A REGIÃO SEMIÁRIDA COM O MAIOR NÚMERO DE HABITANTES DO MUNDO

Petrolina e Juazeiro

Na região do deserto do Saara, conforme comentado em post anterior, vivem aproximadamente 2,5 milhões de pessoas dentro de uma área com 9,2 milhões de km². Na Região do Semiárido brasileiro vivem 23,5 milhões de pessoas numa área com 925.043 km², equivalente a 10% do Saara. Antes de nos aprofundarmos nestes números e demonstrarmos o problema da superpopulação no nosso semiárido, é importante informar que a região do Saara não é formada apenas pelas gigantescas dunas de areia mostradas nos antigos filmes da Legião Estrangeira francesa. No Saara existe um enorme mosaico de ecossistemas diferentes, que vão de campos de savanas às dunas de areia, incluindo-se áreas de semiárido muito parecidas com a nossa caatinga, oásis verdejantes no meio do nada, vales profundos onde correm pequenos rios e até altas montanhas com picos nevados – sempre chove um pouco por todos os lados e de vez em quando até cai neve em alguns lugares do Saara.

O semiárido brasileiro possui um enorme rebanho com todos os tipos de animais domésticos pastando nos limitados campos, caatingais, brejos, tabuleiros e outras formas múltiplas de vegetação que formam um imenso mosaico de ecossistemas. O nosso bom e velho Rio São Francisco atravessa e divide ao meio toda esta região semiárida – tudo o que acontece nestes sertões afeta, direta ou indiretamente a grande bacia hidrográfica do grande rio. Todas as práticas de agricultura e pecuária, mineração, extrativismo dos mais diversos, ocupações urbanas de tamanhos diferentes, enfim – todos os usos e abusos ambientais que se desenvolveram por todos os cantos da região do semiárido, são encontradas também nas margens de todos os riachos e rios que alimentam o Velho Chico: é por isto que tenho falado tanto de toda esta região.

A caprino-ovinocultura é a principal atividade agropecuária do sertão nordestino. A produção de caprinos, animais de pequeno porte extremamente adaptáveis às condições mais adversas impostas pelo clima, se moldou perfeitamente aos sertões semiáridos nordestinos, que detém o maior rebanho dessa espécie no Brasil, com aproximadamente 9 milhões de animais, mesmo número do rebanho de ovinos da região. O rebanho bovino no Nordeste tem aproximadamente 30 milhões de cabeças, grande parte vivendo em áreas do semiárido. Ainda é preciso incluir neste cálculo um rebanho com, talvez, 700 mil cavalos e de 900 mil asnos, onde estão incluídos os bons e velhos jumentos, burros e mulas que já foram os companheiros de vida e de trabalho de muitos nordestinos. Algo entre 15% e 20% destes rebanhos vivem na região da bacia hidrográfica do Rio São Francisco.

Das mais de 15 milhões de pessoas que vivem dentro da região da bacia hidrográfica do Rio São Francisco, pelo menos 30% vivem dentro da região do semiárido nordestino, o que representa quase o dobro da população que vive na região do deserto do Saara e transforma o nosso semiárido no mais habitado de todo o mundo. A exceção de municípios como Petrolina em Pernambuco (vide foto), com 338 mil habitantes, e Juazeiro e Barreiras na Bahia, com 200 mil e 138 mil habitantes respectivamente, a bacia hidrográfica do Velho Chico nos domínios do semiárido é formada por centenas de municípios com populações abaixo dos 40 mil habitantes, distribuídos em pequenas cidades, vilas e povoados dispersos por uma gigantesca região. Por todos os cantos se encontram pequenas propriedades rurais familiares, com seus pequenos roçados de subsistência e suas criações de bois, bodes e ovelhas. Em cada uma dessas pequenas propriedades são feitas queimadas frequentes para a preparação do solo para mais um plantio; há coleta de lenha para uso nas cozinhas, muitas vezes sendo necessária a derrubada de árvores; os rebanhos pastam soltos pelos campos comendo tudo o que está disponível para se comer; para a construção e manutenção das suas casas ou para realizar seus ofícios, os sertanejos usam as matérias primas disponíveis ao seu redor. Somando-se todos os bichos e gentes espalhados por todos os recantos da extensa bacia hidrográfica do Rio São Francisco no semiárido, são muitas bocas para se alimentar – bocas de gentes e de bichos, dentro de um ecossistema com tantas limitações.

Essa superexploração dos recursos naturais do semiárido se refletem no Rio São Francisco – a redução sistemática no volume dos caudais do rio é indicativo do uso intensivo das águas nas centenas de afluentes da bacia hidrográfica; o assoreamento que se vê por todos os recantos ao longo do seu curso mostra que as matas ciliares de todos esses afluentes sofrem com o intenso desmatamento, com práticas agrícolas insustentáveis e com mineração descontrolada nas terras ao longo das suas margens; a baixa qualidade das suas águas mostra que cidades e vilas captam grandes volumes de águas frescas e limpas dos rios e devolvem esgotos sem qualquer tipo de tratamento – resíduos sólidos de todos os tipos, despejados por essas vilas e cidades em lixões improvisados, sempre acabam alcançando as águas de algum afluente e chegam por fim na grande calha do São Francisco.

O Rio Colorado, que recebeu uma imensa quantidade de obras de canais de irrigação e represas para o armazenamento e regularização das suas águas antes que se permitisse a instalação de milhões de habitantes para colonizar e ocupar as terras semiáridas do Sudoeste americano, está literalmente secando pelo uso abusivo das suas águas. A bacia hidrográfica do Rio São Francisco, ao contrário, vem absorvendo e sustentando ao longo de séculos gigantescos contingentes de pessoas e de rebanhos sem qualquer planejamento ou obras de infraestrutura – não poderia se esperar outra coisa senão a destruição e o desaparecimento lento de suas águas. Quando constatamos hoje que o nível da represa de Sobradinho no Norte da Bahia está em pouco mais de 15% de sua capacidade total de armazenamento, não podemos simplesmente jogar a culpa na falta de chuvas – é necessário que se inclua na equação todos esses usos e abusos das águas e ecossistemas em toda a bacia hidrográfica do Velho Chico.

Todos esses problemas, porém, não ocorrem simplesmente na região do semiárido nordestino – eles começam longe, já nas cabeceiras dos rios na região das Geraes. Trataremos disto no próximo post.

SUPERPOPULAÇÃO DE BICHOS E GENTES NO SEMIÁRIDO NORDESTINO

Cabra sertaneja 4

Na sequência de postagens publicadas no último mês, foram apresentados vários casos de corpos hídricos em diversas partes do mundo em estresse (ou stress) extremo, onde a combinação de alterações climáticas, superexploração das águas e destruição dos biomas está resultando em situações de colapso: o Mar de Aral e o Lago Chade praticamente desapareceram; o Mar Morto que já perdeu 40% de suas águas; falamos dos riscos iminentes que ameaçam o maravilhoso delta do rio Okavango; do Lago Poopó que secou completamente e do Lago Titicaca que lentamente começa a secar e preocupa os bolivianos e peruanos; nos Estados Unidos, mostramos o caso do Rio Colorado, o mais importante da região Sudoeste do país, que apresenta um volume de água cada vez menor para atender uma demanda que não para de crescer. Partindo desses exemplos, passamos a analisar a situação do nosso Rio São Francisco, que sofre intensamente com toda uma série de problemas ambientais, indo desde a redução no volume dos caudais até o assoreamento de canais, desaparecimento de inúmeras espécies de peixes, contaminação das águas por rejeitos de mineração e esgotos, entre outras agressões ambientais. Uma das causas que está na raiz dos problemas ambientais que ameaçam o Velho Chico é a superpopulação de bichos e gentes em sua bacia hidrográfica, um problema com origens históricas e que não para de aumentar em nossos dias.

Repetindo o que já falamos por diversas vezes, o povoamento da região do semiárido começou nas primeiras décadas da colonização do Brasil, quando os bois foram expulsos da região dos canaviais – uma carta régia publicada pelas autoridades da colônia previa sérias penalidades à criação de gado a menos de 60 quilômetros do litoral. Expulsos da costa, homens e bois foram penetrando sertões a dentro, descobrindo em poucos anos o vale do Rio São Francisco, que viu suas margens ficarem cheias de fazendas e de boiadas. Nas estradas criadas para levar as boiadas para venda no litoral, foram surgindo pequenos povoados e, em poucas décadas, todos os recantos dos sertões estavam cheios de gentes e de rebanhos. Os criadores perceberam já nos primeiros anos que os escassos campos entre os caatingais eram insuficientes para suprir a alimentação dos animais e se começou a prática de queimar as árvores para se aumentar, artificialmente, as áreas de campos. Com o crescimento dos rebanhos por toda a região do semiárido, essa prática se generalizou e já provocou alterações em mais de 70% da área da caatinga; em diversas regiões estão surgindo manchas de desertificação devido a superexploração dos solos provocada pelo excessivo número de rebanhos. O número de habitantes no semiárido também cresceu enormemente – quanto maior o número de habitantes e de animais, maior a pressão ecológica sobre a vegetação e as águas do bioma. Para que você entenda o que é essa pressão ecológica, vamos demonstrar o exemplo do custo ambiental para a criação de animais:

De acordo com informações de especialistas em zootecnia e em agronomia, é necessário 1 hectare de pastagem para atender as necessidades nutricionais de 5 a 15 kg de peso vivo – isso significa que uma cabra com um peso de 60 kg vai necessitar de, pelo menos, 4 hectares ou 40 mil m² de pastagem para sobreviver – isso corresponde a área de 4 campos de futebol no padrão FIFA. Essa grande área é necessária para que o ambiente tenha tempo para se recuperar, ou seja, enquanto a cabra come a vegetação em um lado deste campo, a vegetação do outro lado terá tempo para crescer e se regenerar. Um boi magro, para efeito de comercialização, tem um peso de 360 kg e vai necessitar de uma área de pastagem bem maior – 24 hectares ou 244 mil m². Observe que este cálculo foi feito usando o valor mais baixo do consumo – 5 kg de peso vivo/hectare: o valor mais alto é três vezes maior. Se você por acaso já teve oportunidade de viajar pela região do semiárido nordestino, lembrará de ter visto rebanhos com dezenas e mais dezenas de cabras, bodes, carneiros e bois pastando em área bem menores do que a recomendação dos especialistas, o que lhe dá uma ideia da sobrecarga no bioma.

Existe um diferencial importante no comportamento dos animais que precisa ser demonstrado neste exemplo: em situações extremas, quando as fontes de alimentação se esgotam, bovinos e caprinos tem atitudes distintas. Pelas suas características físicas, os bovinos só conseguem comer o que está ao alcance de sua boca: quando não conseguem acessar estes alimentos, os bois passam fome. Com os caprinos, a coisa é diferente: depois que a grama ou as ervas rasteiras foram completamente consumidas, os caprinos cavam o solo na busca de qualquer vestígio de raiz; escaladores habilidosos, os caprinos conseguem chegar aos mais surpreendentes lugares no alto de encostas, rochas ou árvores, consumindo até a última folha ou ramo de vegetação disponível. Os caprinos também conseguem comer as cactáceas cobertas de espinhos sem maiores dificuldades. Esse consumo até a exaustão extrema da vegetação é o primeiro passo para a desertificação de um solo.

Pessoas também tem todo um conjunto de necessidades fundamentais de água e alimentos e, como são infinitamente mais inteligentes do que as cabras e os bois do sertão. Em situações de extrema escassez vão utilizar de todas as suas habilidades e energias para explorar o meio ambiente ao máximo para conseguir satisfazê-las. E olhe que estamos falando de um universo de mais de 23 milhões de habitantes na região do semiárido.

No próximo post vamos falar destas populações humanas do semiárido.

SAARA: O MAIOR DESERTO DO MUNDO

Saara - Lucas Galuzzi

Quando falamos em deserto, é praticamente impossível não lembrarmos imediatamente do Saara, o maior deserto do mundo. Com mais de 9,2 milhões de km² de área total, ocupa uma superfície 10% maior que todo o território brasileiro, que tem 8,5 milhões de km². O Saara se estende por todo o Norte da África, englobando um total de 12 países: Argélia, Chade, Egito, Líbia, Mali, Mauritânia, Marrocos, Níger, Saara Ocidental, Sudão, Sudão do Sul e Tunísia. A população somada de todos estes países está próxima dos 290 milhões de habitantes, porém na região do Saara vivem aproximadamente 2,5 milhões de pessoas. Caso você se recorde, eu comentei em um dos posts anteriores que na Região do Semiárido brasileiro vivem 23,5 milhões de pessoas, numa área equivalente a 10% do Saara – é importante ter esses dados em mente para que você consiga entender uma das causas primárias da desertificação de grandes áreas do semiárido: a superpopulação.

Há cerca de 20 mil anos atrás, após o último período de Glaciação ou Era do Gelo, como é mais conhecida popularmente, o Norte da África apresentava um clima mais úmido e com temperaturas mais baixas que as atuais, contanto com diversos rios permanentes – o famoso Rio Nilo, que hoje atravessa o Egito de Sul a Norte e deságua no Mar Mediterrâneo, naqueles tempos atravessava todo o Norte da África e tinha a sua foz no Oceano Atlântico. Grande parte do território que hoje se encontra soterrado por dezenas de metros de dunas de areia seca era coberto por densas florestas – as partes “mais secas” eram cobertas por vegetação de savana, muito parecida com o nosso Cerrado. Todos os animais africanos que você costuma ver nos documentários como elefantes, girafas, zebras, antílopes, rinocerontes, hipopótamos, macacos e aves de todos os tipos se espalhavam por todo esse território. Pinturas rupestres deixadas pelos antigos habitantes da região em pedras espalhadas por todo o deserto do Saara mostram cenas onde aparecem todos esses animais. Se você pudesse viajar no tempo e desembarcar no meio desse território, nada lhe lembraria a imagem atual do Saara.

Esse clima e vegetação permaneceram inalterados até um período entre 8 e 10 mil anos atrás, quando o nosso planeta sofreu um a leve alteração no seu eixo de rotação, que foi suficiente para alterar a incidência solar no Norte da África e provocar uma alteração climática nos regimes de umidade e temperatura. Alguns cientistas afirmam que essa mudança ocorreu a menos tempo, há cerca de 5 mil anos atrás, mas com as mesmas consequências – as florestas retrocederam lentamente até desaparecer e as áreas de savana se ampliaram. É aqui que entra em cena uma tese interessante, resultado de uma série de pesquisas publicadas nos últimos anos (a pesquisa mais recente foi publicada no último mês de março), para a qual devemos prestar atenção: o processo de desertificação do Norte da África que levou ao surgimento do Saara foi acelerado por ações humanas – evidências arqueológicas indicam que o avanço da criação e pastoreio de animais a partir de 10 mil anos atrás foi acompanhado de um processo de substituição de trechos de matas por pastagens (qualquer semelhança com a queima de árvores da caatinga para a formação de campos não é mera coincidência). Sem a proteção dessas matas e com o avanço das mudanças climáticas naturais e de redução das chuvas, essas regiões tiveram um processo mais rápido de desertificação. O resto é história e geografia.

Estudos científicos desta magnitude, envolvendo uma região tão grande e complexa, é claro, vão necessitar de muitos e muitos anos mais para aprofundar as pesquisas e comprovar todos os resultados nos campos da arqueologia, geologia, botânica, zoologia, geografia física e humana, meteorologia e climatologia, história entre outras ciências. Porém, a analogia entre uma ancestral superexploração dos recursos naturais de áreas de antigas savanas no Norte da África e os processos de desertificação observados em áreas da Região do Semiárido brasileiro devem servir como um alerta. Como descrito no post anterior, as áreas em processo de desertificação grave no Brasil já somam 230 mil km² somente em áreas da caatinga, além de uma área com 69 mil km² na região Norte do Estado de Minas Gerais – lembrando que estas duas regiões concentram a maior parte da bacia hidrográfica do Rio São Francisco. A derrubada de árvores dos caatingais e do agreste para uso da madeira e da lenha, as queimadas para preparação do solo para agricultura e para formação de pastos, além da criação extensiva de animais – principalmente os caprinos, são ações humanas que, comprovadamente, estão transformando terrenos férteis em áreas desérticas, onde os solos ficam imprestáveis para agricultura e formação de pastos. Muitos de vocês podem até pensar que este processo de desertificação se deve as poucas chuvas que caem nestas regiões – a precipitação média anual de chuvas na nossa Região do Semiárido está entre 200 mm e 400 mm, superior àquela de cidades importantes como Barcelona e Paris, e muito acima da precipitação média no Deserto do Saara, que se situa entre 100 e 150 mm de chuva durante o ano.

A soma de todos estes problemas ambientais somado à superpopulação que vive na Região do Semiárido colocam o Rio São Francisco cada vez mais sob estresse (ou stress) – toda a região da sua bacia hidrográfica está com seus biomas sob severa pressão ambiental e as necessidades de água da população não param de aumentar. É uma conta que hoje já não fecha e tem todos os componentes para piorar a longo prazo.

A DESERTIFICAÇÃO E OS RISCOS PARA O SEMIÁRIDO NORDESTINO E O NORTE DE MINAS GERAIS

Desertificação

Ao longo de toda uma sequência de publicações foi possível mostrar todo um conjunto de problemas ambientais que, desde os tempos do início da nossa colonização, estão degradando e destruindo gradativamente o nosso bom e velho Rio São Francisco. Se você leu e prestou atenção nos textos, o que vem acontecendo com as águas do Velho Chico é, em grande parte, reflexo das agressões antrópicas aos diversos biomas das áreas da bacia hidrográfica: problemas ligados ao desmatamento, mineração, lançamento de esgotos e agricultura entre outros; problemas exclusivos nas águas estão ligados aos muitos represamentos feitos para a construção de hidrelétricas, criados sem maiores preocupações com os impactos ambientais. De todos os biomas atravessados pelas águas do Rio São Francisco, a caatinga é o ambiente mais alterado e degradado, onde os problemas estão atingindo uma proporção catastrófica em várias regiões: a desertificação.

De acordo com a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, a definição deste fenômeno “é a degradação da terra nas regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, resultante de vários fatores, entre eles as variações climáticas e as atividades humanas”. Em diversas regiões do mundo estão ocorrendo diversos processos de desertificação – no Brasil, a Região Nordeste é a que apresenta um maior número de áreas afetadas gravemente por processos de desertificação, onde se estima um total de 230 mil km² de áreas da caatinga em processo extremo de desidratação (graves ou muito graves), estágios em que os solos tendem a se tornar imprestáveis para qualquer uso. No Norte do Estado de Minas Gerais, existe uma área de 69 mil km² em risco extremo de desertificação, englobando um total de 59 municípios nas regiões do Vale do Jequitinhonha e Mucuri. Para que você tenha ideia da área total destas duas regiões em risco graves ou muito graves de desertificação, ela é maior que a soma das áreas dos Estados de São Paulo (248 mil km²) e Rio de Janeiro (43,7 mil km²). Se consideradas todas as áreas do país em risco de desertificação, incluindo-se aquelas em risco inicial, baixo e intermediário, chegamos aos 900 mil km².

O Estado de Alagoas é um dos mais afetados pelo processo, com 62% dos municípios apresentando áreas em processo de desertificação, sendo que os casos mais graves são encontrados nos municípios de Ouro Branco, Maravilha, Inhapi, Senador Rui Palmeira, Carneiros, Pariconha, Água Branca e Delmiro Gouveia. No Estado da Bahia, uma área com extensão de 300 mil km² no sertão do São Francisco tem solos que já não conseguem reter água, sinal de alerta para o risco de desertificação; os municípios ribeirinhos do Rio São Francisco de Petrolina, em Pernambuco, e de Paulo Afonso, na Bahia, têm áreas mapeadas em estado crítico de desertificação, que ameaçam, respectivamente, 290 mil e 108 mil habitantes. Estes são apenas alguns números deste gravíssimo processo de destruição dos solos.

Além das áreas nos antigos domínios da Zona da Mata nordestina, o desmatamento afetou fortemente as áreas da caatinga e do agreste, onde as árvores foram queimadas sucessivamente para ampliação dos campos para a pastagem dos bois, tema que tratamos em postagens anteriores. Além dessa destruição progressiva e histórica, a vegetação restante continua sofrendo sistematicamente desmatamentos para exploração da madeira, usada como material para a construção de casas e para a fabricação de móveis, portas e janelas; como lenha (que responde por 30% da energia utilizada na Região Nordeste) e até mesmo para uso como mourões de cercas de arame farpado. Em décadas passadas, milhares de árvores da região da caatinga foram derrubadas para a fabricação de dormentes para as ferrovias construídas na região – para que você tenha ideia do que foi a destruição causada por essas obras, calcula-se que cada quilômetro de trilhos assentados utilizou dormentes construídos com a madeira de 500 árvores.

Além dos impactos causados pela destruição das matas a “ferro e a fogo”, como costuma se dizer, existe uma causa importante de desertificação nem sempre levada muito a sério: os rebanhos de cabras e bodes do sertão. O botânico Alberto Loefgren (1854-1918), sueco de nascimento e depois radicado no Brasil, estudando a devastação das árvores e das matas nas terras do Ceará, atribuiu um papel importante nesta degradação vegetal aos rebanhos soltos na região:

“Outro fator não desprezível na devastação das matas, ou pelo menos para conservar a vegetação em estado de capoeira, são as cabras. Sabe-se quanto este animal é daninho para a vegetação arborescente e arbustiva e como a criação de cabras soltas no Ceará é, talvez, maior que a do gado, sendo fácil imaginar-se o dano que causa à vegetação alta”.

Além da retirada de lenha e das cabras, a degradação dos biomas que levam à desertificação continua a ocorrer diariamente: vegetação e terra sofrem com queimadas frequentes para preparação dos solos para agricultura e para pecuária, destruição de matas que protegem as nascentes e os rios do assoreamento e até os sistemas de irrigação, que captam água em excesso, comprometendo cursos d’água e causando salinização do solo, além da mineração e extração de argila do leito de rios para abastecer a indústria de cerâmica. Os solos desertificados que surgem, tem suas areias carregadas pelos ventos e pelas águas das poucas chuvas, contribuído cada vez mais para o assoreamento dos raros rios permanentes da região, como o Rio São Francisco.

Continuamos no próximo post.

A QUEIMA DA CAATINGA NORDESTINA PARA A FORMAÇÃO DE CAMPOS DE PASTAGEM

Caatinga

Para quem não é sertanejo da gema, especialmente os nascidos nas regiões sul e sudeste, falar em caatinga traz imediatamente à memória as imagens de árvores retorcidas e secas, cercadas de gado magro e secura por todos os lados. No meu caso, essa imagem foi formada quando criança, primeiro pela leitura do livro, depois assistindo ao filme Vidas Secas, um clássico de nossa literatura – a saga do personagem Fabiano e de sua família fugindo da seca, seguidos de perto pela cachorra Baleia, foi marcante. Essa imagem caótica e idealizada da seca na região da caatinga fica ainda mais difícil de ser entendida quando se ouvem os relatos das belezas e da fartura do mesmo sertão pelas palavras dos muitos sertanejos que vivem nas grandes cidades, especialmente em São Paulo, lar de uma das maiores concentrações de nordestinos por quilômetro quadrado em todo o mundo. Vamos tentar mostrar o que é a Caatinga e os seus problemas:

A Região do Semiárido (ou Domínio da Caatinga) compreende 925.043 km², ou seja, 55,6% do Nordeste brasileiro. Estima-se que uma população de 23,5 milhões habite a região (dados de 2014). A Caatinga é uma região semiárida única no mundo, sendo, provavelmente, o bioma brasileiro mais ameaçado e já transformado pela ação humana. Engloba áreas dos estados nordestinos do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas e Bahia, possuindo o mais baixo índice pluviométrico do território brasileiro. Uma microrregião do Norte do estado de Minas Gerais, também de clima semiárido é associada ao sertão Nordestino numa conceituação geográfica conhecida como Polígono das Secas.

A vegetação, em função do clima e dos tipos de solo, pode ser dividida, de forma muito rudimentar em três áreas: o agreste, a caatinga e o alto sertão. Cada uma destas áreas possui uma quantidade imensa de subdivisões dos tipos de vegetação, formando biomas independentes e completos. Pela sua maior extensão e importância, vamos nos concentrar nas zonas da caatinga. Ao contrário da imagem estereotipada de árvores eternamente secas e retorcidas, a vegetação do sertão é altamente especializada em função do clima e acompanha a disponibilidade da água: quando chove, a vegetação se apresenta verdejante – já em épocas de seca, as folhas das árvores caem como forma de conservar a energia das plantas e se sobressaem as cactáceas como o mandacaru, o xiquexique e a coroa-de-frade. Um exemplo da adaptação da vegetação do sertão é a babugem, uma vegetação rasteira de rápido crescimento, que em poucos dias pinta o chão da caatinga de verde, a cor da esperança – o sertão renasce das cinzas tal qual a mitológica fênix. A foto que ilustra este post mostra uma área da caatinga no Rio Grande do Norte após uma boa temporada de chuvas.

Conforme já comentado em postagens anteriores, os conflitos entre bois e canaviais resultou na expulsão das boiadas rumo ao sertão nordestino, um ecossistema extremamente rico em espécies animais e vegetais adaptadas a uma condição climática específica e com estoques de recursos hídricos bem inferiores aos da Zona da Mata. A chegada de imensos rebanhos de bois, um animal de grande porte e com grandes necessidades calóricas e de água, teve impacto imediato na caatinga, que mostrou não possuir recursos naturais suficientes para absorver e manter tal volume de criaturas. Percebendo desde cedo que faltavam pastagens para tantos bois, esses primeiros boiadeiros adotaram uma prática nefasta do ponto de vista ambiental: grandes queimadas foram feitas na região dos caatingais com o objetivo de ampliar os horizontes e permitir a ampliação das áreas de campo – ou seja, aumentar as áreas de pastagens para a criação e engorda de rebanhos de bois, cabras, bodes, ovelhas e de toda espécie de equinos e muares. Simples assim.

É praticamente impossível saber a condição da região da caatinga antes da chegada das grandes boiadas – nunca houve nenhuma grande expedição cientifica aos sertões para estudos da flora e da fauna nos primeiros tempos da colonização. As primeiras expedições exploratórias que alcançaram o sertão Nordestino, ainda nos primeiros tempos da colonização, buscavam especialmente ouro e pedras preciosas. Encontraram uma terra de clima e vegetação bastante diferente da luxuriante vegetação da Mata Atlântica litorânea, tribos indígenas hostis e nenhuma evidência de ouro ou pedras preciosas. O que se pode afirmar com absoluta certeza é que a aridez extrema que encontramos em algumas partes da região do semiárido atualmente não é natural – foi provocada e/ou ampliada pelas ações humanas ao longo dos últimos séculos. Preste atenção neste depoimento de Euclides da Cunha (1866-1909):

“Ainda em meados deste século, no atestar de velhos habitantes das povoações ribeirinhas do S. Francisco, os exploradores que em 1830 avançaram, a partir da margem esquerda daquele rio, carregando em vasilhas de couro indispensáveis provisões de água, tinham, na frente, alumiando-lhes a rota, abrindo-lhes a estrada e devastando a terra, o mesmo batedor sinistro, o incêndio. Durante meses seguidos viu-se no poente, entrando pelas noites dentro, o reflexo rubro das queimadas.”

Diferente dos desmatamentos na Zona da Mata nordestina e mineira, onde há um volume muito maior de chuvas, a destruição de grandes trechos da caatinga provocou um menor carreamento de sedimentos para a bacia hidrográfica do Rio São Francisco. Porém, a destruição dos caatingais e a superexploração dos solos na formação de pastagens criou um outro gravíssimo problema: a desertificação e a erosão dos solos arenosos pelos ventos.

Falaremos disto no próximo post.

A DESTRUIÇÃO DAS MATAS E DAS FONTES DE ÁGUAS

Derrubada de Mata - Rugendas

Por mais estranho que possa parecer hoje aos nossos ouvidos, acostumados que estamos a ouvir relatos sobre seca no sertão nordestino e problemas no abastecimento de água nas grandes capitais da região, a água era um elemento dominante e abundante na faixa litorânea do Nordeste, o que foi fundamental para a implantação da cultura da cana-de-açúcar. Essa cultura é dependente dos rios, riachos e chuvas que lhe fornecem água para o desenvolvimento das plantas; os engenhos dependiam da força das águas para mover as moendas e das suas vias fluviais para o transporte das canas cortadas dos campos para os centros de produção. Todos os registros históricos dos antigos engenhos nordestinos, como este de Gilberto Freire, sempre citam o nome de algum rio:

“Rios do tipo do Beberibe, do Jaboatão, do Una, de Serinhaém, do Tambaí, do Tibiri, do Ipojuca, do Pacatuba, do Itapuá. Junto deles e dos riachos das terras de massapê se instalaram confiantes os primeiros engenhos. Rios às vezes feios e barrentos, mas quase sempre bons e serviçais, prestando-se até a lavar os pratos das cozinhas das casas-grandes e as panelas dos mucambos (ou Mocambos).”

Com a destruição das matas a ferro e a fogo (a imagem que ilustra este post é uma gravura do pintor alemão Rugendas, que mostra a derrubada de um trecho da Mata Atlântica no início do século XIX), a qualidade e a disponibilidades das águas dos rios da Zona da Mata nordestina entrou em um processo rápido de declínio. Foi iniciado um ciclo de destruição: sem a presença da floresta úmida com suas inúmeras árvores e raízes, as águas das chuvas não conseguem se infiltrar nos solos para a recarrega dos aquíferos que alimentam as inúmeras nascentes, o que reduz o volume de água para os rios tributários; sem essa recarga, muitas nascentes simplesmente secam; sem a proteção das matas ciliares, a erosão do solo pelas chuvas tropicais leva embora em poucos anos a grossa camada de húmus que a natureza levou milhares de anos para formar, impedindo assim o nascimento e desenvolvimento de novas árvores. A descrição a seguir é de Josué de Castro no clássico livro “Geografia da Fome”:

“O homem moderno aperfeiçoou dois inventos capazes de aniquilar por completo a civilização. Um deles é a guerra total, o outro é a erosão mundial do solo. Dos dois, o mais insidioso e fatalmente destrutivo é, sem nenhuma dúvida, a erosão. A guerra desequilibra ou destrói o meio social que é matriz da civilização; a erosão do solo destrói o meio natural que constitui o seu fundamento. A guerra é mais espetacular porque faz ruir cidades, tronos e potências. Mas estas coisas podem ser refeitas. A erosão do solo que, virtualmente, vai destruindo ou arrasando as terras, das quais dois bilhões de indivíduos (texto escrito em 1945) dependem para seu pão de cada dia, alcança uma etapa irreversível na qual o homem e as suas obras serão enterrados sob as areias amontoadas do esquecimento”.

Relatos de antigos cronistas e viajantes que passaram pelas terras do litoral do Nordeste nos primeiros tempos da cultura canavieira ou pelos antigos sertões da Zona da Mata mineira no início do ciclo do ouro, falam de rios caudalosos que antes só podiam ser atravessados de canoa – em nossos dias, esses mesmos rios podem ser atravessados facilmente a pé graças ao contínuo assoreamento e entulhamento dos seus leitos. Eu tenho relatos familiares muito parecidos de rios em Mato Grosso do Sul, como o Rio Coxim, que na década de 1950 era caudaloso e profundo e que hoje pode ser atravessado com água na altura dos joelhos – à semelhança da Zona da Mata nordestina e mineira, as antigas florestas de Mato Grosso também sucumbiram ao machado e a motoserra  e os rios da região hoje pagam o preço do assoreamento.

Nas palavras de Gilberto Freire, as águas límpidas e transparentes que permitiam os banhos de rio, as lavagens de roupas e louças transformaram-se em esgotos:

“O monocultor rico do Nordeste fez da água dos rios um mictório. Um mictório de caldas fedorentas de suas usinas. E as caldas fedorentas matam os peixes. Envenenam as pescadas. Emporcalham as margens. A calda que as usinas de açúcar lançam todas as safras nas águas dos rios sacrifica cada fim de ano parte considerável da produção de peixes no Nordeste.”

Na Zona da Mata mineira a situação não foi muito diferente. Os resíduos e rejeitos da mineração foram carreados para os leitos dos rios e acabaram por envenenar as águas com os mais diferentes tipos de metais, alguns altamente tóxicos como o mercúrio, o níquel, o cádmio e o chumbo; em tempos mais modernos, com o crescimento das cidades e a instalação das grandes indústrias, os rios passaram a receber grandes cargas de esgotos domésticos e industriais. Um exemplo dessa degradação é o Rio das Velhas, um dos mais importantes afluentes do Rio São Francisco, que sofre com o assoreamento, com a destruição das poucas matas ciliares que restaram, com o despejo de esgotos da região Metropolitana de Belo Horizonte e de resíduos de mineração vindos de todos os cantos da sua bacia hidrográfica, apresentando águas malcheirosas e muito degradadas.

Como resultado do intenso e histórico desmatamento de grandes áreas da Zona da Mata, especialmente no Estado de Minas Gerais, o Rio São Francisco tem hoje um volume cada vez menor de água correndo pela sua calha altamente assoreada e entulhada. Essa água, além de pouca, apresenta uma baixa qualidade, com grandes volumes de esgotos e contaminantes de todo o tipo.

A mesma destruição que se deu em áreas da Zona da Mata, também assolou a Caatinga – falaremos disto no próximo post.

A DESTRUIÇÃO DA ZONA DA MATA: A NORDESTINA E A MINEIRA

Carvoaria em Minas Gerais

A destruição da cobertura vegetal de uma região geográfica de clima tropical é uma das causas mais importantes para o assoreamento dos corpos d’água. Sem a proteção da vegetação, removida para permitir atividades agrícolas, pecuárias, de mineração ou simplesmente para uso da madeira, o solo fica exposto à erosão pela chuva e vento, processos que carregam enormes volumes de sedimentos na direção das calhas dos rios. A depender das características físicas do solo, o desmatamento também pode levar a riscos de desertificação, processo já observado em muitas regiões do Brasil. Como a bacia hidrográfica do Rio São Francisco é bastante extensa e atravessa diferentes biomas, vamos dividir a análise dos problemas do desmatamento, começando pela chamada Zona da Mata.

“Os ventos alísios sopram com força o velame da nau; o madeiramento range de popa a proa e vibra à medida que avança rumo à costa. As folhas verdes dos chuços de cana-de-açúcar plantados nas caixas de madeira vibram intensamente, como se soubessem que estão próximos de sua nova morada. Em breve, os diferentes tons de verde da Mata Atlântica sucumbirão ao monótono verde folha da cana-de-açúcar. Grandes clareiras no meio da mata, onde outrora imperava o pau-brasil, estão com os sulcos já arados à espera da saccharum officinarum”, a famosa cana-de-açúcar.

Este texto faz parte da introdução de um capítulo de uma das minhas publicações, onde falo da chegada da cana-de-açúcar em terras brasileiras logo no início da nossa colonização. Há dúvidas históricas sobre o ponto exato do desembarque das primeiras mudas de cana ao Brasil: oficialmente, foi na Capitania de São Vicente – alguns documentos sugerem a chegada da planta nas Capitanias de Pernambuco e Itamaracá um pouco antes. Independentemente do ponto exato da sua chegada, o início do cultivo da cana-de-açúcar no Brasil foi a sentença de morte para uma boa parte da Mata Atlântica na faixa litoral, especialmente na Região Nordeste.

A presença da densa Mata Atlântica era um obstáculo para a agricultura colonial – uma das primeiras providências tomadas pelos novos administradores da terra foi dar ordens para a realização de intensas queimadas para a formação das primeiras clareiras, onde seriam realizados os trabalhos de preparação da terra para o plantio dos primeiros brotos de cana. Pelas imagens disponíveis das grandes queimadas na região da Floresta Amazônica em nossos dias, podemos ter uma ideia muito clara dos incêndios no litoral da Região Nordeste no passado.

Essa destruição da floresta representa apenas uma parte do problema: para cada quilo de açúcar produzido, era necessária a queima de vinte quilos de madeira para gerar a energia térmica exigida pelo processo de produção nos engenhos. Segundo Capistrano de Abreu “tinha cada escravo de cortar e arrumar cada dia uma medida de lenha, alta sete palmos, larga oito, medida de um carro”. Foi esse trabalho sistemático e contínuo que, ao longo de centenas de anos, praticamente dizimou o trecho Nordeste da Mata Atlântica, afetando grandemente um trecho de 100 km no baixo Rio São Francisco, entre o semiárido e a foz, na divisa entre Alagoas e Sergipe. E justamente na foz do Rio São Francisco, no município de Piaçabuçu em Alagoas, é onde se pode ter uma visão hiper-realista dessa destruição: onde no passado existia uma densa cobertura vegetal encontramos hoje um pequeno deserto com dunas de areia com até 50 metros de altura. As dunas fazem a festa dos turistas e já ocupam uma área com 50 km², que continua a crescer sem parar.

Na Zona da Mata mineira a destruição foi a mesma, porém por razões diferentes. Inicialmente, foi a loucura causada pela “febre do ouro” que empurrou centenas de milhares de aventureiros no rumo dos sertões das Geraes. Na busca desenfreada pelo precioso metal, primeiro foram reviradas e vasculhadas todas as pedras e seixos dos rios na busca do chamado ouro de aluvião – esgotadas essas reservas, a busca passou a se concentrar nos barrancos ao largo dos rios, que tiveram toda a vegetação ciliar derrubada e os terrenos revirados, até que se iniciassem os trabalhos de mineração subterrâneos. Como consequência natural, abriram-se clareiras nas matas para a construção dos primeiros povoados e plantações de culturas rudimentares de milho e mandioca para a subsistência das populações. Num segundo momento, foi a necessidade de produção de carvão para o uso nos fornos de fundição de ouro, que levaram ao corte sistemático de madeira nas matas. Com a consolidação de Minas Gerais como um dos grandes produtores nacionais de ferro e aço de todos os tipos, o avanço do desmatamento aumentou exponencialmente – na falta de carvão mineral para queima nos altos-fornos das produtoras do ferro-gusa (estágio de produção inicial do ferro e do aço), foi o carvão de origem vegetal produzido nas pequenas carvoarias familiares que dizimou a Zona da Mata mineira. Além da intensa devastação ambiental, essas carvoarias faziam e ainda fazem uso de mão de obra infantil, o que só aumenta a gravidade do crime ambiental – 90% da Mata Atlântica no Estado de Minas Gerais desapareceu, grande parte nos fornos das carvoarias e altos-fornos das siderúrgicas.

Sem a proteção da Mata, os solos expostos passaram a ser lavados pelas chuvas e milhões de toneladas de sedimentos de todo o tipo passaram a ser carreados para as calhas dos rios – muitos dos grãos de areia, silte e argila arrastados pelos ventos do Oceano Atlântico rumo as dunas de Piaçabuçu foram carreados, primeiro pelas chuvas, depois pelas águas do Velho Chico desde os sertões das Geraes até a sua foz no mar.

Além do assoreamento e entulhamento das calhas dos rios com todos os tipos de sedimentos, a destruição das matas também causa uma redução considerável no volume de águas das nascentes, podendo até mesmo provocar o desaparecimento de muitas delas – falaremos disto no próximo post.

COMO ASSOREAR E ENTULHAR A CALHA DE UM RIO

Assoreamento do Rio São Francisco

No dia 5 de novembro de 2015, o rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração no distrito de Bento Gonçalves, cidade de Mariana – Minas Gerais, mudou para sempre a história do Rio Doce. Calcula-se que 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos minerais e muita lama vazaram após o colapso da barragem, soterrando praticamente todo o pequeno vilarejo e avançando com extrema voracidade e velocidade através da calha do córrego Santarém, atingindo a seguir o Rio Gualaxo e o Rio Doce, cuja bacia hidrográfica abrange 230 municípios nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

O fluxo de lama e rejeitos percorreu toda extensão do Rio Doce atingindo o Oceano Atlântico no dia 22 de novembro. No acidente morreram 19 pessoas, entre trabalhadores da empresa responsável pela barragem e moradores do distrito de Bento Rodrigues. Este “acidente” é considerado o maior do mundo na área da mineração e também o maior acidente ambiental já registrado no Brasil. Passados um ano e meio da tragédia, pode-se afirmar que pouca coisa melhorou nas condições ambientais do Rio Doce e na vida de milhares de famílias afetadas pela tragédia, que criou problemas desde a captação de água para o abastecimento de dezenas de cidades até na inviabilização do trabalho de pescadores.

O acidente no Rio Doce foi um caso extremo – o entulhamento e assoreamento das águas foi muito rápido: em pouco mais de 15 dias todo o meio biótico e abiótico do rio foi comprometido e, segundo alguns especialistas, a recuperação “possível” pode levar até um século; o termo possível foi usado porque muito do que foi destruído não poderá ser recuperado: das 80 espécies de peixes catalogados na bacia hidrográfica do Rio Doce, 10 já se apresentavam sob risco de extinção e 11 espécies eram consideradas endêmicas do rio – caso populações dessas espécies de peixes ameaçadas e endêmicas não tenham conseguido sobreviver em rios tributários do Rio Doce, elas estarão perdidas para sempre.

Antes de prosseguirmos, há algumas definições importantes: assoreamento de um rio diz respeito ao acúmulo de partículas como argila, silte e areia em volumes muito superiores aos naturais, podendo resultar na redução da profundidade da lâmina d’água ou na formação de bancos de areia. O assoreamento, normalmente, é provocado por desmatamentos, por atividades agrícolas e mineradoras.

Entulhamento diz respeito a todo o tipo de resíduos sólidos como plásticos, latas, restos de materiais de construção, eletrodomésticos, pneus, madeiras entre outros tipos de materiais que são jogados diretamente nos rios pelas populações ou que são carreados de outras regiões para a calha de um corpo d’água pelas chuvas.

Na bacia hidrográfica do Rio São Francisco, a situação de degradação ambiental por assoreamento e entulhamento com todo o tipo de resíduos está muito longe da gravidade vivida pelo Rio Doce, porém a situação é bastante preocupante. Falando-se apenas nos riscos apresentados pelas barragens de rejeitos de mineração – lembrando que o Estado é um dos maiores produtores de minérios do país, existem em Minas Gerais, pelo menos, 317 barragens de rejeitos registradas no DNPM – Departamento Nacional de Produção Mineral, o que representa 48% do total de instalações similares de todo o Brasil.

Dados do próprio órgão informam que 95 dessas barragens não constam no Plano Nacional de Segurança de Barragens e 37% do total das estruturas não são fiscalizadas pelo órgão. Considerando que a bacia hidrográfica do Rio São Francisco abrange uma parte bastante considerável do Estado de Minas Gerais, o risco de um “acidente” nos moldes do ocorrido no Rio Doce é extremamente preocupante.

Falando em mineração, é importante lembrarmos que os problemas causados pela atividade são históricos na região. O chamado Ciclo do Ouro em Minas Gerais durante o período colonial é um bom exemplo para que você entenda o processo de assoreamento e entulhamento da calha de um rio. Calcula-se que durante o período foram retiradas das minas e enviadas para Portugal, conforme a fonte, entre 800 e 1.000 toneladas de ouro.

É evidente que nunca se terá certeza do volume total de ouro extraído das minas por que muita coisa foi desviada: você, durante as aulas dos tempos do ensino fundamental, deve ter ouvido muitas histórias sobre os “santos do pau oco” – esculturas de santos com compartimentos secretos, usados para se desviar ouro das autoridades portuguesas.

Vamos usar o valor oficial: a mineração moderna usa um parâmetro que diz ser necessário vasculhar 1 tonelada de terra e/ou minérios para se obter 5 gramas de ouro – adotando-se esse mesmo parâmetro e considerando que foram extraídas de 800 a 1.000 toneladas de ouro na região das Minas Geraes no período, estaremos admitindo que foram movimentadas entre 160 mil e 200 mil toneladas de terra e minérios nesta exploração, aproximadamente três vezes o vazamento de resíduos que matou o Rio Doce.

Considerando que foi uma exploração altamente predatória, podemos afirmar que a maior parte desse volume de resíduos acabou carreada para os rios, provocando todo o tipo de assoreamento e entulhamento dos canais. Segundo ribeirinhos e pescadores do Rio São Francisco, existiam trechos do rio que tinham profundidades de até 20 metros no passado e que hoje em dia se tornaram extremamente rasos, o que demonstra o grau de assoreamento do rio.

Conforme comentamos no último post, a redução da profundidade da lâmina d’água do Velho Chico é uma das causas do desaparecimento/extinção de  várias espécies de peixes como o surubim.

Nos próximos posts vamos falar de outros causadores de assoreamento que estão provocando imensos problemas no Velho Chico – o desmatamento e a agricultura.

SURUBIM: O PEIXE QUE JÁ FOI SÍMBOLO DO RIO SÃO FRANCISCO

Surubim

A primeira vez que ouvi falar em surubim foi durante uma conversa em um almoço com colegas de trabalho em Recife, lá por meados dos anos de 1980. A empresa em que trabalhava na época tinha uma fábrica na capital pernambucana e, de quando em vez, era necessário fazer algum trabalho por lá. De acordo com esses colegas, verdadeiros experts no assunto, o sabor do surubim é algo incomparável. É um peixe bastante apreciado na culinária por ter muita carne e poucas espinhas.

O delicioso surubim – também é conhecido como pintado em algumas regiões, é um dos maiores peixes de água doce do Brasil, podendo atingir até 1,8 metro de comprimento e peso de até 90 kg. Para você não achar que é “conversa de pescador”, incluí uma foto do peixe publicada por uma das mais importantes revistas de pesca do país. É encontrado nas bacias hidrográficas do Rio Amazonas, do Rio da Prata e, cada vez menos, no Rio São Francisco – por isso a ironia usada no título. O desaparecimento do peixe, que já foi um ícone da gastronomia regional em toda a bacia hidrográfica do Velho Chico, é acima de tudo um alerta da degradação ambiental das águas e da falta de condições para a sobrevivência da espécie. Outros peixes, além do surubim, também estão em situação crítica – entre os mais afetados estão as espécies migratórias como o curimatá-pacu, curimatá-pioa, dourado, matrinxã, piau-verdadeiro e o pirá. Vamos entender o que está acontecendo:

Uma quantidade enorme de espécies de peixes migra de uma região para outra na época da reprodução, num fenômeno conhecido como piracema. Estas espécies de peixes nadam correnteza acima buscando as águas calmas e límpidas das nascentes, onde a desova poderá ser feita com segurança nas águas rasas e livres de predadores e onde os alevinos encontrarão condições de crescer, até um tamanho que lhes proporcione maiores chances de sobrevivência, antes de se aventuram em águas mais profundas. Existem diversas alterações ambientais que podem dificultar ou impedir a migração destes peixes: construção de barragens de usinas hidrelétricas sem “escadas” para peixes; contaminação das águas por esgotos, produtos químicos e venenos como fertilizantes e defensivos agrícolas; assoreamento e entulhamento de canais com todo o tipo de resíduos; pesca predatória e a sobrepesca (especialmente durante a época da piracema); destruição das nascentes por atividades como agricultura e mineração, entre outras causas.

Um outro problema grave é a introdução de espécies exóticas de peixes, lançados nos rios sem maiores estudos sobre os impactos e alterações ambientais que causarão no ecossistema; na bacia do Rio São Francisco foram introduzidos o bagre-africano, a carpa e o tucunaré, que ocuparam nichos ecológicos de espécies endêmicas e se tornaram verdadeiras pragas. No Velho Chico você encontra todos estes problemas, o que afetou completamente o ciclo de vida dos peixes migratórios e destruiu aquele que já foi considerado um dos rios mais abundantes em relação a pescado no país – havia registros de 158 diferentes espécies de peixes na bacia hidrográfica, algumas endêmicas. De grandes produtoras de pescados, as cidades ribeirinhas do Velho Chico passaram a condição de importadoras do produto, especialmente da região amazônica. Uma das espécies mais importadas é o cachara, um peixe de couro da Amazônia muito parecido com o surubim, pescado em rios do Maranhão e do Pará. Muitos restaurantes preparam tilápias criadas em cativeiro e tambaquis importados da Argentina – o bom e velho surubim do São Francisco está cada vez mais difícil de se encontrar nas casas dos moradores e nas mesas dos restaurantes ao longo dos rios da região.

Um exemplo da má gestão histórica das águas do Velho Chico foi a decisão pela construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho durante a época dos governos militares. O Lago de Sobradinho, formado após o fechamento das comportas, se transformou no maior espelho d’água artificial do Brasil, porém com baixas profundidades – foi justamente essa característica um dos fatores principais para a evaporação total do Lago Poopó na Bolívia, comentado em um dos posts desta série. O Lago de Sobradinho é um campeão em perda de água por evaporação, atingindo, segundo algumas fontes, a marca de até 250 m³ por segundo – essa perda representa o volume de água necessário para o abastecimento anual de uma população de 144 milhões de habitantes. Um outro erro de projeto ou falta de preocupação com a preservação das espécies do Rio São Francisco foi a não inclusão de escadas para peixes, dispositivo que permite a passagem ou migração de espécies através das barragens. Antes da construção da barragem da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, existiam diversas lagoas temporárias, onde grandes cardumes de peixes migratórios se reuniam para iniciar a migração rumo as cabeceiras dos rios para a procriação.

A análise genética de amostras de peixes coletadas e conservadas há quase 30 anos e comparadas com amostras de peixes coletados recentemente mostraram que houve uma grande redução da diversidade genética dos animais – isso mostra que a construção da barragem do Lago de Sobradinho criou um obstáculo físico para os peixes que vem de outras regiões do médio São Francisco, impedindo a renovação dos cardumes de peixes de piracema. A pouca diversidade genética de uma população de animais ou de plantas é, de acordo com a Biologia da Conservação, um caminho perigoso para a extinção de espécies, fato que, infelizmente, já se observa com o surubim e outras espécies de peixes do Velho Chico.

Continuaremos essa “viagem” pelas águas do Velho Chico no nosso próximo post.

 

Veja também:

O RISCO DE EXTINÇÃO DO SURUBIM DO IGUAÇU, OU OS PROBLEMAS DA ICTIOFAUNA ENDÊMICA

A BIODIVERSIDADE AMEAÇADA DO LAGO GUAÍBA, OU OS PESCADORES DO DOURADO “PERDIDO”

A PIABANHA E O RIO PARAÍBA DO SUL

SÃO FRANCISCO: O RIO DA INTEGRAÇÃO NACIONAL

Benjamim Guimarães

Nestes últimos posts, foi possível demonstrar a você a importância histórica do Rio São Francisco no povoamento e desenvolvimento econômico do interior do Brasil nos primeiros séculos da colonização. Somente em época posterior, já no século XVIII, é que os Rios Tietê, Paraná, Pardo e Paraguai, entre outros, já em terras do distante Mato Grosso, passarão a ter importância similar, servindo como uma espécie de “estrada” para o avanço das monções dos bandeirantes paulistas rumo aos sertões de Cuiabá, onde sertanistas descobriram ouro em 1718.

Inicialmente, o Rio São Francisco integrou as regiões interioranas dos Estados de Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia com a faixa canavieira do litoral; com os avanços das boiadas rumo ao alto sertão, os caminhos criados a partir do vale do Rio São Francisco atingiram os Estados do Piauí e do Maranhão. Uma curiosidade deste período é a fundação da cidade de Teresina, que se tornaria capital do Piauí e única capital da Região Nordeste localizada fora do litoral do Estado – tribos indígenas das mais ferozes ocupavam toda a faixa litorânea do Piauí e sua integração com o restante da Colônia só seria possível através das estradas boiadeiras surgidas ao longo do vale do Rio São Francisco.

Com o início do chamado Ciclo do Ouro, os caminhos através das margens do Rio São Francisco levaram milhares de aventureiros na direção das Minas Geraes – esses caminhos garantiriam também o continuo suprimento de boiadas de todos os cantos dos sertões do Nordeste na direção das regiões mineradoras do Sudeste. Tropeiros paulistas complementavam essa rede de integração Colonial, fornecendo alimentos e suprimentos dos mais diversos, além de revender mulas criadas nos Estados da Região Sul. A integração e a comunicação inter-regional através de toda a bacia hidrográfica do Rio São Francisco, complementada posteriormente pelo comércio com a região Sul via Estado de São Paulo, lançou as bases para o início da consolidação do território brasileiro, que mais tarde se completaria com o avanço rumo as regiões Centro Oeste e Amazônica.

Caso não existisse o Rio São Francisco e todos os caminhos rumo aos sertões que foram criados a partir do seu vale, o Brasil poderia ter tido toda a sua colonização concentrada ao longo do litoral e consolidado as suas fronteiras no limite do Meridiano de Tordesillas, a linha que dividiu os territórios do Novo Mundo entre Portugal e a Espanha em 1494 – ou seja, o Brasil teria hoje uma área equivalente a 1/3 do seu atual território.

Se do ponto de vista histórico e geográfico o Rio São Francisco foi de importância ímpar na integração do território brasileiro no início de nossa colonização, do ponto de vista hidrológico as suas águas são fundamentais para o abastecimento das regiões com a menor disponibilidade hídrica de todo o Brasil: o semiárido e o alto sertão nordestinos. Com uma área total de drenagem com 638.576 km², a bacia hidrográfica do Rio São Francisco ocupa 8% do território nacional e atende uma população de aproximadamente 15 milhões de habitantes, incorporando áreas de cerrado, de caatinga e de Mata Atlântica nos estados de Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, além do Distrito Federal; através do Projeto de Transposição já em andamento, serão incorporados no hall de Estados abastecidos com águas do Rio São Francisco a Paraíba, o Ceará e o Rio Grande do Norte, o que incluirá mais 12 milhões de habitantes na já extensa lista de usuários das águas do Velho Chico. Sua bacia hidrográfica concentra a maior quantidade e diversidade de peixes de água doce da região Nordeste. A vazão média anual do Rio São Francisco é de 2.846 metros cúbicos por segundo, variando entre 1.077 m³/s nos períodos de seca e 5.290 m³/s na estação das chuvas (dados da ANA – Agência Nacional de Águas).

A agricultura é uma das mais importantes atividades econômicas, com perspectiva de consumir até 70% das águas da bacia hidrográfica nos próximos anos, considerando-se aqui o avanço das obras de transposição já em andamento. Também merece destaque o aproveitamento do potencial hidrelétrico da bacia, com a geração de 10.473MW, nas usinas Três Marias, Queimado, Sobradinho, Itaparica, Complexo Paulo Afonso e Xingó. As represas de Três Marias e Sobradinho, os maiores reservatórios da bacia hidrográfica, têm papel fundamental na regularização das vazões do Rio São Francisco. Outras atividades econômicas da bacia hidrográfica que merecem destaque do ponto de vista econômico incluem a pecuária, a atividade mais antiga da região, a indústria, a mineração, o transporte de cargas e de pessoas ao longo dos trechos navegáveis e o turismo.

Apesar de toda essa importância, as águas não recebem o tratamento e o respeito que merecem – para citar um único exemplo, dos 456 municípios com sede na área da bacia hidrográfica do Rio São Francisco, somente 93 tratam seus esgotos. Matas ciliares e nascentes estão sendo destruídas, resíduos sólidos de todo o tipo entulham as calhas dos rios e projetos de irrigação captam grandes volumes de água, devolvendo excedentes contaminados por fertilizantes e pesticidas. Isso demonstra como são fortes os contrastes socioeconômicos entre as diversas regiões da bacia hidrográfica do Velho Chico e gigantescos são os desafios para a sua conservação.

Falaremos disto nos próximos posts.