MOSQUITOS, MACACOS E MATAS: O PERIGOSO TRIÂNGULO DA FEBRE AMARELA

Floresta da Tijuca

Pesquisando sobre as doenças mais características deste século XXI, encontraremos listas que mostram males que poderíamos classificar como “doenças da alma”: estresse, depressão, fobias, anorexia, bulimia, obesidade, entre outras. Nos países de alto desenvolvimento econômico, que a muito tempo conseguiram resolver os problemas mais fundamentais da humanidade como alimentação e moradia. Na conhecida teoria da “Hierarquia das Necessidades de Maslow”, esses problemas se encontram na base da pirâmide, especialmente nos itens das necessidades fisiológicas e de segurança. Nas terras “abaixo da linha do Equador”, onde infelizmente se encontra o nosso país, somos obrigados ainda a conviver com doenças que já assolavam nossos trisavôs e tetravôs (ou tataravôs, como muitos preferem chamar) ainda no século XIX. Em resumo: gringos ricos sofrem de depressão e anorexia; nós, pobres tupiniquins, ainda sofremos e morremos de febre amarela, dengue, bicho de pé e espinhela caída.

Como não é possível mudar o nosso país para o Hemisfério Norte, lado do planeta onde ficam alguns dos países mais ricos, melhor tentarmos entender a “mecânica” de funcionamento de algumas das nossas doenças como a febre amarela e, assim, buscar soluções. E uma das formas para se entender isso é imaginar um triângulo, onde encontramos as principais causas dos surtos de febre amarela: o grande número de mosquitos urbanos e silvestres em circulação, que são os responsáveis pela transmissão do vírus; cidades crescendo sem planejamento e avançando perigosamente na direção de áreas de matas e, finalmente, populações de macacos vivendo muito próximas de agrupamentos humanos. No meio deste triângulo, as populações acuadas.

A primeira coisa que precisamos entender é que esse “triângulo” não foi construído nos últimos meses, quando os surtos de febre amarela começaram a pipocar no interior do Estado de Minas Gerais. Essa foi uma construção coletiva, resultado de nosso processo de urbanização e de desenvolvimento econômico, que começou nos primeiros tempos da nossa colonização. Nos primeiros 300 anos de nossa história, tínhamos como única finalidade gerar bens e produtos exportáveis para a nossa Metrópole – Portugal; nas palavras de Caio Prado Júnior, “nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde, ouro e diamantes, depois algodão, e em seguida café, para o mercado europeu”. Em décadas mais recentes, podemos incluir na lista minério de ferro, soja, suco de laranja e carnes. E toda essa produção se baseou na destruição e domínio das matas a ferro e a fogo e na superexploração da mão de obra, primeira formada por escravos e, depois, por trabalhadores “livres”. E foi exatamente esse “modelo de desenvolvimento econômico” que foi usado na formação de nossas cidades, especialmente no último século.

Vejamos o caso das duas maiores cidades brasileiras – São Paulo e Rio de Janeiro, que estão sofrendo com casos de febre amarela. As duas cidades cresceram desordenadamente, possuem grandes áreas de matas dentro de suas manchas urbanas – temos a Serra da Cantareira na Zona Norte de São Paulo e a Floresta da Tijuca ocupando uma grande área na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Em ambas as cidades encontramos macacos e mosquitos circulando por todos os lados. Uma vez formado o “triângulo” da febre amarela, não há muito o que fazer – as populações se tornam reféns da doença.

Existem diferenças nas áreas de matas das duas cidades – a Serra da Cantareira é um importante fragmento vegetal preservado dentro da Região Metropolitana de São Paulo. Desde o início da colonização do Planalto de Piratininga, a Serra da Cantareira já era famosa pelas abundantes fontes de água limpa, característica que colaborou muito para a sua conservação. Em tempos antigos, moradores iam com suas carroças buscar água na Serra – essas carroças tinham uma espécie de estante de madeira para apoiar os cântaros de barros usados para carregar a água – essas estantes recebiam o nome de “cantareiras” – vem daí o nome dado ao lugar. Com o forte crescimento da cidade de São Paulo a partir da segunda metade do século XIX, a Serra da Cantareira foi transformada no principal manancial de abastecimento da cidade. O atual Sistema Cantareira, maior manancial de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, fica numa região um pouco mais ao Norte, já fora da Serra da Cantareira, mas manteve o mesmo nome.

A Floresta da Tijuca, ao contrário, é uma floresta que foi totalmente replantada a partir de 1870. A região havia sido completamente devastada para a implantação de grandes fazendas voltadas à produção de cana-de-açúcar, que depois se especializaram na produção de café. Com o rápido crescimento do Rio de Janeiro após a chegada da Família Real Portuguesa em 1808, a cidade começou a sofrer fortemente com a falta de água. As secas e 1822 e de 1823 foram particularmente devastadoras. Em meados do século XIX, por ordem do Imperador dom Pedro II, grandes extensões de terra na região da Tijuca foram desapropriadas com vistas ao futuro reflorestamento e recuperação de nascentes de água. Um pequeno grupo de trabalhadores, sob o comando do Major Manuel Gomes Archer, ficou encarregado de plantio de mais de 100 mil mudas de árvores, que após 13 anos de trabalho formariam a atual Floresta da Tijuca.

Além de abrigar importantes reservas de vida vegetal, as áreas florestais urbanas das duas metrópoles se consolidaram como refúgios naturais da vida silvestre, abrigando importantes comunidades de animais nativos da Mata Atlântica, especialmente saguis, micos e outros macacos. A proximidade das áreas urbanizadas com suas “interessantes” trilhas aéreas formadas pelas redes elétricas e de telecomunicações nos postes, foi irresistível para os curiosos e inteligentes símios, que pouco a pouco começaram a colonizar os bairros mais arborizados das duas cidades. Em meu bairro, que fica a pelo menos 25 km de distância da Serra da Cantareira, existem dezenas de saguis de tufo preto circulando entre as árvores das diversas praças através das cabeações de telefonia e de energia. Porém, o que era até pitoresco e simpático até alguns meses atrás, agora se transformou em preocupação – os simpáticos macaquinhos foram transformados em vilões nas duas cidades – muitos deles, inclusive, acabaram mortos a paus e pedras por alguns moradores.

Completando o caótico e complexo quadro ambiental das duas cidades, sobram problemas na área de saneamento básico, especialmente nos serviços de coleta e de tratamento de esgotos, manejo de águas pluviais e também na gestão dos resíduos sólidos. Como consequência destas deficiências, há uma verdadeira profusão de mosquitos urbanos, especialmente o sempre presente Aedes aegypti, além de mosquitos silvestres nas áreas lindeiras das regiões de mata – está formado o “triângulo” da febre amarela, que está deixando todos os cidadãos destas cidades com o cabelo em pé.

Em minhas últimas postagens, tenho repetido insistentemente (chegando até aos limites da chatice) estas informações, as quais acredito serem fundamentais para o entendimento real da situação neste momento de “emergência de saúde”. Somente a partir do compreensão das causas principais do avanço da febre amarela em nossas cidades, é que iremos encontrar soluções definitivas para o problema. Se não for assim, vamos ficar correndo indefinidamente atrás de macacos e mosquitos no meio da mata, sem acabar definitivamente com a doença.

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