PORTO DE SANTOS: NÃO PASSA BOI, NEM PASSA BOIADA

Navio Nada

Na minha última postagem falei da ópera-buffa caiçara em que se transformou a intervenção da Prefeitura de Santos na Ponta da Praia, conjunto de obras voltadas ao controle da erosão e das ressacas naquele trecho da costa. Na “apresentação” destacaram-se inúmeros bufões, que nas antigas performances desta forma popular de teatro eram comediantes grotescos, para se falar o mínimo. Felizmente, parece que se chegou ao ato final e as obras finalmente foram retomadas.

Simultaneamente, desta vez no Porto de Santos, se desenrolou uma espécie de “novela mexicana”. O folhetim contou com um elenco formado por “pseudos ecologistas”; juízes; veterinários; autoridades municipais, federais e portuárias; representantes consulares, além de uma boiada formada por aproximadamente 25 mil animais – o número é esse mesmo. Essa novela eu vou “explicar di cosstass” (me permitam um pouco de descontração – é que o sotaque da população de Santos lembra muito o da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro):

Um frigorífico da Turquia adquiriu um rebanho que chegaria a aproximadamente 27 mil cabeças de gado. Os animais seriam transportados vivos até aquele país em um navio cargueiro adaptado para o transporte de carga viva (vide foto), com embarque contratado a partir do Porto de Santos no Estado de São Paulo. Países e populações muçulmanas, como no caso da Turquia, adotam técnicas cerimoniais para o abate dos animais, contando inclusive com a presença de uma autoridade religiosa para supervisionar os trabalhos. Os muçulmanos tradicionalistas só consomem carne que atenda certos preceitos de sua religião – por isso, frigoríficos destes países optam pela compra dos bois vivos em diversas regiões do mundo. Os animais são transportados até as suas unidades de produção, onde realizam o abate tradicional islâmico, conhecido como abate Halal, que prima pelo bem-estar do animal e só pode ser realizado em áreas exclusivas e por açougueiros muçulmanos. Essa é uma prática que vem sendo adotada desde os primeiros tempos do Islã.

O porto de Santos é o maior em área e o que tem a maior movimentação de carga do país. Depois de amargar décadas de estagnação e ineficiência, a infraestrutura do porto passou por uma modernização geral, com reforma nos cais, depósitos, sistemas de transporte de cargas e de logística. Existem ainda uma série de problemas a serem resolvidos, especialmente a construção de vias de acesso exclusivas para o embarque/desembarque de cargas diretamente nas docas sem precisar cruzar a área urbana da cidade. O embarque de cargas vivas no porto foi retomado recentemente, depois de quase 20 anos de proibição – esse embarque de bois seria o segundo após a retomada dessa modalidade de operação em Santos em dezembro de 2017.

A megaoperação de transporte e embarque dessa quantidade enorme de animais não foi feita de uma hora para outra. Foram meses de preparação e planejamento envolvendo fazendas e transportadoras, contando com o apoio da CODESP – Companhia Docas do Estado de São Paulo, da ANTAQ – Agência Nacional de Transportes Aquaviários, MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, VIGIAGRO – Vigilância Agropecuária Internacional, Polícia Rodoviária Estadual, Concessionárias de Rodovias, entre outros. Os animais seriam embarcados em fazendas no interior de São Paulo, a cerca de 500 km do Porto de Santos, em carretas com 90 animais – o navio de transporte foi preparado para receber 3 carretas a cada hora e o tempo total das operações duraria no máximo 5 dias. O navio cargueiro designado para o transporte dos animais é específico para este fim, com adaptações para o transporte de carga viva em 12 decks (andares), contando 30 tripulantes, onde se incluem médicos veterinários e vaqueiros.

O embarque dos animais foi iniciado no dia 29 de janeiro e tudo ia bem até que um grupo de “ecologistas” defensores dos direitos dos animais organizou um bloqueio para impedir o acesso das carretas ao cais. Os manifestantes protestavam contra as más condições de transportes dos animais, os maus tratos que os animais já embarcados estavam sofrendo no navio cargueiro, do mal cheiro das fezes e urina exalado pelo cargueiro na região do porto, contra o abate de animais para o consumo humano e sabe-se lá mais o quê.

Como sempre acontece, o grupo possuía entre seus membros advogados e médicos veterinários, que já haviam preparado documentos e petição para o ingresso na Justiça Federal com o pedido de suspensão do embarque dos animais, embarque que já estava bastante adiantado. A petição alegava problemas de crueldade e maus tratos contra os animais em um embarque anterior e, na iminência destes problemas se repetirem, solicitaram a proibição do novo embarque de bois. A Justiça concedeu uma liminar ao grupo na noite do dia 31, proibindo o embarque dos animais – no dia seguinte, uma nova liminar da Justiça determinava o desembarque imediato de todos os animais.

Enquanto se desenrolou uma intensa batalha jurídica envolvendo os armadores do navio; autoridades portuárias, municipais, estaduais e federais; representantes da empresa e do consulado da Turquia no Brasil; Marinha e multas milionárias contra os responsáveis pelo transporte, as condições sanitárias dos animais já embarcados começaram a se deteriorar. Alheios aos problemas humanos e ao que o destino lhes reservava, os animais continuaram com suas vidas, comendo e produzindo dezenas de toneladas de estrume e milhares de litros de urina a cada dia. De acordo com informações passadas pelos tripulantes, o navio possui uma usina que realiza a dessalinização da água do mar, que é usada tanto para a dessedentação dos animais como para a limpeza dos “currais” – havia um, porém: essa usina só funciona com os motores de propulsão do navio em pleno funcionamento; com o navio parado no cais, começou a faltar água para todos estes usos.

Ao longo de vários dias, muitos manifestantes e “otoridades” conquistaram os seus “5 minutos de fama”, protagonizando reportagens grotescas nos mais diferentes telejornais regionais e nacionais. O desgastante processo de liberação do embarque dos animais, que só foi conseguido após a derrubada da liminar pela Justiça Federal no dia 4 de fevereiro, incluiu, inclusive, intervenções do Ministro da Agricultura e do Presidente da República. O navio partiu no dia 5 de fevereiro rumo a Turquia, com um total de 25 mil bois embarcados e com uma previsão de viagem de 16 dias.

Com a devida vênia ao direito de protesto desse grupo, quem mais sofreu com esta “presepada”, como dizemos aqui no meu bairro, foram os animais que eles supostamente estavam defendendo. Em uma próxima vez, sugiro que se organizem protestos na porta das fazendas, impedindo que os caminhões saiam de lá – assim, os “direitos dos animais” ficam devidamente preservados, com garantia de comida e água fresca na tranquilidade do campo.

Eu me considero um ambientalista de carteirinha, mas me recuso a endossar esse tipo de ação feita por estes “supostos ecologistas de rede social”, que adoram brincar com os “direitos” dos bois alheios, mas que provavelmente nem fazem a separação dos resíduos sólidos em suas casas. O mesmo direito que alguns têm de comer hambúrguer a base de soja, os outros têm para comer um filé bem suculento – seres humanos são onívoros há centenas de milhares de anos.

Agora, se existem problemas no transporte e embarque de animais em navios de carga, que se discuta e se resolva da maneira mais civilizada possível – os gritos dos Neandertais, há muito, fazem parte de um passado muito distante e obscuro da humanidade.

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