“BRASIL VENDE LIXO ELETRÔNICO AO EXTERIOR”

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Pesquisando dados sobre os volumes de lixo eletrônico no Brasil, encontrei essa interessante matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo em 29 de setembro de 2012, de Bernardo Caram e Vanessa Beltrão, com um texto perfeitamente alinhado com os meus posts publicados na última semana e que achei interessante replicar aqui. Confiram:

O Brasil produz anualmente quase 100 mil toneladas de lixo eletrônico, um material rico em metais nobres e com potencial de ganho econômico e ambiental por meio da reciclagem. Apenas o ouro presente nessa quantidade de resíduos poderia render R$ 2,5 bilhões ao ano. Mas o caminho desses metais no País é diferente: quase a totalidade dos produtos obsoletos é descartada incorretamente ou exportada para países que dispõem de tecnologia avançada para reciclagem.

A chamada “mineração urbana”, que envolve a recuperação de elementos minerais de resíduos, incluindo os eletroeletrônicos, ainda não ganhou força no Brasil. A proporção de metais valiosos no lixo eletrônico chega a ser dezenas de vezes maior do que na natureza. As minas da Anglo Gold Ashanti, que estão entre as principais do mundo, por exemplo, rendem 8 gramas de ouro em média para cada tonelada de material escavado. Enquanto isso, a mesma quantidade de resíduos eletrônicos fornece entre 200g e 300g de ouro.

“Em uma mina, você faz a sondagem do terreno antes de escavar, mas nunca vai saber ao certo quanto de cada metal tem ali”, explica Ana Cláudia Drugovich, diretora executiva de Marketing da Cimelia, empresa de Cingapura especializada em extrair metais provenientes de equipamentos eletrônicos. “Na sucata, você já sabe exatamente quanto tem. O custo é bem mais baixo.”

Criada há mais de duas décadas, a Cimelia retira 22 tipos de metais desses equipamentos. A empresa trabalha em parceria com multinacionais, a maioria de informática e telecomunicações, que encaminham o lixo eletrônico para pontos de coleta espalhados por países da Ásia, Oceania, Europa e América, incluindo o Brasil. A Cimelia recolhe até 400 toneladas de lixo eletrônico ao mês no País.

As instalações da empresa no Brasil, porém, apenas coletam, quebram e moem o material, que posteriormente é enviado a Cingapura, onde é feito todo o processo de extração dos metais. “Já temos o projeto para trazer maquinário e instalar aqui. É um projeto válido que está em pleno estudo. Daria para montar isso e criar de 200 a 300 empregos diretos, mas tem as questões governamentais e políticas. Na reciclagem, não temos incentivo”, afirma Ana Cláudia.

O diretor de competitividade industrial do Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e Comércio Exterior (Mdic), Alexandre Comin, reconhece o problema e afirma que essa questão está sendo discutida pelos grupos de trabalho do órgão. “A missão é elaborar novas propostas e estudar quais incentivos podem ser dados”, completa. No entanto, os projetos ainda não saíram do papel.

Um dos poucos estímulos ao setor, o decreto 7619 do Governo Federal, foi publicado há 11 anos. Por meio desse incentivo fiscal, as empresas que adquirirem resíduos que serão usados como matéria-prima na fabricação de seus produtos terão um crédito presumido de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), permitindo o ressarcimento das contribuições para o PIS/Pasep e Cofins.

O Mdic é constantemente procurado por investidores nacionais e estrangeiros interessados em criar indústrias de reciclagem no Brasil. De acordo com Comin, para atender a essa demanda, há mais de um ano o órgão contratou um estudo inédito sobre a política de logística reversa para eletrônicos. O objetivo é obter dados sobre a situação do lixo eletrônico no Brasil.

Metais. Além do ouro, é possível extrair cobre, bronze, alumínio, aço e ferro de aparelhos eletrônicos. A maior relevância, entretanto, está nos metais raros, que têm valor de mercado muito mais alto do que o próprio ouro. O processo, porém, envolve alta tecnologia e muitas empresas brasileiras esbarram nessa falta de técnica. Como resultado, fazem apenas o processo inicial de separação dos materiais no País e exportam as placas de circuito impresso, que concentram a maior parte dos metais de valor, para indústrias em países como Estados Unidos, Canadá, Alemanha e China.

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