AS MEDALHAS DE TÓQUIO 2020, OU O LIXO ELETRÔNICO OLÍMPICO

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Acredito que as imagens dos Jogos Olímpicos disputados no Rio de Janeiro no ano passado ainda estejam bem frescas na mente de todos vocês – entre obras atrasadas e superfaturadas, piscinas olímpicas com a água verde, sujeira e esgotos nas águas da Baia da Guanabara, nosso país até que acabou se saindo muito bem na fita e fizemos história. Infelizmente, muito do chamado Legado Olímpico foi abandonado logo após o evento – exemplos são a Vila Olímpica e o Estádio do Maracanã, que estão se deteriorando a olhos vistos. Lamentável!

Entre todos os momentos vividos numa Olimpíada, a conquista de uma medalha por um atleta é, de longe, um dos mais significativos – é o coroamento de toda uma trajetória com muito treinamento, esforço e dedicação a uma modalidade esportiva – essa medalha (ou medalhas como no caso de alguns atletas excepcionais) será um tesouro a ser guardado e cultuado por toda a vida.

Uma notícia que vem sendo divulgada há algum tempo nos dá conta da intenção do Comitê Olímpico da Cidade de Tóquio, no Japão, de utilizar metais recuperados a partir da reciclagem de resíduos eletroeletrônicos, mais conhecido como lixo eletrônico, como matéria prima para a confecção das medalhas olímpicas para os jogos de 2020. A recuperação de metais valiosos a partir da reciclagem das sucatas eletroeletrônicas é um tema que tenho discutido muito nos meus últimos posts e que no Japão é uma questão levada muito a sério – segundo levantamento da Nikkei Asian Review, os números da “mineração urbana” no Japão em 2014 resultaram em 143 kg de ouro, 1.566 kg de prata e 1.112 toneladas de cobre, entre outros metais nobres, alguns com valor muito superior ao cobiçado ouro. A publicação informa ainda que “apesar do arquipélago ser pobre em minas naturais, o ouro e a prata contidos em eletrônicos no país corresponde a 16% e 22% das reservas globais respectivamente, ultrapassando as reservas naturais de qualquer outro país”.

A intenção do Comitê Olímpico da Cidade de Tóquio é o de se criar uma rede de postos de coleta de resíduos eletroeletrônicos em todo o Japão dedicada aos Jogos Olímpicos, onde os metais nobres como o ouro, prata e cobre entre outros, recuperados através da reciclagem dos resíduos, sejam utilizados na fabricação das medalhas (lembrando que o bronze é uma liga metálica de cobre, zinco e outros metais). Apesar do alto índice de reciclagem de resíduos eletroeletrônicos no Japão, ainda existe um enorme espaço para o aperfeiçoamento – de um volume total de 650 mil toneladas de resíduos elétricos e eletrônicos descartados anualmente no país, menos de 100 mil toneladas de resíduos são descartados corretamente, com produtos usados e/ou danificados entregues nos pontos de coleta de lixo eletrônico.

Para os Jogos Olímpicos da Cidade do Rio de Janeiro em 2016 foi encomendada a fabricação à Casa da Moeda do Brasil de 5.130 medalhas, sendo 2.488 medalhas Olímpicas e 2.642 medalhas Paralímpicas. A estimativa do consumo de metais nobres para a fabricação dessas medalhas foi de 10 kg de ouro, 1.700 kg de prata, 900 kg de cobre e 50 kg de zinco. Nos Jogos Olímpicos de Londres em 2012, foram usados na confecção das medalhas 9,6 kg de ouro, 1.210 kg de prata e 700 kg de cobre. Esses números dão uma boa ideia do volume de metais nobres que deverá ser recuperado das sucatas eletroeletrônicas arrecadadas para a posterior utilização na fabricação das medalhas para a Olimpíada de Tóquio em 2020.

Muito mais importante que o valor material das medalhas, a campanha em prol da arrecadação de resíduos eletroeletrônicos que vem sendo desenvolvida pelos japoneses tem claros objetivos educacionais voltados à sustentabilidade ambiental, que é uma das principais bandeiras do Comitê Olímpico Internacional.

Considerando que em nosso país, hoje, grande parte dos municípios mal tem estrutura para a coleta e a destinação adequada dos resíduos sólidos, é bem difícil imaginar o dia em que vamos conseguir garimpar um volume tão expressivo de metais valiosos dos nos nossos resíduos eletroeletrônicos. Mas não custa nada sonhar…

“BRASIL VENDE LIXO ELETRÔNICO AO EXTERIOR”

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Pesquisando dados sobre os volumes de lixo eletrônico no Brasil, encontrei essa interessante matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo em 29 de setembro de 2012, de Bernardo Caram e Vanessa Beltrão, com um texto perfeitamente alinhado com os meus posts publicados na última semana e que achei interessante replicar aqui. Confiram:

O Brasil produz anualmente quase 100 mil toneladas de lixo eletrônico, um material rico em metais nobres e com potencial de ganho econômico e ambiental por meio da reciclagem. Apenas o ouro presente nessa quantidade de resíduos poderia render R$ 2,5 bilhões ao ano. Mas o caminho desses metais no País é diferente: quase a totalidade dos produtos obsoletos é descartada incorretamente ou exportada para países que dispõem de tecnologia avançada para reciclagem.

A chamada “mineração urbana”, que envolve a recuperação de elementos minerais de resíduos, incluindo os eletroeletrônicos, ainda não ganhou força no Brasil. A proporção de metais valiosos no lixo eletrônico chega a ser dezenas de vezes maior do que na natureza. As minas da Anglo Gold Ashanti, que estão entre as principais do mundo, por exemplo, rendem 8 gramas de ouro em média para cada tonelada de material escavado. Enquanto isso, a mesma quantidade de resíduos eletrônicos fornece entre 200g e 300g de ouro.

“Em uma mina, você faz a sondagem do terreno antes de escavar, mas nunca vai saber ao certo quanto de cada metal tem ali”, explica Ana Cláudia Drugovich, diretora executiva de Marketing da Cimelia, empresa de Cingapura especializada em extrair metais provenientes de equipamentos eletrônicos. “Na sucata, você já sabe exatamente quanto tem. O custo é bem mais baixo.”

Criada há mais de duas décadas, a Cimelia retira 22 tipos de metais desses equipamentos. A empresa trabalha em parceria com multinacionais, a maioria de informática e telecomunicações, que encaminham o lixo eletrônico para pontos de coleta espalhados por países da Ásia, Oceania, Europa e América, incluindo o Brasil. A Cimelia recolhe até 400 toneladas de lixo eletrônico ao mês no País.

As instalações da empresa no Brasil, porém, apenas coletam, quebram e moem o material, que posteriormente é enviado a Cingapura, onde é feito todo o processo de extração dos metais. “Já temos o projeto para trazer maquinário e instalar aqui. É um projeto válido que está em pleno estudo. Daria para montar isso e criar de 200 a 300 empregos diretos, mas tem as questões governamentais e políticas. Na reciclagem, não temos incentivo”, afirma Ana Cláudia.

O diretor de competitividade industrial do Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e Comércio Exterior (Mdic), Alexandre Comin, reconhece o problema e afirma que essa questão está sendo discutida pelos grupos de trabalho do órgão. “A missão é elaborar novas propostas e estudar quais incentivos podem ser dados”, completa. No entanto, os projetos ainda não saíram do papel.

Um dos poucos estímulos ao setor, o decreto 7619 do Governo Federal, foi publicado há 11 anos. Por meio desse incentivo fiscal, as empresas que adquirirem resíduos que serão usados como matéria-prima na fabricação de seus produtos terão um crédito presumido de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), permitindo o ressarcimento das contribuições para o PIS/Pasep e Cofins.

O Mdic é constantemente procurado por investidores nacionais e estrangeiros interessados em criar indústrias de reciclagem no Brasil. De acordo com Comin, para atender a essa demanda, há mais de um ano o órgão contratou um estudo inédito sobre a política de logística reversa para eletrônicos. O objetivo é obter dados sobre a situação do lixo eletrônico no Brasil.

Metais. Além do ouro, é possível extrair cobre, bronze, alumínio, aço e ferro de aparelhos eletrônicos. A maior relevância, entretanto, está nos metais raros, que têm valor de mercado muito mais alto do que o próprio ouro. O processo, porém, envolve alta tecnologia e muitas empresas brasileiras esbarram nessa falta de técnica. Como resultado, fazem apenas o processo inicial de separação dos materiais no País e exportam as placas de circuito impresso, que concentram a maior parte dos metais de valor, para indústrias em países como Estados Unidos, Canadá, Alemanha e China.

AS EXPORTAÇÕES ILEGAIS DE LIXO ELETRÔNICO NO MUNDO

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Em 2003, assim meio que por acidente, recebi um convite para assessorar a comunicação social de um grupo construtor que estava iniciando a segunda fase das obras do Complexo Viário Jacu Pêssego, na Zona Leste da cidade de São Paulo. O trabalho consistia em apresentar as obras para os moradores da Comunidade Pantanal, em São Miguel Paulista, onde seria necessária a remoção e realocação de centenas de casas, liberando uma faixa para a construção de um prolongamento da Avenida até a Rodovia Ayrton Sena. Muita conversa e negociação.

A comunidade tinha um cheiro característico, marcante desde o primeiro dia de trabalho – cheiro de plástico e de borracha queimados. Não demorei muito a perceber que, por todos os cantos, se encontravam moradores ao lado de pequenas fogueiras queimando fios e cabos elétricos, “achados” nas ruas e em lixões próximos. Essa queima tinha por objetivo remover a capa de plástico e borracha – os resíduos de cobre eram depois vendidos em ferros velhos da região. Além de todos os problemas de falta de infraestrutura, desde calçamento de vias e vielas até no acesso a água tratada, esses moradores respiravam um ar contaminado por fumaça tóxica durante o dia e a noite. Essa técnica de queima é muito usada nos países pobres por recicladores de lixo eletrônico para separar cobre e outros metais de peças plásticas dos componentes – como eu comentei no meu último post, são poucos os países que possuem modernas tecnologias para a separação limpa e eficiente dos metais do lixo eletrônico.

Dados da OIT – Organização Internacional do Trabalho, mostram que o volume de lixo eletrônico cresce sem parar nos países em desenvolvimento – a fonte desse crescimento não se deve necessariamente ao uso de equipamentos eletroeletrônicos pelas populações desses países, mas na exportação ilegal de lixo eletrônico dos países ricos para países pobres como Gana, Nigéria, Índia e China. Segundo o documento O Impacto Global do Lixo Eletrônico: Lidando com o Desafio (2013), 80% do lixo eletrônico das nações ricas é enviado ilegalmente outros países, sob a rubrica de equipamentos eletroeletrônicos de segunda mão. Vendidos a preços extremamente baixos, metade destes equipamentos quebra em pouco tempo e se transforma em lixo eletrônico; 30% dos equipamentos já chega aos países sem funcionar e, na prática, já é lixo eletrônico.

De acordo com as conclusões do estudo, ”as nações em desenvolvimento estão tendo de lidar com o ônus de um problema global, sem ter a tecnologia para lidar com isso. Além disso, os países em desenvolvimento estão eles próprios cada vez gerando maiores quantidades de lixo eletrônico”.

O estudo constatou que está havendo um aumento rápido na geração de lixo eletrônico em todo o mundo, especialmente na China, no Leste Europeu e na América Latina. Estima-se que 70% dos produtos eletrônicos descartados são exportados para a China, que terceiriza os trabalhos de reciclagem com países pobres da região como o Camboja e Vietnã. Os trabalhadores destes países utilizam ferramentas rudimentares para desmontar os equipamentos e separar os componentes – o uso do fogo é recorrente. Como seria de se esperar, esses trabalhadores não têm vínculos formais com os empregadores e não contam com as mais elementares garantias trabalhistas. E, como sempre, o deplorável trabalho infantil é prática comum.

Além de todos os riscos de acidentes associados às mais precárias condições de trabalho, esses trabalhadores ficam expostos à fumaça tóxica resultante da queima dos fios, cabos e componentes, que além dos resíduos dos plásticos e borrachas queimados, exalam vapores de metais como mercúrio, chumbo, alumínio, prata e cobre, metais tóxicos para o organismo humano quando inalados nestas condições e responsáveis pelo desenvolvimento de inúmeras doenças.

Os resíduos dos resíduos eletroeletrônicos, por sua vez, estão causando todos os tipos de problemas ambientais nesses países. A baixa tecnologia disponível permite a recuperação de uma pequena porcentagem dos metais – os resíduos que sobram são descartados em lixões improvisados, contaminando o solo e as águas: como a base econômica destes países pobres está na agricultura e na pecuária, os problemas ambientais provocados pelos resíduos eletroeletrônicos se espalham em cadeia por todas as direções – toda a população acaba sofrendo, direta ou indiretamente.

Durante a maior parte da história da humanidade, o mundo parecia ser muito maior do que é hoje.

A RECICLAGEM DO LIXO ELETRÔNICO, OU OS NOVOS GARIMPEIROS

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Falamos bastante dos problemas e perigos do lixo eletrônico nos últimos posts, especialmente dos metais tóxicos encontrados nos circuitos elétricos e eletrônicos. Vamos inverter o foco dos comentários e analisar as oportunidades econômicas que a reciclagem dos resíduos eletroeletrônicos podem gerar, com reflexo imediato na preservação ambiental.

Estudos do ano de 2009 do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que avaliaram o potencial da reciclagem do lixo eletrônico, concluíram que uma tonelada de telefones celulares descartados (sem as baterias) e encaminhados para a reciclagem permitem a recuperação de até 230 kg de metais, destacando-se alguns metais de alto valor comercial: 3,5 kg de prata, 130 kg de cobre, 340 gramas de ouro e 140 gramas de paládio. Considerando somente a cotação de mercado do ouro (R$ 122,27/grama em 08/02/2017) estaremos falando de um ganho de R$ 41.571,80 – dinheiro literalmente achado no lixo.

A “mina de ouro” dos resíduos eletroeletrônicos está nas PCIs – Placas de Circuito Impresso, onde todos os principais componentes eletrônicos estão soldados. Infelizmente, não existem tecnologias aqui no Brasil para realizar esse tipo de reciclagem nas PCIs – só encontraremos empresas que realizam esse tipo de processamento de resíduos em países como Estados Unidos, Suíça e Japão. Empresas brasileiras que trabalham com a reciclagem de eletroeletrônicos vendem as PCIs para empresas estrangeiras – a nossa história se repete mais uma vez: fazemos todo o trabalho de garimpagem e o “ouro” é mandado para os estrangeiros.

Existem diversas tecnologias utilizadas para a recuperação dos materiais valiosos das sucatas eletroeletrônicas – vejamos algumas delas:

Reciclagem mecânica: neste processo os resíduos são triturados e fragmentados em partículas bem pequenas. Esse material particulado passa por diversas peneiras, classificadores mecânicos e por processos de centrifugação, que permitem a classificação dos materiais por granulometria (isto é, pelo tamanho dos grãos). Numa fase posterior, os grãos passam por uma separação magnética – eletroímãs atraem as partículas de materiais magnéticos como o ferro e o níquel. Os metais não magnéticos como o ouro, o cobre, a prata e outros com propriedades de condução de eletricidade são separados por um processo eletrostático dos demais materiais não condutores como os polímeros plásticos e o material cerâmico.

Reciclagem química: aqui a separação dos materiais é feita pelo processo de hidrometalúrgia, onde a extração se dá com o uso da lixiviação – os resíduos são dissolvidos numa solução chamada água-régia (75% de ácido clorídrico e 25% de ácido nítrico); os resíduos metálicos, mais pesados, se concentram no fundo do material dissolvido e os materiais plásticos e cerâmicos, mais leves, se concentram na parte superior do material dissolvido.

Pirometalurgia: esta técnica se baseia nos diferentes pontos de fusão dos materiais. O ponto de fusão do alumínio é 660° C, o do ouro é 1.064° C; o do cobre é 1.085° C e do ferro 1.538° C – se você tem uma massa de metais diferentes misturados, você vai aquecer o material num forno progressivamente: assim que se atingir a temperatura de 660° C, o alumínio vai começar a derreter e a se separar dos demais metais que continuarão em estado sólido; a seguir, atingindo-se a temperatura de 1.064° C, o ouro vai derreter e se separar dos outros metais e assim sucessivamente. Os materiais plásticos têm diferentes pontos de fusão e começam a derreter a partir dos 100° C, bem abaixo do ponto de derretimento dos metais.

Em geral, a reciclagem dos resíduos eletroeletrônicos começa por uma triagem dos materiais – equipamentos em condições de uso são separados e vendidos para empresas que trabalham com a revenda de materiais usados e de peças de reposição. Os materiais a seguir são desmontados, separando-se as peças em grupos como carcaças, baterias, placas de vidro, fios e cabos, além das valiosas (pelo menos para os compradores estrangeiros) PCIs – Placas de Circuito Impresso. Esses grupos de sucatas homogêneas são revendidos com preço cotado em quilogramas para diferentes compradores – o ganho para os recicladores nacionais não é dos melhores: a fatia do leão fica mesmo é com os “gringos”.

É preciso que surjam empreendedores que invistam pesado em modernas tecnologias de recuperação de metais valiosos das sucatas eletroeletrônicas para, enfim, transformar os perigosos metais tóxicos que são lançados no meio ambiente em riquezas. Um país com tantos problemas como o nosso não pode continuar se dando ao luxo de jogar continuamente toneladas de metais preciosos no lixo.

OS POTENCIAIS RISCOS DO LIXO ELETRÔNICO À SUA SAÚDE

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Parte significativa dos metais utilizados pelas indústrias eletroeletrônicas na fabricação dos seus produtos são tóxicos e podem causar uma série de problemas de saúde para os seres humanos em caso de contato, ingestão ou inalação. É a presença destes metais tóxicos no lixo eletrônico que torna a gestão e o cuidado com esses resíduos uma preocupação crescente na área ambiental.

De forma bem simplificada, o funcionamento de qualquer circuito elétrico é baseado na capacidade de condução de corrente elétrica de alguns materiais, especialmente metais como o cobre, estanho, prata e alumínio, além de diversos tipos de cristais semicondutores, especialmente o silício. Outros metais como o chumbo, o mercúrio e o cádmio, altamente tóxicos, têm larga utilização nos equipamentos e produtos eletroeletrônicos pela sua capacidade de armazenar energia na forma de pilhas e baterias.

Vamos analisar alguns riscos associados à contaminação de seres humanos com alguns desses metais, o que pode ocorrer pela ingestão de água e alimentos contaminados, inalação de vapores ou absorção pela pele:

Alumínio: é o segundo metal mais utilizado no mundo depois do aço. Por ser muito leve e flexível é largamente utilizado na fabricação de produtos eletroeletrônicos, especialmente os chamados portáteis como smartphones, tablets e laptops. A intoxicação por alumínio está associada à constipação intestinal, cólicas abdominais, anorexia, náuseas, fadiga, alterações do metabolismo do cálcio (raquitismo), alterações neurológicas com graves danos ao tecido cerebral. Em crianças pode causar hiperatividade e distúrbios do aprendizado. Estudos têm associado o alumínio ao agravamento do mal de Alzheimer e da doença de Parkinson. O excesso de alumínio no organismo humano interfere na absorção do selênio e do fósforo;

Cádmio: Os compostos de cádmio são largamente utilizados na fabricação de baterias e pilhas recarregáveis, utilizados em todos os tipos de aparelhos eletroeletrônicos. O acúmulo excessivo de cádmio no organismo humano pode induzir disfunções renais, doenças ósseas e deficiências nos órgãos e funções reprodutoras. É uma substância que pode atuar como um agente cancerígeno em seres humanos e que também pode provocar a perda de peso, hemorragias, rinofaringite, fibrose dos brônquios, enfisema pulmonar e danos ao fígado e rins;

Chumbo: metal muito utilizado na fabricação de alguns tipos de baterias. O acúmulo de chumbo no organismo humano causa irritabilidade, distúrbios visuais, anemias, infertilidade, hipertensão arterial, má formação fetal e nascimento de crianças com autismo, hiperatividade, infecções respiratórias, déficit de memória, apatia e diminuição da resistência óssea. Também pode provocar danos no sistema nervoso, medula óssea e rins;

Cobre: pelas suas excelentes propriedades de condução de eletricidade, o cobre é o metal mais utilizado na fabricação de fios, condutores e componentes elétricos e eletrônicos. Altos níveis de cobre no organismo humano, especialmente acumulado no sangue, pode levar ao esgotamento das reservas de zinco no cérebro, causar a oxidação da vitamina A e diminuir a quantidade de vitamina C, provocando dores musculares e nas juntas, distúrbios de aprendizado, depressão e fadiga. Também pode estar associado a disfunções comportamentais como irritação, anemias aplásticas e megaloblásticas, talassemia, nefrite, doença de Wilson, doenças hepáticas, esquizofrenia, eczemas, anemia drepanocítica, doença de Hodgkin e leucemia;

Estanho: é um metal largamente utilizado na soldagem dos componentes eletrônicos (associado ao chumbo numa liga metálica), que, se ingerido ou inalado na forma de vapor, pode provocar dores no estômago, anemia, danos no fígado e nos rins;

Mercúrio: é um metal pesado bastante tóxico, com larga aplicação em pilhas e baterias na forma de óxido de mercúrio. Um dos problemas mais frequentes se dá pelo envenenamento crônico, que acontece quando uma pessoa absorve pequenas quantidades de mercúrio ou seus derivados, que vai se acumulando no organismo. As principais consequências são tremores musculares, coceira persistente, sensação de queimadura na pele e distúrbios de personalidade. Em casos de envenenamento agudo, a vítima pode morrer em cerca de uma semana caso não receba o tratamento médico adequado;

Prata: é um metal utilizado na fabricação de baterias e de alguns componentes eletrônicos. A exposição do organismo humano a alguns compostos de prata pode provocar uma doença conhecida como argíria, onde a pele fica com um tom azulado, podendo afetar partes ou todo o corpo do doente.

São esses metais tóxicos presentes no lixo eletrônico que motivam toda a nossa preocupação com o descarte e a manipulação inadequada desses resíduos. A foto que ilustra este post é um pequeno exemplo do descarte irregular – uma pilha com a sua carcaça corroída pela ferrugem começando a liberar os metais tóxicos, que pela ação da chuva, infiltram e contaminam o solo e a água: imagine milhões de pilhas e outros resíduos eletroeletrônicos nessa mesma situação…

Todos nós devemos ter todo o cuidado e responsabilidade no descarte dos resíduos eletroeletrônicos.

O VOLUME DO LIXO ELETRÔNICO

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Numa contagem rápida dos resíduos eletrônicos existentes aqui em casa, encontrei sete telefones celulares, uma CPU de microcomputador antigo, um laptop, um aparelho telefônico de mesa, uma TV de tela plana e duas antigas TV’s analógicas, além de dezenas de pilhas que estão sendo guardadas em uma gaveta. Essa lista não é maior porque alguns telefones celulares e um microcomputador de modelos antigos foram doados para familiares. Acredito que todos os leitores têm sua própria lista destes resíduos, que mais cedo ou mais tarde terão de ser descartados de alguma forma.

O volume de resíduos eletroeletrônicos ou o lixo eletrônico, como muitos preferem chamar, cresce exponencialmente em todo o mundo, principalmente por causa da “obsolescência programada” – o modelo do produto que você tem e está usando ficou ultrapassado pois alguma empresa acabou de lançar um modelo novo, com mais recursos tecnológicos, maior velocidade, menor tamanho etc. O destino do produto obsoleto é um fundo de gaveta ou um canto abandonado em um armário ou estante a espera de uma destinação final.

A previsão do volume total de lixo eletrônico no mundo para o ano de 2017 é calculado em 65,4 milhões de toneladas métricas – se fosse possível organizar e montar estes resíduos como os cubos da Lego, seria possível construir 200 edifícios do tamanho do Empire State, prédio que é um dos símbolos da cidade de Nova York, ou suficientes para a montagem de 11 pirâmides de Gizé, o grande monumento egípcio. A produção per capita será equivalente a 7 kg de resíduos eletroeletrônicos para cada habitante do planeta.

Essa projeção foi feita em um estudo do ano de 2013, conhecido como Iniciativa Step, um trabalho conjunto entre a ONU – Organização das Nações Unidas, empresas, governos e organizações não-governamentais (ONGs). Foi o primeiro mapeamento global do chamado lixo eletrônico a mostrar o volume de resíduos eletroeletrônicos gerado em cada país. Como eu sempre costumo afirmar, conforme a fonte consultada há alguma variação nos números, mas essas estimativas dão uma ideia clara do tamanho do problema. Pode acontecer do volume de lixo eletroeletrônico mal conseguir formar 8 pirâmides ou, pior, ser suficiente para construir 15 ou 20 pirâmides de Gizé – a intenção é mostrar que se trata de um problema gigantesco (daí a ideia de usar monumentos mundialmente reconhecidos) e que não vai parar de crescer nos próximos anos.

De acordo com dados deste estudo, o Brasil teria colocado 2 milhões de toneladas métricas de produtos e equipamentos eletroeletrônicos no mercado em 2012 e gerado, naquele mesmo ano, 1,4 milhão de toneladas métricas de lixo eletrônico ou 7 kg de resíduos por habitante. Analisando esse ultimo número isoladamente, você diria que nosso país está dentro da média mundial – o problema é que em países desenvolvidos, esse volume per capita é bem maior que o nosso: nos Estados Unidos, para citar um bom exemplo, a produção de resíduos eletroeletrônicos por habitante foi de 29,8 kg em 2012, quatro vezes maior que a produção brasileira, o que mostra o potencial de crescimento do problema aqui em terras tupiniquins. E como comentei em meu último post, nós brasileiros mal começamos a perceber o tamanho do problema do lixo eletrônico, quiçá lidarmos com o problema caso ele quadruplique nos próximos anos, na suposição que nossos padrões de consumo, eventualmente, se aproximem dos padrões americanos.

É frequente em minhas postagens comentários sobre os problemas mais corriqueiros na coleta e destinação dos resíduos sólidos, lixo jogado em ruas e terrenos baldios, enchentes localizadas provocadas por lixo e entulho arrastado por enxurradas em dias de chuvas fortes – nossa sociedade ainda não está preparada para lidar com os resíduos sólidos do nosso dia a dia. Imaginem o crescimento dos problemas a partir da “invenção” dessa nova categoria de resíduos sólidos – o lixo eletrônico?

Essa é para você pensar na sua cama hoje usando o seu smartphone

UMA DAS NOSSAS MAIS RECENTES CRIAÇÕES: O LIXO ELETRÔNICO

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O século XIX foi um dos períodos mais empolgantes da história da humanidade: foi uma fase marcada pelo avanço da ciência. Em épocas anteriores, esses avanços se deviam aos esforços individuais de uns poucos cientistas, que trabalhavam sob intenso controle de religiosos armados com os cânones da Igreja e do misticismo milenar, sempre enxergando a ciência como uma “coisa do demônio”. O crescimento na produção conquistado a partir do final do século VXIII na chamada Revolução Industrial acabou por forçar a ciência a buscar soluções para uma série de problemas técnicos elementares que atravancavam o aumento da produção e dos lucros.

Alguns exemplos: a produção de comida enlatada de qualidade para o exército do Imperador Napoleão dependeu de uma série de descobertas na área da biologia sobre os microrganismos que estragavam os alimentos; a indústria têxtil precisava de corantes modernos para substituir os produtos naturais usados até então, como o  pau-brasil – surgiram as anilinas químicas. Avanços fundamentais também surgiram na Geologia, Metalurgia, Medicina, Física, Engenharia entre outras áreas.

Um avanço dos mais fabulosos foi no campo da eletricidade, que em poucas décadas passou dos estudos teóricos dos fenômenos elétricos às aplicações práticas do uso da eletricidade no dia a dia de milhares de pessoas. Um marco histórico importante foi o início do fornecimento de energia elétrica para 59 residências da cidade de Nova York em 1882 pela empresa fundada por Thomas Edison. A eficiência e a praticidade da energia elétrica caíram no gosto popular e a área não parou mais de crescer. A eletricidade e a eletrônica, uma de suas crias mais proeminentes, não saíram mais da moda desde então.

Iluminação, aquecimento, conservação e preparação de alimentos, entretenimento, defesa e segurança, transportes, medicina, administração pública, educação – da primeira lâmpada elétrica funcional de Thomas Edison à ultra eficiente e econômica lâmpada de LED; do primeiro automóvel elétrico construído na França em 1881 à atual corrida tecnológica entre os fabricantes de carros elétricos no Vale do Silício; dos pioneiros experimentos na transmissão de ondas de rádio pelo padre brasileiro Landell de Moura em 1894 às mais modernas tecnologias digitais de transmissão de voz e dados dos nossos computadores, tablets e telefones celulares – nossa vida moderna seria impensável sem o conforto e a praticidade da eletricidade e de uma gama incontável de produtos eletroeletrônicos.

Qualquer avanço ou conquista humana tem sempre seus custos: no caso da eletricidade e da eletrônica, um desses custos pode ser traduzido no chamado lixo eletrônico. Há uma série de outros custos ambientais que vão desde a extração de minerais e matérias primas usados na fabricação dos produtos até a geração da eletricidade, que não vamos considerar por hora.

Lixo eletrônico pode ser definido com um resíduo sólido complexo, formado por uma enorme variedade de metais e materiais, grande parte de difícil separação para fins de reciclagem.  A recuperação de metais presentes em componentes como transistores, circuitos integrados e microprocessadores, por exemplo, exigem tecnologias complexas e de custo elevado, nem sempre viáveis economicamente. Alguns dos metais encontrados nos resíduos eletrônicos são altamente valiosos – cobre, estanho, prata e ouro; outros, como o níquel, cromo, mercúrio e o cádmio, são tóxicos.

Para um catador de recicláveis comum, as quantidades destes metais valiosos existentes em um computador, televisor ou telefone celular descartados são tão pequenas e de separação tão difícil que não vale a pena encher um carrinho com esses resíduos e tentar vendê-los; os donos de ferro velho têm dificuldades semelhantes – resíduos metálicos de ferro, alumínio e cobre (nesse caso muitas vezes de origem ilícita) são mais fáceis de vender e bem mais lucrativos. O resultado são milhões de resíduos e produtos eletroeletrônicos obsoletos descartados a cada ano sem maiores cuidados, com um detalhe preocupante: a produção não para de crescer e a vida útil dos produtos é cada vez menor.

Além de latas, embalagens plásticas, garrafas, lixo orgânico e todos os demais resíduos tradicionais de nossa sociedade, os lixões e aterros passaram a receber televisores de tela plana, impressoras a laser, computadores, smartphones e tablets – os produtos de alta tecnologia iniciaram a sua luta por um espaço para chamar de seu.

Os arqueólogos de um futuro distante vão se divertir muito – já nós e nossos descentes diretos vamos sofrer muito até lá, convivendo com tantos resíduos tecnológicos…

LAVOISIER E OS RESÍDUOS SÓLIDOS

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Em qualquer sistema, físico ou químico, nunca se cria nem se elimina matéria, apenas é possível transformá-la de uma forma em outra. Portanto, não se pode criar algo do nada nem transformar algo em nada. Simplificando um pouco a linguagem para uma formato mais popular que você, muito provavelmente, já ouviu antesna natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

Esse postulado, chamado de Princípio da Conservação das Massas, foi publicado inicialmente num ensaio de Mikhail Lomonosov, cientista russo, no ano de 1760, sem conseguir maior repercussão nos meios científicos. Em 1774, o químico francês Antoine Laurent de Lavoisier, realizou uma série de experimentos comprovando o postulado de Lomonosov, que passou para o registro da história, incorretamente, como o Princípio de Lavoisier.

E por que comecei este post falando de Lavoisier e seu princípio?

Porquê ele se aplica perfeitamente aos resíduos sólidos – uma vez gerados ou criados, esses resíduos não podem desaparecer espontaneamente – eles podem ser transportados de um lugar para outro, podem ser escondidos embaixo de uma camada de terra, podem ser jogados para que afundem e desapareçam sob a superfície de um rio ou do oceano – porém, à exceção dos resíduos orgânicos que mais cedo ou mais tarde serão decompostos e transformados pela natureza, os resíduos sólidos vão continuar existindo. Essa “existência” será de uns poucos anos para madeira, papel e latas, chegando a alguns milhões de anos para vidros e pneus de borracha.

Há vários meses venho escrevendo sucessivos posts falando sobre os mais diferentes tipos de resíduos gerados às centenas de toneladas a cada dia em nossa sociedade; também escrevi bastante sobre os problemas de saúde desencadeados a partir da disposição inadequada destes resíduos, em especial as epidemias provocadas por vetores como os mosquitos. E por que gastar tanta energia falando de um mesmo tema?

Simples – nossa sociedade se especializou em produzir lixo!

Lembro de uma aula magistral na universidade onde o mestre, Prof. José de Ávila Coimbra, falou sobre a produção crescente de resíduos em nossa sociedade e usou uma figura de linguagem espetacular: os guarda-chuvas chineses de baixo custo que, naquele momento, invadiam as nossas ruas. A unidade de tempo usada para falar da durabilidade do objeto foi chuva: “em, no máximo, 5 chuvas o objeto passaria à condição de lixo”; e continuava: “Nosso país está se especializando na importação de lixo”, fazendo referência a uma série de quinquilharias (vendidas como utilidades domésticas) e produtos eletrônicos e/ou ditos tecnológicos com ciclo de vida extremamente curto: quebra ou para de funcionar depois de umas poucas horas de uso e tem como destino engordar as estatísticas dos nossos resíduos sólidos diários. Aliás, lixo eletrônico é um tema para nos debruçarmos em outro post.

Há um simpático vídeo, muito utilizado pelos educadores ambientais, que mostra como nosso estilo de vida moderna está destruindo os meios naturais e, por tabela, colocando a nossa sociedade em risco: chama-se A História das Coisas – se você ainda não viu, recomendo clicar no link e dar uma olhada – será muito didático.

Cada brasileiro gera entre 400 e 500 kg de lixo a cada ano – dependendo da fonte consultada, esse valor poderá variar. Em Estados menores, como o Acre e Roraima, a produção individual é menor – em Estados maiores e mais industrializados como São Paulo e Rio de Janeiro, essa produção é bem maior. Muitos dirão que a produção de resíduos sólidos é uma consequência do mundo moderno, o que, de fato, é uma grande verdade – o grande problema é que, diferentemente das sociedade modernas que encontramos nos países com os mais altos Índices de Desenvolvimento Humano – IDH, como a Noruega, Dinamarca, Suécia e Nova Zelândia, entre outras nações que tratam a questão com competência e responsabilidade, nosso país adotou os mais modernos hábitos e produtos de consumo sem que houvesse a menor preocupação em também modernizar os sistemas de coleta e destinação dos resíduos gerados “às pencas” a cada santo dia. Estamos, literalmente (faço aqui uma referência às enchentes provocadas por resíduos dispostos inadequadamente), nos afogando em nosso próprio lixo – sem exagero.

Voltando a Lavoisier e à lei que leva o seu nome, nossos resíduos sólidos não vão desaparecer espontaneamente de nossas ruas, lixões, aterros, rios e outros locais onde, criminosamente, despejamos o lixo nosso de cada dia – é preciso incorporar muita energia no sistema para transformar esse lixo em elementos e matérias primas que possam ser reutilizados por nossa sociedade.

Na química e no Saneamento Básico, não existem milagres – não que eu saiba…

OS MILIONÁRIOS, OS TRABALHADORES DOS LIXÕES, NÓS E OS URUBUS

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À coisa de uns vinte e cinco anos atrás, o dono de uma grande construtora, onde eu viria a trabalhar em tempos mais recentes, por muito pouco não viu seus dias encerrados em um grave desastre aéreo. Em uma viagem a trabalho num dos jatinhos da empresa (grandes construtoras costumam ter jatos particulares para uso em “serviço”), a poucos minutos do pouso em Belém, a aeronave sofreu um forte impacto seguido da explosão de uma das turbinas. Graças à perícia e à grande experiência do piloto, segundo relato que ouvi anos depois do próprio empreiteiro, foi possível compensar a potência do avião acelerando o segundo motor e fazer um pouso de emergência no aeroporto. Semanas depois do acidente, o relatório oficial das autoridades aeronáuticas confirmou a suspeita inicial do piloto: a turbina sugou um dos muitos urubus que planam nas proximidades do aeroporto, provocando assim a explosão da turbina. O número de acidentes aeronáuticos, diga-se de passagem, raramente fatais, envolvendo impactos de urubus contra a fuselagem ou contra as turbinas de aviões em voo cresceu muito nos últimos anos, particularmente em países “em desenvolvimento” como o nosso – a concentração de renda e muita gente vivendo do lixo são características comuns entre esses países.

Aparentemente, parece existir uma distância astronômica entre os milionários e o povo do lixo:

O primeiro grupo vive sempre nos melhores bairros das cidades, em casas ou edifícios projetados por renomados arquitetos e construídos por empresas especializadas em imóveis residenciais. O interior sempre agrega sempre o que há de mais modernos em mobiliário, eletrodomésticos e eletrônicos, com projetos de design de interiores assinados pelos grandes nomes do mercado. Para esse grupo, tudo o que há de bom e de melhor!

Para o povo que vive e que trabalha nos lixões, tudo também: todos os resíduos gerados na cidade – inclusive a grande quantidade gerada diariamente pela classe milionária; resíduos hospitalares descartados de maneira irregular em grande parte dos municípios, incluindo-se os perigosos resíduos perfuro cortantes; todas as sobras da construção civil, inclusive madeiras com pregos e partes de peças de concreto armado com pontas de aço enferrujadas; as gigantescas nuvens de insetos que se reproduzem e vivem dentro dos lixões, com destaque para todas as espécies de mosquitos – inclusive ele, o sempre presente Aedes aegypti. As casas destes infelizes, via de regra, é sempre um apanhado com um pouco de tudo que essas pessoas encontram descartadas por ali, arranjado de tal forma que crie alguma proteção contra a chuva, o sol e o frio.

Porém, a aparente distância entre esses dois mundos, pelo menos em sentido figurado, não é tão grande assim: qualquer milionário que se preze ou é proprietário ou costuma fretar jatinhos executivos para as suas viagens a trabalho ou lazer. O mercado de jatos executivos de todos os portes é um dos que mais cresce em todo o mundo globalizado. Políticos também adoram um jatinho, principalmente quando a “conta do posto de gasolina” é paga por terceiros, especialmente as grandes empreiteiras. E o mesmo céu usado pelos jatinhos em seus voos é habitat dos urubus, ave de grande porte conhecida por sua inigualável capacidade de usar as correntes de ar quente, as térmicas, para planar preguiçosamente no azul infinito.

Os incontáveis lixões que cercam os centros urbanos se transformaram em áreas de alimentação para os urubus, que com comida em abundância e espaço de sobra para a construção dos ninhos, se multiplicaram sem controle e são vistos às centenas no horizonte e céus das cidades. Criminosamente, muitos destes lixões foram criados nas proximidades das cabeceiras de pistas dos aeroportos – as operações de pouso e decolagem ganharam um componente de risco extra, risco aumentado significativamente para aviões menores como os jatinhos executivos. Um estudo sobre este problema usou dados oficiais minuciosos da Força Aérea Brasileira e encontrou 134 colisões entre nossas aeronaves militares e urubus entre janeiro de 2008 e agosto de 2009, sendo que 98% das colisões ocorreram nas proximidades ou dentro das áreas das pistas de pouso. Na aviação civil, dados do CENIPA – Centro de Investigação de Acidentes Aeronáuticos, indicam a ocorrência, entre 2007 e 2008, de 659 casos – as autoridades estimam que apenas 25% das colisões foram registradas. O problema é seríssimo.

Infelizmente, todos nós pobres mortais que não somos milionários e que, eventualmente, viajamos de avião a trabalho ou nas nossas merecidas férias, também corremos riscos. Só que, ao contrário de muitos milionários, nós não podemos fazer quase nada para acabar com os lixões.

Resta-nos rezar para os urubus voarem bem longe de nossas cabeças ou que alguma autoridade resolva em definitivo os problemas desses lixões.

ILEGALIDADE E INSUSTENTABILIDADE SEMPRE JUNTAS, OU O TRABALHO DOS MENORES NOS LIXÕES

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No meu último post falei da inesquecível experiência de conviver por algumas horas dentro de uma comunidade instalada dentro de um grande lixão em Rondônia em 2009 – a Vila Princesa. Foram pouco mais de 6 intermináveis horas, trabalhando num ambiente com atmosfera carregada de gases e cheiros indescritíveis, sob uma sensação térmica na casa dos 50° C. Como relembrei, nosso grupo de voluntários organizou uma festa do Dia das Crianças para os pequenos da comunidade que, oficialmente, representava um terço da população na época – algo como 80 crianças: como apareceram crianças de todas as idades, a festa acabou tendo mais de 150 convidados. Apesar dos pesares, todos os voluntários do grupo descreveram a festa como “uma das mais gratificantes experiências de suas vidas”.

Comunidades de catadores de recicláveis vivendo dentro dos lixões ou aterros controlados (o que, tecnicamente, faz muito pouca diferença) é uma realidade em todo o país. Apesar de repugnante para todos nós, viver próximo do “local de trabalho” faz todo o sentido para estas pessoas – os gastos com passagens de ônibus ou de trem consumiria parcela considerável (senão todo) dos seus minguados ganhos; também, é importante comentar, o mau cheiro que o corpo e roupas exalam após uma longa jornada de garimpagem naquele meio, tornam qualquer um desses trabalhadores nada bem vindos num transporte público. Esses trabalhadores acabam sendo forçados a mudar para dentro ou para as vizinhanças dos lixões. E, como todos sabem, casais muito pobres tendem a ter um número elevado de filhos que, inevitavelmente, passarão a viver, brincar e trabalhar no mesmo lixão.

A produção individual de um pequeno catador de recicláveis agrega muito pouco valor ao volume diário da coleta de um adulto; porém, como tratamos de um acréscimo numa faixa entre 5 e 10 pares de pequenas mãos – algumas vezes até mais, a produção da família aumenta substancialmente, tornando o trabalho dessas crianças imprescindível para garantir o modesto sustento da família. Ter os filhos “às vistas” durante todo o dia é, de certa forma, uma forte tentação para as pobres mães – imaginar a existência de creches nessas comunidades é sonhar demais.

Essa tendência quase natural das famílias em iniciar as crianças desde a mais tenra idade no trabalho é, apesar de todos os atenuantes, um crime: trabalho infantil.

A Constituição Federal Brasileira de 1988 usa as expressões “criança” e “adolescente” no artigo 227 e dispõe, no artigo 7º, parágrafo XXXIII, a “proibição de qualquer trabalho a menores de 16 anos, salvo nas condições de aprendiz aos 14 anos”.

A CLT –  Consolidação das Leis do Trabalho, que segue os mesmos critérios da Constituição, empregada a expressão “menor”, como se verifica no artigo 402: “Considera-se menor para os efeitos dessa Consolidação o trabalhador de 14 (quatorze) até 18 (dezoito) anos”. No artigo 403 da CLT, em consonância com a Constituição e a Emenda Constitucional 20/1998, afirma ser “proibido qualquer trabalho a menores de dezesseis anos de idade, salvo na condição de aprendiz, a partir dos quatorze anos”.

Lugar de criança, como todos sabem, é na escola ou, na pior das hipóteses, vivendo em um ambiente saudável que lhe possibilite um adequado desenvolvimento físico, mental e social, com acesso a uma alimentação saudável, saneamento básico, educação formal, afetividade e acompanhamento médico – a exceção da afetividade dos pais, um lixão não atende a qualquer um destes requisitos. Admitir que crianças e adolescentes com tal grau de carência ainda trabalhem é algo que extrapola qualquer limite da legalidade e decência, para se falar o mínimo. O combate à presença e ao trabalho de menores nesses lixões, por mais justificáveis que possam parecer, deve ser prioridade de todos nós que acreditamos nas leis e na justiça – a continuar, estaremos jogando, literalmente, nosso futuro no lixo!

A ilegalidade dos lixões não para por aí: estamos falando de todo o tipo de crime ambiental, desde poluição do solo e das águas, do ar, caça predatória (animais silvestres que vivem nesses locais são abatidos e transformados em alimentos por muitas das famílias), falta de licenciamento ambiental para instalação e operação, entre outros. As populações destes locais também estão expostas a todo o tipo de violência, seja entre brigas internas entre famílias e grupos, seja em choques com a vizinhança de áreas urbanizadas, que terminam muitas vezes em agressões, mortes, violência sexual – inclusive contra os menores, e por aí vai. São crimes de todo o tipo.

A existência e a utilização dos chamados lixões em milhares de municípios brasileiros são insustentáveis do ponto de vista ambiental e social – somente a conveniência econômica é que garante a sua continuidade. Do ponto de vista legal, os fatos apresentados falam por si.