiano espiava a caatinga amarela, onde as folhas secas se pulverizavam, trituradas pelos redemoinhos, e os garranchos se torciam, negros, torrados. No céu azul as últimas arribações tinham desaparecido. Pouco a pouco os bichos se finavam, devorados pelo carrapato. E Fabiano resistia, pedindo a Deus um milagre”.

O texto que abre esta postagem faz parte do antológico “Vidas Secas”, livro de Graciliano Ramos. Escrito entre 1937 e 1938, o livro narra a saga de uma família de retirantes nordestinos. Para compor a narrativa do romance, Graciliano Ramos utilizou lembranças de sua infância, quando testemunhou inúmeras famílias fugindo de uma das inúmeras e frequentes secas que assolam os sertões do Nordeste desde sempre. Relatos testemunhais de inúmeros cronistas de época e de viajantes falam de secas de excepcionais proporções em 1744, 1790, 1846 e 1877; grandes secas mais contemporâneas, como a de 1915 e a de 1932, inspiraram inúmeros livros, músicas, cordéis, artes plásticas e outras manifestações culturais, que ajudaram a consolidar a imagem popular das agruras dos sertanejos nordestinos ao longo destas fortíssimas estiagens.

Nos últimos anos, porém, a imagem do sertão seco extrapolou os limites geográficos da Região Nordeste e estendeu seus tentáculos na direção de outras regiões – alguns municípios do Norte do Estado de Goiás, por exemplo, passaram a apresentar rios intermitentes, que passaram a secar completamente na estação seca do ano. A falta de chuvas em Goiás, conforme apresentamos em diversas postagens, levou o Governo do Distrito Federal (lembrando que este é um enclave dentro do Estado de Goiás) a decretar um inédito racionamento de água para toda a população distrital.

Em outubro de 2017, os registros meteorológicos indicaram que aquele foi o mês mais seco na região em 37 anos – de um volume de chuvas esperado para o mês da ordem de 166 mm só 14 mm se confirmaram. Além do baixo volume de chuvas, o Distrito Federal apresentou um crescimento de 16% no consumo de água ao longo dos últimos 6 anos. Esse desequilíbrio no balanço hídrico se refletiu rapidamente no volume de água armazenada nos reservatórios distritais, como no Alto Descoberto, o maior de todos. Um outro problema grave também entrou no rol das preocupações: as perdas de água na rede de distribuição, onde se incluem os vazamentos nas tubulações e os roubos de água – os famosos “gatos”, que chegam a 35% do volume total de água distribuída.

A seca na região já vinha causando preocupações desde o final de 2016, quando a ADASA – Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal, autorizou a CAESB – Companhia de Saneamento Básico do Distrito Federal, a reduzir de pressão na rede, realizar o rodízio do abastecimento, efetuar a paralisação parcial do abastecimento, além de veicular campanhas de incentivo à redução do consumo de água. A CAESB iniciou o processo de racionamento no final de 2016 com a redução da pressão nas redes de tubulações, medida que afeta a oferta de água e que obriga a população a economizar. Como as chuvas continuaram a cair em níveis muito abaixo das expectativas e se observou o agravamento da queda dos níveis nas barragens, a CAESB decidiu adotar um sistema de rodízio no abastecimento de água nas localidades atendidas pela barragem do Descoberto, sistema que acabou estendido a todo o Distrito Federal. Esse racionamento teve início em janeiro de 2017.

Passado um ano desde a adoção do racionamento de água no Distrito Federal, a CAESB acaba de divulgar os números preliminares do racionamento – os dados já contabilizados pela empresa indicam que o consumo de água caiu 12%, o que indica que o objetivo principal da adoção do sistema de rodízio de água foi alcançado. O outro lado, bastante negativo, mostra que houve uma queda de 4,98% no faturamento da empresa. Como aconteceria no seu orçamento pessoal ou da sua família, essa queda de faturamento (ou no orçamento no seu caso pessoal ou familiar) significa que vai começar a faltar dinheiro para cobrir algumas despesas – cortes de gastos e de investimentos serão inevitáveis. No caso do Distrito Federal, onde Governos desastrosos vêm se sucedendo a vários mandatos, com reflexos diretos em baixos investimentos – especialmente em infraestrutura de saneamento básico, esta notícia não é das melhores.

Apesar de sediar grande parte da administração do Governo Federal, o Distrito Federal sofre há muito de problemas crônicos de gestão: são problemas nas áreas de saúde, educação, segurança, saneamento básico, infraestrutura entre outros. Por uma infeliz coincidência, hoje de manhã um trecho de um viaduto de Brasília desabou, felizmente sem deixar vítimas. Nas imagens que vi do acidente, mostradas a pouco por um telejornal, foi possível perceber que as pilastras ou colunas de sustentação de um segmento do viaduto quebraram, levando o conjunto de vigas de apoio da pista ao chão. Como o viaduto foi construído há mais de 50 anos, tudo indica que faltaram obras de manutenção na estrutura da “obra de arte” (como estas obras são chamadas entre os engenheiros). No último fim de semana, a laje de um estacionamento de um prédio residencial em Brasília também desabou, talvez por motivo semelhante. Esses dois trágicos exemplos mostram a situação caótica que impera no Distrito Federal – tem muita coisa “caindo de podre”, sem exageros. A infraestrutura de saneamento básico não foge a esta regra e a notícia da queda de faturamento da CAESB insere uma nota extra de tragédia à situação geral.

Apesar de ainda faltarem evidências científicas que comprovem que esta intensificação da seca no Estado de Goiás é um fato definitivo e que os problemas estão associadas aos efeitos do aquecimento global, a situação é bastante didática – ela demonstra os impactos financeiros das mudanças climáticas. Se admitirmos, em tese, que os problemas no Distrito Federal são realmente frutos do aquecimento global, a queda no faturamento da CAERD seria a parte inicial dos prejuízos (ou pagamento da “fatura”, como eu costumo chamar); num segundo momento, a empresa fatalmente chegará a conclusão que pesados investimentos para a construção de novos sistemas produtores de água serão necessários.

O Planalto Central, região onde o Distrito Federal está inserido, fica estrategicamente no centro divisor das águas do Brasil, onde nascem os rios de três das mais importantes bacias hidrográficas brasileiras: os rios Tocantins/Araguaia, Paraná e São Francisco. Apesar disto, não existem grandes rios dentro do território do Distrito Federal – a eventual construção de um grande sistema produtor de água teria que ser realizada em terras do Estado de Goiás ou de Minas Gerais, algo que necessitaria de grandes volumes de dinheiro e esbarraria em inúmeros problemas de legislação. Um exemplo da complexidade deste tipo de obra: alguns rios formadores das represas do Sistema Cantareira em São Paulo tem nascentes localizadas a 160 km da capital paulista – para conseguir trazer a água até os consumidores na Região Metropolitana foi necessária a construção de diversos canais, tuneis e estações de bombeamento – haja dinheiro para fazer tudo isso. Há um detalhe nesta história: o Sistema Cantareira foi planejado e construído na época do Regime Militar (1964-1985), período em que a legislação ambiental era muito insipiente e os Generais simplesmente falavam  “- Faça-se”, sem qualquer questionamento dos subordinados. Nos dias atuais, as coisas não seriam nada simples.

Com o aquecimento global, teremos todos tempos difíceis pela frente e muitas “faturas” para pagar. Preparem-se todos.

 

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