AS PERDAS DE ÁGUA NAS RESIDÊNCIAS

Torneira Vazando

Durante dois anos e meio, no período em trabalhei nas obras do Programa Onda Limpa na região da Baixada Santista – litoral de São Paulo, realizei aproximadamente 300 palestras em escolas municipais, falando sobre o uso consciente da água para crianças e adolescentes. Minha “companheira” nestas palestras era a personagem Cristalina, uma simpática gota de água de uma animação. Diversas empresas de saneamento básico utilizam personagens carismáticos baseados em gotas de água. Se “perguntarmos” a qualquer uma destas personagens “o que você vai ser quando crescer?”, teremos uma única resposta: esgoto!

O objetivo da água potável fornecida para os consumidores através das redes de abastecimento é o uso para saciar a sede, para cozinhar, uso nos banhos e lavagens, nas descargas do vaso sanitário, na limpeza e em outros usos domésticos. Depois de usada, a água passa a ser chamada de servida e se transforma em esgotos, que deve ser encaminhado via rede de esgotos para tratamento na ETE – Estação de Tratamento de Esgotos.

Infelizmente, parte considerável dessa água tratada pode estar sendo desperdiçada nas residências sem uso e correndo literalmente pelo ralo. Para entendermos isso melhor, vamos dividir as perdas de água em Perdas de Rede e em Perdas no Uso.

As Perdas de Rede são aquelas onde existem problemas nas tubulações e em dispositivos hidráulicos da rede interna do imóvel, ocorrendo perdas de água por vazamentos e gotejamentos. Algumas perdas frequentes:

Bóia da caixa d’água: a função da bóia é fechar a entrada de água no reservatório assim que o nível chegar ao ponto máximo da capacidade. Quebras da bóia levam ao enchimento contínuo da caixa e ao vazamento do excesso pelo ladrão – se não for identificada a extravasão da caixa, haverá perdas enormes de água. A bóia também corre o risco de travamento – grãos de areia ou pedriscos podem travar o fecho da bóia e levar a extravasão contínua de pequena quantidade de água; esse último problema é mais difícil de ser percebido fisicamente, mas não no aumento da conta de água.

Gotejamento nas torneiras: Pode até parecer que uma torneira gotejando não representa uma perda considerável de água e, muitas vezes, não gera a preocupação de se providenciar o conserto. Uma torneira pingando uma gota a cada 5 segundos representa mais de 20 litros de água desperdiçados em apenas 1 dia – em um mês serão desperdiçados 600 litros de água, o que corresponde ao consumo diário de uma pessoa entre 3 e 4 dias.

Se o vazamento da torneira formar um filete de 2 mm de diâmetro (como na foto deste post), essa perda será de 114 litros por dia; se o filete formado tiver 4 mm de diâmetro a perda se elevará para 333 litros por dia – serão perdas mensais de 3.420 e 9.990 litros, respectivamente;

Vazamento em descargas: um estudo realizado na África do Sul em 1989, avaliou vazamentos em 531 vasos sanitários com caixa acoplada: verificou-se perdas entre 571 e 1.080 litros ao dia conforme o tamanho do vazamento. Vazamentos pequenos, difíceis de serem percebidos, podem ser provocados por acúmulo de limo na bóia de saída da caixa acoplada; vazamentos maiores costumam ocorrer por falhas no fechamento da bóia da entrada de água. Válvulas de descarga de parede, que trabalham sob pressão hidráulica, podem apresentar perdas de água ainda maiores em caso de vazamentos;

Trincas em tubulações: tubulações embutidas em paredes podem apresentar trincas e quebras que podem ser localizadas a partir da formação de manchas de umidade e mofo; nos casos de tubulações embutidas em pisos, a localização pode ser mais difícil, pois nem sempre a água do vazamento aflora na superfície. Algumas vezes é possível sentir que o piso parece oco – a água carreia o solo ao vazar.

Portanto, fique de olho nos vazamentos e estranhe qualquer aumento repentino na conta de água. Continuaremos no próximo post.

AMIANTO: UM MATERIAL PERIGOSO QUE PODE ESTAR PRESENTE NA ÁGUA QUE VOCÊ BEBE

Caixa d'água em amianto

O amianto é uma fibra mineral que tem largo emprego industrial devido às suas características físicas: resistência a altas temperaturas, flexibilidade, resistência ao ataque de ácidos, isolamento elétrico e acústico, e, principalmente, um baixo custo. Ao longo do século XX, o amianto chegou a ser considerado um “mineral mágico”. Durante décadas, produtos fabricados em cimento amianto (massa com cimento e fibras de amianto) foi destaque na construção civil em materiais como placas, telhas, forros, pisos e caixas d’água.

Com o passar dos anos, estudos começaram a associar a intoxicação por fibras do amianto a uma série de doenças observadas entre trabalhadores da construção civil, mineiros e mecânicos, que tinham contato direto com o mineral,. As fibras inaladas ou ingeridas estimulam mutações celulares no organismo, que podem originar tumores cancerígenos nos pulmões e em outros órgãos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que cerca de 100 mil pessoas morrem por ano devido à doenças causadas pelo amianto e materiais que utilizam o mineral estão proibidos em mais de 50 países. O Brasil, ao contrário, é um dos cinco maiores utilizadores e exportadores de produtos com amianto do mundo.

De acordo com informações do INCA – Instituto Nacional do Câncer, as principais doenças relacionadas ao amianto são:

Asbestose: causada pela deposição de fibras de amianto nos alvéolos pulmonares, provocando uma reação inflamatória, fibrose e rigidez, reduzindo a capacidade de realizar a troca gasosa e da capacidade respiratória, levando à incapacidade para o trabalho;

Câncer de pulmão: O câncer de pulmão pode estar associado com outras manifestações mórbidas como asbestose;

Câncer de laringe, do trato digestivo e de ovário: Também estão relacionados à exposição ao amianto;

Mesotelioma: é uma forma rara de tumor maligno, mais comumente atingindo a pleura, membrana serosa que reveste o pulmão, mas também incidindo sobre o peritônio, pericárdio, a túnica vaginal e bolsa escrotal.

Devido a toxicidade deste material, a venda de produtos com amianto na sua composição foram proibidas na cidade de São Paulo em 2001 e no Estado de São Paulo em 2007. Em outros 5 estados o amianto também é proibido: Espírito Santo, Mato Grosso, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. No Mato Grosso do Sul a lei existente foi revogada pelo STF – Supremo Tribunal Federal, que considerou que houve invasão da competência da União. No Pará, as leis aprovadas na Assembléia Legislativa não foram sancionadas pelos sucessivos governadores e a população continua exposta aos riscos.

Apesar da proibição da venda de produtos a base de cimento amianto nestes 6 estados, existem milhões de residências que ainda continuam utilizando telhas, forros, pisos, caixas d’água entre outros produtos fabricados com este material. Um outro produto muito comum que utiliza o amianto são as pastilhas e sapatas de freios utilizados em carros, ônibus e caminhões.

Nas caixas d’água fabricadas com cimento amianto, o grande risco são as fibras do material que se soltam quando essas caixas são velhas; também há grande liberação dessas fibras durante a lavagem das caixas d’água – como a superfície das paredes são muito rugosas, é necessário o uso de buchas mais abrasivas nas operações de lavagem, o que provoca o desprendimento de fibras de amianto que podem ser ingeridas junto com a água.

Se a sua residência utiliza algum modelo da caixa d’água de cimento amianto, tenha atenção redobrada durante as operações de lavagem; se possível troque o reservatório por um modelo em termoplástico ou fibra de vidro – a saúde da família agradece.

LIMPEZA DA CAIXA D’ÁGUA, OU BRINCANDO DE ESCONDE-ESCONDE

Limpeza de caixa d'água

Anos atrás, um antigo vizinho da minha família contraiu uma violenta infecção intestinal e faleceu poucos dias depois de septicemia. Passado alguns dias, um dos seus filhos descobriu que a tampa da caixa d’água da casa estava quebrada e achou um gato morto boiando na água – essa foi a origem da doença que vitimou nosso vizinho.

Por mais improvável que isso possa parecer, esse tipo de evento acontece com mais frequência do que se possa imaginar. Um amigo comentou certa feita que trabalhou por vários anos na empresa do pai, cujo negócio era a limpeza de caixas d’água em edifícios; de acordo com seu relato, encontrar pombos e ratos mortos flutuando nos reservatórios era quase que um evento diário.

Assim que você acabar de ler esse post, peço que você tente acessar a caixa d’água de sua casa ou de seu prédio: é quase uma certeza que você vai se deparar com inúmeros obstáculos até que consiga (caso isso seja possível) chegar até a sua escondida caixa d’água. Essa dificuldade de acesso é uma das razões que levam os reservatórios a ficar por longos períodos sem que haja uma visita de vistoria técnica ou de manutenção. Um exemplo de problema que pode estar ocorrendo agora em sua caixa d’água e que não foi notado é a quebra ou travamento da bóia que fecha a entrada de água: pode estar vazando água pelo ladrão da caixa (o ladrão é uma tubulação que retira o excesso de água da caixa para evitar o transbordamento na laje ou forro do imóvel) – se a saída do ladrão não estiver em local de fácil visualização, sua próxima conta de água poderá sofrer uma explosão no preço.

É recomendável que as caixas d’água sejam lavadas, pelo menos, uma vez a cada seis meses. Nessa lavagem, a caixa deve ser esvaziada e toda a superfície interna deve ser lavada com solução a base de hipoclorito de sódio. A água da lavagem e os resíduos de areia acumulados devem ser retirados com um balde, evitando-se que a sujeira entre na tubulação interna do imóvel (a saída de água da caixa deve estar fechada durante a lavagem). Caso a caixa d’água seja antiga, fabricada em cimento com fibras de amianto, deve-se usar uma esponja mais abrasiva para esfregar as paredes. Um alerta: a inalação ou ingestão das fibras do amianto, que podem desprender das paredes da caixa d’água, pode causar várias doenças, inclusive o câncer – detalharemos isso em um outro post.

As paredes do reservatório tendem a ficar cobertas por colônias de micro algas e de limo, que por sua vez podem se transformar em abrigos para bactérias e protozoários como as amebas. Em casos onde a caixa está mal tampada ou, simplesmente destampada, as paredes podem se transformar em locais de desova das fêmeas do mosquito Aedes Aegypti; as larvas ao eclodirem cairão na água e em poucos dias uma nuvem de mosquitos sedentos de sangue sairá em revoada; como esses mosquitos colonizam uma área de até 100 metros ao redor do local do nascimento, sua família estará no centro do “território de caça” dos mosquitos.

Um outro problema comum nos reservatórios é a presença de areia e argila acumulada no fundo. Sempre que há um incidente ou operação de manutenção nas tubulações da rede de abastecimento de água, é comum que haja uma aspiração de terra e areia pelas tubulações, material esse que acaba sendo compelido na direção das caixas de água próximas no momento em que a pressão das tubulações é restabelecida. Essas partículas são inertes e não costumam provocar maiores problemas. Uma forma de se evitar a entrada de material particulado é a instalação de um filtro de linha na entrada de água do imóvel.

Como já afirmei em post anterior, não basta o fornecimento de água potável de boa qualidade pela rede pública de abastecimento – é preciso que toda a população preste atenção nas condições de armazenamento nas caixas d’água para que essa qualidade esteja assegurada no momento do consumo.

CAIXA D’ÁGUA: OS BENEFÍCIOS E OS PROBLEMAS

Caixa de água

Na recente crise hídrica enfrentada pela Região Metropolitana de São Paulo, os responsáveis pelas empresas e autarquias municipais adotaram uma série de medidas para a economia de água, nem sempre as mais populares. Uma dessas medidas, talvez a mais polêmica, tratava da redução da pressão da água nas tubulações como forma de reduzir as perdas na distribuição pela rede. Como se sabe, as perdas na distribuição de água na Região Metropolitana são da ordem de 30% e qualquer redução num momento de crise hídrica acentuada é sempre bem vinda.

As reclamações de moradores informando a falta de água, especialmente nas regiões mais altas das cidades, não tardaram a aparecer na imprensa, apesar das declarações dos responsáveis pelo abastecimento afirmarem que não havia falta de água e sim uma redução da pressão. Com o passar dos meses começou a ficar claro qual era realmente o problema: a maior parte dos moradores que afirmava não ter água em suas torneiras não dispunha de uma caixa d’água em seus imóveis. O Governo do Estado chegou até a criar um programa para a distribuição de caixas de água para a população de baixa renda – esse programa apresentou uma baixíssima adesão pois os imóveis destas famílias não apresentava condições técnicas para receber uma caixa d’água.

De acordo com as normas técnicas, todo imóvel deve possuir um reservatório para o armazenamento de água, visando o abastecimento das famílias em situações emergenciais de falha no abastecimento. Essa reserva deve atender o consumo da família por, no mínimo, 2 dias. Relembrando dados de post anterior, afirmamos que o consumo diário de água por habitante está na faixa entre 150 e 200 litros por dia; caso essa família seja composta por 5 pessoas, teremos um consumo diário de até 1.000 litros de água, o que corresponde a necessidade de uma reserva mínima de 2.000 litros para dois dias de consumo.

Considerando que 1 litro de água pesa aproximadamente 1 quilograma, um reservatório com 2.000 litros de capacidade pesará aproximadamente 2 toneladas. Para que você entenda a dificuldade de apoiar todo esse peso sobre a estrutura de uma casa saiba que uma laje de ótima qualidade tem capacidade de suportar uma sobre carga de 250 kg por metro quadrado – percebe-se só por esse número que há necessidade de um reforço na estrutura do imóvel para que suporte o peso da caixa d’água. As construções “populares” que encontramos nas regiões periféricas das cidades, sem entrar em maiores detalhes técnicos, não suportam essa sobre carga em suas lajes (as lajes pré-fabricadas usadas nas construções populares são projetadas para suportar uma sobre carga média de 150 kg por metro quadrado).

Essa dificuldade na instalação de caixas d’água estimula o uso de reservatórios improvisados nos quintais como tambores, barris, baldes, bacias, tanques e até mesmo caixas d’água apoiadas sobre o solo. Como é de conhecimento geral, esses reservatórios quando deixados abertos ou mal tampados podem ser transformados em criadouros de mosquitos como o Aedes Aegypti, responsáveis pela transmissão de inúmeras doenças. As caixas d’água mesmo quando instaladas corretamente no alto dos imóveis, podem ter esse mesmo destino quando não tampadas adequadamente (as tampas de alguns modelos de caixa em termoplástico são facilmente levadas pelo vento mais forte – vide imagem deste post), com a desvantagem da dificuldade de acesso para uma vistoria frequente.

Estamos só começando neste assunto. Continuamos no próximo post.

ÁGUA COM PRAZO DE VALIDADE

Água da torneira

O comentário que fiz no meu último post sobre o “mistério” das piscinas olímpicas verdes no Rio de Janeiro exige uma complementação importante: você pode até não saber mas a água potável tem um prazo de validade.

Conforme venho comentando há várias publicações, existe todo um esforço das empresas de abastecimento na produção e armazenamento de água para que se possa atender à demanda crescente nas cidades, empresas e demais consumidores. Os problemas ligados aos descartes irregulares de esgotos, que contaminam cada vez mais as fontes de água, tornam essa tarefa cada vez mais complexa.

A água captada passa por um rigoroso processo de purificação na ETA – Estação de Tratamento de Água, que dependendo da qualidade da água vai exigir quantidades maiores de produtos químicos, para depois ser distribuída pela rede de abastecimento para os consumidores finais. No Brasil, a qualidade da água usada no abastecimento deve atender as normas da Portaria nº 36 de 19.01.1999 do Ministério da Saúde. Nos últimos estágios do processo de tratamento, a água recebe cloro, que tem a função de garantir a potabilidade da água até que ela chegue aos usuários finais.

O cloro é um bactericida e desinfetante altamente eficiente na eliminação de agentes patogênicos causadores de doenças como as bactérias, os vírus e os protozoários que crescem nos reservatórios de abastecimento de água, sobre as paredes das tubulações e nas caixas de água. O grande problema é que esse elemento tem uma vida útil máxima de 24 horas – após esse prazo, o cloro se transforma em gás e evapora, deixando a água sem a sua proteção.

Para os consumidores que usam a água em linha, ou seja, que recebem a água diretamente das tubulações da rede de abastecimento, não há maiores problemas pois o cloro está ativo. O grande problema ocorre nas caixas de água, onde a depender das condições, a água pode ficar armazenada por longos períodos, sob risco de perda da qualidade pela evaporação do cloro, criando condições para o crescimento e proliferação de agentes patogênicos que podem ser nocivos à saúde humana. Vamos falar dos problemas das caixas de água no próximo post.

De acordo com as normas técnicas, os imóveis devem possuir um reservatório que permita o armazenamento de uma quantidade de água suficiente para o consumo por, no mínimo, 2 dias. Esse cuidado é necessário para que se previna contra a falta de água na rede de abastecimento em caso de necessidade da realização de trabalhos de manutenção nas tubulações ou em equipamentos de bombeamento, reparos emergenciais de tubulações, serviços de limpeza dos tanques de armazenamento ou qualquer outra eventualidade. Como são interrupções relativamente curtas, sempre haverá a renovação da água armazenada e a potabillidade estará garantida.

Caso a água fique armazenada por mais tempo, passam a ser necessários cuidados especiais na água que será utilizada no consumo humano, que deve ser fervida e/ou filtrada (existem filtros que são altamente eficientes na purificação da água). Em caso extremos, quando a qualidade da água estiver altamente comprometida, recomenda-se esvaziar e lavar a caixa de água, permitindo-se assim que água fresca chegue ao reservatório.

A existência de um serviço de abastecimento de água tratada na localidade onde você mora ou trabalha é fundamental – porém é muito importante que se preste atenção constante na qualidade da água que você está consumindo e, principalmente nas condições de armazenamento na caixa de água do imóvel. Água potável tem sim prazo de validade e é preciso estar bem atento à “data” de vencimento.

O “MISTÉRIO” DAS PISCINAS OLÍMPICAS VERDES

Piscina Olímpica

Um grande mistério está chamando a atenção do mundo: as águas das piscinas de saltos ornamentais do Parque Maria Lenk, uma das instalações olímpicas do Rio de Janeiro, estão ficando verdes.

O porta-voz do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos, esclareceu que a causa da mudança de cor foi “uma proliferação inesperada de algas na piscina”. A organização explicou ainda que “o problema ter-se-á agravado por causa dos ventos fortes sentidos na região onde se encontra o Centro Aquático Maria Lenk”. Análises feitas em amostras de água indicam que não existe qualquer risco para a saúde dos atletas. As piscinas de saltos do Centro Aquático estão sediando as provas de natação sincronizada, pólo aquático e saltos para a água.

Apesar da fala diplomática do representante do Comitê, quem é do ramo sabe exatamente qual é o problema: micro algas verdes alimentadas por esgotos presentes na água

Em posts anteriores apresentei os problemas enfrentados pelo Rio Guandu, manancial responsável pelo fornecimento de 85% da água consumida pelos habitantes da cidade do Rio de Janeiro. Esse rio sofre imensamente com a poluição por esgotos in natura despejados em sua bacia e a água captada para o abastecimento necessita de quantidades imensas de produtos químicos para ser transformada em água potável.

Os esgotos domésticos são ricos em matéria orgânica, que dissolvida na água provoca a eutrofização, que é o fenômeno do crescimento excessivo de plantas aquáticas através de uma super fertilização. Quando há um excesso de micro algas na água, o processo de tratamento não consegue ser 100% eficiente – pequenas quantidades de plantas seguem na água distribuída para a população. No caso das piscinas olímpicas, houve uma negligência na cloração da água e, com o calor dos últimos dias, as micro algas se reproduziram sem controle e deixaram as piscinas com a cor verde.

As autoridades do Rio de Janeiro têm feito enorme esforço, diga-se de passagem com muito sucesso, para esconder o lixo flutuante na Baia da Guanabara mas não conseguiram esconder os estragos que estão sendo provocados por algas verdes microscópicas.

Vejam que não existe mistério algum – o que existe é uma incompetência generalizada na gestão dos recursos hídricos…

FECHO HÍDRICO, OU EVITANDO O CHEIRO DE ESGOTOS EM SUA CASA

Sifão

Neste último verão, com a explosão dos casos de dengue, zika e chukungunya em várias regiões do Brasil, foi possível perceber uma preocupação (bastante tardia) das autoridades sanitárias no combate aos criadouros do mosquito Aedes Aegypti (o famoso); em futuros posts sobre o controle de vetores vamos falar muito sobre ele. No meu bairro, na zona sudoeste de São Paulo, houve um aumento substancial dos casos de dengue e as equipes da Prefeitura precisaram fazer um esforço redobrado na visita às casas dos moradores na busca por focos de mosquitos. Numa conversa com uma dessas equipes em visita ao meu prédio, percebi uma preocupação nítida com a limpeza dos ralos externos do condomínio e das varandas dos apartamentos, preocupação muito relevante.

Você já deve ter observado que nos ralos existe um pequeno reservatório com água, o qual, na falta de cuidados, pode ser transformado num berçário de mosquitos. Mas, afinal de contas, porquê existe esse reservatório?

No meu último post chamei os esgotos de sopa de produtos químicos tamanha a quantidade de substâncias encontradas em sua composição. Por mais asqueroso que possa parecer para você, os esgotos que saem da sua casa são considerados uma verdadeira delícia para bilhões de bactérias, que se fartam a cada acionamento da descarga do seu banheiro ou durante a lavagem da sua louça. São essas bactérias que realizam o tratamento dos esgotos – elas comem os resíduos dos efluentes, transformando-os em materiais inertes após a digestão. Falaremos sobre isso quando tratarmos de ETE – Estação de Tratamento de Esgotos.

Os processos de digestão dos esgotos pelas bactérias tem como uma das suas características a liberação de gases com cheiros extremamente desagradáveis; parte desses gases tende a retornar para dentro dos imóveis através das tubulações. Para evitar que esses gases vazem, os componentes hidráulicos de saída de efluentes são equipados com um dispositivo conhecido como fecho hídrico.

O componente onde o fecho hídrico é mais visível é o vaso sanitário – sempre existe água no fundo do vaso; sempre que a descarga do vaso sanitário é acionada, uma parte da água é reservada para completar o nível do fecho hídrico. Você também vai encontrar quantidades pequenas de água nos sifões das pias e, como já falamos, nos ralos de piso; nesses componentes, o reservatório tem uma segunda função: reter partículas e materiais sólidos, evitando que cheguem nas tubulações da rede de esgotos. A função da água é impedir a passagem dos gases e de insetos provenientes das instalações de esgotos. Caso você comece a perceber algum mal cheiro vindo da rede de esgotos no banheiro, na cozinha ou na lavanderia de sua casa, os dispositivos com fecho hídrico devem ser os primeiros a serem verificados (no caso de banheiros, verificar também a vedação na base do vaso sanitário).

A norma técnica de instalações de redes domésticas de esgotos recomenda a instalação de um tubo de ventilação na saída de esgotos do imóvel. Esse tubo deve ficar instalado na parede, com a saída superior acima do nível do telhado da casa, formando uma espécie de chaminé. Essa tubulação direciona os gases vindos da rede de esgotos para cima e dispersa esses gases, evitando que cheguem ao interior do imóvel (em dias muitos quentes há uma geração grande de gases no interior das tubulações da rede coletora de esgotos e grandes “bolhas” de gases são geradas a todo momento).

Os fechos hídricos são um dos componentes mais importantes para o conforto ambiental das edificações e requerem cuidados e manutenção, especialmente para os ralos e sifões, que devem ser limpos periodicamente e os materiais sólidos retidos devem ser descartados. Essa limpeza garantirá o pleno funcionamento dos dispositivos e você não correrá riscos de abrigar um criodouro de mosquitos escondido nos ralos e sifões de sua casa.

ESGOTOS LANÇADOS NA REDE DE ÁGUAS PLUVIAIS: O REVERSO DA MOEDA

Drenagem Pluvial

No meu último post falei sobre o problema gerado pelo lançamento de águas pluviais na rede coletora de esgotos e sobre os transtornos provocados pelo volume de efluentes muito acima da capacidade de vazão desta rede. Vamos apresentar o outro lado desse problema: o lançamento de esgotos nas tubulações da rede de águas pluviais.

Períodos bem definidos de chuvas são uma das características de países de clima equatorial e tropical como o do Brasil. Por mais precária que seja a infraestrutura de qualquer cidade, sempre existirá uma preocupação mínima com a drenagens das águas da chuva – o corte dos terrenos para a abertura de ruas e avenidas; o piso das calçadas acima do nível das ruas; a construção de guias, sarjetas e bocas de lobo; a instalação de tubulações de grande porte nos pontos mais baixos: todas essas providências visam criar caminhos para o escoamento das enxurradas fortes dos dias de chuva.

Esse sistema de drenagem, mais ou menos sofisticado de acordo com a capacidade das cidades, utiliza a força da gravidade para fazer a água fluir de um ponto mais alto para um ponto mais baixo do terreno, que normalmente é o vale de um rio ou um córrego. Os sistemas de esgotos sanitários funcionam utilizando esse mesmo sistema: o esgoto corre sempre de um ponto mais alto para um ponto mais baixo do terreno também usando a força da gravidade. E é justamente aí que reside o problema – se o sistema funciona para a água da chuva também funcionará para fazer o esgoto correr.

Os sistemas e as redes de drenagem das águas pluviais, na falta de redes coletoras de esgotos, acabam sendo utilizados pelas populações para a drenagem dos efluentes de suas casas. Essa prática, largamente difundida em bairros periféricos das grandes e médias cidades de nosso país (nos lugarejos mais pobres o esgoto corre a céu aberto aleatoriamente pois não existe uma rede de drenagem de águas pluviais), criam inúmeros problemas de saúde para as populações, contaminam o meio ambiente e rebaixam a qualidade de vida de todas as áreas adjacentes. Porém existe um outro grave problema, que nem sempre pode ser visto pelas populações: a composição química dos esgotos pode, literalmente, dissolver o concreto das tubulações de águas pluviais.

Os esgotos que saem de sua casa são uma verdadeira sopa de produtos químicos: a urina humana, por exemplo, possui mais de 3.000 componentes; some-se a isto as fezes, os produtos químicos usados na limpeza; conservantes, aromatizantes, corantes e outros químicos usados em alimentos; substâncias químicas usadas na fabricação de remédios e que são eliminadas pela urina e pelas fezes e por aí vai – grande parte dos elementos da Tabela Periódica são encontrados nos esgotos.

Para citar um único problema, a decomposição dos esgotos por bactérias nas tubulações gera o gás sulfídrico (H2S), que tem como característica um odor que lembra “ovo podre”. Em altas concentrações nas tubulações, esse gás venenoso pode ser fatal para os trabalhadores que fazem a manutenção das redes subterrâneas de esgotos e de águas pluviais. Esse gás também é altamente corrosivo para o concreto que, em contato com o gás, vai enfraquecendo (o concreto literalmente vai se transformando em gesso). Não são raras as vezes em que trechos de ruas afundam de uma hora para outra – as tubulações de concreto da rede de drenagem pluvial enfraquecem tanto por causa da corrosão por gás sulfídrico que não suportam mais o peso dos carros que circulam pelas ruas e entram em colapso. Os prejuízos são enormes – toda a tubulação tem de ser trocada e o calçamento da rua refeito.

Por fim, o maior de todos os problemas – os esgotos serão canalizados diretamente para rios e córregos, sem passar por qualquer tipo de tratamento, causando a morte de peixes e comprometendo as fontes de abastecimento de água que estão na base do saneamento básico. Um prejuízo completo!

ESGOTOS SANITÁRIOS X ÁGUA DE CHUVA: UM VELHO PROBLEMA

Água de chuva

Em diversas ocasiões, enquanto acompanhava trabalhos das equipes em obras de implantação de redes coletoras de esgotos, fui abordado por moradores das vizinhanças que me questionavam sobre o diâmetro das tubulações de esgotos que estavam sendo instaladas – essas pessoas argumentavam que, em um dia de chuva forte, aquelas “manilhas” não conseguiriam escoar as águas. E, em cada uma dessas ocasiões, me via obrigado a explicar que esgotos e água de chuva (ou pluvial) eram coisas diferentes e que existem redes de tubulações próprias para uma delas.

As tubulações da rede de esgotos não foram dimensionadas para suportar o volume de águas das chuvas e seu uso inadequado, além de sobrecarregar a rede, pode causar retorno do esgoto em condições de chuva forte e entupimento das tubulações. A água de chuva não necessita passar pela estação de tratamento de esgotos – ela deve ser direcionada para a rede de drenagem pluvial, sob responsabilidade da prefeitura local, que vai encaminhar esta água direção dos rios e córregos da região.

Para que você consiga perceber a diferença de volume entre os esgotos sanitários e o das águas pluviais, vamos recordar que o consumo de água de uma pessoa está entre 150 e 200 litros/dia. Essa água, depois de utilizada nos banhos, na lavagem das roupas e na limpeza da casa, na lavagem e preparação de alimentos, no vaso sanitário etc, é transformada em esgotos sanitários. Se considerarmos que uma família média tem 5 pessoas, teremos a geração máxima de 1.000 litros de esgotos a cada dia, produzidos de maneira gradual ao longo de muitas horas. As tubulações da rede de esgotos foram calculadas para receber volumes de águas dessa ordem de grandeza de cada imóvel.

Vamos considerar que a família descrita more numa casa com um telhado ou laje com 100 metros quadrados (uma casa com cinco cômodos tem aproximadamente essa área de telhado). Num dia de verão com chuva forte é muito comum o registro de índices pluviométricos de 45 mm (devidamente convertido, esse índice indica que numa área de 1 metro quadrado caiu 45 litros de água de chuva). Considerando que o telhado da casa do nosso exemplo tem 100 metros quadrados, o total de água que caiu durante a chuva será de 4.500 litros de água . Esse volume de água de chuva corresponde a quase cinco vezes o volume diário de esgoto gerado pelo imóvel. Imagine que muitos imóveis nas vizinhanças também estejam lançado águas de chuva na rede de esgotos – não é necessário ser expert em matemática para perceber que a tubulação da rede de esgotos não tem capacidade para absorver instantaneamente todo esse volume de água. As tubulações vão trabalhar por um longo período com a pressão máxima até conseguir escoar toda a água, imóveis localizados em pontos mais baixo poderão ser alagados por retorno de esgotos pelos ralos e as estações de tratamento de esgotos serão sobrecarregadas com um volume de efluentes muito acima da capacidade máxima de tratamento calculada no projeto – é um desastre para todo o sistema

Observe que estamos considerando só a água de chuva que caiu sobre o telhado, pois muitos proprietários de imóveis não resistem à tentação de ligar os canos de escoamento das calhas no sistema de esgoto doméstico. Se os ralos externos desse imóvel também estiverem ligados ao sistema de esgoto, o volume de águas de chuva lançada nas tubulações será maior ainda.

Vamos nos aprofundar neste tema nos próximos posts. Por enquanto fica esse alerta – verifique se as saídas de águas pluviais do telhado da sua casa estão sendo lançados na direção da sarjeta de sua rua (que é o caminho natural de escoamento). A rede de esgotos só pode receber efluentes de esgotos – lembre sempre disso!

OLIMPÍADAS DO RIO DE JANEIRO

guanabara

Um post muito curto.

Foram muitos anos de preparativos e investimentos até chegarmos neste momento – estão começando os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro!

Mas faltou “tempo” para despoluir a Baia da Guanabara, a Lagoa Rodrigo de Freitas e também as lagoas da região da Barra da Tijuca. E não é só isso – todas as metas ambientais assumidas pela cidade do Rio de Janeiro no dossiê de candidatura para a Olimpíada de 2016, sem nenhuma exceção, foram descumpridas.

Uma dessas metas, na área do saneamento ambiental, tinha como compromisso a redução do volume de esgotos lançados na Baia da Guanabara em 80% a partir de um amplo programa de instalação de redes coletoras de esgotos e de estações de tratamento nas cidades ao redor da Baia. Esgoto sanitário nunca é prioridade – nem mesmo quando o país assume um compromisso diante de todo o mundo.

Muito boa sorte para os atletas do iatismo (com provas na Baia da Guanabara) e do remo (com provas na Lagoa Rodrigo de Freitas), que serão obrigados a competir em águas poluídas por esgotos e lixo.