CAIXA D’ÁGUA: OS BENEFÍCIOS E OS PROBLEMAS

Caixa de água

Na recente crise hídrica enfrentada pela Região Metropolitana de São Paulo, os responsáveis pelas empresas e autarquias municipais adotaram uma série de medidas para a economia de água, nem sempre as mais populares. Uma dessas medidas, talvez a mais polêmica, tratava da redução da pressão da água nas tubulações como forma de reduzir as perdas na distribuição pela rede. Como se sabe, as perdas na distribuição de água na Região Metropolitana são da ordem de 30% e qualquer redução num momento de crise hídrica acentuada é sempre bem vinda.

As reclamações de moradores informando a falta de água, especialmente nas regiões mais altas das cidades, não tardaram a aparecer na imprensa, apesar das declarações dos responsáveis pelo abastecimento afirmarem que não havia falta de água e sim uma redução da pressão. Com o passar dos meses começou a ficar claro qual era realmente o problema: a maior parte dos moradores que afirmava não ter água em suas torneiras não dispunha de uma caixa d’água em seus imóveis. O Governo do Estado chegou até a criar um programa para a distribuição de caixas de água para a população de baixa renda – esse programa apresentou uma baixíssima adesão pois os imóveis destas famílias não apresentava condições técnicas para receber uma caixa d’água.

De acordo com as normas técnicas, todo imóvel deve possuir um reservatório para o armazenamento de água, visando o abastecimento das famílias em situações emergenciais de falha no abastecimento. Essa reserva deve atender o consumo da família por, no mínimo, 2 dias. Relembrando dados de post anterior, afirmamos que o consumo diário de água por habitante está na faixa entre 150 e 200 litros por dia; caso essa família seja composta por 5 pessoas, teremos um consumo diário de até 1.000 litros de água, o que corresponde a necessidade de uma reserva mínima de 2.000 litros para dois dias de consumo.

Considerando que 1 litro de água pesa aproximadamente 1 quilograma, um reservatório com 2.000 litros de capacidade pesará aproximadamente 2 toneladas. Para que você entenda a dificuldade de apoiar todo esse peso sobre a estrutura de uma casa saiba que uma laje de ótima qualidade tem capacidade de suportar uma sobre carga de 250 kg por metro quadrado – percebe-se só por esse número que há necessidade de um reforço na estrutura do imóvel para que suporte o peso da caixa d’água. As construções “populares” que encontramos nas regiões periféricas das cidades, sem entrar em maiores detalhes técnicos, não suportam essa sobre carga em suas lajes (as lajes pré-fabricadas usadas nas construções populares são projetadas para suportar uma sobre carga média de 150 kg por metro quadrado).

Essa dificuldade na instalação de caixas d’água estimula o uso de reservatórios improvisados nos quintais como tambores, barris, baldes, bacias, tanques e até mesmo caixas d’água apoiadas sobre o solo. Como é de conhecimento geral, esses reservatórios quando deixados abertos ou mal tampados podem ser transformados em criadouros de mosquitos como o Aedes Aegypti, responsáveis pela transmissão de inúmeras doenças. As caixas d’água mesmo quando instaladas corretamente no alto dos imóveis, podem ter esse mesmo destino quando não tampadas adequadamente (as tampas de alguns modelos de caixa em termoplástico são facilmente levadas pelo vento mais forte – vide imagem deste post), com a desvantagem da dificuldade de acesso para uma vistoria frequente.

Estamos só começando neste assunto. Continuamos no próximo post.

ÁGUA COM PRAZO DE VALIDADE

Água da torneira

O comentário que fiz no meu último post sobre o “mistério” das piscinas olímpicas verdes no Rio de Janeiro exige uma complementação importante: você pode até não saber mas a água potável tem um prazo de validade.

Conforme venho comentando há várias publicações, existe todo um esforço das empresas de abastecimento na produção e armazenamento de água para que se possa atender à demanda crescente nas cidades, empresas e demais consumidores. Os problemas ligados aos descartes irregulares de esgotos, que contaminam cada vez mais as fontes de água, tornam essa tarefa cada vez mais complexa.

A água captada passa por um rigoroso processo de purificação na ETA – Estação de Tratamento de Água, que dependendo da qualidade da água vai exigir quantidades maiores de produtos químicos, para depois ser distribuída pela rede de abastecimento para os consumidores finais. No Brasil, a qualidade da água usada no abastecimento deve atender as normas da Portaria nº 36 de 19.01.1999 do Ministério da Saúde. Nos últimos estágios do processo de tratamento, a água recebe cloro, que tem a função de garantir a potabilidade da água até que ela chegue aos usuários finais.

O cloro é um bactericida e desinfetante altamente eficiente na eliminação de agentes patogênicos causadores de doenças como as bactérias, os vírus e os protozoários que crescem nos reservatórios de abastecimento de água, sobre as paredes das tubulações e nas caixas de água. O grande problema é que esse elemento tem uma vida útil máxima de 24 horas – após esse prazo, o cloro se transforma em gás e evapora, deixando a água sem a sua proteção.

Para os consumidores que usam a água em linha, ou seja, que recebem a água diretamente das tubulações da rede de abastecimento, não há maiores problemas pois o cloro está ativo. O grande problema ocorre nas caixas de água, onde a depender das condições, a água pode ficar armazenada por longos períodos, sob risco de perda da qualidade pela evaporação do cloro, criando condições para o crescimento e proliferação de agentes patogênicos que podem ser nocivos à saúde humana. Vamos falar dos problemas das caixas de água no próximo post.

De acordo com as normas técnicas, os imóveis devem possuir um reservatório que permita o armazenamento de uma quantidade de água suficiente para o consumo por, no mínimo, 2 dias. Esse cuidado é necessário para que se previna contra a falta de água na rede de abastecimento em caso de necessidade da realização de trabalhos de manutenção nas tubulações ou em equipamentos de bombeamento, reparos emergenciais de tubulações, serviços de limpeza dos tanques de armazenamento ou qualquer outra eventualidade. Como são interrupções relativamente curtas, sempre haverá a renovação da água armazenada e a potabillidade estará garantida.

Caso a água fique armazenada por mais tempo, passam a ser necessários cuidados especiais na água que será utilizada no consumo humano, que deve ser fervida e/ou filtrada (existem filtros que são altamente eficientes na purificação da água). Em caso extremos, quando a qualidade da água estiver altamente comprometida, recomenda-se esvaziar e lavar a caixa de água, permitindo-se assim que água fresca chegue ao reservatório.

A existência de um serviço de abastecimento de água tratada na localidade onde você mora ou trabalha é fundamental – porém é muito importante que se preste atenção constante na qualidade da água que você está consumindo e, principalmente nas condições de armazenamento na caixa de água do imóvel. Água potável tem sim prazo de validade e é preciso estar bem atento à “data” de vencimento.

O “MISTÉRIO” DAS PISCINAS OLÍMPICAS VERDES

Piscina Olímpica

Um grande mistério está chamando a atenção do mundo: as águas das piscinas de saltos ornamentais do Parque Maria Lenk, uma das instalações olímpicas do Rio de Janeiro, estão ficando verdes.

O porta-voz do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos, esclareceu que a causa da mudança de cor foi “uma proliferação inesperada de algas na piscina”. A organização explicou ainda que “o problema ter-se-á agravado por causa dos ventos fortes sentidos na região onde se encontra o Centro Aquático Maria Lenk”. Análises feitas em amostras de água indicam que não existe qualquer risco para a saúde dos atletas. As piscinas de saltos do Centro Aquático estão sediando as provas de natação sincronizada, pólo aquático e saltos para a água.

Apesar da fala diplomática do representante do Comitê, quem é do ramo sabe exatamente qual é o problema: micro algas verdes alimentadas por esgotos presentes na água

Em posts anteriores apresentei os problemas enfrentados pelo Rio Guandu, manancial responsável pelo fornecimento de 85% da água consumida pelos habitantes da cidade do Rio de Janeiro. Esse rio sofre imensamente com a poluição por esgotos in natura despejados em sua bacia e a água captada para o abastecimento necessita de quantidades imensas de produtos químicos para ser transformada em água potável.

Os esgotos domésticos são ricos em matéria orgânica, que dissolvida na água provoca a eutrofização, que é o fenômeno do crescimento excessivo de plantas aquáticas através de uma super fertilização. Quando há um excesso de micro algas na água, o processo de tratamento não consegue ser 100% eficiente – pequenas quantidades de plantas seguem na água distribuída para a população. No caso das piscinas olímpicas, houve uma negligência na cloração da água e, com o calor dos últimos dias, as micro algas se reproduziram sem controle e deixaram as piscinas com a cor verde.

As autoridades do Rio de Janeiro têm feito enorme esforço, diga-se de passagem com muito sucesso, para esconder o lixo flutuante na Baia da Guanabara mas não conseguiram esconder os estragos que estão sendo provocados por algas verdes microscópicas.

Vejam que não existe mistério algum – o que existe é uma incompetência generalizada na gestão dos recursos hídricos…

FECHO HÍDRICO, OU EVITANDO O CHEIRO DE ESGOTOS EM SUA CASA

Sifão

Neste último verão, com a explosão dos casos de dengue, zika e chukungunya em várias regiões do Brasil, foi possível perceber uma preocupação (bastante tardia) das autoridades sanitárias no combate aos criadouros do mosquito Aedes Aegypti (o famoso); em futuros posts sobre o controle de vetores vamos falar muito sobre ele. No meu bairro, na zona sudoeste de São Paulo, houve um aumento substancial dos casos de dengue e as equipes da Prefeitura precisaram fazer um esforço redobrado na visita às casas dos moradores na busca por focos de mosquitos. Numa conversa com uma dessas equipes em visita ao meu prédio, percebi uma preocupação nítida com a limpeza dos ralos externos do condomínio e das varandas dos apartamentos, preocupação muito relevante.

Você já deve ter observado que nos ralos existe um pequeno reservatório com água, o qual, na falta de cuidados, pode ser transformado num berçário de mosquitos. Mas, afinal de contas, porquê existe esse reservatório?

No meu último post chamei os esgotos de sopa de produtos químicos tamanha a quantidade de substâncias encontradas em sua composição. Por mais asqueroso que possa parecer para você, os esgotos que saem da sua casa são considerados uma verdadeira delícia para bilhões de bactérias, que se fartam a cada acionamento da descarga do seu banheiro ou durante a lavagem da sua louça. São essas bactérias que realizam o tratamento dos esgotos – elas comem os resíduos dos efluentes, transformando-os em materiais inertes após a digestão. Falaremos sobre isso quando tratarmos de ETE – Estação de Tratamento de Esgotos.

Os processos de digestão dos esgotos pelas bactérias tem como uma das suas características a liberação de gases com cheiros extremamente desagradáveis; parte desses gases tende a retornar para dentro dos imóveis através das tubulações. Para evitar que esses gases vazem, os componentes hidráulicos de saída de efluentes são equipados com um dispositivo conhecido como fecho hídrico.

O componente onde o fecho hídrico é mais visível é o vaso sanitário – sempre existe água no fundo do vaso; sempre que a descarga do vaso sanitário é acionada, uma parte da água é reservada para completar o nível do fecho hídrico. Você também vai encontrar quantidades pequenas de água nos sifões das pias e, como já falamos, nos ralos de piso; nesses componentes, o reservatório tem uma segunda função: reter partículas e materiais sólidos, evitando que cheguem nas tubulações da rede de esgotos. A função da água é impedir a passagem dos gases e de insetos provenientes das instalações de esgotos. Caso você comece a perceber algum mal cheiro vindo da rede de esgotos no banheiro, na cozinha ou na lavanderia de sua casa, os dispositivos com fecho hídrico devem ser os primeiros a serem verificados (no caso de banheiros, verificar também a vedação na base do vaso sanitário).

A norma técnica de instalações de redes domésticas de esgotos recomenda a instalação de um tubo de ventilação na saída de esgotos do imóvel. Esse tubo deve ficar instalado na parede, com a saída superior acima do nível do telhado da casa, formando uma espécie de chaminé. Essa tubulação direciona os gases vindos da rede de esgotos para cima e dispersa esses gases, evitando que cheguem ao interior do imóvel (em dias muitos quentes há uma geração grande de gases no interior das tubulações da rede coletora de esgotos e grandes “bolhas” de gases são geradas a todo momento).

Os fechos hídricos são um dos componentes mais importantes para o conforto ambiental das edificações e requerem cuidados e manutenção, especialmente para os ralos e sifões, que devem ser limpos periodicamente e os materiais sólidos retidos devem ser descartados. Essa limpeza garantirá o pleno funcionamento dos dispositivos e você não correrá riscos de abrigar um criodouro de mosquitos escondido nos ralos e sifões de sua casa.

ESGOTOS LANÇADOS NA REDE DE ÁGUAS PLUVIAIS: O REVERSO DA MOEDA

Drenagem Pluvial

No meu último post falei sobre o problema gerado pelo lançamento de águas pluviais na rede coletora de esgotos e sobre os transtornos provocados pelo volume de efluentes muito acima da capacidade de vazão desta rede. Vamos apresentar o outro lado desse problema: o lançamento de esgotos nas tubulações da rede de águas pluviais.

Períodos bem definidos de chuvas são uma das características de países de clima equatorial e tropical como o do Brasil. Por mais precária que seja a infraestrutura de qualquer cidade, sempre existirá uma preocupação mínima com a drenagens das águas da chuva – o corte dos terrenos para a abertura de ruas e avenidas; o piso das calçadas acima do nível das ruas; a construção de guias, sarjetas e bocas de lobo; a instalação de tubulações de grande porte nos pontos mais baixos: todas essas providências visam criar caminhos para o escoamento das enxurradas fortes dos dias de chuva.

Esse sistema de drenagem, mais ou menos sofisticado de acordo com a capacidade das cidades, utiliza a força da gravidade para fazer a água fluir de um ponto mais alto para um ponto mais baixo do terreno, que normalmente é o vale de um rio ou um córrego. Os sistemas de esgotos sanitários funcionam utilizando esse mesmo sistema: o esgoto corre sempre de um ponto mais alto para um ponto mais baixo do terreno também usando a força da gravidade. E é justamente aí que reside o problema – se o sistema funciona para a água da chuva também funcionará para fazer o esgoto correr.

Os sistemas e as redes de drenagem das águas pluviais, na falta de redes coletoras de esgotos, acabam sendo utilizados pelas populações para a drenagem dos efluentes de suas casas. Essa prática, largamente difundida em bairros periféricos das grandes e médias cidades de nosso país (nos lugarejos mais pobres o esgoto corre a céu aberto aleatoriamente pois não existe uma rede de drenagem de águas pluviais), criam inúmeros problemas de saúde para as populações, contaminam o meio ambiente e rebaixam a qualidade de vida de todas as áreas adjacentes. Porém existe um outro grave problema, que nem sempre pode ser visto pelas populações: a composição química dos esgotos pode, literalmente, dissolver o concreto das tubulações de águas pluviais.

Os esgotos que saem de sua casa são uma verdadeira sopa de produtos químicos: a urina humana, por exemplo, possui mais de 3.000 componentes; some-se a isto as fezes, os produtos químicos usados na limpeza; conservantes, aromatizantes, corantes e outros químicos usados em alimentos; substâncias químicas usadas na fabricação de remédios e que são eliminadas pela urina e pelas fezes e por aí vai – grande parte dos elementos da Tabela Periódica são encontrados nos esgotos.

Para citar um único problema, a decomposição dos esgotos por bactérias nas tubulações gera o gás sulfídrico (H2S), que tem como característica um odor que lembra “ovo podre”. Em altas concentrações nas tubulações, esse gás venenoso pode ser fatal para os trabalhadores que fazem a manutenção das redes subterrâneas de esgotos e de águas pluviais. Esse gás também é altamente corrosivo para o concreto que, em contato com o gás, vai enfraquecendo (o concreto literalmente vai se transformando em gesso). Não são raras as vezes em que trechos de ruas afundam de uma hora para outra – as tubulações de concreto da rede de drenagem pluvial enfraquecem tanto por causa da corrosão por gás sulfídrico que não suportam mais o peso dos carros que circulam pelas ruas e entram em colapso. Os prejuízos são enormes – toda a tubulação tem de ser trocada e o calçamento da rua refeito.

Por fim, o maior de todos os problemas – os esgotos serão canalizados diretamente para rios e córregos, sem passar por qualquer tipo de tratamento, causando a morte de peixes e comprometendo as fontes de abastecimento de água que estão na base do saneamento básico. Um prejuízo completo!

ESGOTOS SANITÁRIOS X ÁGUA DE CHUVA: UM VELHO PROBLEMA

Água de chuva

Em diversas ocasiões, enquanto acompanhava trabalhos das equipes em obras de implantação de redes coletoras de esgotos, fui abordado por moradores das vizinhanças que me questionavam sobre o diâmetro das tubulações de esgotos que estavam sendo instaladas – essas pessoas argumentavam que, em um dia de chuva forte, aquelas “manilhas” não conseguiriam escoar as águas. E, em cada uma dessas ocasiões, me via obrigado a explicar que esgotos e água de chuva (ou pluvial) eram coisas diferentes e que existem redes de tubulações próprias para uma delas.

As tubulações da rede de esgotos não foram dimensionadas para suportar o volume de águas das chuvas e seu uso inadequado, além de sobrecarregar a rede, pode causar retorno do esgoto em condições de chuva forte e entupimento das tubulações. A água de chuva não necessita passar pela estação de tratamento de esgotos – ela deve ser direcionada para a rede de drenagem pluvial, sob responsabilidade da prefeitura local, que vai encaminhar esta água direção dos rios e córregos da região.

Para que você consiga perceber a diferença de volume entre os esgotos sanitários e o das águas pluviais, vamos recordar que o consumo de água de uma pessoa está entre 150 e 200 litros/dia. Essa água, depois de utilizada nos banhos, na lavagem das roupas e na limpeza da casa, na lavagem e preparação de alimentos, no vaso sanitário etc, é transformada em esgotos sanitários. Se considerarmos que uma família média tem 5 pessoas, teremos a geração máxima de 1.000 litros de esgotos a cada dia, produzidos de maneira gradual ao longo de muitas horas. As tubulações da rede de esgotos foram calculadas para receber volumes de águas dessa ordem de grandeza de cada imóvel.

Vamos considerar que a família descrita more numa casa com um telhado ou laje com 100 metros quadrados (uma casa com cinco cômodos tem aproximadamente essa área de telhado). Num dia de verão com chuva forte é muito comum o registro de índices pluviométricos de 45 mm (devidamente convertido, esse índice indica que numa área de 1 metro quadrado caiu 45 litros de água de chuva). Considerando que o telhado da casa do nosso exemplo tem 100 metros quadrados, o total de água que caiu durante a chuva será de 4.500 litros de água . Esse volume de água de chuva corresponde a quase cinco vezes o volume diário de esgoto gerado pelo imóvel. Imagine que muitos imóveis nas vizinhanças também estejam lançado águas de chuva na rede de esgotos – não é necessário ser expert em matemática para perceber que a tubulação da rede de esgotos não tem capacidade para absorver instantaneamente todo esse volume de água. As tubulações vão trabalhar por um longo período com a pressão máxima até conseguir escoar toda a água, imóveis localizados em pontos mais baixo poderão ser alagados por retorno de esgotos pelos ralos e as estações de tratamento de esgotos serão sobrecarregadas com um volume de efluentes muito acima da capacidade máxima de tratamento calculada no projeto – é um desastre para todo o sistema

Observe que estamos considerando só a água de chuva que caiu sobre o telhado, pois muitos proprietários de imóveis não resistem à tentação de ligar os canos de escoamento das calhas no sistema de esgoto doméstico. Se os ralos externos desse imóvel também estiverem ligados ao sistema de esgoto, o volume de águas de chuva lançada nas tubulações será maior ainda.

Vamos nos aprofundar neste tema nos próximos posts. Por enquanto fica esse alerta – verifique se as saídas de águas pluviais do telhado da sua casa estão sendo lançados na direção da sarjeta de sua rua (que é o caminho natural de escoamento). A rede de esgotos só pode receber efluentes de esgotos – lembre sempre disso!

OLIMPÍADAS DO RIO DE JANEIRO

guanabara

Um post muito curto.

Foram muitos anos de preparativos e investimentos até chegarmos neste momento – estão começando os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro!

Mas faltou “tempo” para despoluir a Baia da Guanabara, a Lagoa Rodrigo de Freitas e também as lagoas da região da Barra da Tijuca. E não é só isso – todas as metas ambientais assumidas pela cidade do Rio de Janeiro no dossiê de candidatura para a Olimpíada de 2016, sem nenhuma exceção, foram descumpridas.

Uma dessas metas, na área do saneamento ambiental, tinha como compromisso a redução do volume de esgotos lançados na Baia da Guanabara em 80% a partir de um amplo programa de instalação de redes coletoras de esgotos e de estações de tratamento nas cidades ao redor da Baia. Esgoto sanitário nunca é prioridade – nem mesmo quando o país assume um compromisso diante de todo o mundo.

Muito boa sorte para os atletas do iatismo (com provas na Baia da Guanabara) e do remo (com provas na Lagoa Rodrigo de Freitas), que serão obrigados a competir em águas poluídas por esgotos e lixo.

O USO DA CAIXA DE GORDURA, OU O FAST FOOD DAS BARATAS

Pia com louça suja

Um dos efluentes mais problemáticos lançados nas redes coletoras de esgotos são aqueles gerados nas pias das cozinhas, onde a água usada na lavagem de pratos, panelas, talheres e demais utensílios retira tanto os restos de comida quanto os resíduos de óleo e de gordura. O problema aumenta muito quando o óleo usado na fritura de alimentos é indevidamente jogado na pia da cozinha – um litro de óleo é suficiente para contaminar até 25 mil litros de água, pois ele forma uma finíssima película flutuante.

Duas providências são essenciais: não descartar em hipótese nenhuma óleo usado na pia e deve-se instalar uma caixa de gordura na tubulação de saída da pia. Essa caixa tem a função de filtrar e reter os resíduos de gordura presentes na água. Óleo e gordura lançados na rede de esgotos causam dois problemas principais:

Primeiro: Durante o processo de tratamento dos esgotos na ETE (Estação de Tratamento de Esgotos), o acúmulo do óleo trazido pelos efluentes pode provocar entupimentos nos filtros e tubulações, levando à paralisações frequentes da operação da ETE para limpeza, sendo necessário o uso de produtos químicos desengordurantes. Em alguns casos extremos, segundo estudos de empresas de saneamento básico, a somatória de todos esses procedimentos pode encarecer o processo de tratamento dos esgotos em até 50%; esse custo extra fatalmente será repassado para as contas de água dos clientes.

Segundo: Em contato com a água fria, parte do óleo solidifica e se transforma numa gordura que gruda nas paredes das tubulações, podendo provocar entupimentos da rede coletora; empresas de saneamento básico relatam que muitos dos entupimentos de redes de esgotos estão ligados direta ou indiretamente a acúmulos de gordura nas redes. Para ter-se uma ideia do volume dessa gordura, uma família média pode lançar de 1 a 2 kg (a depender dos seus hábitos alimentares) de gordura a cada mês na rede coletora de esgotos.

Porém, o maior problema criado pela presença de gordura nas redes de esgotos está ligado a um dos vetores de doenças dos mais repugnantes – as baratas. A gordura das paredes das tubulações é um verdadeiro banquete para as baratas que, com a fartura de comida, se multiplicam sem controle e invadem as ruas e residências, podendo contaminar alimentos e utensílios domésticos com dezenas de vírus e patógenos presentes nos efluentes dos esgotos. Alguns predadores naturais das baratas – como os escorpiões, podem ter suas populações aumentadas graças à fartura de alimentos, o que poderá resultar em picadas e ataques acidentais – o veneno da picada de algumas espécies pode ser letal para uma criança pequena. Adiantando o assunto, os restos de entulhos e resíduos sólidos da construção civil, comumente descartados em terrenos baldios, formam o habitat ideal para a instalação de prósperas colônias de escorpiões.

Perceba neste post como os problemas do saneamento básico estão interligados: a água tratada é usada na lavagem de pratos e panelas na cozinha; o esgoto gerado carrega o óleo e os restos de gordura para as tubulações de esgotos; os resíduos de gordura alimentam as baratas; por fim, resíduos sólidos da construção civil abrigam escorpiões que se alimentam das baratas criadas em nossos esgotos – mais didático do que isso, impossível…

A caixa de gordura é um dispositivo muito simples, que instalado na tubulação de saída da pia da cozinha retém os resíduos de óleo e de gordura, que ficam acumulados numa câmara – periodicamente, essa câmara deve ser limpa pelos moradores do imóvel (observe aqui que parte da responsabilidade pelo tratamento dos esgotos é dos cidadãos) e a gordura removida dever ser descartada junto do lixo doméstico (na embalagem do lixo úmido).

Na próxima vez que você se deparar com uma barata correndo pelo piso da sua cozinha, pense que ela só está ali por que você a convidou para jantar no fast food da tubulação de esgotos da sua casa…

Para saber mais:

Esgoto Sanitário: que trem é esse sô?

ÁGUAS CINZAS + ÁGUAS NEGRAS = ESGOTOS

Reuso de água

Quando comecei a trabalhar em obras de redes coletoras de esgoto em 2007, uma das minhas primeiras dúvidas foi sobre o uso da palavra esgotos no plural. Depois de consultar muitos profissionais, finalmente obtive de um professor aposentado de hidráulica uma resposta convincente (podem até existir outras respostas): as águas servidas de um imóvel não são homogêneas e elas são classificadas de acordo com a fonte geradora; são divididas basicamente em águas cinzas e águas negras – somadas essas duas águas temos os esgotos.

Águas Cinzas: A maior parte das águas servidas em um imóvel apresenta um nível de contaminação baixo: água usada em banhos, nas pias de banheiros e lavabos e também dos tanques de lavar e da saída da lavadora de roupas – são chamadas de águas cinzas. Redes hidráulicas de modernas edificações utilizam uma tubulação de esgoto independente para o armazenamento temporário dessas águas para usos menos nobres como a alimentação das descargas de vasos sanitários, mictórios, lavagem de pisos e regas de jardins, usos que não justificam o uso de água limpa e tratada. Essa água passa por um sistema de filtragem e de tratamento básico antes de ser bombeada para um reservatório de águas cinzas no alto da edificação, a partir do qual é distribuída por rede própria para os pontos de uso.

Águas negras: Recebem essa denominação os efluentes com altos níveis de contaminação, especialmente os esgotos do vaso sanitário, pias de cozinhas e mictórios. Esse efluente é encaminhado diretamente para a rede coletora de esgotos e deve ser encaminhado pelo sistema para a Estação de Tratamento de Esgotos – ETE. O esgoto sólido presente nesses efluentes (as fezes e os resíduos sólidos gerados pela pia da cozinha) representam apenas 3% do volume total de esgotos de uma residência – sem a instalação de redes coletoras independentes, todo o volume de efluentes da edificação seria contaminado.

Em algumas edificações de última geração existe a separação das águas em um terceiro tipo: as águas amarelas, que são os efluentes de descargas de vasos sanitários e de mictórios com urina. Sistemas de descargas inteligentes permitem encaminhar as descargas com fezes e as descargas com urina para tubulações independentes (o sistema possui um botão para cada tipo de descarga, que quando acionado direciona o fluxo de água para a tubulação específica). O efluente com as águas amarelas passa por um sistema de filtragem e de tratamento específico (em média, 95% da urina é composta por água); a água tratada é recirculada para dentro do sistema para atender usos de água não potável, como a alimentação das descargas da edificação. A água negra é encaminhada diretamente para a rede coletoras de esgotos.

A construção de edifícios com sistemas de tubulações diferenciadas para cada tipo de efluente é uma tendência mundial e uma das pré condições para a certificação ambiental destas construções. A combinação do reuso das águas servidas da edificação com as águas pluviais captadas no telhado e armazenadas em um tanque subterrâneo (essa água também é filtrada, tratada e recirculada na edificação) pode resultar em uma economia de até 80% no consumo de água, representando um fator decisivo para a classificação da edificação como “sustentável”.

Cabe uma observação aqui, que será repetida inúmeras vezes em meus posts – água de chuva ou pluvial não é considerada esgoto (a maioria das pessoas acha que é) e não pode ser lançada nas tubulações da rede de esgotos. A água de chuva, caso não seja armazenada para reuso, deve ser encaminhada para a rede de drenagem de água pluviais, assunto que trataremos com mais detalhes no futuro.

Você provavelmente nunca deve ter olhado os esgotos a partir dessa “escala cromática”. Esse tipo de informação é fundamental para a correta gestão dos recursos hídricos e políticas de reuso da tão preciosa água.

O QUE SÃO OS ESGOTOS SANITÁRIOS?

Ponte Rio Tietê

Dentre os problemas do saneamento básico no Brasil, a falta de redes coletoras e de estações de tratamento de esgotos estão disparadas no primeiro lugar. De acordo com levantamento publicado pelo Instituto Trata Brasil, mais de 100 milhões de brasileiros não tem acesso a redes coletoras de esgotos.

Mas o que são os esgotos sanitários?

A definição mais simples diz que esgotos domésticos são as águas servidas, ou seja, as águas utilizadas nos banhos, nas lavagem de roupas, na limpeza das casas, na lavagem de louças e panelas, nas descargas dos vasos sanitários entre outros usos. Existem também os esgotos industriais resultantes dos processos de produção, que são uma categoria à parte, sobre o qual falaremos em um outra ocasião.

A geração dos esgotos é uma consequência direta do fornecimento de água potável através das redes públicas de abastecimento ou, no caso dos imóveis que não são atendidos por essas redes, das águas coletadas em poços, rios, açudes, cacimbas ou qualquer outra fonte disponível. Basicamente, cada litro de água potável que entra num imóvel deve sair na forma de um litro de esgotos (usa-se no plural – explicarei em breve) – simples assim. Apesar de ser um sistema elementar onde a entrada de água é praticamente igual à saída de esgotos, a construção de redes coletoras de esgotos é normalmente “esquecida” pelo poder público. E os números dos serviços não deixam dúvidas: enquanto o abastecimento de água tratada atende 82,5% da população brasileira, apenas 48,6% tem acesso a redes coletoras de esgotos, sendo que grande parte desses esgotos são lançados nos corpos d’água sem nenhum tipo de tratamento.

Para se ter uma ideia do tamanho do desastre ambiental dos esgotos, preste atenção neste número: em termos de volume, as capitais dos estados brasileiros lançaram juntas 1,2 bilhão de m³ de esgotos na natureza em 2013 – isso corresponde a 60% do volume de águas da Baia da Guanabara, no Rio de Janeiro (que aliás, está nas manchetes em todo o mundo por causa da poluição por lixo e esgotos, causando todo tipo de preocupação para as provas de iatismo da Olimpíada que começarão dentro de poucos dias). A foto que ilustra esse post é um exemplo dos problemas nas capitais e mostra o Rio Tietê tomado por espumas de detergentes domésticos na altura da cidade de Pirapora do Bom Jesus na Grande São Paulo, região mais rica do país e com uma das maiores coberturas de redes de coleta e de tratamento de esgotos – isso mostra o quanto falta se avançar nesse serviço.

Uma das consequências mais diretas de todo esse volume de esgotos lançado na natureza é que as fontes de água que usamos para o abastecimento de nossas cidades estão contaminadas pelos nossos próprios esgotos – como há cada vez menos fontes de água disponíveis para captação, os sistemas de abastecimento de água tem de usar volumes cada vez maiores de produtos químicos para conseguir a potabilidade dessa água, que nem sempre está nos níveis ideais (veja o post sobre o Rio Guandu). Vivemos numa espécie de círculo maluco do saneamento ambiental!

Outro aspecto muito preocupante diz respeito à saúde: segundo um estudo da Coordenação de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia da Faculdade Federal do Rio de Janeiro, cerca de 60% das internações em hospitais públicos no Brasil é de vítimas de doenças de veiculação hídrica.

Vamos colocar nossa caneca nessas águas e entender os problemas antagônicos entre o abastecimento de águas e o despejo dos esgotos no meio ambiente, e também as implicações na saúde e qualidade de vida das populações, na agricultura, na indústria, no turismo e até nas Olimpíadas…